02/02/2018

Novembro em Imagens

Foto: Henrique König
Pôr do Sol (Foto: Henrique König)

Pores no mesmo dia (Foto: Henrique König)

Bird (Foto: Henrique König)


Melancolia (Foto: Henrique König)

Centro de Pelotas (Foto: Henrique König)


Melissa (Foto: Henrique König)
Invertido (Foto: Henrique König)


Anglo - Pelotas (Foto: Henrique König)

31/01/2018

pecar de olhos

no pecar de olhos
o que a boca confessa
logo é desmentido
no pecar de olhos
 
logo é demitido
o autor dessa promessa
dessa farsa, dessa peça
dessa troça sem sentido

demitido
frágil como vidro
no pecar de olhos
 

pregar de olhos

num pregar de olhos
tudo se transforma
um pegar de olhos
esquecer tudo à sua volta
cessar o combate
conter a revolta

num pregar de olhos
o mundo agora é outro
dura pouco a moleza
dura muito o sufoco
dura pouco a certeza
permanece o duvidoso

22/01/2018

"As pessoas vivem muito no automático. Em vários âmbitos da vida se exige apenas resultado e só querem saber de resultado. A caminhada, com seus altos e baixos, quase nunca é considerada. A vicissitude do cotidiano que faz a vida valer a pena. Sou relativista. Toda generalização é burra. Cada ser humano é um estranho ímpar e suas experiências seriam igualmente ímpares." 

Carla de Pieri

19/01/2018

Floyd Explica

A maioria de meus textos mais crônicos surge em caminhadas. A maioria de meus sintomas mais crônicos é amenizado caminhando. Não dirijo, mas creio que a atenção exigida ao volante reduza a quantidade de observações, sempre cruciais para a elaboração dessas linhas.

Foi a pé que eu precisava aproveitar aquela última manhã. A praia disponível a todos que nela conseguissem chegar. A praia indisponível ao estado de estar a sós. O sol a brilhar forte desde o asfalto e as calçadas. Cada sombra alcançada em avanço a ser comemorada e valorizada. Como deve ser a vida, com cada vitória, cada pequeno triunfo, pequeno refresco, alívio de dor e intervalo de sofrimento a celebrar. Celebrar para sobreviver, na canção da banda uruguaia La Vela Puerca.

Sotaque argentino pela praia. Transformando a praia em playa. Um casal deles me perguntou informações outro dia. Sobre a rua 601. Os respondi em espanhol para que pensem que também sou um deles. E por que deixaria de ser?

Com um pouco mais de noção das ruas do que dias atrás, caminhei em direção à praia. Grande momento, ápice das voltas quando um cara de uns 30 anos carrega sobre seus ombros largos um aparelho de som que exibe música para a rua inteira. Animador daquele já ensolarado dia. Cruza por mim durante a execução de How I Wish You Here da banda Pink Floyd. Mas não é a versão original dos britânicos e sim uma canção em reggae. Eu elogio o som e ele me responde com voz cavernosa com gírias em um equivalente de "é, não é mesmo?".

Segue sua galopante empreitada de rumo que, em rua próxima à praia se dissolve, se dissipa do meu. Some tão repentinamente quanto surgiu. Volto a prestar atenção nos altos prédios e nas distintas pessoas ao redor. Os prédios se parecem mais uns com os outros. As pessoas são muito variadas entre magras e gordas, novas e velhas. Pela alta temporada e badalação da praia, devem se aproximar em aspectos econômicos que ali nada me interessam.



Quando chego à avenida de nome referente ao oceano que banha suas areias logo abaixo dos concretos, encontro o maior movimento de transeuntes. Revezo minha atenção para desviar fisicamente meu corpo dos que caminham em direção contrária. Ao mesmo tempo, tento pousar meus olhos nas diferentes formas de vida ali presentes. Fotografo alguns instantes sem que me torne intrometido ou invasivo contra os reféns das lentes.

Me chamam atenção os senhores de idade com suas latas de cerveja de marcas muitas delas reprovadas por mim. Ao mesmo tempo, crio uma identificação com esses seres que muito podem se assemelhar a mim, caso eu chegue em suas não referidas idades. Outros deles estão concentrados esportivamente. O dominó é a modalidade da vez. Nas disputadas areias da praia, não há muita área disponível para prática esportiva que denota dessas condições espaciais. Nada de vôlei ou futebol e, talvez com muita habilidade para não incomodar os numerosos vizinhos, um pouco de frescobol poderia estar ocorrendo por detrás de tantos guarda-sóis fincados no terreno arenoso.

São muitos argentinos, como exaustivamente ouvi desde os noticiários até os comentários virtuais ou de quem ali mora, e inclusive passei a repetir essa verdade tida por nós. Alguns identificados em seus aspectos. Homens de pele muita clara, mulheres de rostos tristes. Mas havia, sem dúvida, uma variedade antropológica inestimável, nas ressalvas de diferentes idades e tamanhos. Biosfera pulsante. Migratórios convergentes. Ver gente. Ver gente. Vertentes.

Uns se protegiam nos guarda-sóis. Outros matavam a sede em quiosques. Uns conversavam animados. Os salva-vidas cumprimentavam outros salva-vidas que passavam sob os seus postos. Uns poucos se aventuravam na água, que não é considerada própria para banho em todos os pontos. Outros observavam solitários, como solitário eu estava nessa caminhada.

A polícia sobrevoava a praia lotada de helicóptero. Por vezes, viaturas cruzavam o asfalto no mesmo sentido dos turistas sobre rodas. Motos e carros que ora respeitavam a travessia dos andarilhos, ora ignoravam a sinalização. Cadeiras de praia espalhadas pelas areias e pelas calçadas. A luta incessante por uma vaga debaixo do escoar das águas nos chuveiros públicos. Filas de gente interessada em se refrescar ou em tirar os grãos que sempre estiveram na praia, ou ao menos seus parentes de composição química. Antes do ser humano levantar propriedades, muros, grades, cercas e prédios com 30 andares.

