03/12/2020

Só a luz no fim do túnel para nos salvar do invisível

Quem já teve o privilégio ou sacrifício (ou mesmo sacrilégio!) de conversar comigo sabe como gosto de alterar (e alternar) os assuntos rapidamente. Uma troca de marchas sem pisar na embreagem, uma arrancada rumo a outro pensamento sem ligar a seta para o lado que estamos nos deslocando. Eu troco constantemente de assunto e arrisquei minutos antes a propor alguns tópicos para a discussão de hoje.

A ideia, esse conceito abstrato de pandemia ao qual vamos nos adaptando em 2020 me traz em dezembro definições entre as tantas indefinições que estamos vivendo. Seguidamente em casa, com a minha família, debatemos sobre as incertezas do personagem do ano, o - novo - coronavírus. Invisível a olho nu, microscópico e somente podendo ser visualizado através daqueles microscópios eletrônicos, das últimas gerações científicas. Ou seja, nada de saber onde ele está, pelas superfícies, produtos de supermercados e armazéns, corrimãos, bancos de praça, frutas e demais artigos de feiras, obras de arte, mãos amigas, mãos inimigas, mãos desconhecidas, nossos próprios parentes. No ar. Não sabemos onde o coronavírus está.

Depois, outro debate que temos seguidamente em casa é sobre os sintomas. A incerteza de quais os sintomas gerados por essa doença nova, a covid-19, em adultos e crianças. Na semana, o que tem chamado atenção da mídia é a possibilidade da covid causar posteriormente uma síndrome inflamatória multissistêmica. E a mortalidade dela, que tem sido comum em crianças e jovens em geral, é maior do que a taxa da covid-19. Isso desperta a revolta de professores e familiares quanto à abertura das escolas, determinada em portarias pelos estados de nosso Brasil. Para completar a confusão, o Ministério da Educação ainda assinou pela volta das universidades a partir da virada do ano, no primeiro andar do janeiro de 2021. Os reitores são totalmente contrários e classificam incluso como absurda a decisão governamental.

Estava falando dos sintomas biológicos e intrometi o diabo da política. Queria me referir à incerteza dos sintomas provocados pela covid-19. A paranoia dessa pandemia nos faz pensar que qualquer dor pode sim ser a doença. E devemos tomar todos os cuidados para não estarmos com ela em sintomas brandos e acabarmos infectando outras pessoas. Um problemão. Problemas na garganta, difculdades respiratórias, dores de cabeça, a dor no corpo que tive no início da pandemia e que não sabemos o que pode ter ocasionado, eu que nunca tive dor no corpo anteriormente. Mas era recém o começo da pandemia, os casos na cidade eram abaixo dos 500 (no nosso universo de mais de 300 mil pessoas), eu já não saía de casa desde o cancelamento das aulas da universidade, fazendo meu trabalho em home office. A possibilidade de eu ter sido atingido pela pandemia global era diminuta. Mas não impossível, portanto não sabemos.

Ok, caso eu tenha tido, ou meus pais tenham tido, ou minha irmã, que chegou a realizar teste por apresentar sintomas, mas obteve resultado negativo, caso ela tenha tido, ainda existe o raio da possibilidade da reinfecção. Possuir a doença, curar-se, isso não te livra de readquiri-la, ou seja, mais pitadas de paranoia na nossa conturbada receita. Inclusive, na carência de estudos mais detalhados acerca de tão nova doença, alguns companheiros haviam questionado sobre a taxa de reinfecção no Brasil parecer bastante alta em relação ao que se comenta e se traz de notícias de outras partes do mundo. Ou seja, além do Brasil ser um dos países com maiores taxas de contaminação, com a ainda segunda maior mortalidade do mundo (deve ser ultrapassado em seguida pela Índia), ainda convivemos com a possibilidade de, mesmo se livrando da doença uma vez, pegarmos novamente a dita cuja.

Como não sabemos onde está o coronavírus, não temos a garantia de encontros em segurança com parentes, amigos, nem demais encontros afetivos. A possibilidade de respirar o vírus, emergido por meio da fala, da saliva, impossibilita essas reuniões presenciais. Ao menos manteremos essa logística para o mês com a chegada das festas de final de ano. Seremos apenas nós os quatro em casa e os demais familiares em suas residências (e resistências). Em meu círculo de familiares, obtiveram a doença minha prima, após muitos testes negativos e com sequelas graves, as quais ela segue combatendo, meu padrinho, irmão da mesma prima, mas que foi confirmado com a doença tempos depois, por alguma saída ou mesmo no serviço presencial que ele continuou executando na central de alarmes para casas ou veículos automotivos. E para completar as ameaças à minha avó, matriarca hoje da família aos 87 anos, a vizinha de prédio delas, justamente a responsável por um dia alugarem endereço no final do centro, a Dona F. acabou adquirindo a doença e passou pelo período de total isolamento, tendo se recuperado, apesar de sua idade considerável para torná-la grupo de risco e demais doenças que poderiam acometê-la. O pior é que terminar esse longo parágrafo em nada nos submete a garantia de que o pior, antes das vacinas devidamente virem, principalmente para nossos velhos de grupo de risco, nada garante que o pior já tenha sido ultrapassado. Tanto minha prima segue em recuperação de seus sintomas e debilidades mais graves, quanto a cada dia, a cada semana, a cada mês voltamos às atenções à luta para não cruzar com o vírus sem eliminá-lo por meio do álcool em gel ou da lavagem muito bem executada com sabão neutro e água corrente.

Alheio e ao mesmo tempo intrínseco a isso temos nossas batalhas psicológicas, nossa relação com o distanciamento e isolamento sociais. Nosso afastamento de procedimentos rotineiros, cotidianos que gostaríamos de realizar. Pessoas que gostaríamos de rever, outras que gostaríamos de conhecer, atividades físicas negligenciadas pelo risco de contaminação, como nos desportos coletivos, nos passeios em grupo, nas festas, nos cortejos de formaturas, aniversários e outras realizações. Tudo isso em que estamos impedidos. A espera pela vacina dita o ritmo dos próximos passos e, retomando rapidamente o despertar político que ora me surgiu, que Ministério genocida nenhum intervenha no que hoje seria uma vitória calamitosa em favor do vírus. Sigamos em nossas batalhas, unidos pelo distanciamento até que a luz do fim do túnel seja uma agulha em nossos braços com princípios ativos corretos pela imunidade comprovada. Até lá, continuaremos nos esbarrando nesses assuntos e desviando deles com distrações que nos façam bem. Exatamente agora me deu saudade de perder no Scrabble pra ela.

28/11/2020

Não pedem permisso

Estamos em uma era em que os jovens chamam de gatilho as situações que geram consequências, reações, enfim. Geralmente eles exemplificam para casos amorosos ou que possam levar a negatividades, gatilhos para depressão, sentimentos ruins ou mesmo arritmia cardíaca (que pode ser boa, tal qual o gozo). O que me engatilha este texto é a notícia durante a pandemia da festa da faculdade de medicina na cidade de Pelotas, aqui se tratando da universidade privada, a paga, de mensalidades condizentes com meu salário semestral.

Essa situação me 'engatilhou' de tal maneira que aqui venho. Vamos ao contexto. Pandemia global, diversas recomendações e orientações da Organização Mundial da Saúde desde o mês de março, quando o vírus da covid-19 começou a se espalhar pelo planeta. O Brasil foi atingido tardiamente, mas está duramente afetado nesses meses todos, agora que nos aproximamos do final do ano. As aulas foram no ensino remoto, virtual, entre síncrono e assíncrono (palavras novas para minha coleção) durante esses exatos meses, justamente para evitar aglomerações, reuniões em salas de aula, os perigos do contágio desse vírus tão incerto de onde pode estar. Os estudantes terminaram, concluíram o curso de suas casas. Abastadas casas, pensando novamente nesse público específico, dos estudantes e das estudantes de medicina da universidade privada, de mensalidades altíssimas.

Justamente de casa terminaram os estudos e, conforme foi dado por encerrado o semestre decisivo, quando muitos conseguiram o almejado diploma, essas mesmas pessoas acharam que seria uma boa ideia continuar investindo o dinheiro - ainda provavelmente dos pais na maioria dos casos - promovendo festas e aglomerações para comemorar. Uma inconsequência e uma contradição no âmbito do absurdo. Enquanto seus colegas de medicina, médicos e médicas formados, enfermeiros e enfermeiras batalham dia após dia com os cada vez mais lotados hospitais, visto que as contaminações e internações têm aumentado significativamente em Pelotas, enquanto passam por esse sufoco, os mais jovens, os concluidores exalam o péssimo exemplo, a desgraça em forma de músicas entoadas por programas de roteiros conduzidos por djs.

Não há mais muito o que chover sobre esse tenebroso exemplo. Justamente as pessoas que deveriam estar zelando pela saúde dos próximos e próximas, estão, através dessas pataquadas, transferindo a responsabilidade e, em alguns casos, não tenhamos dúvidas, o vírus. Não são mais somente festas clandestinas pelos bairros, são estudantes universitários, diplomados no curso de maior status e mensalidades mais caras, promovendo tudo o que não espera que promovam pela profissão que escolheram, pelo juramente que prestaram e tão prontamente estão por rasgá-lo, fatiá-lo e jogá-lo aos mil pedaços ao vento.

Palestrante chato e maldito sou eu enquanto bebo minha água e me obrigo com o corpo a responder os anseios da mente em concluir esse raciocínio. Pode passar ou recém agora estar passando o efeito da ressaca de quem participou de tais festividades, mas fica uma mancha incomensurável, inominável nos nomes e na lembrança. Justo no pior momento da pandemia, no estado inteiro do Rio Grande do Sul em bandeira vermelha pelo risco de contaminação e pela situação dos seus futuros postos de trabalho, os hospitais. Sujam o nome da instituição, sujam seus próprios nomes e fazem um panorama grotesco do futuro da medicina através desses exemplos. Pessoas que deveriam cuidar da população e se prestam a desmantelá-la em atitudes como essa. Pessoas abastadas, pessoas com situação econômica favorável, como esperar que os mais pobres deem exemplo? Com menos acessos, com menos recursos, com menos exemplos vindos de cima? É tudo absolutamente lamentável e traço esse desabafo sem roteiro pré-meditado, do qual perdoo os exageros ou as diretrizes não condizentes, se assim acharem, mas toda essa situação me enfadou de sobremaneira e aqui precisava vir tecer meus nem tão breves comentários.

Certamente também há outras pontas soltas que eu poderia explorar em meu discurso, mas por ora é isso que o gatilho da situação produziu. Talvez tão inútil quanto uma nota de repúdio, talvez ainda mais mediante as poucas pessoas que por ora acessam esses pensamentos. Julio Cortázar acabou de me confidenciar em sua Obra Crítica 3 (organizada por Saul Sosnowski) que era importante entender a situação política da Nicarágua, por exemplo, e mais importante ainda fazer algo a respeito. Entendi a gravidade, a calamidade do que as festas clandestinas, as aglomerações em nosso município e em nosso estado representam no momento, a crescente, a alta das contaminações, das internações, somadas a mais algumas mortes, vamos bater o número de 180 logo em seguida (e ainda levando em conta a subnotificação, a síndrome respiratória aguda grave que pouco se explica).

