Às vezes penso se terei memórias por muito tempo. Não pelo medo de esquecê-las, mas sim pela incerteza de se viverei mais muito tempo.
23/11/2022
Não quero falar sobre
Voltava de ônibus e prestava atenção ao assunto que me era inevitável ouvir. Um rapaz e uma moça falavam sobre concursos a serem feitos. Depois mais alguém se juntou à conversa, piorando minha realidade enquanto ouvinte. Detestei a forma como abordavam os planos de carreira. Eram centrados unicamente no salário. Praticamente só falavam em números, em cifras. Quanto se conseguiria tirar, quanto poderiam evoluir salarialmente. Números e mais números. Algoritmos retirados sabe-se lá de qual embasamento, algoritmos que surgiam com a imprecisão que os algoritmos não sugerem.
Certa vez li que na França é falta de senso comentar sobre (seu ou outros) salário com outras pessoas. Não sei se é verdade essa forma, essa cortesia francesa para repelir esse chateador assunto. Mas concordo com quem pensa assim. Hoje sofro com a realidade de não possuir um salário digno para minha existência. Meu padrão de vida em nada se encaixa no dinheiro que recebo, de forma que recebo o auxílio de meus idosos pais. Caso eu tivesse um salário mais elevado, não falaria sobre, sob a fiscalização e a aplicação de minha própria pena ao constranger os demais. Ou simplesmente pelo assunto não tomar contornos de meu exigente interesse. Já no fato de eu não ter o tal salário, eu, pobre diabo, quem saio constrangido. Apenas escutava a conversa animada dos futuros concurseiros esperando ansiosamente para a parada de algum deles ser nosso próximo destino, para cessar aquele falatório conflitante com minhas ideias.
Pouco me interessam desses cargos que não vou me candidatar. Aliás, os concursos eliminam a quase todos, com exceção da exceção. O vencedor garante a estabilidade. Todos os demais seguem zumbis a vaguear em busca do próximo concurso em alguma desconhecida no mapa cidade interiorana. Ademais, ms irritava a forma como tratavam empregos burocráticos que por si só já se demonstram maçantes. Mas para piorar o debate era apenas centrado no plano salarial. Nem sequer debatiam os benefícios ou as agruras de determinadas profissões a respeito das reais aplicações e implicações delas.
Falavam de tirar 5 mil limpos. Falavam do custo de vida inviável com 1.500. Calculei com o que posso fazer. Continuei apenas ouvindo e com o olhar direcionado para o lado de fora da janela do ônibus. Queria estar distante na rotineira observação urbana que faço a partir das laterais do coletivo, mas fiquei malogrado minutos pelas matracas.
Depois falaram mal da docência. E pensaram a carreira de professor também a partir do salário. Reduziram uma profissão tão complexa, tão edificante, tão desafiadora, tão enriquecedora a partir da troca de conhecimentos e experiências para uma pobre questão salarial. A profissão de professor que deve sim ser debatida e mais valorizada e não rechaçada de forma rasteira, unicamente a rejeitando porque de fato não paga bem ou não atinge o que pensam por custo benefício. Depois investiram para possibilidade de um emprego na política - "onde poderia mandar". Tá bom. Mandar, criar leis e ter assessores. Agora que me cai a ficha do desejo, da sede de poder que move os humanos. O poder está no dinheiro. O poder financeiro e as portas que se abrem a partir dele. Tudo pelo poder, não pelo prazer, não pela jornada, não por outras coisas, o lúdico que poderia guiar nosso cotidiano. Apenas o dinheiro como farol. Ou o poder de subestimar, subordinar e outros sub a outros humanos. Ser chefe e ter funcionário. Ter dinheiro e de alguma forma escravizar o conseguinte dependente. O sonho do opressor, andando de ônibus bancos atrás do meu, oprimir.
Felizmente em algum momento a conversa acabou. Ou até eu tomei a iniciativa de saltar uma parada antes. O sol ainda brilhava lá fora e minhas ideias buscaram novos bosques para se sustentarem. Quando não podemos vencer o assunto, a possibilidade de puxar a cordinha. Do ônibus, para descer antes.
20/11/2022
Caminhada rápida por novembro
Caminhada rápida para buscar itens básicos de sobrevivência (frutas) no calor de novembro. Fui pelas quadras que agora tão bem conheço, deslizando a cada bloco até a fruteira que eu esperava encontrar aberta. Mas não encontrei. Tive que fazer o retorno disfarçadamente para meu diminuto público como se ali não fosse meu destino inicial. Não me permito essas pequenas vergonhas, embora sofra hoje com as maiores. Ou o nervo de minha maior catástrofe não se chamaria pudendo.
Enfim, contornei por outras quadras, arriscando trajeto que ainda pouco tenho conhecimento, desviando pela Rua Três de Maio. Ela apresentou calçadas irregulares como as outras, com uma subida pouco íngreme e o calor cobrindo a rua fortemente, como uma capa aprisionadora. Pelo caminho, aos fins de semana, é normal topar pelas ruas com catadores de papelões ou plásticos. Procuro tentar identificar o que cada um carrega em seus carrinhos de ferro ou charretes. Observo que alguns carregam apenas o saco, em quantidade bem menor que seus companheiros. Outros batalham em carregamentos cheios, sol a sol, chuva a chuva. Lixeira a lixeira. Já os vi conversando sobre se o trajeto em questão valia a pena ou seria perda de tempo. Interessante a comunicação. Um ajuda o outro. Não adianta passar por onde outros vários passaram. Mas lixos e luxos se misturam também.
Medi meus passos na hora de passar por outra venda. Calculei que infelizmente chegaria quase emparelhando ao cidadão de carrinho quase cheio (ou seja lá a qual limite ele se submeta na árdua luta diária). Entrei finalmente na venda e perguntei em voz baixa sobre as frutas, que me foram apontadas uma a uma até completar minha pequena missão. Enquanto aguardava que o senhor de cabelos grisalhos me servisse mais um copo de salada de frutas, o trabalhador que passava simultaneamente à rua havia desaparecido de minha vista. Não voltaria a encontrá-lo nesta ocasião, mas possivelmente em outra, pelo bairro revisitado.
Em posse das frutas, dei o dinheiro, recebi o troco e segui minha breve caminhada com o destino de volta. O calor estava de rachar e eu certamente não aguentaria grandes distâncias, com o menor que fosse o carregamento a suprir. Ao cruzar pela esquina da Almirante Tamandaré, onde foi oriundo o importante movimento Sofá na Rua, avistei lá para baixo da quadra um par de pessoas, sem conseguir identificar de quem se tratava. Poderiam ser crianças brincando, poderiam ser usuários de droga à luz do dia, ou somente adultos desiludidos, cabisbaixos, sentados ao meio fio a refletir. Todas as possibilidades, embora antonímias, me evocam uma tristeza, uma espécie de nostalgia.
Caso sejam crianças, lembro que minha infância não foi nas ruas do centro ou em rua alguma. Muito mais tempo eu passei em casa, com saídas ou na companhia de meu pai para jogar bola, ou na praia, mas nunca muito distante da casa de meus tios no Balneário dos Prazeres, vulgo Barro Duro. Esse distanciamento das ruas causa-me essa nostalgia. Não tenho mais esse tempo que passou, jamais o teremos de volta. As crianças ainda terão, sabe-se lá a qual custo futuro nesse mundo incerto. Mas meu tempo foi esmigalhado, sobra-se nada entre os dedos das mãos. Tudo que pode ser evocado desse tempo está no campo do imaginativo.
Outra possibilidade levantada de quem seriam aquelas pessoas ao longe no semi-abrigo do sol foi de que se tratavam de usuários de droga. Proposta oposta ao povoamento da solitária e desértica rua com crianças. Os usuários de droga tem-se falado - não tenho visto - andam por espaços na rua Benjamin Constant. Mas não só por ela. Recordo que na própria Três de Maio, em direção ao bairro ferroviário Simões Lopes também estão. Procuram lugares isolados para seus cultivos e usos. Podem procurar vítimas, para saciar seus vícios. Não seria bom dividirem o espaço com as crianças que também especulei. Apostas diferentes.
O terceiro grupo eu mais me identificaria, entre os adultos simplesmente cansados ou desolados, apenas tirando um tempo para organizarem os afazeres, as ideias ou a vida como um todo. Sentados à beira da calçada, mirando os próprios sapatos gastos. Mirando os gastos em contas de cabeça ou de acordo com o que lhe sobra dos bolsos. A vida adulta talvez não seja tão mais difícil do que a imaginada quando se tem a idade dos de primeira hipótese. Mas é um acúmulo de situações com as quais lidar. Ainda estou estudando, preciso comprar o que me alimenta, o que visto, o que uso como produto de limpeza, corporal ou do apartamento. Mesmo os mais pobres, ninguém se imagina apenas catando papéis ou plásticos pelas ruas desertas de um fim de semana no centro da cidade, mas esta é a realidade de milhares, talvez milhões de brasileiros. Eles aumentaram pelas vias urbanas nos últimos anos, pessoas que perderam casas ou tiveram que ir à caça de como se virar no cotidiano, atrás de trocados que já não servem e precisam notas de dinheiro. O que se compra hoje em dia com 50 centavos? O que se compra hoje com dois reais? A nota de dois reais anda tão surrada quanto as desaparecidas de um real, as verdinhas substituídas pelas generosas moedas.
