16/07/2016

Curitiba em Imagens - Fotos: Henrique König












Fotos: Henrique König

Análise do texto "Que 'negro' é esse na cultura popular negra?", de Stuart Hall

Mediante as mudanças em políticas de inclusão na Europa e nos Estados Unidos durante os anos 1990, o autor jamaicano Stuart Hall propõe questionamentos presentes acerca de Que "negro" é esse na cultura popular negra?, de 1996. O estudioso da comunicação traz as indagações sobre a cultura popular e a forma como o negro é visto na sociedade.

Stuart Hall aponta para a cartada de alguns autores em evidenciar um sistema imutável, de um modo que a crítica ao modo contemporâneo exista, mas não evolua. A preocupação do autor é que a tomada de consciência e as críticas feitas consigam avançar em soluções aos grupos não hegemônicos. Ele aborda que "o que substitui a invisibilidade é um tipo de visibilidade segregada, que é cuidadosamente regulada" (HALL, 2003).

Hall também demonstra atenção aos contrários às mudanças sociais, centrados, reunidos em políticas conservadoras. Nessa geração de conflito, há o ataque direto de quem deseja a manutenção da hegemonia, do nacionalismo como pilar, por exemplo.

Em relação à segregação de uma cultura de elite e uma popular, Hall cita Peter Stallybrass e Allon White sobre o mapeamento do alto e o baixo em formas psíquicas, no corpo humano, no espaço e na ordem social. O autor jamaicano problematiza a questão da cultura negra popular como "um espaço contraditório". Isto porque defende que ela não pode ser reduzida a uma oposição do baixo versus o alto, do informal versus o formal, de ser a oposição versus a homogeneização. As definições binárias não bastariam, pois existe uma grande complexidade sobre seu leque de manifestações. Hall crê essencial a contextualização histórica e cultural.

"O momento essencializante é vulnerável porque naturaliza e desistoriciza a diferença, confunde o que é histórico e cultural com o que é natural, biológico e genético. No momento em que o siginificado 'negro' é arrancado de seu encaixe histórico, cultural e político, e é alojado em uma categoria racil biologicamente constituída, nós valorizamos, pela inversão, a própria base do racismo que estamos tentando desconstruir". (HALL, 2003)

Hall também considera fundamental mapear as diferenças dentro da cultura negra. Somente assim caminha-se para um nível satisfatório de análise. Não satisfaz apenas diferenciar o negro de outras formas de cultura, mas é necessário estabelecer as diferenças entre gênero, sexualidade e classe, por exemplo.

Justamente com esse ponto em debate, Hall encerra Que “negro” é esse na cultura negra? Reduzir a questão da identidade negra pe desvalorizar diversos fatores que atravessam diretamente o processo cultural, histórico e social onde estão os indivíduos.

As mulheres negras podem combater o racismo ao mesmo tempo que são diferentes suas posições na sociedade em relação aos homens negros. Entre os homens negros, difere-se o tratamento social em relação aos hetero e aos homossexuais. Há, sem dúvida alguma, a distinção de classes entre indivíduos, como na questão financeira.

Um caso interessante a ser explicitado é o do rapper Gustavo Black Alien. Na infância, o fluminense morou em Niterói, em contato com uma população de maior poder aquisitivo. Era visto como diferente, pois era um negro em um cenário de predominância de brancos, mais ainda do que a divisão étnica da atualidade.

Ao mesmo tempo, Black Alien visitava a parte mais pobre da família, na cidade de seu nascimento, São Gonçalo. Desta maneira, mesmo entre negros, o preconceito existia, pois não era da mesma classe econômica dos demais. Sempre estudou em boas escolas e aprendeu inglês antes dos 12 anos, situação distante para grande maioria dos negros e pobres do Rio de Janeiro durante os anos 1980.

Outro exemplo é o funk e sua problematização enquanto movimento cultural. A origem do funk remete aos Estados Unidos, quando o termo era utilizado por negros estadunidenses, para designar odores corporais durante as relações sexuais.

"Foi por volta de 1968 que a gíria “funky” perdeu  seu significado pejorativo e passou a remeter seu sentido a algo como orgulho negro. Assim, conforme apresenta Hermano Vianna, tudo pode ser funky: uma roupa, um bairro da cidade, o jeito de andar e uma forma de tocar música que ficou conhecida como funk" (VIANA, 1988, p. 20).