Garçons procurando formar clientes para os restaurantes do outro lado da rua. Importunadores com gritos e tentativas de roubar a atenção. Um método pouco eficiente para me convencer a provar seus pratos especializados, mas método que cavou um lugar neste parágrafo, a título de curiosidade. Pessoas tentando ver pessoas ou tentando ver a paisagem escondida atrás dos prédios ou das demais pessoas. Pessoas que estavam ali, nem fazem muita ideia, nem sabem bem o porquê. Pessoas com tão pouco objetivo quanto os grãos de areia que se escondem entre espigas de milho verde, entre calçados e calções.

Muitos praticavam esporte pelo asfalto. Na pista compartilhada, ciclistas, corredores, skatistas. Uma ou outra pessoa atravessa as faixas de pedestre trajando terno. Vendedores ambulantes. De artesanatos alternativos aos jogos de loteria. Uns praticam esporte preocupados com a forma física. Gente moldada claramente na academia, outros procurando perder calorias. E nada retira a concentração dos jogadores de dominó. E nada retira a tua concentração que costurou lotes em meu peito e reinstituiu ocupações em minha mente.
How I wish you here.

18/01/2018

BR-116

Calor no carro. O ar condicionado dele não vence. Abrir as janelas seria o recurso se a velocidade na estrada não disparasse um barulho maldito aos ouvidos, ensurdecendo a ponto de não ouvirmos os próprios pensamentos.

A rodovia, que era duplicada, já não é mais. Não entendam errado. Não é uma rodovia duplicada que voltou a ser de mão única. Me refiro ao fato de que trechos mais ao norte foram duplicados e quando os veículos escoam suas presenças ao sul, encontram novamente uma estrada de via única. Aquelas em que é preciso adentrar ao espaço da contramão para realizar uma ultrapassagem.

A infraestrutura é melhor lá ao norte, conforme os pedágios são mais baratos. Novamente, não entendam errado. Isto mesmo. Os pedágios mais caros são os da rodovia de mão única. Uma boa investigação sobre prestação de contas poderia trazer magníficos esclarecimentos a respeito.

Não à toa foi um post que partiu da cidade de Pelotas que tomou rumos nacionais e milhares, talvez milhões, de compartilhamentos, a respeito de uma especialista em Direito que afirmava serem irregulares as praças de pedágio. Com uma boa argumentação e o respaldo da lei seria possível driblar esses cobradores. Era o resumo do post que circulou e ainda deve circular na internet. Pois estamos tratando de algo com milhares, talvez milhões, de compartilhamentos.

Sobre os rumos ao sul pela BR de número 116, nesta quase rima de nenhuma graça, as paisagens que ilustram o texto começam a se moldar fortemente após a passagem pela região metropolitana de Porto Alegre, abaixo de Guaíba. Abaixo no sentido dos pontos cardeais ao se observar um mapa. Em outro sentido geográfico, o pampa se estende até onde os olhos se possibilitam ver. Ou seja, não há abaixo. É tudo plano. Em maior parte, a regra é uma estrada reta. Infinita highway.

Qualidades de vida de América Central. Confusas. A estrada que passa Guaíba e tem como destinos possíveis Barra do Ribeiro ou Tapes do Sul. Vegetação de árvores à beira da rodovia. Alguma sensação de sufocamento pela impossibilidade de conferência do horizonte. Curvas. Curvas apontadas em placas e que trazem o desconhecido logo a seguir. O asfalto já não é dos melhores, visualmente remendado. Os acostamentos não são os mais seguros e aconchegantes para abrigar paradas. Breves, que sejam.

Pontos de ônibus. Alguns veículos estão encarcerados como ao inferno de repetir esse trajeto. Lembro a história de um conhecido da família de minha tia, o motorista de ambulância que fazia sempre o trajeto de Santa Vitória do Palmar (o extremo sul do extremo sul) até Porto Alegre. Dias e noites na monotonia que, não bastasse o tédio, ainda reserva os perigos das rodovias brasileiras. Mas um trabalho assaz digno, necessário no abastecimento de saúde à população necessitada em rumar para os maiores centros, ao encontro da medicina.

Mas os pontos de ônibus fadados à condição de celas. Alguns pichados como tais. Só os falta que marquem e contem os dias de cativeiro neles. Mas seria demais na hipérbole dessa exaltação bucólica. Um artista inovou trechos da rodovia próximos à Camaquã com a aparição de gatos grafitados em pequenas obras abandonadas ou mesmo nos pontos de parada dos coletivos. Uma diferenciação que faz o antes imutável respirar novas cores, mesmo artificiais.

As casas de campanha são distantes umas das outras, um panorama muito distinto das acumulações de moradores e empresas, empresas e moradores nos trechos mais ao norte. Ao norte do Rio Grande do Sul, ao sul de Santa Catarina ou ao norte de Santa Catarina. As casas de campanha em suas simplicidades, algumas muito antigas. Algumas imitam em menor tamanho o estilo da construção que se convencionou chamar de parque de Bento Gonçalves, que foi uma das residências do protagonista na Guerra Farroupilha. A famosa estrutura que pinta no horizonte está em área pertencente ao município de Cristal.

Casas simples. Muitas carentes de pintura. Armazéns, borracharias, mecânicas. Casas com suas janelas voltadas para rodovia. Intenso tráfego de carros que devem ouvir. Caso a duplicação chegue até ali, muitos serão indenizados e pedidos para se retirar, como já ocorreu em alguns trechos. Outros vão conviver com o som e o impacto dos pesados veículos, principalmente caminhões, mais próximos do lugar onde dormem, onde fazem as refeições, onde vivem. Complicações do que um dia foi uma vida muito mais pacata.

A violência na região aumentou estratosfericamente. Retratos de um Brasil desigual, desempregado e, quando empregado, mal empregado. Mal formado e mal formando na formação de estudantes, trabalhadores e cidadãos. Um país conivente com os tantos crimes, que acentua a metáfora das prisões das estradas e dos pontos de ônibus, nesse inferno de inevitáveis incertezas quanto ao próximo dia.

Uma estrada de maior volume de caminhões que as vozes mais experientes logo associam com a aproximação do porto de Rio Grande. À essa altura, a rodovia está mais reta do que as curvas anteriores nas proximidades de Barra do Ribeiro e Tapes. Camaquã é um brinco, mas somente um brinco. Como se um ponto luminoso na orelha, como é luminosa nas noites de rodovia, fosse resolver o problema de um organismo problemático. Camaquã deu alguns sinais de desenvolvimento. Mas não por muito tempo. Um prédio colossal posto à beira da rodovia, próximo da entrada da cidade, perdurou anos de contemplação sem que os viajantes soubessem seu destino final. Acabou lacrado nas vastas fachadas que estavam prontas. Faltou verba ou mudança radical de planos.

