10/04/2015

Pessoas e Pessoas

Há muitas pessoas em que as conversas são como o árduo esforço para arrancar o capim das calçadas úmidas.
Mas, felizmente, há pessoas que geram belas conversas, e dão-me a sensação de um mergulhador a explorar profundos oceanos.
Te quero em um abraço. Um abraço como a quem empresta um casaco no frio, sem se preocupar com devolução.
 
Como se insistisse para que o usasse mais, para ter seu aroma entre as malhas do tecido
http://visaonacional.com.br/wp-content/uploads/2014/06/tartaruga-mergulhador.jpg

07/04/2015

You Are All

O que eu poderia querer mais de você?
Nada. O meu querer é que sejas o tudo que és.
O que eu poderia querer mais do que te ver?
Nada. Esvaziaria todo o depósito da minha fé.


06/04/2015

Horta dos Gozos

Minha mente é fértil
Para plantar os frutos que você goza
Através das suas semeadas
Sob um sol poente, céu cor de rosa

03/04/2015

Cãoindo

Às vezes tenho um jeito
De cão caído da mudança
Não sei se me faço de vítima
Ou realmente sou nessas andanças


http://www.anuariocaes.com.br/images/upload/andar-de-carro-com-o-cachorro.jpg

Onde fui, eu errei.

02/04/2015

Ânsia

Há distância
E a ânsia
Que tanto lança-se
Sobre mim
Como insistência

Que minhas palavras
Acariciem-te
Beijem-te
Como sinal
De minha
Benevolência

Há distância
E, sim, há desejo
Há esperança
Que um dia
Um belo dia
Sejas meu cortejo


_________________________________________________________________


A ânsia é como uma onda no mar
Parece longe, dança dócil
Mansa e espumosa
De repente, tumultuosa
Sonda que em mim vem pousar


27/03/2015

Tato nas Teclas

Quero molhar com saliva
O dizer das últimas palavras

Abafadas e absorvidas
Pelas meias horas da madrugada

A galopes os ponteiros troteiam
E os loucos em um tiroteio
De tirar palavras com alguma lucidez
Mas a cobertura e o recheio
São de pura e doce loucura

E molho minhas palavras
Como molharia na saliva a pena
E molho minhas madrugadas
Em tua pele suave, morena

E busco no tato
Só tenho o tato das teclas
E busco o contato
Com o tanto de metas
E busco o contrato
Com o tato nas teclas
Queria seu touchscreen ativado
Queria seu touchscreen atiçado
 

20/03/2015

Semanas Ensacadas

Sexta-feira. Um pessoal faz hora, na espera pelo "anúncio oficial" do fim de semana. Enquanto isso, pelo centro, saio com o objetivo de me desfazer das franjas e do cabelo que, de tão comprido que deixei dessa vez, já nem sabe mais como e para onde crescer. Os fios capilares copiaram o dono e se sentiram indecisos e perdidos na jornada do amadurecimento ombro abaixo.

De forma inédita, corto em novo endereço, recomendado pela minha tia, que vai cortar também o dela, dali uns 20 minutos, conforme hora marcada. Outra vez procurei o local, indicado pela rua tal entre a rua X e a rua Y e não encontrei. Acompanhado dela pela quadra, dessa vez ela me aponta com exatidão. Me despeço dela, com outros afazeres corriqueiros antes do horário reservado a ela.

Converso com o cortante desde a lavagem sobre o futebol e o Farroupilha, clube que ele, como muitos pelotenses são, revela admiração e respeito. Sempre curto ouvir isso do próximo, embora fosse muito mais confortante ouvir do outro lado expressões de torcedor fiel e aficionado, como são poucos o do Grêmio Atlético onde faço estágio.


Pelos papos, vão e vem nomes do folclórico futebol pelotense. De boêmios a gênios e vice-versa, pelos bastidores, dos quais arrancamos algum background information. Quanto ao cabelo, ele pede minha opinião, eu o aconselho e saio satisfeito pelo corte, em 20 dilmas de preço.

Aliás, bom ou ruim não termos falado de política? As forças andam antagônicas nesses papos. Pró-governo é petralha, anti-governo é coxinha, bradam os enfiadores de certeza pela goela. Sabemos que não há resumo tão fácil de explicar e contextualizar. Mais cedo, li que o congresso nacional (culpa da Dilma, companheiro?) pretende reduzir a maioridade penal. Solução de jogar para baixo do tapete os problemas de formação de jovens infratores em periferias. Socá-los em presídios é mais viável para uma bancada conservadora e umbiguista, como a que temos. Aquela mesma que aumenta o salário sempre como a convém. Gente, descentralizem o problema político brasileira da figura da sra. Rousseff e depois conversamos, ok?

Por fim, saio de lá com 20 pila a menos e o desejo de abastecer minha quase nula (mas iniciada) coleção de camisas de bandas. Vou ao local certo e encontro meu sonho da passagem anterior. "And Justice for All", ilustração de estampa da capa do álbum do Metallica, o único que possuo da banda. Pelo som mais do que gabaritado e pela estampa com mensagem também social, levo a camisa ensacada na sacola. Ensacolada existe?

Com a justiça para todos ainda ensacada, a gente vê e sente coisa errada nos passos a seguir até em casa. A sirene de ambulância corta o trânsito e o veículo passa em alta velocidade na avenida principal. Mais adiante, um rapaz de pele negra enche um saco com mais do que o dobro de seu corpo, ao procurar conteúdo reciclável em um contêiner de lixo.

