28/12/2017

Um dia depois

Um dia depois, depois do Natal. É 26 de dezembro. Fui trabalhar normalmente como nas outras terças-feiras de rádio. Aproveitei a descida da chefe para tomarmos o elevador juntos. Elevadores fechados que talvez um dia tragam-me claustrofobia. Trabalho com possibilidades.

Ao sair do prédio, onde ocupamos recentemente o 12º andar, um acima do alcance do elevador, caminhamos pelo calor devastador da rua em pleno meio da tarde. O asfalto que reflete tudo o que há de ruim nesse horário e época do ano. Converso e concordo com a chefe sobre trânsito, o desrespeito dos veículos aos pedestres. Fico contente pelo posicionamento dela em relação a isso. É de se esperar que muitos em sua posição de empregadora discordem ou deem razão aos escondidos por trás do insufilm, do emplacamento e das rodas que podem atropelar.

É apenas o fato de falarmos sobre isso que presenciamos um carro escuro que não respeita os pedestres no que poderia ser uma travessia tranquila enquanto vem outros veículos pela rua perpendicular. É apenas o fato de continuarmos a falar sobre isso que um ciclista chega contornando pedestres sobre a calçada, sendo que havia mais espaço ao canto da rua ou da própria calçada para efetuar suas manobras.

O maior chamado de minha atenção nesta caminhada foi observar as pessoas, a grande multidão. Uma multidão menor do que em datas anteriores ao Natal. A maioria da classe média econômica comprou e serviu presentes e ceia entre a véspera e a data considerada o aniversário de Jesus Cristo. A maioria desgastou, usou e abusou do mau humor para encontrar os presentes obrigatórios nos dias anteriores. Presenciou a correria, a comparação de preços, a alta dos preços, os preços elevados dos brinquedos, a gritaria, o show de ofertas, o show de mentiras, as luzes brilhantes, o comércio estendido até mais tarde, para dar tempo do funcionário do turno mais cedo comprar na barulhenta noite, para dar tempo ao funcionário do turno mais tarde ter comprado mais cedo, para haver empregos temporários nessa época e para endossar a tese econômica de que o país vai se recuperando.

Enquanto isso, dias de tiroteio pela cidade, o centésimo homicídio chocando mais por ser o centésimo do que os motivos e execuções dos números 17, 58 ou o 92, por exemplo. Mas a economia teve uma crescente (será?), isso é importante. A televisão divulgava no início do mês a observação de que as pessoas pretendiam gastar tantos porcento a mais em presentes neste final de ano. Quem consulta, pesquisa ou fornece esses dados? E se forem somente uma pressão social para te fazer gastar um pouco mais do que havia planejado? E se o presente de Natal muitas vezes for somente uma obrigação de troca, quando não há ideia do que comprar? Quando não há dinheiro, naquele momento, para ser investido? E o 13º salário justamente nessa época, no ocupacional e ocupante Natal do simbólico décimo terceiro mês do ano?

Mas o semblante das pessoas, um dia após o apavorante Natal, era muito mais tranquilo. Havia menos disputa por espaço nas calçadas a céu aberto. A maior disputa era por caminhar o máximo possível de tempo no caminho da sombra. Não havia a concorrência por olhar roupas, por ter a atenção dos vendedores ou por entrar na fila do caixa eletrônico o quanto antes. Não havia mais essa luta que antecedia ao espírito natalino das redes sociais das ceias. Ceias do prato cheio da falsidade dessa época. Espírito natalino que dura menos do que a bateria das luzinhas das noites de dezembro [que são feitas para estragar, como bem sabemos]. Espírito que dura menos do que a iluminação da principal praça, feita somente para o objetivo de agradar às famílias na época. Esquecida em constante insegurança nos demais meses.

A grande observação foi a inversão de datas. A época do ano que antecede o Natal é seguidamente apontada como a de união, de refazer laços, de unir pessoas entre familiares e amigos. Mas o panorama capitalista do mundo das compras mostrou-me o contrário. Antes da entrega dos presentes, na luta incessante por adquiri-los, do estresse da escolha, do enfrentamento e da concorrência nas compras, na discussão da tabela de preços até o ato final de embrulhá-los, cabia o semblante mais fechado e tenso. Após a entrega desses compromissos, ao dia seguinte, o mencionado dia 26, o alívio nas pessoas era evidente. Menos sacolas que cansavam ombros e braços. Menos disputa de espaço nas lojas abarrotadas e no calor do cão que era multiplicado pela multiplicação de presenças de objetivos semelhantes. O dia 26 foi mais ameno, apesar do calor prosseguidor. Alguns pequenos estresses mais facilmente conduzidos no sentido de trocar aquela roupa que não caiu muito bem ou ficou grande ou ficou pequena, por culpa do ano todo e não somente da ceia.

É isso. Um Feliz pós-Natal a todos e todas.

19/12/2017

Capital-Ismo

Me sinto culpado pelo que tenho
E pelo que não tenho
Me sinto culpado pelo que quero ter
E pelo que os outros querem
E eu tenho
O capital
É o maior ismo
Professado
Processado
Jamais cessado

17/12/2017

Marcação Cerrada

Fui comer um torrone e fiquei com fome. Comi dois torrones e fiquei cheio, enjoado. As sutilidades das fronteiras do equilíbrio.

Fui fechar a porta do carro alheio e só encostei. Fui tentar novamente e bati forte demais para o dono não gostar.