Não bastasse os problemas e bucolismos apresentados, o preço da gasolina é dos mais altos do país. Eis uma região que ficou para trás historicamente e talvez mais acentuadamente na contemporaneidade e que apresenta pedágios caros, valores de transporte público caros, como o caso de Pelotas, e preço de gasolina caro. Ao menos mais caro que norte do Rio Grande do Sul e o sul de Santa Catarina. Mais uma vez caminha-se ao encontro da metáfora do inferno. Um lugar de calor nos verões mais asfaltados e com menos saídas.

Uma das saídas, orgulho dos outdoors exibidos ao longo do trajeto, seja a praia em São Lourenço do Sul. Se Camaquã foi aqui posta como um mero brinco, talvez São Lourenço possa ser um oásis. Cidade pacata e que apresenta essas atrações turísticas, com boa gastronomia e opções para refrescar o verão em praias cada vez mais procuradas. Uma ameaça à eterna tranquilidade do inferno, mas uma possibilidade de renda e desenvolvimento com o turismo.

Os outdoors são uma das poucas formas de romper a paisagem incessantemente descrita. Além dos vastos pampas e campos intermináveis após o trecho mais cerrado em árvores, além das poucas casas de campanha. Além dos poucos armazéns, borracharias e mecânicas. Os outdoors contrastam o fato de que é muito mais fácil vê-los do que ver uma verdadeira empresa empregadora. Sinais de o desenvolvimento está distante como a propaganda e o marketing estão distantes da realidade. Cada nova mentira da publicidade é uma confissão de sua mentira anterior, destacaria nosso falecido francês, Guy Debord.

Entre ultrapassagens perigosas e novamente a sonolenta estrada de pampas aos arredores, os funcionários da empresa administradora da rodovia aparecem cada vez em menor número. Se concentram mais ao trecho próximo da região metropolitana de Porto Alegre, bem sabe-se o porquê. A segurança consiste em raros e esvaziados postos de Brigada Militar, entidade de tantas dificuldades financeiras, a exemplo do estado, além dos mais modelados e equipados santuários azuis e amarelos da Polícia Rodoviária Federal.

As opções de diversão são os chamados bailões. Alguns são fortemente anunciados nas pinturas, atrativos para buscar clientes, mesmo que de passagem. Outros são mais reservados, pelas opções ilegais que variam de jogos de azar à prostituição nas casas noturnas. Talvez grande parte das comunidades prefira os almoços e festas de igreja, os bingos de domingo e talvez seja um grande erro unir essas duas formas de diversão no mesmo parágrafo, mas agora foi.

Um dos prazeres da região se estende para gastronomia de cucas, salames, chimia, doces de Pelotas e agriculturas familiares, cada vez menos livres dos agrotóxicos. Plantações de eucaliptos que se enfileiram militarmente à espera de seus cortes e aproveitamentos para os produtos derivados que ocuparão as prateleiras dos supermercados, enquanto os moradores locais reclamam que esse tipo de plantio prejudica o solo pela eternidade de suas vidas. Infernos.

Pessoas que esperam. Esperam a chuva na horta. Esperam a chuva para amenizar o mormaço. Esperam um novo amor nessas cidades escassas. Esperam o cão ou o gato que fugiu, como costumavam fazer, mas demoraram uns dias a mais para voltar. Esperam o marido voltar com o jantar. Esperam a chefia da família voltar da ida à cidade. Esperam a correspondência e as contas a pagar. Esperam a música certa da bandinha alemã na rádio. Esperam clientela no pacato armazém de letreiro apagado pela poeira e o tempo. Pelo tempo e o vento. Esperam que a duplicação ocorra ou não ocorra. Melhorias para região ou malefícios para suas propriedades?

Pessoas que pedalam bicicletas tentando manter o ritmo entre o deslocamento do horário e o poupar o físico contra o forte calor de janeiro. Pessoas com largas abas em chapéus contra o poderoso sol do estado brasileiro mais castigado pelo buraco na camada de Ozônio, que alguns estudiosos dizem estar finalmente diminuindo. Assim como diminuindo, mais comprovadamente, está a natalidade do Rio Grande do Sul. Pessoas que esperam os ônibus nas paradas. Pessoas com o chimarrão na frente de suas pequenas casas. Pessoas saudosas de bailões fechados, de gente que já morreu. Pessoas saudosas dos filhos que buscaram os maiores centros e visitam cada vez menos nessa corrida vida. Pela dificuldade de liberação do trabalho ou pela falta de saco para encarar essa rodovia de mão única. De mão única com o diabo no inferno.

três e quarenta e dois

três e quarenta e dois
começo a escrever
sem saber
até quando vai
o depois
o depois do escrever
o depois do viver
o depois dos verbos
dos versos que vão
sobreviver

06/01/2018

Outubro em Imagens

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Porto Alegre (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Filosofia (Foto: Henrique König)

Por de Porto Alegre (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Rodovia (Foto: Henrique König)

Smiley (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Morro dos Conventos (Foto: Henrique König)

Torres (Foto: Henrique König)

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

"Com um verso eu faço um grito, com um poema pronto encontro o verdadeiro silêncio."
Pâmela Filipini

02/01/2018

pantanal

quero arrancar-te o grito mais gutural
o prazer que te prende à garganta
o regozijo mais natural
o visceral germinar de uma planta

quero eclodir-te a fluir-te o canal
o terminal que a espera era tanta
afrodite, meu manancial
da matinal à vesperal janta

01/01/2018

Aforismos

  • fazer uma caneca com os dizeres: odeio canecas.
  • posso transformar minha bobeira em insônia e minha insônia em bobeira.
  • escolher marca de cerveja é igual orientação sexual, cada um escolhe o que quiser.

Entre o uniforme e nudez

Acordo cedo e parto em viagem. Sei que é bastante cedo porque não há pessoas acordadas em casa e é assim que me agrada. A escuridão espessa da noite comprime-se agora em tons acinzentados, coloco o que considero essencial corriqueiramente na mochila e tomo meu rumo ao estado vizinho em trajeto percorrido por ônibus.

