15/01/2026

Pároco

Eu tinha de tudo mais

Menos o que mais preciso

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor


Gondoleiro vai 

Pelas águas fluviais

Petra Costa vai

Pelos olhos de ressaca

Capitu vai

Pelos olhos das capitais


Machado de Assis

Não corta o mal pela raiz

Machado é com CH

Não chega ao X da questão 

Não chega à conclusão 

Boa sorte ao leitor

Responder as memórias póstumas do autor


Eu tinha de tudo mais

Menos o que mais preciso

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor

Eu nunca quis um amor só 

Só um amor


Eu era um pároco 

De filosofia e um oco ainda

A cada dia

Eu era um pároco 

Pelo que eu não toco

Mas até queria

Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.

Fios de poste

Quantos fios de poste

Conectaram         sua vida, seus laçarotes?


Quantos fios de poste

Conectaram do gatonet 

Ao lost 

Do gatonet ao post


Quantos fios de poste

Conectaram do gatonet 

Ao trending topic 

Do gatonet aonde fosse


Quantos fios de poste

Conectaram a fake news 

Ao impostor

Do gatonet ao sonegador de imposto 


Quantos fios de poste

Conectaram sua vida a outros homens

Os mitos, os lobisomens 

O que aparece ao que se some 

O que se soma e o que ainda não tem nome

O sentimento que mata

Ou que produz a fome


Quantos fios de poste

Produziram

Do gatonet ao ghosting 

Os estilingues de agosto 

O estilo sobreposto 

Os filhos, AI e os rostos

Fios de poste emendados 

Fios de poste depostos 

Fios de poste cacheados 

E programas de Luz para Todos 

Ainda falo o que me coço 

Por cima dos ombros dos moços 

Pelos fios dos postes 

Marionetes, mascotes 

Por cima das mensagens 

Por cima de nossos destroços 



Fica com o troco


31/12/2025

O Fim da Viagem / O Começo de Tudo

Filme de 2019, direção de Kiyoshi Kurosawa, O Fim da Viagem, Começo de Tudo é um filme propício para assistir na virada do ano, nas férias, no recesso. Um drama leve sobre a vida de uma jovem jornalista japonesa, que, introspectiva e sonhadora, viaja com sua equipe de reportagem para gravar um programa no Uzbequistão. Lá, sua mentalidade se expande e se transforma, quando impressões iniciais podem ou não serem confirmadas. Suas verdades são confrontadas e suas ideias para voltar à baía de Tóquio podem mudar.

Yoko (Atsuko Maeda) demonstra alguma inacessibilidade, um certo desentrosamento com a equipe de gravação. Logo no começo do filme ela chega atrasada à estação onde iria com os demais ao coração do Uzbequistão. A equipe não a esperou. Tirando as horas do extenuante serviço, Yoko gosta de passar o tempo sozinha, a passear para espairecer ou a falar ou tentar falar com o namorado, um bombeiro na baía de Tóquio.

O Uzbequistão prepara muitas surpresas. Um guia de pesca sem paciência. Machista com a presença feminina que afugentaria os peixes. As tentativas de gravação no lago são frustrantes. Uma cozinheira de comida típica atrapalhada com o cozimento do arroz, reclamando que não foi previamente avisada do que deveria preparar, sobre a gravação, mas que depois se desculpa e, mesmo com a suposta falta de lenha na cozinha, enche a equipe de mimos e preciosidades. Yoko fica confusa com o comportamento das pessoas e as diferenças culturais. Ela é destemida, um tanto impulsiva, independente e investigadora.

O filme desenvolve diferentes personagens. O tradutor do grupo se afeiçoa a Yoko. Um dos rapazes das câmeras também não é lá de muita paciência. Outro dos gravadores é experiente e já desenvolveu vários trabalhos artísticos. Yoko é jovem e cheia de dúvidas. Ela revela que seu sonho é cantar em apresentações, deseja voltar ao Japão e ser a estrela de um musical. As gravações do programa de variedades são questão de tempo; um passatempo. Um serviço temporário.