Procurei informações suas e fui chamado de maníaco. Não procurei informações suas e fui chamado de desinteressado.


Fiz um roteiro para o programa e fui chamado de muito técnico, muito quadrado, pouco descontraído. Não fiz um roteiro para o programa e me chamaram de pouco comprometido, descompromissado.

Dei aula até o horário estabelecido e os alunos acharam careta. Liberei os alunos mais cedo e a direção não gostou.

Arrumei um emprego horrível e disseram que estou me vendendo ao sistema. Sonho com aplicações utópicas e dizem que preciso de um emprego de verdade.

Estudo uma área que gosto, mas querem que eu arrume algo que dá sustento. Estudo uma área que não gosto e dá sustento, mas dizem que preciso procurar o bem estar ao trabalho.
Leio muito, mas dizem que preciso de experiências reais. Leio pouco e dizem que preciso de mais cultura.


Chego cedo e dizem que sou muito rígido com horários. Chego um pouco tarde e acham um absurdo se atrasar nesses compromissos.

Chego cedo e não sei matar tempo ou agir com a naturalidade que esperam. Chego tarde e cobram pela minha falta de comprometimento.

Tenho apreço por você, mas você não gosta de mim. Você tem apreço por mim, mas não gosto de você.

Torço moderadamente por um time, se gabam por serem mais fanáticos do que eu. Torço fanaticamente por um time. Dizem que preciso ser mais contido e moderado.

Não faço. Reclamam que não fiz. Faço. Reclamam que não era assim.

Escreva agora. Ah, mas te falta experiência. Não escreva agora. Ah, mas estás perdendo tempo.

Exigem experiência, mas não tenho o emprego que dá experiência. Exigem o emprego, mas não tenho a experiência do emprego.

A mais clássica: tenho saúde, tenho tempo, não tenho dinheiro.
tenho saúde, tenho dinheiro, não tenho tempo.
tenho dinheiro, tenho tempo e não tenho mais saúde.


Futebol com os amigos. Chuta a gol fraco. “Mas tu não quer ganhar o jogo assim?!”. Chuta a gol forte. “Mas pra quê essa força, é só um jogo!”.

Se exibe com o objeto, produto, eletroeletrônico que tem. “Bem coisa de rico.” Não tem, não se exibe com o objeto, produto, eletroeletrônico que não tem. “Bem coisa de pobre.”

É eclético. “Ouve essas coisas que nem são música.” Não é eclético. “Devia ouvir coisas diferentes.”

Te chamo todos os dias. “Muito meloso, grudento.” Não te chamo todos os dias. “Desinteressado, não gosta de mim.”

10/12/2017

A caneta bic e rosa

Era uma caneta bic e rosa. Nada diferente de outras canetas. Canetas bic e rosas. Mas era uma caneta especial. E uma moça especial para tornar a caneta especial. Além de ser bic e rosa.

São raros os seres que conseguem terminar um lápis. Escrever com ele até a última apontada, até o último desapontamento. Até que o espaço para manuseio seja tão estreito que a caligrafia se torna uma missão praticamente impossível e, no mínimo, indelicada, dispendiosa, incômoda. Assim, o lápis se despede, aposentado de sua única, ou ao menos principal função. Geralmente, muito antes disso, muitas pontas refeitas a menos, os lápis desaparecem. Frutos da perdição. Perdidos entre vãos e chão. E vãos do chão.

Lá virão os invocadores do francês Guy Debord e a substituição malévola das mercadorias. Lá virão os invocadores do polonês Zygmunt Bauman e os apontamentos dos tempos líquidos que eram vividos e observados por ele antes de seu recente falecimento. A substituição dos lápis. A substituição das canetas. São tantos os lápis que talvez merecessem um plural. Os lápises. Mortos sem lápides. Ou talvez não mereçam mesmo um plural, pois são todos tão iguais, uns mais iguais que os outros.

Mas e a caneta rosa? Bic e rosa. A caneta era especial. Não somente pelas mãos especiais que a tocavam ou as palavras especiais que dessas ações saíam. Ou quem sabe exatamente por isso. A caneta percebia a magia em mãos, literalmente, e aceitou-se como enviada especial. Como enviada divina. A caneta anunciada pelos anjos. A caneta - bic e rosa - de fidelidade e confiança.

A caneta que não aceitava novos donos. A caneta que ameaçava tornar-se indigente. Perdida. Procurada e ainda perdida. Mas que voltava, fiel como um cão que sai de casa e reencontra os donos. Como um gato que vai e regressa; e vai e regressa. Domesticada a caneta. Precisa a caneta. Precisa seja pela precisão de sua missão ou pela necessidade que nela era depositada.

A caneta bic e rosa pulava de bolsos e bolsas. Escondia-se. Era brincalhona ou teimosa. Ou somente era introspectiva. Tanto tempo dedicado às palavras de sua dona. Queria ela, a caneta, um tempo para pensar em suas próprias palavras. Essas que não saem do papel. Essas palavras que somente as canetas pensam. Seja lá o que pensam.

E a caneta dava um jeito de fugir. E dava um jeito de voltar. Entre os vãos e o chão. E os vãos do chão. Mesmo quando a esperança de reencontrá-la fugia, a caneta dava um jeito e reaparecia. Mágica como elucidado antes.

