07/03/2021

A Última Dança

Após a última dança, o corpo se desconecta aos poucos do transe em que se encontrava. Como uma carroça que frea, como um ventilador que se desliga e segue girando em rotações cada vez mais lentas. Como um sonho que termina, mas permanece em fragmentos que se esfumaçam à medida que acordamos.

A última dança vem na última música. Quando o silêncio vem crescendo, interrompendo a canção final. Os músicos terminam seu trabalho, sem soar, mas com os instrumentos ainda em mãos ou próximos do soprar da boca. O microfone ainda plugado. Se for eletrônica a música, o eco parte em desmanche até abandonar nosso interior auricular. Ressoa sobre a mente ainda o findar. Propagam-se as ondas que se reduzem.

A última dança tem o sabor nela mesma, em busca da lembrança, da memória, da eternidade. Mas nada se garante. Ela deve apenas ser dançada. Dá-se o máximo naquele gozo de minutos, talvez últimos segundos. Pois é a última dança.

Após a última dança, os pensamentos pertencentes à dança se diluem, pois não há mais dança, foi a última. O que se pensava, ou deixava-se de se pensar, fica para trás. A realidade é um silêncio em espiral crescente, encobridor, uma pressão sobre os ouvidos, um par de luzes ligadas para sinalizar que, sim, acabou a música, acabou-se a última dança. As luzes que mexem, diferem o tamanho das pupilas, o antes e o depois, o clima ajustado para a última das danças e o posterior fim de festa, o término maltrapilho, a maquiagem que foi maquiada, sobrepujada pelo instinto, pelo suor, pelo desembaraço, pelo colidir de corpos e rostos, pelo resfolegar zombeteiro. Os pés cansados das danças até a última delas, os sapatos deixados para trás, os brilhos gastos, os pés descalços, o perigo de serem pisoteados, dos corpos, das massas ocuparem o mesmo espaço, não respeitando ao dito científico da física; o chão do salão e seus restos e as bebidas jogadas fora, e os copos descartáveis, e papéis e serpetinas e confetes e demais adereços a depender da festividade em questão - até a última dança.

A última dança reserva vestimentas que eram muito aguardadas por utilizar. Aquele terno, peça mais cara, ou ao menos de maior destaque no guarda roupa. Ele termina amarrotado, manchado, talvez de bebida, talvez agredido pelas glândulas sudoríparas contra o dorso, com manchas nas axilas, com um lenço para fora, com a companheira gravata solta pela festa. Um smoking, um colete perdido pelo encosto de alguma cadeira, a ser retomado ao final da última dança, pois na rua estará frio. Alguns ficam esquecidos pelos encostos ou nos trocados das chapelarias. É possível errar de paletó quando mal identificado. Os vestidos das mulheres, alugados, escolhidos a dedo, moldados, pré-moldados, cosidos, descosidos, apertados, soltos, desbaratados ou de missões cumpridas. Terminam suas passagens pelos salões para ir de encontro às bolsas, largadas às mesas, cuidadas ou descuidadas enquanto tentavam aproveitar a última dança.

Na última dança reside o alívio de quem não dançava nem iria dançar, só queria ir embora. Esperava carona. Esperava um aviso, um sobreaviso, um sinal... um final. E houve, pois foi a última dança. As luzes se acendem, os rostos se procuram ou se escondem. Se descobrem pessoas, posturas, casais feitos ou desfeitos, virtudes ou defeitos, penteados arrumados ou bagunçados, gel e coques que abandonaram seus donos. Brilhantina não mais brilhante, instante que desenha outra realidade, mais ou menos alternativa. A última música devora a festa, é o gran finale, é o c'est fini, a rodada derradeira, a tomada de cena decisiva, o epílogo de cada um. Na última dança, pode-se congelar as pupilas de uma maneira depois apenas imaginária, uma repetição das contracenas, apenas para dentro da mente. Se só existe o presente, não existe mais a última dança, apenas sua lembrança, no cárcere da memória, no imaterial, na invalidez, no campo quimérico.

Na última dança, cada movimento é decisivo, cada balé é bem traçado, ou mesmo desajeitado, já do cansaço redigido ao longo de atmosférica noite, ambiental contemplante, ambiental contemplado. Ambiental que desaparece para o valsar da última dança, mais tardiamente, mais derradeira caso seja a última noite. Às vezes é a última e jamais saberemos antes da última esperança - esperança de que não seja a última noite.

Na última dança, quando acende-se as luzes sobre o baile, sobre a festa, quando apagam-se as luzes sobre o palco, outras serestas, tudo indica o final dos tempos - ao menos daqueles ali depositados em um cheque sem fundos, chamado última dança. Aquela que prometia, aquela que surpreende, caso se espera mais alguma para fechar a noite. Mas a aragem, o aspecto, o tempo suspenso no ar indicavam que era a última - a última dança. O teatro das marionetes a fechar as cortinas, as máscaras a debruçarem-se, encuralarem-se, saltarem para fora dos rostos. Nada mais poderia ser feito, pois era o último gingado, os últimos passos, requebrados, swings, para quem gosta assim chamar, dos sultões, das baronesas, dos escalados, das preferidas, dos guerreiros e guerreiras, lutadores contra a própria sorte e sorte alheia, em um canavial, ritmo carnaval de última dança.

Como uma vela soprada, com um passista solitário, como um artista de rua, como um volante que atua sem a bola, como um jogador em findar de carreira, um capitão temido e representante de sua esquadra, um capitão de navio no púlpito diante de seus serviçais, operários e seus chefes, mordomos, mordomias e seus amos, cargos de equidade, tudo ali, junto e misturado, na última dança. O artista, a artista, seja quem for, se abaixam, apanham o chapéu, dos trocados que o preencheram e vão para guaiaca antes do adereço da cabeça voltar ou não para cobrir o couro cabeludo ou então a careca. O número de circo encerrado, a praça desconjuntada, os pedestres a dispersarem, os músicos a se aliviarem, dos instrumentos de sopro, dos dedos calejados contra os instrumentos de cordas, a garganta que ora respira, os pés que reconhecem que tiveram trabalho e agora descansam, doem, sentem, contraem-se, espicham-se e sabem que a última dança foi tarefa executada, ato de ata assinada. Quem sabe em uma próxima voltem todos para mais um capítulo da última dança, mesmo que, para tantos, esta tenha sido a última. Até a próxima.

Casar contigo

Eu pensei que ia casar contigo

Assistindo a um filme de Godard

Mas você terminou comigo

Antes da gente chegar lá


Eu pensei em casar contigo

Assistindo aos casais de lá

Mas você terminou comigo

Antes da gente ter nosso lar


Impostos, taxas de condomínio

A mobília da sala de estar

A TV, nitidez e brilho

E os domingos a passear


Eu pensei em casar contigo

Sem saber os riscos de casar

Escovas de dente, figos de cera

Maçãs e peras

As chaves onde vou pendurar?


Pensei completar a cartela do bingo

Quando a gente se casar

Eu pensei em casar contigo

Mas sozinho eu vou ficar


Eu pensei e pensei comigo

Que contigo posso me casar

Mas casar pode ser um perigo

E sozinho e eu vou ficar

06/03/2021

Velas que não se apagam

Madrugada em que sonhamos com os mortos. Ou com os vivos conhecendo seus futuros. Foi o curioso caso que aconteceu com minha irmã.

Um céu cinzento, o alto mar, as velas embandeiras, bem tecidas, perigosamente estiradas contra o resfolegar do vento. O barco em deslocamento sobre o sofregar do ir e vir das ondas. O olhar dianteiro tentando antecipar as desventuras que nos apareceriam. Minha irmã toma a frente apoiando sua cintura contra a proa da embarcação. Estende o braço adiante como que para indicar a batida frase de terra à vista.

A ilha é um isolamento de tal modo que o barco não tem muito onde acostar-se. Começa a brecar nos inevitáveis bancos de areia, defesa impenetrável. Os solavancos nos preparam para a descida. Minha irmã é a protagonista, embora as palavras aqui sejam narradas por mim. Contra a vegetação altiva de coqueiros e outras árvores, os pássaros voam ora em círculos sobre nossas cabeças, ora de maneira desordenada e atônitos por tão bela vista, ao mesmo tempo temos que sincronizar nossas energias na real missão e também torcer para que não nos acertem com seus dejetos.

Na ausência de habitações na encosta, ao menos às nossas vistas, rumamos direto para um objetivo fúnebre: o cemitério local, que comporta, já visualizados ao longe, mais lápides do que provavelmente haja habitantes na ilha. A formação insular, também observamos, não tem embarcações companheiras em nosso retiro. Recordo que quando passava pelo cemitério da cidade, próximo a meu clube e local de trabalho, eu notava sempre a lista de velórios e enterros do dia, constatando os dias de mais ou de menos infortúnios na vida de nossos concidadãos. Se a missão até a distante ilha era conhecer o vasto cemitério, tivemos uma distinta exclusividade em relação às demais pessoas. Onde estariam os demais? Por que encarregavam os mortos a tão distante localidade? As perguntas surgiam aos montes enquanto as formas humanas eram limitadas a nossos passos que constituíam as mais novas pegadas naquele solo arenoso recém aparado pelas ondas marítimas.

Minha irmã guiava a breve caravana, constituída mais por mim e por poucos passageiros. Caminhamos em sentido íngreme para subir a encosta rochosa que levaria até ao cemitério. De uma coisa não havia sombra de dúvida: a pousada definitiva dos mortos contava com uma vista privilegiada que animava a nós, ainda vivos, em uma afanada instantânea do fôlego. Minha irmã estabeleceu contato com uma local que agora terminava o trajeto, já tecendo a voz baixa, exclusiva para nossa líder, sobre o lugar em que estávamos conhecendo. Provavelmente minha irmã passaria as informações para os demais tão logo pudesse conferir-lhe a oportunidade de transmitir.

Seguia a procissão de passos certeiros, agora sobre o chão rochoso, não mais de areia como no desembarque e primeiras centenas de metros. O silêncio combinava com a garoa que ora nos pingava a roupa já transpirada, ora vacilava em cair. O abafamento lembrava a alternância do clima da cidade em que crescemos. Nem o vento litoral dava conta de livrar-nos do peso que já era parte de nossas mentes. A protuberância do cemitério era impressionante. Tentei observar o semblante dos acompanhantes e todos eram inexpressivos, como se aceites de tal destino definitivo. Me perguntei se eu também estaria em estada definida ou teria o poder ou qualquer chance de apelar para a persuasão diante daquele juízo final.

