31/12/2014

Dois Mil e Quinze

Sua mente tenha boas sementes
Suas sementes tenham boa terra
Sua terra tenha o que for preciso
Para cuidar dela
 


30/12/2014

Desnecessário

A fim de um dez
A fim de um desafio
Mas o dez não vem
Há sempre um desvio


Me irritam as notas 10. Recentemente, em processo de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), vejo pela timeline uns quantos estudantes de meu curso a postarem, orgulhosamente, suas notas 10. Justo no labor final, em que a análise crítica deveria estar bastante presente. Mas não, pelo contrário, os professores passam a mão a dar conceito máximo ao seus pupilos.
 
Poderiam estes seres considerarem-se estudantes supremos pela avaliação assim feita? Obviamente que não. Sem deslizes, sem falhas, nem no conteúdo e nem no tempo de apresentação? Impressionante. Durante a caminhada do curso os 9  e os 8 surgiram em algum momento. Também não quero estampar um 10 ao final (desta etapa). Certamente porque não hei de merecer. "Nem queria mesmo."
 
Mesmo os que utilizam seus preciosos tempos no estudo das exatas, ao acertarem tudo em determinada ocasião, é nada mais do que conseguir o 10 para aquela respectiva avaliação, moldada a critério do curso ou do professor. A eles, resta saber que sabem nada de outras coisas. Nossa eterna condição de estar a milhas e léguas atrasados em determinadas áreas. Independente do seu Q.I., gênio.
 
Estaria aí o alívio de podermos contribuir com algo, sabendo que ninguém contribui com tudo? Ou estaria aí a inquietação, a eterna impotência diante da maioria dos fatos? Coisas que a nós nada influencia, ou, mais cedo ou mais tarde, no cruzamento do tempo-espaço, influenciarão? A existência é o somatório de tudo isso até este determinado momento. Um texto, que sendo escrito e, posteriormente lido, a altera.
 
Não sei se condiz tornar tão crítico meu olhar sobre os arredores. O 10, para mim, é a utopia inalcançável. Se aparenta ser 10 no começo, logo os defeitos estarão a ser vistos. O que duraria para sempre? Quanto tempo dura a perfeição? Faz parte. Nada faz tudo. Tudo faz algo. Saber lidar e seguir com os solavancos do caminho deve ser a prova de fogo.
 
Mesmo nas exatas mais exatas há defeitos? Talvez. Talvez elas expliquem, façam algo, cumpram o objetivo X... E param ali. Minha teoria, em desenvolvimento, logicamente também não é 10. Capaz! Longe disso.

25/12/2014

Tio Geda é Tio Geda. O tempo é o tempo.

O tenente Gedir, muitas vezes, em sua carreira militar, deve ter respondido "pronto" aos chamados dos superiores. Prontidão e disposição não lhe faltaram na maior parte da vivência de seus 76 anos. Negro alto e de bom vigor físico ainda quando o conheci. Não sei ao certo a forma como devo trata-lo em parentesco. Bastante conviveu com minha vó após a separação do casamento dela e de meu respectivo e biológico avô. Momentos de minha infância em que compartilhei com ele, que já entrava para a terceira idade.
 
É véspera de Natal e acompanho meu pai na missão de dar carona para vó. Ela vai visitar seu grande amigo no lar de idosos no Centro. Há poucas pessoas na rua e o caminho até lá flui sem maior trânsito. O prédio é histórico, ao lado da principal igreja da cidade, e ocupa praticamente toda a quadra. A tecnologia do portão permite um chamado por interfone. Com a autorização de lá dentro, adentramos o espaço. Cumprimentos para todas as pessoas na entrada.
 
"Tio Geda", como sempre acostumei a chamar, está na sala. Sentado em uma poltrona, ele ergue os olhos e o humor ao nos localizar. Sorri com a força da alma, mas o corpo pouco lhe respeita as vontades. Ao contato visual e depois físico de sua mão, noto seus dedos quase fechados fixamente. Após a visita, vó me informa que ele fraturou um deles.
 
A sensação de liberdade não compõe o cenário, talvez, na maior parte da vida. Perder essa pouca saída deve dar a noção do antes e do depois. Do passar do tempo. Um homem em seu aprisionamento. A prisão do próprio corpo, castigado por décadas e décadas de álcool, que não o obedece e não se molda mais como era antes. O aprisionamento do espaço em volta. Um adulto em confinamento e cuidados como se voltasse a ser criança. Mas sem poder correr. Só poder teimar.
 
Ao perambular o olhar aos arredores da cena, os demais idosos parecem mais próximos da morte do que de qualquer coisa. É um cenário pouco agradável e, apesar da amplitude do espaço interno, da beleza do prédio histórico e da aparente limpeza, é um local contagiante negativamente. As luzes da árvore de Natal são as mais artificiais já vistas, pois o que há em volta pouco brilha no tempo presente.
 
São estrelas que podem ter brilhado e iluminado céus no passado, mas que atualmente representam o esquecimento de quem não as mira mais. Na parede, há enfeites natalinos de isopor, um com o nome de cada ocupante da casa. Dona Rita, seu Disney... Uma bota de isopor, se não me engano, para cada. O isopor é frio, é incolor, nada sensitivo. Mas é duradouro, não se debate aos efeitos temporais. Mais vale a nossa curta e degradável passagem, ou a insistência do inanimado mas resistente material?
 
Ó, tio Geda, eu que sempre olhei para cima para acompanhar seu semblante com minhas interpretações ainda pouco curiosas. Hoje, mais atento a alguns detalhes, o vejo com a melancolia e a nostalgia a transbordar dos úmidos olhos. Tão delicada é a situação, me pego no dilema de não saber se é melhor para ti rememorar os acontecimentos que tornaram tua vida tão vívida e tão válida. Ou se é melhor não resgatar o passado inalcançável de nossa existência.
 
Conversamos, sim, sobre o Grêmio Atlético Farroupilha, instituição que a bastante jogos ele foi, como sócio e companheiro na carreira de tantos torcedores que passaram e permanecem a passar por lá. Amigo do velho Trem, do conselheiro Alci Moraes. Amigo que muito considerei da infância, conforme me levou, no privilegiado local das cadeiras, para minha primeira partida em estádio de futebol. E, no longínquo 2002, o Farroupilha goleou o São Paulo da cidade vizinha por 3 a 0 naquela oportunidade. E, até hoje, o tricolor onde exerço estágio é o único clube em que eu nunca fui a jogo para torcer contra.
 