O movimento funk, quanto à sua chegada ao Brasil e, principalmente, por sua disseminação até os dias atuais, perde característica inicial de movimento exclusivamente negro, embora continue construído em sua maioria como um movimento periférico, marginal na sociedade. Mas nem a este ponto deseja-se chegar na exemplificação. Uma das questões remetentes ao funk é o debate entre o machismo que muitas vezes é presenciado nas letras.

Mais um ponto complexo dentre os já observados no texto de Hall e que pode-se trazer à tona. Neste presente trabalho, como apenas um parênteses aberto como exemplificação, fica a citação do teórico Bertold Brecht:  "Primeiro vem o estômago, depois a moral". Na interpretação de que o funk, de elementos das comunidades carentes e da sociedade em geral, onde está inserido, traz letras com o machismo presente, mas, ao mesmo tempo, onde caberia uma moral de julgar compositores que apresentam trajetórias de violência, baixa escolaridade e falta de instrução, quando buscam sustento das poucas formas que os são possíveis? Fica o questionamento.

De modo conclusivo à presente análise, observa-se a complexidade do tema inserido em Que "negro" é esse na cultura popular negra?, quando o próprio Stuart Hall questiona o tratamento às minorias feito pela sociedade, pela comunicação e autores que abordam tão polêmicos assuntos.

Passadas duas décadas desde o texto de Hall, de 1996, os cuidados nas abordagens permanecem e se ramificam conforme o avanço nos estudos de comunicação, antropologia, sociologia, psicologia e outras áreas. Uma possibilidade de cruzar teorias com as propostas de Stuart são os trabalhos voltados à temática de gênero, em conceito e descontrução, da estadunidense Judith Butler.

Visto que a temática da identidade negra passa por atravessamentos de gênero, classe e outros aspectos, o que fica notável é a impossibilidade de uma unificação dos indivíduos de etnia negra em uma concepção, em uma conceituação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

HALL, Stuart. Que “negro” é esse na cultura negra? In: HALL, Stuart. Da Diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

RODRIGUES, Carla. Butler e a desconstrução do gênero (resenha). In: Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 13(1): 179-199, janeiro-abril/2005.

ROLIM, Gabriel. Black Alien - Irradiando Luz na Escuridão há uma Década. MonkeyBuzz, 2014. Disponível em: http://monkeybuzz.com.br/artigos/12455/black-alien---irradiando-luz-na-escuridao-ha-uma-decada/. Acesso em 13 de julho de 2016, às 22h17. 

VIANA, Lucina. O Funk no Brasil: Música desintermediada na Cibercultura. Revista Sonora. Unicamp. Vol. 3, 2010.

VIANNA, Hermano (1988). O mundo Funk Carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

07/07/2016

Separar pra pensar

Creio que a gente precisa separar as coisas. De um lado realmente há os gastos absurdos com dinheiro público, superfaturamento de obras e a cegueira para vários problemas sociais com uma Olimpíada. De outro há a visibilidade a atletas que deveríamos enxergar sempre. Histórias de educadores, gente ligada ao esporte por projetos de inclusão, gente que encontrou o esporte como opção, alternativa, superação e motivação de viver, que participam do tal revezamento da tocha olímpica. Creio mesmo que a gente não possa descontar/respingar nesses indivíduos as frustrações criadas por outros. As coisas precisam ser bem direcionadas a verdadeiros responsáveis, caso contrário acabam até mais perdendo apoio do que recebendo.
Final do revezamento da tocha olímpica na cidade de Pelotas (Divulgação / Rio 2016)

16/06/2016

Maio em Imagens







FOTO: HENRIQUE KÖNIG

Tapa da mão aberta

Um tapa de mão aberta
Na cara desse sistema
O médico obstetra
Deu luz a mais um problema

É sempre a estrada reta

Deles que eles impõem
É o lucro como meta
É isso que dita o tom

10/06/2016

Babasónicos

Tenho 1001 coisas pra resolver
Estou em outra dimensão
Me escondo, já não sei o que fazer
Fujo de outra situação
Mais sei que devo enfrentar de frente
Em busca de uma solução
Difícil saber exatamente
Uma resposta de satisfação

22/05/2016

Aguante

E se um porro me acalmava
E era tu
E sempre tu me incendiava
E quando muitos te abandonaram
E era eu
E sempre eu te incentivava


17/05/2016

Sobre vivendo

Assisti ao filme "Sobrevivente", sobre o cara que sobreviveu (dã) ao naufrágio de um barco nas gélidas águas do Atlântico Norte, na Islândia, em 1984. Daí que chamou atenção o extraordinário de Gulli ter ficado cerca de seis horas nadando e flutuando pelo mar em temperatura praticamente negativa em Celsius. Humanamente impossível, afirmavam. Naquela temperatura, muitos teriam pego uma hipotermia irreversível em questão de minutos.