Em uma casa de guarita ao portão de entrada, a guia espiritual curvou-se para dentro da casinha não sem antes gesticular a todos que esperassem pelo seu regresso para prosseguirmos. Um a um, ela se aproximava e cedia uma vela praticamente intacta. Poderíamos considerá-las recém acesas. Ela tinha determinante destreza e habilidade para se encarregar da tarefa. Com agilidade, ia e voltava com os candelabros a servir-nos. Pensei prontamente: repetição e competência. Mais repetição fabril do que qualquer habilidade sobrehumana.

Estremeci quando percebi chegar minha vez de receber o presente. Tentei agradecer, mas minha voz estava entrecortada. Eu seguia a observar a frente da procissão a uma certa distância, pois logo percebi que apenas duas pessoas, provavelmente um casal, estava atrás de mim na breve fila. A mulher com um aspecto cortez de freira novamente posicionou-se diante de todos para, com um gesticular tímido, como quase tudo que fazia, indicar o prosseguimento da jornada, já adentrando aos portões do cemitério.

Percorreu-me a impressão que essa quietude seria apenas para o caminho de ida e não haveria volta. Se houvesse, precisaria ser em uma tremenda batalha. Todos permaneciam muito calados, sem emitir sons, sequer grunhidos e com os rostos perfeitamente intactos quanto aos efeitos de tão lúgubre e macabra aventura. A quietude era cortante, o espaço para elaboração dos pensamentos quase formavam eco de tão alto que meu cérebro raciocinava aquele impressionismo todo.

Tentei ler as lápides, mas meus olhos desviavam de uns túmulos para os outros, os globos oculares pareciam que ardiam, parecia que as letras me escapuliam, me fugia a interpretação de nosso simples idioma. Em outras, a sopa de letrinhas se embaçava, minha visão piorava e eu não sabia como contornar esse problema incipiente e a curiosidade mórbida de meus pensamentos. Fui desistindo dessa ineficaz tentativa e voltei a atenção para meus trôpegos passos, para evitar maiores acidentes com a vela em mãos. Cheguei a segurar-me o riso porque, dentro de um cemitério vazio de almas vivas, as consequências de um incêndio seriam mínimas. Mas tão logo me apresentou essa ideia, formei o raciocínio de que os pingos da garoa deveriam dar conta de apagar nossas velas rapidamente. Não era o que acontecia. As chamas permaneciam sua dança, seu acovardado rebolar de maneira íntegra. Era impossível. Os pingos até apertavam, eram um bombardeio que não deixariam chances para o fogo sobreviver sobre essas condições. Insano.

E as pedras não pareciam ser afetadas pela umidade crescente. O que estava acontecendo? O que parecia somente um cemitério de encosta, ao sopé de uma montanha, um morro ainda maior, mas acima dos efeitos da ressaca marítima, agora era um caminho sem fim. De repente, nossa procissão parou e a mulher voltou a falar baixo, de maneira que o fim da fila, onde eu estava, não conseguia ouvir. Novamente circundei minha visão para os demais e, para minha surpresa, todos pareciam concordar, com um leve acenar afirmativo de cabeça. O único olhar atônito e a única testa franzida deveriam me pertencer naquele momento. Minha irmã cedeu passagem e não foi a primeira a receber uma espécie de benção, uma oração ao pé do ouvido. A mulher passava instruções precisas e as pessoas, sem pestanejar, apenas assentindo, prosseguiam suas diretrizes cemitério adiante - ainda havia uma eternidade de lápides até onde a vista alcançava. O sopé da montanha já ganhava proporções de ser a própria montanha. Provavelmente subimos de uma maneira tão menos inclinada após a primeira formação rochosa que agora nem percebíamos a intermitente subida que se desenhava. O mar se arremessava contra as areias muito abaixo, visível, mas não mais audível, pelo incrível que fosse.

Minha irmã foi a terceira, após ceder as primeiras vagas, embora não demonstrasse nervosismo, nada de mãos suadas, como eu podia observar, uma de suas marcas registradas, o brilho do suor não lhe brotava das extremidades. O rosto tão impassível quanto as faces dos demais. Era tudo inacreditável. Após receber o palavrear da discursante guia, ela pediu uma licença com um movimento de cabeça semelhante aos cumprimentos do povo oriental asiático e abriu passos em minha direção. Contou-me.

- Chegou minha vez. Fico por aqui. Queria me despedir.

- Mas o que está dizendo?!

- Você não percebeu?

- Eu... - Me sumiu a voz outra vez, como quando fui agradecer à espécie de freira.

- Não estaremos mais juntos. Eu vinha te avisando nos últimos dias, não vinha?

Permaneci emudecido.

- Agora preciso ir, estão me esperando.

Ela girou para retornar sua posição à frente da fileira, mas puxei-a rapidamente pelo braço. Instruí minha força como pude, mas ela reagiu de forma surpreendente, demonstrando precisão para escapar da investida.

- Preciso ir. - Reiterou.

Percebi que minha luta era absolutamente solitária. Enquanto tentava agarrá-la de volta para sairmos daquela insanidade, ela, além de disposta a obedecer seja lá o que lhe disseram, me vi envolto dos demais pares de braço que agora tentavam me conter, por, obviamente, estar atrapalhando o objetivo daquela derradeira jornada. Me senti completamente intruso, como já parecia desde os rumos do barco e do desembarque nas areias, mas agora com certezas.

Enquanto me esquivava dos braços peludos, magros, gordos, flácidos, de unhas vermelhas, sem esmalte, roídas ou escuras mãos trabalhadoras daquele grupo heterogêneo, levantei a vista ainda para deparar-me com o olhar fulminante da guardiã da casa dos mortos. Não menos horripilante - pelo contrário - foi perceber que da terra sulcada erguiam-se novos pares de braço. Primeiro um. Um direito, o esquerdo. Um esquerdo, o direito. E cabeças desfiguradas com o topo do couro cabeludo incompleto, com o crânio à vista, com um olho sim, outro não, com a falta da mandíbula, com os ombros deslocados, com relógios de pulso sobre ossos e não mais músculos e pele. Todo tipo de aparência daqueles porteiros se metiam a nosso encontro.

Cambaleei alguns passos, praticamente caí de costas, observando aquela cena inacreditável, aqueles olhares dos humanos que permaneciam aceitadores e inexpressivos, minha irmã que não batalhou comigo, mas ficou a assistir aquele inevitável desfecho. Os mortos, a meu nível estive próximo de tocar completamente o solo, esses de aspecto mais sedento, mas talvez fosse apenas a força de sua decomposição contra meu olhar aturdido.

Corri praticamente em linha reta naquele mar de túmulos que havíamos transpassado e eu não os conseguia ler no momento anterior. Novos grupos de cadáveres lutavam para alcançar meus passos cada vez mais ligeiros rumo a uma tentativa de libertação. Quando avistei a guarita e os portões ainda abertos, percebi a iminente oportunidade de fuga. A corrida me custava um esforço danado sobre as pernas, um suador contínuo e o abafamento da respiração naquele tempo absolutamente cinzento. Parei quase defronte à guarita de onde a mulher sacara as velas. Percebi dois funcionários de rosto em começo de estado de putrefação. As mãos do rosto não só não estavam coradas, como sediam rugas, afundadas, para dentro, uma pele que facilmente seria desmanchada até com uma colher.

- Você?! - A sua já está acesa. - Disse, apontando para uma vela. Outras tantas estavam sendo acendidas aos fundos, em uma peça como uma capela ou, no mínimo, gruta. Novamente não pude fazer melhor julgamento pois a visão estava turva.

Segui correndo, aproveitando aqueles últimos segundos antes de aparecerem novos "funcionários" para cerrarem os portões. Ainda pensei em minha irmã por lapsos de segundo, mas percebendo que não havia como salvá-la e talvez até minha primogênita tentativa seria rechaçada. A encosta abaixo, agora parecia bem mais alta, corria praticamente como se estivesse a saltar degraus de uma imensa escadaria. Tropecei, virei cambalhota, ralei os joelhos e cotovelos, mas não me importava com a dor, desde que a continuasse a senti-la. O que não queria era cair no ostracismo da dor nenhuma, ou o que fosse acontecer com os outros dos portões para lá. Alguns já cambaleavam a me seguir, mas tive a suposição de que não poderiam romper aquelas barreiras imaginárias, desse mundo completamente quimérico e ilusório.

Procurei pelo barco e, cada vez mais desesperado, não o encontrava. Apenas areia e águas. Pensei em me arremessar na água, me livrando das calças para maior agilidade sobre as águas. De repente, senti um toque no ombro. Parei. Congelei. Senti o coração prestar um solavanco como se quisesse romper qualquer barreira do pescoço. Pensei no lapso: "Agora que vou parar lá dentro, com vela, com tudo". No outro segundo, estava minha irmã a me encarar sem entender.

- Por que está tirando as calças?

- O quê?!

Me deparei com um píer de pesca. Algumas pessoas me olhando. Uma criança de uns cinco anos me apontando o dedo. Sua mãe ou tia a repreendendo, ao mesmo tempo que segurava o riso.

- Vista isso aí...

Subi as calças, conforme a ordem de minha irmã. Fechei a braguilha com os dedos nervosos, demorando segundos que jamais havia me custado.

- Não se preocupe - ela concluiu. - Você escapou. Dessa vez.



Uni-vos

P**** ******
bicho desgraçado
vai ser enforcado
aqui na nossa sede




03/03/2021

Testemunhas oculares em mundo parcialmente cego

Tenho lido um dos gênios peruanos, Mario Vargas Llosa. É polêmico, é denso, é intenso. É do gênero humano. Personagens que transitam entre fazer o mal, o mal e até o bem. Creio que foi em filme do não menos polêmico sueco Ingmar Bergman que um personagem se refere que não havia o certo ou o errado, somente a ocasião e como agir nela. Instintos. Autopreservação. Sobrevivência. Vantagem própria. Situações.

Estava justamente pensando com o agravamento da pandemia e como penso na irredutível proteção a meus pais e demais parentes. Ao passo que me recordo de todos os amigos dependentes financeiramente dos mais velhos. A incerteza da pandemia de covid-19 sobre nossas vidas. Efeitos e consequências que podem ser devastadores. O amanhã que se molda completamente incerto. Escrevo do alto do fundo do poço. O pior momento pandêmico, o colapso, o agravamento total da falta de leitos, de vagas e de material humano: faltam profissionais inteiros física e mentalmente para combater os inacabáveis casos de covid. Os médicos, enfermeiros e demais deslocados, funcionários para atendimentos não aguentam mais a rotina extenuante, extremamente desgastante nos seus dia a dia.

Mas ao passo que penso primeiramente na proteção de meu círculo, meu grupo de proteção afetiva e financeira, e somo a esses restritos nomes um par de amigos próximos e mais os amigos menos próximos e mais os amigos de amigos, quem sobram como inevitáveis vítimas?

