Sinto falta de um alguém, mas não é de ti.
E isso é quase gratificante.
Toda a arrogância dos hoje protegidos pelo tempo será castigada. O tempo deixa todos na mão. Galho passageiro que sustenta o corpo e o impede de afundar nas correntezas do rio. Toda a arrogância dos hoje protegidos pelo tempo será castigada.
Viaje por minhas imperfeições
São tantas, mas não faça menções
Nem honrosas, nem rosas
Pelos colchões
Viajo pelas lições de sua vida
Comprimidos muito melhores
Que aspirinas
Viajo, nado nada sincronizado
Espasmos
Viajo
Por trás das lentes, das cortinas
Viaje por minhas imperfeições
Estou quase acabado
Minha versão final
Corpo quase abandonado
Viaje por quem bate o ponto
Todo dia sem desconto
E já nem sabe nem porquê
Um buquê de flores se esfarela
Se ninguém compra elas
Para onde vai?
A comida do mercado
Com o prazo encerrado
Encerrada pelas grades
E as cortinas das cidades
Melodias do metal
Viaje pelas minhas imperfeições
Sou assunto, sou ações
Sou um mundo de questões
Nada superficiais
Ai ai ai
Why?
O tempo passa mais rápido. Estamos ocupados. Há mais repetição e menos euforia que a novidade causaria.
Um dia você vai fazer uma coisa pela última vez em sua vida. E não saberá.
Mas também um dia você vai fazer uma coisa pela última vez em sua vida. E saberá. E doerá tanto quanto.
Mas um dia você vai fazer uma coisa pela última vez em sua vida. E será um alívio, pois não queria mais.
Diferentes perspectivas.
Eu tentei ser jovem
Tentei ser normal
Tentei ser igual
Tentei ser refém
Da indústria cultural
Eu tentei tomar
O mesmo trem
Tentei tomar
O mesmo tempo
Tentei tomar
O meu lugar
Eu tentei
Tentei
Sei que tentei
Poderia ter tentado mais
Agora já não sei
Será que tanto faz
Eu tentei ser jovem
Tentei ser do bem
Tentei tantos tambéns
Tentei seguir umas leis
Tentei outros lay
out... out of season
Tentei igual Sísifo
Tentei, eu sei
Sei que tentei
Eu tentei
Você tentou
O padre dos balão tentou
Versinho não tem tradução
No máximo uma outra versão
Deixei um versinho verdinho
Na minha plantação
Se ele madura
Não dura
Um versinho verdinho
Na minha plantação
Ou não
Era nada
Nem limão
Nem limonada
Nem limousine
Nem coisa que se assine
Memórias são frágeis fragmentos flagrados
E quando deflagrados já se perdem
Memórias são frágeis flashs
Flesh for fantasy
Memórias são fósforo
Mas também outros elementos
Periodicamente aparecem
Memórias são
O que era
Memórias sãotificam
Memórias tipificam as coisas
Memórias larvas, moscas
Memórias lavam a alma
Das moças
Com lágrimas
E coisas toscas
Memórias, filtro
E coisas foscas
Memórias filhas
De cosa nostra
Memórias nosferata
Memória errata, vampira
Memórias artifícios
Artificiais
Memórias: arte ou ofício?
Extra-oficiais
Memórias orifício
Memórias sem fisco
Nem aduana
Memórias muquiranas
Risco
De repetir o disco
Não há mais tempo
Mas nunca houve
Só o agora
Ouve
Só o que o vento
Dita lá fora
Não há mais tempo
Não há passado, não há futuro
A perspectiva é um muro
Que ninguém te ajuda a escalar
Não há mais tempo
Isso eu já disse
Em outro tempo
E só lamento
O que se perdeu
Não sou mais eu
Talvez tenha sido
Em outro tempo
Que já não há
Não há mais tempo
Não há mais tempo
Nem menos tempo
Do que há
Haverá de ser
Um outro tempo
Quando chegar
E chegará
Enquanto não chegar
Não há tempo
Só haverá
Ególatra
É pior do que alcoólatra
Porque não se sana
Não se manca
Não espanta
Não se contenta
Até que a corda arrebenta
E a maquiagem mancha
Não importa quantas canchas
Uma hora vem a dança
Uma hora acaba a dança
Uma hora anda na prancha
Uma hora chega a hora
Uma hora corta a corda
E toda aquela cortesia
Vira um cortejo fúnebre
Uma hora chega a conta
Acaba o sonho e acorda
Uma hora chega o dia
Esvazia a fantasia
Uma hora se imacula
Se autointula
Uma hora se macula
Uma hora vira fuleira
Ególatra
Muito pior do que alcoólatra
Síndrome de Cleópatra
Necessidade sem cessar
Uma hora vira abóbora
Uma hora se denuncia
Uma hora o fingimento
Vem à tona todavia
Vem ao topo corroendo
Corroendo a utopia
O alcólatra
Pelo menos se sacia
Por mais que se vicia
O ególatra
E sua figura imaculada
Boa demais pra ser mostrada
E o fastio da modéstia
E o nojo que me resta
E o chute na pilastra
E a cara que se racha
E toda sua hipocrisia
O ególatra
E sua rede de mentiras
O ególatra
Muito pior do que alcoólatra
Porque obviamente há nenhum compromisso em agradar.