Hoje crianças brincam, amanhã também serão adultos desolados. Alguns perderão bondes pelo caminho e serão os usuários das ruas desertas em busca de vítimas, em busca de como saciar os vícios criados. Mas mesmo os não viciados precisam dar um jeito nesse estranho vício que o corpo possui em se alimentar, nessa mente viciada em tentar ser alguém, em traçar e conquistar objetivos nesse mundo complicado, de sonhos que se diluem, de perguntas que mudam e nos deixam com respostas insatisfatórias em nossas mãos suadas, marcadas e a cada dia um pouco mais calejadas com as agruras enfrentadas. A distância entre o que se sonhou e o que se viveu, as folhas que caem, as flores que murcham, os cães e as pessoas sob a terra. Os olhos baixos, o vento que assovia, o andarilho que passa distante, pessoas que fingimos não ver. Pessoas que também não nos veem, pessoas que nos ignoram, pessoas que fingem não nos ver. Pessoas que cruzam por nós em tardes de calor em novembro.
Pessoas que descascam frutas, pessoas que também são as mesmas que servem o troco do dinheiro que circula de mão em mão. Crianças que brincaram de ser polícia ou ser ladrão e mais tarde algumas delas prestarão concurso para serem policiais, mas outras serão ladras mesmo. Alunos que viram professores, pessoas que jogam o lixo fora e talvez no futuro tenham de catá-lo. Pessoas que separam o lixo e pessoas que não separam. Pessoas que jogam coisas proveitosas fora e pessoas que esgotam as possibilidades de consumo dos recursos, de reutilização. Pessoas que nos chamam atenção, mas jamais lembraremos ou jamais saberemos se realmente já a vimos ou se é a primeira vez, porque certamente as cartas se repetem entre as ruas atravessadas em sinais de pare, em carros freados e sinais vermelhos. Rostos marcados e rapidamente desmarcados. Rostos com marcas que somente a própria pessoa saberia explicar, entre a violência, o sol, o tempo, o trabalho, as rugas, as lembranças, as fantasias e as desilusões. Rostos voltados para baixo e que me impedem de vê-los enquanto passo pela Rua Almirante Tamandaré seguindo pela 15 de Novembro, me brotando dúvidas insaciáveis e pouco relevantes. Quando o sol está muito forte, tendo a sair sem óculos e ficar na penumbra de respostas que a quase todos pouco importam.
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| Rua Almirante Tamandaré, local de nascimento do Sofá na Rua e deste singelo texto Foto: Divulgação / Sofá na Rua |
O poeta morto aos 27
Cheguei diante daqueles portões. Perguntaram meu nome por formalidade. Acho que eles sabem tudo. Conferiram meu registro geral na lista deles. Deixaram-me passar. Do outro lado daquelas elevadas portas estava pronto para reencontrar os poucos que conheci bem e também haviam partido. A maioria de mais velhos, bem mais velhos.
Já tinha ideia de algumas reações, que se confirmaram ou não. Tia Hildegart havia sofrido muito para partir aos 80 que eu chuto terem sido sete. Ela foi se apagando lentamente. A mente e o corpo lhe escapando dos domínios. Mas restituiu sua boa forma. Estava saudável e mais jovem até do que quando a conheci na mais tenra idade. Quase não a reconheci. Mas ela obviamente me viu, um pouco modificado pela barba de crescimento falhado e os óculos que eu mantinha a dúvida entre usar ou não.
- O que está fazendo aqui? - Ela me inquiriu.
Certamente não estava pronta para me ver naquela ocasião. "Pois é", apenas lhe disse.
- Mas é tão cedo para ti. Que absurdo!
- Foram 27 anos. Eu já não estava bem.
- Vivi mais do que seu triplo.
- Também tenho feito muitas contas.
E realmente meus cálculos indicavam que eu havia pelo menos vivido por dois cachorros. São as situações da vida. Ela me abraçou e nos olhamos nos olhos. Um primeiro reencontro familiar.
O irmão de titia era muito mais indiferente. Gastou o dinheiro de minha bisavó na promessa de cursos e formações. Curtiu boa parte da vida em um clima de descompromisso. Acabou a vida muito mais rejeitado. Usou finanças que poderiam ter melhorado a vida de tia Hildegart e minha avó, irmã deles dois.
- Deveria ter aproveitado muito mais - disse ele, com a voz recuperada de uma forma que eu jamais havia escutado. Ele passou por cirurgias de garganta e sistema respiratório que fizeram com que sua voz sumisse, respigando somente filetes de suas intenções de fala. Agora eu o escutava.
E balbuciou mais algumas prepotências que eu quase desejei que perdesse a voz mais uma vez. Estava de bom tamanho aquele reencontro. Lembro que sofri um pouco sua morte, mesmo distante e em uma situação precária a que se encontrava. Faleceu na região metropolitana da Porto Alegre eleita por ele como cidade de sua maior vivência após o nascimento em Pelotas. Aos cuidados de uma pessoa paga para tal função, coube às filhas prepararem o conseguinte velório. Minha mãe e minha tia foram a Porto Alegre em uma ocasião em que minha mãe conheceu o então Olímpico Monumental de outro ângulo, do alto da funerária, casas comuns no saudoso bairro da Azenha e arredores. Estranhou aquele estádio azulado um pouco distante, diante de si pelo vidro como se fosse uma singela maquete de brinquedo.
Tio também era gremista, contrário à minha tia-avó e minha avó, coloradas de olhos castanhos. Ele tinha muito o hábito da leitura e, sapiente de meu apreço também pelos escritores, me encaminhou para sua biblioteca pessoal paradisíaca, a qual revelou que para mim sempre estaria em portas dispostas.
Da minha família, bem recente foi o reencontro com minha madrinha, vítima de um câncer que se alastrou e a comprometeu para eternidade. Passados os 70 e nas condições precárias de seu corpo, ela também havia retomado sua desejada juventude, tão saudosa para ela. Minha madrinha costumava mentir a idade ou ao menos escondê-la. Escamoteá-la também poderia aqui ser o termo empregado. Viveu para fora e sempre cuidou dos pais dela. Teve uma vida até então reservada, apesar das saídas e do apreço pelo álcool, algo que nunca escondeu. Socialmente, como se emprega nas lábias populares.
Me recebeu entre a euforia de rever-me e o lamento da precocidade. Diferente deles, todos finados na terceira idade, eu ainda não tinha década de vida adulta.
- ó, meu afilhado - lhe cabia exclamar a dinda. Queria saber logo o que passou e não passou. Eu, sem graça e esquivo, tinha o que lhe confidenciar e o que esconder. E queria mesmo era sair desse ambiente familiar um pouco asfixiante, ambiente o qual logo eu poderia retornar, já que estávamos todos ali transpassados os portões. Queria descobrir sobre as demais pessoas que conheci.
Mas logo também perceberia minha volta aos entornos familiares, pois das demais pessoas quase nenhum contato tive nem pretendia ter. Voltaria eu para o melhor humor de minha tia-avó Hildegart após ter visto os dois lados dela, em que predominava o humor mais azedado com os convivas. Retornaria com gosto para o convite da biblioteca de tio Hildebrant.
De Santa Catarina também tive tios que partiram. Os bem-humorados gostavam do álcool. Um deles bastante saudoso de minha parte, justamente o mais jovem de nascença daquela fileira de tios. Ele até recuperou um cabelo desconhecido de quem só o viu na idade adulta. As entradas preenchidas. O sorriso no rosto era o mesmo. As piadas e os deboches também. Era bom revê-lo dessa maneira.
Uma dessas tias, a que morava em Laguna e daquela cidade havia nos deixado um tremendo vazio ao passarmos pelo ou cerca do bairro em que morava, essa havia reencontrado seu marido, amor de sua vida. Eles tagarelavam bastante. Era o esporte de ambos. Falavam de deixar o interlocutor torto de tamanha verborragia. Agora novamente juntos poderiam exercitar o falatório na revista a amigos do casal e também conhecendo novos ocupantes daqueles nimbos esvoaçantes.
Um sentimento me acossava tristeza, o fato de ter sido o mais jovem pelas famílias de pai e mãe a morrer. O lanterninha. O Xavante na Série B 2021. O Juventude na Série A 2022. Nem passar dos 30 - no caso, para eles, pontos - era a piada que eu utilizava na época. Nos pontos corridos realmente acumulei muito pouco de vivência, embora tenha ido a uns shows, namorado ao fim da vida e presenciado alguns eventos esportivos, mais vistos do que jogados.
Para mim, era inútil comparar minha curta vivência com as de meus antepassados, com as pessoas de gerações anteriores, as primeiras que encontrei ao cruzar os enigmáticos portões. Queria eu interagir de alguma forma com os que presenciei em escola e vivências juvenis, mas poucos eram, na verdade, os que conheci e haviam partido.
Vitor era um dos que incomodavam na escola. Nome comum na boca dos professores e até de conhecimento de coordenação e provavelmente direção - embora a idade avançada das diretoras impedisse que se dedicassem a finco às questões de cada insubornidado aluno. Vitor era um menino negro, como haviam outros meninos negros na escola, principalmente naqueles últimos anos em que estudei. Não chamaria tanta atenção em uma lista de destaques entre os estudantes, pois, embora matreiro e provocativo, haviam outros mais matreiros e provocativos, creio. Ou me equivoco. Pois melhor lembrando é possível que ele encabeçasse uma lista semelhante à dessa hipótese. Fato é que não se pensa um sujeito desses morrer tão cedo. Mas as estatísticas estão aí e suas escolhas contribuíram ao fatal desfecho. O envolvimento com drogas posicionou Vitor nesse ranking de um dos primeiros a nos deixar. Eu já não sabia mais sobre seus paradouros, mas confesso que também não foi a maior emoção que experimentei, saber que esse havia partido e por conta do motivo descrito. Envolvido com o tráfico, foi baleado pelos infratores que estavam dentro de um veículo. Cena de filme. Vidros baixados, cano devidamente posicionado enquanto o vidro desaparecia no pequeno vão que lhe cabe. Onomatopeias, talvez algun escândalo na vizinhança. Aquelas escadas pintadas em meios fio de verde, e com a calçada propriamente cinza do concreto, foram tingidas do vermelho-sangue. Vitor partiu muito cedo. O vi de relance. Estava de boné pra trás, sorriso não mais metálico, olhos arregalados como bem me lembro. Era novamente o Vitor dos tempos de escola. Não sei se me reconheceu, pois não éramos de mesmos convívios.