Daí que, dependendo a temperatura, o ser humano não consegue passar sequer minutos nos oceanos, que cobrem cerca de 71% da superfície terrestre. Notável também a cena que ele consegue chegar à ilha e está exausto, desesperado e perdendo os movimentos pela má circulação do sangue, etc. Encontra uma banheira (?) com água congelada em um pasto. Afugenta os bois (que sempre têm o alimento em volta deles muuuuu) com sua presença. Pega uma pedra e bate no gelo até ele se partir e ele conseguir beber algo após horas cercado por água salgada.

Daí que o ser humano não consegue sobreviver, sem maiores aparatos, à maior parte de seu planeta. Seja por questões de clima, predadores e tal. E neste que é o planeta habitável.

E nisso tudo, Raul Seixas disse em Ouro de Tolo que

"É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social"

Loucura, né?

29/04/2016

Pêndulo da Exclusão

A alternância entre as pessoas serem muito dóceis e serem pau no cu com os outros é o que mais me chama atenção na humanidade.

Dá um abraço apertado no filho, na esposa e deseja morte violenta ao motociclista no trânsito ou ao defensor de ideologia diferente.

Dá comida pro bicho de estimação, ajuda a vó e brada "bandido bom é bandido morto" sobre quem tenha qualquer ficha criminal.

12/04/2016

Ave, ave, minha cara

Mais uma ave que me escapa
Eu, também ave, cisco e logo voo
Cisco, cisco pela terra
Cisco, ciscos nos meus olhos
Nos meus olhos vejo o que já era
No meu bico o beijo de outro foco

Mais uma ave que me escapa
Eu, também ave, verifico e logo voo
Rico, rico, minto em canto
Pobre, pobre no que sou
Nos meus olhos do voo cego
No meu canto por amor
Foto: Henrique König

A História Enquanto Ocorre

A História enquanto ocorre, no gerúndio, o tempo real, o tempo em que neste momento escrevo... É difícil contextualizar esta História. É preciso enxergar de onde vem e para onde vai. Qual a origem e o passado dos personagens? O que defenderam e o que hoje defendem? É preciso enxergar para onde rumam as coisas. Se já aconteceu cenas e fatos semelhantes na História deste ou daquele país.

A História, enquanto ocorre, é difícil de ser digerida, mapeada. Uma esfera grande da população, como uma boiada, é conduzida. A mídia tradicional pastora e manobra, a seus interesses e a interesse dos seus.

É preciso combater. A História, enquanto ocorre, é como uma briga em um nevoeiro, é complicado de previr de onde e onde vai. O jornalista precisa estar como se estivesse a dois passos atrás ou a dois passos à frente, em local privilegiado de observação. Mesmo que tudo ocorra em tempo real, com ele no meio do tumulto.

O jornalista é diferente, sim. É privilegiado a observar e interpretar. Mesmo com tanta nebulosidade. Temos dados e alguns acessos sobre vários dos personagens principais. De onde vieram e, decifrando peças, para onde querem conduzir-nos.

Embora a falta de transparência, a dificuldade imposta para ler a situação, é preciso estar atento e também buscar agir. A imparcialidade, me desculpem, é o escambau. Não ter lado significa permitir ao lado dominante que continue sua dominação.

Não ter lado é permitir que os históricos impunes passem por cima novamente. Como, contextualizando, já ocorreu antes na História deste ou de outro país.

A tranca da porta não pode resistir mais muito tempo. Do meu apoio, resisto em troca de ideias. Não baixaremos a cabeça perante o cenário lamentável que se instaura.


