19/03/2018

Balneário Camboriú - Janeiro

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

mundando

o mundo
todo muda
tudo mudo
segundo
os segundos

dor muscular

essa dor muscular
não vai passar
- como sabe que não?
o muscular é o coração

indo

o que evita muitos suicídios
apesar do ódio ao presente
é a esperança para o futuro
mas segue odiando o instante
com os degraus sendo engolidos
como uma escada rolante

17/03/2018

no papel

no papel me supero
super eu
meu limite é o céu
que se estendeu
um escarcéu
dou voltas
um carrossel
super ando
no papel

versões

minha melhor versão
em um versinho
aprecio sua mão
não há preço
só o apreço carinho

16/03/2018

Loja de Apartheids

Texto de: Marcelo Nascente

nunca fui um comprador, não tenho paciência pra loja.
minhas roupas e calçados geralmente são provenientes de repasses ou, quando to fazendo parte de um casal, a pessoa escolhe e compra. acho ótimo.
hoje aconteceu de precisar entrar em uma grande loja de departamentos, no centro da cidade, pra pesquisar preços de um tênis.
enquanto atravessava a loja, com meu destino definido, fui abordado por oito vendedores, com o tradicional (e invasivo) "precisa de ajuda, senhor". 
- não, obrigado.
ao chegar ao setor dos calçados, um vendedor chegou junto, tipo zagueiro de campeonato de várzea, o que já me irritou um tanto. quando consegui driblá-lo, percebi que um segurança me observava de perto. olhei o cara nos olhos e senti que meu estereótipo físico o incomodava.
andei pelos corredores do setor, com a marcação homem a homem ali, constante. resolvi, então, tirar o fortão pra dançar.
não tinha pressa mesmo...
por quinze longos minutos circulei pelo interior da loja. primeiros nos corredores adjacentes, e o cara ali. até que em determinado momento cruzei pro outro lado da loja e ele mandou um código, pelo radinho, pra outro colega, que passou a me acompanhar.
foi divertido.
fui embora. não comprei nada.
só queria contar a história e relembrar que pelotas é conhecida por ser uma cidade comercial, que vive principalmente deste setor.
que coisa, não?
em tempo: este post é um white people problem. sou branco, olhos azuis.
imagina como se sentem as pessoas que são, de fato, perseguidas por serem pobres, negras e que sofrem isso a cada minuto do seu dia;
que merda de sociedade...

Jaz

Cada letra é importante
Ressuscitadora
Por uma letra a mais
A morte de outrora
Vira música
O Jaz
Jazz

15/03/2018

Que te interessa?

Brasil
Invadido por estrangeiros
Saqueado, melhor dizendo
Brasil
Inválido escrevendo
Silenciado, melhor dizendo
Brasil
Invasivo com o alheio
Que te interessa
Essa ser puta, esse ser gay
Essa ser bi, esse também
Que te interessa?
Essa ser trans
Pro teu hoje e amanhã?

não eu de quê

O vinho da uva
A luva do goleiro
O arroz da chuva
O trem passageiro

O cão da rua
O dedo da mão
O poema da lua
O medo da escuridão

O desgosto de mim
O não do sim
Eu devoto
Eu-de-você
 


Coroa de espinho

Exílio é um filho sem pai
Uma mãe sem filho
Um 'ai' que ecoa
Sem auxílio

Exílio é um escuro
Sem luz
Carrasco e capuz
Um prego na cruz
Trem sem trilho
Coroa de espinho
Um Jesus que morra
Sem auxílio

Exilado

Exilado
Lado a lado
Ao leito da morte

Exilado
Lado a lado
Ao relento da morte

Fuzilado
Frente a frente
Advento ao carrasco

Ferido
Cru e
Destituído
Do menor amparo

Exilado
Do lado
Do que não existe
Assiste
Ao naufrágio
Do que nunca viste

Exílios

Exílio é o existir
Não mais pra ela
A estrela sem brilho
É o exílio
Exílio é o elixir
Do cruel maquinista
Que te tira dos trilhos