Mais de 180 perdas em um único ano em uma cidade de pouco mais de 300 mil habitantes. Isto porque a taxa dela, em geral, está abaixo do estado do Rio Grande do Sul. Ainda. Isto porque, ainda, o RS está abaixo da média nacional. O que dizer desse Brasil em que o governo não deu exemplo? Em que os estados foram coniventes ou frouxos nas medidas sanitárias, de saúde e segurança? O que dizer de um povo em que os que deveriam zelar pela saúde, incluso suas próprias, com risco a seus pais, adultos ou idosos que bancaram seus cursos universitários, esses prestam exemplo tão horrendo? O que dizer, da representação e da profissionalização medicinal enquanto isso? Como suportar tais exemplos que se repetem em ordens governistas, em seus apoiadores ruminantes, em violência discursiva e gestos de impunidade?

Impunidade! Polícia é para agredir estudante de federal, às vezes de forma xenofóbica, muitas vezes de maneira racista. Polícia é para combater pobre em praça, nos centros, agir primeiro e perguntar depois, dependendo o caso - se é que perguntam. Polícia é para esses tipos de pacto pela paz - no mesmo final de semana ainda vem a garantia de mais quatro anos dessa mesma política local. Envergonham. Contra universitários ricos, contra famílias tradicionais, contra o poder aquisitivo, contra a constituinte de jovens brancos nada contra eles. Tudo contra os pobres. Defesa de patrimônios, de propriedade privada. Nenhum efeito, como afirmou meu amigo também jornalista, nenhum uso da bala de borracha quando se precisa dela. Nada disso. Festas que seguiram.

E agora podem estar passando o efeito da ressaca. Mas a vergonha prosseguirá no assalto dessas minhas lembranças. É o Brasil que engatilha. E engatilha sobretudo nos pobres. Os ricos podem. Os ricos saem impunes. Ou como diria meu ficcionista amigo romancista: los ricos no piden permiso.

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Apêndices

Os cursos superiores, as instituições privadas, a busca da medicina por status e capital, estão agravando essas inconsequências. Evidente que a medicina sempre teve essa vertente. Mas parece piorar com os anos. A retroalimentação desse sistema excludente.

Depois reclamam de trazer médicos cubanos.

Qual é o real compromisso dos estudantes de medicina com a sociedade, sobretudo a mais pobre?

Aplicação das lógicas desse sistema: o desmonte de festas clandestinas, a intervenção do Estado em reprimir essas situações se restringem a quais públicos? Vocês sabem.

23/11/2020

Maldição auricular

Aos 19 anos passou por uma experiência traumática e prometeu ser uma pessoa boa dali em diante. Acontece que, pelas circunstâncias e vontades próprias, não conseguiu cumprir em diversos momentos. Mas não importava mais, pela promessa estava amaldiçoado para o todo o restante do tempo vivo. Desde aquela ocasião, na juventude boba e trôpega que promete besteiras como a que ele fez, não tinha mais como voltar atrás.

Cada vez que iria sair da linha, uma música alta amaldiçoava seu cérebro, interrompendo o circuito correto das sinapses, transferindo a comunicação esperada dos neurônios para alguma valeta de endereço desconhecido. Tudo jogado ao vácuo de uma lixeira inexistente, de ideias que não chegavam a se concluir, de pensamentos desconexos e apenas o som, as batidas da música alta e mirabolante, interrompendo o sistema nervoso central de pobre indivíduo.

E a linha que ele precisava caminhar era bastante tênue. Nada de agredir colega de trabalho, nem em pensamentos, estes que estavam sempre fiscalizados policialmente, com julgamentos severos por parte dessa força maior que acionava o dj automaticamente. Nada de julgar a roupa das pessoas. Nada de perder a paciência com funcionários que lhe atendessem de forma desordenada ou preguiçosamente. A vida dele estava sempre por um fio.

Se arrependia seguidamente daquela promessa deslavada, descabida, que a inocência dos seus 18 anos provocou uma reviravolta tamanha que talvez nem se internando em um mosteiro poderia resolver. A música alta poderia vir da casa vizinha. Se mudou. Poderia vir do apartamento vizinho. Se separou da mãe, que sofria tanto quanto ele com aquelas tragédias acústicas. Mas mesmo longe da mãe, a música ainda vinha perturbá-lo. Era um alto-falante que muitas vezes só ele ouvia. Nem sabia de onde vinha, mas ali estava. Agressivo, bloqueador, intrometido. Foi piorando seu estado mental em uma regressão de meses. Quando completou cinco anos do problema latente, a medicação anunciada já não dava conta e acabou em hospício.

Pensava uma boa relutar contra esse problema na solidão. Tinha colega de quarto, tinha enfermeira, tinha direito a três refeições diárias, ele que era magro e já não comia muito desde o fim da adolescência. Quando todos almejavam e muitos atingiam o sossego da madrugada em referido hospício, a música, quando ele projetava seus sonhos e o que era possível no amanhã, as canções indescritíveis vinham atormentá-lo. Não havia mais para onde ser levado. Nem pai de santo resolveu, saindo da medicina convencional para o extrapolo das crenças mais distantes. Recorreu a pelo menos três religiões, com mestres de cada uma muito interessados em suas resoluções, mas nada conseguiam fazer.

Ele brotou pulga atrás da orelha dos mais céticos. Era um caso realmente muito estranho, mas nenhum médico solucionava apaziguação. Como costumavam dizer, a paz realmente não está à venda nas farmácias. Se ele não estava crendo em Deus antes disso, agora tinha a plena imagem dele bastante rigoroso e sem dúvidas absoluto, fiscal de cada movimento seu, seja com o corpo e sobretudo com a mente. Nada passava despercebido. Ele não conseguia mais arriscar um olhar torto para as pernas da enfermeira, ou desejar que outro louco daquela ala parasse de gritar, nem que fosse a base do homicídio.

Percebeu, ao final das contas que desejar o homicídio dos terceiros impostores de sua paz não resolvia, então partiu para o suicídio. No seu velório, poucas pessoas compareceram, entre elas sua mãe, que estava mais envelhecida e cansada depois da separação do que na problemática convivência. Os responsáveis pelas diferentes religiões que ele frequentou estavam presentes, mas quem tomava a palavra era o católico, dono de maior atenção e recebimento pelos poucos invitados/comparecidos. Quando o sacerdote tomava fôlego para anunciar as palavras que tentariam salvar aquela paupérrima e sofrida alma, um carro de som inflava protagonismo pelos decibéis. Os convidados se olharam, mas ninguém descobria de onde vinha. Parecia muito próximo, do estacionamento do cemitério. A rua principal que ligava ao destino pós-necrotério era muito distante. Enfim, sem entenderem de onde vinha tamanho som alto, tiveram impressão que o descanso para aquele peregrino da desgraça, ainda estava recluso.

- Por que ele não furou os ouvidos? - Sussurrou um desconhecido dos familiares em primeiro grau.

20/11/2020

Sobre radical - apêndice sobre o caso João Alberto

"Radical é o cara que quer dar casa pra todo mundo. O que acha que tem que metralhar a PTzada temos que respeitar a opinião.

A vida não é tão sagrada quanto a propriedade privada."

Assim comentou o amigo Rogi Vieira, de Porto Alegre. No caminho para casa neste dia 19 de novembro, estava pensando justamente sobre o depoimento da amiga Denise Crispim, em São Paulo. Quando referi em texto anterior sobre as obras que emocionam pessoas, o calçamento de ruas nas cidades menores, ela propôs a correção de que esse fenômeno não é único aos pequenos centros. Nas capitais, o povo também é emocionado pelo trânsito, pelo que modifica uma via, um asfalto, um viaduto. Obras gigantes muitas vezes, com custos elevados, com demora, com licenciamentos estranhos, com o milagre dos números diante de nossos narizes. Empreiteiras e engenharias que lucram. Superfaturamentos e obras temporárias que se estendem até a vasta impressão do permanente.

Essas modificações transitórias no fluxo de veículos interessam e emocionam as classes média e mais altas. Principalmente as mais altas, onde eu sempre questionei a necessidade de super carros em vias tão deficitárias, além da necessidade da blindagem, em cidades como o Rio de Janeiro. Acessórios inacreditáveis pra estrangeiro saber. As classes patronas acabam apoiando, aprovando e votando por esses 'benfeitores'. Os empregados dos patrões tendem a seguir os mesmos caminhos. É também uma questão de identificação. O trabalhador, muitas vezes ausente com a tal consciência de classe, acaba enxergando no patrão o seu espelho superior, o seu almejo, o seu desejo máximo. Se patrão ou patroa votam no engomado, por que não eu, que almejo isto?

Mas no caminho para casa desde 19 de novembro eu pensava, pelo trânsito, como uma obra, uma via asfaltada, para quem somente passa por ali e não efetivamente mora, aquilo significa um benefício efêmero, curtíssimo, um minuto ou dois a menos de estresse no ir e vir. Às vezes segundos dependendo o trajeto. Vai evitar um arranhão no cd no carro ou que o acessório pule alguma música em algum impacto maior, causado por buraco ou pedras irregulares no calçamento. Para esses patrões e patroas, ou mesmo trabalhadores que por ali passam, a obra significativa, de encher os olhos, é um benefício curto a cada dia. Somados, podem até fazer significativa diferença, mas...

Mas pensemos na primeira frase proposta pelo amigo Rogi Vieira. Chamam de radical o político que pretendem - pasmem - dar casas à população. Moradia, item básico. Paredes, teto, quartos, onde comer, usar banheiro e dormir. Isso é ser radical na concepção que adotam. Penso que uma moradia, um auxílio-alimentação, a própria bolsa família, isto é uma mudança significativa na vida de uma mãe, de um pai, da família, com seus filhos. É arroz, é feijão na mesa. É suco para beber.

Nosso egoísmo capitalista impõe que a obra de uma rua, um asfalto seja mais importante que o básico para uma família viver. Um almoço, uma alimentação digna, uma casa para acomodarem-se. Como podemos formar uma sociedade tão cruel, tão propriamente egoísta, tão exaltadora da propriedade privada? Como isso não nos envergonha, como as pessoas não coram, como não enrubescem a face diante de calamidades como essas? O desconhecimento das secretarias de cidadania de cada município. As imensas filas de espera pelos auxílios, pelos recursos, pelas distribuições que mudam de fato a sobrevivência, o manter-se vivo de cada cidadão e cidadã.

Como nos afastamos tanto da consciência de classe, da consciência de meio social, da consciência que dividimos a cidade com pessoas que não têm o mínimo ou que dependem dessas migalhas como os seus máximos para sobreviver? Como nos afastamos de que convivemos no mesmo centro urbano? Só lembramos de tantos casos quando nos aprisionamos no medo, quando sentimos o receio de um assalto ou roubo em nossas casas? Justamente casas, casas que tantos não possuem. Assistimos a programas estrangeiros e, a partir desses objetos estranhos e distantes, relembramos nossas mazelas próximas, nossa sociedade em caos. Não é preciso assistir ao filme sul-coreano Parasita para lembrar que pessoas perdem todos os seus bens em dias de chuva torrencial. Não é preciso a situação dos moradores de porões para lembrarmos que tantas pessoas, de fato, não possuem o acesso à residência decente, seja pelo preço dos terrenos, dos imóveis, dos materiais, dos aluguéis ou mesmo da manutenção só possível através dos impostos.