Energias recarregadas. Funcional como antes. Talvez a caneta tirasse suas folgas sem avisar apenas para restabelecer as energias, para não trabalhar preguiçosa, não travar a tinta. A tinta rosa da caneta bic.

E teve uma longa vida a caneta. Bastante viajou. Entre bolsos, bolsas, estojos e cidades. Experimentou diferentes papeis e superfícies para espalhar sua conduzida tinta rosa. Humilde e minúsculas letras. Grandiosas mensagens. E escreveu provas, notas e cartas.

E só não escreveu só porque, desde o início, aceitou sua missão. Com devoção, apreço, estima e consideração. A rebeldia domada servia apenas para dar um tempo, descansar como todos os trabalhadores e trabalhadoras devem, após suas jornadas. Ciente de que bem realizou seu trabalho.

E realizou até o último afago. Quando melancolicamente a tinta tossiu, tossiu e engasgou. As últimas letras fraquejadas, legíveis a quem escreveu e talvez impotentes demais aos demais leitores. Assim se despedia a caneta rosa. Bic e rosa.

Diferente dos lápis sem plural e sem lápides, esta merecia todo um cerimonial. Receberia os rituais respeitosos das mais distintas religiosidades antes da condução celestial das primeiras mãos diferentes que a tocavam, as mãos angelicais que a conduziam ao paraíso ou para onde quer que seja.

O seu coração, a sua carga tivera a parada e o cessar definitivos. Porém o tubo ainda estava intacto e poderia ser adaptado, reaproveitado, reciclado, reutilizado, em renascença. Nessa espécie de doação de órgãos autorizada por sua dona, a caneta bic e rosa permanecia a contar histórias. Readaptada, recarregada, reabastecida. Ainda fugidia e rebelde, mas reaparecida como sugeria a lenda. A lenda da caneta bic e rosa.

04/12/2017

"A morte não é o oposto da vida, mas um acontecimento complementar que a define. O homem, como vida, é um ser para a morte. Refletir sobre esta é lançar luz sobre o viver e a natureza íntima das coisas, do mundo em geral como reflexo especular da Vontade, mero ímpeto cego para a existência. Daí poder-se dizer: a morte é a "musa" da filosofia. "dificilmente se teria filosofado" sem ela. Se o animal frui imediatamente toda a imortalidade da espécie, sem qualquer angústia diante do futuro, no homem nasceu, com a faculdade racional que o animal não possui, a certeza amedrontadora da mortalidade."
Jair Barboza (1997) sobre Metafísica do Amor, Metafísica da Morte de Arthur Schopenhauer
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam
cantemos a canção das chamas!
(Mario Quintana)
"Sim, afligia muito querer e não ter. Ou não querer e ter. Ou não querer e não ter. Ou querer e ter. Ou qualquer outra dessas combinações entre os quereres e os teres de cada um, afligia tanto."
(Caio Fernando Abreu)

ouro

o tempo corrido
atrás do ouro
o ouro louro
sua tez ouro
o tempo corroído
o ouro derretido
sua alteza
da tez ouro

19/11/2017

livros

alguns títulos de livros que pensei, algum dia, em escrever algum dia 

  • a difícil missão de colocar um sorriso entre as suíças
  • o empírico de um homem incompletamente idiota
  • masturbação mental no banho
  • o sono embriaga?
  • catarros e catarses
  • todo dia interpretando máscaras, nenhum dia com bhaskara
  • o esquimó esquisito
  • vai te catarse
  • pecuarista das peculiaridades
  • não existe agricultor de uma noite