Escrevo isso do alto do fundo do poço, porque no dia anterior foram mais de 1700 mortes causadas pela doença. É o assunto que nos enquadra, sumariamente mortifica, nos põe contra a parede. Nos apunhala como se fôssemos alvos de um poderoso taco de beisebol. Direto na nossa fronte. No dia anterior aos mais de 1700 óbitos, mais de 1600 óbitos. E quantos serão mais? Diariamente, chegarão a ser mais de duas mil perdas? Apesar da crescente em ritmo vagaroso campanha de vacinação ainda se crê em alguma melhoria. Mas até lá será tarde demais para muita gente. E para quem? Dos nossos seres amados a demais conhecidos até a incrível massa, nuvem dos números mortíferos de cada dia.

O país definha e a população aceita o capitão do navio exterminar com todos como no clássico da literatura e cinema, Moby Dick. Ao invés de afundarmos com uma baleia branca nos oceanos terrestres, a criatura-besta-maior está no comando. Posturas imagináveis para o que sempre demonstrou ser em sua carreira política, compatíveis com o esperado, mas ainda inimagináveis, pelo contexto ampliado de pandemia. Tudo isso parece um pesadelo de alucinação coletiva. Estamos cataratas a baixo. Estamos naufragando. Estamos morrendo sem ar. Sem reação. Derrotados no calvário de cada dia que nos dai hoje. Perdoai-nos o voto de 2018, porque eu não consigo perdoar. Queria, mas jamais olharei para a humanidade da mesma forma. Perante todas as horripilantes questões recorrentes. Não consigo mais.

Professores e líderes da docência, do estudo e da ciência (re)começaram a ser importunados em processos abertos pela sindicância do governo da República. No Sul, observo em imagens veiculadas nomes conhecidos, como o idealizador do rugby em ensino Federal e o maior nome, referência acadêmica nas pesquisas de combate à covid-19. São estes educadores, são estes profissionais da educação que estão sofrendo ataques. Estão atacados por atacar. Por atacar a doença, por combater a pandemia, com a luz da ciência, do caráter operacional pesquisador, com a tentativa do êxito em um país fadado ao fracasso dos últimos anos e pela próxima década.

Estamos envoltos em um literato Mar Morto, onde a salinidade não nos permite fluir, avançar, respirar e progredir. As impecáveis trevas. A educação sofre constantes ataques, inclusive apoiada por aqueles que nunca quiseram prestar aumentos salariais aos educadores, aqueles que sucateiam a máquina pública. Aqueles que sabotam a vida da população, principalmente a mais pobre. Esses falsários, que hoje verbalizam pela execrável abertura das escolas no pior momento da pandemia, esses verdadeiros criminosos deveriam ser derrubados e impugnados, defenestrados de seus cargos hoje, porém, diante da tão pouca, escorregadia e sumida esperança, que ao menos as páginas da História futura saibam onde posicioná-los. Imputá-los em um papel, em um protagonismo negativo, como pivôs de um destaque que nunca mereceram ter, mas já que os holofotes estão neles por ditarem as regras, que sejam cercados pelos currais da desgraça. São culpados e jamais os esqueceremos.

Desde 2018 estou intalado com eles. Meu sorriso nunca mais se abre, a não ser por mero descuido e ocasião de segundos. Conseguiram. Se comecei esse breve relato enaltecendo os complexos e demasiado humanos personagens de Vargas Llosa, brilhante peruano, termino ainda incrédulo com a falta de humanismo, empatia e responsabilidade de nossos desgovernantes e não rara parcela da população. São unilaterais. São unicamente ruins. Desprezíveis.

Se chegaram até o final dessas linhas, estou, do alto do então fundo do poço (eles têm as pás em mãos a cavá-lo entusiasmantes a cada dia), estou na torcida por vocês. Isso e o que mais me restar à disposição. Como afirma Igor Natusch, minhas caras testemunhas oculares do fim do mundo.

20/02/2021

road movies

eu faço músicas feias castelos de: areia eu faço os meus laços e se ficarem cegos eu corto eu faço os meus nós e se ficarem cegos eu... eu

punheteia a guitarra ao ritmo de um road movie nós vencemos as curvas mas não ganhamos das nuvens

massageia a lâmpada vê se sai mais uma ideia o gênio preso sob a tampa e sob o chapéu de alumínio repleto de medos e também de delírios faço uma música de cada vez yeaaahhh yes faço uma música de cada vez yeaaahhh yes vivo uma loucura sem sensatez

16/02/2021

sem ganhar uma rupia

trabalho pra caralho
sem nunca ganhar uma rupia
capitalismo porco
sistema filho da puta

nossas terras engendradas
por empresas estrangeiras
eles enchem as algibeiras
e pra nós resta naaadaaaaaa

trabalho, quebro galhos
sem ganhar uma rupia
sem sistema de esgoto
cegos operando lupas

empresas privatizadas
o lucro é todo deles
nossas terras arrasadas
somos sempre os mais reeeleeees

trabalho sem me sentar
sem ganhar um centavo
outros passam o dia inteiro
estando parados

população deslocada
periferias e favelas
acendendo toco de vela
longe das fachaaadaaaas

trabalho bem paspalho
sem ganhar uma rupia
tua utopia tá aonde?
não vale nenhum trocaaadooo

inverto os termos
dentro dessa música
sem nunca ganhar uma rupia
ou ganhando nenhuma rupia
ou sem ganhar uma rupia
pra parecer original
na hora de fazer o vocal
pra ninguém me copiar
sem ganhar um real
ou ganhando nenhum real
ou sem nunca ganhar um real

inverto os termos
dentro dessa música
sem nunca ganhar uma rupia
ou ganhando nenhuma rupia
ou sem ganhar uma rupia
pra parecer original
na hora de fazer o vocal
pra ninguém me copiar
sem ganhar um real
ou ganhando nenhum real
ou sem nunca ganhar um real

trabalho como uma mula
sem ganhar uma rupia
trabalho como uma mula
sem ganhar uma rupia
trabalho como uma mula
sem ganhar uma rupia

eu quero é ruupiaaaa
a mais rupia é minha
ninguém tasca, eu vi primeiro
eu quero é ruupiaaaa
a mais rupia é minha.................................



como uma mula

como uma mula eu reformulo
as mesmas frases
mudando palavras e talvez
algumas crases

como uma mula eu fico preso
ao que me cerca
se eu passar a primeira cerca
tem outra na minha reta
se eu for desobediente
é bala na minha testa

como uma mula estou junto
a outras mulas
tem quem viva e não se importe
e outras só simulam
e outras só simulam
e outras só simulam

como uma mula eu vejo os dias
passar no calendário
as folhas pulam e caem fora
e não cai o meu salário
e nada do meu salário
a droga do meu salário

como uma mula eu trabalho
todos os dias
(((exceto feriados)))
no departamento circula
grande quantidade de mulas
propina, débito em conta
laranjas, cheques sem fundo
sobre o lombo cargas em dobro
e drogas do submundo
e drogas do submundo
e drogas do submundo
e dólares na cueca
e drogas do submundo
e notas ultra-secretas
e drogas do submundo


15/02/2021

Blindagens

Estava inquieto para escrever. Meu cérebro geralmente está assim. Mas não sabia exatamente o que colocar no papel. Cronologicamente estamos no feriado de carnaval durante a pandemia. O primeiro carnaval evidentemente pandêmico, embora muitas pessoas ignorem esses sinais, alertas e riscos. Tentam uma normalidade inexistente. Pouco mais de 2% da população foi vacinada, uma para cada 50 pessoas. Mesmo assim, festas clandestinas em diferentes locais, sobretudo ao litoral.

Creio que minha mãe perdeu parte do gosto pelas praias ao ver imagens na televisão. Ela quer se mudar para perto do oceano, mas acaba balançando suas estimativas a partir desses contratempos. Meu pai recebe SMS da irmã dele, geralmente com agradecimentos por depósitos feitos ou informando sobre a saúde dos demais irmãos. Não é boa a situação dos tios. Receio que a continuidade dos fatos estremeça a relação positivista com que meu pai sempre encarou a vida e eu discordava. Mas é complicado discordarmos sem entendermos o que move e dá forças aos demais continuarem. Enquanto me blindo em pleno pessimismo e tentando assimilar os assustadores realismos que nos cercam, meu pai talvez se feche em pensamentos otimistas que o mantenham íntegro, com força para comprar algo na padaria, abastecer o carro e fazer serviços manuais, sejam mais ou sejam menos urgentes.

Eu estava refletindo sobre minha necessidade de estar sempre refletindo. Sou assaltado constantemente por pensamentos insólitos, transfigurados, adjacentes, entrecruzantes, enviesados. Mudo de assunto com rapidez. Crio uma ilusão de que minhas reflexões são mais importantes do que outras coisas. Passo-as ao papel no ritmo voraz da urgência. Na verdade, desabafo com menos funcionalidade e interferência ao mundo externo do que qualquer mascote ou palhaço fantasiado em frente a farmácias econômicas, anunciando descontos e tentando convergir clientes ao local. Qualquer vendedor de vale-transporte ou de equipamentos para bolhas de sabão, na luta diária pela sobrevivência, está mais interagido com o mundo.

Mas talvez esse seja o meu modo de lidar com as situações. Muito mais introspectivo e criativo textual do que os demais habitantes. Compartilhei uma campanha para ajudar um cão atropelado. Chamada vaquinha virtual. Para além de auxiliar esse pobre indivíduo, pensamos nos todos recolhidos e amparados pelas mais diversas ONGs, em parceria ou não com os poderes executivos municipais ou estaduais. Cães, gatos e outros animais, os outros que podemos comer à mesa. Socialmente aceito.

Outro dia eu caminhava pela avenida mais badalada da cidade, com os melhores imóveis, modernidades, novidades, gente se exercitando, carros à mostra, exibicionismos, restaurantes mais caros, inclusive um constatado que filava energia elétrica. Roubo. Bom, por ali eu me deslocava e reconheci um senhor de meia-idade que, na dificuldade do alto índice de desemprego, empunha um cartaz em busca encarecidamente de moedas, dinheiro para se alimentar e cruzar o facho de mais um dia. Parei diante dele, me atrapalhando com as palavras para informar que já o conhecia de ali passar outras vezes e que dessa vez iria ajudá-lo. Remexi meus bolsos, enrolado junto com minha língua que não pronunciava as melhores palavras para ocasião, acrescentado o efeito de estar por trás da máscara de tecido pela prevenção do vírus pandêmico. Ele também estava assim. Consegui sacar os dois reais que pretendia contribuir com o dia daquele cidadão. Não ganho para estar distribuindo mais do que isso. Tenho receio de meu próprio futuro. Tenho total desacostume com a rotina laboriosa. Fui criado dessa forma, infelizmente. Em uma aparente tranquilidade que de modo nenhum combina com a sociedade brasileira. A luta é diária. O lutar é exaustivo. É preciso seguir de algum jeito.