Exílio é o existir
Posto em dúvida
O eclipse do apocalipse

14/03/2018

Como se fosse a primeira vez

A chegada ao estádio é um dos melhores momentos. Gosto de fazer o trajeto a pé sempre que possível, sempre que o tempo, cronológico ou climático, permitir. As ruas próximas começam a se encher, sempre aos poucos, de camisas de torcedores, de pessoas também vindo a passos decididos ou estacionando e trancando seus carros nas vagas restantes. Os demais ocupantes do carro descendo ansiosos, mal podendo aguardar o motorista terminar de estacionar ou de ativar o alarme. Os cuidadores de veículos dão as caras, os chamados flanelinhas. Estão mais educados ou pelo menos mais contentes do que em qualquer outro dia. Sabem que vão ter mais serviço para vistoriar a área, mas também vão receber um bom sustento para aquela e a próxima noite, de repente.

Mais próximo ao estádio, um posto de gasolina está tomado. Tomado de gente tomando. Fico pensando que essa hora é de potencial sagrado. O desestresse, a saída da mente do dia a dia para os 90 minutos do jogo. Se o trabalhador, se o cidadão não passa por essa transformação, por essa sessão de descarrego, é possível que sua situação torne-se insuportável. Coloque-se a culpa nas jornadas, em seus subempregos ou empregos que nunca sonharam, mas cumprem, nas condições precárias do país. Ok, ok, futebol para hoje. Esses assuntos para outros textos, mas vocês sabem bem como é.

É o primeiro jogo do Pelotas em casa na divisão de acesso da temporada. A primeira vez do time diante da torcida. A identificação como imprensa foi deveras fácil, como eu não previa. A associação gaúcha tem complicado a entrada, mas nada nos tira o brilho e o ânimo. Subo até a cabine, outro ótimo ritual. Cada degrau como uma vitória, como um marco triunfante até a visão privilegiada do gramado. Aposto que todos que adentraram um estádio pela primeira vez sentem-se marcados pela visão do gramado. O gramado é que merece as maiores atenções. Ali, em cima dele, os destaques que vão ser noticiados, comentados na saída, na volta para casa, comentados para as esposas, para os maridos, para os filhos, para os netos, nos bares com os amigos, no barbeiro, na parada de ônibus, nos cafés. Ali em cima muita coisa pode acontecer. Do zero a zero em que se destacam a bola na trave ou a ótima atuação do goleiro, a uma goleada e a ótima atuação do passista ou do centroavante. Tudo isso pode acontecer.

Na cabine, o nome da rádio está bem marcado, mas não tivemos condições financeiras, ações antecipadamente decididas para transmitir. Mesmo assim, uns cremes de café, novidades estampadas em panfleto como "o primeiro creme de café do Brasil", me agradam. Encho a mochila com eles, sabendo que os demais componentes da rádio não vão dar as caras. Vários sabores, do café tido como tradicional, até morango e menta. Minha família vai gostar.

Desço os degraus da arquibancada e vou em direção à parte de baixo, para contornar o estádio por dentro e depois subir novamente. Meu pai sempre defendeu que o melhor jogo se olha da linha divisória do meio campo, ou próximo a ela. Assim se enxergam as duas metas e nos dois tempos. Tanto faz sentido que as nossas cabines de transmissão são assim posicionadas, do lado oposto ao escolhido por ele na arquibancada, mas com visão semelhante. Tudo para o narrador e o comentarista estarem atentos aos dois lados. Nos dois tempos.

Nos estacionamos ao lado de uma das poucas barras de tecido dessa ocasião. Presto atenção nos pequenos detalhes, das crianças das escolinhas de futebol que entram em campo, às faixas com dizeres distintos, amarradas cedo no alambrado, aos poucos torcedores visitantes, cerca de meia dúzia de rubro-negros do adversário da noite, Guarani de Venâncio Aires.

Numa rápida passagem aos acontecimentos de dentro de campo, alvo das notícias, entrevistas e repercussões, mas não desta crônica, o jovem time do Guarani surpreendeu com um golaço de fora da área. E o Pelotas pouco conseguiu reagir no primeiro tempo, causando espanto, pânico, cabeças cabisbaixas nas arquibancadas.