A viagem era para durar muitas horas, mas aparentemente chego em poucas. Não somente pela impressão que me é passada, mas pelo horário de chegada sendo constatado. Sou recepcionado não sei bem como. Sigo uma caravana em procissão, guiado por quem conhece os caminhos.

Por entre meados de uma zona asfáltica, ingressamos em um prédio absolutamente moderno, com uma arquitetura interessante, formatos distintos nas sacadas, fazendo cada andar assemelhar-se a um iate. Na entrada do prédio, um dispositivo automático libera a passagem da catraca para as pessoas através de um cartão magnético. As demais pessoas, por ali morarem ou estarem acostumadas a visitar, possuem o cartão. Eu, visitante de primeira viagem a esse destino, não possuo. Os olhares de quem passou sem dificuldades voltam-se para trás em impaciência à minha demora. Não sem antes eu tentar pechinchar meu ingresso com a mulher fiscalizadora da portaria, finalmente a moradora do prédio libera a minha entrada.

Ao caminhar por entre os corredores internos, em direção à subida até o iate, digo, até o andar derradeiro, percebo que estou usando apenas uma bermuda e estou sem camisa, como se recém houvesse acordado, como as horas anteriores à viagem em que levantava cedo e preparava-me para aventura. Em um dia de verão, obviamente. Ao caminhar, constato que é possível estar perdendo as bermudas utilizadas. Mais passos adiante e visto na verdade um pequeno calção cinza, reconhecido por mim como um pijama. Não me apavoraria recordar que somente uma cueca me separaria da nudez em momentos posteriores.

Questionado pela minha aproximação com a nudez, embora minha mente já se recolhesse à vergonha de estar assim, realmente começo a perguntar-me pelos meus pertences. Despojado da presença de mais roupas, noto de minha posse somente uma conhecida e pequena mochila vazia. Acerco-me do desespero por estar em uma cidade distante, exposto ao ridículo e sem grandes possibilidades de sair dessa situação.

A caravana de acompanhantes era composta por mulheres, as quais, após me dirigirem o olhar de reprovação pela demora em liberarem a minha entrada no dispositivo de catraca do cartão magnético, comentavam umas com as outras ao considerarem a procissão como "um veleiro", em referência às velas que poderiam ser acesas caso me unisse nos deleites íntimos com a moradora do prédio, minha convidadora, anfitriã e potencial agraciante e agraciada nisso tudo.

Mas de volta ao drama da situação matinal, em meio ao turvo mar desesperador, não encontro saídas desse vexame. Onde estão minhas roupas e dinheiro? Surge entre as pessoas um rapaz que eu logo assimilo como uma possibilidade. Precipitadamente afirmo que esqueci os pertences em seu carro na vinda para cá. Ele me confirma com um olhar duro de "porra, agora temos que ir lá pegar suas tralhas", seja lá onde estava o carro.

De certa forma resplandece um alívio multiplicado, que parte inicialmente de recuperar meus pertences e possibilidades de estadia, com a obrigatoriedade de portar roupas e dinheiro; em seguida, alívio de deixar a caravana de olhares inquisidores e concentrar somente que o cara me ajude. Despeço-me da moça com um até breve, na esperança de voltar o mais rápido possível para continuar os planos, seja qual forem.

Coberto pela sombra dicotômica que anuncia: estás com a melhor ou com nenhuma.

28/12/2017

Um dia depois

Um dia depois, depois do Natal. É 26 de dezembro. Fui trabalhar normalmente como nas outras terças-feiras de rádio. Aproveitei a descida da chefe para tomarmos o elevador juntos. Elevadores fechados que talvez um dia tragam-me claustrofobia. Trabalho com possibilidades.

Ao sair do prédio, onde ocupamos recentemente o 12º andar, um acima do alcance do elevador, caminhamos pelo calor devastador da rua em pleno meio da tarde. O asfalto que reflete tudo o que há de ruim nesse horário e época do ano. Converso e concordo com a chefe sobre trânsito, o desrespeito dos veículos aos pedestres. Fico contente pelo posicionamento dela em relação a isso. É de se esperar que muitos em sua posição de empregadora discordem ou deem razão aos escondidos por trás do insufilm, do emplacamento e das rodas que podem atropelar.

É apenas o fato de falarmos sobre isso que presenciamos um carro escuro que não respeita os pedestres no que poderia ser uma travessia tranquila enquanto vem outros veículos pela rua perpendicular. É apenas o fato de continuarmos a falar sobre isso que um ciclista chega contornando pedestres sobre a calçada, sendo que havia mais espaço ao canto da rua ou da própria calçada para efetuar suas manobras.

O maior chamado de minha atenção nesta caminhada foi observar as pessoas, a grande multidão. Uma multidão menor do que em datas anteriores ao Natal. A maioria da classe média econômica comprou e serviu presentes e ceia entre a véspera e a data considerada o aniversário de Jesus Cristo. A maioria desgastou, usou e abusou do mau humor para encontrar os presentes obrigatórios nos dias anteriores. Presenciou a correria, a comparação de preços, a alta dos preços, os preços elevados dos brinquedos, a gritaria, o show de ofertas, o show de mentiras, as luzes brilhantes, o comércio estendido até mais tarde, para dar tempo do funcionário do turno mais cedo comprar na barulhenta noite, para dar tempo ao funcionário do turno mais tarde ter comprado mais cedo, para haver empregos temporários nessa época e para endossar a tese econômica de que o país vai se recuperando.

Enquanto isso, dias de tiroteio pela cidade, o centésimo homicídio chocando mais por ser o centésimo do que os motivos e execuções dos números 17, 58 ou o 92, por exemplo. Mas a economia teve uma crescente (será?), isso é importante. A televisão divulgava no início do mês a observação de que as pessoas pretendiam gastar tantos porcento a mais em presentes neste final de ano. Quem consulta, pesquisa ou fornece esses dados? E se forem somente uma pressão social para te fazer gastar um pouco mais do que havia planejado? E se o presente de Natal muitas vezes for somente uma obrigação de troca, quando não há ideia do que comprar? Quando não há dinheiro, naquele momento, para ser investido? E o 13º salário justamente nessa época, no ocupacional e ocupante Natal do simbólico décimo terceiro mês do ano?