O desenvolvimento da trama também mostra aos espectadores os bastidores das gravações de filmes e programas de reportagem. Muito trabalho de convencimento, tomadas que necessitam repetição, acordos feitos por baixo dos panos, mãos molhadas, roteiros decorados e sorrisos falsos. Um dos mais pacientes é o tradutor que, além do mais, precisa fazer o elo, a ponte entre duas culturas asiáticas mas diferentes. Temur, como ele se chama, ainda reserva uma história pessoal ligada ao Japão que é digna de documentação. Quanto à gravação do programa em si, traz altos e baixos, como é a vida, com produções que rendem tempo, economizam dinheiro e outros passeios que saem caro e não saem como o planejado. Há surpresas sempre no caminho da equipe japonesa.

Yoko se afeiçoa aos animais. Se encanta por um bode, que inicialmente ela achava ser uma cabra, em um terreno hostil. Ela convence a equipe a resgatar o bode Okko, que na verdade, na complexidade da operação, não passa de um simulacro, pois a libertação urbana ao bode poderia resultar em ser devorado por outros animais selvagens. Qual o lugar de Okko? Qual o nosso lugar no mundo?

Yoko se questiona. O que a emociona é cantar, entregar-se de corpo e alma ao tema da música. Seu sorriso diante das câmeras para preparação do programa já não é o mesmo quando iniciara na profissão. Uma das cenas revoltante é quando exigem que ela, extenuada, exausta, sob riscos de complicações sérias, é exigida a repetir gravações em um brinquedo kamikaze em parque de diversões. Uma falta de tato, de senso da equipe e da própria, em momentos irresponsável consigo mesma, apesar do crescente alerta do próprio dirigente do brinquedo. Ela não deveria ser exposta a isso.

O filme também mostra que o trabalho de repórter, apesar da recompensa e da fama, pode ser enfadonho e cheio dos chamados ossos do ofício. Entregar na água até os joelhos e num barco de pesca, resgatar animais em vão, passar pratos estranhos e suspeitos, encarar os desafios da lei e de ser mulher em sociedades que possam ser opressoras. Apesar da desconfiança, Yoko termina esperançosa com o Uzbequistão e com um sentimento de agradecimento e até pertencimento diante das infindáveis planícies e montanhas. Inspiração para ela cantar e encarar o próprio Japão e sua vida de outra maneira, talvez até com a recuperação do sorriso após o jorrar das lágrimas.

Nota final para O Fim da Viagem / Começo de Tudo

⭐⭐⭐⭐

29/12/2025

Ceddo / Outsiders (1977)

Ceddo é mais um filme do cineasta senegalês Ousmane Sembène, figura de honra nas análises. Um dos mais importantes produtores cinematográficos da África em libertações, neste longa-metragem de duas horas, a história é bastante complexa e necessária.

Um dos tipos de conflitos mais marcantes e polêmicos na África, que passou décadas sob domínio europeu, é a escalada do islamismo imposto pelos imãs vindos de fora. Nessa história em Ceddo, a população é convertida à força em uma escalada de violência a envolver todos os cidadãos.

O rei da região é convertido ao islamismo na presença do imã (líder religioso e espiritual no islã). Rapidamente, súditos, pessoas ligadas ao rei também se convertem à nova religião. Em contrapartida, como represália, a princesa Dior (Tabata Ndiaye) é sequestrada como forma de desaprovação das mudanças de regime. O Conselho local é convocado a votar, a debater, a decidir. As controvérsias e a pólvora esquentam. A princesa Dior está sob domínio dos resistentes, que querem manter sua cultura, suas crenças, seus chamados ídolos, e, de qualquer modo, seu estilo de vida de muitas gerações passadas. A chegada repentina do islamismo ameaça quem discorde de Allah, quem não queira rezar cinco vezes ao dia e obedeça as imposições do Corão.