Outro Vitor, de primeiro nome João, também havia morrido durante o período da escola. Este nos pegou de surpresa. Eram férias e o garoto branquelo de topete e poucas palavras, estava nos campos com sua família. Acabou dizimado em um episódio o tanto quanto estranho. Ao manobrar um trator, acabou tombando roda em um buraco e não conseguiu manobrar o veículo de volta. A capotagem o feriu gravemente e dizem que a própria expressão facial não serviu para o enterro. Uma tragédia que mobilizou a comunidade, mesmo que ele talvez não estudasse mais em nosso espaço para o ano seguinte. Era tido como um bom jovem. Repito que de poucas palavras e, para aqueles mais arteiros, servia de obediente para planos mais ousados. João tinha alguns amigos que ainda devem lembrá-lo mesmo década depois.
Outro caso que aqui recupero é mais recente. Um ex-namorado de irmã de amigo. Foi encontrado assassinado em uma estrada da cidade. Foi encontrado dias depois de seu desaparacimento. Sempre aquela história. Alguém passava pelo local, sentiu o cheiro que se alastrava por metros que já deviam ultrapassar dezena. Um pouco de investigação e eis o corpo. O reconhecimento. A notícia que paira nas páginas policiais de nossos jornais impressos locais. Este jogava futebol muito bem, pelo menos para época. Mas também recordo que jogava conosco, que éramos mais jovens. Portanto, ele se sobressaía. Demorei a associar o nome quando o vi em notícia pela internet. A foto bateu um pouco com minhas lembranças e eu já não tinha mais dúvidas. Lamentei o ocorrido, ele que eu nunca mais havia visto. Sempre chocante redescobrir pessoas em ocasiões caracterizadas por um ar tão denso e pesado. Ao mesmo tempo, não cometerei a hipocrisia de ocultar que também é uma excitação, uma adrenalina se sentir parte de um ocorrido dessa magnitude. Também é um momento em que as pessoas abraçam os seus, agradecendo pela atrocidade não ter passado com nenhum deles. Poderia ter preservado o nome de todos, mas pelo menos deste preservarei. Mas, ao que me consta, ele havia passado, sim, a casa dos 30 anos, diferente da minha pessoa.
Obviamente vamos passando pelos metros que nos separam do portão dos vivos e vamos relembrando. Outro cujo nome iniciava com P era também muito bom jogador e posso afirmar que de atuações contra pessoas de sua mesma faixa etária. P ainda é relembrando por amigo(s) em comum nas redes sociais, talvez passado seu aniversário de nascimento ou de morte. Joguei bola com eles em algumas oportunidades. Eram mais velhos, mas confiavam em meu trabalho de guarda-redes. Jogávamos muito no Ginásio do Spieker, finado complexo esportivo - sendo bondoso - na baixada da escola estadual Assis Brasil, com entrada pela Avenida Juscelino Kubitschek. E que saudade das boas peleias que não voltam mais e do tio, de aspecto boliviano, que cuidava a quadra, recebia os trocados e também fazia ligeiros e protocolares trabalhos de limpeza no espaço.
P era um de nossos melhores jogadores. Agora misturo completamente a memória com os acontecidos. Não gostaria de ser injusto. Mas pode ter sido uma internação por drogas ou pode ter sido apenas de sintomas psiquiátricos bastante agressivos. Pode ter sido também separação familiar, problemas com envolvimento, como com padrastro, por exemplo. Posso misturar todas essas sentenças até a derradeira ocasião que o vitimou com um tiro policial na cabeça. Ele estava atendido em um hospital e foi agressivo com enfermeiro. O caso voltaria para ações policiais e eles não tiveram dúvida, na hora H, em disparar. Com a bala na cabeça, perdíamos P definitivamente para partidas que nem cogitávamos jogar, mas hoje sentimos falta. Seus amigos mais próximos, sem dúvida, choraram essa perda. Eu novamente fiquei em choque, novamente atormentado pela estranha excitação que exponencia essa sensação de conhecer e fazer parte, de alguma forma, da notícia. Ter algo a acrescentar, ter algo a relatar, a compartilhar com outros que ficaram sabendo ou que só ficaram sabendo justamente porque, em algum momento, colocamos esse assunto à tona.
Mais do que dele, de minha parte, relembrava nostalgicamente esses bons momentos. Quando me sentia útil na função de guarda-metas. Quando era requisitado, às vezes insistiam, pela minha presença. Mas eu sempre me sentia meio deslocado, independente do grupo, na hora das conversas, tanto pré como principalmente pós-jogo. Não fazia parte de nenhum grupo de forma mais fechada ou definitiva. Mas gostava de me sentir útil, de imaginar as partidas como grandes decisões, de ficar relembrando meus lances. Rememorando quando a adrenalina baixava e voltava para casa. Colecionava roxos nas pernas, dores e boas sensações provindas delas. Colecionava defesas, atacantes que saíam decepcionados, às vezes surpresos por eu conseguir ter agilidade ou inteligência para buscar onde jogariam a bola. Era sempre um prazer. A vibração da bola colidir contra seu corpo, contra sua perna, contra seu braço, até defesa de cabeça que eu já havia feito e, comum que era por vezes, sofrer uma bolada no rosto, justamente posicionado onde seria dado o arremate a ser bloqueado. Faço voltas assim relembrando de minha passagem, para chegar ao ponto que a turma de P havia inovado um apelido para mim: Van der Sar. Um goleiro que gosto em um clube que detesto, o Manchester United. O holandês realmente possuía história, embora tenha também bloqueado o caminho vencedor do meu Grêmio em 1995.
Outros nomes eu havia recebido anteriormente, entre Victor, do Grêmio, futuramente do Galo, Lehmann, o próprio Van der Sar e até De Gea, outro do United, até pendurar as luvas. Passei os últimos anos de minha vida saudoso desses jogos e das defesas que praticava, e de como eu conseguia me movimentar de forma satisfatória. Ali, naquele céu, ninguém me conhecia o suficiente para ressuscitar tais momentos e eu teria de esperar mais anos por isso. Tampouco sabiam de minhas habilidades descritivas e inventivas de analogias, tais quais as que aqui presto em carta de minha chegada ao outro lado dos portais gloriosos - que tanto nos prometem. Assim foi minha chegada ou assim será, ou ao menos assim espero que seja, pois minhas malas parecem cada vez mais arrumadas para o inevitável destino.
15/11/2022
Lua de Pel
Nós dois juntos num ap da Cohabpel
A avaliação desse mundo é uma lua de mel
Me apresento, não represento nenhum papel
Lugar no mundo não encontrei melhor
Daqui ao céu
Encontrei minha cura é nos braços seus
Muito além daquilo do que se procura
A redenção em atos em uma só figura
A proteção como uma bolha dessa vida dura
A diagramação ideal, a arquitetura
O remédio, o remar contra as agruras
Nós dois juntos num ap da Cohabpel
Com você, o sabor, o melhor do mel
As estrelas você vê, me ensina o melhor do céu
A constelação na visão pelo quarto andar
As gatas no jardim, grama pra cortar
Eu procê, cê por mim, é melhor assim
Noite tem, quando vem e não tem mais fim
Posição, procissão, profusão
Proeficiência é a questão em rimar ou não
As estrelas iluminam a escuridão
É você que me anima, mia arrecadação
Felicidade que encontro em cima do colchão
Num almoço, num jantar ou fora de hora
A prisão do teu olhar vai que me devora
Ao meu lado seu casaco és minha senhora
Nós dois juntos num ap na Cohabpel
Nós dois juntos num ap na Cohabpel
Trago a pasta, tiro a máscara, tiro meu chapéu
O mundo inteiro se afasta desse aluguel
Barulho lá na praça, moto se perdeu
Mundo existe assim distante como é o céu
Pudesse alcançaria ao alcance meu
Comparar pra provar que é nada ao seu
Seu olhar, seu luar, tão melhor que o céu
Ao redor, o sabor, a lua de mel
Nós dois juntos num ap na Cohabpel
Oito bilhões de pessoas
Hoje a Terra passou de 8 bilhões de pessoas
E nosso ser / nossa voz ressoa de forma única
Ou não calça a mesma ou não veste a mesma ou não mede a mesma túnica
Não tenho mais muito tempo
O resto da humanidade ainda tem
Mas não sou o resto da humanidade
Sou um resto de mim mesmo
E nada além
10/11/2022
Exposição: Dia de Copa no Interior
Fotos de Pelotas 1x1 Monsoon
E Pelotas 3x0 Três Passos
Pela Copa Tarciso Flecha Negra
No estádio da Boca do Lobo
Fotos de Henrique König
Canto de Torcida
05/11/2022
Roma, Cidade Aberta (1945)
Roma, Cidade Aberta. Filme de 1945. Parece muito propício para o que vivenciamos em 2022. Para o que ainda vivenciaremos. O filme se aventura pelas ruas de uma Roma ocupada pelos alemães na Segunda Guerra. Eles investigam opositores em busca de prisões e confissões. A história nos leva até um prédio e uma relação conturbada de Giorgi Manfredi, que vivia naquela construção, mas também vivia ausente. Que iria se casar com Pina, mas também andava com a dançarina de cabaré, Marina.
O personagem que parece tomar o protagonismo para si é o pároco Dom Pietro. Ele coloca os valores cristãos sempre em primazia. Quando questionado de como proceder em determinada situação, encontra uma saída com os ensinamentos de Cristo. É assim em palavras com a conhecida comunitária Pina. É assim até as sentenças finais, para Manfredi e para o padre.