O sol ainda valente e alto, mas é quase hora da janta. Vamos a nos despedir. Meu pai repete a frase que tanto ouvi na juventude, seja pelo legal na sonoridade, seja por meu pai sempre repetir frases, por mais aleatórias que sejam. "Tio Geda é Tio Geda." A pronúncia me lembra do inglês "together".
 
Despedida e desejo de bom Natal ao Tio Geda. Os desejos mais fundos de que não ceda ao aprisionamento. Missão difícil, pois não é o mesmo militar que realizou operações a nível nacional. Nem mesmo as mãos, que tanto encestaram a laranja no basquete, escapam dos efeitos do medonho tic tac. Hoje, mal conseguem êxito no mais simples aperto de cumprimento ou despedida. A energia do aperto de mãos se transfere. Aperta meu coração. O tempo não aperta pause. Nenhum clique do mouse altera essa direção.

15/12/2014

Velejando, viajando, sol quarando

Percebo, lá pelas tantas (antes tarde do que nunca?), os efeitos e consequências pelo que se faz ou se deixa de fazer. São duas possibilidades, no mínimo. No exercício de procurar a palavra certa, encontro uma mais gasta do que qualquer solado: trouxa.

Há, também, no mínimo duas possibilidades de ser trouxa. Pode ser pelo que você faz. Ou pode ser pelo que não faz. Faço poucos esforços. É uma autocrítica reconhecida de outrora.

Tenho tamanha dificuldade em acompanhar ritmos na longa highway. Tento ditar o meu, parando aqui e acolá. Difícil alcançar a parada do ônibus no momento certo de sua passagem. Sem paciência, às vezes sigo a pé. Complicado acompanhar os passos de quem vem ao lado, mesmo que venha com intenções de somar. Logo, cedo ou tarde, tô em outro ritmo. Segui em frente. Ou fiquei pra trás. Trouxa, se eu fiz demais. Trouxa, se pouco fiz.

Exatamente porque posso ter emaranhado demasiadamente uma rede em que não posso controlar, prosseguir. Em contrapartida, posso não ter armado a rede em que eu gostaria de estar e usufruir. De todo modo, parece uma regra, que não há como sair ao mar sem sentir a tempestade. Por vezes, mais densa e mais turva. Vai ser passageira, mas vai deixar marcas. No marinheiro e em seu navio. Ambas difíceis de curar.

A política da América Central deve rir por estar mais controlada que a tua highway. Vale até abrir uma tequila em nome da causa. Vou seguir minha missão trouxa a cada parada para amarrar os tênis, em cada parada para um por do sol. A cada oásis no deserto. A cada crase após o verbo, seja a quem for. A sofrer os efeitos e consequências de navegações passadas. Em um barco sem nome fixo tatuado no casco.

14/12/2014

Vero similar

Verossimilhança é a palavra nova no vocabulário de Jair. Vero, em italiano, significa verdadeiro. Ainda no mesmo idioma, somiglianza é a similaridade. União de verdade + semelhança, a verdadeira semelhança (bah, gênio!). Mas uma certa impressão de uma certeza imprecisa.
 
Verossimilhança seria uma definição precisa para algo ainda impreciso?  E se aquilo for realmente preciso, o uso da verossimilhança fica errôneo, em desuso? E se aquilo for nada preciso, o uso da verossimilhança cai em desuso da mesma forma, mas por outro caminho? Prefiro distorcer interrogações do que cravar pontos finais. Nas artes, a ficção pode ser tratada como verossimilhança quando se aproxima da realidade que se procura mostrar. Aproximações.
 
É uma palavra tão inexata que, no português europeu, se escreve com um "S" só: verosimilhança. No português brasileiro, a aceitação de se curvar diante das curvas que as possibilidades implicam: veroSSimilhança.
 
Talvez ainda a interprete mal. Pois bem (ou mal), a verossimilhança envolveria um conjunto de coisas quase reais? Qual o limite deste conjunto? O que fica de dentro e o que fica de fora? O que é verdade? O que é quase verdade? O que não é verdade?
 
Bah, nessa eu peguei pesado, né? Me desculpem. Se acreditam na ajuda, nas farmácias ou nas igrejas, dá pra tentar a cura. Mas creio que os preços das ditas curas não se encaixem em verossimilhança =)

11/12/2014

Poço da Poesia

Não sobra tempo
Troco a noite pelo dia
Transborda o copo
Que carrego em correria
Pelas frestas do corpo
Sua, quase seca, a poesia
 
Posso, claro que posso, quem diria?
O poço, ainda moço, se estendia
Acerca da poesia não se cerca
A fonte do poço não seca
E a água, antes parada, se mexia
 
 
 
 

05/12/2014

Moneytalks

Nem tudo precisa ser quantificado, ordenado e numerado. Umas linhas (não numeradas) sobre isso.


Moneytalks é aquela música dos australianos do ACϟDC. Parece que foi a banda para este dia, 4 de dezembro. O texto já vai sair com o marcador do dia 5, em mais uma madrugada. Escrevo para acrescentar sentido e não ser mais uma madru-nada.

Moneytalks, então vamos falar da grana, esta criatura variável em forma e conteúdo; abominável, traiçoeira e suja. Suja por si só ou pelas mãos alheias. Termino de assistir um filme e testemunho na timeline da rede social a manchete de que "familiares de vítimas da boate Kiss vão ter que pagar pela limpeza de objetos encontrados no local". Vida vale nada, né? A vida cabe dentro de um Rolex. Cabe no tempo que o relógio de marca famosa contabiliza e cabe também no valor que as pessoas atribuem a ele - o relógio.

Poucas vezes caminhei tão leve quanto em uma saída, numa chuva após uma derrota de meu time em clássico Gre-Nal. Esfriar a cabeça era a bola da vez. Saí com a roupa caseira e nada nos bolsos. Sensação de alívio, sobretudo, por nada pesar entre um passo e outro. Nada de objeto para os mal intencionados me tirarem em seus objetivos. O domingo já havia posto em 0 a escala de felicitação, no motivo que gerou a caminhada. Bola pra frente.

Outro ponto interessante é a marca dos calçados. Não ligo muito para o símbolo que os nomeia. Confortando e agradando a rápida olhada no espelho mágico = compra feita. Prefiro pensar no valor de cada passo pelas calçadas do que no valor financeiro do calçado que os praticou. Meus pés trilham a história e os sapatos são meros acompanhantes de luxo (para meus pés não se machucarem e poderem caminhar/historiar mais). Claro, acabo reconhecendo o esforço do par de sapatos também e eles adquirem significados especiais. Com o mérito da caminhada e não de sua marca.