Enquanto a princesa está fora da aldeia nesse sequestro, o imã segue a convencer a população, outros são convertidos à força. Figuras influentes da comunidade são postas umas contra as outras. Em uma crescente de suspense e ação para o fim do filme, o rei de repente está fora de combate. Provavelmente foi morto. A desculpa repassada aos súditos é de que fora morto por uma picada de cobra. Amplamente suspeito. Nesse movimento, o imã, que já havia convencido o rei dos poderes sob a crença de Allah, toma totalmente os poderes. Ele quem passa a reinar absoluto. Nessa manobra, ele convoca a população, reúne resistentes, impostos pelo poder das armas de fogo - O verdadeiro poder.

Esses homens são sentados ao chão, estão sob vigília constante. Convocados um a um, eles, sempre sob a mira das armas, são postos frente ao imã e, após raspados seus cabelos, recebem um nome islâmico. A identidade está totalmente trocada na vila. Ao mesmo tempo, os verdadeiros resistentes armam um plano. Após trocarem pessoas, adolescentes pelo preço de um fuzil e pólvora, adultos pelo preço de dois fuzis e pólvora, armam uma emboscada envolvendo a libertação da princesa. Em uma reviravolta, a princesa volta à vila, que está irreconhecível. Seu pai está morto, o poder trocou de mãos. Ela precisa resolver com suas últimas forças reunidas.

Ceddo é um termo que pode designar guerreiros resistentes. Aqui são os outsiders na tradução para o inglês. Não se subordinaram ao poder dos brancos que colonizaram África durante séculos. Não baixaram a guarda perante essas invasões que lhes colocaram uns contra os outros, presenciaram traições, subordinações, humilhações, mortes e precisaram montar guardas de resistência nas comunidades, por seu modo de vida, suas produções, pelo simples direito de existir. Após essas décadas de resistência aos brancos, tempero a mais surge com aparição da imposição islã. Os resistentes, ceddos, se reúnem e concluem que nunca estarão livres. Ora são os brancos, ora são os islamitas de fora, ora são traidores em sua própria comunidade, e a nobreza e o clero negros mesmo a definir o futuro de milhares de aldeões, de campesinos pobres, subsistentes. Nessa conclusão típica dos filmes de Ousmane Sembène, se parte para ação final. É a face intacta dos valores da resistência.

Ousmane era um ferrenho defensor da legitimidade africana, da cultura, dos povos seculares resistentes. Em cada filme, tece os desafios seja contra a colonização branca, seja contra os novos adversários, colocando em evidência um povo clamoroso por soluções, por direitos. Esse povo contra a predominância, contra a desigualdade oriunda das elites ociosas. Essas questões que se replicam em tantos povos, em países que ora mais ora menos percebem sua subordinação, sua submissão a elites que decidem em votos que favorecem a elas mesmas. Seja Congressos na fantasia da democracia, seja em domínios ainda com aspectos mais abertamente feudais. A rebelião, a resistência, o contra-golpe são as alternativas a não permitir que a história seja reescrita somente por alguns, por poucos que dela se beneficiam e tentam congelar poderes. O recado final da libertação da princesa não é pela manutenção daquela monarquia, mas também aponta que as mulheres têm voz e devem ter vez na tomada de decisões. Durante o filme, inclusive, alguns discutem que uma mulher subir a trono dos mandamentos seria o cúmulo, na negatividade. Mas, sem o rei, morto, sem seu irmão, ela quer seus direitos.

Em resumo, é uma população que se rebela à ameaça estrangeira, já acostumada, entre aspas, a lidar com a opressão vinda dos brancos. A questão do islamismo imposto ainda é um debate de crueldade e sangue derramado, principalmente em últimos tempos às notícias vindas da Nigéria, onde, a bem da verdade, esse debate se estendeu também no confronto dos cristãos com os islãs. Mortes e mais tentativas de imposição, na tentativa de chegar ao poder com o prenúncio da religião, são uma constante. E não se pense exclusivamente em África nessa questão; longe disso. Estados Unidos e Brasil que tanto erguem templos por pastores que se metem em política, opinam por forças políticas que os mantém isentos de impostos e controladores de camadas substanciais da população. Esses projetos se mostram funcionais, perigosos e ameaçadores aos direitos cidadãos. É preciso sempre estar atento sobre quem dita as regras e com quais objetivos - geralmente pelos benefícios próprios contra o povo.