Cruzo por um hospital, que habitualmente reparo, mas hoje não. Possivelmente seriam mais exemplos de onde quero chegar (neste texto). E assim se estende a caminhada por entre gente em trabalhos pesados e gente acomodada em cadeiras de praia na tarde findando. Gente com carro do ano e gente com transportes do tempo do show de meu recém adquirido dvd de Elton John na União Soviética (1979).

Entre os sorrisos e chimarrões da avenida Dom Joaquim e os buracos e desníveis nas calçadas - quando há calçadas - no meu bairro Areal. Mesmo ao chegar em casa e mostrar contente a minha nova camiseta, a sensação é de que a "Justiça para Todos" segue ensacada.

05/03/2015

Vida de Gado - Povo Marcado - Povo Feliz

Cá estou no meio de mais uma madrugada, completamente desinteressado pela vida. Acúmulo de derrotas disfarçadas nos últimos tempos. São tumores alojados na alma esperando pela ação benéfica do relógio. Receita minha, na ausência de remédios. Fisicamente, somam-se algumas picadas de mosquito nas pernas, referentes ao bar em frente ao campus pelo voltar das aulas.
 
A primeira semana de março começa pouco agradável, na tentativa em eufemismo de explicar o momento. Preciso realmente de espaço e já não o tenho, rodeado pelas cercas pontiagudas da rotina. A instabilidade me percorre os passos, envolvidos de muitas incertezas e a nada posso confiar de maneira estável. Já pensei a respeito de coisas que parecem naturais no cotidiano de outras pessoas parecerem alguma prática de tortura para mim. Realmente são pesares carregados em forma de uma densa e imensa cruz no dia a dia.
 
O peso da existência. A angústia na pesarosa passagem. Dias longos cortados por noites mal dormidas. Noites mal dormidas alimentadoras de mau humor, preguiça, falta de memória e péssimo desempenho no que me obrigo a desempenhar. Não sei mais onde vou parar. A incerteza poderia ser uma benção por ser surpreendido, mas são trevas onde assustadoramente desconhecemos o degrau do próximo passo.
 
A curto prazo, a semana passa da metade e se encaminha a um final. Um final pouco desejado e de poucas expectativas. Final que, na verdade, é ligado a outro início: cíclico. Nem o carpe diem e nem grandes planejamentos me atraem momentaneamente. Pode ser, e espero ser, passageira a tal náusea formadora do sentimento atual. Após este breve desabafo, espero encontrar-me com o sono, mas sem ainda definir minha última atividade antes do repouso de mais um ciclo diário completo. Me sinto bastante incompleto.
 
Tá faltando peça no quebra-cabeça. Não sei se são pedras de bingo que não vão ser cantadas novamente. Não sei se são horizontes inalcançáveis. E, nesta improvisada reflexão, é bem possível que sejam inalcançáveis. Tudo bem, mais um dia. Ou menos um dia.

Queria atravessar as madrugadas como o povo gado. Povo marcado, mas povo feliz. Poeta Zé Ramalho, pessoas.
 

28/02/2015

Mordidas no Veneno

Ainda não sei lidar
Não sei lhe dar
O que você quer
O que eu quero
O que nós queremos
 
Ainda não sei lidar
Não sei lhe dar
O momento à altura
Daquela lembrança
Que não esquecemos
 
Ainda não sei livrar
Nem lavrar
A terra que temos
Não sei se a vendo
Ou fico a vendo
Enquanto o tempo me deixar
 
Ainda não sei levar
Nem louvar
A vida que temos
Tanta praga e inseticida
Tantas mordidas no veneno
 
Ainda não sei ligar
Os pontos distantes
Para o mesmo instante
Ser o que escolhemos
 
Sei que meus planos
E minhas ações
Não foram os melhores
Nesses anos de plantações
Mas ainda acredito
Haver algo para colhermos

27/02/2015

Fardas e Pijamas Listrados

A humanidade. A repressão e a dominação contra classes e sobre povos. Sobre gente como a gente, do outro lado do muro ou da grade. Somos tachados com CH, somos taxados com X. O X da questão é ver além da máscara que eles querem sobrepor sobre as pessoas. O ódio impõe a generalização que nos faz incapazes de ver o brilho nos olhares. Nos faz incapazes de ver o lado humano e a inocência individual de quem está no meio da guerra, no meio da fila, no meio frio, no meio do caos.
 
Estamos à véspera do Gre-Nal 404, mais um na história do Rio Grande do Sul. Iniciativa inédita dos últimos tempos é o setor para torcida mista, com colorados e gremistas no mesmo espaço durante o clássico. A ideia é propagar uma campanha de paz entre os torcedores gaúchos. Ela ocorre partindo de setores mais elitizados, de quem pode pagar pela locação confortável no estádio moderno em um jogo de tamanha importância. Não é exatamente a realidade de civilização do cotidiano. Mas, com a campanha em andamento, pelo poder da mídia interessada, ela talvez possa ser expandida a outros estádios, estados, agremiações... e sociedade. Ok.

Na mesma semana da pilha feita por esta campanha, a Brigada Militar dá o mau exemplo. No jogo do meio de semana, válido pela Copa Libertadores, torcedores do Inter pintavam as ruas de vermelho para apoiar a chegada do clube ao estádio Beira-Rio. Acabaram pintados de vermelho por exageros, ações descabidas da Brigada. Cenas fortes circulam pelas redes sociais. Torcedores baleados por balas de borracha, feridos a cassetetes, a pauladas dos intolerantes de farda. O despreparo para lidar com a população é gigantesco. Os exageros presenciados são repugnantes, repudiáveis.
 