Naquele domingo, saí também sem documentos. Quem me conhece, vai me reconhecer e, se quiser, cumprimentar. Se não conhece e for o caso, eu me apresento. Não precisa RG. Muito do que se quer saber inicialmente sobre a pessoa não passa de números, o que não explica detalhes da trajetória dela até o momento. Apenas rápidas conclusões. Como a idade, que pode revelar o que a pessoa vivenciou ou não.

Muitas das pessoas vão te ver pela primeira vez ao te identificarem por um número. Talvez o médico, na sua primeira consulta, vai apertar a mão do número 590.191, do plano de saúde Y. Quantas vezes somos o número da ficha que retiramos? No xerox, no atendimento da operadora de celular, na padaria, no açougue, na farmácia, no banco (...) Ah, os bancos... estes dariam um texto só para eles... Somos, enfim, números, cadastros, dados, senhas e códigos. Por ordem de mérito ou de chegada.

Em piores casos: na escola. A criança cresce como um número, avaliada como um número. Saldos positivos ou negativos. Somos tratados como números, e só se agrava na vida adulta. Meros números, para cima e para baixo. Pelo que acrescentamos ou podemos movimentar economicamente. Taxa de relevância. Serve também para maiores ou menores reverências gestuais em um encontro com o dentista ou com o senador, no que ainda há de humano em cada cumprimento (exagerado, ou não).

Por fim, o que se percebe é muita gente querendo abocanhar números. Abocanhar objetos, que valem mais numericamente. Tascar um pouco dos outros (com cumprimentos exagerados, puxa-saquismo, ou não). Ostentar com carros, camisas polo ou com uma adega, para mais se exibir do que beber. Quadros estranhos na parede do salão e na vida, relógios banhados em ouro que vão marcar a hora da mesma forma que os outros... Moneytalks.
 

03/12/2014

Procura Cura

Que sentido procuras?
A repetição em vão do que já foi sentido
Ou o sentido escondido do que está por vir?
 
Que sentidos procuras
Se não for o sentir?
Será a cura uma partitura
Que não podes tocar, nem ouvir?
Como um distante santuário
Que só imaginamos existir
 
E por que, afinal, tentas
Apagar as pegadas deixadas
Como se fossem erros propositais
Nessa longa estrada?
 
E por que, afinal, tentas
Apagar as marcas já perpetuadas
Como se apaga na boca o gosto da menta?

 

30/11/2014

Inquieto

O amor que eu não te mando
Não tá quieto, tá queimando
Quando some a luz do dia
O amor que eu não te mando
De quando em quando
Aparece em poesia

 
 

Eu sou eu e não o que os outros são

Um pé para cada lado. Quase sempre pronto para firmar um de apoio e chutar o pau da barraca com o outro. Nem recebo tudo de mãos beijadas, o tudo necessário para competir em alto e bom tom no mundo selvagem outside. Também reconheço todo o apoio que recebo e a pouca necessidade de lutar no cotidiano, dadas as circunstâncias até o momento. Um mau costume, eu caracterizaria.
 
Nem ostento e nem me coloco - completamente - contra a coisa toda. Pacifista demais para pichar qualquer religião. Pacifista até para negar um panfleto às vezes. Às vezes nego, mas sempre mais triste do que quem tá entregando, que até deve estar acostumado... Será? Droga, vou ficar triste pela tristeza dele.
 
Não me agrada aqueles bonés da moda. Nunca me senti à vontade e eles sempre me serviram (os bonés) para proteção solar. Estética seria consequência. Cresci ouvindo que barba não era legal. Depois disseram que barba era legal. Praticamente não tenho, assim como quase não tenho preocupação nesse aspecto com a opinião alheia.

Jogo do jeito que sei e do jeito que consigo. Me importo, sim, de agradar. Bah, cuidado! Me importo mais ainda de tentar não desagradar. O resultado muitas vezes é que não ajudo nem atrapalho. A corda bamba é arriscar e carpar o diem, mas segurando o pássaro na mão pra não perder dois. São só ditados e não verdades absolutas. Às vezes parece que cabe um, às vezes parece que se encaixa mais o outro. Eterna dúvida do que virá depois.
 
A tal colocação "eu sou eu e minha circunstância" ruge com potência. A circunstância me cerca. Pensamento demais antes de uma decisão. O mundo não para, cara, faz algo! Fazer o quê? Fazer o que depois para consertar? Fazer o que, agora, para não ter que consertar depois? Às vezes, o peso da prudência são folhas e mais folhas de relatórios arremessados a grosso modo para cima. - Dane-se! - Depois os catamos, possivelmente com dificuldade para reorganizar a pilha toda de consequências.
 
O texto inicial não era pra ser bem esse, mas não vou voltar atrás. Dane-se a prudência das linhas se encaixarem numa grande coerência. A vida é incoerente aí fora, não é?! Resmungos. Depois organizo melhor as ideias em outro texto, em outra hora, neste mesmo canal.

16/11/2014

Personagens frequentes em viagens de ônibus

- o inquieto que mexe em todos os mecanismos possíveis de ar condicionado, luz, poltrona, cortina e mais nas trocentas coisas da bagagem.
- o corneteiro. Fala mal da empresa de ônibus, da empresa onde trabalha, do tempo e das cidades em que passa.
- a mãe jovem que tem trabalho para conter a criança pequena diante do micro parque de diversões.
- o casal que debate os problemas com a casa e filhos para todos ouvirem durante o traje
to.
- o tiozão que chega no segundo ronco antes de tu acertar a posição da poltrona.

- a tia sedenta por companhia, que puxa papo com seus assuntos familiares e que telefona alguma vezes para os parentes em busca de mais novidades e pedindo para a esperarem na rodoviária.

12/11/2014

Não Ceda à Queda



O time é ruim e faz jus a todas as comparações com um péssimo ônibus. Não tem volante, o banco é ruim, não apresenta velocidade e o próximo passo já sabemos: vai ser um ônibus rebaixado. Mas embora a torcida consciente do Botafogo de Futebol e Regatas estenda a faixa "só Jesus salva", eles (alguns) continuam a ir aos jogos acreditando na saída da lama com o que acontece dentro de campo.
 
Os antecedentes são comuns a rebaixamentos anteriores de clubes grandes. A administração colocou o alvinegro carioca nessa, assim como o outro preto e branco do Rio, o Vasco, foi rodada a rodada de 2013 traçando seu caminho para disputar a B nacional de 2014. A trilha, a ladeira para o rebaixamento é árdua, angustiante e exige muito dos motores-corações dos hinchas. Os frios matemáticos e demais analisadores racionais já percebem a queda eminente. São 75, 80, 95% de chances. Vão somando do diagnóstico domingo-quarta-domingo.