Me blindar com o pessimismo nem sempre vai resolver, é necessário interagir com as batalhas. Com os demais humanos e, nisso tudo, agraciar aos bichinhos. Os que não comemos. É duro tentar fugir da hipocrisia. Ela nos persegue. Pensei nessa frase anteriormente: enquanto buscamos o elixir máximo e inalcançável da justiça, nos persegue o bafejar constante e irrequieto da hipocrisia. Somos todos hipócritas. É muito difícil, senão impossível, escapar do aprisionamento da contradição.

Meu pai, ao contrário, se blinda em um otimismo que também nada combina com a sociedade brasileira. A cada SMS que recebe, informes de piora da saúde familiar, a televisão desde suas manchetes e complementos reportagens de que as coisas pioram. Desemprego, saúde, aumento da miséria, violência urbana, racismo combatido, racismo que combate, fascistas e antifascistas e antifascistas facistas. Tudo isso nos cerca.

No caos total, provavelmente meus julgamentos são muito duros. Às vezes com os outros e constantemente comigo mesmo. Já esperávamos pouco, mas permanece seguidamente a sensação de que podíamos mais. Correndo atrás da desabalada carreira da justiça, tentando vencer, ficar à frente da hipocrisia, mas lado a lado com ela.

14/02/2021

tão difícil quanto alcançar as malhas escapativas da justiça é fugir da hipocrisia 

06/02/2021

eu quero uma guerrilheira

eu quero uma guerrilheira

enquanto eu cuido da casa

ela luta na trincheira

eu contra o nome no serasa


eu quero uma guerrilheira

armada até os dentes

ela luta contra a polícia

e eu pra vencer a preguiça

e eu pra vencer a preguiça


eu quero uma guerrilheira

brasileira procurada

que eu ajude a esconder

suas identidades falsas

suas identidades falsas


eu quero uma guerrilheira

que chegue tarde em casa

chegue meia-noite e meia

e coma a janta requentada

e coma a janta requentada


eu quero uma guerrilheira

fugitiva de aparelho

que se veja no espelho

no semblante muita estrada

com sua vista cansada

guerrilheira da pesada

guerrilheira da pesada


eu quero uma guerrilheira

solteira por opção

marxista-leninista

sem medo da prisão

sem querer desistir

mesmo com medo da prisão

Explicações

Ao invés de me explicar, tive que me explicar porque não me expliquei. Não queria me explicar. Nem me explicar porque não me expliquei.

04/02/2021

Manual de etiqueta

Conversava sobre como se entreter, mesmo que infantilmente, nos restaurantes. Abordava o assunto rememorando quando eu era mais jovem. Sempre gostei de me alimentar em casa. A comida de minha mãe era muito, muito boa. Acima da média do que os restaurantes podem me oferecer. No custo-benefício então, nem se fala. E eu apertava a mão (mão de vaca) nessas questões. Meu jeitinho. Enfim, gostava de comer em casa e saía com o pessoal. Mas o pessoal, no improviso, seja por não terem uma mãe como a minha, seja por necessidade de horário, gostavam improvisar ou APROVEITAR o momento reunindo as pessoas para uma ocasião especial: a jantar.

Enfim, muitas vezes eu poderia já ter comido em casa, como era minha preferência. Assim, se me reunia cedo demais com os demais, precisava encontrar métodos de aproveitar o tempo nos ambientes tediosos que podem ser os restaurantes se você já comeu ou está sem fome. Conversando com Camila, pensava sobre como servir de passatempo. As ideias foram surgindo, sempre no improviso do aproveitamento de todos os objetos possíveis, de guardanapos a palitadores de dentes.

Nã, nada de poesia de guardanapo. A caligrafia neles sai tão ruim que só seria aproveitável caso fosse a urgência de esquecer uma ideia. Mas, vá lá, bastante já enviei mensagens de texto para mim mesmo para não esquecer algo. Hoje em dia bloco de notas, grupo solitário no whatsapp e tantas outras opções semelhantes são possíveis. O guardanapo não me agrada para esses fins. Mas ele está entre meus métodos preferidos de pirralhear em restaurante.

Os canudos, ela sugeriu colocá-los na boca e fingir ser um inseto. Uma mosca. Criativo. Pensei naqueles canudos - quase todos - encaixáveis nas suas extremidades. Pessoal gostava de desperdiçar dessa maneira. Acho que desde a época eu não aprovava muito. Hoje menos. Engenharia desnecessária que me irritava um pouco. E tantas as legislações que estão proibindo os canudos plásticos. Deixemos eles de lado.

Em casa ou em casa de amigos e parentes próximos, com a segurança e confiança que o utensílio possa proporcionar, seria possível girá-lo no dedo. Não no ar, na ponta do dedo, mas apoiando o indicador sobre o prato e fazendo-o girar entorno do seu próprio eixo, criando um efeito visual interessante. Além do efeito visual que o prato em movimento pode aplicar, ele também serve como instrumento musical. Os talheres como baquetas e o som é garantido. O copo e sua transmissão de ondas sonoras também pode ser assim aproveitado.

Mas o meu preferido, como bom fã de basquete, era arremessar os guardanapos usados contra o copo dos convivas. Eles que perdoem, mas isso nunca perde a graça quando o arremesso é certeiro. É preciso direcionar o tempo certo para essa façanha. Em festas de aniversário, casamentos e formaturas, então, após o pouco do álcool encorajar ao fazer efeito no organismo, a sucessão de arremessos é garantida. É preciso não começar a noite dessa forma imatura. Não. Ao longo da jornada, ganhará o arrojamento necessário e saberá o timing destinado à essa atividade encantadora. As pessoas já devem ter degustado suas bebidas nos copos e taças. Taças o tanto melhores porque mais largas possibilitam melhor índice de acerto. As pessoas já beberam nelas, ou seja, já tiveram a oportunidade de desfrutar do uso típico a que são destinados os utensílios. Porém, quando acham que podem repetir mais uma rodada ou dispor do desembuchante para a sequência de salgadinhos ou outros comes - PÁ - você mirou e tacou-lhe o guardanapo amasado direto no gargalo. A pessoa pode ter visto ou não visto. Pode ser surpreendida, pode rir ou ficar irritada. E o efeito em nós, caçadores natos, é o cômico de qualquer maneira. Azar o delas. Sim, sim, um dia seremos vítimas, prejudicados pela própria (quase) inocente brincadeira, mas as lembranças passadas nos serão válidas na memória. Dias de caça e dias de caçadores. Sobretudo, noites, como bem entenderam.

Atividades também com selo certificado, mais do que indicado, para churrascos em família e outros almoços e jantares. Boa mira e façam bom proveito.

21/01/2021

Envolto

Saber que tem gente que sofre mais do que eu no mundo. Isso me tranquiliza só por um instante. Como o estudante que vai com mais gente, acompanhado dos colegas para diretoria. Mas em seguida ampliam-se a náusea e o sofrimento. Sofro junto com os demais. Seus sofrimentos alimentam os meus e servem de bengala para minhas derrotas. Perdido pelo mundo, caminho sem chão e repito como mantra que não vale a pena insistir. Talvez até valha, mas raramente consigo enxergar assim. Lamentos e lamúrias por infindáveis dias. Seguimos.

18/01/2021

Mereces

Cecília é a segunda melhor Meireles

Porque antes conheci Vanessa

Seria Cecília

Se de Vanessa eu esqueça


Cecília é a segunda melhor Meireles

Dentre tantos seres com esse sobrenome

Não lembro agora de homens

Mas entre as mulheres

Voto Vanessa Meireles


Cecília é a segunda melhor Meireles

Se ela estivesse na minha cabeça

Entenderia

O porquê de escolher Vanessa

E todavia não Cecília


Cecília é a segunda melhor Meireles

Porque Vanessa eu conhecia

Mas Cecília, como brilha

Brilha muito mais que eles


Cecília, que é a segunda melhor Meireles

Porque quando à primeira te referes

La plus belle

É Vanessa Meireles

Ou isto ou aquilo - Cecilia Meireles

Ou se tem chuva e não se tem sol

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo ...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

12/01/2021

Estaba a oír un rock chileno

Estaba a oír un rock chileno
Y ya estoy con rabia de nuevo

No necesito salir de casa
Para escribir un tema
¿Por qué lloras reggae
Si no te ves el mar?

La rabia bloquea mis capacidades
No me encuentro con la ciudad
Las fátias de mi vida
Están muy desencontradas
Si estoy así, no sirvo de nada

Sin embargo me voy
Encontrarme alrededor
Como un barco a navegar
Y más allá me voy
Salir de alrededor
De la seguridad del farol
Con un futuro a descubrir

No necesito salir de casa
Para escribir un tema
¿Por qué lloras reggae
Si no te ves el mar?

Estaba a oír un rock peruano
Y me recordé cosas de hace un año
Cosas que me saltan cuando me voy al baño
Su rostro al espejo a me mirar

Me miré al espejo
Y no hay lo que ver
Si está en mi mente
Y va a trasparecer

11/01/2021

Esmagar baratas

Ela estava na parede da lavanderia. Minha mãe suspeita que sempre entrem pelo túnel intitulado ralo aberto da pia daquele cômodo. Seja lá como ela nos encontrara, a barata estava entre o vão da porta de correr e a parede, bem pousada na vertical. Traçamos um plano, chinelo em mãos, para que dali ela não escapasse. Como mesmo fazendo a porta de correr deslizar, a barata deslizava junto, mãe optou pelo spray SBP e ele deu resultado. Fique de brinde a propaganda. A barata caiu tonta pelo lado lado oposto e pude exterminá-la de vez na segunda chinelada, grudando-a ligeiramente ao tapetinho de entrada da lavanderia. Eis seu fim.

A partir da constituição desse homicídio e ocultação de cadáver, com breve lavagem no manchado tapetinho com o corpo da vítima, pensei nas baratas que são assim exterminadas diariamente. Pensei nas que eu gostaria de exterminar e pensei, infelizmente, nas que na verdade são exterminadas pelo sistema diariamente. Não bastasse minha conexão de raciocínios com essa temática, a primeira pessoa que cruzou a última quadra da rua onde moramos foi um carregador de sacos de lixo reciclado, conduzindo seu carrinho de mão com as costas arqueadas, como deve ser feito o movimento, situação que leva muitos a reclinarem a postura até se adaptarem de maneira corcunda. É a reclinação da humilhação, enquanto muitas pessoas reclinam suas cadeiras de praia, na praia ou à beira de piscinas. É o serviço árduo que lhes sobra executar como ganho de vida, por mais quanto tempo nunca sabemos.