A onda de violência, a violência repressora é o dia a dia. O dia a dia que esvazia a fantasia. A fantasia da paz proposta pela campanha. Me perturba a forma como quem tem o poder está para reprimir. Taxa e tacha quem tem poder. É taxado e tachado quem não tem. A distribuição e os tratamentos são completamente diferentes de acordo com as classes envolvidas. Opressores e oprimidos. Dois (ou mais) pesos. Duas (ou mais) medidas.
 
O Brasil vive um momento conturbado, fique registrado. Greves ocorrendo e boatos de greves por ocorrer. A distribuição de recursos sofre faltas com paralisações no transporte. Mas a distribuição da violência marcou o episódio comentado e mais tantos episódios. A paz nacional, por conta de taxas e tachas, está longe para a nossa maioria de taxados e oprimidos. Está longe até do futebol, mesmo após anos de campanhas por ela. Está longe, infelizmente, eu diria, como um tiro de meta está distante do gol.
Filme: O Menino do Pijama Listrado
"Hoje, o guri judeu estaria à direita. Um palestino à esquerda. Muda a crença, e não acaba a opressão" COIMBRA, Vinicius

21/02/2015

Esquimó

Me esquivo
Me sinto sempre entre, no mínimo
Dois caminhos
Sou, no mínimo, uma esquina das dúvidas
 
Sou frio
Sinto frio
Sou um esquimó
Esqueço e esquematizo a vida
Cheia de nós
 
Isso, é o que sou
Sou um esquimó
Esquecido, esquecendo
ESC sendo
Com meus esquis
Meus huskies
E meus whiskies
 
Foto: http://www.brasilescola.com/upload/e/esquimo.jpg

19/02/2015

Pingos no Para-Brisa

Fui pego pela chuva. De novo. Não é o primeiro banho em sua companhia vinda dos céus neste verão, porém, eu carregava a câmera na mochila surrada e o perigo de um prejuízo envolvendo-a era grande. Ela não foi visita inesperada, pois as nuvens rondavam em 50 tons de cinza sobre minha cabeça.
Consegui alcançar o destino final de minha casa, mas bastante encharcado. Combinei que a reunião transferida da manhã para às quatro horas da tarde não ficaria de meu encargo e obtive concordância (em parte) da decisão. A chuva não cessou e, após rápida execução de uma tarefa virtual, me dei ao luxo de ler um capítulo e dormir.

Enquanto isso, as fotos nas redes sociais tomaram as proporções de urgência e alarmantes como costuma acontecer atualmente em enchentes. Quem realmente sofre não tem (aparentemente não) tempo de captar o momento em imagens, ou, em tragédia, acaba perdendo o equipamento na enxurrada.

O balanço das críticas através de imagens é interessante. As ilustrações do caos caem em cima dos governantes, às vezes em tons exagerados. Há, sim, a culpa do alto escalão da prefeitura, responsável por serviços de recolhimento de lixo e manutenção das vias de fluxo do saneamento. A pancada d'água também foi forte e deixaria estragos de qualquer jeito. Mas obviamente que os prejuízos poderiam ser amenizados, compreendes, Mendes?


Termino as linhas com aspecto de diário ao som ainda de alguns pingos. Há poucos minutos ainda estavam bastantes estaladores sobre as telhas e calçada. A reunião, todavia, foi adiada e não me livro de ser escalado novamente a comparecer a ela, marcada para próxima segunda-feira.

Por fim, águas passadas mesmo são os protestos em massa pela redução das tarifas. As cidades grandes têm os requerimentos da época ignorados como pingos em um para-brisa. Os políticos seguem protegidos internamente pelos vidros com insufilm e fingimos não ver mais.

A partir de domingo (22), passagem a 3,25 pila em Porto Alegre. Como será que foi a chuva lá?

14/02/2015

Pelos e Apelos

Meus pelos e apelos
E seus crescimentos
E seus cortes
São a vida, distorcida
Certa mesmo
Só a morte

04/02/2015

Tempo das Vacas Magras

Em abril, nem muito quente e nem muito frio, teremos o início da terceira divisão gaúcha. Assolados mas sonhadores, os clubes, a princípio 13 inscritos, vão buscar o comum objetivo que só será alcançado por um deles. Somente o campeão do torneio terá vaga para disputar a divisão de acesso em 2016.

O sonho talvez ganhe requintes e brilhos por se tratar de uma competição arquitetada como sub-23. Apenas três atletas acima da faixa etária podem ser inscritos por cada agremiação. Compreendendo isso, muitos vão ter a oportunidade de mostrar serviço em uma competição de pífio acompanhamento midiático, mas de interesse de alguns olheiros de vitrines maiores, que irão percorrer os nefastos gramados sul-rio-grandenses.

Na cabeça dos torcedores, nossos personagens principais e que realmente acalentam um determinado charme ao certame, está o heroico compromisso de carregar a bandeira nas mãos e o símbolo na segunda pele sobre o coração, na tentativa de trilhar o caminho das pedras até o caneco. Todos acreditam e sonham com a primeira divisão, o patamar máximo já atingido por alguns, mais recentemente ou há décadas atrás. Turva é a jornada para chegar até o santuário, onde muitos se esbarram e muitos se embarram para pouca efetividade.