O Z4, como é chamado, é a nuvem que nubla o fim de semana. Tira o gosto da balada ou do cinema de sábado. Tira o paladar da praia ou o do parque dominical. Faz a segunda-feira começar em ressaca, um sentimento amargo na boca e um certo constrangimento em trajar o uniforme aquele que já lhe deu orgulho. A maioria dos torcedores já passou por isso e conseguiu reagir. Mas a garantia de um futuro melhor sempre beira a incerteza. Afinal, na série B, por exemplo, são outros 19 clubes sedentos e em planejamento para conseguir um dos quatro lugares ao sol.


Mas o tema central, deixe-me dizer, é a amargura da reta final que antecede o desastre inevitável. O lado racional, como um repórter de veículo pequeno que não é escutado, ousa professar que o final do ano é triste e o rebaixamento, sim, ele vem. O lado emocional e apaixonado veste a camisa no domingo, paga o ingresso, o deixa no portão de entrada, passa a catraca, escala os degraus e espera para encarar o inferno com os próprios olhos, ao lado de outros pares. Entra em desespero, engole um pouco o choro. Depois chora. Soluça e vê a situação toda como um ente querido e muito enfermo. Enquanto isso, outros próximos jantam a brindadas por uma vaga na Copa Libertadores. Não é fácil, queridos.

Promete voltar e repetir os rituais e mandingas em busca da salvação do companheiro até a última e derradeira tentativa de reanima-lo. O veredito irreversível pode vir de um conformista ao seu lado nas tribunas. De um amigo que foi ao jogo junto e presenciou a tragédia também e digeriu o estrago primeiro. Pode ser pela rádio, com o comentarista ou narrador trazendo a notícia como um médico treinado a informar finais melancólicos.

A parte mais triste talvez sejam os caixões fabricados pelos rivais da rivalidade secular. Eles são confeccionados e pintados com prazer com as cores de seu clube, em trabalho realizado pelos gozadores do drama. Apesar de ter de engolir mais essa, a funerária não recebe a ligação no fim trágico. Não a do torcedor que passa por isso. Porque não é O fim.

Ele vai, mais cedo ou mais tarde, levantar a cabeça. Comprar com alguma resistência o guia da série B no ano seguinte. Vai analisar a tabela. Rir de um ou outro nome exótico. No fundo, tremer um pouco ou um muito por todos os nomes, um de cada vez. Mas torcer a cada batalha. Vai repetir os hábitos e vai para la vuelta arriba y otra vez.

E que ninguém desmereça a dignidade de cair chutado, escoriado pela incompetência alheia e lamber as feridas com um retorno triunfante.


 

04/11/2014

Hermena - Texto de Verões Passados

Começo o texto questionando quem seria o tal sujeito com o nome que batizou o balneário mais meridional do Brasil. O nome é de origem teutônica e significa “aquele que se sacrifica aos deuses”. Mas não é bem o que eu queria saber.

Bom, após os últimos veraneios, tenho me dado ao luxo de estreitar nossas relações e chamá-lo simplesmente de Hermena. Além de mais afetuosa, a redução do nome da praia de Santa Vitória do Palmar facilita as rimas: Hermena, pequena, morena, tranquilidade plena, sem problema, belas cenas, que pena... que pena ter de deixá-lo.

E digo que o velho Hermenegildo, ou Hermena, é um sujeito bastante simpático, acolhedor e simples. Seus moradores, em ampla maioria, são do próprio município de Santa Vitória, sendo conhecidos uns dos outros, esbanjando a característica simpática do interior gaúcho, somada ao cenário de praia em uma ótima combinação. Não é difícil estender papo com o entregador de água ou com a farmacêutica, como pude observar.

Eles também não demonstram tanta vaidade, assim como é notável no povo uruguaio, distante territorialmente somente por alguns quilômetros, e talvez sendo o povo que mais invade o balneário no verão, a julgar pelas placas de carro, sotaques e camisas da celeste olímpica a desfilar nos arredores.

A distância do Hermena em relação à região metropolitana e a outras grandes cidades contribui para que não haja muitos turistas. Juntam-se às características da praia: o preço acessível das refeições e estadias, as areias limpas e as áreas de banho e pesca sendo diariamente respeitadas. A lei que proíbe e recolhe cães soltos na praia funcionava melhor há 2 anos atrás, mas continua evitando uma proliferação demasiada e preocupante, como ocorre em Pelotas, por exemplo.

Não é segredo que os cuidados pelos bens coletivos no Uruguai é imensamente superior aos cuidados do povo brasileiro. Pois é, a aproximação com esses hermanos pode ser extremamente vantajosa nesses quesitos listados acima. Tirando os arredores da entrada, onde há o clube e a praça principal, as demais ruas são extremamente tranquilas e, por toda a praia, pode-se andar de madrugada sem qualquer receio da violência, tão presente em outros balneários.

A praça principal recebe eventos nos fins de semana, como por exemplo, tratando-se do último fds, as músicas do sujeito que abriu os shows do Maná no Brasil e o concurso Musa do Verão, em que a música do Felipe Dylon com o nome do concurso foi insistentemente tocada durante todos os desfiles de todas as candidatas. As programações também são constantes no clube, com partidas de futebol de areia e festas para todos os públicos, a qual me agradei bastante na que fui. Sem falar que tudo é extremamente perto, permitindo que os trajetos para almoçar ou descer para orla da praia sejam feitos a pé, inclusive para idosos.

Pois é, está feita a propaganda da praia mais ao sul do Brasil, aquela que une terras, águas e sotaques brasileiros e uruguaios, que une lazer e tranquilidade por ótimos preços. Hermena.

02/11/2014

O imbatível trem alviazul

Gilmar foi o cara na Boca do Lobo.

Jogo de ida da semifinal da Copa Ivânio Branco de Araújo, a Sul-Fronteira. A Boca do Lobo em Pelotas como casa ao mandante São Paulo, da cidade ao lado, Rio Grande. Quem viajou mais para ocupar o cargo de visitante é o Lajeadense, o trem azul do segundo semestre.

Sem o estádio Aldo Dapuzzo, a missão do Leão da linha do parque era ainda mais difícil. Sem desistir, a Mancha Rubro-Verde esteve presente com suas faixas e o repertório completo das torcidas organizadas. Instalada devidamente na arquibancada da avenida Bento Gonçalves, apoiou firmemente nos primeiros instantes.