Nunes enfrenta Boulos no segundo turno em São Paulo. Mais uma óbvia derrota de Boulos, que toda vez arranca em primeiro na eleição paulista, mas não tem a mínima condição.
Vitória esmagadora de Sebastião Melo em Porto Alegre. Será reeleito mesmo após o caos instaurado no maio das chuvas. Maria do Rosário jamais apresentou a mínima chance de vencer. Juliana Brizola atrairia maior votação para um segundo turno. Aprendem nada desde 2018. Ou desde 1989, quando foi barrado o avô de Juliana, Leonel Brizola.
Em Florianópolis, Marquito saiu do jovem tímido deputado para um nome combativo com quase 1/4 dos votos, pelo PSOL. Mas Topázio aglutinou os votos da direita e venceu no primeiro turno. Os demais definharam. A direita, para vencer, não é boba.
Santa Catarina, boa parte do Rio Grande do Sul e de muitos lugares brasileiros preencheram mais do mesmo. Algumas lideranças solitárias por SC são a vereadora Giovana Mondardo do PC do B, pessoa mais votada no legislativo de Criciúma, e Afrânio, um dos mais votados em Florianópolis. Décio Lima, liderança do PT e ex-prefeito de Brusque conseguiu comparecer a segundo turno pela excluída legenda em 2022. Há muito trabalho de base a ser feito em um estado que já foi reconhecido por trabalhadores da extração, de estivadores portuários e pela malha ferroviária. Liberalismo e bolsonarismo circulam livremente em SC, de mãos dadas.
Em Pelotas, termômetro de tantas eleições brasileiras, chegou finalmente o novo clássico brasileiro. PT x PL. Em Sant'Ana do Livramento , por exemplo, foi uma lavada para o PL. Em Pelotas a promessa é de uma eleição disputada entre o ex-prefeito Fernando Marroni (mandato 2000-2004) e a novidade composta por Marciano Perondi, alien acompanhado pela bolsonarista Adriane Rodrigues, filha do tradicional Governaço, que por sinal passou longe do cargo de vereador.
A esquerda pelotense posicionou peças importantes na Câmara, mas obviamente insuficientes para números totais. Parabenizar a Fernanda Miranda pela segunda liderança em número de votos no Legislativo, professora na história do município. Repetiu o feito de 2020. Ela é acompanhada pelo jovem mas tradicional Jurandir Silva e pela sequência de petistas com Ivan Duarte e Miriam Marroni, psicóloga esposa do candidato a prefeito da legenda.
Marcus Cunha, que trocou o PDT pelo PSOL por divergências com o antigo número, teve menos visibilidade do que já apresentou, mas é suplente direto. Ronaldo Quadrado, conselheiro tutelar do Monte Bonito, novidade pelo PT, apoiado por muitos nomes do partido, inclusive pelo ex-presidente local Luciano Lima, também é suplente imediato. Outros nomes pontuaram bem, mas de maneira insuficiente para uma governabilidade mirada e desejada. Pelotas, mais uma vez, revela os trechos tortuosos pelos quais o país perpassa na nebulosidade política.
Ah, a memória. Ela dita ritmos.
Para quem tem muita memória, mas que elas se unem em aproximação, pois, apesar da vida ser larga, as memórias se conjuntam como se a vida fosse curta. Não vos parece?
Para quem tem curta memória, elas se escondem, pois, apesar da vida ser larga, as memórias se afastam e o que sobra é a lembrança de uma vida curta. Não vos parece?
Desse modo, tanto os reunidores, revisores vorazes, cirandeiros das memórias, quanto os que as jogam de uma montanha penas ao vento, os dissimuladores, os ocultados, os labirínticos bloqueadores de memórias, ambos acabam com as mesmas desgraçadas impressões: que curta é a vida!
Para os reunidores que em saguão, em auditório lotam suas memórias, acotoveladas umas às outras, tudo parece próximo, tudo se fundiu, passou tão rápido: que curta é a vida!