A terceira divisão afasta o sonho das contratações melhores, dos jogos em melhor nível e com melhor público. Ao contrário das vantagens da elite, existe a morbidez de estar próximo ao juízo final. As trevas e o receio de fechar as portas estão sempre presentes, como inimigas do sono tranquilo e da paz com o travesseiro.

Hoje, temos uma divisão de acesso com 15 clubes confirmados. A terceira divisão, por sua vez, traz 13 agremiações. Eu preferiria uma divisão de acesso mais acolhedora, com os 28 escudos. Podia haver mais grupos, mais times e mais combate entre eles. Mas, caso o clube saísse derrotado, saberia que pode tentar de novo no ano que vem. Sempre na luta pelo sonho da primeira divisão. Não no abismo que é a terceira. O mínimo dos mínimos seria a última seção de clubes ter direito a umas três vagas na divisória acima. Um pódio de contemplados pelo trabalho de tão poucos recursos disponíveis.

Da minha visão, é isso. Boa sorte aos clubes, com suas contratações e fundos para viagens apertados. Mais apertado ainda estará o coração dos verdadeiros hinchas nessa árdua missão. Somente um peleador clube passa da terceira para a divisão de acesso. Somente um passa da divisão de acesso para primeira. Há, sim, muita coisa errada. Mas mais errado seria abandonar uma das razões de viver quando ela está no meio do temporal.

O futebol do interior sempre deve viver.

FOTOS: EDIANE OLIVEIRA




29/01/2015

Rosa


Tão imponente é uma rosa
Quando cruza meu caminho
Quando pausa para a prosa
Ou quando pousa a poesia
Quando pasmo a ver a rosa

Quando pauso o meu dia

26/01/2015

Órbita


Não tenho a mais precisa órbita

Mas tenho onde habitar

Minhas córneas conhecem cada canto

Do que posso chamar de lar

 

Tenho incógnitas

E dificuldades cognitivas

Penso em situações mórbidas

Tenho vontade de mais mordidas

05/01/2015

Camada de VALência

Pelo telefone, os parentes confirmaram que viriam passar a tarde. Havia um porém: a filha de um amigo da família. Com a resposta afirmativa de minha mãe, ela também estava escalada a comparecer ao período vespertino daquele 4 de janeiro.
 
Tarde de muito calor e com minhas escalas de cobrir a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Passada a tarefa referente ao primeiro jogo, pude desfrutar um pouco da piscina. A menina tem 5 anos e brinca com minha tia, que ela, mesmo sem laços sanguíneos, chama de vó. A mãe de minha tia, minha tia-avó, é chamada de bisa. Minha prima, por fim, é madrinha dela. Sou só o Kiko.

01/01/2015

Sempre dá a mesma nota: ratátátá

Prepara-se para o ano novo como se prepara a uma guerra. A maquiagem tem o sentido inverso. Não é camuflagem, mas para aparecer, para roubar cenas.
 
A preparação forma um ritual em que as pessoas realmente acreditam numa mudança drástica ao chegar da meia-noite. Aí outra característica bélica. A apreensão e o sentimento de que algo decisivo está por vir em mais essa batalha. Ao menos na cabeça da turma, geralmente trajada de branco.
 
A trilha é ouvida desde os cuidados faciais em frente ao espelho. São bombas e mais bombas. Iluminam o céu desde antes do anoitecer, ou simplesmente liberam a explosão audível. É uma guerra para ver quem incomoda mais. No anonimato aos vizinhos um pouco distantes, que não diferem se o encarregado dos lançamentos é o Fulano ou o Ciclano, da casa ao lado de Beltrano.
 
É interessante como o ditado do "até tu, Brutos" entra em campo. Aquele vizinho mais pacato está lá com o isqueiro ou com a caixinha de fósforos, pronto para aprontar uma e mais algumas vezes. Finalmente arrumados para a ocasião guerrilheira, atravessamos a rua a pé, rumo ao esconderijo para nos proteger das ameaças inimigas. Com muita sorte, a audição chega ainda inteira para encerrar o ciclo anual.
 
A sobrevivência em mais uma guerra, que na verdade dura este e os 364 dias anteriores, é comemorada. Pode abrir o champanhe, ou melhor, estourar o champanhe, que passa despercebido em meio ao céu povoado em pólvora. Ilesos, ao menos em aparência, as pessoas se abraçam e trocam palavras confortantes. Vão trocar os calendários, substituindo-os por novas folhas, com novas fotos inspiradoras, de lugares, pessoas e animais que desconheço.
 
O armamento e a preparação não esperam o ideal ensaio militar e treinamento qualificado para a disputa. Já está outra guerra por vir. São este e mais longos ou ligeiros 364 dias a batalhar. O cessar fogo nada mais é do que um cessar fogo (férias remuneradas?). E vamos, com a abolição da palavra "próspero" até a escrita dos cartões no próximo réveillon.

31/12/2014

Dois Mil e Quinze

Sua mente tenha boas sementes
Suas sementes tenham boa terra
Sua terra tenha o que for preciso
Para cuidar dela
 


30/12/2014

Desnecessário

A fim de um dez
A fim de um desafio
Mas o dez não vem
Há sempre um desvio


Me irritam as notas 10. Recentemente, em processo de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), vejo pela timeline uns quantos estudantes de meu curso a postarem, orgulhosamente, suas notas 10. Justo no labor final, em que a análise crítica deveria estar bastante presente. Mas não, pelo contrário, os professores passam a mão a dar conceito máximo ao seus pupilos.
 