O pároco tem restrições a métodos empregados, tanto da violência dos opressores, quanto dos métodos de resistência (como roubos a padarias) por parte dos acuados oprimidos. Mas Dom Pietro sempre deixa claro que tem lado e talvez os mandamentos se adaptem conforme as ocorrências. O mundo é mais complexo do que escritos absolutos sobre uma tábua.
As crianças também atuam, no melhor estilo de grandes filmes europeus posteriores, como o italiano Vítimas da Tormenta (1946) e o francês Os Incompreendidos (1959). Ou de grandes sucessos internacionais do cinema iraniano. A trama se desenvolve confusa em seu início, mas logo as peças não são difíceis de juntar. Conseguimos identificar denunciados e denunciantes, na atuação mordiscante da polícia alemã, Gestapo.
Além da exaltação de um cristianismo minucioso e portentoso nas decisões e dedicações de Dom Pietro, também habita o questionamento dentro da própria Gestapo e dos nazistas, por parte de um velho comandante beberrão, que justifica que justamente por estar bêbado recorda o que queria esquecer e acaba por dizer a verdade. Relembra missões anteriores e que a Europa tapou-se de cadáveres a troco de uma crença que nem ele consegue concordar mais. Obviamente a fala abala os militares em exercício, mas o procedimento, a máquina, o método não pode parar.
Entre as tensões do filme estão as prévias das investigações, as visitas até a ocupação do prédio, cenário maior da trama. As tentativas de fuga. Os diálogos. As traições entre romance, crenças e patriotismo. Resistência em busca da liberdade.
Para o final, Dom Pietro novamente reluz de protagonismo ao não se preocupar com a forma como pode morrer. "Não é difícil morrer bem. Difícil é viver bem." - Postula o padre, após observar tanta dificuldade de quem batalhou contra a fome, de quem tenta resistir a um regime autotitário e reconhecido até por seus atores como facínora e mortífero. Frases para história do cinema e filosofias para vida de todos nós.
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| Filme é do diretor Roberto Rossellini, mas tem também as assinaturas de Federico Fellini e Sergio Amidei |
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| Dom Pietro Pellegrini, interpretado por Aldo Fabrizi |
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| Anna Magnani tem atuação magnânima |
04/11/2022
Personagens e suas falas
Podem perguntar porque meus personagens não têm muitas falas. Porque não uso muito travessão ou aspas. É que gosto das falas fidedignas, como exatamente foram. Se não lembro bem, prefiro não arriscar quais palavras foram utilizadas.
Ah, mas e os personagens que invento? Aí também os respeito muito. Não sei se eles diriam com a precisão que preciso decidir no papel. Complicado inventar por eles. Eles são tão independentes...
01/11/2022
Estrada no norte de SC
Voltava pela estrada no norte de Santa Catarina. Vinha no banco de trás de uma condução. Algo que se assemelhasse a uma carruagem em que as pessoas são transportadas em um compartimento, algumas sentadas lateralmente em relação ao cocheiro. Mas vinha eu acompanhado de outros passageiros quando nosso veículo foi obrigado a reduzir. E não só reduzir, mas obrigado a parar. A fila se formava. A vista não alcançava mais o início para frente. Logo não se enxergaria o final, mesmo que a poucos instantes ali percorressem. A inspeção era rigorosa. Ou fingia ser. Os homens abordavam direto ao banco do motorista. Pediam documentos. Trocavam palavras. Às vezes trocavam olhares entre eles e devolviam os documentos. Às vezes trocavam palavras sussurradas entre eles. E talvez não devolvessem o documento. Me acompanhe, por favor.
E assim percorreram alguns carros, mas aparentemente liberavam a passagem de todos. Mas logo eu descobriria que eles retinham pessoas. Por sorte, nenhuma era motorista solitária e a fila de carros assim continuava em prosseguimento, avante. Mas então chegou nossa vez de vasculharem. Fomos interrogados. Meus pares apresentavam a documentação para o policial que insistiu em entrar em nosso compartimento. Naquela invasão de privacidade ele observava os documentos sem maior interesse. Então deteve-se à minha pessoa. Pela simples declaração de meu nome houve um estalo de interesse. Talvez ele tenha mesmo estalado a língua entre lábios, entre dentes. Ali estava algo que procuravam. E eu era este algo.
Tive que ouvir um daqueles corteses me acompanhe por favor. E acompanhei somente pelo favor que me pediam, porque de meu corpo não dispunha vontade alguma de ser encaminhado a mais perguntas. Anotaram o número do qual pertenço de forma escrava desde que criado meu registro geral. Respondi que era gaúcho apenas de passagem breve pelo estado vizinho. Mas eles sabiam um pouco mais sobre mim e sabiam que isso não era bem a verdade. Eu já constituía parte da população, votava ali e saberiam eles que já era parte do censo demográfico, retomado com atraso na região. Em 2020 eu não seria deles. Agora era.
E estava nas garras desses oficializados. Um deles, cabeça baixa de escrivão, boné posicionado praticamente lhe ocultando os olhos, me perguntou mais algumas bomba-relógio, sobre minha orientação em voto e preferências políticas. Não engoliram novamente as respostas ou, se fingiam engolir, logo regurgitariam. Eles sabiam mais do que aparentavam.
Pois logo vi que no trancamento da rodovia os oficializados não estavam sozinhos. Camisas verdes e não obstante amarelas os acompanhavam. Estes fazendo o favor por livre e espontânea vontade de estarem ali em pleno dia de semana, dia útil e mesmo assim paralisando a bendita cuja da economia. Pessoas alegres de sorrisos estampados, de faceirice tentando ser meiga, praticamente com máscaras costuradas à base de botox por sobre o colarinho verde de suas estampas amareladas. Mulheres loiras, homens com alguma rotina de academia, idosos que ignoravam alertas anteriores para permanecerem em casa. Esses rebelados em avalanche bicolor pretendiam atazanar com nossas vidas e cumpriam com o objetivo. Retrasados na estrada, talvez meu comboio prosseguisse com a naturalidade que eles gostariam supor, mas eu estava represado naquele conluio de lunáticos - mais uma vez com todo o devido respeito à lua.
Eles me pediram a identidade novamente e logo percebi que eles se adonariam mais dela do que eu. Esvaziei os bolsos e percebi que nem os últimos halls seriam de minha posse. Uma das abrasileiradas com mentalidade entreguista ao estrangeiro apareceu sorridente, farsante com uma lista de sites. Pediu para que eu identificasse endereços virtuais, dos quais eu desconhecia quase todos. Certamente não era o meu histórico. Mas talvez um suposto histórico em comum. Mas então na página 2 daquele conjunto grampeado me deparei com uma senhora surpresa. Cá estava o nome de meu blog em algum texto provavelmente com críticas nada amigáveis aos marcianos - com o devido respeito à Marte.
Por impulso exclamei e logo percebi que minha identidade estava mais entregue que o gol do título ao Palmeiras na final da Libertadores 2021. Mas tão logo exclamei tentei fechar minha impulsiva matraca e desviar o foco, que eu fiz crescer através de meu dedo, que roçava o papel com o bico do indicador sobre o nome de meu blog. Então tentei disfarçar que na verdade eu teria acessado barra visto o nome do site abaixo. Daquele bloguezinho mixuruca eu nada sabia, nem ideia de quem fosse.
Mas engoli em seco e fiquei torcendo para que os patrulheiros e demais enxeridos engolissem essa. Engoli sonoramente em seco implorando por uma água ou um veneno que me acalmasse ou resolvesse uma saída àquele aprisionamento. Eis que na reza que eu teria silenciosa, a moça morena de camisa amarela havia chegado a um veredito. Risonha como uma assistente de palco na televisão dominical, ela veio conferir o que eu havia mostrado. Com a caneta a sublinhar ela havia revelado que eu era muito bobo mesmo e nem havia precisado de tortura (conclusão minha) para indicar os temíveis segredos.
Qual não foi meu alívio quando ela repassava o papel ainda ao alcance dos patrulheiros mostrando que eu havia participado era do site abaixo de meu verdadeiro blog. Eu na verdade naquela gama de impulsos não sabia se a troca de meu incriminatório blog por outra página desconhecida era uma boa escolha.
Lembrei de meu nome e onde apareciam (em fotos) em meu blog. E lembrei de meu microblog. E lembrei de minha família. E lembrei dela. E recordei o quanto era possível e viável recordar em passagens como um filme diante de meu atônito e embaçado par de olhos. Acho que eu não veria mais eles.
Me acompanhe, por favor.
28/10/2022
O inesperado
Aprendi com os roteiros da vida que as coisas podem ser na hora esperada ou podem não ser.
Há coisas ruins que atraem outras e há coisas ruins que vêm de surpresa, quando menos se espera.
Há coisas boas que puxam mais alegrias e há coisas boas que surgem quando tudo parecia perdido, como um incentivo a prosseguir.
Enquanto escrevia essas frases, a gata Melissa começou a imprimir uma bola de pelo para cuspir. A coitada acordou engasgada, mas parece que já voltou a deitar-se confortável. Eu não esperava isso.
26/10/2022
Inferno de antes
Faz muito tempo que eu não faço poesia
E como era
E como seria?
Há muito tempo não sorrio todo um dia
E quem me dera
E quem diria?
Se eu quiser isso aqui é um forró
Como é que pode
Mas tenha dó!
Hoje eu e André levamos um cão para sala
Era aula de latim
Não de latir
Nos seguiu porque queria uma mordida
No nosso hambúrguer
E não nele
Faz muito tempo que eu não faço poesia
Essa eu passo
E volta fria
Há muitos dias não sorrio todo um dia
Mas de que jeito
Anatomia
Há muito espero um ataque fulminante
E vem depois
Não veio antes
Prepara o inferno tá chegando mais um Dante
O quanto antes
O quanto antes...
