Sidarta foi publicado originalmente em 1922, período entre guerras, após uma viagem de Hermann Hesse a Índia, por 1911. O aclamado escritor alemão ficou maravilhado com a cultura local e dedicou ensinamentos na escrita baseada em preceitos budistas. Sidarta é o nome do Buda original, que teria fundado a religião ainda antes de Cristo, pela comparação temporal - mas não muitos séculos antes (anos 566-486 a.C). Na história de Hesse, Sidarta é um menino indiano que ao alvorecer da adolescência decide sair de casa, influenciando o amigo Govinda. Eles deixam a aldeia onde viviam e aprendem sobre sobrevivência e a vida na selva. Cruzando por peregrinos do budismo, aceitam a missão de esperar, pensar e jejuar, sobrevivendo com oferendas, com o mínimo necessário, nas extrações da natureza e na solidariedade das pessoas com quem cruzavam no caminho.
Sidarta tinha um espírito irrequieto e, passados alguns anos, caminhando para idade de jovem adulto, resolve deixar a doutrina do Buda para tentar a vida na cidade. Ele conhece a encantadora Kamala e com ela, indiana possuidora de um parque, de casa grande com criados, pretende descobrir os encantos do amor. Kamala apresenta para Sidarta uma outra proposta de vida, com luxo, com jogos de possuir, ensinando a ele que necessitava de um emprego, de roupas e sapatos dignos do posto que ocuparia, inclusive ao lado dela, que recebia outros homens, convidados e figuras de realeza. Dessa forma, foi agendado para Sidarta um emprego com o comerciante Kamasvani, um dos mais ricos da região. Sidarta tinha a vantagem sobre outros meninos ao saber ler e escrever, assim, logo conquistando a confiança de Kamasvani como um importante sócio. Nesse período, Sidarta faz cobranças, cálculos, conquista mercados e bens pessoais. Embora encarasse o que Kamasvani e os demais consideraram essencial como um mero divertimento, uma tolice, Sidarta aos poucos cede a diferentes vícios, o do amor por Kamala, o dos bens materiais arrecadados e até o vício em jogos como o jogo de dardos - o que poderia se atualizar ou descambar em jogos de cartas, apostas, etc.
O cansaço dessa situação leva Sidarta a abandonar essa vida tempos depois, assim como havia deixado a peregrinação dos chamados samanas, seguidores do iluminado. Então Sidarta volta para selva, onde se reencontra com um balseiro, um remador chamado Vasudeva. Eles já haviam se cruzado pelo caminho enquanto Sidarta vivia dos bens materiais proporcionados pelo comércio. Dessa vez, interessado na vida simples do homem solitário, Sidarta resolve acompanhar o cortês remador na vivência em uma cabana isolada, ribeirinha, descobrindo um pouco mais sobre a solidão daquele senhor que escutava o que o rio dizia. Sidarta reconhece na figura do ermitão um grande ouvinte. Passagem interessante do livro, em que, desde a publicação há mais de século, em 1922, já era identificado o problema maior das gerações vindouras: não escutar o outro, não ser um ouvinte atencioso, não se "absorver", não se compadecer dos problemas de outrem com objetivo de ajudar. Pelo contrário do que as pessoas demonstram em seus egos inflados, em sua exaltação ao umbiguismo, o veterano Vasudeva era um grande ouvinte, inspirava compreensão, com olhar cúmplice, sorriso benevolente e mão amiga a repousar sobre os ombros do confidente Sidarta. O viajante contava a vida, seus obstáculos e apreensões ao balseiro.
Mais do que preceitos, dogmas e religiões, Vasudeva acreditava em ouvir a natureza, a torrente das águas, adquirindo respostas para questões existenciais. Reaprendendo a sobreviver da natureza, Sidarta tem um derradeiro reencontro com Kamala, que estava em peregrinação, pois o grande buda dos samanas estava para morrer. Pessoas cruzavam o rio onde viviam Sidarta e o balseiro em busca da despedida do líder pregador. Sem saber, nessa viagem, Kamala se despedia das riquezas materiais. Ela levava consigo o filho criança, o pequeno Sidarta, que o pai Sidarta todavia ainda não conhecia. Mas era o destino. Na travessia pela floresta, antes de chegar ao rio, Kamala foi mordida por uma cobra e o veneno a deixava nos piores lençóis. Levada para cabana do balseiro, o protagonista tenta salvá-la, mas percebe a vida a extinguir-se dos sinais de Kamala. Assim, Sidarta herda a criança para seus cuidados. Eles logo percebem que não havia aptidão, pois a vida do pequeno Sidarta com criadagem, com pessoas a realizarem as tarefas por ele era totalmente diferente dos perrengues da selva. Sidarta tenta ser paciencioso, amoroso, zelador pelo menino, mas a incompatibilidade entre ambos logo é sentida pelos três moradores da cabana florestal.