Com a esfera de couro rolando, não demorou para o indigesto convidado aprontar, como tem sido costume. Aos 7 minutos, cruzamento da esquerda de Goiano, o goleiro Diego não achou e Gilmar completou para os barbantes. 1 a 0 para o Lajeadense. Momento triste na jogada foi a queda do goleirão do São Paulo, que acabou encaminhado ao hospital com uma lesão no ombro. Ambulância afuera do estádio e resolvemos deixar o campo também e escalar os degraus da Boca do Lobo, para fugir da possível chuva. Chuva que enganou e não quis aparecer na tarde nublada.

Com o retorno da essencial peça de segurança do espetáculo, retorno também ao jogo, com o São Paulo com seu goleiro reserva, Vagner. O gol de empate do Leão veio somente no fim da etapa inicial. Em cruzamento para área, Guilherme foi derrubado ESCANDALOSAMENTE. O juizão atendeu. Tiago Rodrigues cobrou firme e igualou a peleia: 1 a 1. E foi só antes do tio apitar pela primeira metade concluída.

Com o segundo tempo em recomeço, o São Paulo tentou investir mais, porém deixando espaços à cruel dupla de ataque. Gilmar e Paulo Josué, de entrosamento até como combinação sertaneja. E aos 12 minutos nasceu mais um apronto dos avançados de Luiz Carlos Winck. Após escanteio, Paulo Josué cabeceou para frente, correu para completar o drible no marcador e chutou rasteiro, escolhendo o canto. Bucha! 2 a 1 para o Lajeadense e comemoração em conjunto com os reservas que aqueciam próximo à pintura.

Ao São Paulo, o prejuízo era gigantesco com os gols sofridos "em casa". Vagner ainda salvava o possível e até em algumas causas que pareciam impossíveis. Na frente, partida pouco inspirada de Dudu Mandai, o homem da classificação e procurador ainda em vão do talismã Suárez, o cão que o mordeu no último jogo. Sem mordida e sem grandes mudanças na busca pelo empate parte 2.

E na administração do placar, o Lajeadense aproveitou o fim de semana dos mortos para mais um sepultamento. Um brinde ao bom futebol dos laterais de um time treinado por um brilhante ex-jogador da posição. Agora foi da direita. Thiago Machado colocou no centro, o zagueiro do São Paulo foi traído pelo quique da bola e deixou-a sobrar nos pés de quem sabe o que faz. Gilmar ajeitou e chutou entre as pernas do goleiro Vagner para selar o placar. 3 a 1 para o Lajeadense.

30/10/2014

Espelhos e Espinhos

As diferenças são como pequenos espinhos. Espinhos imersos em uma superfície onde APARENTA haver civilidade. Mas quando cutucados, os espinhos inflamam e não são retirados sem punir quem ousou encostá-los. Aí debates acabam em brigas, baixaria e preconceitos em erupção.

São tempos atuais de discordância elevada em grau político, quando debatem-se as crenças do que seria melhor em âmbitos sociais e econômicos. A eleição presidencial parelha e antagônica separou visões diferentes. A corrida de campanha foi conduzida como uma corrida entre duas bigas, de certa forma em retrocesso semelhante às barbáries comuns aos romanos da época.

27/10/2014

Domingo D+4

E saí de casa solito, na esperança de encontrá-la. Não sei se ela ou a vitória. Eram duas belas meninas, de todo o modo. Concreta, visível em pele, ou abstrata, no sentimento de cada um envolvido. De todo o modo, era para terminar saboreando o fim de tarde de um domingo de um calor infernal sobre os concretos da cidade quase grande.

Longe demais das capitais eu estive caminhando, quase em linha reta. A geografia das ruas permitia tal traçado em direção à ela (a vitória). Ouvia minhas escassas opções de rádio FM, após já ter escolhido facilmente as escassas opções de candidatos na eleição. Era o segundo turno para governador e presidente. O candidato estadual de minha preferência já havia perdido quando deixei minha casa com os fones de ouvido. Diferentemente do conformismo da primeira "derrota", a segunda apuração era uma decisão mais antagônica, importante. Minha candidata precisava vencer. Obrigação na cartilha para curtir as próximas horas. E os próximos anos.

Caminhei e andei e andei ainda mais um pouco e o horário da divulgação da apuração, 20 horas, não chegava. O sol obedecia ao ciclo e quedava aos poucos para seu esconderijo. Não sabia mais se os óculos escuros eram necessários.

Já dobrava para a rua decisiva, enquanto na calçada oposta um trio de jovens, um deles com o violão em mãos, cantava Jota Quest: "e se quiser saber pra onde eu vou, pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou". De longe, avistei duas camisas de cor muito semelhante à minha. Ao descobrir o bigode conhecido de um colega universitário, rumamos juntos pelo centro. Agora três camisas de tons quase idênticos e com o mesmo voto no coração por baixo delas. Altos papos de política até o apartamento do amigo daquela noite.

De lá, aguardamos a apuração. O colega de ap. dele, reclamando de pressão desregulada, estava com um notebook para conferir o resultado do clímax dominical. Ele, também eleitor de mesma escolha, aborrecia por sua falta de emoção/expressão enquanto anunciava algo de importância comparável a um teste de DNA. E deu ela. Deu ela, sim. 95% das urnas brasileiras apuradas. E 96%. E 97, 98%. É TETRA!!!!! - infinitas exclama ações.

Papeamos mais um pouco sobre futebol interiorano gaúcho e política de parâmetro local e nacional antes de sair às ruas. O comitê, antes ocupado por somente meia dúzia de gatos pingados com o sol ainda a martelar, agora estava tomado. A quadra destinada aos satisfeitos e contentos com o resultado recém saído do forno (literalmente, pelo calor do cão).

A cuia passeou ainda mais algumas vezes por nossas mãos e a erva caliente por nossos bicos antes de acabar o conteúdo da mateira. Um papo ali e outro acolá, do outro lado do mar de bandeiras vermelhas para contextualizar o significado vitorioso. Trocar mais ideias com gente que, na ampla questão, concordava em maior grau conosco. Em meio a isso, procurei-a com olhar inquieto. Achei outras vistas apreciáveis, mas não ela. Somente os olhos e sorrisos da outra menina apareciam: a menina vitória.

Um papo com um paulista que hace artes visuais no pampa gaúcho e está terminando o curso. O estado de São Paulo vive a seca da água e a seca da ausência de um governador de esquerda no estado. A primeira seca recente, pega todos de calças curtas como informação bombástica. A segunda se arrasta por anos e permanece mais quatro. Mas para presidente, apesar da pequena votação lá em SP, a situação segue diferente ao Brasil. Para melhor.