30/03/2016

Encore, Encore

O mundo
Não há como abraçar o mundo todo
Mas queremos
Ao menos dar uns tapas nas costas
De consolo
A todo mundo que se sentir tolo
A todo mundo que se sentir nulo
Ao menos dar uns tapas nas costas
De encorajamento
Encorajar
Encorajar
Encorajar
A lutar para o dia raiar
Encorajar
Encorajar
Encore, Encore
Encorajamento
Para derrotar o mar do medo

12/03/2016

Transpassa

Quero permanecer dormindo
Pois sei que só em sonho
Quero seguir acordado
Pois só em sonho não basta
Outra noite em que o sol ameaça
E o plano fracassa

05/03/2016

Seca Aorta

Se até os verões somem
Tirando o calor do ar e da praia o homem
E as árvores fingem-se de mortas
No cemitério do outono que seca aorta
Por que, me expliquem, preciso a cada dia
Ressuscitar-me como se o produto
Dos meus pulmões fosse alegria?
Foto: Henrique König

20/02/2016

A Cólera E A Coleira

A cólera soberana sobre os olhos
A coleira, figurativa, nos pescoços
O qu'est-ce que c'est da vida, o imbróglio
O contentamento de roer apenas ossos

A cólera avança, toma conta
O nó da coleira é apertado
O ultraje que nos tinge, nos afronta
Dos pelos que não protegem da invernada

A cólera eufórica é o estandarte
Brilha forte ofuscando os outros brilhos
A cólera é a obra de arte
Proveniente do desandar de tantos trilhos

Encolhi-me à coleira que sempre aperta
Acolheu-me seu escravo aprisionado
Que pode enxergar, só por dentro, a porta aberta
Triste fim de um projeto inacabado

10/02/2016

Mas Te Vejo

A vida tem violência doméstica, tráfico de pessoas, de órgãos, drogas lícitas, ilícitas, deep web, mas também tem o refrão do Cidadão Quem.

Tem guerras, exílios, mercados escravos, repressões de regimes, fome, doenças virais, prostituição, mas também tem o refrão do Cidadão Quem.

Há crianças que perdem a infância
E há idosos que não tem onde cair mortos
Todos os jovens com a circuncisão da inocência
E os caminhos que os mentiram tão tortos
Foto: Henrique König


Nuvens

Nu vens, no mais
Não tem "jamais"
Se és meu sol
Já descobriu
Outros sistemas solares
Lares, bares
E mais malabares

Nu vens, no mais
Não tem "jamais"
Se és meu sol
Estou descoberto
Para te apanhar

Por perto de ti
É rotação
E a rotatividade
Invade em comunhão
Foto: Henrique König



24/01/2016

Vegetando Cólera

Os ponteiros do relógio caminham para o meio
Eu tomo o trajeto inverso rumo à solidão
Eu não fico alheio ao sofrimento alheio
Meu sofrimento é uma bola de neve em evolução

Faz frio, aqui dentro neva e ninguém verá
Nem o verão
Contos tardios despencam como as folhas do outono
Carneiros saltam a cerca na migração do sono

Lave as mãos e o rosto e tente sorrir
Na frente do espelho
Com os olhos mais vermelhos
Do que o coração
Com a cólera que brota em ti
Como vegetação

05/01/2016

A indústria

Há sempre a indústria
Indestrutível
Truste, tridente, terrível
Trivial

Há sempre a indústria
E a indústria anti-industrial
Sob um teto de astúcia
Alimentando um ego intelectual

Há a indústria fascista
E a indústria do brilho facial
Há a indústria carniceira
Carbonero, incêndio florestal

A indústria diz que é uma merda
Porque ela não pensou antes
A indústria diz que é distante
O que já aconteceu nesse instante

Há a indústria de Cristo
E a indústria anti-cristã
Fugir do teto da indústria
Forma a indústria do amanhã

A indústria com o prato vegano
Só pra não perder o cliente
A indústria molda o igual
Mas captura também o diferente

30/12/2015

Vi vida

A gente passa um tempo
A esconder-se da vida
Para depois um lamento
De não tê-la vivida

25/12/2015

Vozes do Natal

Escrevo ao som das vozes da cozinha nessa véspera de Natal. São os parentes da mesma cidade que já costumam se reunir em outras datas. Participo da comunhão da comida, de algumas trocas de assuntos e piadas, sempre que consigo e possível.

A companhia das distantes vozes mentais que acompanham virtualmente tem aumentado nos últimos natais. Alguns se mostram ranzinzas e enxergam a data em total negatividade. Há aqueles que quebram alguns costumes morais impostos nas últimas décadas.