Nota final de Ceddo:

🌟🌟🌟🌟

26/12/2025

Winaypacha (2017)

Filme peruano gravado no alto dos Andes, em terras inóspitas, quase desabitadas, onde, de repente, até os deuses são dificeis de se contatar. O jovem diretor responsável foi Oscar Catacora, ele com nome do alto grau de premiação americano, mas que faleceu aos precoces 34 anos durante gravação de outra filmagem. Winaypacha também é traduzido com o nome de Eternidade, e seu trabalho não deixa de ocupar essa lacuna na história do Cinema latino-americano.

Com apoio governamental nos incentivos à Cultura, Winaypacha foi exibido em mostra de filmes peruanos. O foco da história são dois idosos que vivem solitários nas montanhas, se comunicam em dialeto diferente do Espanhol, criam ovelhas, contam com um cão, uma lhama e esperam desesperados pelo regresso do filho Antuku, que foi tentar a vida na cidade grande. Em resumo, é uma história muito comum à resistência rural frente à agressividade da migração para zonas urbanas, de modo que são abandonadas pelos jovens as tradições, os modos de vida simples e rudimentares.

Uma das abordagens é a dificuldade que os idosos padecem independente de onde vivem. O idoso Wilkka reclama do cansaço, da exaustão e que certas funções laboriosas não cabem mais ao seu corpo envelhecido. Os diálogos são absolutamente simples, mas carregados de ternura, do carinho de um relacionamento longo onde também não há mais escolha, mais o que fazer, mas que o companheirismo prevalece na sobrevivência do casal nas montanhas. Eles rezam, realizam suas funções de manutenção da casa e colheita e pedem pela volta do filho, o qual eles não veem há muitos anos. Phaxsi, a esposa, começa a perder a esperança do seu regresso. É o assunto principal entre eles: a eterna espera. Em algum companheirismo a história de tecer na espera por Ulisses em A Odisseia, Phaxsi passa boa parte do tempo a tricotar gorros, ponchos e casacos ao exausto marido Wilkka. Produções peruanas de um artesanato que podemos conferir em populares feiras brasileiras.

O filme, que inicia devagar, ponderado na ternura, na simplicidade do modo de vida, carrega contornos dramáticos com o rigor do inverno, com a falta de fósforos que ameaça a sobrevivência conjunta. Wilkka resiste em não querer viajar à cidade, com receio da travessia longa, da exposição aos perigos e do cansaço. Apesar das frequentes rezas e orações, uma avalanche de problemas paira sobre o casal. É difícil não se emocionar com a morte das ovelhas, devastadas por algum predador que eles, pela experiência, supõem ser uma raposa. O cachorro, fiel acompanhante de Wilkka, ao lado da casa ou na necessidade de saídas, também desaparece, provavelmente perdido nas trilhas.

A falta de fósforos e o rigor do frio faz com que a dupla tente interceder pela manutenção da fogueira. Antes, as constantes chuvas obrigaram a construção de um telhado extra com palha. A combinação de fogo com a palha pode ser fatal. Envolto em problemas, o casal vê as forças se extinguirem e a esperança ser um ente distante. É um filme de drama, de reflexão, em que a simplicidade do modo de vida milenar nem sempre supera as adversidades de um clima hostil, quando os problemas se acumulam. A morte precoce de Oscar Catacora relembra a morte precoce do uruguaio Juan Pablo Rebella, promissor diretor latino-americano responsável por 25 Watts e Whisky, duas películas aclamadas pela demonstração do modo de vida classe média uruguaio/argentino. Com dois filmes de simplicidade e potência, Rebella faleceu aos repentinos 32 anos. Em Oscar Catacora, o tributo à vida nos andes, nas montanhas, na ruralidade peruana, distante dos grandes centros como Lima, perto dos deuses, mas estes que nem sempre estão prontos ao atendimento. Nós, silenciosos da vista, da exibição, nos aprontamos a aclamar ainda silenciosos em um inclinar de cabeça.