com trastes

A timeline das redes sociais é uma situação inexplicável. Nada comparável nos tempos anteriores e a cada novo dia, novidades. Ampliam-se os vídeos, as fotografias, as confusões. Os posts dos assuntos mais variados possíveis das pessoas mais variadas possíveis, com os posicionamentos e os dizeres mais variados possíveis. Do veterinário, da estudante, mulher reconhecidamente feminista, do esportista, da esportista, dos jornalistas, dos críticos ao jornalismo, dos jornalistas críticos ao jornalismo, das artistas, do que pensa que um político só vai salvar o país, de quem acredita nos coletivos, daquela tia que só quer compartilhar as imagens dos animaizinhos e das plantinhas... Enfim.
Nascem estas linhas através de uma curiosa coincidência, ou mais uma montagem tecnológica previamente programada. Mas eles (nem sempre) passam despercebidos por mim. Enquanto um post vocifera violentamente que temos um país onde é mais importante gritar gol do que reclamar uma injustiça, com a legenda aqui copiada: "Um país de COVARDES, OMISSOS e ALIENADOS onde encher um estádio é mais importante do que encher as ruas para derrubar este sistema falido e corrupto". 
Abaixo, uma postagem em outro caráter, bem mais leve. A manchete é a seguinte: "Por que um estádio inteiro acena para um hospital infantil durante seus jogos". Isso indica a participação do público e dos jogadores em prol desse hospital infantil em jogos de futebol americano realizados em uma cidade dos Estados Unidos.
A diferença entre o primeiro agressivo post e o segundo eram de três postagens entre elas. Me chamou bastante atenção. A discussão sobre covardia, omissão e alienação baseada somente no esporte é bastante oportunista. Aqui, nem há porque tecer o argumento baseado que o esporte é capacitador de grandes transformações sociais na vida de muita gente. Obviamente é. Ao mesmo tempo, talvez a vociferação e a crítica do post seja exatamente pela forma como o esporte-espetáculo, no mais alto rendimento, cega parte da população para tantos outros problemas e por tanto tempo de suas vidas, em um grau de relevância suprema.
Para além da ferramenta do esporte-espetáculo poder gerar tantos "covardes, omissões e alienados" (sem mais necessidade de caixa alta como estava no post, porque aqui ninguém é surdo), tantas outras ferramentas poderiam ser ingressadas nessa análise. A televisão constitui suas grades basicamente nas programações empreendedoras, nos sonhos realizados no assistencialismo, shows e espetáculos, shows e espetáculos. Tem muita gente se queimando na fogueira e muito pouca gente se dando muito bem, traz a música Tribos e Tribunais dos Engenheiros do Hawaii. Pois há muita gente queimando nas fogueiras e muito pouca gente ganhando programações da televisão e iludindo milhões de pessoas com os mesmos sonhos e expectativas grandiloquentes, completamente fora de suas realidades do dia a dia.
É verdade que as ilusões do esporte-espetáculo também estejam presentes e entende-se que nele existe a segregação de quem o acompanha ou não o acompanha, nas condições de acesso, ingresso e compras de programas pay-per-view. Assim como são moldadas as formas mais elitistas de cultura nas grandes cidades.
Escrachar o exemplo esportivo como o negativo ou talvez a causa das (mais uma vez) covardias, omissões e alienações, é uma crítica bastante limitada. A própria produção jornalística conservadora contribui nisso. Eles querem que o povo escolha os alvos de suas revoltas pela situação do país, mas somente alvos indicados por eles. Nada que mude o panorama completo das situações.
Vociferar contra um político ou partido político. Vociferar contra um caso de invenção de pedofilia e nem sequer dar bola para outros casos muito mais reais e acostumados a serem tratados como corriqueiros. Vociferar contra um único jornalista ao atacá-lo como racista e não enxergar a situação geral do racismo no país, persistente e tantas vezes velado no dia a dia das produções jornalísticas, nos assuntos abordados. Acusar que um ou outro negro, uma ou outra negra artista, celebridade, use seu espaço midiático para promover o que eles chamam de vitimização, mas não entender a causa, a representatividade, as estatísticas.
Vociferar contra um esporte, contra um jogo, sem entender o contexto das demais formas de transmitir espetáculo, sem entender a positividade que o próprio evento possa causar. Como o apoio, a retribuição em gestos e, tão logo, financeira ao hospital infantil ali citado.

14/11/2017

embora

3 horas e doze
já fosse?
onde agora estou
já foi?
embora a dose
de quem tomou
embora a dor de
quem sentiu

pesando

estive pensando
pensando em ti
vi-me pensando
atrevi-me
pensando
através
da vitrine
dos meus
memorandos
estive
em ti...
pensando

detalhes

meu amor
tudo é por detalhe
por que ouvidos
se não te cales
por que pernas
si no hay calles
por que penas
se não voares?

siempre lo mismo

eu escrevo
preso às amarras
às falas do jornalismo
preso às taras
do consumismo
preso ao emprego
que quiere
siempre lo mismo

Lembranças confundidas, confusões lembradas

Chegou como um raio ao cortar a conversa. Eu me afastei do pessoal com quem havia chegado anteriormente e conversava com outras pessoas. E o ser alcoolizado se fez presente, tomando conta do assunto. Àquela hora da madrugada é comum que aconteçam tais episódios, incomuns para as horas de sol ou para os primeiros momentos da noite. Um homem moreno, cabelo raspado, mais velho do que nós. Dos 30 aos 40 anos, qualquer idade poderia ser a dele. Em algum instante ele confessou seu nome, porém, com crise memorial que torna a minha pior do que supostamente a dele, não sei aqui reproduzir a escolha publicada em sua certidão de nascimento.

Chegou tomando conta e se anunciando. Minto. Chegou reconhecendo minha pessoa. Eu sem reconhecer a dele. "Eu te conheço!", exclamação e alarde. Chamou a atenção dos que estavam próximos. Fez meu cérebro dar voltas em busca das memórias que poderiam ser reais daquele personagem. Não as encontrei. Não estávamos sintonizados na mesma frequência.

Perguntou onde eu morava. Indiquei meu bairro Areal. "Mas onde tu estuda?". Estudei naquele mesmo bairro Porto. Meus quatro anos de curso, de graduação. "E qual ônibus tu pegava?". Tinha o da igreja batizada popularmente como cabeluda, a Catedral do Redentor, no nome oficial, rua 15 de Novembro, no Centro. Mas ele insistiu que eu utilizava mais o Benjamin Cohabpel. E de fato utilizei algumas escassas vezes em que subia no início da Andrade Neves, para subir ao Centro e posteriormente ao Porto.

Foi então que devolvi as interrogações para ele. Revelou ser cobrador de ônibus. Revelou mais do que perguntei, como é comum aos seres boêmios. Como é comum aos seres fora de seus ambientes de trabalho, livres da retaliação das regras, das normas de conduta, da fiscalização opressora, das medidas que o enquadram. Revelou que lembrava de mim dessas ocasiões. Falou em salário e concordamos - todos, contando com o amigo que permanecia fiel à espera de retomarmos nosso papo, em meio ao inicialmente importuno do espalhafatoso sujeito - que muitas pessoas formadas na Universidade ou com outras formações não atingiam tais empregos hoje em dia. A situação do país realmente é degradante e deprimente. Ampliam-se os moradores de rua nos caminhos por onde caminho, quando ignoro as paradas de ônibus e resolvo andar pelas ruas.