Para os que mantém as lembranças soltas como se um dia fossem voltar, livres como cachorros de portões abertos, gatos que viram cartaz de procura-se, crianças que correm quadras adiante dos pais e tomara voltem, essas memórias espaçadas, escorregadias, corrediças, essas memórias afastadas como os mais gasosos átomos deixarão o salmo de repetição do texto: que curta é a vida! Me sobraram tão poucas memórias que todas as demais voaram. Que faço com elas se não reuni-las escassas, livro de páginas faltantes, de falas e passagens repetidas de memórias desorganizadas, de ordem alfabética que começa em C, pula para L e termina antes de qualquer W, livro incompleto, borrado de café ou erva, inelegível por tantas partes. Que conclusão chego a não ser que é curta a vida que nos toca sobrar aos dedos inabilitados para agarrar muito?
E mesmo os consumidores a esmo de tantas memórias, que adianta ao final reuni-las tantas se elas são, no auditório que nos sobra de vida, apenas espectadoras, passivas, passageiras, esfinges, fumaça, fantasmas? Que curta é a vida, na qual não posso voltar a tocá-las... memórias.
Taticamente
Tacitamente
Se você enxerga tudo
Fica louco
Porque o pouco que se faz
Não satisfaz
Dentro do campo de jogo
Dentro dos campos políticos
Água no fundo do poço
O mundo feito um troço
Um tricô destituído
Do destino do próximo
Taticamente
Tacitamente
Se você enxerga tudo
Fica louco
Porque o pouco que se faz
Não satisfaz
Taticamente
Tacitamente
A mente se excita
Evita o tempo do ócio
Prepara na medida
Complemento, episódio
Se você enxerga tudo
Fica louco
Porque o louco que se faz
Não é mais louco
É sagaz
Os olhos dela eram tão grandes
Pensando se estava drogada
No deserto de pessoas
Ela como uma granada
Sua maquiagem expressiva
Seu jeito de fim da linha
Nossa destruição massiva
Doses, fantasias minhas
Doces fantasias minhas
O trem entregava jornada
O que quer mais o viajante?
O viajante quer mais nada
Olhos tão desconfortantes
Olhos tão reconfortantes
A morte bateu na porta
Mulher de porte
Já não importa
A morte em seu trottoir
Não veio à trote
Nem absorta
Veio em sua missão
Tirar palavras da sua boca
Morte em liquidação
Morte lenta
Morte em vão
Morte na cidade
Apartamento, pensão
Morte na avenida
Atropelada, morte ferida
Celebridade, desconhecida
Morte encomendada
Morte suada, abençoada
Morte assistida
Morte casada, morte de sorte
Morte de azar, morte em boicote
Morte no shot
Headshot, bon soir
Morte noir, morte tranquila
Morte shot de tequila
Morte em banco, morte na vila
Morte televisiva
No walk talk, na bohemia
Morte na delegacia
No doi codi, no final de um disco
De Pink Floyd, morte de risco
Morte por vidro, por inalado
Morte do viciado
Morte por idade
Morte sem identidade
Morte beldade
Bate na porta
Mulher de porte
Já não importa
Morte com os olho aberto
A boca torta
Morte chamou
Tu já se troca
Vestido longo
Gravata bota
Morte da velha
Da meninota
Morte veloz
Morte jabota
Morte bandida
Do suicida
Morte homicida
Morte por cota
Investigada
Ou esquecida
Ou arquivada
Morte vingada
Ou esquisita
Morte sem saída
Cara virada
Para baixo ou para cima
Morte, morte, morte
De rotina
Aves de rapina
Que sobrevoam
Que saboreia
Morte na ceia
Ou no seio do forró
Morte, morte, morte
Só sobra o pó
Só
Sobra o pó
Paul McCartney
É mais do que sei
É mais que pensei
É mais que esperava
Baby
Paul McCartney
Compõe um salmo
Sob essa selva
Sobre essa relva
Não me salvei
Se eu me salvasse
Seria com
Paul McCartney
Beatle Paul
Diga hey
Hey ho
O rock n roll
It must be you say
Let it roll
Paul McCartney
Beetlejuice
Beatle Paul
That's true
It's only rock n' roll
Paul McCartney
Art in your name
If exists rock n roll
It must be you play
Play McCartney
I understand
Its only love but
Its the only way
As mentiras que você contou
Deveria engoli-las
Sepultá-la em dálias negras
Ou até lilás
As migalhas de um ano ruim
Pelas últimas ruínas
Me sentir muito melhor assim
Sem o que nos azucrina
Pensar ter medo de perder
O que eu já não tinha
E se tinha, ter para quê?
Há vida melhor sozinha
Tenho amigos, música, tv
Livros, filmes e rotina
Muito mais do que preciso
Longe de umas tiranias
Poemas de um poeta mendigo
Será que ainda vivo?
Será que ainda consigo?