A brutalidade contra as vidas

Não precisamos também ir aos Estados Unidos pelo George Floyd, se tantos brasileiros negros estão morrendo a cada dia, pela violência policial, pela violência imposta nesses bairros, pelo tráfico de drogas, por uma sociedade que é, sim, racista. Eu escrevia este texto em 19 de novembro, às vésperas do Dia da Consciência Negra e fomos surpreendidos pela proximidade do que ocorreu. A morte do sr. João Alberto, em Porto Alegre, um assassinato cometido por membros de uma empresa de "segurança", que atuava no hipermercado Carrefour, mas também atua em outras redes, para outras lojas. O desgosto máximo pela brutalidade que foi presenciada.

Eles eliminaram a vida de um homem negro como se ela fosse nada. Reduziram a menos do que um produto de prateleira de hipermercado. A violência simbólica bateu no teto. Um homem negro ser morto dessa forma, por seguranças brancos. Um com cargo policial. Novamente o envolvimento da polícia. A mesma polícia que mata em morros, em favelas, em periferias, todo dia, todo santo dia no Brasil de muitos George Floyds. De crianças expostas a esses riscos, a essa brutalidade, a essa violência, de homens e mulheres, adultos que somem. Mortes violentas, desaparecimentos, silenciamento, nenhuma investigação, muitas vezes com nenhuma "corregedoria", nenhuma solução, nenhum sopro da tal da justiça.

O intuito do texto era sobre o radicalismo que atribuem a Guilherme Boulos, que pretende, como missão suprema, poder dar residências à população, aos sem-teto. O caso chocante da morte, do assassinato de João Alberto direcionou outro foco para quando me aproximava do fechamento desta 'edição' de 20 de novembro. A violência que pregam contra quem não tem onde dormir ou o que comer, a violência que seguem pregando mesmo quando você participa de locais, de mercados constituídos, visitados pela classe média. Essa violência cerca e faz sua bandeira na nossa sociedade. Contra os sem-teto, contra os sem-terra, contra os negros em qualquer esfera social, dos primeiros grupos citados até a classe média econômica, porque ele é visto como estranho, porque ele é visto como potencial ameaça, porque ele é sub-julgado, porque ele é hostilizado, porque nossa sociedade é racista de formas mais brutais, agressivas, mas também de maneiras mais veladas.

Nem sempre é a imagem chocante das pessoas vivendo nas ruas, da crackolândia em São Paulo ou em outras cidades, nem sempre é um assassinato gravado dos holofotes de um hipermecado com luzes de neon em uma capital brasileira, às vezes é no interior, às vezes é na capital, mas nos bairros periféricos e nada muda. Nem sempre é tão chocante e presenciável, nem sempre gera essa revolta toda, como houve protestos por todo o dia 20 em várias cidades brasileiras. Às vezes é velado, às vezes é silenciado, às vezes ninguém ouve a voz de quem protesta, às vezes não damos bola. É por isso que não é só dia 19 ou 20 de novembro, não é só nesta semana. É pelo ano inteiro. É por nossos amigos, mas é por quem mais precisa e sequer conhecemos. É por quem mais grita e não é ouvido. É para lembrarmos diariamente. É para repensarmos nossos papéis sociais, nossas prioridades, nossas propriedades, nossa participação nisso tudo. É para ouvirmos mais, darmos mais voz, combatermos o fascismo de qualquer mecanismo, de qualquer direção. Uns fascismos mais instituídos, mais institucionalizados, outros querendo colocar novos ovos dessa serpente que devemos combater dia após dia, ano após ano. Quando ela estiver reduzida, não baixarmos a guarda, porque ela sempre pode se propagar. Mas lembrarmos que está longe de ser aniquilada, está em pleno combate e está nos vencendo.

E o pior, está vencendo muita gente todos os dias. Nas heranças do fascismo, do racismo e do capitalismo, que providencia que as prateleiras sejam mais protegidas do que as vidas. O episódio contra João Alberto em Porto Alegre é um exemplo completamente contrário da fala que "vidas negras importam". A de João, pela ação de nenhum cabimento dos assassinos, não importou.

Que cada George, que cada João nesses casos de bestialidade e brutidão, revoltem o suficiente para sacudir estruturas e que menos vidas sejam assim ceifadas. Porque, embora façam parecer e desvirtuem para que não nos importemos com esses casos, essas vidas importam e muito. Muito dessas heranças fascistas irá permanecer, mas as coisas não poderiam ficar assim.

18/11/2020

Política em diferentes locais

Busco nessas linhas somente o esboço, sem cientificidade, por mais que ela seja luz nesses tempos sombrios. É o que chamam de ensaio? É colocar no papel para literalmente não perder de vista. Estive conversando com a companheira Lara Crochi de Arroio Grande. Debatíamos e discutíamos questões sobre o domingo de eleições no nefasto ano de 2020 (por várias causas, como imaginam). Entre derrotas, mais derrotas e uma ou outra vitória, abordávamos os panoramas políticos locais e nacionais, em um domingo em que a ênfase tinha passado pela chegada de Guilherme Boulos ao segundo turno em São Paulo, com o PSOL, de apenas quatro prefeituras ganhas pelo país inteiro, mesmo assim chegar "na final" da maior cidade da América Latina, um campo de visibilidade vasto, um extenso tapete para propor ideias, debates e consciência política na população paulista e brasileira e, por que não? latino-americana.

Mas para além do Boulos dessa comemoração (fique aí, mesmo que não tenha mais Boulos ao convidado), para além do candidato do PSOL, concorrente no segundo turno, nossas reflexões, minhas e de Lara, passaram sobre as diferenças entre a política nos grandes centros (como em São Paulo) para os pequenos centros (como em Arroio Grande).

Muitas vezes tracei conversas sobre política com pessoas de outras grandes cidades brasileiras e elas buscam trazer um panorama da situação. Seja em Recife, em Belém do Pará ou no Rio de Janeiro. Um bom panorama poderia vir com o amigo Lucas Andrade, de Minas Gerais. Fica para uma próxima. Mas Lara conversou rapidamente sobre a esfera política de Arroio Grande, cidade próxima a Pelotas e mais próxima ainda da fronteira uruguaia, tendo somente a limítrofe Jaguarão mais além, antes das terras consideradas charruas. A cidade de AG, considerada pequena em sua constituinte, apresentou três candidaturas para prefeitura. Lara me explicou alguns prós e contras específicos da cidade.

Durante o domingo eleitoral, pesquisei diferentes municípios gaúchos e, se mais tempo me houvesse, pesquisaria as demais situações brasileiras, ao norte do nosso RS. Pesquisei motivado, confesso, em busca de emoções, que viriam através de corridas eleitorais parelhas, disputadíssimas, com diferenças de voto a voto, em um sistema em que cada aperto do botão "confirma" na urna traria grandes consequências.

Consequências. Essa talvez seja uma das palavras-chave neste texto. Em cidades menores, como é o caso da referida Arroio Grande, as consequências dos atos políticos são muito mais palpáveis para a população. Meu pai costumava mencionar que a cidade (de Pelotas) é muito grande e não havia como agradar a todos os lados. Era uma forma conformista dele mencionar que ninguém governaria para todos os setores da cidade, aqui pensados no caso geográfico. Ou seja, um prefeito ou uma prefeita poderiam, por exemplo, investir mais no bairro das Três Vendas do que no Areal. Ou mais no Centro do que na praia do Laranjal. Hipóteses para a afirmação de meu pai. Embora a discussão possa ser ampliada para investimentos em diferentes classes sociais, funcionalismo público, etc. Mas aqui, nesse parágrafo, o intuito foi a afirmação geográfica de espaço urbano (ou rural, se fosse o caso do exemplo).

Pensar nas consequências implica saber que, em uma cidade menor, cada ato de tentativa de virar votos, de tentar conquistar eleitores pelas menores causas que sejam, pode trazer consequências significativas. Observamos casos de cidades que tiveram suas eleições decididas por 200 votos, 100 votos, 30 votos! Uma rápida busca no TSE pode confirmar essas projeções. É assustador como o futuro, o destino de uma cidade, seja qual for sua relevância para quem observe de fora, pode ser decidido por detalhes. Pode ser decidido porque dona Maria não compareceu à urna, porque seu Antônio, nesse caso de 2020, teve sintomas de covid-19 e preferiu ficar em casa, conforme era recomendado que ficasse. Ou porque Moisés, que estava prestes a decidir o seu voto, acabou ficando em cima do muro. Não escolheu quem o representaria, quem lidaria com as contas, com os gastos, com os orçamentos públicos pelos próximos quatro anos. Terá que esperar, mais consciente se quer acreditar, mais quatro anos para decidir o seguinte voto municipal.

Se pensarmos na corrida para vereadores, a coisa fica ainda mais acirrada. As cadeiras são preenchidas por detalhes dos detalhes, porque Matheus fez campanha ou porque Ângela não fez. Porque o senhor Wilson foi convencido, enquanto dona Carmen preferiu ajeitar as coisas da sua vendinha naquele final de semana, da "festa da democracia". Pois é, nem todos participam e as consequências podem ser grandes. Quanto menor as cidades, mais chances a escolha pessoal tem efeito nesses casos. Apesar de, olhando o todo de nosso Brasil, essas cidades menores pareçam pouco relevantes aos olhos dos capitais. Mas, é importante lembrar, essas cidades são o berço, são tudo que algumas pessoas têm. Elas precisam abastecer e desabastecer seus comércios, buscarem a sobrevivência, colocarem suas forças trabalhistas a serviço da população em troca do suado dinheiro, o cash, o que será trocado por outros serviços e assim sucessivamente.

Ainda no campo das consequências (falei que aqui seria palavra-chave, não falei?) podemos pensar na relevância de cada obra feita. Aquela rua que ganhou um calçamento de 300 metros, mas que assim contemplou lá dona Maria e seu Antônio, essas pessoas, agraciadas pela deslumbrante civilização, poderão comparecer à espécie de caixa eletrônico e ali depositar seu agradecimento em voto, rumo à reeleição. Ora, por que vocês acham que tantos prefeitos e hoje tantas prefeitas são reeleitos? São a partir desses desarrollos.

Mas ainda no campo das consequências, pensamos no lado das mobilizações políticas por meio da transparência, da cobrança e da investigação. Em cidades menores, qualquer ato ilícito dessa parte vindo dos governantes, quando há o poder de fiscalizar e do impostor cair na malha fina da prestação de contas, quando isso é possível, o escândalo é certeiro. Não será reeleito. Mas, porém, todavia, entretanto, não é tão simples como, me desculpem, fiz parecer. Em templos coronelistas, muitas vezes é difícil mobilizar uma oposição que conclua essa árdua missão. É preciso coragem, é necessário saber com quem se está lidando. Há nomes poderosos nessas pequenas cidades e que jamais são derrubadas. Como esquecer da eterna Sucupira de Dias Gomes, do coronel Odorico Paraguaçu? Rendeu tantos contos e linhas porque não era facilmente derrubado, ninguém o tombava, apesar dos pesares.

Em cidades pequenas, é preciso quase sempre da interferência externa, por mais que isso consterne parte do policiado ou da população local. Intervenções federais, nesses casos, muito podem ser bem-vindas. Há escândalos que transpassam as resoluções locais. Entre essas consequências de investigações, de imprensa atuante, de portal para transparências, outro ponto é como o denunciante, o pivô das intrigas pode ser protegido. Não é fácil lidar com o faroeste brasileiro, mais atual do que nunca. Se as bolas de feno ou cascalhos não saem rodando pelo areal da via única em cidade formada por estabelecimentos com portas de vai-vem, ao menos os princípios do bang bang e do silenciamento, da lei do gatilho mais rápido podem ser observados em diversas cidades brasileiras. Torço por proteções, sejam divinas ou da tal da Justiça (haha) nas cidades que imaginei nesse pequeno bloco de texto.