No segundo tempo, uma expulsão nos rubro-negros serviu de vez para igualar o jogo e, após outro gol bizarro, a virada. Os dois gols mandantes foram esquisitos. Um com dúvida se a bola transpassou da linha e outro por uma pixotada da defesa adversária. Mas o importante foi a bola na rede e os três pontos. O sentimento final na arquibancada era de alívio pela vitória vindoura, mas preocupação para os próximos capítulos, as próximas duras missões.

Após vencer um índio, o Lobo tem outro índio pela frente. Um com mais poder aquisitivo em relação aos da terra do chimarrão. Um outro índio residente de outra cidade com mais descendentes de alemães do que qualquer indígena. No esquisito campeonato da divisão de acesso, onde populares e esquecidos clubes amontoam-se em busca de voltar aos maiores holofotes e cenários, a batalha é sempre árdua, esquisita e única. Como a visão de olhar o verde campo, como se fosse a primeira vez. Ou o anoitecer no inalcançável horizonte. Como se fosse a primeira vez.

Boca do Lobo (Foto: Henrique König)

10/03/2018

Vistas grossas e confusas

Estava a caminho de uma casa em uma estrada cercada por campos, por matos. Ou seria uma casa de praia? Enfim, nada muito central ou urbano. A caminho dessa casa, fui recepcionado por batalhões de pessoas que brindavam meus feitos, os quais eu não sabia direito. Mas entendi que fui intimidado por ter cometido crimes. Quais? Primeiro um atropelamento. Atropelei para matar algum pedestre e, quando fui abordado por um policial sobre o caso, também fiz questão de matá-lo. A primeira morte não havia intenção, mas a segunda foi meio que para me livrar de provas. Logo, eu não responderia por um, mas por dois assassinatos.

Mesmo assim, minha comunidade ali presente, que adentrou a casa comigo, não parecia se importar pelo cometimento criminalístico. Pelo contrário, vibravam como se fosse um aniversário, uma formatura ou qualquer outra grande conquista pessoal. Me sentia como um personagem principal, o qual assimilei na hora como Mac, do desenho animado Mansão Foster. Entretanto, apesar da satisfação, euforia e sorrisos demais, sabia que eu passaria por maus bocados quando descoberto por demais autoridades. Eis que carros de polícia estacionam em frente à casinha. Aproveito a multidão para me intrometer entre ela e correr rumo aos fundos. Sei que a ação das policiais é rápida e preciso de muito preparo físico para vencê-las. Os fundos da casa reservam abertos campos, lembrando a chácara do compadre Adão em Herval, município vizinho a Pedro Osório. A corrida aos fundos reserva uma ou outra pulada de cerca e um tremendo descampado, onde eu seria alvo fácil.

As demais pessoas comentam que eu deveria ter dobrado à direita e ir pelos bosques, em maior esperança de não ser visto. É o que faço quando me dou conta, torcendo para não ser tarde demais. Como minha preparação física e desconhecimento do terreno não contribuem, logo sou alcançado, bem próximo a tudo, na verdade. As policiais apenas me cumprimentam e um breve filme, um curtametragem passa pela minha mente. Pouco se importam com o colega de profissão morto. Talvez fosse persona non grata. A questão é que minha dívida está perdoada até o momento e sigo em liberdade. Podendo responder processos futuros. Um pouco pode ter relação com minha leitura anterior, com capítulo de Um Gato de Rua Chamado Bob, em que o dono se mete em encrencas, responde em liberdade, mas poderia novamente ser acusado, chamado a júri e poderia cumprir pena mais severa.

De volta à "segurança" da casa, na verdade o endereço rural trata-se de uma casa de madeira em Cruz Alta, pois identifico uma antiga amiga que há muito não vejo. Ela está acompanhada de outras amigas, de outras pessoas. Me reconhece, se importa como estou. Fazem algumas brincadeiras que se tornam praticamente agressões. Difícil me defender. Demonstro marcas vermelhas pela barriga, e noto que meus testículos saíram do lugar. Estão completamente descentralizados em relação ao restante do corpo. Me preocupo intensamente se isso seria reversível. 