Com os signos que estão ao meu alcance
Será só um relance?
Será todo um romance?
Poemas de um poeta mendigo
Digo de forma reta
E digo com rodízios
Digo... palavras obstretas
E digo sem abrigo:
Será que ainda vivo?
Será que ainda consigo?
Poemas de um poeta antigo
Digo... de forma abjeta
Recito fora da cerca
Retiro o que me espeta
Recibo de só uma promessa
Será que ainda vivo?
Será que ainda consigo?
Poemas de um poeta anfíbio
Sapo... sapo de valeta
Girino... girino de início
Girando por encantos movediços
E vários vícios
Será que ainda estou vivo?
Será que ainda consigo?
Poemas de um poeta sinistro
Canhoto, canhestro, capiroto
Desculpe a demora. Estava fazendo contas novamente se o time tem chances de ser campeão. Provavelmente não. Odeio estar certo. Eu falei sobre pensar em outras pessoas, mas a verdade é que estar só a dois, só nós dois, sempre bastava. Quando se tem essa neurodivergência, palavra que sobrevive em mim todos os segundos, mas o corretor ignorava a existência, quando se tem essa neurodivergência, estar sozinho no mundo já basta. Sozinho e com alguma distração. Palavras cruzadas, inventar uma música, um texto, criar jogos mentais que só fazem sentido pra si. Caminhar sozinho. Ser sozinho basta sendo neurodivergente assim. Mas às vezes se quer estar a dois. E eu quis muito dividir a vida especificamente contigo, e foi ótimo. Vou lembrar que foi, que fomos, ou a vida passa a fazer menos sentido do que o pouco que já é. Do que o pouco que me significa - sem ampliar família e olhando somente os ascendentes envelhecerem, olhando para trás, na busca impossível de congelar a idade dos familiares que amamos. Areia do tempo entre os dedos.
É, ali, naqueles momentos, pareceu estar completa a vida. Ou ao menos eu achava estar completa em muitos momentos. Ou eu pensava atingir o máximo de vida que penso conseguir atingir (não dirijo Ferraris, sinto que meus nervos e o colágeno não aguentam esportes radicais, não tenho coordenação instrumental - tantas limitações, que você sabe ou deveria saber).
Faz parte do sentimento também quando o time atinge a liderança. E logo talvez dê tudo errado de novo. E, veja bem, eu gostaria que fosse possível, mas parece que não é possível morar em momentos. Nessas semanas. Nessas rodadas que antecedem o caos.
Por isso dizemos "queria morar nesse momento" (eu digo). Porque é impossível morar em um momento.
Ao menos quando penso na minha vida ainda parece possível separar ótimos momentos. No campeonato de futebol a rodada final vai contar muito mais do que a trajetória até ela.
Ah, que triste paralelo... ao menos se fosse campeão.
Temo mais a cadeia do que a morte. Tenho isso comigo há muitos anos, talvez desde a infância. Repito, mas não sei se da boca para fora, porque não passei pela cadeia nem pela morte. Por enquanto, mantenho minha opinião.
Assisti a dois filmes em sequência sobre a temática. Não sabia que eram relacionados. Ou possivelmente relacionados. Assisti a Os Miseráveis (1935), de inspiração do livro francês de Victor Hugo. O autor designa que enquanto houver pessoas condenadas a pagar mesmo após suas condenações, condenadas a serem eternas presidiárias, a história se manterá atual e justificada. Por isso é um clássico.
Jean Valjean de Os Miseráveis roubou um pão para alimentar sua miserável família e foi condenado à pior prisão possível. Sem fiança. Sem novas chances. Após fugir e ter nova chance concedida por um sacerdote, ele prospera e adota a filha de uma empregada que era explorada em seu trabalho. Mas o passado do lorde acaba vindo à tona e ele se torna procurado pela dita justiça. A perseguição nunca termina. As lutas grevistas por direitos atravessam o filme em uma nova geração, capitaneada pela filha adotiva de Jean e o affair por um protestante. A temática gira em torno do julgamento severo e rotulatório sobre um apenado por um crime de básica necessidade: o direito à alimentação.
Em Whispering Pages ou Páginas Ocultas do diretor russo Alexander Sokurov, o jovem andarilho errante admite ter assassinado a velha de uma das ruas pela qual circula. O filme de 1994 dialoga com o clássico russo Crime e Castigo de Fiodor Dostoievski - perdoem a grafia que nunca sei como o cito nessas páginas.
O filme mais recente trafega a contagotas por paisagens urbanas inóspitas, com o cinza, a miséria e a pobreza em abundância. Confidente, o jovem tem num dita irmã a anunciação de ser o autor da morte da idosa. A conversa entre eles circula por temas como religião, culpa, o crime e o castigo do título da obra em prosa. A irmã, religiosa, pede que ele se ajoelhe e se confesse perante a sociedade. Ele debate com a mulher: "você reza a Deus, mas o que ele faz em troca por você?".