Há os que reciclam e se esforçam nas piadas relativas a sobremesas ou sobre o surgimento de indagações acerca dos relacionamentos amorosos. A união familiar, todavia, é analisada sobretudo nesta data. As famílias podem se juntar em outras datas, porventura em algum feriado específico ou, como é mais comum, nas datas dos aniversários dos membros. Para os internautas entrarem num consenso sobre este ajuntamento, nada melhor do que a comemoração conjunta do que antes era encarado como sinônimo de cumpleaños de Jesus Cristo.

A data capitalista também é evidente. Trocas de presentes, construções gastronômicas típicas apenas do dia ou poucas vezes vistas ao longo do ano são demonstrações do poder econômico das festas de fim de ano.

Entretanto, o significado da data parece cada vez mais ligado à análise familiar. Nesta edição, por exemplo, percebo escancarada a condição de que minha família não apresenta renovações faz tempo. Sou o mais jovem e já me encontro às vésperas de encerrar a primeira graduação na Universidade. As crianças, quando pintam em casa nos fins de ano, são os cachorros dos primos.

Outras famílias são distanciadas justamente pela internet, o individualismo e a exclusão caracterizadas dos dias atuais. Reúnem-se, quem sabe, somente em prol da refeição, da janta de 24 ou do almoço de 25 e logo já se distanciam novamente. Voltam ao ponto de origem, como se movidas por uma espécie de energia potencial elástica.

Percebo, também aproveitando a data natalina como objeto de estudo, que a duração do encontro familiar, em tempo, tem decaído a cada edição da data. O pessoal chega de visita mais tarde e põe-se a voltar para casa mais cedo. Falta, como digo, as renovações. São encontros e motivações já saturadas das festividades anteriores.

Outro ponto de discussão do fim de ano são os foguetes. São criticados por prejudicarem (E REALMENTE PREJUDICAM) a audição, e a saúde em geral, de animais de estimação. Mesmo assim, permanecem em evidência alongando-se como trilha sonora desde a tarde até os horários que ultrapassam a meia-noite. Me soaria estranho o passar de um 24 ou 31 de dezembro com o silêncio quebrado apenas pelo encontro de fofocas, assuntos televisivos e o brindar das taças. Torçamos para exclusão dos fogos entrar em normalidade daqui a temporadas? Creio que sim.

Torçamos também por mais gestos de solidariedade. Eles têm aparecido. Motivados a serem correntes por redes sociais. Campanhas de fim de ano. Lembrar sempre do jovem ao idoso, dos que não têm lar aos que precisam de melhoras nos seus. Vale-se disso o Natal e não do repartir da ceia entre os que já muito têm. Pensai nos menos favorecidos e nos modos de como podemos favorecê-los. E compartilhar, compartilhar as mensagens por mais tempo, para sermos as pessoas de dezembro em mais períodos, o máximo possível durante o ano.

Por bons momentos às nossas famílias, sejam elas quais forem. Dos laços sanguíneos aos estabelecidos nas mais diversas esferas.

Jair Filósofo

20/12/2015

A necessidade do antagonista

O futebol-arte traz a admiração dos aficionados. É bonito o carregamento da bola de pé em pé, de um lado ao outro. Com passes precisos, dribles e, de preferência, com o elemento surpresa ou de improviso também na finalização, a vencer o arqueiro adversário. Assim é a síntese da história de um futebol bonito, encantador, a versão preferida da maioria. Porém, para caracterizar uma disputa, é necessária a versão do antagonista.

No futebol a nível mundial, a evolução da prática resultou em algumas peculiaridades comuns ao estilo de alguns países. O primeiro parágrafo descreve um jogo de gosto tipicamente brasileiro, da ginga, do malabarismo com a bola enfeitiçada. Na Alemanha, o futebol técnico e coletivo, a divisão de responsabilidades. Na Itália, é firme a marcação e alguns dos principais italianos na história da modalidade são exatamente os defensores. Recentemente, zagueiros como Nesta e Cannavaro, além do goleiro Buffon.

Na América do Sul, a força do antagonismo ao futebol-arte é grande. Pode haver argentinos e uruguaios de extrema habilidade técnica para desfazer o nó das defensivas, mas grande parte dos meninos que crescem nos bairros de Buenos Aires e Montevidéu, prima por um estilo de jogo considerado feio pelos demais. A marcação mais firme, a chegada mais forte, a catimba. Tudo isso faz parte. São os antagonistas, como não foi diferente na versão da final entre Barcelona e River Plate. Embora o Barça carregasse um ataque latino-americano, com um uruguaio e um argentino, o platenses do River possuíam a dura e árdua missão de pará-los. Não foram páreo, apesar dos mais pesarosos esforços. Missão praticamente impossível.