No país, os preços sobem, se fala em gás de cozinha em preços acima de 86 reais logo hoje. A previsão para este temerário 2021 é que ultrapassa valores exorbitantes, como até 150 reais. É o fim da classe mais pobre. Mais um dos fins. Como um internauta comentou, se não for para morrer de fome, será tentando fazer o fogo com garrafas de álcool ou como for possível diante de estapafúrdia situação. É o botijão de gás, é o dólar acima de 5 reais e 50 centavos, é a gasolina voltando ao patamar dos cinco reais também. O Brasil definha em vários pontos em uma economia ladeira a baixo. Paulo Guedes talvez nem consiga transformar aqui em caos total do Chile, em projeto extenso de cunho liberal realizado lá. Ou talvez derrube tudo de uma vez de forma meteórica, relâmpago.

As baratas. Guedes seria uma das baratas em que eu teria o prazer de desatar uma chinelada contra. A corja ministerial e governante em vigência, idem. Não hesitaria exterminar as baratas como ato honroso, de justiça, de libertação, de bem-feitoria a todos os necessitados deste extermínio: imensa massa da população. Mesmo que nos asfixiemos com o spray liberado para a caça a esses malditos, seria um martírio em que teríamos tanto a comemorar e saudar o responsável por esse grandioso ato libertador, de renovação, de esperança, de tempos melhores. Ao contrário, vemos os ratos e as baratas se multiplicarem, invadirem nossos bueiros, saírem de nossos ralos, cercando-nos pelo box do chuveiro, pelas pias, pelas panelas, pelas canecas, pelos armários, pelas despensas. Alguns ratos pulam, outros são pegos, mas o sistema segue em pura manutenção. Até quando será assim? O 2022 terá poder de reação propício para o que necessitamos? Por quanto mais tempo aguentaremos? Fingiremos aguentar, enquanto há quem assim não possa, carregando carrinhos de mão pesados, perdendo benefícios, oportunidades, sendo soterrados em tremendo e edificante genocídio?

Estamos cercados, nosso spray em mão hoje não basta, precisamos de muitos exterminadores, precisaremos novamente das ruas. Jogo de xadrez entre a salvação de casos em pandemia a transcorrer e reformas políticas urgentes. Pressões e manifestações para impeachment. Até quanto mais suportaremos? Contra as baratas, enquanto fingimos que está tudo bem ao limparmos novamente nosso tapetinho de entrada, mas de onde não me sai da memória o ser ali antes esmagado. O cadáver pútrido em decomposição. A junção das ideias que não me alivia nem me deixa em paz.

Outras vezes penso que sou a própria barata. E quem não somos? Por vezes, embora haja casos que mereciam mais ser esmagados e há casos que estão sendo diariamente, urgentemente esmagados, sou eu quem está entre a sola do chinelo e o tapete de entrada. Entre a parede da lavanderia e a porta de correr. Sou eu, sou eu quem ocupa o cargo de inseto, de salário afrontoso, de resistência aos percalços, de prisão em minha mente que me oprime mais do que as baratas do poder.

Só por vezes estando no lugar das baratas todas para desatar esses nós e transcorrer essas linhas. Agora estou suando. Entre meu sangue quente humanista e meu sangue frio de barata.

01/01/2021

Perdão às andorinhas e gaivotas e maçanicos

Após assistir ao filme de Manou, a Andorinha, animação que me parece ser de origem alemã, com direção e produção e um impacto coletivista interessante para o imaginário de crianças, jovens e quaisquer pessoa, tenho observado algumas revoadas, bandos cruzarem o céu. Liberdade deles, livres de impostos, tarifas, custos, ordens e horários. O instinto e o pacto do bando a favor dos indivíduos, conjuntos que planam com a beleza de suas asas. Eles nos sobrevoam enquanto buscamos ganhar a terra, um pedaço para chamar de nosso ninho, protegê-lo dos demais, nos isolarmos em algum canto, contra os furtos de fortunas e contra a pandemia vigente. Para ganharmos os céus só por meio dos aeroplanos tecnológicos, cujo conseguimos adentrar através de passagens aéreas caras, fora de nossos orçamentos, também por conta da logística de dias de trabalho e férias. Há também as imagens de satélite chegando para nós através da imensidão. Mas aí estamos presos diante da televisão, sobre as almofadas do sofá da sala de estar.

E os pássaros acima de nós. Manou e as demais andorinhas, seu irmão gaivota e as demais gaivotas (Manou era adotado). Da minha cadeira de praia no interior de nosso restrito pátio, cercado pelos muros e cercas elétricas, olho para os bandos enquanto nossa gata, Melissa, me faz companhia, deitada sobre o piso que considera mais adequado para suportar o calor do verão nesta virada de ano. Por uns instantes, cometo a heresia de admirar mais aos pássaros do que à preferida Memel, nossa companheira desde 2017. Entre bocejos e semicerrar de olhos, Melissa encontra o mundo dos sonhos, enquanto me pairo a reflexões.

Conversava mais cedo com uma professora de Nutrição que está na Costa Rica sobre a condição dos latino-americanos terem melhores noções de coletivismo do que a ilha brasilis, na qual vivemos. Enumerei alguns pontos, como desde as origens com a vinda dos europeus, a demora pela independência e a prorrogação do período escravocrata até muito recentemente. Como a população ainda não parece associar a força que possui, as possibilidades, os lugares que merecem. As relações ainda parecerem muito trancafiadas e hierarquizadas, entre patrões/senhores e funcionários do proletariado. As noções faltando. A consciência de classe em falta. A consciência dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, as conquistas operárias, tudo isso muito distante do entendimento. Nosso sistema educacional que não aborda esses direitos, as influências externas (principalmente dos Estados Unidos) que nos complexam e nos encaixotam como vira-latas. Nossa extensão territorial e a desarmonia entre as regiões, a falta de unidade para garantir a luta e as vitórias que dela poderiam surgir. Estamos tão distantes.

Enquanto isso se recolhem Manou e as andorinhas e as gaivotas acima de mim. O maçanico do banhado também em formações negras no céu. A leitura do final de tarde é do livro Troca d'Armas de Luisa Valenzuela, uma argentina sobre o período conturbado da ditadura militar em seu país. Protagonismo na cabeça de personagens mulheres sobre como enfrentam os complexos da época, seu espaço, suas lutas, seus amores, suas vivências. Luisa é uma exímia escritora, fácil de se elogiar, difícil de digerir, tamanha qualidade do que transpassa para o papel. O livro me parece raro, tive que cadastrá-lo no site Skoob. Espero que mais pessoas acompanhem meu futuro julgamento de cinco estrelas para sua obra. Pelo incrível que pareça, o livro tomei de escolha após um início insatisfatório, quanto ao ritmo apenas, tomara, de Dou Por Vivido Tudo Que Sonhei, da também sul-americana, porém chilena, Isidora Aguirre. É a procura pelas vozes de nossa América através da crítica social. Escritas sensíveis, mas que apresentem conteúdos denunciadores, contextos sociais efervescentes, turbilhão de sentimentos em ebulição - no momento desta escrita fervidos com o disco das melhores dos norueguesas do A-Ha.

De volta para a professora de nutrição, ela acompanha meu raciocínio e ratifica que os fatores do individualismo brasileiro são mesmo os que apresentei. Deve haver tantos outros, obviamente. Nós lamentamos ambos com a novidade do primeiro dia do ano tendo sido um (mais um) vídeo irresponsável do atual (ó, céus, por quanto tempo? quero voar com as andorinhas e gaivotas e maçanicos) presidente da república. Ele salta de barco e sai a nadar em direção a banhistas, onde é muito bem recepcionado pela desgraçada cena. As aglomerações nas praias durante a pandemia colocam em xeque meu pensamento positivo sobre elas. A natureza segue bela, formidável, quanto mais intocável melhor. A humanidade a tudo polui. Além das embalagens e bitucas de cigarro, a novidade é a troca constante do contágio pelo novo coronavírus. Os mares e seus habitantes, as andorinhas, as gaivotas e os maçanicos que nos perdoem. E me deparo a finalizar a tarde com o declinar da noite e o pensamento que logo a espécie humana se extinguisse, esses pássaros tomariam conta do ambiente. O mais incrível parece que seguem sobrevivendo, levando jeito, se reinventando apesar da presença humana. Enquanto não destruirmos de vez o planeta, muitas dessas espécies seguirão planando sobre nossas cabeças. Outras, mais restritas a ambientes dizimados como o Pantanal não terão a mesma sorte, mas novamente que nos perdoem as andorinhas, as gaivotas e os maçanicos do banhado.

Às vezes enfrentamos os demais, às vezes nos refugiamos. Constantemente atacamos a natureza e naturalmente ela nos contra-ataca.

25/12/2020

Se Chamava Antônio

Ele suspirou, respirou fundo, parou o carro e puderam saltar os três. Ele era o pai, acompanhado da esposa e do filho estudante de alguma engenharia, pelo segundo semestre, mas com noções imobiliárias, metido que era naquela missão. O financiamento era do casal. Pararam naquela rua de aspecto pacato, um bairro de residências antigas, algumas quase centenárias e o prédio, de quatro andares, cada qual com um apartamento. Era ali o destino da família.

Conforme dito, desafivelaram os cintos, destravaram as portas e pousaram-se à beirada da rua, para acionar a calçada. Voltaram a lacrar as portas e o pai deixou em alerta o alarme. Embora nenhum transeunte passasse por ali. Provavelmente menos de um para cada 10 minutos. Nem os cachorros da vizinhança se manifestavam naquele final de tarde. O sol se declinava por sobre os telhados da via. Os únicos pets a darem sinal de vida eram os gatos da proprietária do apartamento em questão, o que motivava a visita. Os felinos botaram a cabeça por entre as grades de uma das sacadas acima.

Tocaram o interruptor e ela demorou quase dois minutos para descer daquele terceiro andar. Se identificaram como os interessados em adquirir o imóvel. Subiram pela escada íngreme de degraus perigosos. Se espantaram por aquela senhora subir e descer tamanha dificuldade diariamente. Seria um ponto para pressionar caso ela não cedesse à oferta.

Chegaram defronte à porta do apartamento do terceiro andar, em um inexplicável molho de chaves, a velhinha se perdia para saber qual a correspondente daquela específica fechadura. Na terceira tentativa, talvez nervosa por receber visitantes depois de tanto tempo, acertou. Abriu, arredou-se para dentro do vestíbulo e convidou os interessados. A sala era contígua à cozinha. Havia um sofá de uso limitado para dois assentos, além de cadeiras de madeira, revestidas com assentos de tecido. O filho e a mãe se acomodaram nas cadeiras essas. O pai optou por um banquinho, também de madeira, com um estofado um pouco mais confortável, aparentemente, embora sem encosto. A senhora, acariciando um gato na almofada conseguinte, voltou-se para o sofá, que ela de pronto respondeu ter recém adquirido pelo preço de 180 reais: - uma pechincha!