O sentido vaga pela desorientação e desesperança do jovem desclassificado, pobre, de andar errante, porém inerte. Não há a mostra do crime em si, apenas a confissão e as incertezas de como sobreviver, independente do assumir de um óbito ou não.
Os cometimentos criminais são distintos nas histórias, nos livros e filmes. Livros que ambientam filmes. A justificativa de Jean Valjean é mais fácil de assimilar, de defender, de revoltar por seu destino implacável em perseguição trágica que lhe impõe a dita justiça francesa. O crime que Raskolnikov comete no original dostoievskiano também pode contar com a justificativa imputada, atribuída, mas a aceitação é conversão mais duvidosa perante os conhecedores da trama.
Independente do cometimento, como nossa sociedade lida com essas forças, com esses tabus? Que respostas damos e são aplicadas? Como julgamos a todo curso os delitos passados? Que tipos de sombras nos percorrem e muitas vezes nos nocauteiam com o passar dos anos? Quais pães roubamos e velhas assassinamos e de que formas pagamos no cotidiano? Como se comporta a Justiça que a uns ladrões de galinha (ou pão) deveras condena enquanto magistrados, desviadores, latifundiários, corruptos, ocultos por laranjas, sonegadores permanecem imunes? Quantos Jean Valjeans ficam em cárcere por pequenos julgados delitos, quantas senhoras burguesas permanecem recebendo aposentadorias diante da fome marginal? Quantas justificativas podemos atribuir a cada um deles? E a nós mesmos.
O que é amadurecer?
Aprender a usar baionetas, limpar fuzis, operar mísseis e drones
O que é amadurecer?
Aprender sobre a dose de drogas, miligramas, veias, narinas, santas ceias
O que é amadurecer?
Ler sobre teorias que nunca precisarei usar na vida a menos que me perguntem especificamente sobre em ocasiões extremamente específicas.
O que é amadurecer?
Enterrar os próximos, os ascendentes e, na pior das injustas hipóteses, os descendentes.
O que é amadurecer?
Aprender como funcionam as burocracias, os mercados, tirar dinheiro de pobres, emgambelar em papeladas, passar os pobre coitados inocentes para trás na mais legítima rasteira.
O que é amadurecer?
Que ainda não dei provas de ter. Amar durecido.
Jean Luc Godard sobre a repercussão positiva de seu primeiro filme, Acossado, e a necessidade do filme seguinte voltar sua vontade de fazer cinema. Desse sentimento surgiu O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, 1963), sobre um espião de motivação confusa durante o período da Guerra da Argélia pela Independência.
Depoimento publicado no documentário Godard Seul le Cinema (2022), direção de Cyril Leuthy.
O meu sangue ferve por você. Botafoguense Sidney Magal, a constar. Quanto mais penso no Botafogo, mais aprecio. Mais ele me cativa, me envolve, me obriga. Talvez se esconda algum desejo de ser meu pai e o que na vida dele deu certo - e não poderei ser, nem desfrutar. Como ninguém pode, exatamente, ser igual ao pai, por mais que se aproxime disso, ou até seja obrigado, igual família de médicos ou advogados ou donos de alguma empresa. Mas o Botafogo.
O Botafogo tem uma identidade visual que, como vim a saber da preferência do falecido narrador Silvio Luiz, foi uma paixão por ver o escudo que quase o obrigava a pegar no colo, querer cuidar dele. A estrela solitária, que ostenta e persegue. Parece que viveremos eternamente de 1995, meu ano. Solitária. Um pesar tremendo que Sílvio Luiz, que narrou tantas glórias de tantos times tenha morrido sem uma nova chance do Botafogo campeão. E assim são tantos. Beth Carvalho e por aí vai. Zeca Pagodinho, pegue leve, meu aclamado e autodiagnosticado pé frio.
Silvio Luiz faleceu sem essa nova chance. Lembrarei sempre. Penso em meu pai e a única conquista que gostaria de ver ao lado dele. Se pede mais nada. Estamos sempre distante desse objetivo. Quando realmente estávamos longe, parecia mar mais calmo, resoluto, acostumante, mais quieto. Agora o coração salta aos trabucos. O sangue ferve por você, desordenadamente.