Poderiam estes seres considerarem-se estudantes supremos pela avaliação assim feita? Obviamente que não. Sem deslizes, sem falhas, nem no conteúdo e nem no tempo de apresentação? Impressionante. Durante a caminhada do curso os 9  e os 8 surgiram em algum momento. Também não quero estampar um 10 ao final (desta etapa). Certamente porque não hei de merecer. "Nem queria mesmo."
 
Mesmo os que utilizam seus preciosos tempos no estudo das exatas, ao acertarem tudo em determinada ocasião, é nada mais do que conseguir o 10 para aquela respectiva avaliação, moldada a critério do curso ou do professor. A eles, resta saber que sabem nada de outras coisas. Nossa eterna condição de estar a milhas e léguas atrasados em determinadas áreas. Independente do seu Q.I., gênio.
 
Estaria aí o alívio de podermos contribuir com algo, sabendo que ninguém contribui com tudo? Ou estaria aí a inquietação, a eterna impotência diante da maioria dos fatos? Coisas que a nós nada influencia, ou, mais cedo ou mais tarde, no cruzamento do tempo-espaço, influenciarão? A existência é o somatório de tudo isso até este determinado momento. Um texto, que sendo escrito e, posteriormente lido, a altera.
 
Não sei se condiz tornar tão crítico meu olhar sobre os arredores. O 10, para mim, é a utopia inalcançável. Se aparenta ser 10 no começo, logo os defeitos estarão a ser vistos. O que duraria para sempre? Quanto tempo dura a perfeição? Faz parte. Nada faz tudo. Tudo faz algo. Saber lidar e seguir com os solavancos do caminho deve ser a prova de fogo.
 
Mesmo nas exatas mais exatas há defeitos? Talvez. Talvez elas expliquem, façam algo, cumpram o objetivo X... E param ali. Minha teoria, em desenvolvimento, logicamente também não é 10. Capaz! Longe disso.

25/12/2014

Tio Geda é Tio Geda. O tempo é o tempo.

O tenente Gedir, muitas vezes, em sua carreira militar, deve ter respondido "pronto" aos chamados dos superiores. Prontidão e disposição não lhe faltaram na maior parte da vivência de seus 76 anos. Negro alto e de bom vigor físico ainda quando o conheci. Não sei ao certo a forma como devo trata-lo em parentesco. Bastante conviveu com minha vó após a separação do casamento dela e de meu respectivo e biológico avô. Momentos de minha infância em que compartilhei com ele, que já entrava para a terceira idade.
 
É véspera de Natal e acompanho meu pai na missão de dar carona para vó. Ela vai visitar seu grande amigo no lar de idosos no Centro. Há poucas pessoas na rua e o caminho até lá flui sem maior trânsito. O prédio é histórico, ao lado da principal igreja da cidade, e ocupa praticamente toda a quadra. A tecnologia do portão permite um chamado por interfone. Com a autorização de lá dentro, adentramos o espaço. Cumprimentos para todas as pessoas na entrada.
 
"Tio Geda", como sempre acostumei a chamar, está na sala. Sentado em uma poltrona, ele ergue os olhos e o humor ao nos localizar. Sorri com a força da alma, mas o corpo pouco lhe respeita as vontades. Ao contato visual e depois físico de sua mão, noto seus dedos quase fechados fixamente. Após a visita, vó me informa que ele fraturou um deles.
 
A sensação de liberdade não compõe o cenário, talvez, na maior parte da vida. Perder essa pouca saída deve dar a noção do antes e do depois. Do passar do tempo. Um homem em seu aprisionamento. A prisão do próprio corpo, castigado por décadas e décadas de álcool, que não o obedece e não se molda mais como era antes. O aprisionamento do espaço em volta. Um adulto em confinamento e cuidados como se voltasse a ser criança. Mas sem poder correr. Só poder teimar.
 
Ao perambular o olhar aos arredores da cena, os demais idosos parecem mais próximos da morte do que de qualquer coisa. É um cenário pouco agradável e, apesar da amplitude do espaço interno, da beleza do prédio histórico e da aparente limpeza, é um local contagiante negativamente. As luzes da árvore de Natal são as mais artificiais já vistas, pois o que há em volta pouco brilha no tempo presente.
 
São estrelas que podem ter brilhado e iluminado céus no passado, mas que atualmente representam o esquecimento de quem não as mira mais. Na parede, há enfeites natalinos de isopor, um com o nome de cada ocupante da casa. Dona Rita, seu Disney... Uma bota de isopor, se não me engano, para cada. O isopor é frio, é incolor, nada sensitivo. Mas é duradouro, não se debate aos efeitos temporais. Mais vale a nossa curta e degradável passagem, ou a insistência do inanimado mas resistente material?
 
Ó, tio Geda, eu que sempre olhei para cima para acompanhar seu semblante com minhas interpretações ainda pouco curiosas. Hoje, mais atento a alguns detalhes, o vejo com a melancolia e a nostalgia a transbordar dos úmidos olhos. Tão delicada é a situação, me pego no dilema de não saber se é melhor para ti rememorar os acontecimentos que tornaram tua vida tão vívida e tão válida. Ou se é melhor não resgatar o passado inalcançável de nossa existência.
 