Ao longo das gerações que brincam de chutar a bola para lá e para cá, é necessário que exista alguém que faça o trabalho sujo. Alguém tem de fazê-lo. Na Argentina e no Uruguai, assim como em períodos do Rio Grande do Sul, o trabalhador dessa seriedade, às vezes, é o mais reverenciado. É o volante cão de guarda, o zagueiro xerifão, o goleiro orientador.

Nos selecionados nacionais, Argentina e Uruguai conservam figuras como o argentino Mascherano ou o zagueiro Diego Godín. O primeiro, argentino, inclusive também campeão na esquadra do Barcelona, como cão de guarda, como segurador das pontas em muitos lances, precisando, como dizem, abrir a caixa de ferramentas quando necessário.

O próprio delantero uruguaio Luis Suarez conserva um pouco do antagonismo aos moralistas. Suarez não perde a chance de golpear e provocar adversários. Batalha, luta incessantemente, simula, gesticula, reclama e recicla no ramo das catimbas para não ser pego pelos olhares da arbitragem. É um grande ator, um antagonista muitas vezes e protagonista, artilheiro, em outras.

Suarez é a cara do Uruguai desfigurado pelo holofote do futebol europeu. Os maiores clubes do país, Peñarol e Nacional, não conquistam a Copa Libertadores para chegar ao Mundial desde a longínqua temporada de 1988. A seleção Celeste venceu as Copas do Mundo de 1930 e 1950, e dificilmente repetirá o feito, apesar de repousar como - ainda - a maior campeã de Copas América, principalmente pela gordura construída em outrora.

Suarez pode ser visto negativamente por alguns adversários, como digo, os moralistas. Eles aplaudiram à suspensão imposta a ele e a todo o Uruguai na Copa do Mundo de 2014. O selecionado celeste não conseguiu manter-se nas disputas após a sansão imposta como consequência da mordida. Apesar de criticarem o estilo de Luisito, ele é um nome ideal para jogar ao lado. Batalhador, gladiador das frentes. Joga por ele próprio, sempre com ampla vontade de balançar as redes, de construir, de contribuir. Sempre buscando o melhor a ele e, consequentemente, aos companheiros. De Barcelona ou de todo o Uruguai.

E que digam, aos que questionam algumas artimanhas feitas dentro de campo, que mal há nelas se são pela vitória maior de seu time e de seu povo? Às vezes, como é o futebol globalizado, que mal há nos investimentos latino-americanos de buscar vencer a todo custo, contra um futebol europeu que rouba talentos e se fortalece estruturalmente e financeiramente, em retroalimentação?

Há vários latino-americanos e africanos no futebol europeu, mas quase nenhum europeu no futebol da América do Sul ou da África. Isso explica muita coisa.

Por fim, destaco que a resistência da competitividade do futebol vem através da resistência dos que jogam com personalidade, com a velha gana de vencer custe o que custar. Dos que não se entregam, dos que fogem dos padrões em que a modalidade preferida no planeta insiste em se enfiar. Precisamos da oposição. Precisamos do antagonismo.


As torcidas também se esforçam para manter o sentimento alheio à padronização. O futebol moderno não é o caminho para muitos deles
(Foto: Ediane Oliveira)

18/12/2015

Coletes e Culatras

Às vezes o mundo aí fora é o tiro à queima-roupa.
A internet é o colete à prova de balas.
Às vezes é o contrário.
Sei lá.


17/12/2015

O Lado Bom das Filas

Muitas vezes, a fila é encarada como o pandemônio dos brasileiros. É o símbolo do burocrático, de um sistema ultrapassado, da demora, do roubo do tempo dos envolvidos na interminável sequência de pessoas dispostas ao mesmo objetivo.

As filas formam-se como a facilidade de encontrar cães de rua na maior parte dos municípios brasileiros. O desleixo da população no controle dos animaizinhos também é rapidamente criticado pelos mais indignados. Mas e a dificuldade de controlar as próprias pessoas, o que gera? Gera, entre outros descontroles, as filas.