A identidade visual do Botafogo, o símbolo, a estrela, a simplicidade, as cores, a ausência de cores, o negro e branco de tantos atores de sua história. Talvez nenhum clube mais literário e cinematográfico no futebol brasileiro. E mundial? Não nos subestimemos, meu bom Brasil, país do futebol muito pelas crias daquele bairro carioca. Insistem chamar de bairro. Pois que chamem. Belo bairro de Botafogo e sua eterna parede de ídolos, que jamais esquecerei ter visto em 2015. Tantos eu soube identificar e outros que, por estar passando rápido de táxi, eu nem soube ou saberia identificar mesmo nos dias de hoje.
Botafogo das histórias de vida. Heleno de Freitas, Leônidas da Silva, diamante negro, Didi das folhas secas, Zagallo e seu número 13, Mané Garrincha, de pernas e linhas tortas, algumas das piores possíveis para essas páginas. A vida. Nilton Santos, atual estádio. Goleiro Manga dos dedos tortos que lhe sobraram. Amarildo, Carlos Germano, Maurício, Wagner, Mendonça, Gonçalves, Pantera, Tulio das Maravilhas, rei do Rio, sim, senhor. Jefferson, Loco Abreu, Seedorf, Gatito, filho de Gato Fernández.
Por que cada tímida conquista soa tão épica? É sempre tão difícil? É sempre tão duro? É sempre tão sofrido? Personagens que crescem nisso, Joel Carli?
Um clube que se apequenou e renasceu. E segue sofrido. E segue sofrendo. E me obriga e me conquista a sofrer com ele. De tão literário e cinematográfico, que estou lendo Godard, Godard gostaria de ter visto o Botafogo. Botafogo foi campeão em Paris. Botafogo dos cineastas, das situações, de filmes, de Stefan Nercessian, irmãos Salles, Cacá Diegues.
Obviamente nas páginas e telas seriam narradas mais derrotas. Virada para o River Plate. Ser roubado pelo Figueirense em 2007. A maior derrocada da história de um campeonato de pontos corridos - ao menos onde há refletores que assim registrem, como aqui inevitavelmente registro. Perder três campeonatos seguidos para o Flamengo para vencê-los de Cavadinha. Não é tão fácil assim executá-la, viu, Messi? Messi que teve pênalti desperdiçado contra Jefferson em um Argentina x Brasil.
Seedorf ser campeão sobre o Fluminense. Mesmo que tenha sido em Volta Redonda ou outro estádio menor. Tomar seis do Vasco e vencê-los depois na final, no mesmo campeonato. Acompanhar os maiores dramas, como o passado com Tiquinho Soares, que perdeu o pai. E eu medroso de perder tão logo o meu.
Ver a vantagem histórica sobre o Flamengo se esfacelar - e o pior, eles passarem o ódio antigo de pai para filho, de avô para neto. Cada vez mais flamenguistas, cada vez mais disparidade, cada vez piores nossos números.
Tão breve parágrafo para conquistas, primeiro carioca campeão sul-americano dentro do Maracanã em 1993, primórdios da atual Sul-Americana. São quatro os Rio-São Paulo, mais duas copas interestaduais dignas de recheio para citações. A Taça Brasil do distante rádio de 1968 também foi a primeira entre os cariocas. Depois, como eu disse, se vive de 1995. Livro, camisas, memórias. Eu nos braços de meu pai. Torneio Carranza. Limpa a garganta. Vencer o Barcelona já venceste. A Juventus também. Peñarol, Santos com gol impedido para amenizar tantas desgraças de diferentes anos e arbitragens. Enfrentar o Flamengo... Ok, isso já foi dito. 21 Campeonatos Cariocas, estar para trás da Portela, como dizem (gosto da Portela, mas até isso vira piada) e uma Taça Cidade Maravilhosa para coroar o ano de 1996.
Em seguida, após o Rio-São Paulo ali por 98, já vem mais desgraça, lotar o Maracanã para ser vice para o Juventude das Parmalats. E hoje uns que mamavam assim mamam em outras fontes. Faz parte será? Aquele, em 1999, foi o maior público da história da Copa do Brasil. Mais de 100 mil. Não deve se repetir. E perdemos. Tu hoje, Botafogo, acumulas os recordes bonitos mas inúteis de maior sequência invicta do Brasil- Flamengo te tirou e tu tiraste a do Flamengo, no mesmo número, siameses de ocasião. Foste 3⁰ colocado invicto em 1977. Chupa Inter de 1979! Tem a maior goleada da história do futebol brasileiro, pois o time da Mangueira é quem viu entrar. 24 gols. E, nessa mudança, tempos distintos, momentaneamente conta com a contratação mais cara do futebol brasileiro. Quanta coisa distinta! Números e histórias.