Ainda pela casa, descubro que possuem bons lugares para diversão. Sofás confortáveis, quartos em que posso dormir. Descubro a presença de muito mais gente. Praticamente uma gangue, um quartel general, uma organização meio secreta, no qual eu me infiltrava em outra cidade e na condição de assassino em liberdade. Possuem algo como sala de jogos e um caminho elevado como uma ponte pênsil em que a obra está recém terminada e me desafiam a subir e testá-la. Uma moça já estava localizada no final do trajeto, em um sofá, sobre um piso de madeira que também continuava a se mexer com os movimentos, com os passos. Não perderia para ela e estava em grande confiança com todo aquele universo em que eu era bem recebido pela antiga amiga e as demais pessoas.

Lá em cima, em aparente segurança, descolo um lugar no sofá colocado e outras pessoas se arriscam a subir. Saberia que eu não seria a causa de uma desordem na estrutura fragilizada de madeira, pois sou muito magro. Passado esse estágio, a dentro havia algo como uma cobertura, uma espécie de casa na árvore, mantendo o estrutural em madeira. Havia como que uma pequena loja de itens diversos. Alguns relacionados a futebol. Gostei muito de um chapéu estilo de bobo da corte em que as cores do Grêmio se faziam presentes. Era minha ideia de compra para voltar à minha terra natal após isso tudo.

Se tudo não estava maluco o suficiente, passo ainda uma empreitada por trilhas íngremes, trechos de selva, na promessa de que no fim haverá uma bela e singular vista, de tirar o fôlego, como prometem. Essa parte do sonho está mais masculina, no sentido de quem acompanha o trajeto. Um cara mais velho tem pinta de professor de educação física e os demais são todos bastantes jovens, a lembrar colegiais. São pedras escaladas, trechos em mata fechada, novas travessias de ponte pênsil, alturas, desfiladeiros com água lá embaixo. Tudo para superar até a última vista. A vista nesse dia de sol marcante é para águas cristalinas, como se diz. Uma praia até movimentada logo abaixo, fato que me faz questionar se não havia um trecho muito mais simples de acesso, para ter tantos turistas com carros e crianças na praia morro abaixo. Enfim, a vista é mesmo marcante e faz a gente esquecer um pouco os confusos episódios passados.

Os seguidores após eu ter cometido dois assassinatos: um no trânsito e outro a sangue frio contra um agente policial. A casa no meio do mato, as policiais que me perdoaram sabe-se lá o porquê, a volta para essa casa em estilo chalé e logo em Cruz Alta, cidade distante, com a distanciada amiga e os demais elementos da gangue. Tudo isso era passado diante da magistral vista.

03/03/2018

90 e poucos

a vida passa como uma chuva de bobinas de papel na entrada em campo
um bobinaço
orgasmo e exaltação
e a vida passa como um jogo daqueles dos 90 e poucos minutos
e odiaria, como nas experiências que tive no concreto do estádio,
perguntar ao desconhecido torcedor, na hora amigo, ao lado,
o tempo de jogo
- são 30 do segundo tempo
e o crepúsculo da partida se aproxima
e percebes que não valeu, que tu, na condição de arquibancada,
não deu o máximo de ti
e o time, em campo,
não deu o máximo dele;
não roubou aquela bola
não arriscou aquele chute
não subiu para conferir aquele escanteio
o placar é detalhe no suor que escorreu
quando tudo, treinado ou não,
foi feito
a entrevista do juízo final
sai mais fácil
quando os lábios pronunciam
que foi feito tudo que se pôde
que dentro do jogo
houve oscilação
melhores e piores momentos
mas que foi um jogo disputado
e que o caminho para o vestiário é distante
porque a perna pesa do esforço feito
e que o torcedor perde a voz
porque cantou
porque cobrou a arbitragem
e incentivou o time
e chamou atenção do time
e tentou como ele podia
e o jogador sai esgotado
pensando no repouso do dia seguinte
e na volta aos treinos dali a dois
e o torcedor sai extasiado
pensando no trabalho do dia seguinte
e na volta ao trabalho dali a dois
e a vida se vai
como o refletor do estádio
para voltar
enquanto há volta
90 e poucos minutos de vida

01/03/2018

Pedra do Frade - Janeiro

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

26/02/2018

Funestos do Ofício

Por vezes tenho vergonha de algumas manias. Em outras eu acabo mencionando-as como forma de assunto. Por exemplo, antes de escrever este texto eu posiciono a caligrafia do site para Verdana e assim vamos até o ponto final. No próximo texto, provavelmente vou seguir a mesma regra. E talvez um dia eu mude. É o que posso conferir sobre essa temática por enquanto.