O marido sorriu e concordou. A esposa parecia impaciente, tentou esboçar uma reação semelhante, mas lhe soou toda falsa e logo desistiu, sem completar um segundo para seu infeliz movimento de boca.

- 180... Precisamente. - Emendou o marido para quebrar o silêncio. - Esse é o valor que logo chegaríamos. - Ele resolveu não perder tempo na negociata.
- O que quer dizer? - Rebateu a velha residente.
- É o valor de minha oferta.
- Não querem um chazinho? Já estava fazendo para mim. - Mudou de assunto a dona do gato.
- Obrigado. Recém tomamos café.

O filho até faria menção de aceitar, mas desistiu com a tomada de dianteira feita por seu pai. Engoliu em seco e sacou o celular do bolso. Estaria atento à conversa se precisasse ou considerasse necessário interferir.

O pai começou a tamborilar com os dedos sobre a mesa e até ameaçou evocar a mão fechada contra os lábios para simular um instrumento de sopro, hábito que sua mulher odiava. Ao aproximar a mão da boca, ela lhe surpreendeu com um olhar inquisidor e ele logo desistiu. Voltou a tamborilar com a outra mão enquanto a velha se deslocava alguns passos do centro da sala para o hemisfério da cozinha.

- Conhecem o apartamento? - Perguntou a velha, esquentando a água do dito chá.
- Sim - Prontificou o marido.
- Ainda não vimos, apenas as fotos. Você veio antes aqui, Antônio?
- Ah, sim, sim, por supuesto, as fotos.
- Antônio é arquiteto. É muito imaginativo.
- Me encanta a arquitetura do edifício.
- É só um prédio velho - interveio a velha.

Voltou-se profundamente o silêncio. O filho percebeu e retirou qualquer ruído do teclar do celular, que estava em volume baixo, mas ainda audível. Era tamanho o silêncio.

- Enquanto ferve a água, podemos dar uma olhada, o corredor desagua nas peças todas. Isso vocês devem saber. E não há muito o que se ver. As fotos na imobiliária estão com minhas poucas coisas que acumulei. Sou uma senhora muito sozinha.
- Deve dar trabalho um apartamento desses só para a senhora.
- Uma diarista me visita quinzenalmente. E ainda adianto trabalhos para ela. Não duvidem de mim.
A mulher tentou melhorar o sorriso. Foi melhor do que a primeira tentativa, de fato.

- São bonitas suas estantes. - Emendou a esposa, já desmanchando o movimento anterior na face, dessa vez nem se esforçando por repor.
- O principal são os conteúdos nelas. Os quadros, as lembranças...
- Entendo. - Apenas assentiu o marido.
- Já enterrei minha família - Dizia a velha, que na verdade nem tão velha era, apenas com idade para ser mãe do casal, avó do menino, que até seguiu pelo corredor, mas à essa altura sem desgrudar do celular.
- O revestimento das paredes é muito bom - se manifestou Antônio.
- Parece que sim - Concordou o filho.
- Certeza que é - reiterou o Antônio
- Isto é - se limitou a mais velha.

Ela caminhava com alguma dificuldade, após uma sequência de passos, apoiando-se com a mão na parede. Antônio ficava cada vez mais amargurado, angustiado com a situação.

- Dona...
- Nilza.
- Dona Nilza... Averiguamos o bairro... A área total, em metros quadrados, excelente... O revestimento, os parquês, embora alguns fora de lugar, naturalmente, sem problema. O acabamento das paredes, o das lajotas nos banheiros, acabo de ver... Em ordem para o que procuramos... 180.
- O anúncio é de 190.
- 180. Em mãos. À vista.
- Conheço seu perfil, Antônio.
Ele engoliu em seco.
- Conheço seu perfil - ela repetiu, abusando de embrenhar-se como a voz da experiência ali presente.
Antônio, que havia voltado ao ponto zero, seu banquinho ligado à mesa, a de refeições, leitura e o que mais a senhora pudesse fazer, repetia o tamborilar de dedos. Nervoso. Quase elencou o instrumento de sopro improvisado com a outra mão para a sua orquestra.

- Tem aparecido clientes, dona Nilza?
- De fato não têm vindo.
- 180 em mãos é uma belíssima oferta.
- Os materiais de construção subiram de preço. Estava pensando mesmo em valorizar mais meu apartamento.
- Mais do que 190?! Estaria disposta a 200?
- 200 é fora de questão - interrompeu Suzana, esposa de Antônio.
O marido abriu as mãos como em um gesto de complacência, de concordância pela opinião emitida pela esposa. Não disse palavra.
- Sim, sim... 200.
- Mas a senhora acaba de dizer que não procuram sequer pelos 180!
- O que não muda o fato de que os materiais de construção subiram, seu Antônio... Conheço seu tipo e você não conhece o meu... Leio jornais e vejo televisão. Só não estou tão inteirada quanto o menino.

Fez um gesto de cabeça em direção a Luis Otávio, que repentinamente elevou o rosto que estava direcionado à tela do celular. Alçou as sobrancelhas decretando sua parcial derrota e voltou a seus interesses no dispositivo que por ora gastava os dados móveis, pois não teria a cara de pau de pedir o wi-fi da senhora. Se é que ela tinha.

- É, não tanto quanto ele, Antônio.
A água ferveu.
Fervia também a paciência do Antônio, que tinha trabalhos atrasados de sua agência, mas, mesmo assim, encaixotado pela sua ansiedade e por alguma pressão de Suzana, resolvera usufruir do sábado para estar ali, disposto a resolver o dilema do apartamento naquela outra região da capital.

- 195 - disparou.
- Antônio!
- Pai!
- Shhhh. 195, dona Nilza. Veja bem, viemos com a sabedoria dos 190, nem ideia que a senhora aumentaria. É dinheiro à vista, é pegar ou largar.
- Vocês têm cachorro?
- Temos - disse Luis.
- Não é um bom apartamento para criar cachorros. - Disse, acariciando o gato imóvel no sofá, alheio ao tom intempestivo da conversa. - Nunca criamos cachorros aqui.
- Até parece que esse seu gato já nasceu aqui.
- O avô dele era daqui.
Para Antônio era como se fossem o mesmo.

- Há outras casas no bairro, apartamento é somente este. Vocês precisam de uma casa, sr. arquiteto - Insistiu a senhora. - Só está à venda este andar porque minha filha, que mora longe, quer me levar com ela. Ela sabe de nada. Não sabe o que é melhor para mim. Quero continuar bem aqui. Respeite uma anciã como eu.
- Conheço o perfil. - Apenas disse Antônio, reticente. - Nós voltaremos. Poderia falar com sua filha sobre o apartamento?
- Não poderia.
- Tudo bem, daremos um jeito.... Nem que seja por 200.
- Antônio!
- Pai!
Antônio se levantou, retirando da gola rumo ao rosto seus óculos escuros. Tentou fazer cara de mal, mas não parece ter levado muito jeito para isso. Parou de súbito, antes que a senhora lhes abrisse a porta, diante da estante tão elogiada anteriormente. Um retrato em específico lhe concentrava a atenção. O rosto esmoreceu por baixo dos óculos escuros, rugas estranhas tornaram sinuosa sua fronte. Ele engoliu em seco, respirou fundo e retirou-se ofegante, ainda dirigindo, por baixo dos óculos escuros, um olhar suplicante para a senhora, que quase o entendeu, que também se tornou vacilante, mas deixou-o ir. Sem mais delongas sobre a conturbada negociação infrutífera.

Cada passo no lance de escadas o levava de volta a 20 anos atrás. Ele segurou as lágrimas. Amava uma das filhas da senhora, teria que negociar com a outra, mas não poderia, seria prontamente reconhecido. Foi naquele apartamento sua noite mais marcante. Naquele apartamento, inclusive, começaria a ser gerado seu primeiro filho. Mas Luísa, a filha da senhora, que estava em férias então com o marido, ela nunca contou de quem era aquele princípio de gravidez. Antônio não tinha emprego, não estudava, não se sentia confiante para assumir tudo o que viesse. Luísa certa vez entrou em ebulição com a família, não resistiria mais ali, estava disposta, com duas bolsas, a sumir de casa, a procurar Antônio, a ver o que poderiam fazer. A pressioná-lo a fazer algo. Ele, que se culpava, mas não se movia.

Ela saiu de carro, parou no primeiro orelhão, telefonou para a casa de Antônio, chamou-o de voz angustiada. A mãe de Antônio atendeu, se preocupou, mas passou-o ainda fora do gancho. Ela contou tudo no tom de urgência. Antônio petrificado novamente. Mas cedeu, disse que ela viesse, que tentariam resolver o que fazer. Mais dois segundos e conseguiu gaguejar para que não fizesse bobagens. Ele poderia buscá-la. Ela insistiu que dirigiria até a casa de Antônio, que a família poderia caçá-la pela fuga inesperada. Olhava para os lados enquanto usava o orelhão e não demorou mais, queria voltar para o carro e não só ouvir, como ver Antônio.

Em um cruzamento, tudo acabou. Uma colisão direto na porta da motorista. Do carro e da jovem pouco sobrou. Luísa recém havia saído de seu bairro, mirando o carro em direção ao outro lado da cidade, para o bairro e a casa do Antônio. Ele estranhava e se desesperava pela sua demora. Resolveu, após uma hora, refazer o caminho que ela faria. Quanto mais corria, mais se esforçava, maior era o desespero. Demorou uma hora e meia para chegar ao local do acidente. Estavam finalmente recolhendo o carro. Apesar do impacto do acidente fatal, Antônio reconheceu o carro de Luísa. Ainda havia sangue no asfalto. Luísa e do que viria a ser o bebê, Antônio nunca mais viu.

Chegou a ir para o hospital, só não entrar no IML. Reconheceu, ao longe, a família de Luísa. Teria medo de ser reconhecido por amigos mais próximos dela. Quando viu alguns se aproximarem da família, fugiu. Sem estudos e sem empregos até então, foi direto para sua casa. Avisou a mãe aos prantos que precisava partir. Arrumou sua mala. Disse que não era culpado de crime, mas poderia ser apontado por gente influente que lhe manchariam a já desgraçada vida. Beijou a mãe e procurou pelo primeiro ônibus.

Os amigos de Luísa tinham dúvidas, assim como os pais da jovem. Ela era bem requisitada e o Antônio, daquela festa, era um possível palpite, mas o com menos pinta de assumir a paternidade. Para o comentário para aqueles lados da sociedade, para os donos daquele prédio inteiro de quatro andares, estava no final da fila. Mas Luísa não contava quem era o pai da criança e as suspeitas começavam a ficar mais fortes. Apenas duas amigas de Luísa sabiam. Ela havia confessado para Manuela e Lissandra. Com a súbita morte da amiga, em que a família confessou o desespero todo da situação do dia, foram ao encalço do tal Antônio, que nem costumava frequentar os mesmos círculos de amizade.