Um carinho que mais me toca é sempre lacrimejar ao lembrar que na nossa identidade visual o mascote Biriba foi um cão que existiu. Ele às vezes é manso nas imagens, às vezes selvagem. Biriba existiu, entrou em campo e o Botafogo venceu. Foi mascote. Adotado, símbolo, querido e morreu como todos os cachorros morrem. Mas ainda afirmam na história que morreu cego. Isso me faz chorar. Mas tu, Biriba, Biribão, Biricão, não és esquecido, és o cão mais lembrado do Brasil. Símbolo de uma nação. Não a maior, longe disso, mas de escolhidos como foi aquele cão carioca, de estrela solitária em pelo e caminhada errante e decisiva.
Talvez sejamos todos Biribas perdidos. Meu falecido tio que pesquisei quando foi que o Botafogo venceu no Beira-Rio e ele estava lá, quietinho, solitário e que saiu vencedor daquela partida. Tentei repetir teu feito, saudoso tio. Vencemos aquele jogo em Porto Alegre, mas não a guerra general. E aqui estamos, ainda biribas lambendo as feridas. De camisa eleita a mais bonita do mundo, de símbolo que também já foi eleito, pegando em remos, caindo em águas, afundando, ressurgindo. Lutando. Não escolhendo assim lutar, mas já sendo escolhido. E ainda, ao que me consta, ainda, pobres almas, não desistindo. Fogo.
Queria narrar todas as bobagens de minha vida. Utopia de apreender momentos, pela memorização, pela captura e o aprendizado. Pelo não esquecimento, desfalecimento da memória. Também pela ilusão de que alguém liga para isso tudo.
Se eu tivesse duas vidas, queria uma só contigo. No que já deu certo. No que foram alguns dos melhores dias de minha vida. No que parecia justificar finalmente porque minha mãe me teve aos quarenta (e um) e os ascendentes judeus de meu pai fugiram da Alemanha menos de século antes do holocausto.
Você aguentou tanta coisa e, para ter como finalidade o que deu certo, eu perdoaria tudo para repetir muitas vezes - o que deu certo.
Se eu tivesse duas vidas e pudesse manejar melhor do que posso agora. Escolher. Na outra vida eu estaria assim, sem pressão, mas à deriva. Sem entender porquê. Por quê minha mãe me teve aos quarenta (e um) e por quê bravo judeu aportou em Santa Catarina? Por quê? Não justifico eu, tremendo fracasso.
O pior medo é o de escrever, porque escrever é justamente para afastar ou vencer os medos.
O medo do posicionamento, da manifestação.
São Bernardo (1972)
Direção: Leon Hirszman
Gênero: Drama
Duração: 01h:54m
Gosto de filmes que me fazem encontrar o vazio da vida. Me colocam defronte dele. E São Bernardo é a adaptação do livro de Graciliano Ramos, com passagens do texto escrito recitadas pelo narrador Paulo, personagem principal (?) da trama. Chego agora a colocar em dúvida seu protagonismo pois é a mulher Madalena que revira os acontecimentos na fazenda São Bernardo, em Viçosa, Alagoas.
Paulo subiu na escala social de jagunço a golpista, que havia passado anos preso pela morte de quem insultara sua honra, crime passional comum por aquelas bandas. De golpista aplicado, toma por compra a Fazenda São Bernardo e lá estabelece suas leis e seus limites, cada vez mais ilimitados. Cruel, explorador com seus empregados, desconfiado de todos, egoísta ao máximo, pensava na mulher apenas como posse, na procriação apenas por herdeiro, na fazenda apenas por produção, nos empregados apenas como explorados.
Apesar de vivido e antenado aos negócios com seus contatos, nada letrado, Paulo desconfia das teorias, das conversas dos empregados, da relação da esposa Madalena com o professor Padilha. Bem simboliza o medo da ameaça comunista, fantasma comum que assola os produtores e empresariais brasileiros até hoje. Basta que se invoque a palavra comunismo para o delírio coletivo, pior do que barata ou rato em cozinha farta.
Paulo comprou tudo que pôde em vida. Uma fazenda, empregados, uma esposa por proposta salarial mais condizente a ela. Construiu e destruiu. Explorou, sugou e nada para alma colheu. Esfacelamento improdutivo. Solitário por cômodos vazios, casa grande despovoada, relações quebradas, paranoia a tudo que lhe escapa. Noto cenas em que ele aparece como último a saber, com certeza uma das piores sensações humanas. A sensação de passado para trás, de que algo importante acontece a suas costas. E as costas largas do produtor viam quaiquer transformações mundanas com o pessimismo se lhe escapavam o controle. A vida de um despreparado para a posição que ocupava. Um reino corroído pela miséria em volta e pela miséria moral em si mesmo. Um fosso aberto em volta de um castelo em que o isolamento afetava a si.