Multiplicam-se nas ruas as pessoas que catam lixo para trocar por mais um pouco de sobrevivência. Multiplicam-se os textos em que menciono isso. Multiplica-se o fato de que observá-las nessas condições desumanas me deprime fortemente. São velhos sem emprego e sem outra renda. São famílias inteiras dependentes. São crianças algumas dessas pessoas. A cidade, o estado e o país conferem o tríplice abandono. Outro dia, uma charrete cruzava o centro conduzida por um jovem colorado e um jovem usuário de camisa do Farroupilha. Raridades nos atuais tempos.

Também multiplicam-se os assaltos a celulares. Passei praticamente um ano com um muito antigo que apenas sintonizava rádio como forma de entretenimento quando eu saía a pé de casa. Tenho receio de encontrar novamente um assaltante como encontrei em uma madrugada de um descuidado fim de janeiro. O preço pago foi andar com o celular velho durante o ciclo anual seguinte e somente agora retomar um aparelho mais convencional às minhas atividades jornalísticas e de forçada socialização.

A cor que eu mais reparo nos fones de ouvido pelas ruas é a cor branca. Justamente a cor de meus fones. Será que são mais visíveis? É possível, pois sei de fones de ouvidos de diversas cores ou mesmo a simplicidade dos pretos. Outras pessoas não estão usando fones e gritam no celular por áudio ou ligações. O áudio não deixa de ser uma ligação, no ato de ligar. O áudio não deixa de ser uma chamada, no ato de chamar. Mas vocês entendem as diferenças.

Capto alguns assuntos na rua e tento lembrá-los depois. Às vezes surgem pérolas sobre perdedores de chaves, pessoas com contas a pagar, marcação de encontros, gente que espera outras para jantar ou caronas mal combinadas. É interessante ouvir. Uma criança acompanhada da mãe estava com o cabelo azul e um cheiro esquisito, provavelmente de algum produto, talvez o responsável pela coloração atípica de seus pelos. Esqueci de driblar as lixeiras abarrotadas em uma rua perpendicular a 15 de Novembro. Não recolhem o lixo há tempos por ali e um pouco está pela calçada. O cheiro é desagradável, é claro.

Meu cabeleireiro admira o zagueiro argentino do meu time. Afirma que só assiste aos jogos do meu time por causa dele. "Joga como eu gosto." Ao mesmo tempo, ele conhece e se dá bem com a pessoa mais desprezível das que trabalham comigo. Ao mesmo tempo dei a sorte de cortar o cabelo no dia em que ele selecionou previamente uma playlist de rock. Uma das primeiras que identifiquei foi a voz do vocalista do Iron Maiden. Logo depois vieram outras ótimas canções, entre elas Losing my Religion do R.E.M., que tocou na rádio esses tempos por intermédio de nosso conhecido em comum, além de Beds are Burning, clássico dos anos 1990 do grupo australiano do Midnight Oil, do qual tenho um disco em casa. Foi merecidamente a música de maior sucesso da banda. Injustamente a única conhecida pelas pessoas por aí.

Um prédio histórico de esquina na cidade está sendo completamente reformado. Tomei um ou outro susto em algumas dobras de esquina nessa caminhada. Será que ando mais distraído ou apenas a presença repentina simplesmente surpreende? É sempre desagradável invadir o espaço pessoal do desconhecido, com o risco de pisar-lhe o pé ou te pisarem o pé, ou mesmo trombarem, tentarem inutilmente ocupar o mesmo espaço na contrariedade às leis da física. Tropeço em algumas calçadas mal conservadas. Já comentei em outros episódios que elas pioram em direção ao meu bairro. Como muita coisa piora, certamente devem pensar.

Na rua do partido político que tenho sido procurado e, tão logo, eu procuro, há muitas funerárias. Um cheiro forte de cigarro por toda parte. Prédios antigos e baixos, colados uns aos outros, revendas de moto, pizzarias, tudo muito bizarro. Contornei um carro de funerária que estava estacionado sobre a calçada e ocupava toda a passagem que eu gostaria. Mesmo tão magro, me espremi entre a parede e o porta-malas, na dúvida se aquele era um dos veículos que transportavam mortos, caixões, caixões com mortos, etc. Desagradável.