Mas o semblante das pessoas, um dia após o apavorante Natal, era muito mais tranquilo. Havia menos disputa por espaço nas calçadas a céu aberto. A maior disputa era por caminhar o máximo possível de tempo no caminho da sombra. Não havia a concorrência por olhar roupas, por ter a atenção dos vendedores ou por entrar na fila do caixa eletrônico o quanto antes. Não havia mais essa luta que antecedia ao espírito natalino das redes sociais das ceias. Ceias do prato cheio da falsidade dessa época. Espírito natalino que dura menos do que a bateria das luzinhas das noites de dezembro [que são feitas para estragar, como bem sabemos]. Espírito que dura menos do que a iluminação da principal praça, feita somente para o objetivo de agradar às famílias na época. Esquecida em constante insegurança nos demais meses.

A grande observação foi a inversão de datas. A época do ano que antecede o Natal é seguidamente apontada como a de união, de refazer laços, de unir pessoas entre familiares e amigos. Mas o panorama capitalista do mundo das compras mostrou-me o contrário. Antes da entrega dos presentes, na luta incessante por adquiri-los, do estresse da escolha, do enfrentamento e da concorrência nas compras, na discussão da tabela de preços até o ato final de embrulhá-los, cabia o semblante mais fechado e tenso. Após a entrega desses compromissos, ao dia seguinte, o mencionado dia 26, o alívio nas pessoas era evidente. Menos sacolas que cansavam ombros e braços. Menos disputa de espaço nas lojas abarrotadas e no calor do cão que era multiplicado pela multiplicação de presenças de objetivos semelhantes. O dia 26 foi mais ameno, apesar do calor prosseguidor. Alguns pequenos estresses mais facilmente conduzidos no sentido de trocar aquela roupa que não caiu muito bem ou ficou grande ou ficou pequena, por culpa do ano todo e não somente da ceia.

É isso. Um Feliz pós-Natal a todos e todas.

19/12/2017

Capital-Ismo

Me sinto culpado pelo que tenho
E pelo que não tenho
Me sinto culpado pelo que quero ter
E pelo que os outros querem
E eu tenho
O capital
É o maior ismo
Professado
Processado
Jamais cessado

17/12/2017

Marcação Cerrada

Fui comer um torrone e fiquei com fome. Comi dois torrones e fiquei cheio, enjoado. As sutilidades das fronteiras do equilíbrio.

Fui fechar a porta do carro alheio e só encostei. Fui tentar novamente e bati forte demais para o dono não gostar.

Procurei informações suas e fui chamado de maníaco. Não procurei informações suas e fui chamado de desinteressado.


Fiz um roteiro para o programa e fui chamado de muito técnico, muito quadrado, pouco descontraído. Não fiz um roteiro para o programa e me chamaram de pouco comprometido, descompromissado.

Dei aula até o horário estabelecido e os alunos acharam careta. Liberei os alunos mais cedo e a direção não gostou.

Arrumei um emprego horrível e disseram que estou me vendendo ao sistema. Sonho com aplicações utópicas e dizem que preciso de um emprego de verdade.

Estudo uma área que gosto, mas querem que eu arrume algo que dá sustento. Estudo uma área que não gosto e dá sustento, mas dizem que preciso procurar o bem estar ao trabalho.
Leio muito, mas dizem que preciso de experiências reais. Leio pouco e dizem que preciso de mais cultura.


Chego cedo e dizem que sou muito rígido com horários. Chego um pouco tarde e acham um absurdo se atrasar nesses compromissos.

Chego cedo e não sei matar tempo ou agir com a naturalidade que esperam. Chego tarde e cobram pela minha falta de comprometimento.

Tenho apreço por você, mas você não gosta de mim. Você tem apreço por mim, mas não gosto de você.

Torço moderadamente por um time, se gabam por serem mais fanáticos do que eu. Torço fanaticamente por um time. Dizem que preciso ser mais contido e moderado.

Não faço. Reclamam que não fiz. Faço. Reclamam que não era assim.

Escreva agora. Ah, mas te falta experiência. Não escreva agora. Ah, mas estás perdendo tempo.

Exigem experiência, mas não tenho o emprego que dá experiência. Exigem o emprego, mas não tenho a experiência do emprego.

A mais clássica: tenho saúde, tenho tempo, não tenho dinheiro.
tenho saúde, tenho dinheiro, não tenho tempo.
tenho dinheiro, tenho tempo e não tenho mais saúde.


Futebol com os amigos. Chuta a gol fraco. “Mas tu não quer ganhar o jogo assim?!”. Chuta a gol forte. “Mas pra quê essa força, é só um jogo!”.

Se exibe com o objeto, produto, eletroeletrônico que tem. “Bem coisa de rico.” Não tem, não se exibe com o objeto, produto, eletroeletrônico que não tem. “Bem coisa de pobre.”

É eclético. “Ouve essas coisas que nem são música.” Não é eclético. “Devia ouvir coisas diferentes.”

Te chamo todos os dias. “Muito meloso, grudento.” Não te chamo todos os dias. “Desinteressado, não gosta de mim.”

10/12/2017

A caneta bic e rosa

Era uma caneta bic e rosa. Nada diferente de outras canetas. Canetas bic e rosas. Mas era uma caneta especial. E uma moça especial para tornar a caneta especial. Além de ser bic e rosa.

São raros os seres que conseguem terminar um lápis. Escrever com ele até a última apontada, até o último desapontamento. Até que o espaço para manuseio seja tão estreito que a caligrafia se torna uma missão praticamente impossível e, no mínimo, indelicada, dispendiosa, incômoda. Assim, o lápis se despede, aposentado de sua única, ou ao menos principal função. Geralmente, muito antes disso, muitas pontas refeitas a menos, os lápis desaparecem. Frutos da perdição. Perdidos entre vãos e chão. E vãos do chão.

Lá virão os invocadores do francês Guy Debord e a substituição malévola das mercadorias. Lá virão os invocadores do polonês Zygmunt Bauman e os apontamentos dos tempos líquidos que eram vividos e observados por ele antes de seu recente falecimento. A substituição dos lápis. A substituição das canetas. São tantos os lápis que talvez merecessem um plural. Os lápises. Mortos sem lápides. Ou talvez não mereçam mesmo um plural, pois são todos tão iguais, uns mais iguais que os outros.