Nota final de Winaypacha em ⭐⭐⭐⭐

25/12/2025

Xala (1975)

Em pesquisa para confirmar o nome desse filme de Ousmane Sembène, diretor garantido nesses blocos de análises, Xala pode se referir a rituais e feitiços sofridos por uma pessoa. É o que acontece com um político senegalês em Xala. 

Essa é uma bela obra de Ousmane, englobando diferentes assuntos, tópicos que podem atrair mais ou atrair menos atenção para explorar desenvolvimento do filme. Acredito que o mérito para muitas obras está na comunicação, na abordagem de diferentes temas. Isso cria uma riqueza cultural que absorve diferentes envolvimentos com o espectador. Em Xala, se comunica a independência conquistada por Senegal frente à França. Se comunica a corrupção que é persistente. A cultura machista, os casamentos de um homem com várias esposas. O sistema em que empresários são beneficiados enquanto o povo passa fome.

O personagem principal desfruta de prestígio. Usa terno, frequenta a Câmara, convive com outros engravatados. Está às vésperas de seu terceiro casamento. Já é um homem de certa idade. A divisão financeira que impacta a família causa ciúme nas duas primeiras esposas. Mais do que ao homem, parecem temer a posição social em desprestígio, a perda de relevância no convívio, de presentes recebidos no cotidiano. O casamento, o terceiro, ocupa boa parte da primeira metade do filme. Se conhece a desconfiança e o ponto de vista dos filhos já crescidos do sujeito e a convivência ciumenta, belicosa, afrontosa entre as esposas.

No desenvolvimento, ganha relevância a economia, quando o personagem entra em conflito, em atuações suspeitas. Sabe-se que ele lidera uma loja no centro da cidade senegalesa. Interessante que Senegal na época estimava-se abaixo dos 5 milhões de habitantes. Hoje é um país bem maior. O político e empresário demonstra a complexidade da independência. Apesar de sair, em parte, somente em parte, da dominância francesa, o povo senegalês, em grande parte rural, em grande parte campesino, está refém de empresários corruptos, de funcionários que decidem provisões em escritórios com o invento do ar condicionado enquanto a população padece ao sol forte. Em certo momento, em reunião entre o empresariado, na acusação do camarada principal ser acusado de corrupto, de desvio de dinheiro para benefício próprio de seu terceiro casamento, o idioma francês entra em questão. Os empresários proíbem o acusado de se manifestar em um dialeto local, referindo-se orgulhosamente que o idioma oficial do país Senegal é o Francês. Interessante ponto de vista das elites frente a um povo que estima a libertação da herança maldita de um colonizador branco, europeu, violento e saqueador de recursos.

A complexidade deriva em outros temas. Os problemas do acusado começavam na suspeita desse Xala, desse feitiço que causa impotência sexual, quando ele, já idoso e deaconhecdor do raio dos limites, tenta a noite de núpcias com sua recém estimada esposa. Ele não consegue ser pró-ativo na empreitada, não retira a virgindade da jovem e começa uma crise sem precedentes. São problemas pessoais, relacionais na companhia, no comércio, na política, e consequentemente financeiros. Na mescla de modernidade com tradição, o acusado dos delitos ainda tenta retirar esse suposto Xala com um curandeiro, mas, corrupto e atrapalhado que era, não o paga, colocando em risco sua condição de liberto do feitiço.