Enfim, cruzei com a morte e cruzei com a vida. Ainda com a morte, algum desconhecido geral se encontrava deitado sobre a calçada ao lado do estádio da área mais central da cidade. Despreocupado com o horário e, logicamente, com o que iriam pensar daquela cena. Alguns têm pena, outros gostariam de descarregar uma camaçada de pau no sujeito e outros ainda apenas contornam o corpo estendido, improvisam pelo meio da rua. Quem sabe? O que não muda é que ele continua ali no chamado horário comercial. Do outro lado da rua, muitas vezes fui abordado por jovens ou mesmo adultos, como dizem? À flor da idade? Pedindo moedas. Geralmente bato nos bolsos e sinceramente lhes mostro que não tenho trocados em níquel. Fazer o quê?

Nos encontros com a vida, um jovem casal, adolescentes que não cruzaram a maioridade, caminhava uma quadra à minha frente ainda pela mesma rua e puderam ser alcançados pelos meus passos através das paradas em que uniam seus lábios sem muito pudor. Eu tento passar impassível, mas eles sabem que chamam a atenção. Ou são casais constituídos recentemente ou claramente possuem esse objetivo de chamar atenção. Ou são as duas opções. Os ultrapasso e sigo a mesma rua. Sempre em frente.

No fim do trajeto, uns velhinhos agora deram para o hábito de estacionar suas cadeiras de praia sob as árvores que lhes fornecem a estimada sombra. Fica em frente a uma grande casa à venda, na quadra onde eles moram. Do outro lado da rua, muitas vezes, está sentado um sujeito magro que já se assemelhou mais a meu pai. Pela casa dele, gatos exibidos percorrem despreocupadamente o caminho estrito da superfície sobre os muros. Trapezistas natos. Conto no máximo dois felinos. Por vez. Talvez sejam mais. Cumprimento ao dono da casa e aos velhinhos sempre que os vejo. Não tenho assunto a mais com eles além de um cordial aceno. E não tenho mais assunto para com vocês dessa vez. Encerro como Raul Seixas encerra a canção Eu Também Vou Reclamar: - e fim de papo.

morg

morg
teu olhar sobre
é um voo nobre

morg
ong
nesse mundo ciborgue

nesse mundo pobre
you' re a song
morg is morg

nesse mundo pobre
you're only one
dog eat dog

23/02/2018

reticências

finitude é um zíper chegando ao final
definitivo e cortante
o eco desse vocal
______________________________________________________________________

reticências são pontos
seguindo outros caminhos
partem do mesmo encontro
e migram do seu vizinho
______________________________________________________________________

reticências são tudo
menos retas
são projetos be(s)ta
sem escudo
e sem profeta

21/02/2018

Janeiro em Imagens - Praia do Mar Grosso

Laguna (Foto: Henrique König)
Solitário (Foto: Henrique König)

Laguna (Foto: Henrique König)

Solitário (Foto: Henrique König)

Passeio (Foto: Henrique König)

Flowers (Foto: Henrique König)

Beleza e perigo (Foto: Henrique König)

O velho e o novo (Foto: Henrique König)

Beleza Oculta (Foto: Henrique König)

Rock City (Foto: Henrique König)

Quadricolor (Foto: Henrique König)


Habitável (Foto: Henrique König)

O verdadeiro significado de tanto faz (Foto: Henrique König)

Isolamento (Foto: Henrique König)


Bela vista (Foto: Henrique König)

Laguna (Foto: Henrique König)

Futuro (Foto: Henrique König)

Laguna (Foto: Henrique König)
Last (Foto: Henrique König)

quanto mais atemporal a poesia
vai ajudar em mais e mais dias
como a reza que eu rezo
ou que tu rezes
geralmente escondida
mas emergia às vezes

Mário Quintana

ar-Mário
de poesia
guarda-roupas de Nárnia
guarda poucas, guarda muitas
estações loucas
cores pri-Márias
e outras muitas, outras várias
chaves de outras portas
ar-Mários
poesias em cabide
grid de largada
de um rio imagiMário

resumário

ar,
Mário,
elemento do vento
o elemento do tempo
organiza o sumário
organiza o lamento
que vai no obituário
quem não viveu este tempo
será que adianta glossário?