A irmã mais velha de Luísa trabalhava fora, mas em cidade próxima. Tinha sido informada de toda a fatalidade e pegou o primeiro ônibus. Quando chegou na cidade, Antônio, azarado de tantos azares, ainda estava aguardando que o seu partisse. Ele havia perdido o anterior por cerca de três minutos. Após quase hora por ali, o ônibus da irmã de Luísa havia chegado. Ela desceu, ele iria subir. A instantes, a metros da porta, trocaram longos olhares. Antônio achou que já estava era vendo fantasma. Não bastasse, a jovem talvez tivesse gosto semelhante da irmã falecida. O olhar entre os dois demorou o equivalente a séculos, naquele conta-gotas de segundos. Ele finalmente embarcou. Ela botou na cabeça a tragédia toda que teria que enfrentar e seguiu, tão atônita como qualquer outro envolvido na trama familiar, embora não fosse exatamente a pessoa mais próxima da irmã.

A família entrou em desespero, culpou indiretamente o pai da criança que nunca nasceu, pela morte da jovem Luísa. Afinal de contas, o motorista do carro que colidiu com Luísa também havia falecido. Não poderiam culpar outro morto. Poderiam, sim, mas procuravam pelo vivo. Aliás, a confusão no hospital que salvou Antônio foi pela quantidade de parentes do outro condutor e, no calor daquele dia, quase que as reuniões de pessoas pelos motoristas opostos que se fecharam naquele cruzamento termina em briga na porta do hospital. Ficaram no quase.

Quanto à família, não podiam criminalizar de botar cartaz de procurado contra Antônio, mas Manuela e Lissandra, que sabiam dele, informaram a irmã. Ela reconheceria. O contato visual foi tão forte que Antônio nunca esqueceu. Voltou a ver a Maurília, irmã de Luísa, na televisão, chorando pelo falecimento da irmã. Ele entendeu toda a cena da rodoviária. Queria distância dela... E conseguiu. 18 anos morando longe, morando fora, esperando todas as poeiras possíveis baixarem.

Reconstituiu a vida. Teve um outro filho, com a Suzana, com quem se acertou. Nunca esqueceu Luísa, muito menos a trágica história. Voltou à cidade com a desculpa de retornar para onde nasceu. Ele já havia perdido a mãe. Ela e os irmãos com quem nunca mais teve contato. Era um foragido daquela catástrofe. Foi morar para outro lado, mas viu pelas ofertas um apartamento à venda. A família de Luísa, que era dona de todo aquele prédio importante, agora tinha apenas um apartamento. O pai de Luísa morreu, muito pelo desgosto, resumiria. A velha se mantinha forte sozinha, ou quase isso, capenga por aqueles degraus e longo corredor, cada vez mais longo, pelo túnel do tempo e por conviver sozinha com o avançar da idade. A Maurília, que começou a se tornar cada vez mais durona como rocha, apenas queria que a mãe vendesse de uma vez o andar em que vivia e fosse adiante. O prédio era decadente, mas a velha senhora, dona Nilza, queria continuar vivendo por ali.

Mãe nunca esquece e o nome Antônio também não seria esquecido. De tão comum, deve ter culpado uns quatro ou cinco por pura paranoia naqueles anos todos. Os Tonis e Toninhos e Tonhões que se cuidassem. Nenhum chegaria perto de Maurília. Ela estranhou a procura daquele apartamento velho em zona pouco comercial, pouco industrial da cidade, embora pacata, uma família, gente ainda no ápice por viver e se socar por ali. Imaginou a briga daquele Antônio com a tal Suzana para forçar a mulher a dar as caras por naquele imóvel. Antônio, outro cabelo, outra barba, o mesmo nome.

Por precaução, por instinto maternal, por suspeita aguçada, telefonou para Maurília.
- Acho que o encontramos.

19/12/2020

Crônica insaciada

Acabo de ler Dostoievski apresentar sua argumentação em Notas do Subsolo sobre a vontade humana se sobrepor aos padrões racionais. A vontade, o desejo daquilo que ainda não se tem, daquilo que se quer, isso supera as leis racionais da busca pelo bem-estar, pela aparente tranquilidade. Há sempre algo em nós que nos coloca em movimento, caso contrário é a morte. Não há dúvida. Ele compara a conta de dois+dois serem quatro como uma matemática, aritmética racional, mas que independe de nossas vontades. A lógica, as leis de sustentação, o cálculo de uma viga de 10 metros (obrigado, Vitória Moraes) podem estar corretos, mas independem do nosso desejo para estarem ou não. São coisas que podem ser tabeladas, podem ser definidas por fórmulas e cálculos repetitivos. De uma vez que se atinjam os resultados nas tabelas de senos, cossenos e tangentes, nada mais pode ser extraído dali.

Não venha ao caso a beleza que a arquitetura pode proporcionar e amplificar a gama de significados. Não é isso. É apenas a superação do modelo matemático para as questões vigentes do homem. Muitas vezes podem ser desenvolvidas associações entre um campo e outro, do subjetivo para o matemático, mas a lógica não responderá tudo, porque o homem quer se esquivar das questões certeiras e esgueirar-se pelo parapeito das incertezas. O ser humano procura os caminhos sinuosos para tentar quitar as dívidas com seu espírito aventureiro, descobridor dos sete mares.

Iria apenas salientar a questão que o escritor russo Dostoievski aponta que as formigas são operárias, são utilitárias, mas saem do ponto de partida de construir e sustentar um formigueiro e, séculos se passem, ainda estarão lutando pelo mesmo formigueiro. É a fórmula, é a matemática desses seres, cujos indivíduos podem ser atingidos por predadores, sucumbir pela chuva, pelos raios, por inseticidas da ação humana, mas a prole continuará de pé dia após dia lutando pelo formigueiro, por esse todo que ele representa. Já o ser humano, através de sua consciência, estará na luta por questões subjetivas, por vontades que muitas vezes independem do senso racional, se dissipam da ideia de bem-estar, questões que se tornam contrárias às vantagens que ele obteria ficando quieto, não indo à luta. Em resumo, a humanidade está fadada a seus indivíduos buscarem o algo a mais.

Esses dias estive pensando em uma metáfora de filosofia africana (de localização imprecisa no continente, me perdoem) que apareceu em filme sul-coreano. As duas fomes, a básica, por alimentação, pelas necessidades fisiológicas e a grande fome, a busca incessante do conhecimento, das descobertas, das experiências próprias, daquilo que não podemos absorver também pura e simplesmente nos livros, nos catálogos de viagem, nos atlas, nas telas do cinema ou do celular. A busca pelo prazer das incertezas, pelo prazer das conquistas e - apoiando-se novamente em Dostoievski - conquistas que nem sempre significam pelo que são, mas significam pelo fato de as atingirmos, pelo senso de conquistador, pelo sentimento de dever cumprido. Tão logo estaremos com a posse em mãos e nosso âmago sentirá novamente a grande fome, nos pondo novamente em alto mar para novas descobertas. São desejos intrínsecos à humanidade, em cada indivíduo. É bem verdade que o sistema, a sociedade oprimem à população para lançarem-se 24 horas, ou o maior tempo possível diário, para saciar somente a pequena fome, mas que grande fome proporcionalmente pode surgir conforme avançamos em outros terrenos. A grande fome, esta que é insaciável.

E penso em minha gata, a Melissa, deitada em sua cadeira, dorme várias horas por dia, sabe-se lá com o que e se é que sonha, mas vive pela alimentação e um pouco de entretenimento, que ela busca através da caça ou de passeios noturnos pelo jardim, ou como fazia em nossa outra casa pelos fundos do bairro. Esta é a Melissa, essas anteriormente apresentadas eram, são e serão as formigas, serão assim as outras Melissas e os gatinhos do terreno baldio aqui logo adiante, mas eu, mas meu amigo Alan Matheus, mas meus outros camaradas, que há de sermos? De querermos? De lutarmos além das questões racionais mais atadas e obedientes. Seremos insaciados por gerações.

11/12/2020

Adriane

Adriane tinha 22 anos. A conheci por ela ser torcedora do Sport Club Internacional, embora eu seja gremista. Mas fiquei sabendo de todos seus acontecimentos. Era bonita, uma moça que chamava a atenção, mesmo que sua autoestima fosse baixa. Era morena de cabelo e mesmo com a pele pouco bronzeada se sentia no direito de me chamar de branquelo.

Ela havia terminado o ensino médio e, por influências dos demais e necessidades que ela mesmo imputava, começara a trabalhar cedo, tão logo se formara. A escassez de locais para estudar na sua cidade, no norte do Rio Grande do Sul, e na região, em geral, fizeram com que preferisse o trabalho e o dinheiro imediato. Queria também ajudar a mãe e, afinal de contas,  a irmã era mais nova. Não muito, mas era. Eram até parecidas, mas eu nunca as confundira.

O pai havia partido ainda na sua infância. Deixou como legado a oportunidade de torcer para o Internacional, que vinha forte naquela década, levando tremenda vantagem sobre seu maior rival, o Grêmio. Mas aos poucos as conquistas se tornaram apenas estaduais e depois nem isso. O pai não voltou. Na velha metáfora de que saiu para comprar cigarros e nunca mais deu as caras. Talvez tivesse cruzado a fronteira em direção à Argentina ou mais provavelmente até ao Paraguai. Mesmo que o norte da Argentina também fosse uma opção plausível para planos desconhecidos de distanciamento. A família agora era composta por ela, sua mãe e sua irmã mais jovem, esta já também encerrando os estudos do nível médio.

Adriane iniciou sua vida sexual rapidamente. Após anos apenas ouvindo relatos das amigas, quando teve a oportunidade, não parou. Isto por um determinado tempo. Logo ela perdeu o interesse naqueles despropositados. Em cidade pequena, quis evitar a má fama que, embora não combine com os tempos progressistas a que nos propomos, ela existe, vocês queiram, concordem ou não. Então, ela parou. Mas podemos afirmar que o ocorrido se sucedera por experiência e vontade próprias. Ela já não sentia essa atração em que iniciara por influência de terceiros e que depois persistia pelo gozo pujante das primeiras tentativas. Foram alguns êxitos, outras decepções, nada demais a salientar nesse ponto.