O cinema de Ousmane Sembène é em prol da África, mas não recai a uma narrativa simplória, unilateral, de heróis e vilões. Parte dos libertadores podem condicionar o povo a continuar na miséria, instituindo benefícios próprios contra a população miserável que espera ajudas que não vêm. A denúncia é da desigualdade entre ricos e pobres, quando a riqueza acumulada pode se dar através de sonegação de impostos, calotes e contratos fraudulentos. Em resposta aos acusadores, o político aponta os dedos de volta, requerendo como resposta à pergunta de qual daqueles empresários na sala não passava também cheques sem fundo. Para além da denúncia ao personagem, o panorama é de empresários corruptos que coagulam entre eles, formam conluios com o povo como outsider, forasteiro. Sembène explora muito os temas dos verdadeiros e incidentes problemas sociais sobre Senegal, desde o que era necessário para libertação ao regime militar francês, como em Emitaï (1971) até esse filme quando passado o processo inicial do recurso da independência. Apesar da independência em relação às maiores forças da França, o jogo de empresários, de controladores do alimento, do arroz e de outras produções senegalesas segue à mercê, à deriva do povo. A revolta popular contra o corrupto, após a dispensa dos engravatados contra ele, decorre nas cenas finais. Sembène mantém um olhar crítico, atento, mas otimista em relação ao potencial que seu próprio povo pode produzir quando liberto de verdadeiras e proeminentes amarras.

Nota final para Xala (1975)

⭐⭐⭐⭐⭐


A linha tênue entre enjoar e esquecer.

24/12/2025

Emitaï (1971)

Emitaï é um filme senegalês, na direção de Ousmane Sembène. O diretor é uma importante Ponte para registros e lutas do povo de Senegal, sendo um dos principais nomes na cinematografia africana, defensor da soberania do continente frente aos colonizadores europeus. Em questão, o filme trata da resistência de uma comunidade, uma aldeia senegalesa ao expansionismo e abusos cometidos pela França.

A época retratada é da Segunda Guerra Mundial, com referências de troca de comando Militar na França, de Petain para Charles de Gaulle. O acontecimento inclusive gera troça no filme, quando senegaleses que haviam se aliado voluntariamente à França questionam como poderia um general duas estrelas suceder um marechal de sete estrelas.

O que ocorria? A França, colonizadora sobre Senegal, capturava homens para os enviarem à força para Europa, para lutarem no front contra a Alemanha nazista. Mas também nem sempre foi nessa toada, pois o próprio Petain era acusado de aliviar para Alemanha, temendo maiores perdas e derrotas, de modo que a rendição francesa se deu menos tumultuada do que poderia ser. Entretanto, para Senegal, a guerra já estava formada e dificultando a população sob o domínio dos generais franceses.

Nessa comunidade, um símbolo e principal alimento era o arroz. Produtores de arroz naquelas terras, os campesinos deveriam ceder a produção para alimentar os exércitos franceses rumo às batalhas. Desfalques incontornáveis. O arroz também é protagonista quando um dos líderes da aldeia falece em ritual de invocação aos deuses e seu ritual fúnebre deveria envolver as cantorias das mulheres e a oferta de arroz.

Mas o arroz estava totalmente em disputa e requisito francês. Os militares que controlavam, que cercavam a aldeia e ditavam as regras tinham ordens superiores de levarem as sacas de arroz rumo aos exércitos em guerra. O filme relata o saque em que os brancos submetem os negros a essas humilhações. As mulheres da aldeia cuidavam dos estoques e se revoltaram em esconder os suprimentos. Até que os sacos de arroz aparecessem, todas foram colocadas sob guarda, sentadas ao chão no sol, algumas com crianças de colo por criar.

No papel histórico, o filme relata como as comunidades africanas se dividiam. Havia os conquistados pela lábia, pelo poder e pelos subornos franceses. Homens jovens que preferiam voluntariamente lutar pelo lado da França mesmo que contra seus compatriotas senegaleses. Na selva, também chama atenção o que poderia resultar problemas de comunicação quando comunidades, cada uma à sua criação, a seu modo, cruzavam caminho. Sem a unificação idiomática, que até hoje em África é tabu, é desafio cultural, pelas separações, reuniões de divisões de fronteira e imposições culturais dos colonizadores, a desunião idiomática poderia se mostrar mais uma forma de conflito que desafiasse a unificação das causas em prol dos povos originários africanos.