16/02/2018

jazidos e túmulos

começo a brincar com a poesia
que é tudo
que imita o meu dia
tudo que não existia
quando amanhecia
tumulto
no ventre do dia
truco
quando anoitecia
túmulo
ao findar do dia
se estás lendo
não me irrita
me irrita
tu estar lendo
e não seguir a dica

trancei

trancei dois poemas
um no outro
duas tranças
de um poeta louco

transei uma ideia
veio sem consentimento
quase tudo que assim é
é sintoma sofrimento

ganam ciosos

do papel
ao penpal
o pagamento
objetivo final
de quase tudo que é feito
feito animal

prazer em velas

o conto dura bem mais
do que a poesia
o conto é pombo
com asas que chegava
onde todo mundo ou ninguém ia
enquanto a poesia
mesmo brava
é chama que brada
arrasa, abrasa e termina

até pode ressuscitá-la
em nova hora aquarela
diferente agora daquela
para novas feridas
novas chagas e novas sequelas
novas queimaduras
atravessa a armadura
o prazer em velas

quitando quintana

quintana
nem comecei a lê-lo
e já fiz o elo
será que agradeço
ou apenas espero?
será que mereço
teu fruto tão belo...

poema que se apresente

parei quintana
na página vinte e dois
o sono me chama
então leio depois

o tempo presente
é o galanteio
está no seio
da atividade

melhor deixá-lo
no poema
assim conservado
no seio da raridade
do tempo presente

pra unir
ao mesmo tempo
do passado a saudade
do futuro a vontade
do presente o presente

go away

américa?
leias bem
essas leis
não te pertencem

não são de metal
o sorriso dessa gente
não é o final
teu ponto entorpecente

américa?
leias bem
jamais foste
e jamais serás
dessa gente

you're lost
in the middle
where I think
different

américa ama rica

américa
ama rica
de dentro do seu barraco
à rica oferece tudo
estende a mão: o tato
trabalha a mão: o trato
limpa a mansão: olfato
"sim senhora": acato
enquanto a rica
devora
devolve pra sempre
o agora
que é a fome
no prato

américa calminha

américa caminha
do meu sono
do meu sonho
de meu sangue
e de américa do sul
américa calminha
repousa
não ousa
mais sangue
não ousa
ser mais do que
império yankee

américa daninha

a américa latina
caminha sem pernas
sobrevive
entre hérnias e ervas
economia
daninha
caminha
minha
américa latina
latrina
das trevas

Quintanices

"O poema
é, ao mesmo tempo, um disfarce do poeta: ele parece falar de alguma coisa (aparente) mas, na verdade, está a tocar em um tema bem mais profundo e certo. A poesia, por seu lado, é um encantamento: o poeta se vale de palavras como fórmulas mágicas, criando uma atmosfera que desvela/revela o mundo, produzindo o que poderíamos denominar de enobrecimento do cotidiano. Sendo a poesia irredutível, ela se constitui na invenção da verdade, a partir de um procedimento fundamental: a indagação.
O cerne da obra de Mario Quintana se apóia exatamente nisso: o espanto da descoberta, colocando-se o interesse do poeta menos na realidade do entorno em si mesma e muito mais nas mudanças que ela sofre, com o passar do tempo, A poesia, por conseguinte, concretizada na forma do poema, é como um pacote que deve ser aberto: a leitura do poema é a revelação da surpresa que ele contém, a própria poesia, mas que não é delegável a ninguém mais, senão
ao leitor mesmo. Daí a afirmação que encontramos em certa passagem de Na volta da esquina: Os verdadeiros poetas lêem os pequenos anúncios de jornais, ou seja, é a partir da realidade mesma, a realidade anônima e cotidiana, que se concretiza a poesia, por aproximação."


Notas sobre Baú de espantos - 1986

13/02/2018

ala alada alameda

lá vai
a ala
alada
que vai

lavai
a alma
samba
sabão
só vai

lá vai
a ala
que entra
e que sai

saudando
avizinha
faraó
pescador
samurai

saudando
liberto
coberto
campos
serras
litorais

saudando
a minha
a sua
e de quem mais?