Conversamos, sim, sobre o Grêmio Atlético Farroupilha, instituição que a bastante jogos ele foi, como sócio e companheiro na carreira de tantos torcedores que passaram e permanecem a passar por lá. Amigo do velho Trem, do conselheiro Alci Moraes. Amigo que muito considerei da infância, conforme me levou, no privilegiado local das cadeiras, para minha primeira partida em estádio de futebol. E, no longínquo 2002, o Farroupilha goleou o São Paulo da cidade vizinha por 3 a 0 naquela oportunidade. E, até hoje, o tricolor onde exerço estágio é o único clube em que eu nunca fui a jogo para torcer contra.
 
O sol ainda valente e alto, mas é quase hora da janta. Vamos a nos despedir. Meu pai repete a frase que tanto ouvi na juventude, seja pelo legal na sonoridade, seja por meu pai sempre repetir frases, por mais aleatórias que sejam. "Tio Geda é Tio Geda." A pronúncia me lembra do inglês "together".
 
Despedida e desejo de bom Natal ao Tio Geda. Os desejos mais fundos de que não ceda ao aprisionamento. Missão difícil, pois não é o mesmo militar que realizou operações a nível nacional. Nem mesmo as mãos, que tanto encestaram a laranja no basquete, escapam dos efeitos do medonho tic tac. Hoje, mal conseguem êxito no mais simples aperto de cumprimento ou despedida. A energia do aperto de mãos se transfere. Aperta meu coração. O tempo não aperta pause. Nenhum clique do mouse altera essa direção.

15/12/2014

Velejando, viajando, sol quarando

Percebo, lá pelas tantas (antes tarde do que nunca?), os efeitos e consequências pelo que se faz ou se deixa de fazer. São duas possibilidades, no mínimo. No exercício de procurar a palavra certa, encontro uma mais gasta do que qualquer solado: trouxa.

Há, também, no mínimo duas possibilidades de ser trouxa. Pode ser pelo que você faz. Ou pode ser pelo que não faz. Faço poucos esforços. É uma autocrítica reconhecida de outrora.

Tenho tamanha dificuldade em acompanhar ritmos na longa highway. Tento ditar o meu, parando aqui e acolá. Difícil alcançar a parada do ônibus no momento certo de sua passagem. Sem paciência, às vezes sigo a pé. Complicado acompanhar os passos de quem vem ao lado, mesmo que venha com intenções de somar. Logo, cedo ou tarde, tô em outro ritmo. Segui em frente. Ou fiquei pra trás. Trouxa, se eu fiz demais. Trouxa, se pouco fiz.

Exatamente porque posso ter emaranhado demasiadamente uma rede em que não posso controlar, prosseguir. Em contrapartida, posso não ter armado a rede em que eu gostaria de estar e usufruir. De todo modo, parece uma regra, que não há como sair ao mar sem sentir a tempestade. Por vezes, mais densa e mais turva. Vai ser passageira, mas vai deixar marcas. No marinheiro e em seu navio. Ambas difíceis de curar.

A política da América Central deve rir por estar mais controlada que a tua highway. Vale até abrir uma tequila em nome da causa. Vou seguir minha missão trouxa a cada parada para amarrar os tênis, em cada parada para um por do sol. A cada oásis no deserto. A cada crase após o verbo, seja a quem for. A sofrer os efeitos e consequências de navegações passadas. Em um barco sem nome fixo tatuado no casco.

14/12/2014

Vero similar

Verossimilhança é a palavra nova no vocabulário de Jair. Vero, em italiano, significa verdadeiro. Ainda no mesmo idioma, somiglianza é a similaridade. União de verdade + semelhança, a verdadeira semelhança (bah, gênio!). Mas uma certa impressão de uma certeza imprecisa.
 
Verossimilhança seria uma definição precisa para algo ainda impreciso?  E se aquilo for realmente preciso, o uso da verossimilhança fica errôneo, em desuso? E se aquilo for nada preciso, o uso da verossimilhança cai em desuso da mesma forma, mas por outro caminho? Prefiro distorcer interrogações do que cravar pontos finais. Nas artes, a ficção pode ser tratada como verossimilhança quando se aproxima da realidade que se procura mostrar. Aproximações.
 
É uma palavra tão inexata que, no português europeu, se escreve com um "S" só: verosimilhança. No português brasileiro, a aceitação de se curvar diante das curvas que as possibilidades implicam: veroSSimilhança.
 
Talvez ainda a interprete mal. Pois bem (ou mal), a verossimilhança envolveria um conjunto de coisas quase reais? Qual o limite deste conjunto? O que fica de dentro e o que fica de fora? O que é verdade? O que é quase verdade? O que não é verdade?
 
Bah, nessa eu peguei pesado, né? Me desculpem. Se acreditam na ajuda, nas farmácias ou nas igrejas, dá pra tentar a cura. Mas creio que os preços das ditas curas não se encaixem em verossimilhança =)

11/12/2014

Poço da Poesia

Não sobra tempo
Troco a noite pelo dia
Transborda o copo
Que carrego em correria
Pelas frestas do corpo
Sua, quase seca, a poesia
 
Posso, claro que posso, quem diria?
O poço, ainda moço, se estendia
Acerca da poesia não se cerca
A fonte do poço não seca
E a água, antes parada, se mexia
 
 
 
 

05/12/2014

Moneytalks

Nem tudo precisa ser quantificado, ordenado e numerado. Umas linhas (não numeradas) sobre isso.


Moneytalks é aquela música dos australianos do ACϟDC. Parece que foi a banda para este dia, 4 de dezembro. O texto já vai sair com o marcador do dia 5, em mais uma madrugada. Escrevo para acrescentar sentido e não ser mais uma madru-nada.