É difícil mobilizar pessoas a fazerem uma oposição ferrenha, ativa, participativa, quando as consequências por seus atos, denúncias ou mesmo durante as investigações podem ser interrompidas de formas catastróficas, violentas, fatais. A lei do gatilho mais rápido, como referi, acaba silenciando e sepultando o trabalho de jornalistas, advogados, juízes, políticos opositores, funcionários públicos, quaisquer denunciantes que façam questão de meter a cara em televisão, jornais impressos, panfletos ou mesmo os anônimos que correm severo risco, priiiincipalmente em cidades pequenas, de serem descobertos. Quem pode saber disso? Fulano deve saber disso. Fulano trabalhou naquele departamento irregular, naquela obra, naquela licitação, naquele licenciamento criminoso, naquela fraudulação, naquele consequente escândalo. Denunciar muitas vezes é fácil, o problema é lidar com a diaba da consequência.

Quem tem guarda-costas? Quem tem as costas-quentes? Quem pode executar, de fato, o seu trabalho? Sejam postos aí cargos como jornalistas, advogados, juízes proferidores de sentença, todos possíveis corruptos, aceitadores de subornos, de acordos amigáveis para receberem parte do bolo de dinheiro irregular (e não é que teve bolo ainda no texto?). As pessoas podem aceitar simples acordos para manterem o bico calado, ou podem levar até o fim as denúncias e arcarem com pesadas, severas, não previstas em lei, consequências.

Aí está uma diferença capital entre a política realizada nas capitais e nos pequenos centros, nas menores cidades. Parecem resoluções simples, mas há muito do jogo de parentesco, de históricos coronelistas, de lavagem de dinheiro, de promessas infundadas, de voto de cabresto, de cargos de confiança, de funcionalismo público contratado, de corrupção sob o sol, nada de novo neste fronte, de conversas a salas fechadas, de acordos, de mãos que lavam outras, de mãos que se apertam e apertam de rivais e de esquecidas borrachinhas de dinheiro ou multiplicações de zero em contas correntes. Às vezes é tão evidente como a cena gravada do vice-prefeito de Joaquim Nabuco, cidade no interior de Pernambuco, em que o magnata arremessa notas de dinheiro como se fosse o próprio idoso portador de microfone gigante de lapela do Sistema Brasileiro de Televisão.

Às vezes as cidades pequenas são muito mais complexas do que imaginamos.

10/11/2020

não se via

gosto de sussurrar umas músicas

porque não canto

gosta de tulipas e crisântemos

por que não planto?

gostava do inglês

que não entendia

não sabia a letra

mas a melodia - (me dizia)


ela gostava de sussurrar umas músicas

gostava tanto

da flora que se renova

se repetindo em outro ano

gostava de inglês que

te desconhecia

se achavam o centro

a tomada da Normandia

gostava de um inglês velho

que nada mais te dizia

mas prorrogava que sim

e fingia mais uns dias

por baixo do manto

da solidão - fantasia

e gostava tanto

que não se via


Tropical 


01/11/2020

Até lá

Não sei o que escrevo. Minha obra - ah, que chique - era composta somente das músicas que eu compunha desde os 12 para 13 anos. Hoje são centenas. Depois parei de musicar algumas e dava ênfase à poesia. Tenho trabalhos da faculdade para fazer enquanto aqui estou. Eles me enfadam. O academicismo me enfada. A obrigação de produzir o que já produziram, de fazer o que os demais já fizeram. Não quero. Priorizo o inédito de quase todas as maneiras. Às vezes, por convenção social, seria melhor imitar os outros, seja pelas maneiras como esperam que você aja, seja pela repetição do que efetivamente dá certo. Mas mesmo assim me complico. Me sinto farsante em quase qualquer obra que colho como ideia alheia. Gosto como particularmente enxergo as coisas ao redor.

Após as diversas músicas, nos variados gêneros musicais, do pop rock ao rap, após as poesias de versos mais para curtos do que compridos, tive contato com as crônicas para relatar episódios da minha vida. Creio que já vinha desenvolvendo isso desde a adolescência, mas a experiência, a releitura inspiram. Para não me contradizer do primeiro parágrafo, são inspirações, não cópias, como o academicismo muitas vezes sugere. As mais diversas críticas à universidade nesse sentido são válidas. Queremos trabalhos inovadores, mas devemos nos basear inteiramente nos antigos. Para muitos é assim. O que é necessário é caminhar. Claro, sempre em vista a comprovação e a aplicação. A expansão efetiva do conhecimento.

Avancei para o gênero das crônicas com aquilo que me entalaria a garganta, com o que me machucaria aos percalços do dia a dia, com as inquietações mundanas, com as observações dos mais heterogêneos personagens que nos cruzam o caminho. A facilidade de seu formato incerto, em que posso escrever ao gosto que aparece e, ao terminar, poder chamar de crônica, sem que critiquem com isto é ou não é uma crônica. É um reduto, uma fortaleza poderosa. A sua suavidade que cabe em página ou duas, não mais do que três. O formato da crônica instiga, flui, me carrega às entranhas das ideias, às distâncias do mundo, ao contato dos outros, mesmo quando me fecho ao mundo externo.

Finalmente, o formato dos contos serviram imediatamente para o espaço do imaginário, as narrativas mesmo curtas, mas com potenciais de expansão. Quantas delas serviriam para livros, para filmes? Algumas, sim, não tenho dúvida quanto a isso, bastaria a boa vontade de expandi-las, mencionando aqui como se fácil fosse. Não é fácil, existe uma atenção mais minuciosa, um cuidado tanto maior com a escrita, porque apontar os erros alheios sempre é fácil. Na verdade, na minha autocrítica encontro muitos erros, mas a preguiça de corrigi-los me impede um resultado, digamos, mais satisfatório. Portanto, me atento aos modelos reduzidos dessas linguagens referidas, me atenho, me confino aos poemas, às músicas que um dia serão ou não gravadas, às crônicas e aos contos.

Um romance de maior fôlego exigiria tempo, que hoje não desfruto, enquanto estudante de letras - dos academicismos que por tantas vezes me enfadam - e escritor diário do jornal Diário da Manhã, e narrador de todos os santos jogos do Brasil (de Pelotas) na Série B do Campeonato Nacional. Ademais, mantenho uma rotina de leituras e visualizações de filmes para colher algumas rosas ou ao menos pétalas e sépalas nas variantes das histórias.

Não sei o que escrevo, mas permaneço atento, descritivo, trazendo detalhes, parâmetros de comparações quase sempre desnecessárias, situações geopolíticas e atuais, comparações e espelhamentos de obras produzidas com nada a ver uma e outra. Acredito que os laços entre obras distintas seja mais válido do que as obviedades dos que claramente foram inspirados uns pelos outros. Ou seja, mais me interessa juntar algo muito distante no tempo ou nos fatores culturais, observando suas semelhanças e comportamentos diferentes, do que comparar obras próximas, em que qualquer sujeito teria a capacidade de enxergar tamanha nitidez. Embora, a nitidez nem sempre esteja nítida a tantos olhares turvos, mas aí...

Não sei o que escrevo, mas escrevo aqui durante um domingo ensolarado que antecede ao feriado de finados, o mais grave da história brasileira pela imensa pandemia de covid-19. Quantos disso se foram? e, na minha vida, tantos outros se foram em 2020 por outras causas e motivos. Circunstâncias. Não sei o que escrevo, mas escrevo aqui ao som do vizinho, apelidado por nós de Dênis, o Pimentinha, um berrão de não sei qual idade, às vezes meu pensamento avança para que ele já tenha mais de 10 anos e tome rédeas ou tomem rédeas de seu próprio incerto comportamento. Outras vezes o acho tão infantil e pequeno que parece não ter mais do que cinco ou seis anos. Está em algo intermediário entre essas impressões. Dênis está saltando na piscina, embora não esteja tão calor ainda. Quando estiver estará apimentado o bastante para que eu deseje meu próximo endereço o quanto antes, embora durante a longa temporada de inverno me senti plenamente acostumado e ambientado nessa troca de casa.

Escrevo enquanto poderia fazer outras coisas, quase nada preocupado com o alcance do público - agora. Futuramente, talvez. Talvez por questões de renda. Talvez por limitações empregatícias. Talvez. Talvez um dia eu também melhor saiba o que, para quem e com qual objetivo escreva. Até lá...

29/10/2020

Supermarcado

Minhas ideias na ponta da caneta
Nem tirei as remela e tá de novo na placenta
Não te assenta!
Que eles sentam o cacete no povo
And again and again
E de novo e de novo
Sentam em ti, sentam em mim e neles também
And again and again
Runnin' down a dream
Pra dormir o dramin
E acorda dia sim e no outro também
Única saída é sair desde as seis a trabalhar
Sustento pro lar - ônibus lotado, tráfego pesado
Em pé, mal acomodado - sem migué a dar
A escolha é a mesma porque não tem
É a mesma a cada página, a cada folha
É a mesma escolha!
É a que existe no ponto de vista de quem olha
E não estoura saca-rolha com champanhe
São os que na rua estão, pro que der e que apanhe
Apanha, apanha
Ônibus pesado, tráfego lotado
Em pé, acomodado mal e sem dar migué
Apanha, apanha
Às vezes reclama
Mas vai na manha
Pensa e sonha quando deita a cabeça na cama
E busca a ceia pra ter o que jantar
E banana com aveia pra tarde passar

A rotina é essa que cola na retina
Em meio às casta, baixando e levantando fumaça
Cada um a cada dia atrás de suas caça
A rotina é essa que cola e adesiva
Se apresenta sempre com pouca alternativa
Cada um a cada dia a mantendo viva

A rotina é essa que cola, sacola de super
Marcado o horário pra bater o ponto
Tem que estar pronto. Sem pegar leve
Sem um breve intervalo e sem desconto
O que cair da prateleira é desconto no salário
Se persistirem os sintomas, demissão
Assim já foram vários
Do estoque pra reposição no armário
Nas caixas de sucrilho e quadro de funcionários
Drama, runnin' down a dream
Diário

Supermarcado no supermercado
Nas prateleiras dos macro-atacados
Atacados por todos os lados
Na rotina que cola na retina
No que não se atina
E no que já tá atolado
Ou nem atina mais
Já tá anestesiado
Aqui é caixa-rápido
Seu carrinho tá lotado
Aqui é preferencial
Você não tá grávido
Ó meu cidadão, colosso, impávido
Seu ticket alimentação tá inválido
O gerente não sei, tá ocupado
E me respeita, trabalho aos sábados
Supermarcado no supermercado

A vida me enfada

A vida me enfada
E isso é foda
E cada vez que roda
O mundo fica assim

A vida me enfada
Em cada esquina farta
E o que justamente falta
É o que me alucina

O que não está à venda
E faz senda dentro de si mesmo
Nada se troca em oferenda
Mas te enfada mais tarde ou mais cedo

A vida me enfada
Limões - Limões nada
E cada vez que roda
O mundo que eu carcumi

A vida me desenfeitiça
Atiça o meu pessimismo
Preguiça de lutar
Pelo que não preciso