Por ora apenas sou
Escrevo mais uma madrugada envolto de pouca saúde física. Creio que em algum momento terei um ataque fatal que me deixará sem defesa, de cartas postas na mesa. Algum dia não poderei mais escrever aqui. Queria ter chegado aos 30 anos, mas não me parece que será possível. Encaro a proximidade com a minha morte como um processo natural, mas não deixo de lamentar o fato de que ainda sou um pouco jovem para isso. A expectativa de vida na população é entre o dobro e o triplo da minha idade.
Penso que alguns amigos e outros tantos conhecidos estarão vivendo os efeitos do tempo, alguns mais gordos e flácidos, outros calvos. As mulheres também perdem sua juventude. É assim há mais séculos do que temos registros precisos.
Caso não estivesse escrevendo nesta madrugada, estaria assistindo aos desfechos de O Poderoso Chefão em 1990. Desta vez os Corleone se envolvem com Mancini, que força a entrada para família também em busca da filha de Michael Corleone. Os tribunais forjadamente injustos e os dramas familiares me desinteressam, para desespero dos demais críticos ou de quem possa parar aqui. Não é uma sequência de filmes que me despertou, que me deixou atinado. Para além dessa frieza que contrasta com o sangue que ferve pela família, estava mais envolto na atmosfera de algum Scarface, queimando tudo por Miami.
Também aqui queimo as linhas que logo depois posso me arrepender. Mas como comecei sem saber até quando terei a saúde e a condição da escrita, me permito alguns (des)embaraços e exageros. Com a minha vida, para quem desconheça minha condição de saúde, sigo desempenhando mais tarefas do que a maioria seria capaz. Um dia, ou não, isto será grifado. Se eu tiver um obituário como me sonha desempenhar para os outros que partem, minhas atividades serão supervalorizadas, o que contrasta com meu salário mirrado e com a falta de interesse deles hoje pela obra que deixarei.
Talvez infinidades sejam melhores do que eu, mas confesso que onde pus esforço e algum raro empenho, me saí sempre entre os melhores. Desde a prova do IFSul no final de 2009, em que ingressei em 2010 talvez com a ou uma das melhores notas de toda região sem passar por cursinho preparatório. Sem estudar mais do que estudava na escola, calculei meu desempenho como o 15⁰ melhor da região, caso me engane. Sem curso preparatório - nota, em mais de um sentido, do autor.
O vento sopra forte lá fora. Acho que desisto de pensar que significa algo porque o tempo nessa cidade está sempre aprontando. Discuto com ela e vento. Falece um familiar e chuva. Minha tia briga com alguém e vento. Vejo uma cena tensa na televisão e chuva. Gol do colorado e vento. Gol que leva o Grêmio e chuva.
O Inter não vai levar o Campeonato Brasileiro 2022, mas está cada vez mais maduro para voltar a conquistar algo grande. Não podemos dizer que não aproveitamos os últimos seis anos em que isso não ocorreu. Nem estadual levaram. Mas logo levarão. O Grêmio é uma incógnita com a troca de direção. O panorama é péssimo. É mais fácil imaginar que volte para segunda divisão do que para uma conquista mais ligeira. Entretanto, ainda defende os títulos estaduais das últimas cinco temporadas. Até que não é pouco. Pelo que se espera deles - quase nada - é muito.
Os últimos meses provam que até tenho condições de morar sozinho, apesar de minha preguiça, falta de perspectiva, saúde e empenho. A falta de perspectiva é o principal adversário de momento. Perdão. Com certeza é a falta de saúde. A falta de perspectiva foi em outros tempos. Hoje ela vem necessariamente acompanhada da falta de saúde. A falta de saúde me impede de sair dessa. Mas, permanecendo nessa, tento não sucumbir tão cedo. Primeiro é passar a eleição. Depois é tentar assistir à Copa do Mundo.
Me arrependo de nada. Só da lesão pontual que me traz até aqui. Creio que poderia ser evitada. Mas na época eu não sabia. Não sabia de muita coisa. Às vezes penso que sou castigado pela quantidade de vezes que eu quis morrer anteriormente. Achava que a morte buscava mais rápido. Parece que para mim será uma longa viagem de despedida. Enquanto ainda não embarco nela, ou enquanto posso escrever nesse longo transportar, aqui permaneço.
Havia feito uma previsão, pessimista, por suposto, de que por ironia a vida começaria a me abandonar quando dela eu me apetecesse. As coisas hoje brilham como luzes de aviões ao longe, em um céu neblinado. Brilham foscas como a luzes vermelhas do alto de prédios que avisam os mesmos aviões. Nós as ignoramos no cotidiano. Eu tento me apegar a essas luzes que todavia me impedem de desistir. Se eu as ignorar, serei um avião definitivamente sem rumo. Serei um piloto automático a caminho da morte. Serei um voo de menos escalas que me são permitidas.
Serei. Serei algo confuso e difuso quando meu horizonte tiver fim. Não sei se serei bom ou serei ruim. Por ora apenas sou. Não sei se sou o goleiro ou quem perde o gol. Não sei se sou o piloto ou quem se joga do voo. Não sei se arranco ou se, elefante, perco o marfim. Não sei se serei bom ou serei ruim. Por ora apenas sou.
19/10/2022
Migalhas de Expectativa
Senhor, se for da tua vontade, saiba que aguentarei os sofrimentos e as dores. Mas só por determinado tempo, naturalmente.
O candidato Lula disse até que, sendo eleito, todo mundo vai namorar. É bom que seja eleito. Ou minha namorada vai ser viúva e eu serei viúvo dela. Não aguentaremos mais uma vitória do pior de todos.
Pela minha morte, hoje lamentaria mais por ela, que é mais jovem. Minha família tem mais alguns anos e daria algum jeito de superar. Ou, caso não superasse, seriam menos anos de martírio. Além do mais, quanto a superar: tomara sejam coisas que o tempo cure.
Comecei a ler O Estrangeiro, de Albert Camus. Que vergonha a minha. Li 10 páginas e já quero emitir algum parecer. O argelino consegue emitir personagens de psicológico avançado. Ora, parece ele mesmo raciocinando por meio de terceiros. E está ótimo. É filosofia disfarçada em romances. É Camus de sobretudo e bigodes falsos.
3 horas da manhã e tem alguém online no grupo da imprensa de clube local. Alguém além de mim. Alguém que foi emissor. Fui receptor de constatar alguém online que não seja eu. São 3 da manhã.
Tenho me sentido mais cansado, resignado, menos esperançoso, menos encontrador de onde posso depositar minhas migalhas de expectativa. Antecipei minha velhice em muitos anos, muito além do recomendado. É a minha mente, além dos problemas de saúde, os quais não os condeno exclusivamente pela culpa. Um tanto quanto eu já era assim e isso não se pode negar. As circunstâncias e os contextos me tornam desacreditado e ranzinza. Só não me sinto ranzinza o suficiente para decorar como se escreve essa maldita palavra. Um dia me tornarei ranzinza o suficiente para escrevê-la de forma certeira e indubitável. Nessa missão nem o intrometido corretor deu as caras.
07/10/2022
Pensamentos voltando de Imbituba
27/09/2022
Ao menos hoje - e por alguns hoje
Hoje fiquei bem chateado ao ter de acordar cedo e passar por uma sessão inesperada de exames. Esperava e me preparava psicologicamente para enfrentar uma coleta de sangue, mas fiz na verdade um eletro, que constatou que meu coração está ok. Ao menos ele.
Saí de casa sem o celular, porque o deixei carregando. Se fosse somente a coleta de sangue, seria um exame rápido, embora caro no laboratório próximo de meu apartamento. Mas foi na clínica que realiza eletro. Enfrentei longa demora. E sem celular.
Tive de me sentar em uma das primeiras cadeiras - muitas estavam ocupadas - e fechar os olhos. Praticamente fingia que dormia. Talvez tenha enganado alguns. E por pouco não dormi de verdade, porque estive cansado e com sono. Realizei o cadastro na clínica. Esperei na sala de espera e não no carro com a justificativa de que logo viria um enfermeiro. Aguardei o enfermeiro. Me chamou o enfermeiro. Fui com ele e o exame mesmo não durou mais do que dois minutos. Entre amarras e a ligação definitiva do aparelho de medição. Assim logo voltei para a sala de espera. A médica iria me atender a qualquer momento. Mas entre a chegada à clínica e o atendimento da médica para leitura e análise de meu exame eletro percorremos duas horas. A conversa com ela também em pouco resolveu. Estou cansado de tentar contar minha história. São meses de sintomas e poucas soluções. Reponho vitaminas, mas isto parece pouco. Ao menos meu coração está ok.
Na sala de espera, tive de enfrentar a rede Globo ligada a manhã inteira, entre programa que antes era de auditório e depois inimiga da aposentadoria, Ana Maria Braga. O louro partiu e ela segue trabalhando. Pautas de pouco ou quase nenhum interesse meu. Barulho em meus ouvidos. Mantive os olhos fechados. Uma hora minha percepção não passou batida. Enquanto falavam de massagens caras de 180 a 350 reais na região metropolitana de São Paulo, a incansável faxineira da clínica passava a vassoura sucessivamente sob nossos pés, que ora desviavam do instrumento de limpeza. Ela percorreu o saguão algumas vezes. Considerei um trabalho de esmero. Geralmente não vemos essa eficácia, essa dedicação nos consultórios por onde passamos. Higiene extra ou exploração da classe? Eis a questão sobre o que se sobressai.
Passei pela consulta. Que quase se tornou troca de insultos. Fui questionado. Também questionei. Me decepcionei. Os médicos não me ajudam. Não sei a resposta de meus problemas. Outra consulta que se vai. Outros relatos que foram feitos. Do que adianta?