Moneytalks, então vamos falar da grana, esta criatura variável em forma e conteúdo; abominável, traiçoeira e suja. Suja por si só ou pelas mãos alheias. Termino de assistir um filme e testemunho na timeline da rede social a manchete de que "familiares de vítimas da boate Kiss vão ter que pagar pela limpeza de objetos encontrados no local". Vida vale nada, né? A vida cabe dentro de um Rolex. Cabe no tempo que o relógio de marca famosa contabiliza e cabe também no valor que as pessoas atribuem a ele - o relógio.

Poucas vezes caminhei tão leve quanto em uma saída, numa chuva após uma derrota de meu time em clássico Gre-Nal. Esfriar a cabeça era a bola da vez. Saí com a roupa caseira e nada nos bolsos. Sensação de alívio, sobretudo, por nada pesar entre um passo e outro. Nada de objeto para os mal intencionados me tirarem em seus objetivos. O domingo já havia posto em 0 a escala de felicitação, no motivo que gerou a caminhada. Bola pra frente.

Outro ponto interessante é a marca dos calçados. Não ligo muito para o símbolo que os nomeia. Confortando e agradando a rápida olhada no espelho mágico = compra feita. Prefiro pensar no valor de cada passo pelas calçadas do que no valor financeiro do calçado que os praticou. Meus pés trilham a história e os sapatos são meros acompanhantes de luxo (para meus pés não se machucarem e poderem caminhar/historiar mais). Claro, acabo reconhecendo o esforço do par de sapatos também e eles adquirem significados especiais. Com o mérito da caminhada e não de sua marca.

Naquele domingo, saí também sem documentos. Quem me conhece, vai me reconhecer e, se quiser, cumprimentar. Se não conhece e for o caso, eu me apresento. Não precisa RG. Muito do que se quer saber inicialmente sobre a pessoa não passa de números, o que não explica detalhes da trajetória dela até o momento. Apenas rápidas conclusões. Como a idade, que pode revelar o que a pessoa vivenciou ou não.

Muitas das pessoas vão te ver pela primeira vez ao te identificarem por um número. Talvez o médico, na sua primeira consulta, vai apertar a mão do número 590.191, do plano de saúde Y. Quantas vezes somos o número da ficha que retiramos? No xerox, no atendimento da operadora de celular, na padaria, no açougue, na farmácia, no banco (...) Ah, os bancos... estes dariam um texto só para eles... Somos, enfim, números, cadastros, dados, senhas e códigos. Por ordem de mérito ou de chegada.

Em piores casos: na escola. A criança cresce como um número, avaliada como um número. Saldos positivos ou negativos. Somos tratados como números, e só se agrava na vida adulta. Meros números, para cima e para baixo. Pelo que acrescentamos ou podemos movimentar economicamente. Taxa de relevância. Serve também para maiores ou menores reverências gestuais em um encontro com o dentista ou com o senador, no que ainda há de humano em cada cumprimento (exagerado, ou não).

Por fim, o que se percebe é muita gente querendo abocanhar números. Abocanhar objetos, que valem mais numericamente. Tascar um pouco dos outros (com cumprimentos exagerados, puxa-saquismo, ou não). Ostentar com carros, camisas polo ou com uma adega, para mais se exibir do que beber. Quadros estranhos na parede do salão e na vida, relógios banhados em ouro que vão marcar a hora da mesma forma que os outros... Moneytalks.
 

03/12/2014

Procura Cura

Que sentido procuras?
A repetição em vão do que já foi sentido
Ou o sentido escondido do que está por vir?
 
Que sentidos procuras
Se não for o sentir?
Será a cura uma partitura
Que não podes tocar, nem ouvir?
Como um distante santuário
Que só imaginamos existir
 
E por que, afinal, tentas
Apagar as pegadas deixadas
Como se fossem erros propositais
Nessa longa estrada?
 
E por que, afinal, tentas
Apagar as marcas já perpetuadas
Como se apaga na boca o gosto da menta?

 

30/11/2014

Inquieto

O amor que eu não te mando
Não tá quieto, tá queimando
Quando some a luz do dia
O amor que eu não te mando
De quando em quando
Aparece em poesia

 
 

Eu sou eu e não o que os outros são

Um pé para cada lado. Quase sempre pronto para firmar um de apoio e chutar o pau da barraca com o outro. Nem recebo tudo de mãos beijadas, o tudo necessário para competir em alto e bom tom no mundo selvagem outside. Também reconheço todo o apoio que recebo e a pouca necessidade de lutar no cotidiano, dadas as circunstâncias até o momento. Um mau costume, eu caracterizaria.
 
Nem ostento e nem me coloco - completamente - contra a coisa toda. Pacifista demais para pichar qualquer religião. Pacifista até para negar um panfleto às vezes. Às vezes nego, mas sempre mais triste do que quem tá entregando, que até deve estar acostumado... Será? Droga, vou ficar triste pela tristeza dele.
 
Não me agrada aqueles bonés da moda. Nunca me senti à vontade e eles sempre me serviram (os bonés) para proteção solar. Estética seria consequência. Cresci ouvindo que barba não era legal. Depois disseram que barba era legal. Praticamente não tenho, assim como quase não tenho preocupação nesse aspecto com a opinião alheia.