A vida me enfada
Ladra dos meus desejos
E seja o que houver
Se forem meus ensejos


agosto 2020

26/10/2020

ainda sobre os fios de poste

continuação do poema MILONGADO app cativo


ainda sobre os fios de poste

eles poderiam ser subterrestres

e aí ninguém mexe nem os rouba

e dessa chuva toda

eles se protegem


há vários assuntos mais importantes

que nesse instante não são debatidos

os apagões são na memória

a justiça e a história pra baixo do tapete

e somos inerentes

a essa inglória


mas os fios de poste

assim me incomodam

os gatos de luz e os preços caros

os caras que se arriscam

a levar choque

roubando e roubando

cabos e fios de poste


não acabo aqui

aqui no meu post

um post de luz

que lhes dê choque

uma assinatura

de um pacote completo

e o veto da viatura

de polícia por perto


ainda falaremos sobre os fios de poste

e sobre os tocs e toques

e outros choques

app cativos

os fios de poste

despertam o meu toc

eles estão a toda

no centro de Pelotas


cidades

e fiações velhas

e sem elas

seria luz de velas


eu troquei

hoje de smartphone

me sugeriu o app

de fast food

fiquei com fome

no home office

de um dia chuvoso


quando chove muito

falta a luz

que nos induz

a reclamar

gritos em caixa alta


quanto chove muito

o motoboy do fast food

tem um problemão

os perigos do asfalto

na sua profissão


quanto chove muito

o meu intuito

é não pedir lanche

mas o app não quer saber

lança o seu lance

promover e promover

25/10/2020

Aos gremistas que lá do céu cantam comigo

Escrevemos sobre tantas pessoas de tantos lugares. Sobre escritos e escritores que nunca nos viram. Portanto, me senti na obrigação de relatar uma homenagem ao amigo que nos deixou na última semana, o Roger Schneid. Mesmo ele não nos sendo exatamente próximo, talvez tenha sido o amigo mais cerca, sem contar parente, a nos deixar. Fomos surpreendidos pela ida por sua pouca idade e pela fatalidade de como ocorreu o episódio, segundo constam.

Há poucos dias eu lembrava o futsal que jogamos juntos por alguns anos. Roger gostou de minhas atuações logo na primeira partida em que nos conhecemos. Não sei que tanto ele tenha gostado, mas eu ficava feliz de assim o ser. Relembrei dias antes de seu falecimento como eu pegava a bola para a reposição do goleiro de futsal com as mãos e Roger sempre encostava na área, próximo ao escanteio (a quadra era estreita) e pedia bola para ele, para começar a jogada. Ele sempre recebia pela lateral da área, trazia a bola para o meio e arriscava um lançamento, entre sucessos e insucessos. O lance muito se repetia.

Conheci Roger, na verdade, em viagens com a Geral do Grêmio em Pelotas. Ele era um membro ativo da torcida, conhecido pelos demais cupinchas, frequentador assíduo do estádio Olímpico Monumental, este que nos deixou em 2012 para 2013, na substituição pela magistral Arena, entre bairro Humaitá e vila Farrapos - quase Canoas - dizem os colorados invejosos.

Roger passou por alguns momentos ruins com as drogas, reencontrei-o em 2016, justamente nas datas finais da Copa do Brasil, quando o nosso Grêmio rompeu o jejum de títulos grandes que já perdurava os incômodos - talvez impossíveis - 15 anos. Mas a conquista daquela copa marcou o capítulo importante de nossas vidas, inclusive com registros fotográficos para a posteridade. Pensava que Roger estaria em Porto Alegre para comemorar o feito tricolor, que tanto se aproximava após a abertura dos 3x1 fora de casa, no Mineirão, contra o Atlético Mineiro. Mas encontrei-o ali, bebemos e comemoramos juntos. Acredito que mais comemoramos do que bebemos naquela ocasião, na companhia de um tal xavante, João Gastal.

Roger também recebeu a homenagem por parte da torcida do Pelotas, outro clube que ele, mais local, frequentava. Além disso, jogava seguidamente em nossos ginásios com a camisa do maior da Argentina, o Boca Juniors. Se você acha que é o River Plate ou o Independiente, está errado. É o Boca Juniors. Mesmo eu não ocultando minha preferência pelo Racing de Avellaneda.

Apesar de nossa constante falta de assunto, ele arrumava alguma coisa para falar, xingar alguém ou levantar algum tom humorístico - mesmo que muitas vezes apenas ele achasse graça. Era bem quisto no círculo de amizades do Colégio Gonzaga, tinha sua afinidade com o reggae e cantores de rap, além de gostar dos nossos Engenheiros do Hawaii. Talvez tenha sido a referência para que um dia eu escutasse um cara que hoje está muito em alta, o tal do Emicida. Os olhos pequenos de Roger de certa forma me lembravam esse rapper.

Quando me aproximei de verter as ditas lágrimas com essa homenagem, com essas palavras, Roger, foi quando parei para pensar que não estarás mais conosco em futuras conquistas que o Grêmio venha a ter - e é bom que tenha, porque já está novamente difícil, sabes. Lembro uma história que ele contou, ou o amigo nosso Rodrigo, de São Lourenço do Sul, contou sobre um jogo do Grêmio em que Roger foi descer a avalanche e quase quebrou a perna. Teve que aguardar no concreto da arquibancada ao final do jogo e a viagem de volta para casa, com a perna aos frangalhos. Momentos de um gremismo alucinante nas românticas arquibancadas da hoje esquecida zona da Azenha. Mas inesquecível, sem dúvida.

Lembro uma festa no DC Eventos em que obviamente não combinamos nos encontrarmos, mas ele estava lá. Eu estava em um degrau que daria acesso à pista propriamente referida, enquanto tocava não sei qual música e a iluminação era sintonizada em tons rubros para rosados. Alguns casais se formavam. Roger tinha determinada lábia com as moças. Mas ele preferiu ficar ali na volta incomodando. "Olha o jeito que esse cara está com a guria, é um juvenil", xingava um que não conhecíamos. Eu achava daquilo um sentimento híbrido, entre o engraçado e o trágico, porque até o dito juvenil ali com alguém e eu sobrando naquele ambiente. E o cômico de Roger não procurar coisa melhor para fazer do que xingar o cidadão desconhecido. Mas este era ele.

Sentiremos falta. Seja de alguma postagem inesperada na internet, ele que pouco usava o Twitter. Seja dos jogos do Grêmio, seja de algum reencontro pela noite na cidade, entre Bar do Zé, frente e quadras ao lado da Universidade Católica, seja alguma festa não marcada entre nós. Não estará lá, mas existirá a lembrança. Roger ressignifica para mim a música aos gremistas que lá do céu cantam comigo. Vá em paz, bruxo. Por ela lutasse e que agora atinjas.

Roger na final da Copa do Brasil 2016
Lembrança dele feliz pelo Grêmio

24/10/2020

balada do último adeus

o último adeus
era 'até logo'
e era lógico
só eu quem não entendeu

o último 'até logo'
era um adeus
e era lógico
e doeu

você estava tão bonita
a produção capricha
na maquiagem das cenas finais
assim é hollywood
não que isso mude
não que modifica
você... é sempre bonita

a paisagem... estava ali
e eu também estava
isso muda em nada
era só plano de fundo
como o resto do mundo
é tão profundo, coração fecundo
em um conto de fadas

os gárgulas nos prédios antigos
e os gandulas sempre assistindo
as mágoas interagindo
e o agora submergindo

o último adeus
era 'até logo'
e era louco
como um soco que você me deu

22/10/2020

Realidades

Lembro que havia comprado o disco com as melhores da banda Smiths para ela. Mesmo que eu não tivesse certeza se ela gostava de Smiths. Mas pensava que os Ferreiras da língua inglesa viriam bem a calhar. Um rock alternativo, suave, melancólico na medida para quem se pretende atingir. Então foi comprado. Junto havia livros que considero dos melhores, foi um conjunto muito bem trabalhado enquanto presente de formatura. Acho que muito me representava, talvez mais do que a ocasião exigia, mas era eu posto à prova através da música e da literatura.

Isso foi antes de descobrir o caráter - ou mau caráter - do líder da banda inglesa, através das opiniões que vez ou outra circulam. Polêmico e preconceituoso. Cheguei a pedir desculpas para ela meses depois por ter comprado, apenas a informando e descarregando minha consciência de que eu soube dos disparos opinativos do referido músico. Lamentava por eles e por minha anterior escolha. Infelizmente não o cancelei de todo e ainda separo a portas fechadas e quatro paredes as canções para escutá-las, porque gosto bastante delas. Enfim, ainda as escuto.

Naquela ocasião, deixei passar a ênfase, a euforia de formatura, os festivos familiares, as amigas próximas, para declarar o que eu tinha de pretensão com ela. Mais ou menos como agora espero esse par de anos para relatar por aqui um pouco dessa história, que, afinal de contas, me chamou atenção em tom de desabafo para o seu desfecho. A vida pode ser muito cruel.

E, ao declarar isso, nada tem a ver com nossa relação, que dualmente não prosseguiu. Ela com namorado em seguida arranjado e que mantém relacionamento e espero, sinceramente, que prossigam felizes. Talvez as coisas tenham ido rápido demais na minha mente. Ou tenham sido evasivas com a realidade, como muitas vezes são comigo. Mas estava contente em ter aqueles momentos e desejava mais momentos como aqueles. Mas acabaram impossibilitados, acho que mais pela repentina nova relação que ela desenvolveu do que qualquer contrariedade de nossa parte. E tudo bem.

Mas quando aqui digo que "a vida pode ser muito cruel", foi em nossa despedida na rodoviária. Sim, outra vez as rodoviárias como testemunhas de minhas crônicas. O que eu posso fazer? São elas que avistam esses acontecimentos e, se pudessem contar, estariam nem aí, porque há outros acontecimentos mais marcantes. Mas esses são os meus. Me despedi dela. Subiria para meu ônibus e fui surpreendido ainda com o último beijo. Achei a cena por demais romântica. Nem eu, com bagagem no tema, havia pensado exatamente nisso. Aqueles senhores e aquelas senhoras com suas malas observando de alguma forma e imaginando nossa história - tão curta, sem tardar em ser cortada.

Mas me senti galanteador e envolvente. Com algum desenhado orgulho foi que subi as escadas curvas até o segundo andar do ônibus que me levaria de volta para casa. Acomodei a mochila maior em cima, com todo o cuidado para não derrubá-la na cabeça de alguém durante a viagem, a bagagem bem acomodada. E me acomodei ainda com direito à janela quando comprei antecipadamente a passagem. Na poltrona ao meu lado, a senhora que fez eu cair em um choque de realidade.

Não lembro como iniciamos o assunto, mas talvez eu tenha dado a letra que participei de uma formatura. Que gostava muito da formanda, algo assim. Na verdade não recordo se afirmei o que estou aqui afirmando. Mas ela, talvez por eu ser jovem, lamentou por sua sobrinha. Ela, que estudava em Novo Hamburgo, estava próxima da conclusão de seu curso, da dita formatura, e estava internada em hospital. A situação dela era instável, era grave. A mulher havia visitado a menina em NH e, de Porto Alegre, retomaria os rumos para o extremo sul. Me mostrou a foto da moça e constatei que também era muito bonita. Pensava eu na sorte que se deparava comigo, ter uma companhia naqueles dias, ser bem tratado, ter gostado muito da família e aceitado tudo o que havia se sucedido até minha partida de regresso.

Pensei em como minha amiga formanda também estava com as coisas em dia. Uma completa relação familiar com seus pais e irmão também em bom andamento nos estudos. Recentemente constatei que ele está em estágio finalizado de crescimento, se tornou um grande rapaz. Eu que dormi em sua cama por algumas noites. Ela que tem passado bem, acredito, com o namorado nesses últimos tempos. Ele parece um excelente rapaz. Por isso meus sinceros votos de continuidade e o que for melhor, realmente.