Ele me conta que chegou à nossa Universidade local pelo ENEM. Foi um dos primeiros contemplados, lá em 2011, sendo a Federal da cidade uma das primeiras a aderir integralmente os ingressos pelo Exame Nacional. Agora, próximo do fim da jornada nestas terras, o jovem diz que já consegue financiar apartamento em São Paulo com o programa de assistência à moradias. Vir para cá e estudar com o dinheiro dos impostos foi possível. Voltar formado e com auxílio no custo do imóvel também é.

Entre outros olhares de quem imagino boas histórias e motivos de estarem lá em comemoração, temos negros e negras, bandeira LGBT, bandeira com as cores que simbolizam as lutas femininas. Temos crianças influenciadas pelos pais. Crianças que tomara tenham um futuro melhor para seus futuros filhos. Temos motoristas de ônibus ilhados provisoriamente pelas olas embandeiradas. Uns buzinam. A maioria deles se manifesta, na verdade. Adesivos em carros do ano (?) e em bicicletas.

A cerveja de marca gaúcha desce rápido. Rápido, antes que esquente. Vejo mais crianças, mais gente alegre. Quem não pula é comparado com uma ave da fauna brasileira. A multidão começa a dispersar e me disperso em um turbilhão de assuntos e pensamentos, colecionando algumas certezas como adesivos de candidato. Assim, também volto para casa.

Os ônibus não vem, mas acerto as teclas do celular e consigo carona. Eu tenho carona, nem todos têm. Concluo, dessa campanha encerrada, que meu voto não é só por mim. É pelo estudante com o sonho das artes, é pelas empregadas e empregados que saíram a comemorar no domingo à noite, pelos LGBTs com suas bandeiras e direitos, pelo boné que vi dos sem-terra, pelas minorias sociais em geral. É por melhor condição de serviço e salário dos motoristas e passageiros de ônibus. Não é só por 20 centavos. É pela maior humanização ao meu redor.

Divulgação do site Catraca Livre

23/10/2014

Respiração Gota a Gota

"Nascemos para quê? Para sermos mais uma gota no meio do oceano?", ela disse em meio ao diálogo. Importante despertar de ideia, naquela incessante inquietude pelo "quem somos?". Existe uma legião bem grande de gotas espalhadas por aí. Podem parecer e se assemelham em muitos aspectos, mas não são iguais.

Há gotas que gostas mais. Há gotas que gostas menos. Há gotas que parecem vir ao mundo somente para secar outras gotas. Há gotas que escorrem lindamente juntas, se entrecruzam e persistem lado a lado.


14/10/2014

Feira cultural pela negritude

 Realizada no Mercado Central de Pelotas,
a Feira da Cara Preta reúne expositores
com cultura afro da região sul do estado


A Feira da Cara Preta chegou, em setembro de 2014, à sua 3ª edição. A realização é uma oportunidade de manifestação cultural para artistas e expositores da zona sul do Rio Grande do Sul. Em Pelotas, a cultura de raízes afro é bastante presente e faz parte do desenvolvimento do município desde seus princípios. Porém, segundo um dos organizadores, Jonas Fernando, “os negros ainda não conseguem se ver como parte do modelo de sociedade em que vivem”.
A ideia do evento é exatamente o que Jonas propõe: inserção. Buscar espaço em um mundo onde a arte e o lazer caminham de maneira segmentada. Por isso, a Feira da Cara Preta, que ocorreu entre 19 e 22 de setembro no Mercado Central de Pelotas, reuniu cerca de 40 trabalhadores, entre artistas, organizadores e vendedores de artigos de moda e gastronomia. A tradição surgia de diversas formas aos visitantes. Culinária e vestimentas típicas, pinturas, esculturas, literatura e dança, além de rodas para debater a história e o espaço do negro na sociedade.

12/10/2014

Voltam Vultos

Não detive o que vem de ti
Não detenho o teu desenho
Que surge à minha frente
Formado em minha mente
Informante incessante
Dos problemas da gente

09/10/2014

Pequeñas cosas pequeñas

Uma vogal a mais na digitação. Um pingo sobre a letra I mais desenhado na caligrafia a ti endereçada. Uma entonação mais aproximativa no telefone. As pequenas mudanças comunicacionais que nos fazem sentir bem. A simplicidade como o aroma do café sobre a tranquilidade da mesa. Ou sobre o caos ao redor, mas com a bebida dotada de cafeína como oásis no deserto de quem busca paz, sossego ou inspiração.

A grama na sua tonalidade mais verde possível, sob os disparos do regador das nuvens. Biosfera de tantas minúsculas espécies, biosfera do nosso imaginário na procura por algo certo em meio às sarjetas e calçadas imundas. The Kooks no fone de ouvido, enquanto a fofoca é menina livre nos arredores. O violão de algum MTV unplugged dos anos 90, do formato mp3 ao aparelho auditivo, enquanto o ônibus sinaliza no letreiro seu bairro, mas parece o caminho mais curto ao inferno.

A camiseta daquela banda ou daquele time, perdida nas multidões, com um corpo desconhecido a ser cobrido por ela. Um rosto passageiro. Um sorriso certeiro em alguma vitrine, esquina ou faixa de pedestre. A voz macia de atendente de telemarketing, quando o serviço tinham tudo para ser os piores minutos no conjunto de 24 horas.

O mergulho do sol no horizonte como despedida diária de seu ciclo. A caminhada sobre folhas mortas, o olhar acima aos chaveiros dotados de clorofila nas árvores. A flor solitária em local inusitado. A flor comunitária com suas familiares.

Pequeñas cosas, pequenos versos pelos segmentos do universo. 


Comboio Sonha+Dor

Tanta gente a esperar o expediente acabar
A batucar no balcão e na mesa
Com a cara virada em tédio
A mirar os ponteiros do relógio
Com o assédio de esperar a sobremesa

Tanta gente assassina, serial killer do tempo
Faz chacina e fascina quem corre a todo momento
No turbilhão do dia a dia, no corredor das correrias
Roleta por roleta, transportes para casa
O tempo diminuto, de minuto em minuto
Não sobra um puto espaço
No escasso tempo em brasa

A fogueira das vaidades, vai idade e vai idade
Vai cidade que só cresce no sentido vertical
Verte e verte, mas inverte o sentido principal
Vai cidade a incendiar, a vaiar os teus sonhos
Como um rolo que atropela o comboio sonha+dor


29/09/2014

Ore Chá

Minha mente recua

Turva, em decaída

Obrigado por ser

Meu chá das duas da matina

27/09/2014

Cinzeiros que não apagam

Vadio que sou, adio os compromissos e as responsabilidades que a princípio doem, mas me fariam bem. Adio o processo de remoção da letra I que inicia a palavra imaturidade, que muitos me cobram, numa transição a prazo, mas que eles querem o quanto antes, à vista.