Jogo do jeito que sei e do jeito que consigo. Me importo, sim, de agradar. Bah, cuidado! Me importo mais ainda de tentar não desagradar. O resultado muitas vezes é que não ajudo nem atrapalho. A corda bamba é arriscar e carpar o diem, mas segurando o pássaro na mão pra não perder dois. São só ditados e não verdades absolutas. Às vezes parece que cabe um, às vezes parece que se encaixa mais o outro. Eterna dúvida do que virá depois.
 
A tal colocação "eu sou eu e minha circunstância" ruge com potência. A circunstância me cerca. Pensamento demais antes de uma decisão. O mundo não para, cara, faz algo! Fazer o quê? Fazer o que depois para consertar? Fazer o que, agora, para não ter que consertar depois? Às vezes, o peso da prudência são folhas e mais folhas de relatórios arremessados a grosso modo para cima. - Dane-se! - Depois os catamos, possivelmente com dificuldade para reorganizar a pilha toda de consequências.
 
O texto inicial não era pra ser bem esse, mas não vou voltar atrás. Dane-se a prudência das linhas se encaixarem numa grande coerência. A vida é incoerente aí fora, não é?! Resmungos. Depois organizo melhor as ideias em outro texto, em outra hora, neste mesmo canal.

16/11/2014

Personagens frequentes em viagens de ônibus

- o inquieto que mexe em todos os mecanismos possíveis de ar condicionado, luz, poltrona, cortina e mais nas trocentas coisas da bagagem.
- o corneteiro. Fala mal da empresa de ônibus, da empresa onde trabalha, do tempo e das cidades em que passa.
- a mãe jovem que tem trabalho para conter a criança pequena diante do micro parque de diversões.
- o casal que debate os problemas com a casa e filhos para todos ouvirem durante o traje
to.
- o tiozão que chega no segundo ronco antes de tu acertar a posição da poltrona.

- a tia sedenta por companhia, que puxa papo com seus assuntos familiares e que telefona alguma vezes para os parentes em busca de mais novidades e pedindo para a esperarem na rodoviária.

12/11/2014

Não Ceda à Queda



O time é ruim e faz jus a todas as comparações com um péssimo ônibus. Não tem volante, o banco é ruim, não apresenta velocidade e o próximo passo já sabemos: vai ser um ônibus rebaixado. Mas embora a torcida consciente do Botafogo de Futebol e Regatas estenda a faixa "só Jesus salva", eles (alguns) continuam a ir aos jogos acreditando na saída da lama com o que acontece dentro de campo.
 
Os antecedentes são comuns a rebaixamentos anteriores de clubes grandes. A administração colocou o alvinegro carioca nessa, assim como o outro preto e branco do Rio, o Vasco, foi rodada a rodada de 2013 traçando seu caminho para disputar a B nacional de 2014. A trilha, a ladeira para o rebaixamento é árdua, angustiante e exige muito dos motores-corações dos hinchas. Os frios matemáticos e demais analisadores racionais já percebem a queda eminente. São 75, 80, 95% de chances. Vão somando do diagnóstico domingo-quarta-domingo.

O Z4, como é chamado, é a nuvem que nubla o fim de semana. Tira o gosto da balada ou do cinema de sábado. Tira o paladar da praia ou o do parque dominical. Faz a segunda-feira começar em ressaca, um sentimento amargo na boca e um certo constrangimento em trajar o uniforme aquele que já lhe deu orgulho. A maioria dos torcedores já passou por isso e conseguiu reagir. Mas a garantia de um futuro melhor sempre beira a incerteza. Afinal, na série B, por exemplo, são outros 19 clubes sedentos e em planejamento para conseguir um dos quatro lugares ao sol.


Mas o tema central, deixe-me dizer, é a amargura da reta final que antecede o desastre inevitável. O lado racional, como um repórter de veículo pequeno que não é escutado, ousa professar que o final do ano é triste e o rebaixamento, sim, ele vem. O lado emocional e apaixonado veste a camisa no domingo, paga o ingresso, o deixa no portão de entrada, passa a catraca, escala os degraus e espera para encarar o inferno com os próprios olhos, ao lado de outros pares. Entra em desespero, engole um pouco o choro. Depois chora. Soluça e vê a situação toda como um ente querido e muito enfermo. Enquanto isso, outros próximos jantam a brindadas por uma vaga na Copa Libertadores. Não é fácil, queridos.

Promete voltar e repetir os rituais e mandingas em busca da salvação do companheiro até a última e derradeira tentativa de reanima-lo. O veredito irreversível pode vir de um conformista ao seu lado nas tribunas. De um amigo que foi ao jogo junto e presenciou a tragédia também e digeriu o estrago primeiro. Pode ser pela rádio, com o comentarista ou narrador trazendo a notícia como um médico treinado a informar finais melancólicos.

A parte mais triste talvez sejam os caixões fabricados pelos rivais da rivalidade secular. Eles são confeccionados e pintados com prazer com as cores de seu clube, em trabalho realizado pelos gozadores do drama. Apesar de ter de engolir mais essa, a funerária não recebe a ligação no fim trágico. Não a do torcedor que passa por isso. Porque não é O fim.

Ele vai, mais cedo ou mais tarde, levantar a cabeça. Comprar com alguma resistência o guia da série B no ano seguinte. Vai analisar a tabela. Rir de um ou outro nome exótico. No fundo, tremer um pouco ou um muito por todos os nomes, um de cada vez. Mas torcer a cada batalha. Vai repetir os hábitos e vai para la vuelta arriba y otra vez.

E que ninguém desmereça a dignidade de cair chutado, escoriado pela incompetência alheia e lamber as feridas com um retorno triunfante.