Apesar das represálias às bichas (nome comumente usado para as filas em Portugal), há o positivo nelas. Dedico-me a defender a opinião com um olhar otimista e observador acerca da formação de filas.

Com meu hábito de constantemente manter-me quieto e com os olhos atentos ao redor, as filas são pratos cheios para as observações e análises. Pondero não serem análises com o objetivo de julgar e fechar os parênteses abertos em relação ao que observo, apenas exercitar o íntimo da imaginação. Ponho-me a pensar, sempre, em filas: quem são essas pessoas que estão à frente ou atrás nas filas?

As filas de banco ou lotéricas. Filas para quem quer sacar dinheiro. Filas para pagar contas. Quais contas? Qual o peso no bolso, o impacto da ação a seguir em cada pessoa? Qual o sofrimento por trás do ato de envolvimento  em gênero, número e grau financeiro? Quais seriam os reais objetivos, os sonhos de aplicação daquelas cifras naquela pessoa? E naquela outra? O que as mantém em comum, senão esta fila e o que as separam? De onde vem e para onde vão?

Nas filas para os jogos de futebol, seja para adquirir o bilhete de entrada, ou para adentrar passando por catracas e revistas. Ou, de repente, a fila do lanche ou da bebida no intervalo. Que tipo de torcedores são? Com que frequência visitam os templos, do que se alimentam para matar a fome não saciada com os lances no tapete verde? Serão mais otimistas ou pessimistas? Que glórias e que derrotas já presenciaram? O que as traz de volta ao estádio, com quem e por quê? Se assemelham nas cores das vestimentas e diferem-se nos hábitos, na fé, na reza, na concordância ou discordância da escalação do maldito lateral-direito. Torcedores brincando de treinadores como se fosse fácil comandar o andamento no interior das linhas tracejadas da área técnica.

As filas para musicais e concertos. Que tipo de fãs ali se manifestam? Como conheceram a banda? Há quanto tempo conhecem o artista? O que mais gostam nele e que músicas trarão a satisfação plena naquela noite? Escolheu a música tal como favorita pela letra ou pela melodia. Vão fardados como torcedores de futebol ou são mais discretos em trajes sociais. Quantas vezes já viram o artista e quantas vezes o artista já os viu?

As filas para identidade. Qual a identidade não descrita na carteira de identidade ou de transporte coletivo? Estão renovando ou perderam? Quem quer saber tudo isso? Quem quer saber que aquela pessoa à sua frente para embarcar no ônibus tem uma longa história de vida que a colocou, situacionalmente, à sua frente na hora de retomar o rumo de casa. Ou qual será o rumo? Uma visita, surpresa ou não, uma confraternização, uma visita de médico de uma simples paciente que nada pode fazer? Como observo o destino é traiçoeiro e julgamos pessoas em questão de segundos, piscares de olhos, sabendo absolutamente nada sobre elas e seus dias.

Sobre a fila dos pensamentos que entram e saem de nossa cabeça, contribuo com este espaço. Levando em consideração que as filas também podem nos trazer raiva dos desconhecidos por conta da impaciência de estar nela esperando. Mas se a pessoa está na mesma fila em que estás, por que sentir raiva dessa semelhança?

Até o próximo.

06/12/2015

Trilogia do Diabo

A noite mistura os aromas Da cura ao cotidiano Rompe a armadura O copo gelado Ao lábio da amargura Mentolado Da hora que dura O nosso fardo

Pobre diabo Que procura Fraterno Aos endiabrados Pelas noites escuras Um canto Ao ouvido E ao corpo vencido Largado Para chamar de inferno

Se eu sou Se vós sois Ora pois, diabos Que tenhamos ao lado Um inferno dividido De encontro a dor De encanto ao calor Apaziguado

Foto: Gustavo Costa

04/12/2015

Escoa História

Ecoa a história da Coroa
Da monarquia e do reinado
A história de outras pessoas
Dos mesmos países e outras raízes
Morre abatida como gado

27/11/2015

Meio Fio Modelo

Singelo meio fio
No frio é belo
Zelo por ti
Entre outros mil
És tu quem quero

Singelo meio fio
És tu meu elo
Alguém me ouviu
Sob a noite, meu soar
É mais sincero

Calçada, estrada e estadia
A companhia é quem também vai
Querê-lo
Meio fio dividido é meio fio
Modelo