Mas nesse filme, o conflito está entre os armados e os desarmados. Os defensores da cultural original e os rendidos aos colonizadores. A força das armas em predomínio à crença aos deuses. O filme mostra rituais de invocação religiosa, ritos, sacrifícios, como de galinhas e cabras, passeatas e danças. É uma mescla documental, dramática e suscitadora de suspense. Embora saibamos dos conflitos entre colonizadores e colonizados, muito e cada vez mais se aprende através dessas mostras. Como recrutaram homens e lhes deram armas, na sedução do poder e de ofertas superiores - como se comprava inclusive a honra. Como muitos resistiram, apesar de tudo. O diretor Ousmane Sembène dedica essa e outras produções aos que resistem em nome dos antigos, em nome do povo de África, contra a expropriação, contra a exploração, contra a velha e a nova escravidão do povo negro.

Nota final de Emitaï em 4,5 / 5




21/12/2025

Dane-se a Morte (1990) / No Fear, No Die

Filme francês da diretora Claire Denis, o longa conta a história de Dah (Isaach De Bankolé) e Jocelyn (Alex Descas), dois migrantes, um das Antilhas, outro de Benin, africanos, negros, tentando sobreviver à França. O contexto é após a colonização de diversos países africanos por parte da França, mostrando a dificuldade desses jovens em se adaptar à mudança de país, aos sub-empregos, à ilegalidade e à frequente ameaça de tornarem-se alvo de operações policiais.

O centro da trama são as rinhas de galo, em que os garotos, sendo sócios, protegendo-se um às costas do outro, elaboram parcerias e organizam o ambiente, os treinamentos e as batalhas nos fundos de um restaurante, um café sub-urbano. O sócio dos garotos é um magnata influente e mau caráter. Ao longo da trama, todos se envolvem de alguma forma, criando afetos pela garçonete Toni, que atende no restaurante que serve de fachada ao maior fluxo de caixa: as rinhas de galo.

Um ponto importante do filme é a consciência dos migrantes, quando, por exemplo, sintomaticamente, Jocelyn observa que aquela história não duraria para sempre. É a tônica de programações clandestinas. Tráfico de drogas, tráfico humano, rinhas de galo clandestinas. Nada disso favorece a quem está ganhando por muito tempo. Clientes insatisfeitos, denunciantes, policiais à paisana e, no caso das rinhas de galo, a própria inconstância na dependência da saúde dos animais. Lutam galos, lutam francas, Jocelyn as prepara e até se afeiçoa. Ele, distante de casa, com saudade da família, com sua breve história de vida narrada pelo companheiro nessa partilha.

Os homens brancos, é óbvio, tentam se aproveitar deles. Fazem com que morem no mesmo ambiente onde ao lado ocorrem as disputas. Cobram disposição, preparação, divisões desiguais. O negócio era de fato uma contra-relógio, em um drama que se arrasta com algumas formas de violência, sejam as mais diretas, na luta clandestina com os animais treinados a dedicarem-se a isso, seja na violência de gênero em que Toni é cobiçada e submetida às escolhas de terceiros, ou a violência de classe, ao mesmo tempo racial, da controladoria dos negócios dos homens que ameaçam, por vezes, deportar os forasteiros. A clandestinidade como uma corda bamba, como uma bomba que pode ser desarmada ou explodir no corte de um fio errado.

O nome do filme é sugestivo, inspirado na nomenclatura de um dos animais de briga. Ao longo do filme mesclam-se questões como o direito dos animais, a necessidade dos jovens em sobreviver, evocando esses debates morais na reflexão de cada espectador. Os animais eram alimentados, treinados e até afeiçoados, principalmente por Jocelyn, com muito esmero e cuidado. Mas, o produto final dessa criação são as lutas, que provocam dor, violência e a sangria das pequenas aves. No clímax, toda a pressão sobre a cabeça de Jocelyn pode ser fatal. Não só sua sobrevivência em ambiente estrangeiro e hostil, a pressão para receber algum dinheiro que sobre para futuros planos, pois ele tinha a consciência de que aquilo não duraria para sempre, e a paixão que era evocada sobre a pessoa de Toni, pela qual os sócios, brancos e negros estavam interessados. Não há outra mulher a circular no filme por aquele ambiente masculino, tóxico, como dizem, em atmosfera que os clientes gostariam que lembrasse cada vez mais das disputas originárias de latino-américa, como de Porto Rico.