Almocei no apartamento. À tarde tive de estudar. Me senti um pouco eufórico. Comi chocolate antes para sobreviver. Preciso do doce ou da cafeína. Ou do doce com a cafeína. Ou me desanimo. Ou me desmotivo. Enfrentei as aulas. Esteve calor. Calor para usar máscara. Indisposição. Tive de ir com meu pai até o hospital do plano de saúde para marcar mais exames. Ao menos a consulta da manhã serviu para isso. Além de expor parte de minha corroída intimidade, serviu para requisição de mais exames. Vitaminas, cálcio, magnésio. O atendimento foi rápido e eficiente. Que assim siga. Ao menos o dinheiro tem algum retorno. Embora saúde eu não tenha de sobra. Nem para vendê-la nem para dá-la.
Lembro agora que na consulta da manhã, na ausência de meu celular, logo eu, um jornalista,me rendi ao que eu já deveria ter feito. Mas é que eu não havia percebido. Estava de imediato ao meu lado esquerdo um suporte para revistas que primeiramente o vi torcendo o nariz por dentro da máscara. Mas logo percebi o jornal impresso do concorrente. E peguei a folhá-lo. Mais completo do que o nosso como nossa diferença salarial sugere. Consegui terminar o jornal e nada da médica me chamar. O horário do almoço se aproximava e nada. Pensei em reler o trabalho do jornal concorrente. Mas deixei parado o jornal levemente amassado antes por meus dedos, agora sobre o suporte das revistas. Demorou mais uns minutos para um senhor de idade se dirigir até o jornal. Catou-o e leu. Teve sua leitura interrompida pelo chamado médico. Acho que foi em direção ao enfermeiro. Ou a outro médico. Saiu. Deixou o jornal repousado sobre seu antigo assento. Abandonado. Mais uns minutos e surgiu um homem mais novo. Meia idade. Olhou de soslaio e tascou a mão sobre o jornal. A maioria se informa pelos smartphones, mas alguns ainda se dedicam ao impresso. Ao menos em consultórios.
Ao menos é a expressão chave deste texto. Ao menos recuperei meu humor quando visitado por minha prima ao final da tarde. Ela relatou suas experiências médicas ao longo desses últimos dois anos. Em especial dos últimos meses quando deles se recuperou. Realizou uma cirurgia de sucesso. Consegue relatar o passado sob a ótica de algum alívio. Imagino o transtorno. A sensação hoje de algum futuro. De perspectiva. A perspectiva, o sonho futuro são importantes. A esperança de certa forma nos move. Ouvi-la em superação após tanta dificuldade me fez bem. Não sei se teremos trajetórias semelhantes e os mesmos desfechos. Mas fico feliz antecipadamente por sua resolução. E torço incondicionalmente por sua melhora. Para que o passado seja engavetado no baú dos traumas e sustos. Ela que supera o uso anterior da morfina. Ela que de medicação tem se libertado. Ela que encoraja a que outros relatem suas experiências. A saúde humana definha e o exército dos fármacos é convocado. Dele somos escravos e sonhadoramente libertos.
Terminei um dia difícil e cansativo com alguma mensagem de esperança. Meu time (um dos) ganhou pelos mesmos sete que havia sofrido há algum tempo. Poderia encerrar em total delírio como quando recebi tal notícia direto da região mais metropolitana do estado. Mas logo surgem especulações de casas de apostas. Prefiro manter a cautela. Assim parece o ritmo da vida. Ontem mesmo me perguntava sobre minhas alegrias incondicionais. Sem filtros. Hoje em dia é raro demais. A sombra do que vai dar errado adiante, a sombra da sabotagem me persegue. Por ora, parabéns aos guris pela vitória. A vitória e a idoneidade será posta à prova adiante. Que a mantenha quem a possa manter. Ao menos, nossa palavra chave de hoje, ao menos hoje, consigo terminar ok meu dia.
22/09/2022
Meio fio
O ruim do gesto humilde de sentar no meio fio é lembrar que colocamos os sacos de lixo - que às vezes são rasgados - exatamente junto ao meio fio.
06/09/2022
Empatia no Placar
Há certa situações em que tenho uma fácil empatia porque me ocorre, em outras consigo porque facilmente me imagino no lugar de quem passa por isso, e ainda há as situações em que, com um pouco de esforço, também me imagino no lugar da vítima.
Dificilmente não atinjo tal resultado.
28/08/2022
Nossos fins de semana
Cada fim de semana com a Larissa é como se o Grêmio houvesse ganho um campeonato. Claro que o tempo da sensação não é longo nem marco histórico como um título a mais nas estatísticas dos clubes. Mas o êxtase é assim para mais. Mesmo que repitamos nossos assuntos, interações e atividades. É deveras prazeroso estar ao lado dela nesses finais de semana.
Fomos ao show de Duca Leindecker, antigo líder da banda Cidadão Quem. Reunimos meus fiéis escudeiros do curso de Espanhol e fomos. Voltei a consumir álcool após muitos meses. Me saí bem quanto a isso. Também foi um final de semana para exercitar minhas tentativas de ser um bom anfitrião. Tenho muito a aprender, mas tenho comigo a intenção e a paciência dela para lidar comigo e minhas limitações.
O período desses dois dias foi repleto de nostalgia, pois além de relembrar os sucessos da banda Cidadão Quem, como o Amanhã Colorido, Pinhal, Ao Fim de Tudo, que lacrimejaram nossos úmidos olhos, também mostrei para Larissa o final do filme Tese sobre um Homicídio. Creio que após a saída dela do banho da madrugada antes de deitar, o filme estava tão para o fim que não fará diferença se um dia o revermos. Nesta madrugada estava passando no festival de filmes estrangeiros do Canal Brasil. Tese sobre um Homicídio na verdade se trata do que se convencionou chamar de Feminicídio e, estrelado pelo conhecido Ricardo Darín, trata de um professor de Direito que confronta ou é confrontado por seu aluno mais brilhante em um curso superior que o professor ministrava. Uma trama cheia de nuances, aproximações e atos de repelir. Afinal, o aluno Gonzalo matou ou não matou a mulher que apareceu caída no estacionamento em frente à faculdade? Que outro assassino poderia ter sido? Um jogo de gato e rato repleto de insinuações, planos quase infalíveis e irresistíveis ou simplesmente uma gama de coincidências?
Fiquei tempo demais atido ao filme Tese sobre um Homicídio, o qual nem assisti completo dessa vez, muito menos ela. A nostalgia do que assistimos na verdade foi em relação à série Todo Mundo Odeia o Chris, a qual assistimos alguns episódios na quase totalmente esquecida tv Record. Nos divertimos com cada um, ou com quase todos, os personagens dessas divertidas histórias evocadas pelas memórias do narrador nos anos 1980, no Brooklyn, em Nova York.
Enfim, mas cada minuto que podemos aproveitar juntos me remete aos belos sentimentos, alguns dos quais eu nem sabia que eram possíveis sentir. Nossa relação por ora está melhor do que minha encomendas e rezas passadas. Pensava eu que concluiria a vida sem viver um amor da forma que temos. Ainda mais com ela, que admiro de muitas formas, pela inteligência, pela beleza e pelas atitudes É muito bom alimentar o verbo amar e também se sentir aceito. Não há precificação qualquer para isso. Sinto alegrias e momentos felizes que há muito não tinha ou nem sabia possíveis. Confesso retomando uma vez mais essas alegrias. Estamos escrevendo memórias e é muito bom saber que o livro ainda está em aberto esperando um capítulo a mais. O escritor aqui não tem a mínima pressa.
27/08/2022
Será que eu sei como contar um conto?
Aprendi nas aulas de Literaturas em Espanhol que eu entendia nada do formato de um conto. Mas já escrevi vários contos. O que faço com eles? Readapto? Deixo como provas fósseis de outros tempos em que eu desconhecia essa tecnicidade? Adaptarei os contos que futuramente escreverei ao que estou aprendendo? Os encaixotarei para bom gosto dos clientes? Me podarei para que o formato clássico floresça? Me debruçarei sobre e pela liberdade do formato crônica? São questões.
Tentarei beber das melhores fontes. Edgar Alan Poe, que, como ainda não havia basquete na época, é nome de contista mesmo. Júlio Cortázar que algo já vem me ensinando sobre latinicidades e humanidade em geral. Alguns russos perdidos que me encontram e despejam conhecimento.
Para além das aulas com as quais tento aprender algo, estou tentando me virar ao morar sozinho. Escrevo ao cabo da terceira semana. É o maior tempo que já completei sem meus pais. Me recuso a comemorar, porque sempre há a verdadeira esperança, que consiste em imaginar que o pior está por vir. Não nego que quando esse pior não ocorre, o custo da ansiedade já está feito. Está pregado. E muitas vezes me sinto mal pela minha imaginação ter criado pratos piores do que a realidade. Mas assim convivo com meus monstros e fantasmas.
Trafego pelas ruas portuárias a bordo de um ônibus. Geralmente consigo solitariamente sentar em uma duplicata de bancos e assim me acomodo à janela com minha mochila no assento ao lado. Reparo em apartamentos para alugar, grafites e pichações. Noto as repetidas na esperança de encontrar algo novo. Os dias assim se repetem. O ônibus que desafia a física ao dobrar esquinas evitando ao máximo contatar com algum veículo estacionado por demais ao canto. Comemoro a ação certeira do motorista na certeza de que na próxima esquina ficarei tenso novamente. E assim é a vida.