Mas e a caneta rosa? Bic e rosa. A caneta era especial. Não somente pelas mãos especiais que a tocavam ou as palavras especiais que dessas ações saíam. Ou quem sabe exatamente por isso. A caneta percebia a magia em mãos, literalmente, e aceitou-se como enviada especial. Como enviada divina. A caneta anunciada pelos anjos. A caneta - bic e rosa - de fidelidade e confiança.

A caneta que não aceitava novos donos. A caneta que ameaçava tornar-se indigente. Perdida. Procurada e ainda perdida. Mas que voltava, fiel como um cão que sai de casa e reencontra os donos. Como um gato que vai e regressa; e vai e regressa. Domesticada a caneta. Precisa a caneta. Precisa seja pela precisão de sua missão ou pela necessidade que nela era depositada.

A caneta bic e rosa pulava de bolsos e bolsas. Escondia-se. Era brincalhona ou teimosa. Ou somente era introspectiva. Tanto tempo dedicado às palavras de sua dona. Queria ela, a caneta, um tempo para pensar em suas próprias palavras. Essas que não saem do papel. Essas palavras que somente as canetas pensam. Seja lá o que pensam.

E a caneta dava um jeito de fugir. E dava um jeito de voltar. Entre os vãos e o chão. E os vãos do chão. Mesmo quando a esperança de reencontrá-la fugia, a caneta dava um jeito e reaparecia. Mágica como elucidado antes.

Energias recarregadas. Funcional como antes. Talvez a caneta tirasse suas folgas sem avisar apenas para restabelecer as energias, para não trabalhar preguiçosa, não travar a tinta. A tinta rosa da caneta bic.

E teve uma longa vida a caneta. Bastante viajou. Entre bolsos, bolsas, estojos e cidades. Experimentou diferentes papeis e superfícies para espalhar sua conduzida tinta rosa. Humilde e minúsculas letras. Grandiosas mensagens. E escreveu provas, notas e cartas.

E só não escreveu só porque, desde o início, aceitou sua missão. Com devoção, apreço, estima e consideração. A rebeldia domada servia apenas para dar um tempo, descansar como todos os trabalhadores e trabalhadoras devem, após suas jornadas. Ciente de que bem realizou seu trabalho.

E realizou até o último afago. Quando melancolicamente a tinta tossiu, tossiu e engasgou. As últimas letras fraquejadas, legíveis a quem escreveu e talvez impotentes demais aos demais leitores. Assim se despedia a caneta rosa. Bic e rosa.

Diferente dos lápis sem plural e sem lápides, esta merecia todo um cerimonial. Receberia os rituais respeitosos das mais distintas religiosidades antes da condução celestial das primeiras mãos diferentes que a tocavam, as mãos angelicais que a conduziam ao paraíso ou para onde quer que seja.

O seu coração, a sua carga tivera a parada e o cessar definitivos. Porém o tubo ainda estava intacto e poderia ser adaptado, reaproveitado, reciclado, reutilizado, em renascença. Nessa espécie de doação de órgãos autorizada por sua dona, a caneta bic e rosa permanecia a contar histórias. Readaptada, recarregada, reabastecida. Ainda fugidia e rebelde, mas reaparecida como sugeria a lenda. A lenda da caneta bic e rosa.

04/12/2017

"A morte não é o oposto da vida, mas um acontecimento complementar que a define. O homem, como vida, é um ser para a morte. Refletir sobre esta é lançar luz sobre o viver e a natureza íntima das coisas, do mundo em geral como reflexo especular da Vontade, mero ímpeto cego para a existência. Daí poder-se dizer: a morte é a "musa" da filosofia. "dificilmente se teria filosofado" sem ela. Se o animal frui imediatamente toda a imortalidade da espécie, sem qualquer angústia diante do futuro, no homem nasceu, com a faculdade racional que o animal não possui, a certeza amedrontadora da mortalidade."
Jair Barboza (1997) sobre Metafísica do Amor, Metafísica da Morte de Arthur Schopenhauer
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam
cantemos a canção das chamas!
(Mario Quintana)
"Sim, afligia muito querer e não ter. Ou não querer e ter. Ou não querer e não ter. Ou querer e ter. Ou qualquer outra dessas combinações entre os quereres e os teres de cada um, afligia tanto."
(Caio Fernando Abreu)

ouro

o tempo corrido
atrás do ouro
o ouro louro
sua tez ouro
o tempo corroído
o ouro derretido
sua alteza
da tez ouro

19/11/2017

livros

alguns títulos de livros que pensei, algum dia, em escrever algum dia 

  • a difícil missão de colocar um sorriso entre as suíças
  • o empírico de um homem incompletamente idiota
  • masturbação mental no banho
  • o sono embriaga?
  • catarros e catarses
  • todo dia interpretando máscaras, nenhum dia com bhaskara
  • o esquimó esquisito
  • vai te catarse
  • pecuarista das peculiaridades
  • não existe agricultor de uma noite