Vadio e vaidoso que sou, adio conversas e tira-teimas. Não vou direto ao ponto, porque como diz a canção: "se eu tentar ser mais direto, vou me perder, melhor deixar quieto." E quieto, na inquietude do silêncio, transbordo e deságuo aqui as influências e afluentes de mais um dia, pouco antes de nascer o próximo com o sol.

E nublado da mente prossigo. Inválido para o que interessa para a maioria. Insuficiente nas carências dos outros que procuram soluções. Carente na busca das minhas próprias respostas. Analisador dos arredores, com poucos credos a crer. Tenho credores de favores que não posso cumprir. Há credores em minha família, que faz, reconheço, sua parte. E de minha pessoa, já os disse: não esperem de mim mais do que este aviso. Não mais do que estas linhas.

Caminhar posso e pelos meus percursos tenho ideias. Abstratas e incompletas, na incessante procura por respostas. Por repostas, que reponham minha mente no âmbito da sanidade. Não me sinto são, nem de saúde e nem de santo. Faz algum tempo. Os lamentos se acumulam em uma imensa fogueira que clareia minhas retinas. Me cega. Me encerra em suas labaredas. Me cerca e não me deixa avançar.

O extintor está extinto. Mais uma mão de tinta recobre o muro das lamentações. O visual é berrante, o cheiro da tinta enjoa. As quatro paredes parecem reduzir o espaço. Os metros quadrados se estreitam. Os centímetros cúbicos de água sobem e, por mais que eu saiba nadar, nada me protege se a quantidade chegar até o teto.

Mais um texto. Mais um dia.



23/09/2014

Quando o sol nasce, logo o procuro

Ao meio-dia, só quero uma sombrinha


O calor como a bipolaridade dos dias


Que por meu corpo caminha

22/09/2014

Não deixe a capa castrar o livro

As voltas voláteis do volante, timão que move o mundo, são conhecidas de nossas humildes cabeças. A roda gigante de estar embaixo agora e estar em cima mais tarde, ou vice-versa, acompanha nossa passagem em andança. Bem verdade que as mudanças estão longe de serem no comodismo de uma cabine (chamam cabine?) de uma roda gigante, onde vomitar é uma opção que passa longe, se comparar com outras atrações dos parques de diversões. As mudanças instáveis se assemelham mais a trens-fantasma, montanhas-russas e aqueles crazy fucking dance e sei lá o quê mais.

As primeiras impressões a respeito de uma pessoa surgem quase involuntárias. Nossa capacidade de julgar o livro pela capa se excita e lançamos, mesmo que para nós mesmo, pareceres, ideias, subestimando ou enaltecendo a nova forma de vida a se conhecer. "Ilusão de ótima" é uma de minhas postagens nesse blog. Mas além de, primeiramente, termos impressões melhores do que as que descobriremos a seguir, no velho jogo de "expectativa x realidade", muitas vezes nos colocamos numa defensiva e procuramos defeitos logo de cara. Velha prática também do bullying, de buscar, através de deficiências / limitações problemas no próximo.


Os julgamentos que prestamos como que selecionando o próximo livro de cabeceira em uma disputada livraria, muitas vezes não se confirmam. Tendem a cair. Analisamos obras, trabalhos, atitudes sem nem ao menos conhecer a pessoa e sua larga e vasta vivência (que jamais entenderemos por completo). Se nem a mim mesmo posso direcionar e justificar o que faço e farei, por que caberia julgar o próximo pelo que fez ou faz? E o fará, que ainda não nos pertence sequer TENTAR medir!

Nessas voltas prestadas pelo mundo, em vantagens e desvantagens, em alegrias e tristezas, em saúdes e doenças, o que construímos de julgamentos sobre pessoas, seus trabalhos, empresas, suas dimensões, caem e se perdem. Quantas vezes julgamos situações olhando por fora, sem conhecer os reais fatores envolventes na causa? Clubes de futebol que não apresentam resultados satisfatórios, por exemplo, podem ter problemas de elenco, rendimento de atletas, contratações erradas, problemas com preparação física, com logística... Enfim, há de se levar em consideração todos esses itens e mais alguns, como finanças, investimentos, marketing...

Uma pessoa que comete um crime pode ter uma criação e uma convivência que incentivaram a chegar a tal ponto. Exemplos de familiares, de amigos que fizeram o mesmo e saíram impunes. Exemplos copiados de uma sociedade competitiva e violenta. Os exemplos rondam e caçam nossas mentes de formas brutais e cruéis. Como se não bastasse o próprio diabinho suplicando sobre meu ombro com maldades intrínsecas.

Cabe então, ao terminar o tecimento de mais estas linhas (mania desses vícios de linguagem que formalizam e padronizam minhas baboseiras) nos confrontarmos com nós mesmos com o objetivo de domar as abusivas castrações de análise. Para de falar difícil! Tá, ok. Cabe a nós diminuir os julgamentos e darmos mais oportunidade aos outros mostrarem o que são e o que querem. Cabe ficarmos atentos, observarmos antes de emitir nossas percepções. O julgado e taxado de hoje pode te ajudar em um futuro próximo. Estejamos cientes. Por hoje é isso. Boa semana.


20/09/2014

O Cinzeiro das Poesias

A poesia é de poucos
É de porcos, é de pérolas
É o diabo de auréola
A poesia é de loucos
É o que não se compra com cédula
E o que não se enxerga com células

O tempo real dói
O planejamento vai pro pau
O planejado se corrói
O futuro lamenta
O muro que não se constrói
 
Mais um pouco, mais um copo
Mais um pouco de faxina
Mais um louco, mais um louco
Exorciza!

18/09/2014

Agradar a todos? Nem AC, nem durante, nem DC

Linhas de apoio:
Me apoiem, me alentem, calientenme linhas! O texto é sobre a impossível missão de agradar a todos. E sobre a nobre missão de abrir mão de nosso agrado para agradar alguns. Boa leitura.

Como diz o velho ditado: nem o cabeludo (será que era mesmo como os atores de propaganda de shampoo?) crucificado agradou a todos ao seu redor. E o ser humano é aquele bicho complicado, como já chegamos à conclusão em outras filosogadas da madrufia. A reflexão, a bola da vez nesse jogo de sinuca em que todos caímos, mas voltamos à mesa, veio através de uma manhã de correria.