Enquanto isso, me assaltava o pensamento aquela menina impossibilitada de prosseguir a vida como ela mais gostaria ou desejava. Talvez deixando algum embasbacado como eu para trás. Talvez ele lutando com ela lado a lado. Talvez na amargura e na angústia.

Recentemente, uma parente minha passou pelos estágios da tal covid-19. Ela recém ingressa na casa dos 30 anos. O namorado também o que poderia fazer se não esperar por sua recuperação? Ele esperou. Parece que assim prosseguem agora que ela está recuperada. Foi um susto em todos nós, porque a condição dela era completamente instável e duvidosa. Teve a visão e a voz atingidas durante esse processo enorme de devastação provocada pelo vírus e seus afluentes. Eis que ela realizou sucessivos testes para detectar a doença do novo coronavírus e eles prestavam-se sempre negativos. Até um teste bem depois que acusou ela ter contato com a maldição viral do momento, mais de 155 mil óbitos no Brasil 2020.

Situações semelhantes, agora comparo, entre a menina do sul do estado, que estudava e foi internada em Novo Hamburgo, e a situação de minha parente, quase dois meses em uma batalha incessante contra os sintomas, com o uso de sondas, tubulações, medicações das mais diversas. Espero que o desfecho da jovem de NH tenha sido positivo da mesma forma que minha prima surpreendeu em recuperação, incluso da voz, mais rápido do que se projetava. Os parentes, familiares apreensivos, zelosos nas mãos médicas e na base das rezas religiosas para quem acredita e nada mais pode fazer.

A senhora que regressava para o Sul estava sim abatida, talvez vendo em mim a imagem de um jovem saudável que ela almejava para sua sobrinha. Não conversamos mais praticamente durante as horas de trajeto. Eu de certa forma chocado com essa outra realidade, nuvens sobre meu ensolarado dia de céu azul e planos. A vida é assim, incerta. Não sabemos o dia de amanhã. Fechei-me com os fones de ouvido e o olhar pela distância atingida horizontalmente pela janela.

Assim como para todos os personagens que relatei nessa história, sei de novas probabilidades e futuro a seguir, torço pela família que estava ilhada com essa situação de saúde em Novo Hamburgo. Agradecimento por onde ainda estou e consciente que nem todos desfrutam da mesma sorte: seja pelas questões de saúde, ou pelas percepções das coisas boas, mesmo quando tudo parece perdido, como a mim às vezes parece. Mas não está. Devo repetir para mim mesmo que: não está. A você também, provavelmente nem tudo está perdido.

19/10/2020

Medo dos Vivos

Tenho dúvidas se já explorei esse tema em tempos anteriores (obviamente), mas me proponho a esmiuçar ao menos um caso e citar outro. Mania feia a minha que desgosto os compromissos e já inicio essas linhas compromissado em relatar conforme informei que farei. O título remete ao segundo caso, mais curto, praticamente apenas a ser certificado, rubricado, ao final de página. Mas tem tudo a ver com a primeira situação, bairro Fragata, o bairro-cidade, na cidade de Pelotas.

Certa feita deixei meu trabalho mais cedo, quando cobria em assessoria de imprensa o clube da Avenida Duque de Caxias, a principal daquelas bandas. Gostava muito de fingir pegar o ônibus que me levaria ao centro, porém do centro necessitaria outro ônibus para casa, na ponta oposta da área urbana, no Areal. Somente eu para topar aquele emprego ingrato a troco de quase nada. Embora tenha-me dado parte do reconhecimento que timidamente desfruto. E também porque eu podia abandoná-lo a hora que quisesse em cada turno, justificado por outros secretos afazeres à chefia, como a desculpa por estudar, que eu tinha aula à noite. E assim saí, creio que em uma manhã ensolarada.

O Farroupilha é reconhecido como o Fantasma, tendo-o como mascote, além de ser o simpático tricolor da cidade. Um time das cores rio-grandenses, verde, vermelho e amarelo, mas que utiliza muito do branco, principalmente em seu segundo uniforme. O primeiro tem predominância verde, até porque os rivais locais são, respectivamente, um vermelho e outro amarelo. Melhor destacar os tons esmeraldas. Mas eu comentava que o Grêmio Atlético Farroupilha é o Fantasma e o apelido é bastante apropriado. O Fantasma pela proximidade entre sua sede na Duque de Caxias, 847, e o cemitério municipal de maior porte, o que contempla a maioria dos corpos e talvez almas da cidade, seus anonimatos e sub-celebridades, que colecionamos sub-celebridades.

Na proximidade com o cemitério, algo daquela manhã me atraiu para, quando circulava pela avenida, no concreto escaldante onde passam transeuntes e bicicletas pela avermelhada ciclofaixa, algo me sugeriu que eu devia dobrar para esquerda e, ao não haver sinal de carros, que ali muitos veículos passam na via, atravessei para a calçada sombria pelo cemitério que agora já se ergue em quarto andar pela quadra (àquela época eram só três).

Entrei pelos elevados portões cinzentos de ferro bem conservado, tamanha sua importância que ali testemunhavam entrar célebres encontros, reencontros e, é claro, o motivo maior, as despedidas. Aquelas arrebatadoras estruturas gradeadas levavam para o interior daquela úlcera e chaga interminável, onde alguns partiam para outros planos e a maioria ficava cabisbaixa a pigarrear e refletir sobre suas próprias existências. "Rômulo era tão jovem", "Ricardo há tanto eu não via", "Selma era tão querida", "não me despedi de Olga" e assim por diante. Pais, filhos, sobrinhos, primos distantes, parentes sem compartilhamento de mesmo sobrenome, amigos afastados, acompanhantes próximos, carregadores de caixões, portadores de discursos, trechos bíblicos, incensos e bitucas de cigarro pela caminhada irreversível.

Me certifiquei que ali nenhum velório ocorria e continuei percorrendo corredores em direção à parte que mais me toca, até porque lá que estão enterrados meus bisavós e demasiadas vezes percorri nos mesmos passos, com meus pés menores acompanhados de mão com meus pais ou em tons secretos de escondida brincadeira que eu meu interior conservava, porque embora achasse o cemitério grandioso e impactante, algo de misterioso e espetacular se acendia em mim com liberação de adrenalina. E assim repetia esses passos, naquele dia bem mais incertos do que certeiros das outras vezes. Tampouco, com a passagem dos anos, me recordo onde ficam os referidos túmulos de meus bisavós e seus parentes diretos, todos muito próximos em ala afastada para um jardim cada vez menos cuidado.

Nunca gostei da ideia de ser posto em uma parede, embora ali deveriam haver sepulcros de maior destaque na cidade e região. Letreiros correspondentes e melhores restauros e conservações. Minha tia-avó recentemente foi alojada nesse novo espaço após uma vida de 80 e poucos anos em mesma casa. Mas segui pelos corredores emparedados rumo aos fundos do referido cemitério São Franscisco de Paula - incluso padroeiro de Pelotas. Nome da principal catedral e também de avenida, na qual eu morava.

Para os fundos do cemitério predominantemente católico, mas também de abrigo protestante e judaico, por exemplo, havia ainda paredes bem menores, que muito se assemelhavam às dos quatro andares somente pelo método de depositar os corpos. Ali para o rumar aos fundos daquelas meio que duas quadras de extensão, ali estavam corpos e seus restos em estruturas verticais de aspectos similares a estantes. As estantes eram revestidas de pinturas esbranquiçadas, dando um tom monótono àquele trecho percorrido a pé.

Ao derradeiro da obra mórbida de natureza humana, estavam os jardins de grama cada vez mais entoada pelo crescer do mato, a escassez de antes primaveris flores. A extensão daquelas lápides até onde minha já deficitária vista (corrigida com 0,25 de grau em cada olho somente quatro anos depois) alcançava, formava um agradável cenário, como me gosta observar as grandes multidões. Por exemplo, em passeatas, estádios de futebol, protestos e, com menos afinco pela menor religiosidade, em procissões pelas graças de alguma santíssima entidade. Mas ali não era a multidão humana viva, pulsante, propriamente viva. Estavam depositados as cravadas pedras e suas inscrições, em que lemos muitas e lembramos poucas ou quase nenhuma, nos chamando atenção algumas mortes injustamente pregadas sobre corpos tão jovens, que nem consciência direito haviam tomado de nosso mundo. Embora algumas lápides de antigos tampouco poderiámos afirmar que viveram com a tomada de consciência. Mas isso é impossível tratar observando somente os túmulos - e mesmo que os abríssemos, nada revelariam, apenas vermes, organismos carcumidos e o revolver da terra.

Naquela espetacular visão, com a câmera em mãos, que eu havia já sacado da mochila da Nike que eu portava, comecei a percorrer o corredor principal entre tantos imóveis de pretensão eternizada enquanto nossa civilização assim durar. Os padrões de construções são distintos por poder orçamentário, condições financeiras, escolhas de cores, a gosto dos falecidos ou de opinião dos organizadores dos velórios e sepultamentos. Há túmulos violados, há pedras desgastadas, há vandalismo e também efeitos naturais de decomposição, atingindo abaixo e acima da terra.

Percorri alguns metros e fui parado por um dos trabalhadores daquela manhã, um dos cortadores de grama. Me chamou a atenção. Primeiro ele sinalizava ainda ao longe, depois resolvi me aproximar para romper o ruído de seus colegas cortadores de grama. Ele que já mostrava certa apreensão com minha presença, estava aturdido enquanto disse: "menino, essa câmera em mãos, que perigo! Aqui nessa região os craqueiros (usuários de crack), os drogados, te pegam com isso e te roubam quando não coisa pior", exclamava o homem. Se não com essas, com semelhantes palavras.

Direto e preocupado que ele foi, tomei seu depoimento como experiente naquele trabalho e demonstrei meu entendimento para me retirar. Ele baixou a tala protetora para o rosto, que agora está em moda novamente em função da pandemia do novo coronavírus. Religou seu aparelho e voltou a baixar o mato que crescia e impedia visões de maior privilégio aos transeuntes. Eu contornei o cemitério em caminho oposto ao de entrada, com algumas fotos da trajetória em registro do cartão de memória. Dos jardins - onde se escondiam dia ou noite, os "craqueiros" mencionados, ou usuários de outras drogas, voltei para os labirintos brancos das estantes seladas de caixões e terminei pelos andares verdes onde residem a maioria dos já não aqui residentes. As pesadas e cadeadas à noite portas de ferro são o limite.

Alguns guardas fazem as proteções pela área da frente, mas para os rumos dos extensos jardins já não há limites para os crimes ainda praticados pelos vivos - e talvez, pelas epidemias de drogas, cada vez mais praticados. O desespero pelas substâncias, a perda da noção, o distúrbio final dos conceitos de certo e errado. A necessidade daqueles organismos em acelerar os processos de um dia morarem definitivamente pelas covas deste ou de outro cemitério. Rezam as vozes que muitos até revolvem a terra e deitam-se por ali mesmo. Experiência mais freak impossível. Comprimidos os portões a cada noite, a segurança dos mortos dos sepulcros da entrada é garantida por alguns rondas. Quanto aos fundos, contemplaremos o medo causado pelos vivos.