com trastes

A timeline das redes sociais é uma situação inexplicável. Nada comparável nos tempos anteriores e a cada novo dia, novidades. Ampliam-se os vídeos, as fotografias, as confusões. Os posts dos assuntos mais variados possíveis das pessoas mais variadas possíveis, com os posicionamentos e os dizeres mais variados possíveis. Do veterinário, da estudante, mulher reconhecidamente feminista, do esportista, da esportista, dos jornalistas, dos críticos ao jornalismo, dos jornalistas críticos ao jornalismo, das artistas, do que pensa que um político só vai salvar o país, de quem acredita nos coletivos, daquela tia que só quer compartilhar as imagens dos animaizinhos e das plantinhas... Enfim.
Nascem estas linhas através de uma curiosa coincidência, ou mais uma montagem tecnológica previamente programada. Mas eles (nem sempre) passam despercebidos por mim. Enquanto um post vocifera violentamente que temos um país onde é mais importante gritar gol do que reclamar uma injustiça, com a legenda aqui copiada: "Um país de COVARDES, OMISSOS e ALIENADOS onde encher um estádio é mais importante do que encher as ruas para derrubar este sistema falido e corrupto". 
Abaixo, uma postagem em outro caráter, bem mais leve. A manchete é a seguinte: "Por que um estádio inteiro acena para um hospital infantil durante seus jogos". Isso indica a participação do público e dos jogadores em prol desse hospital infantil em jogos de futebol americano realizados em uma cidade dos Estados Unidos.
A diferença entre o primeiro agressivo post e o segundo eram de três postagens entre elas. Me chamou bastante atenção. A discussão sobre covardia, omissão e alienação baseada somente no esporte é bastante oportunista. Aqui, nem há porque tecer o argumento baseado que o esporte é capacitador de grandes transformações sociais na vida de muita gente. Obviamente é. Ao mesmo tempo, talvez a vociferação e a crítica do post seja exatamente pela forma como o esporte-espetáculo, no mais alto rendimento, cega parte da população para tantos outros problemas e por tanto tempo de suas vidas, em um grau de relevância suprema.
Para além da ferramenta do esporte-espetáculo poder gerar tantos "covardes, omissões e alienados" (sem mais necessidade de caixa alta como estava no post, porque aqui ninguém é surdo), tantas outras ferramentas poderiam ser ingressadas nessa análise. A televisão constitui suas grades basicamente nas programações empreendedoras, nos sonhos realizados no assistencialismo, shows e espetáculos, shows e espetáculos. Tem muita gente se queimando na fogueira e muito pouca gente se dando muito bem, traz a música Tribos e Tribunais dos Engenheiros do Hawaii. Pois há muita gente queimando nas fogueiras e muito pouca gente ganhando programações da televisão e iludindo milhões de pessoas com os mesmos sonhos e expectativas grandiloquentes, completamente fora de suas realidades do dia a dia.
É verdade que as ilusões do esporte-espetáculo também estejam presentes e entende-se que nele existe a segregação de quem o acompanha ou não o acompanha, nas condições de acesso, ingresso e compras de programas pay-per-view. Assim como são moldadas as formas mais elitistas de cultura nas grandes cidades.
Escrachar o exemplo esportivo como o negativo ou talvez a causa das (mais uma vez) covardias, omissões e alienações, é uma crítica bastante limitada. A própria produção jornalística conservadora contribui nisso. Eles querem que o povo escolha os alvos de suas revoltas pela situação do país, mas somente alvos indicados por eles. Nada que mude o panorama completo das situações.
Vociferar contra um político ou partido político. Vociferar contra um caso de invenção de pedofilia e nem sequer dar bola para outros casos muito mais reais e acostumados a serem tratados como corriqueiros. Vociferar contra um único jornalista ao atacá-lo como racista e não enxergar a situação geral do racismo no país, persistente e tantas vezes velado no dia a dia das produções jornalísticas, nos assuntos abordados. Acusar que um ou outro negro, uma ou outra negra artista, celebridade, use seu espaço midiático para promover o que eles chamam de vitimização, mas não entender a causa, a representatividade, as estatísticas.
Vociferar contra um esporte, contra um jogo, sem entender o contexto das demais formas de transmitir espetáculo, sem entender a positividade que o próprio evento possa causar. Como o apoio, a retribuição em gestos e, tão logo, financeira ao hospital infantil ali citado.

14/11/2017

embora

3 horas e doze
já fosse?
onde agora estou
já foi?
embora a dose
de quem tomou
embora a dor de
quem sentiu

pesando

estive pensando
pensando em ti
vi-me pensando
atrevi-me
pensando
através
da vitrine
dos meus
memorandos
estive
em ti...
pensando

detalhes

meu amor
tudo é por detalhe
por que ouvidos
se não te cales
por que pernas
si no hay calles
por que penas
se não voares?

siempre lo mismo

eu escrevo
preso às amarras
às falas do jornalismo
preso às taras
do consumismo
preso ao emprego
que quiere
siempre lo mismo

Lembranças confundidas, confusões lembradas

Chegou como um raio ao cortar a conversa. Eu me afastei do pessoal com quem havia chegado anteriormente e conversava com outras pessoas. E o ser alcoolizado se fez presente, tomando conta do assunto. Àquela hora da madrugada é comum que aconteçam tais episódios, incomuns para as horas de sol ou para os primeiros momentos da noite. Um homem moreno, cabelo raspado, mais velho do que nós. Dos 30 aos 40 anos, qualquer idade poderia ser a dele. Em algum instante ele confessou seu nome, porém, com crise memorial que torna a minha pior do que supostamente a dele, não sei aqui reproduzir a escolha publicada em sua certidão de nascimento.

Chegou tomando conta e se anunciando. Minto. Chegou reconhecendo minha pessoa. Eu sem reconhecer a dele. "Eu te conheço!", exclamação e alarde. Chamou a atenção dos que estavam próximos. Fez meu cérebro dar voltas em busca das memórias que poderiam ser reais daquele personagem. Não as encontrei. Não estávamos sintonizados na mesma frequência.

Perguntou onde eu morava. Indiquei meu bairro Areal. "Mas onde tu estuda?". Estudei naquele mesmo bairro Porto. Meus quatro anos de curso, de graduação. "E qual ônibus tu pegava?". Tinha o da igreja batizada popularmente como cabeluda, a Catedral do Redentor, no nome oficial, rua 15 de Novembro, no Centro. Mas ele insistiu que eu utilizava mais o Benjamin Cohabpel. E de fato utilizei algumas escassas vezes em que subia no início da Andrade Neves, para subir ao Centro e posteriormente ao Porto.

Foi então que devolvi as interrogações para ele. Revelou ser cobrador de ônibus. Revelou mais do que perguntei, como é comum aos seres boêmios. Como é comum aos seres fora de seus ambientes de trabalho, livres da retaliação das regras, das normas de conduta, da fiscalização opressora, das medidas que o enquadram. Revelou que lembrava de mim dessas ocasiões. Falou em salário e concordamos - todos, contando com o amigo que permanecia fiel à espera de retomarmos nosso papo, em meio ao inicialmente importuno do espalhafatoso sujeito - que muitas pessoas formadas na Universidade ou com outras formações não atingiam tais empregos hoje em dia. A situação do país realmente é degradante e deprimente. Ampliam-se os moradores de rua nos caminhos por onde caminho, quando ignoro as paradas de ônibus e resolvo andar pelas ruas.