A história de ascensão e queda de Paulo. O distanciamento a todos. A desconfiança de funcionários, partidários, padre, letrados, quaisquer. A construção de um fantasioso e ganancioso mundo individual em que ao redor tudo era ameaça a seu umbigo. Uma personalidade desprezível ao mesmo tempo que pitoresca e curiosa, para descoberta dos limites da ganância humana. Uma personalidade que ao final revela o desejo por mudanças, pela quebra da rigidez que já lhe afligia, mas a impossibilidade de mudar sua árida mentalidade ao que passo em que exteriormente o mundo apresentava respiros de possibilidades e transformações além das armas e cartadas sujas. Será?
Vou alternando filtros
E bebendo menos litros de água
Do que deveria
Vou sustentando mitos
Eliminando outros
Aos poucos
Tudo é desequilíbrio mesmo
Alguns fingem
Ocultando as origens
As miragens, as esfinges
Alguns fingem
Colecionando brindes na lama
Deitando a cabeça na cama
E as pernas no travesseiro
Deixando a mente vagar
Rápida ou devagar: sem paradeiro
Tenho sede de rimar
Mas isso já sabes
Hábeis versos sem sentido
Formados como o pão pelo amido
Miolo invertido, tolo e vivo
Consolo a nós constantemente subnutridos
De alma
Lance o lanche que acalma
Falsa-me o favor
Com o tempo se percebeu que não há perspectiva de melhora contra os angariados instrumentos de ganância da humanidade. Há mais possibilidades, sim. Possibilidades dos ricos ampliarem seus impérios sobre a pobreza da grande maioria. Resorts em praias, multinacionais que dominam mercado contra os pequenos produtores. Streamings que ditam o que será assistido. Propagandas de spotify e youtube que obrigam, condenam o que será escutado independente da qualidade ou do gosto pessoal do ouvinte do outro lado da tela.
Algoritmos controlam que lerás e, principalmente porque é o meio dessa geração, que vídeos verás. Perdoem se aqui não descarrego novidades ou nem o melhor poder de síntese. Apenas o abatimento que não necessita sequer assistir a uma reunião do congresso para ser completado. Aliás, em Pelotas a Câmara de Vereadores virou notícia pela escassez, pela ausência dos parlamentares. Que futuro?
Eu poderia ter escrito muitos livros
Eu poderia ter movimentado muitas cifras
Eu poderia me sentir muito mais vivo
Eu poderia não ter sido Ivan Ilitch
Amy Winehouse era um case à parte
Ela só queria ter escrito músicas
(e cantado)
A indústria deixou Amy maluca
O mundo da música como um todo
É derrotado
Eu poderia ter me esforçado
Mesmo assim
Há coisas mundiais que eu não teria alcançado
O aquecimento engloba
Leis polêmicas se aprovam
E nós permanecemos anestesiados
Ouvindo Pink Floyd, Oasis
Dançando fado
Literatura russa participa
Da meiuca da minha vida
Tolstoi me destrói
Dostoievski é mestre
Gogol voa como um belo rouxinol
Em vou em direção ao gol
Ao céu, ao sol...
Eu voo em direções que não atrapalham
O serviço da Interpol
Navios e farol
Pavios e anzol
Pais e filhos pelos trilhos
Milharais, humilhações
Eu voo no sentido oposto
Da modernidade das construções
Em direções que causam desgosto
Aos coachs e aos signos dos leões
Eu espremo os supremos limões
Os oprimidos espremidos entre as multidões
A limonada é uma charada
Que não te servem
Mas bem te serviria
Eu poderia ter sido
Eu serviria
Eu iria onde não foi ido
Eu desviei das flechas dos cupidos
Eu cuspi escarrado escorrido
Eu corri e também fui corrido
Eu
Poderia
Ter
Sido
A verdade é que as pessoas são ruins. Sob condições de algum conforto, algum poder, são ruins, julgam as outras, se sentem superiores, isso sob qualquer condição, basta ver o que ocorria na favela do Canindé sobre as denúncias de Carolina Maria de Jesus ou quem mais nessas condições ousasse ou pudesse escrever.
As pessoas só parecem melhores quando acuadas, afetadas, contra-paredadas, frágeis, destrutíveis, manipuláveis. Aí parecem boas, dignas de pena. Sob outras condições mais favoráveis seriam as opressoras. Raros são os que não. Será?
E o velho lobo do mar disse:
Não sei mais conduzir-me por madrugadas - se é que um dia soube.
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Lavo capas de livro com o suor de minhas mãos.
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A luta dos cangaceiros é um império oco diante do poder do capitalismo estrangeiro.
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Só acha que é especial quem não conhece o resto.
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Conhecer a história da literatura e do cinema faz perceber que todas nossas lutas atuais já foram abordadas e a maioria das lutas silenciadas ao máximo.