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Na rápida passagem prometida, ela ocorreu quando eu ainda morava pela São Francisco de Paula, no Areal. Na casa imediata à nossa, nos vizinhos, a bisavó de Carolina havia morrido há anos. A jovem, já mãe de gêmeas, não queria ocupar aquele quarto, por causa da morta. A avó dela, dona Maria, que seguido usava nosso telefone fixo e nela reunia todas as características de avó (teu Deus também a tenha), disparou em frase que me ficou gravada na memória: "medo dos mortos. ora, essa. devemos ter medo é dos vivos".

15/10/2020

em Porto Alegre

paraaaaadooo

na frente do Ocidente

em Porto Alegre

a febre é uma lebre

me contagia

no ritmo dos dias


paraaaaadooo

na frente do Ocidente

em Porto Alegre

a música distante

e passa muita gente

a febre se expande

num instante tá doente


parado

na frente do Ocidente


paraaaaadooo

parado o taxista

no seu canto da pista

olhando o movimento

compara gerações

reza baixo seu lamento

em Porto Alegre


paraaaaaadooo

o uber dentro do carro

esperando no aguardo

pela próxima chamada

lá pra perto de Alvorada

nas bandas do Rubem Berta

o celular apita

motora quase levita

e sai com toda pressa

sem ligar a seta

em Porto Alegre


paraaaaadooo

pela Cidade Baixa

olhando o movimento

o ir e vir nas faixas

conferiu

o saldo no cartão da Caixa

mas levou o Banrisul

azul da cor do Grêmio

carregou

quando foi no Largo Glênio

Glênio Peres

no centro de Porto Alegre


paraaaaadooo

na principal do Moinhos

se sentindo sozinho

vendo o movimento

no Moinhos de Vento

atento

procurando por algo

que valesse a pena

ter descido o nível

ao nível do asfalto

e por alto

não encontrava

deu mais uma tragada

com nada a perder

em Porto Alegre


desceu

até o bairro da Tristeza

por uma mesa de boteco

um plano em anexo

pra tentar a sobremesa

se sentiu

descendo a tirolesa

que dessa vida ninguém sai

de forma ilesa

nem mesmo

nem mesmo ela mesma

em Porto Alegre

07/10/2020

Ensopado de Batatas

Foi em uma cidade média de Santa Catarina. Os mais antigos talvez recordem ou ao menos descubram onde se passa o inacreditável relato. Baseado em fatos reais com o imaginário atiçado para a construção da vida desses dois irmãos. Um trabalhava pela ferrovia do mesmo município, no qual pedalava no ir e vir do trabalho matinal à despedida dos companheiros de labuta nos meios para os fins de tarde, quando o sol declinava e muitas vezes a bebida lhe convidava para um aconchego de bar pelo caminho. Gastava bem uns 12 minutos, calculava, para se deslocar na bicicleta de casa para ferrovia e vice-versa. Dessa maneira, muitas vezes considerava positivo retornar ao conforto do lar para desfrutar do almoço preparado por sua mãe, que era lavadeira.

Essa havia parido há muitos anos um conjunto de quatro crianças. Adir, o mais velho, era o ferroviário. João Lucas, o mais novo, ainda vivia pela vizinhança, já iniciado no processo de pressão para arrumar também ocupação de emprego. Havia ainda Otávio, que morava na região mais frutífera de Florianópolis. E Magda, que também vivia com os irmãos na casa da mãe e trabalhava em cargo arranjado na prefeitura daquele pacato município.

Conhecidos os pormenores da família, sabe-se que a refeição é um ato sagrado. Dona Filomena era uma cozinheira de mão cheia, o que nos faz pensar que praticamente todas as Filomenas assim batizadas no mundo assim o eram. Habilidades manuais também para o corte e costura, embora a ocupação em si fosse de lavar os uniformes dos filhos e dos vizinhos imediatos. Caprichava tanto nas tarefas domésticas que até o Otávio, irmão ausente daquela moradia, resguardava seus melhores trajes aos cuidados da esmerada mãe. Reuniões, bailes ou encontros de maior importância requeriam as lavagens e armazenagens da mãe. Com Dona Filomena não havia margem para erros.

E no almoço o momento em que os irmãos poderiam agradecer por estar vivos em passagem tão segregada dos maiores feitos da humanidade ali naquela cidade parcialmente esquecida pelo mapa do Brasil e lembrada somente pelos habitantes dos arredores, hoje chamados sulistas. Eram aqueles polos de microrregiões, de acordo? Assim era o pacato município. Mas indo a pormenores dessa localização que a nós não tanto importa, vai esfriar a boia da refeição e dessa forma não queremos. "Comam enquanto está quente", encarecia a Dona Filomena, não que precisasse, porque os filhos zelosos eram por apreciar boa conduta à mesa para saborear os preparativos de nobre ocupação do dia.

Eram pela comida de Dona Filomena que Magda retornava da prefeitura, distante ali não mais do que cinco minutos a pé, enquanto o Adir fazia maior esforço, pedalava e, com o calorão que se formava principalmente no sol a pino de meio-dia, vinha com a camisa parcialmente suada, o que gerava os lamentos e lamúrias de sua estimada mãe. "Ó, mas Adir, querido..."

E Adir, reconhecendo no trabalho de nobre coração em agradar aos filhos, coração desconhecedor até de outras maiores façanhas, importunada desde jovem à criação daqueles antes fedelhos com ausência de pai, Adir deixava a camisa de manchas nas axilas e no colarinho e por vezes na dorsal para trocar por outra, o que lhe rendia piadas na firma como um filhinho de mamãe. Mas ele sabia sua realidade socioeconômica e possuía consciência de classe, não nos termos sonhados pelo alemão Carlos Marques, mas reconhecia da maneira interiorana dele.

Acontece que o almoço de Dona Filomena lhe dava energias para aguentar o sol descer daquele sol a pino e reclinar-se como em cadeira que obedece dono até esconder-se pelas encostas que tornavam aquela cidade em formato de vale superaquecido, justamente pelo pouco escoar dos vindouros ventos. A cidade, portanto, era abafada pela má circulação dos interrompidos ventos litorâneos e o esforço de Adir por pedalar aquela distância precisava sempre ser recompensado com a boa comida de preparação magnífica de dona Nena, como era conhecida pelos vizinhos mais próximos.

O ensopado de batatas era um prato de luxo naquela humilde residência. Quando, ao amanhecer, Dona Nena avisou os despertados de que aquele seria o prato principal para o encontro entre manhã e tarde, Adir de súbito teve sua melhora de humor necessária para pedalar até o Tour da França. Beijou a testa da mãe, se despediu do irmão de 18 anos e também de Magda, que estava ainda retirando a cama do corpo, como se diz, sem tanta pressa, pois, embora o batente com a prefeitura era mais rigoroso, a distância para o trabalho era menor e portanto ela poderia espreguiçar-se um pouco mais além, de esperar o café esfriar mais um pouco, calor que já se ameaçava acometer por aquele dia de outubro.

Adir esfregou com certa violência os cabelos do caçula João Lucas. "Não esqueça que venho ao almoço", confidenciou somente ao irmão em frente à casa, após já ter se despedido da mãe e da fã de café, Magda, no interior da casinha. "Temos uma tarefa das grandes nos trilhos, mas eu regresso, hein", deixou claro.

A manhã percorreu-se naquela subida gradual de temperatura e do astro maior ao alcance de todos, por cima daquelas montanhas ao fundo da paisagem e fazendo possível fritar um ovo sobre o avançado das telhas de fibrocimento e também dos chalés. O trabalho de Adir estava excepcionalmente cruel para aquela parcela de funcionalismo público em que muitas vezes assistem ao trabalho dos cupinchas. Mas Adir sabia que aquele serviço de solda era com ele mesmo. Com a máscara ampliando a temperatura contra seu rosto, pensava somente no degustar do ensopado de batatas.

O irmão mais velho era o único deles, fora o Otávio que parecia já estar noivando novamente por Florianópolis, era o único a ser casado, mas o casamento se desmanchara após três anos e voltou para casa de Dona Nena. Magda começava a encarar uma realidade de tia solteira, embora os sobrinhos ainda não haviam surgido de outras barrigas. Talvez o Otávio... porque o Adir empacou essa questão de relacionamento desde o divórcio, se tornara ele mais bruto para com as mulheres e, dizem, na ampliação das fofocas, que inclusive em casa, paciência mesmo era só com a mãe, a sagrada Dona Nena. Com os irmãos era mais seco e ríspido nos diálogos e ações, tomado ele pela conversão em sujeito pai da residência, como se era tremendamente aconselhado à época e muitas vezes se vê pelas casas de humilde embrutecido Brasil.

"Ah, as batatas... o ensopado, o sólido e o líquido nas medidas exatas..." e quando o horário de almoço já estava quase no findar é que arreglaram de vez o trilho e estavam dispensados.

- Precisam nem voltar à tarde - afirmava o engenheiro chefe do esquema ali. Ou seja, além de degustar as batatas, Adir poderia aproveitar a tarde como descanso após demasiado cansaço matinal.

Deixava para trocar a roupa suada em casa, poderia tomar um belo de um banho e se esticar numa rede, comprar algo que precisassem, seria da família naquela tarde. À essa altura, o horário de almoço de Magda, naturalmente já mais cedo, estava expirado e ela já havia comido sua porção de batatas e retornado à prefeitura. Dona Nena tinha seguido para lavar roupa também dos vizinhos, deixando o conforto do lar. O problema surgiu porque o menino João Lucas estava com fome. Comeu e não se satisfez, esperou e esperou o irmão e nada. Comeu mais um pouquinho. Esperou e viu que a panela poderia ser rapada. O irmão, que gostava, sim, bastante de batatas, deu um jeito em restaurante ali perto da ferrovia, não tinha mais dúvidas.

Mas estava errado. Ouviu a chegada da bicicleta de Adir, som inconfundível após tantas repetições rituais. Encostou a magrela ao lado da porta, limpou as solas no tapetinho de entrada como manda o complemento ritual. Subiu os degrauzinhos e vinha já se aprontando simbolicamente como se a uma majestosa refeição de reinado, faltando apenas o tapetão vermelho, o lenço ao pescoço e a bandeja com o prato principal coberto por aqueles objetos de prata que escondem o que está por baixo deles. Se fosse o caso, ele seria plenamente surpreendido não pelo que havia embaixo da proteção de prata, mas pelo que dali não havia.

Estava tirando a camisa já encharcada em suor, a excitação por seu pleno almoço favorito contribuindo para aquela formação superficial em sua pele. Enxugava a distribuição sudorípara da testa com as costas das mãos, surgia ainda sem camisa para averiguar uma última olhada antes de devorar de vez aquela porção. Foi quase de ponta de pé até a cozinha e prosseguiu até o pequeno fogão. Destampou a panela e deparou-se com: nada. Ficou zonzo, Adir subitamente estava plenamente desconcertado, sem reação. Olhou em volta, ninguém pela casa, a porta assim aberta. A Magda já na prefeitura, já com certeza. A mãe nas tarefas pelas roupas que o sol lá em cima é dia de lavar e secar, claro que é. O pirralho onde que estava? Gritou pelo nome de João Lucas que deveria ainda estar ali dentro. Ora, se avisou que voltaria para almoçar por que haveriam de comer tudo? Só poderia ser culpa do moleque.