Tive que me despedir dele logo depois, para não perder a perigosa caminhada da madrugada com as pessoas com as quais cheguei. Cuidado redobrado aos assaltos daquele horário. Nem todos são cobradores de ônibus. Nem todos são honestos. Nem todos aceitam as condições trabalhistas do dia a dia. Quantas vezes será que o ônibus dele já foi assaltado? Naquele mesmo domingo que vinha adjunto à noite de sábado, a tarifa do transporte público na cidade subiu para 3 reais com 35 centavos. Centavos que jamais me acompanham no bolso. Assim, eu incomodo os cobradores em busca de troco. Talvez por isso lembrem de mim.

A situação do país é dolorosa a seus habitantes e obriga muitos (quem sabe também àquele sujeito?) a beber.

12/11/2017

Lixo e Purpurina - Caio Fernando Abreu

31 de janeiro

“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.

Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”

Trecho do livro Ovelhas Negras. L&PM Pocket.

11/11/2017

Piscinas e Bonés

Um sujeito, meia idade, maletas em mão. Ele conserta piscinas. Conserta consertos. Deve consertar muita coisa. Dessa vez veio verificar os encanamentos da piscina, evitar vazamentos, liberar o fluxo ligado ao motor. Mas será que ele toma banho em piscinas? Obviamente que os que pagam pelo serviço não o convidam. É apenas uma prestação de serviços. Não é uma amizade. Mas será que ele tem piscina na casa dele?

Traz o filho para ajudar. Um garoto. Garoto novo. Boné para frente. Maletinhas nas mãos. Disposto a ajudar. Acostumado assim. Olhar prestativo. Boné para frente, nada de aba reta (ainda). Não para trás (ainda). Como será seu futuro? Força nos estudos? Estudar para ir onde? Vai consertar piscinas? Vai ter uma piscina quando crescer e tiver seu emprego com carteira de trabalho? Acostumado a ver piscinas desde pequeno, eu gostaria de uma piscina.

Piscinas dão trabalho. Troca de água, motor, limpeza. Cloro, retirar insetos, folhas. Encanamentos. Consertos. Verão. O verão gaúcho é curto. Três meses se der sorte. Às vezes com noites frias que afugentam o calor para água da piscina no dia seguinte. Uns dias de piscina antes do Natal. Janeiro sempre funciona, mas se tu quiseres tirar uns dias de férias em outra cidade, em uma praia, perde os melhores dias da piscina. A piscina ali. Aprisionada. Aprisionando. A piscina ali. Do conserto do senhor de meia idade e seu provável filho.

O verão é curto. Fevereiro é um mês mais curto. Quando vê já passou. E recomeço a caminhada do demorado outono. Com a piscina ali. Esquecida. Mas exigindo trabalho. Como uma filha. Como um bicho de estimação. Trocar água, motor, limpeza, cloro. Não deixar os mosquitos ou outros insetos tomarem conta.

Qual será o futuro do garoto? Nem me questiono em relação a ter ou não ter uma piscina. São belas, sim, as piscinas. Para alguns dias, sobretudo nas nossas condições climáticas. Subtropicália. Mas qual o seu futuro no mundo? Até onde, até quando vai esse olhar de acompanhamento ao pai. Trabalhar. Acompanhá-lo no trabalho. Desbravar o mundo. Querer ser dono de seu destino. Tarefa difícil.

Talvez se acostume desde cedo. Nesse ritmo. Ensinado pelo pai. Trabalho. Ferramentas. Trabalho. Transporte até chegar às casas. Realizar os consertos. Grana. Guardar direitinho no bolso. Um refrigerante, um suco gelado. Ah, isso é vida. Poupar. Guardar para uma nova ocasião. Calcular. Contas a pagar. Desvios.

Atalhos que parecem bons. Cuidado. Me parece um bom rapaz, o pai. Mas quem pode saber? Várias variáveis. Várias teorias. Por agora, é esperar a cola secar. Parece estar pronto. A piscina está ok. Quanto lhe devo? Ok. Um bom verão a vocês. Pra vocês também. Guarda direitinho no bolso. Que tal um refrigerante, um suco gelado? Isso é vida. Ia dar uns cascudos no seu cabelo. Está de boné. Não de aba reta (ainda). Nem virado para trás (ainda). No rumo certo (espero).

10/11/2017

toc toc

toc toc
- quem é?
- sou eu
- e o que quer?
- um poema
- à essa hora?
- é problema?
- e se for?
- aí passa a ser meu
- o problema?
- o poema

Como vai?

Colocar a arma contra o céu da boca e puxar o gatilho é uma péssima ideia.

Péssima ideia com quem vai limpar depois.

Há outras formas mais limpas e menos trabalhosas para quem vier à cena depois.

A bem da verdade, existem seis mil formas de morrer. Bem mais. Bem mais.

Escolher uma especificamente para o momento derradeiro é muita vaidade.

Se Deus domina todos os momentos e destinos, então pode ser somente um sujeito sádico a encontrar meios de moldar o nosso fim da linha.

E, assim sendo ou não, que Deus me perdoe por brincar jocoso com essas brincadeiras de vida e morte.