No fim das contas, nossa heroína se estabeleceu com um rapaz alto, de meio bigode, olhos semicerrados e meios cabelos, daqueles nem longos nem curtos. Ela afirmava que eu parecia com ele. Não lhe dou nem retiro o diabo da razão nessa comparação. Entre idas e vindas, não moravam na mesma cidade, eram dois interioranos, ou seja, necessitavam da estrada para encontros em finais de semana que se apimentassem, mas mantinham a relação que lhes era benéfica. Ele precisava dela, pois enxergava em Adriane o potencial de inteligência atrelado ao sentimentalismo. Ela, embora ocultasse esse coração escorregadio, se interessava por ele e encontrava o lapso da proteção em meio a um mundo despedaçado, que cedia, que perdia centímetros de altura na areia movediça e sugadora chamada humanidade. O planeta, e sobretudo o país daquelas decisões políticas dantescas, se recolhia à mediocridade enquanto ela tentava meios de sobreviver. Precisava superar a ausência do pai, aconselhar e ficar feliz pelos acertos da irmã, sobremaneira procurar seus próprios acertos, dos quais ela se convencia de que o gremista de bigodinho estava de bom tamanho para suas ambições presentes.

O trabalho. Adriane tinha experiências profissionais. À essa altura em que parou de conhecer pessoas e manteve-se com o gremista de nome e sobrenome estranhos, podemos afirmar que Drica (para variar os termos) possuía mais histórias sobre seus encargos trabalhistas do que sexualmente ativa. O simples fato de levantar pelas manhãs - com sorte antes do almoço para labutar turnos da tarde - fazia com que ela nunca soubesse o que esperar quando cruzava a catraca, batia o ponto, realizava suas tarefas. Companheiros de trabalho malucos, chefes inconvenientes, clientes propriamente sem noção, lunáticos à solta desde que botava o pé para fora de casa, até girar a chave com o tempo anoitecendo no final de cada expediente. Era uma rotina que testava suas habilidades mentais nos campos da sobrevivência.

Voltava a questão à tona de que Adriane era, sim, muito bonita, caso não tenha ficado claro no começo dessa explanação. Novamente quer vocês concordem ou não, isso atrai os mais diversos tipos perversos. Alguns talvez a perguntar o que estou fazendo aqui. Ora pois, de imediato sou apenas o narrador. Além do mais, convinha a ela que eu fosse algum braço da segurança necessária quando me relatava os diversos episódicos amalucados aos quais ela era submetida e precisava sair pelas tangenciais, escapar das garras daquele averso e nefando dia a dia.

Para se entender Adriane... considero impossível. Não serei eu, à distância, que relatarei os pormenores que lhe passavam na mente. Ela própria, controladora ou controlada pela própria mente, não conseguiria definições plenamente satisfatórias, por estar tudo em fase de ensaio, sem conclusões. Além do mais, mesmo com o fechamento de capítulos, ela observando em um degrau diferente da altura do acontecimento, seja qual for, nem ela própria conseguiria manifestar e julgar suas decisões como acertadas ou errôneas, suficientes ou insuficientes, necessárias ou inventadas, fantasiosas ou inevitáveis. Desculpem o excesso de pares, em vista que justamente desistimos de enumerá-los e apontá-los entre uma coluna ou outra. Em casos específicos, traremos situações  em que ela usufruiu de uma distante noção de felicidade, que conseguiu aninhar-se junto a momentos alegres, válvulas de escape a uma rotina tão implacável, intervalos do cômico-trágico que ela vivenciava. Faço relatos por admiração a Adriane, por sua perseverança, por acreditar que no fundo era uma boa alma, uma alma necessária ao encontro do que eu procurava, uma pessoa normal e miraculosa, exagerada pelas minhas hipérboles e diminuta pelo relógio e pelas paredes do tempo-espaço em geral. Em resumo, Adriane era jovem, sentimental, embora com todos seus motivos para não gostar transparecer, aparentar que fosse sentimentalista. Era colorada e bonita. De forma e alma.

04/12/2020

Verbas

Verbas aos "Vermes"

É o que o governo

A cada inverno serve

Entre parapeitos e soleiras

Longe das estufas e lareiras

E os juízes e seus auxílios

Em seus corruptíveis exílios

Champanhe aos chefes

Tribunais e seus blefes

Siglas terminadas em Efes

Federais

Ai Ai Ai

Ai Ai

Os bingos clandestinos

E os destinos oficiais

O que segue funcionando

E o que se esconde pelas capitais

Ai Ai Ai

Ai Ai

Amortiguar

A morte nos converge
E nos converte
Verte sobre o coração
Inerte

03/12/2020

Só a luz no fim do túnel para nos salvar do invisível

Quem já teve o privilégio ou sacrifício (ou mesmo sacrilégio!) de conversar comigo sabe como gosto de alterar (e alternar) os assuntos rapidamente. Uma troca de marchas sem pisar na embreagem, uma arrancada rumo a outro pensamento sem ligar a seta para o lado que estamos nos deslocando. Eu troco constantemente de assunto e arrisquei minutos antes a propor alguns tópicos para a discussão de hoje.

A ideia, esse conceito abstrato de pandemia ao qual vamos nos adaptando em 2020 me traz em dezembro definições entre as tantas indefinições que estamos vivendo. Seguidamente em casa, com a minha família, debatemos sobre as incertezas do personagem do ano, o - novo - coronavírus. Invisível a olho nu, microscópico e somente podendo ser visualizado através daqueles microscópios eletrônicos, das últimas gerações científicas. Ou seja, nada de saber onde ele está, pelas superfícies, produtos de supermercados e armazéns, corrimãos, bancos de praça, frutas e demais artigos de feiras, obras de arte, mãos amigas, mãos inimigas, mãos desconhecidas, nossos próprios parentes. No ar. Não sabemos onde o coronavírus está.

Depois, outro debate que temos seguidamente em casa é sobre os sintomas. A incerteza de quais os sintomas gerados por essa doença nova, a covid-19, em adultos e crianças. Na semana, o que tem chamado atenção da mídia é a possibilidade da covid causar posteriormente uma síndrome inflamatória multissistêmica. E a mortalidade dela, que tem sido comum em crianças e jovens em geral, é maior do que a taxa da covid-19. Isso desperta a revolta de professores e familiares quanto à abertura das escolas, determinada em portarias pelos estados de nosso Brasil. Para completar a confusão, o Ministério da Educação ainda assinou pela volta das universidades a partir da virada do ano, no primeiro andar do janeiro de 2021. Os reitores são totalmente contrários e classificam incluso como absurda a decisão governamental.

Estava falando dos sintomas biológicos e intrometi o diabo da política. Queria me referir à incerteza dos sintomas provocados pela covid-19. A paranoia dessa pandemia nos faz pensar que qualquer dor pode sim ser a doença. E devemos tomar todos os cuidados para não estarmos com ela em sintomas brandos e acabarmos infectando outras pessoas. Um problemão. Problemas na garganta, difculdades respiratórias, dores de cabeça, a dor no corpo que tive no início da pandemia e que não sabemos o que pode ter ocasionado, eu que nunca tive dor no corpo anteriormente. Mas era recém o começo da pandemia, os casos na cidade eram abaixo dos 500 (no nosso universo de mais de 300 mil pessoas), eu já não saía de casa desde o cancelamento das aulas da universidade, fazendo meu trabalho em home office. A possibilidade de eu ter sido atingido pela pandemia global era diminuta. Mas não impossível, portanto não sabemos.

Ok, caso eu tenha tido, ou meus pais tenham tido, ou minha irmã, que chegou a realizar teste por apresentar sintomas, mas obteve resultado negativo, caso ela tenha tido, ainda existe o raio da possibilidade da reinfecção. Possuir a doença, curar-se, isso não te livra de readquiri-la, ou seja, mais pitadas de paranoia na nossa conturbada receita. Inclusive, na carência de estudos mais detalhados acerca de tão nova doença, alguns companheiros haviam questionado sobre a taxa de reinfecção no Brasil parecer bastante alta em relação ao que se comenta e se traz de notícias de outras partes do mundo. Ou seja, além do Brasil ser um dos países com maiores taxas de contaminação, com a ainda segunda maior mortalidade do mundo (deve ser ultrapassado em seguida pela Índia), ainda convivemos com a possibilidade de, mesmo se livrando da doença uma vez, pegarmos novamente a dita cuja.

Como não sabemos onde está o coronavírus, não temos a garantia de encontros em segurança com parentes, amigos, nem demais encontros afetivos. A possibilidade de respirar o vírus, emergido por meio da fala, da saliva, impossibilita essas reuniões presenciais. Ao menos manteremos essa logística para o mês com a chegada das festas de final de ano. Seremos apenas nós os quatro em casa e os demais familiares em suas residências (e resistências). Em meu círculo de familiares, obtiveram a doença minha prima, após muitos testes negativos e com sequelas graves, as quais ela segue combatendo, meu padrinho, irmão da mesma prima, mas que foi confirmado com a doença tempos depois, por alguma saída ou mesmo no serviço presencial que ele continuou executando na central de alarmes para casas ou veículos automotivos. E para completar as ameaças à minha avó, matriarca hoje da família aos 87 anos, a vizinha de prédio delas, justamente a responsável por um dia alugarem endereço no final do centro, a Dona F. acabou adquirindo a doença e passou pelo período de total isolamento, tendo se recuperado, apesar de sua idade considerável para torná-la grupo de risco e demais doenças que poderiam acometê-la. O pior é que terminar esse longo parágrafo em nada nos submete a garantia de que o pior, antes das vacinas devidamente virem, principalmente para nossos velhos de grupo de risco, nada garante que o pior já tenha sido ultrapassado. Tanto minha prima segue em recuperação de seus sintomas e debilidades mais graves, quanto a cada dia, a cada semana, a cada mês voltamos às atenções à luta para não cruzar com o vírus sem eliminá-lo por meio do álcool em gel ou da lavagem muito bem executada com sabão neutro e água corrente.

Alheio e ao mesmo tempo intrínseco a isso temos nossas batalhas psicológicas, nossa relação com o distanciamento e isolamento sociais. Nosso afastamento de procedimentos rotineiros, cotidianos que gostaríamos de realizar. Pessoas que gostaríamos de rever, outras que gostaríamos de conhecer, atividades físicas negligenciadas pelo risco de contaminação, como nos desportos coletivos, nos passeios em grupo, nas festas, nos cortejos de formaturas, aniversários e outras realizações. Tudo isso em que estamos impedidos. A espera pela vacina dita o ritmo dos próximos passos e, retomando rapidamente o despertar político que ora me surgiu, que Ministério genocida nenhum intervenha no que hoje seria uma vitória calamitosa em favor do vírus. Sigamos em nossas batalhas, unidos pelo distanciamento até que a luz do fim do túnel seja uma agulha em nossos braços com princípios ativos corretos pela imunidade comprovada. Até lá, continuaremos nos esbarrando nesses assuntos e desviando deles com distrações que nos façam bem. Exatamente agora me deu saudade de perder no Scrabble pra ela.