Tive que me despedir dele logo depois, para não perder a perigosa caminhada da madrugada com as pessoas com as quais cheguei. Cuidado redobrado aos assaltos daquele horário. Nem todos são cobradores de ônibus. Nem todos são honestos. Nem todos aceitam as condições trabalhistas do dia a dia. Quantas vezes será que o ônibus dele já foi assaltado? Naquele mesmo domingo que vinha adjunto à noite de sábado, a tarifa do transporte público na cidade subiu para 3 reais com 35 centavos. Centavos que jamais me acompanham no bolso. Assim, eu incomodo os cobradores em busca de troco. Talvez por isso lembrem de mim.

A situação do país é dolorosa a seus habitantes e obriga muitos (quem sabe também àquele sujeito?) a beber.

12/11/2017

Lixo e Purpurina - Caio Fernando Abreu

31 de janeiro

“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.

Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”

Trecho do livro Ovelhas Negras. L&PM Pocket.

11/11/2017

Piscinas e Bonés

Um sujeito, meia idade, maletas em mão. Ele conserta piscinas. Conserta consertos. Deve consertar muita coisa. Dessa vez veio verificar os encanamentos da piscina, evitar vazamentos, liberar o fluxo ligado ao motor. Mas será que ele toma banho em piscinas? Obviamente que os que pagam pelo serviço não o convidam. É apenas uma prestação de serviços. Não é uma amizade. Mas será que ele tem piscina na casa dele?

Traz o filho para ajudar. Um garoto. Garoto novo. Boné para frente. Maletinhas nas mãos. Disposto a ajudar. Acostumado assim. Olhar prestativo. Boné para frente, nada de aba reta (ainda). Não para trás (ainda). Como será seu futuro? Força nos estudos? Estudar para ir onde? Vai consertar piscinas? Vai ter uma piscina quando crescer e tiver seu emprego com carteira de trabalho? Acostumado a ver piscinas desde pequeno, eu gostaria de uma piscina.

Piscinas dão trabalho. Troca de água, motor, limpeza. Cloro, retirar insetos, folhas. Encanamentos. Consertos. Verão. O verão gaúcho é curto. Três meses se der sorte. Às vezes com noites frias que afugentam o calor para água da piscina no dia seguinte. Uns dias de piscina antes do Natal. Janeiro sempre funciona, mas se tu quiseres tirar uns dias de férias em outra cidade, em uma praia, perde os melhores dias da piscina. A piscina ali. Aprisionada. Aprisionando. A piscina ali. Do conserto do senhor de meia idade e seu provável filho.

O verão é curto. Fevereiro é um mês mais curto. Quando vê já passou. E recomeço a caminhada do demorado outono. Com a piscina ali. Esquecida. Mas exigindo trabalho. Como uma filha. Como um bicho de estimação. Trocar água, motor, limpeza, cloro. Não deixar os mosquitos ou outros insetos tomarem conta.

Qual será o futuro do garoto? Nem me questiono em relação a ter ou não ter uma piscina. São belas, sim, as piscinas. Para alguns dias, sobretudo nas nossas condições climáticas. Subtropicália. Mas qual o seu futuro no mundo? Até onde, até quando vai esse olhar de acompanhamento ao pai. Trabalhar. Acompanhá-lo no trabalho. Desbravar o mundo. Querer ser dono de seu destino. Tarefa difícil.

Talvez se acostume desde cedo. Nesse ritmo. Ensinado pelo pai. Trabalho. Ferramentas. Trabalho. Transporte até chegar às casas. Realizar os consertos. Grana. Guardar direitinho no bolso. Um refrigerante, um suco gelado. Ah, isso é vida. Poupar. Guardar para uma nova ocasião. Calcular. Contas a pagar. Desvios.

Atalhos que parecem bons. Cuidado. Me parece um bom rapaz, o pai. Mas quem pode saber? Várias variáveis. Várias teorias. Por agora, é esperar a cola secar. Parece estar pronto. A piscina está ok. Quanto lhe devo? Ok. Um bom verão a vocês. Pra vocês também. Guarda direitinho no bolso. Que tal um refrigerante, um suco gelado? Isso é vida. Ia dar uns cascudos no seu cabelo. Está de boné. Não de aba reta (ainda). Nem virado para trás (ainda). No rumo certo (espero).

10/11/2017

toc toc

toc toc
- quem é?
- sou eu
- e o que quer?
- um poema
- à essa hora?
- é problema?
- e se for?
- aí passa a ser meu
- o problema?
- o poema

Como vai?

Colocar a arma contra o céu da boca e puxar o gatilho é uma péssima ideia.

Péssima ideia com quem vai limpar depois.

Há outras formas mais limpas e menos trabalhosas para quem vier à cena depois.

A bem da verdade, existem seis mil formas de morrer. Bem mais. Bem mais.

Escolher uma especificamente para o momento derradeiro é muita vaidade.

Se Deus domina todos os momentos e destinos, então pode ser somente um sujeito sádico a encontrar meios de moldar o nosso fim da linha.

E, assim sendo ou não, que Deus me perdoe por brincar jocoso com essas brincadeiras de vida e morte.

09/11/2017

Gado

A população toda como um grande rebanho. Gado. Gado por toda parte. O ser humano é a única forma de gado que se preocupa com o próprio umbigo. Desculpem minha grosseria. Como vão vocês? Vão bem? Que bom. O ser humano é a única forma de gado que se preocupa com o próprio umbigo, enquanto as formas originais de gado, que nos emprestam nome à metáfora, apenas ruminam e cagam o capim nesse ciclo.

Alguns dos gados são melhores do que os outros. Ao serem melhores, estão preocupados em conservarem-se melhores do que os outros. Estão preocupados com sua imagem e semelhança. Gados que não se ajudam e nem vão se ajudar. Não há esperança de deixar de serem gado. Livres e do outro lado do cercado, que diabos além de gado poderão ser?

As mudanças da composição do país nos últimos três anos são absolutamente ridículas. Me surpreendam ao encontrarem a esperança nos confins das prateleiras distantes. Tragam-me. Tragam-me a esperança e irei verificar o prazo de validade.

04/11/2017

Coincividas

Concordar com meus escritores sem tê-los lido - ou ao ler - me traz uma paz e uma saciabilidade momentâneas.