Próximo ao campus há um matagal com lixo e o cheiro ruim de algum esgoto com saneamento mal resolvido. Passo por escolas caindo aos pedaços. Assustado com o exterior e provavelmente mais assustado ainda caso visse seus interiores. Pelas entranhas de uma estarei a partir da próxima semana em meu estágio de observação. Já estou ansioso o suficiente tendo somente que assistir aos desafios de uma professora de nome Gisele. Imagino e fico ainda mais nervoso ao pensar que em algum semestre vindouro serei eu a vítima em dar aula para as mais diversas pestes distribuídas uma para cada pupitre- palavra em espanhol que gosto, simpatizo, e na verdade significa classe para cada aluno assim distribuídas.
Na faculdade bebo da fonte de que carrego esperança de mudar a vida de alguns estudantes através de meus ensinamentos. Não me sinto seguro o suficiente para ministrar os conteúdos fundamentais. Me sinto confiante o suficiente para doutrinar estudantes com ensinamentos críticos e políticos. Por vezes lamento minha falta de entusiasmo na hora de decidir o curso e ter chutado as possibilidades de avançar pela história ou pela geografia. Tenho pelo menos dois grandes amigos. Minto, já me recordo um terceiro, todos eles que avançaram sobre essas assinaturas. Eu fui para o campo das linguagens. Destrincho e combato as modalidades linguísticas na certeza de que minha paixão e o que me mantém matriculado é o campo da literatura. São nas literaturas que mais comparto ideias com os professores. Neste semestre as professoras. É na literatura que pretendo exercer participação em um projeto de pesquisa. Pois se obriga a pesquisa para complementar as horas de nossas formações.
É a literatura sobretudo que me faz sonhar, alçar voos mais altos que as rasteiras e ausentes de recursos significativos salas de aula. É a literatura que me permite pegar carona em um tapete voador de futuros inebriantes. É a literatura que escorre pelos cantos de minha boca porque dela bebo sedento em busca de mais e mais. Ela que empolga e me fascina. E por ela, a reboque das mudanças de mundo, me traslado adiante. Embarquemo-nos, seja qual for o formato desse delirante veículo.
20/08/2022
As calçadas
As calçadas
Tão sempre cagadas
As calçadas
Tão sempre cagadas
Todo dia
As pessoas cagam
Não é sempre
Que a chuva lava
As calçadas
Tão sempre cagadas
As calçadas
Tão sempre cagadas
Os cachorros no passeio
Parece
Que miram bem no meio
Das calçadas
Do meu caminho
Desvio para o lado
Escapo por pouquinho
Os cachorros
A culpa é dos donos
O ônus
Se caminho com sono
As calçadas
Tão sempre cagadas
As calçadas
Eles limpam nada
Os japoneses
Sem sapatos em casa
Os iranianos
Entendem dessa pauta
Porque as calçadas
Sempre tão cagadas
Os cachorros no passeio
Andarilhos madrugada
17/08/2022
Preguiça
PREGUIÇA
Eu tenho uma preguiça absurda
Quero fazer coisa nenhuma
Às vezes era melhor que eu suma
Que assuma no meio dessa bruma
Fragilidade
FRAGILIDADE
Eu preciso das minhas chaves, de ti, do meu celular e das minhas funções celulares
27/07/2022
Pensamentos soltos e talvez vagos
Ano pra cá tenho me sentido muito perto da morte. Se não estamos dançando tango juntos, estamos no mínimo no mesmo salão.
Tenho a tarefa de solitariamente trazer o que não querem ouvir. Não querem ouvir porque
A) Está errado. É mentira. Ninguém quer ouvir o que está errado. E é mentira.
B) Está certo. É verdade. Ninguém quer ouvir certas coisas certas. E é verdade.
Os insetos tilintam pelas minhas apagadas lâmpadas. Se não são eles, são os espíritos. Veja só.
Penso que algumas obras escrotas são enaltecidas como geniais. Foram imortalizadas. Embora haja críticas, não retrocedem desse status fantásticos. Muitos desses gênios foram excessivamente escrotos, como ora invejo, ora abomino ser como eles. Penso em cenas em que pesam a mão sobre alguns valores ou realidades. E quando narram ou descrevem um estupro. Espero nunca em minha literatura narrar ou descrever um estupro. Fatalmente são episódios da realidade, mas não gostaria que existissem sequer na ficção. São o que representam de mais abjeto na sociedade humana. Portanto, prefiro ignorá-los e não trazê-los em minha literatura, mesmo que fosse para uma reviravolta de luta e combate a isso. Creio que uma vez cometido, o chão se abre, a dignidade esconde-se a sete chaves, o perdão torna-se o mais inativo e sedentário dos seres, porque o perdão não se exercita nesses casos. Dito isso, espero nunca confrontar-me com tal abjeta descrição. E do fundo de um coração que é fundo desejar que a maior das forças de recuperação para quem um dia passou por isso.
Para ser um gênio incompreendido varia a porcentagem do quanto se está sendo gênio e o quanto se está sendo incompreendido. Fico cauteloso sobre os entendidos por todos. Porque a capacidade de interpretação desse todo é muito limitada, então talvez estejam deixando passar pontos importantes. Ou essa minha analogia do incompreendido é apenas puramente incompreensão. Nada genial. Existe essa chance. Muito mais incompreensão do que genialidade. A capacidade de ser compreendido por todos é genial? Ou é apenas ser compreendido? A capacidade de ser incompreendido é genial? Ou é apenas ser incompreendido? Qual a balança que equilibra esses termos? Qual a receita? Qual a porcentagem? Qual a quantidade?
25/07/2022
Violência 1x0 Esporte
Produzo o jornalismo local do esporte para o segundo jornal da região. Visto que a vizinha cidade de Rio Grande também fechou seus departamentos impressos, Pelotas concentra os jornais mais afamados do extremo sul. Com muita tristeza, além de meu deteriorado estado físico, produzi a página para terça-feira, 26 de julho de 2022. Não temos mais edição impressa de domingo para segunda-feira, de modo que as informações do fim de semana concentram-se em nosso cardápio apenas para edição de terça. Vamos ao que ocorreu. Os dois times locais em campo perderam. O Grêmio Esportivo Brasil praticamente deu adeus para Série C. Precisa de 100% de aproveitamento nas últimas três rodadas para manter-se vivo na terceira divisão nacional e não se preocupar em ter onde cair morto. O Farroupilha, por sua vez, jogou a primeira em casa no estádio Nicolau Fico e perdeu a primeira em casa, ao ser superado pelo Riograndense por 2x1, com o gol da vitória, que desequilibrou o Grupo da competição contra o Farrapo, marcado aos 48 minutos do segundo tempo. Com o resultado, o Fantasma tem um ponto em três jogos e um Grupo com quatro equipes que duelam em turno e returno, dentro e fora. Passada metade das partidas, nenhuma vitória e a necessidade, também, de algo próximo aos 100% de aproveitamento nos jogos que restam. Praticamente sem chance.
Dados os apitos finais ou do lado de fora ou ainda do lado de dentro dos gramados, os motivos que completam a melancolia. O Farroupilha em briga campal, como se fossem garotos de rua brigando. Chutes, socos, violência gratuito aos olhos das crianças ou idosos que foram ao estádio. O Farroupilha quase não tem mais torcedores. Eles encolhem em número a cada ano. Muitos dos mais idosos já faleceram, ainda mais agora com a situação de pandemia da Covid-19. Outras, as crianças, dificilmente serão capitaneadas a torcer para um clube de Terceira Divisão Gaúcha. Ver a equipe perder em campo já atinge, demonstrar violência gratuita acresce em nada. Tristeza marca o fim de semana no estádio Nicolau Fico no bairro Fragata. Detalhes ainda que somente eu percebo. O patrocínio no centro da histórica camisa tricolor é um desenho animado. Como combina o desenho animado (uma raposa ou animal assim?) com as cenas de brutalidade entre os atletas. Uma imagem que poderia acrescer leveza ao ambiente contrasta com os socos e chutes trocados pelos ditos atletas. O Farroupilha perdido no futebol e eticamente.
No Xavante, a única diferença é o nível da competição. Joga a terceira divisão nacional, mas o vexame se repete. Jogou em casa e diante de um público histórico, acima das 8 mil pessoas. Não sei se tão histórico, mas mediante a diminuição da capacidade dos estádios, a falta de procura dos torcedores aos jogos, foi sim um público histórico, contextualizado pela situação na tabela de classificação. O Brasil era (e ainda é) o último colocado na competição. Ficou com 14 pontos através de 16 jogos disputados. Nos últimos três precisa de um aproveitamento de campeão. De lanterna a campeão, penso aqui que pode se tornar uma manchete caso milagres aconteçam.
Após a derrota em campo, onde até houve polêmico, mas definitivos acertos de arbitragem, um pênalti bem marcado no primeiro tempo e um gol bem validado para Aparecidense no segundo, a confusão decorreu na saída do improvisado túnel visitante. E novamente chamo atenção para cena que poderia acrescer alguma leveza e sai justamente o tiro pela culatra, a situação pela tangente. O túnel inflável encobriu imagens da briga entre atletas e comissão técnica. Como se não bastasse, torcedores organizados adentraram com suas jaquetas e calças brancas, roupas que para alguns permanecem na moda. A cena dantesca desta vez foi corretamente estancada pelos seguranças mas principalmente pela Brigada Militar. A mesma Brigada Militar, em outros batalhões evidentemente, que atacou gratuitamente o rapaz Rai Duarte em Porto Alegre, após a partida entre São José e Brasil pelotense pelo mesmo campeonato. Rai Duarte foi retirado de dentro do seu ônibus, foi levado pelas mãos militares, por essas mãos foi covardemente agredido. Desta vez, nenhum torcedor que estava dentro de campo detinha a razão.