09/11/2017

Gado

A população toda como um grande rebanho. Gado. Gado por toda parte. O ser humano é a única forma de gado que se preocupa com o próprio umbigo. Desculpem minha grosseria. Como vão vocês? Vão bem? Que bom. O ser humano é a única forma de gado que se preocupa com o próprio umbigo, enquanto as formas originais de gado, que nos emprestam nome à metáfora, apenas ruminam e cagam o capim nesse ciclo.

Alguns dos gados são melhores do que os outros. Ao serem melhores, estão preocupados em conservarem-se melhores do que os outros. Estão preocupados com sua imagem e semelhança. Gados que não se ajudam e nem vão se ajudar. Não há esperança de deixar de serem gado. Livres e do outro lado do cercado, que diabos além de gado poderão ser?

As mudanças da composição do país nos últimos três anos são absolutamente ridículas. Me surpreendam ao encontrarem a esperança nos confins das prateleiras distantes. Tragam-me. Tragam-me a esperança e irei verificar o prazo de validade.

04/11/2017

Coincividas

Concordar com meus escritores sem tê-los lido - ou ao ler - me traz uma paz e uma saciabilidade momentâneas.

28/10/2017

Pílulas do Otimismo

A indústria farmacêutica manjava de arrumar soluções - primeiro para eles, depois para os potenciais clientes. Ou ao menos vendia a imagem de que arrumava soluções. Claro, os efeitos colaterais surgiam, mas o que poderiam ser quando comparados aos benefícios das medicações? Eram tratamentos para praticamente tudo. E, não tão futuramente, acreditavam ter os tratamentos para exatamente tudo.

Uma das maiores novidades apresentadas foram as pílulas para contrair otimismo. Os relações públicas e os palestrantes viviam falando que faltava otimismo, faltava determinação, faltava força de vontade para o trabalho fluir. Aquele papo de trabalho em equipe, de confiança no próximo, de acreditar no produto final e na união do time. Pois bem, a indústria farmacêutica, que de surdez não morreria, ouviu atenta para formular algo a respeito.

Lá estava a resposta: as pílulas de otimismo. Sucesso logo quando anunciadas no Ministério da Saúde, as pílulas entraram em circulação e estavam entre os produtos mais vendidos. Dizem os especialistas do ramo que muitas das farmácias criadas no período - e era fácil observar uma farmácia a cada duas quadras, pelo menos - foram graças ao invento. Os detentores da ideia não tinham mais onde depositar dinheiro, viviam anonimamente. Conforme está nas primeiras linhas do texto, eles primeiro resolveram a deles e os clientes agora buscavam resolver suas condições trabalhistas, com mais otimismo, com mais esperança.

Tudo parecia funcionar de forma fantástica. Melhoras econômicas, melhores rendimentos, funcionários e funcionárias, motoristas, pais e mães de famílias mais confortáveis e apreciadores do tempo futuro. Porém, o tempo futuro vinha e nem sempre a dose de otimismo adiantava. Uns entraram em ciclo vicioso, aumentaram a quantidade do que consumiam. As tabelas mostravam índices alarmantes de usuários. 7 a cada 10 adultos.

As crianças também não escaparam dessa epidemia. Os pais achavam que elas precisavam acreditar mais na escola, ter foco para um melhor futuro, boas notas, para um bom vestibular futuro, uma boa carreira... As pílulas infantis foram criadas. 4 a cada 10 crianças tomavam. Houve pais que extrapolaram e fizeram seus filhos consumir as de uso adulto, para antecipar suas expectativas, fortalecer os pequenos rumo à puberdade e a formação para o mercado.

Mas o que se falava sobre efeitos colaterais? Daí que as pessoas pensavam não estar otimistas o bastante. O efeito contrário deixava algumas pessimistas. A confusão mental era gigantesca. As farmácias seguiam vendendo, muito bem, obrigado. O ramo da psicologia também agradeceu. Dobravam o número de clientes. Os divãs estavam lotados. Faltava horário, multiplicaram as vagas para psicólogos nas universidades. Não davam conta. Da demanda e dos problemas neurológicos. É coisa para psiquiatra.

E os psiquiatras também não resolviam. As pessoas não conseguiam passar 24 horas sem a pílula. Ok, normal. Mas não conseguiam mais passar um turno sem a pílula. Uma refeição sem a pílula. Questionados sobre esse agravante, a assessoria da indústria farmacológica responsável não quis gravar entrevista. O telefone dos donos não atendeu nem ao centésimo terceiro toque. Testemunhas afirmam que os viram em alguma praia da Grécia...

Esperanças de Pagamento

Era um novo teste econômico. Uma ideia que precisavam maturar. Se desse certo no país, poderiam expandir para todo o mundo. A ideia era não mais trabalhar com o dinheiro vivo, as cédulas, as moedas. Não. Isso era coisa do passado. Também o saldo bancário, virar vírgulas e zeros para indicar o que temos a oferecer em troca de mercadorias ou prestação de serviços, já estava ultrapassado. Esse modelo resultou em vários dos problemas do mundo enfrentados na atualidade. O novo sistema monetário estava em vigor.

O garçom ainda não estava bem atualizado no primeiro dia de validação.

- Vai pagar a débito ou crédito?

- Em acreditos.

A esperança era a nova forma de pagamento. Cada vez que o ser consumia alguma mercadoria ou ganhava na prestação de serviços, devia depositar algo da sua esperança. Obviamente, até o dia cinco de cada mês, a empresa deveria depositar novas esperanças. O salário do indivíduo.