Para mim, a correria acontecia por compromisso em pleno período matinal de domingo. Para outros, porém, a correria parecia ter começado mais cedo e por motivo totalmente oposto. Maratonistas, leigos e afins se reuniam em avenida próxima de minha casa para esticar as pernas em atividade esportiva. O acesso por onde meu carro passaria estava obstruído por imóveis cavaletes. Bah, vou me atrasar! Bah, extinto de violência! Essa não, é furada!

O motorista da frente queimou o pavio mais rapidamente e desafiou o agente de trânsito que monitorava a situação. Deu um cavalinho de pau e fez o retorno por onde veio, agora em contramão, correndo o risco de atropelar alguém. Complicando o serviço da manhã tranquila do agente vestido de azul. Primeiramente atordoado com a manobra ousada do motora revoltado, o responsável pelo tráfego logo apitou, ao não ser obedecido, em seguida ligou motor e foi atrás do infrator com sua moto. Onde já se viu? Foi peitar a lei e certamente deve ter levado um canetaço na sequência. Valeu a pena essa irritação, esse gesto rude e arrogante? O bolso provavelmente confirma que não.

Em meio ao estresse de quem tava com outros planos na tirada do carro da garagem, os maratonistas e corredores davam exemplo de esforço físico, de superação a cada passo em distâncias que não devem estar acostumados a percorrer. Davam exemplo de união, talvez iniciando amizades, ou quem sabe conservando outras pela prática do esporte. Parabéns a eles. O dia a dia reserva correrias e banalidades de olhar pros lados ao sacar e guardar o carro com medo de roubo, de catar vaga loucamente no movimentado centro urbano, de procurar arduamente o caminho mais curto no GPS ou a gasosa mais barata pra colocar no tanque. Mas aqueles homens e mulheres só queriam cumprir o cooper, vencer obstáculos, suar para liberar prazer.

Tão melhor correr ao ar livre (quando o livre também significa fugir um pouco dos combustíveis dos veículos) do que corretear pelas esteiras monótonas de academias claustrofóbicas. Realmente um belo exemplo dos corredores esforçados pela avenida Dom Joaquim. O agrado deles, infelizmente, não era meu agrado na hora. Somente minutos depois em pensamento, no cair da ficha do que realmente são as coisas. Perdi uns minutos que quase me custaram um atraso constrangedor, mas vi muitos ganharem o dia a cada passada com o olhar compenetrado que os fazia seguir em frente.

E esse exercício - o pensar nos outros beneficiados mesmo com meu parcial prejuízo - deve ser feito diariamente. Mais do que atividade física. Pense bem em quem escalar nos poderes legislativo e executivo nas eleições. Faz a balança com menos interesse próprio e mais altruísmo. Mais altruísmo na busca por vaga para estacionar. Mais altruísmo para não atrapalhar os demais com som alto. Para não largar o lixo em qualquer lugar. Parece simples, mas a praticidade do altruísmo é um gasto grandioso. Mas é recompensador, sem dúvidas.

O agrado a todos tem um carimbo de impossível reservado a ele. Mas por que não abrir mão de um pouco de nossas sensações egoístas e dar oportunidade aos demais de conseguir a alegria momentânea? Uma multa a menos na carteira dos pontos da vida.

09/09/2014

O Racismo é Expandido, mas o Debate Não


Se o ano de 2013 do futebol brasileiro foi marcado por muitas confusões entre torcidas em confrontos físicos, o 2014 colocou em pauta outro problema social. O racismo até pode parecer caso isolado, mas é exatamente nessa linha de pensamento que perdemos a chance de fazer o verdadeiro debate pela sociedade.

A maior repercussão de racismo nos estádios do país ocorreu na Arena do Grêmio. O goleiro Aranha parou o jogo entre o tricolor gaúcho e o Santos por conta das agressões verbais que sofreu de alguns torcedores. Aos gritos e imitações de macaco, a injúria racial contra ele foi nítida. A punição veio em 3 de setembro, com multa e exclusão do Grêmio da Copa do Brasil.

Logo após o crime, grande parte da mídia apontou o dedo e fez a nuvem dos julgamentos chover sobre alguns indivíduos identificados por cometer os atos de preconceito, além de alguns veículos fazerem a crítica contra o clube Grêmio como um todo. Parcela considerável dos críticos ao clube gaúcho passou a questionar cânticos da torcida Geral do Grêmio, em que aparece o termo "macaco" para citar o Internacional. Existe o debate sobre a origem confusa do termo usado pelos torcedores. No caso se a palavra, adotada há mais de década em músicas, é cantada com caráter racista. A Geral defende não ter essa intenção ao cantar, mas a abertura para várias interpretações, por se tratar de um termo mundialmente usado em atos de racismo, dá margem para condenação dessa torcida por terceiros.

Partiu da própria direção gremista punir a Geral após repetirem os cantos no jogo seguinte ao ocorrido com Aranha. A torcida está proibida de entrar na Arena com instrumentos musicais. Engana-se quem pensa que as polêmicas cessariam com a punição do STJD ao Grêmio. Conforme pesquisa de torcedores, o passado de auditor do Supremo Tribunal de Justiça Desportiva veio à tona. Nas redes sociais, Ricardo Graiche, membro do tribunal, havia publicado mensagens de conteúdo racista. Um choque contraditório que chega a invocar a ironia na causa.

Assim, o Grêmio tenta anular o julgamento e alega falhas no STJD. Já Ricardo Graiche, de auditor, passa a ser réu e não deve sair ileso.

Não posso esquecer da exposição da primeira gremista acusada de injúria racial. A jovem Patrícia Moreira, mostrada em filmagem insultando o Aranha, foi hostilizada de várias formas, seja nas redes sociais, ou até com a casa apedrejada em Porto Alegre. Saliento que a moça não é a única culpada e nem merece tal represália de quem busca justiça com as próprias mãos.

Exemplo de vingança teve a torcida do Flamengo no domingo (07/09). Com seus torcedores contrários ao racismo, xingaram gremistas no Maracanã os generalizando como racistas. Além disso, entoaram os comuns cânticos homofóbicos e xenófobos contra o Rio Grande do Sul. Em resumo, o episódio traz algumas lições. É preciso apontar menos o dedo ao próximo e ter consciência de uma maior autocrítica. Portanto, não se deve combater um tipo de preconceito com mais preconceito. Agrega em nada no combate ao racismo o uso de machismo (evidente contra Patrícia), homofobia ou xenofobia (vistos no Maracanã).
 
O debate maior não é sobre Patrícia, sobre o Grêmio, nem sobre os estádios. Racismo e as demais formas de preconceito são um problema social do dia a dia de um Brasil hipócrita, onde não se costuma mirar o próprio umbigo. São muitas as pedras arremessadas por quem tem teto de vidro.