Apesar do livro percorrer uma trajetória de filosofias e pensamentos sobre como levar a vida, é a partir da separação do Sidarta pai com o Sidarta filho que as questões se aprofundam. Sidarta nota o ciclo da vida, relembra de como se separou de sua família para nunca mais vê-los, como se tornava incompatível viver na aldeia e assim preferia, ao lado do fiel, Govinda, investir na selva, a seguir os samanas. Govinda, por sua vez, persistia na busca pelas respostas, na dedicação às orações, na procura pelo eu. Era seguidor ferrenho da filosofia dos samanas, mesmo após a morte do grande líder.
Sidarta encara o ciclo da vida, pensa em seu pai, que não teve mais contato com Sidarta até uma desconhecida morte, e nota sua situação semelhante: separado, incompatível ao filho que escolhera retornar à cidade, não sem antes proferir ofensas ao modo de vida isolante do pai. Sidarta envelhecia e escutava o rio, que simboliza as mudanças. Sidarta anula a percepção do tempo, pois ele era ao mesmo tempo o menino aldeão e o idoso, assim como o rio corre a todo tempo, da sua nascente, à foz e onde desagua.
Para o final, vem à tona a conhecida frase em que amar e mudar as coisas (Belchior vive) interessava mais à Sidarta do que qualquer teoria, qualquer dogma, quaisquer ideias que, para Sidarta, eram apenas palavras. Essa era a diferença fundamental no encontro final entre ele e o envelhecido Govinda, eles se cruzando pelo caminho em uma terceira oportunidade. Sidarta que havia experimentado de tudo, Govinda ainda fiel aos ensinamentos samanas. Govinda tentava encontrar respostas. "Parece que meu destino é jamais abandonar a busca" (P. 114) Mas Sidarta acreditava no gesto, na ação, na natureza, na escuta do rio, que teria todas as resoluções.
À essa altura da história, já haviam falecido o balseiro, o buda de tantos milhares de seguidores, Kamala, a cortesã de casta abastada, e o filho de Sidarta tinha realmente fugido para não mais voltar. Solitário, Sidarta trava essa última conversa com Govinda, sempre fiéis amigos nesses reencontros, cada qual crente em suas buscas.
"Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos acha-la, podemos vivê-la, podemos consentir com que ela nos norteie, podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la" (Sidarta, P. 117) Assim, o protagonista acredita que não era possível chegar a esse brama, a esse nirvana. Eram apenas palavras, não uma doutrina com regras, como modus operandi. Mais do que tentar seguir conselhos com palavras valeria escutar o rio, as vozes e transformações da natureza. É uma forma de encarar a vida, em que, para nós cidadãos citadinos, conhecimentos técnicos, instalações, programações e construções são mais valoradas do que os que conseguem da natureza viver e extrair o que precisam, sem subjugar, sem destruir, sem desviar o que pode causar efeito rebote amanhã. "Nada é totalmente Sansara ou totalmente Nirvana. Homem nenhum é totalmente santo ou totalmente pecador", concluía Sidarta. Ele que há muito tempo havia deixado de debochar, de se sentir soberano e prepotente sobre os acumuladores de bens materiais, os seguidores cegos da beleza carnal, adeptos da luxúria. Ele que procurava entender o próprio filho, porque aos viciados em jogos, em poder, em dinheiro, assim era a vida que haviam sido ensinados, que haviam tomado contato e conhecimento, assim eram os valores a eles demonstrados e ensinados a perseguir. Sidarta procurava a humildade de entender que o ser humano percorreria diferentes buscas e, independente desses objetivos, procuraria ele Sidarta amar e mudar as coisas, como ensinar seus passageiros de jangada a escutar e respeitar as vozes do rio. Entendia ele que os preceitos eram importantes no que levasse ao companheirismo, ao amor pelas criaturas e que, no fim das contas, não caberia a ele Sidarta julgar os demais com as diferentes réguas a que ele havia conhecido e se medido. Respeitosamente nessa despedida de Govinda, quando se unia a todas as criaturas, de tempos imensuráveis, Sidarta estaria se aproximando do devido nirvana, ou ao menos do conceito que imaginamos.