Nas ruas, tornara-se comum os pais dizerem aos filhos para negar uma compra supérflua.

- Isso vai me custar muitas esperanças.

A bem da verdade, havia muito em comum entre os consumos e a forma de pagamento. Havia sempre a esperança pelo corte de cabelo no barbeiro ficar boa. Havia a esperança de uma boa refeição. Havia a esperança de ficar bem com aquela roupa ou aquele sapato. Havia a esperança de realizar um café da manhã como ocorriam nas propagandas de margarina. Havia a esperança na contratação de um novo jogador ao time. Havia a esperança de conforto, imponência e boas viagens através de um novo carro.

Tudo continuava fluindo. Para os economistas, especialistas em traduzir a situação como os convém e como convém a seus donos, para eles estava ótimo. O país caminhava às mil maravilhas. A situação econômica era favorável em relação à antiga forma de pagamento. Era mais difícil clonar as esperanças. Caiu o número de cheques sem fundo. O número de devedores diminuía, segundo eles.

Mas não tardou para vir a primeira crise financeira. O país apertou os cintos. Cortou verbas de setores que justamente avançavam na produção de esperanças: a saúde e a educação. Sem saúde, como poderia haver esperança? Sem educação, qual a perspectiva de esperança para o futuro? O governo agiu mal nos cortes. Mesmo assim, os economistas seguiam a justificar esse modus operandi.

Não demorou para alguns ficarem definitivamente sem esperanças. Não tinham como pagar aluguel. Não tinham como pagar ensino aos filhos e o ensino público estava quebrado de esperanças. Muitas greves, professores, igualmente sem esperanças, saíam às ruas para protestar.

É claro que alguns, no topo da pirâmide formada por poucos, tinham contas e contas de esperança. Entre eles, não seria de se espantar que houvesse esperançosas contas abertas na Suíça, por exemplo.

Não havia esperança nas ruas. Mas nas ruas se acumulavam aqueles que estavam sem esperanças. Era onde podiam dormir. Alguns, sem a forma de pagamento que era obrigatória e sem o sentido figurado, o antigo significado das esperanças, nada mais viam como solução. Sem esperança, antecipavam suas mortes.

Finalmente o povo entendeu o lado dos professores e resolveu se unir para combater o caos no país. Foram protestar conjuntamente. O cartaz mais trazia a seguinte mensagem: - o governo roubou nossa esperança.

25/10/2017

shoppings e ar condicionado

shoppings e ar condicionado (que ainda são completantes e não excludentes) transformaram aos poucos todos os lugares no mesmo

shopping é tudo igual as cores as mentiras os sorrisos falsos as crianças gritando os pais de olho nos manequins os estoquistas escondidos

as marcas supervalorizadas aquele carro brilhoso pra quem colocar o nome no cupom pra concorrer ao sorteio as tias tristes limpando bandejas

indicadores apontando funcionários obedientes uniforme portas e sorrisos automáticos

22/10/2017

sem pressa (e pra sempre)

me interessei
pela história de uma pessoa
dessa outra
outra boa
e mais essa
com tempo a ser ouvida
a história interessa?
um tempo para vida
vivida sem pressa

dúvidas

será
será que você está lendo
eu esquecendo
a pontuação
a ponte
e a ação
muitas vezes estando
algumas sendo
levando o gerúndio
indo e vindo e ando
e às vezes do endo

Porteiras

há pessoas mais belas
sem a oportunidade que tive
exatamente por ter
que eu não me esquive
da oportunidade de ser

Unhas encravadas

unhas encravadas
levam a sério o dito
união entre unha e carne
até ficarem travadas
num relacionamento sem charme

Chove

chove
comoção para quem esqueceu
o guarda-chuva
mas quem
move a mão
em gesto de ajuda?

20/10/2017

stand by

sou um fracasso em modo stand by pra não fracassar de vez só no aguardo pra hora de não ter mais o que fazer

açoites

açoite e noite
são das poucas
palavras que rimam
e achamos pouco
poucas rimam com noite
porque são muitos
açoites
açoites
açoites

novos velhinhos

a gente sonha tanta coisa e de repente deveria ser como os velhinhos que sorriem ter um bingo pra jogar no domingo
ter um xadrez pra jogar na praça duas pernas duas sandálias pra driblar as calçadas falhadas e gastas
umas sacolas de feira uma cadeira de balanço e um cachimbo de madeira

19/10/2017

A day in a life

A day in a life, canção dos Beatles, música que atravessa, transcende décadas com as características imutáveis (de não mudarem e não permitirem o volume no mudo) do que se considera um clássico, seria trilha sonora emprestada ao nosso programa de rádio desta quinta-feira. Eu observei no roteiro que aparecia visualmente a todos que estavam escalados para disponibilizar informações e opiniões aos apenas ouvintes. Não houve tempo, porque o debate foi estendido pelo Campeonato Brasileiro da Série A, após o empate entre o líder Corinthians e o vice-líder Grêmio. Apenas Billie Jean, do Michael Jackson, ecoou pelas ondas do FM na primeira pausa do programa. A segunda pausa, portanto, foi definitiva para o encerramento da tarde de programação esportiva.

Caminhei algumas quadras no maior movimento transeunte de pedestres pelo centro na agradável companhia do comentarista Gustavo, mesmo nome de meu grande amigo dos últimos tempos. Ele seguiu rua abaixo em direção à sua parada de ônibus para o Fragata enquanto eu tinha longa caminhada de volta ao bairro Areal.