Eis que o Brasil na mesma Série C teve casos de briga entre torcidas, com o São José, em Porto Alegre, denúncia de caso de racismo por parte de um lateral, Zé Carlos, do Atlético Cearense (e pasmem, em jogo que o Brasil ganhou de goleada, qual a necessidade se ocorreu isso?), e finalmente o caso da briga após o jogo com Aparecidense, com o mau exemplo vindo institucional de empregados do clube até o torcedor que, num volume de mais de 8 mil torcedores em torcida do interior, era evidente que alguma situação ruim poderia ser gerada a partir da derrota, da confirmação da lanterna na rodada e, pelo calor do momento, a insatisfação com o rendimento e a derrota.
Me atento ao caso do sofrido e quase falecido na ocasião Rai Duarte. Não participou de briga, mas só foi vistoriado o ônibus pelos incidentes anteriores. Só foi confrontado em função do que outros provocaram antes. Óbvio, mas óbvio, torcedor, que a polícia não tem um pingo de razão nisso tudo. Não tem. Nunca teve. Jamais vai ter. Mas Rai foi vítima da sequência dos fatos e sobrou para ele. Não adiantam campanhas pela paz nos estádios, faixas, balões brancos e frases bonitas, cartazes e campanhas de conscientização se jogos depois não houver o exemplo sendo seguido. As campanhas e as frases mergulham num abismo e são soterradas. É para torcida, para sociedade entender que não pode abrir precedentes, não pode dar margem, tem que fugir dessas temáticas, diminuir as margens errôneas. A polícia é truculenta e logo pode ocorrer um novo caso. Pode sobrar para quem fez algo, o que é mais comum, ou pode sobrar para um inocente vimitado pela violência que nos cerca. Termino essas linhas em reflexão e apenas tentando me livrar da tristeza que me somatizou durante o dia. Respira também por aparelhos o esporte e a ética na cidade pelotense.
22/07/2022
Café com Cebola
- Acredito que meus personagens devem conversar mais entre eles.
- Sim, também acredito.
- Assim trazer a pluralidade de ideias entre eles, não só a minha voz solitária.
- Sim, também acredito.
- Assim a literatura conversa entre si, deixando-me mais mudo. Os personagens que falem.
- Sim, os personagens.
- Apesar de aqui eu fomentar um eco, nem sempre concordo com o que eu acabo de falar.
- Nem sempre.
Tudo que eu poderia escrever nessa vida, o catarinense Manoel Carlos Karam já havia transcendido com o livro Cebola em 1995. E ainda nem li todo o livro Cebola. Nem metade da Cebola. Pode ter revolucionado minha escrita ou pode significar nada.
- Pode significar nada.
- Até porque tudo que eu possa escrever a partir disso pode soar somente como uma cópia.
- Só como uma cópia.
- Mas para quem não leu Manoel Carlos Karam, que deveria ter o nome ilustradíssimo nas principais galerias literárias, para quem não o leu, acredito eu que a maioiria das pessoas não o leu, não soaria como cópia.
- Definitivamente não.
- Porque só identificariam como cópia algo que eles conhecessem primeiramente.
- E se não conhecem...
- E se não conhecem não identificam. Manoel Carlos Karam, citar seus três nomes de uma vez e sempre soa numa seriedade avassaladora. Me lembra o nome dos árbitros, geralmente os quais não gosto por colecionarem erros arbitrais contra meus times.
- Mais de um time?
- Meus times... Não sou monogâmico de time como minha namorada.
- Infelizmente na linha abaixo da linha abaixo da qual a cito, preciso mencionar alguns como Sandro Meira Ricci e Héber Roberto Lopes.
- Justamente. Identificados por três nomes.
- Mas a literatura que parte de Manoel Carlos Karam é formidável. Aos menos dessas menos de 100 páginas às quais já me dediquei a conhecê-lo. Parece que as vozes de minha cabeça conversam entre elas.
- E isso é literatura?
- Pois veja que a partir disso posso distribuí-la por personagens. Os personagens os mais diversos. Ou talvez muito semelhantes.
- Ou muito semelhantes.
- De qualquer forma acho cômico que podem acrescentar algo ou somente fazer eco.
- Ou só fazer eco.
- Você gostava de bordões ou quando os filmes ou séries repetiam a mesma piada? Veja bem, às vezes nem chegava a ser uma piada, apenas ganhava força pela repetição.
- Sim, pela repetição.
- É uma forma de estruturarmos o texto, a distribuição do diálogo ou mesmo do monólogo.
- Diálogo ou monólogo.
- No caso entre nós um diálogo, embora eu esteja falando bem mais do que você.
- Bem mais.
- De qualquer forma você gosta dessa estrutura?
- Gosto dessa estrutura.
- Também tenho apreço e assim percebo que continuo.
- De fato continua.
- Peça mais dois cafés ou duas cervejas para gente. Não sei o que estamos bebendo.
- Você está pilotando.
- Pilotando esse diálogo, de modo que posso pedir duas cervejas se assim o quisermos. E você tem concordado comigo.
- Tenho concordado contigo.
- E gostaria de dois cafés ou duas cervejas?
- Compartilho consigo a dúvida.
- A dúvida que eu esperava que você quebrasse.
- Suplantar uma dúvida exige uma camada de certeza ou somente a mudança de assunto?
- Assim você está tomando o meu lugar de jogar os dados dessa conversa.
- Já percebeu que nas metáforas da vida pode-se jogar os dados ou os dardos? São jogos diferentes, mas metaforicamente se assemelham. Embora os dados parecem trazer a sorte de forma mais absoluta, enquanto os dardos podem definir o destino a partir de uma maior ou menor precisão.
- Assumiu meu posto.
- Portanto você quer dois cafés ou duas cervejas?
- Assumiu inclusive a minha dúvida.
- E tomarei a dianteira de assumir a resposta. São dois cafés.
- Então são dois cafés.
- Você também assumiu o meu posto.
- Assumi o seu posto.
- Diria que trocamos de lugar?
- Trocamos.
- Então venha se sentar aqui.
- Se assim o queres.
E trocaram de lugar, interveio o narrador. O narrador está acostumado a comandar as ações desses pequenos contos ou crônicas. Dessa vez ele também trocou de lugar e terá apenas essa pequena intervenção. Passou a intervenção.
- Já trocamos de lugar.
- Trocamos.
- E o narrador já fez a intervenção dele.
- O que está feito está feito.
- Só nos falta o recebimento do café.
- Café que você decidiu.
- Café que eu decidi. Embora quem nos ouça agora pode estar um pouquinho confuso.
- Um pouco confusos, com cacofonia e tudo.
- Eu sou o que originalmente concordava.
- Originalmente você concordava.
- Mas agora é você quem concorda.
- Eu quem concordo.
- Pois trocamos de lugares.
- O que acha do seu lugar?
- Quer reassumir o seu primeiro posto?
- Quero reassumir.
- Então troquemos novamente de lugar.
Eles trocaram novamente de lugar.
- E lá estão vindo nossos cafés.
- Estão vindo.
- Daqui a 5 segundos chegam aqui.
- Esperarei chegarem para concordar.
- Chegaram.
- Chegaram, sim.
- Estou vendo só um saquinho de açúcar caso você queira.
- Pois é.
- Vou pegar da outra mesa para que você apenas se restrinja a concordar.
- Concordo.
- Então estamos tomando nossos cafés com açúcar.
- Com.
- E eu falava anteriormente sobre a literatura.
- Sobre.
- Acha possível responder a todas essas frases somente com uma preposição?
- Em.
- Em ou hein?
- Em.
- 'Em' de fato é mais uma preposição.
- ...
- Agora você não conseguiu nova preposição.
- ...
- Tudo bem pode parar com esse jogo.
- Com.
- Muito bem, mas você discordou de mim porque eu pedia para você parar.
- Para.
- 'Para' também é uma preposição.
Sorvendo o café.
- Você é um maníaco, se fosse um jogo, você ganharia.
- Se.
- Mas aí você perderia, pois 'se' é conjunção.
- Pois.
- 'Pois' também é conjunção.
- Pois.
- Estou deixando esfriar o meu café.
- Eu também.
- Assim será inútil ter pego o açúcar da outra mesa.
- Me sinto meio desconfortável com o que as mesas possuem ou não nos cafés e restaurantes.
- Está em pensamento por si próprio, devemos trocar de lugar.
- Devemos.
- Se vai concordar comigo pode ficar aí.
- Fico.
- Embora devêssemos trocar de lugar para eu concordar com você, concordo com esse desconforto causado nos restaurantes. Primeiro escolhemos as mesas e depois conferimos o que há nela, sobre condimentos, guardanapos, palitos de dente.
- Concordo com sua concordância.
- E sobre a literatura?
- O que tem?
- Concorda sobre investirmos mais em diálogos?
- Não sei.
- Não sabe?
- Não sei.
- Por que não sabe?
- Você também não sabe. Nos põe em dúvida.
- Me senti meio despreparado para esse começo.
- Acha que nos revolucionou a escrita?
- Não sei.
- Não sabe?
- Não sei.
- Por que não sabe?
- Você também não sabe. Os põe em dúvida sobre quem é quem agora.
- Eu sou o que pergunta.
- Eu sou o que responde.
- Concordo.
- Isso.
- Beba. Está esfriando o seu café.
-
Há dias em que naturalmente estou abatido. E há dias que naturalmente me abatem.
-
Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas...
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A linha tênue entre enjoar e esquecer.
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Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?
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A máquina se torna humano Humano se torna máquina A máquina é programada O ser humano é descartado
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Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela meta...
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Consigo sentir Quintana Que não me engana Me aconselha Ou ao menos ergue a sobrancelha Consigo sentir Quintana em cada passo Que eu galgo ...
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Cansei. E deixarei de legado muito menos do que se não tivessem me cansado.
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Onde joga meu time estarão eu e meu futuro.
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Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.













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