Para azar maior de João Lucas, a casa, pequena que também era, não tinha tanto esconderijo e a cortina o denunciou. Mas Adir de certeza que ali estava o responsável pela sua fome nem confirmou com o rosto visível de João e já o arrebatou de trás do tecido com uma pancada do cinto que havia tirado. Repetiu sucessivos golpes até o garoto já estar marcando e pedindo perdão. Adir estava recuperando a consciência que lá no fundo ele ainda tinha e o João Lucas cavou seu sepulcro ao atacar-lhe pelas costas, querendo uma revanche da briga em que apanhara instantes atrás. Adir, ainda enfurecido pela fome, terminou de carregar as barrinhas vermelhas de cólera e pegou da pia uma faca para atingir o irmão.

João Lucas gelou, expressão facial impotente diante da força bem maior do irmão encorpado ainda com objeto prateado, reluzente e cortante. Ferrou para João que disparou pela rua tentando ganhar vantagem naquela disputa completamente injusta para ele que jamais havia temido pela vida como assim estava. Adir foi no encalço do rapaz e mal ele tomava o meio da rua, o atingiu com uma facada firme nas costas. O garoto não chegou a tombar, mas parou um pouco de correr, entrecortado pelo instrumento. Tomado da mais excessiva cólera de sua passagem, Adir, não satisfeito, retirou o objeto do irmão e lhe acertou mais três vezes. Pelo avaliar futuro do médico, a quarta, pelo local e incisão, teria sido a fatal. O corpo de João Lucas estava no meio da rua. O griteiro e a correria foram poucos, foram ligeiros, mas despertou alguns vizinhos da sesta naquela tarde quente. Com a faca nas costas do irmão, Adir ajoelhou para juntá-la. Passou por seus olhos a imagem do desespero que seguiria eterno para sua mãe, a irmã que fazendo contabilidades em prédio público de nada ainda saberia, o Otávio que viria de Florianópolis inconsolado pela perda do irmão caçula, sem dúvida seu favorito. Ele que estava sem para onde correr.

Pensou retornar os passos trôpegos até sua bicicleta. O casamento que dera errado, ele era agressivo com Maria Lúcia. Ela não o suportara. Ela foi-se da cidade, foi-se com encontro, disse que não toleraria mais. Adir enxergando somente lembranças, passado diante das pestanas, quando visualizou sua bicicleta, ela estava montada por outro jockey. E estava acompanhado por mais dois. Os vizinhos haviam chegado. Tentou retornar o passo então para onde estava caído para sempre o irmão João Lucas, mas o menino estava cercado por outros quatro vizinhos, duas senhoras, um marido e o filho do casal, de uns 14 anos.

Era muita gente que se acercava, mesmo com faca em mão não havia para onde fugir. Tentou correr, mas a polícia já ficou de imediato sabendo e, sem a companheira bicicleta, com Maria Lúcia só nas recordações e o irmão para sempre no relatório de sua ficha criminal, logo foi pego. Não havia testemunha direta pela janela daquele crime à luz não do meio-dia, mas de passada uma hora da tarde, quase duas. Os vizinhos que de casa viram o desfecho do macabro espetáculo, relataram para assinatura final que a morte fora às 13h41. Com a faca em mãos, o corpo do irmão estendido e ensanguentado ao solo de terra batida e nenhuma batata na panela, Adir foi sentenciado rapidamente pela corte.

A mãe quase que parou sua história por ali também, porque até desmaio sofreu. Felizmente, para ela, Otávio a levou para morar em Florianópolis, para conhecer sua nora e o neto que enfim nasceu dali oito meses - já estava grávida a noiva de Tatá. Sem Nena, a casa permanecia ali em humilde bairro, Magda quis aproveitar seu emprego na prefeitura e no fim das contas agradeceu que ao menos a morte foi na rua, não amaldiçoando para todo sempre a residência de sua vivenda. Ela continua solteira e talvez vá morar em Florianópolis também.

O Adir divide uma cela com outros seis apenados. As refeições eram servidas por baixo da porta e raramente eles poderiam ir para refeitório. A comida é tão ruim que costumam fazer misturas em que nem necessitem de talheres, muito menos uma faca. Talvez de colher se tomem os devidos cuidados. Quando, ao findar de quatro meses, finalmente um ensopado de batatas havia chegado pela portinha, um dos líderes da facção, que, naquela cela era acompanhado por outros dois, e no total da penitenciária por outros 40, disse que gostava muito de ensopado de batata e Adir iria comer não. Ele sentiu a falta de sua mãe.

06/10/2020

Desfibrilador

Às vezes penso que os conteúdos que escrevo são muito tristes. Mas repensando, não importa. Contemplo ao lado mais triste que necessita companhia. É fossa. Para os que se surpreendem, é talvez porque não desceram o suficiente ou não atingiram o patamar de conhecimento sobre essa melancolia toda. Acontece que ela está aí. É cinza no ar, é fumaça de cigarro. Está nos metrôs na volta para casa, nos carros parados, nas bicicletas e motocicletas fechadas, nos pedestres que vacilam ao atravessar e quase passam por cima deles. Está nas rádios interioranas, nas menores audiências, nos músicos que não têm como se sustentar, além de outros artistas e suas artes. Está nos códigos ambientais ignorados, rasgados, demolidos. Está nos hospitais.

Estava vendo um filme espanhol chamado 'Seu Filho', cujo personagem principal é um médico em que o filho é agredido brutalmente e agora ele quer vingança. Mas independentemente desse longa, me recorrem os ambientes hospitalares e suas peculiaridades, a morbidez, a preparação para morte em requisitado Santo Afonso de Ligório. Poderia ser um livro bem requisitado para essas horas. O cheiro hospitalar, os corredores, as conversas apressadas dos servidores, dos profissionais da saúde, os tons monocromáticos e a espera de quem não tem para onde ir. Seja o paciente ou os familiares e amigos que aguardam em cadeiras nada confortável, pois, independente do conforto, a situação de aguardo se torna muito desconfortante.

Horários de almoço em hospitais, comida de hospitais, comida em volta dos hospitais, nos restaurantes, nos botecos dos arredores. Imagino os atendentes desses locais, como costumam receber pessoas com olheiras, cansadas, esbaforidas, como as bitucas de cigarro se acumulam nos pátios, nos lances contínuos às escadas e rampas, principalmente rampas, onde estacionam às pressa e saem ainda mais às pressas ambulâncias, paramédicos, medicamentos, plantões, urgências.

Enfermidades e angústias que se misturam em comidas também monocromáticas, em sabores monocromáticos. Em paladares que já não sentem, em rotinas que se incorporam. Em realidades redesenhadas. A vida muda de um dia para outro, nos surpreende. É bem verdade que a maioria das vezes negativamente. Por isso me preparo, me precavendo. Sei de diversas possibilidades ruins que podem cercar-me, nem imagino outras. Se eu fosse negativo, saberia mais delas, mas ainda estão aí, como feras, como bestas na natureza que nos fôssemos largados e pelados.

Não há idade, não há segurança, não há sabedoria, não há preparação que dê conta muitas vezes. Acometidos jovens, acidentes, acasos, azares, catástrofes e tudo muda. A ti e a quem cuida, a quem está perto, quando há alguém por perto. Rotinas arrastadas, como carros rebaixados em ruas irregulares. Indecisões, incertezas, inexperiência para lidar. Mais quantos dias? E quando sai da UTI? E os medicamentos fazendo efeito? E o tratamento é assim mesmo? E esse sintoma é esperado? E esse colateral já aconteceu? E esse caso é comum? E esse outro é inédito? Na vida de quem acompanha quase sempre é. É inesperado. É um chão que se abre, é um rio caudaloso e há de se apoiar em algo. E há quem condene as religiões. Geralmente quem tenha tempo para isso e não tenha passado por, ou quem sucumbiria de qualquer maneira nesse mar tormento, porque nem religião há de ter. Lucidez, coragem ou despreparo?

Ah, as tristezas, vulgo aparições que deram início à série de hoje. Tantas as são, muito mais do que as estrelas, ao menos as visíveis a nós. Há tristezas invisíveis e há estrelas invisíveis. Há sofrimentos solitários, há ruínas escondidas, há tumbas preparadas para o recebimento. Não sabemos a hora, não sabemos quando. Há de estarmos cientes, mas a ciência segue em baixa por aqui. Medição de batimentos. Enfermeira, desfibrilador.

01/10/2020

Momentos de Lucidez

As pessoas costumam querer o contrário de seus pais, ou ao menos almejar querer o contrário de seus pais. No 'momentos de lucidez', o pensamento de hoje foi justamente me vendo muitas vezes como imagem e semelhança de meu pai. Eu que o considero tão contraditório à minha pessoa, mas que, no fim das contas, reagimos de forma muito semelhante em diversas situações. A biologia deve explicar de várias formas.

Percebi, nesse raciocínio, que para mim estaria bom repetir os passos galgados por ele no passado. Seria mais feliz, não tenho a mínima dúvida. Mesmo que lhe falte a tão importante consciência de classe, é minha própria consciência que me suga de canudinho a cada dia. E um dia o canudinho roncará pelo fim da linha.

Na síndrome por fazer diferente também se escondem as velhas políticas em períodos eleitorais, em que sempre se camuflam de novo. O exemplo mais óbvio por agora deve ser o tal de Partido Novo, que nas câmaras de deputados é incoerentemente o partido mais alinhado às péssimas, devastadoras e cruéis políticas bolsonaristas. Novo só pelo nome e pelo estrondoso mau gosto de alaranjar nas cores.

Na síndrome por fazer diferente, o jovem acaba muitas vezes querendo apenas modificar o que seus pais ou geração passada, em geral, faziam, sem dali colherem frutos, que, em uma visão ampla e analítica, sempre existem. Fazer tudo ao contrário também é copiar, diria algum sábio do passado.

Reitero o ponto de que estaria mais contente caso eu pudesse, de alguma forma, copiar os passos que meu pai traçou, mas tenho total ciência de que não posso ser como ele. Faço do meu jeito, no meu caminhar trôpego e seguidamente desvairado em nossas filas para lugar nenhum. Chama-se vida, eles disseram.

Se me alargar mais por essas linhas, perderei totalmente a ideia inicial, que era tão curta para registro. Mas fui ao banheiro e arrisco mais umas. Percebi o cheiro positivo dos produtos de limpeza (nem sempre assim o são, mas dessa vez fora). Percebi num raciocínio que os banheiros cheiram como banheiros em qualquer lugar, mesmo em casa, caso não cuidemos com o limpar necessário de tempos em tempos. A única diferença é a quantidade de usuários, podendo ser só você ou até uma família, quatro a doze pessoas, enfim. Se você não limpar, ele terá o cheiro de urina que os banheiros públicos têm. Os públicos apenas possuem o vai e vem, o trânsito, o anonimato, os desconhecidos que entram e saem daquelas cabines e não tratam como se fossem o de suas casas, errando o alvo e vocês sabem o quê mais.

De óculos, pensei em minha imagem estética e como eu poderia usá-los havia mais tempo, porque minha visão definha, de alguma maneira, desde os 18 anos quando frequentei as idas ao exército, no interminável processo de seleção. Cumprimentei meus amarelados dentes, da cor da toalha para enxugar as mãos. Lembrei da apresentação de rede social de grande amigo meu, que inclusive mandou mensagem nesta madrugada após longo período sem falarmos: sinais? Ele que se apresenta como "escovando os dentes de um estranho todas as manhãs". Filosófico. Experimentem o duro praticar de se olhar no espelho, apreciar ou horrorizar-se com o reflexo. No fim de tudo, procurar a aceitação dessa passagem. Eu poderia ser como meu pai em vários aspectos e assim eu preferiria. Tenho certeza que me estressaria menos.