Vario um pouco meus trajetos, mas tenho minhas preferências em ruas. Shape of you, do cantor Ed Sheeran, parece a música mais tocada no oferecimento da indústria cultural em meus fones. Sintonizado pelas rádios que tocam as populares de cada época, essa canção tem sido uma constante. Absorvo algumas frases no que meu entendimento permite. Acredito que tenha bastantes traços de amor, assunto imortal, embora mutável (de mudar e de permitir o som mudo ao que não queremos ouvir).

Tenho 22 anos e praticamente no hablo inglés. Passo por um bar autodenominado como um bolicho, onde há sempre trabalhadores em seus fins de expediente, gente que deve estar a folhar classificados à procura de empregos nesses difíceis tempos. 36, se não me engano, é o número de novas demissões para o porto da cidade, um dos projetos que movimentava a economia local e novamente traz decepção aos antes empregados e estáveis trabalhadores. Não é um baque tão imenso quanto o ocorrido na cidade vizinha, Rio Grande, há alguns anos, mas mesmo assim desemprega pais de família, pessoas com poucas habilitações a novos cargos e batalhadoras desses cotidianos severos e insensíveis.

Passo pelo bolicho. Cervejas conhecidíssimas pelo populismo e preço barato. Ou populares exatamente pelo preço barato. Uma criança sai correndo de dentro do estabelecimento. Filha de um deles, provavelmente. Sigo pela mesma rua, quadra adiante. Estacionamento disputado, vagas acirradas e limitadas para uma padaria bem quista. Segurança de esquina em olhar atento. Tentar parecer gentil com esses profissionais não é promessa de reciprocidade. Trabalham para não sorrirem. É o contrário de animadores de plateia, humoristas, atores de comédia. Nenhum sorriso. Ao menos que o sujeito vá e volte àquela padaria umas 82 vezes. Em número menor aos mais simpáticos. Em número maior para mim e alguns outros.

Adiante, há um restaurante que parece bastante acolhedor. Há sempre pessoas jovens e bonitas. Se há alguém entre o espaço da calçada e após a parede de vidro, é gente jovem e bonita. Nunca estive lá. Me imagino não indo. Me imagino não levando colegiais. Imagino as colegiais falando de garotos. Com seus trabalhos escolares pouco interessantes, dentro das mochilas escolares e aguardando para serem feitos. A idade média dos frequentadores do restaurante que nunca parei para ler o nome não deve ultrapassar os 20 anos. Como varia os horários que eu ali passo, existe a variação de gente almoçando tarde, tomando café vespertino ou degustando aperitivos antes da hora dedicada à janta. Em comum, independente do horário, o sentimento de que não me imagino ali.

Em outra crônica, contei sobre a academia que fechou e virou uma esmaltaria. Transformações do espaço urbano. Livrarias fechadas. Estacionamentos que tomam conta do que eram prédios tombados. Quanto menor o movimento nas ruas que direcionam ao meu bairro e a meu ponto final (em chegar em casa e desta crônica), todo mundo, de longe, é um potencial bandido. Quase me desculpo com alguns que eu possa ter encarado e mantido a dúvida por mais tempo. Será que desconfiam que eu desconfio? Há muita desconfiança. Transformações do espaço hormonal. Já passou, este não é um meliante. Mas e aquele próximo?

18/10/2017

Just Do It

você precisa brincar com as outras crianças
você precisa respeitar essas regras

você precisa cumprimentar essas pessoas
você precisa estudar esse estudo
você precisa se importar com essa importância
você precisa trabalhar seu trabalho
você precisa transar com outras pessoas
você precisa arranjar uma pessoa
você precisa voltar nessa fila
no mesmo dia do próximo mês
você precisa gozar
a vida
você precisa fazê-la gozar
a vida
você precisa juntar
o que conseguir
você precisa guardar
ali
você precisa morrer
antes da sua antena
desconectar
de vez

Sanduíche de nada

com fome na madrugada
isso é um problema
preciso:
de uma torrada
mas faço:
um poema

16/10/2017

Outubro

Outubro me reserva
Meus momentos titulares
Minhas lembranças ímpares
Com meus pares
Números primos
Com novos familiares

Lead

Quem morre?
Quando morre?
Morre onde?
Quem ouve
Essas perguntas
Será que socorre?
Será que responde?

Boca de Valores

Minha vida valorizou
Na bolsa de valores
Sabores que eles não entendem
Sentimentos e amores que vendem
Em sonhos capitalistas
E eu, partidarista
De ser parte ao teu lado
Esquenta meu mercado
Contra esta guerra fria
Fomenta meus indicadores sociais
E sobretudo a inestimável poesia

Poemas Órfãos

Poemas órfãos
Que eu, Pai Criador
Não os quis
Não os anotei
E os esqueci

† ✪

Onde morre um poema
Há uma nascente
De um novo esquema
De água corrente

Trincheira

Rasteja
Mas esteja
Onde hás de estar
Hasteia
Nossa bandeira
À altura
Que o mastro chegar
Trincheira
Trincheira
Trincheira
Às vezes
É o único lugar

O Canto do Castelo

Torre no canto do castelo
Ocorre um canto
Tua voz a trazê-lo
Raio de luz da garganta
Quando canta teus versos
Mais sinceros
Revelando universos
Antes imersos