Nota final em 3,5 / 5

18/12/2025

A Memória Fértil (1980)

Mais documental do que fictício, o longa de 1h39min acompanha a vida de duas mulheres palestinas e suas distintas funções sociais, seus modos de encarar os problemas. Uma é viúva, dona de casa, que criou dois filhos sozinha. Outra é uma mulher moderna, que sai para trabalhar, escritora e professora de literatura.

A viúva de mais idade se queixa sobre a falta de terras, pois o filme nunca perde de vista a história entre Palestina e Israel, Israel e Palestina. A introdução do longa aborda de forma escrita a cronologia em que foi definido por conselhos europeus, sobretudo britânicos, que os judeus seriam reunidos na Palestina. A Palestina em si estava então sob domínio dos britânicos. Após o genocídio da Segunda Guerra Mundial, foi declarado em 1948 o Estado de Israel em terras palestinas. Sob a alegação de "ausentes", muitas propriedades foram tomadas pelos novos moradores judeus. Houve, entre os acontecimentos, a Guerra dos Seis Dias e o confronto de ataques de Israel em escalada ao Egito, a Guerra de Suez. Tudo isso impactou com a ocupação de Israel cada vez mais a dentro da Palestina, com postos militares, instituição de leis e regras como toques de recolher, apropriação dos recursos na tomada dos postos de trabalho e ditames para contratações, colocando em risco sob desemprego e mapa da fome para milhares de palestinos.

É nessa queixa que se orientam os votos da viúva, que reclama suas terras familiares perdidas há cerca de 30 anos (quando gravado o filme em 1980). Ela permanecia na esperança de recuperar a terra, enquanto outros de seus familiares já haviam tomado rumo para Líbano e Jordânia. Os filhos pretendiam aceitar a conciliação por trocar qualquer demanda por aquela terra em troca de outra. A viúva, insistente, para eles teimosa, seguia na ânsia de recuperar o local de sua primeira morada, herança de seus antepassados.

"Quando se luta muito contra a realidade, contra as forças exteriores, não sobra tempo para lidar com a vida interior". É o ensinamento nesse filme em que as mulheres, dentre todos os habitantes na Palestina, têm de lidar com os problemas internos de sua sociedade, além do que é imposto a todos pela política militar israelense.

Acredito que o grande conflito do filme, das vivências, seja o conflito entre progressismo e conservadorismo nos dois estilos. Surpreende que a viúva, conservadora quanto ao estilo de vida das mulheres, seja a que mais lute por suas terras e direitos palestinos contra Israel. A escritora, trabalhadora assalariada, à primeira vista progressista pelo direito de estudar, de lecionar, de trabalhar fora, se respalda mais a esse modo de vida israelense em que a mulher está emancipada financeiramente, sem depender tanto de um marido, sem estar atrelada a machismos culturais. Isso é complexo de se entender, pois é uma diferente cadeia de lutas, de pautas e até de consciências (de classe).

Ao mesmo tempo, a professora é consciente da submissão palestina ao exército de Israel, o que ela repassa através da literatura, das canções populares e de seu conhecimento em História. De modo mais informal e sentindo mais na pele, a dona de casa viúva também sabe disso. Um ponto de vista interessante da professora não ter empregada doméstica é que ela até tenta justificar pela divisão de seu salário, mas sua principal justificativa é que não é justo que as tarefas caseiras mais ingrata receiam sobre outra pessoa, o que seria responsabilidade sua. Para ela, escravizar uma pessoa assim também gera uma angústia, uma escravidão, uma privação sobre o opressor. É um sentimento de culpa que pareceu faltar na era colonial, na exploração de muitas nações sobre as outras, inclusive no próprio conflito: exploração de Israel sobre a Palestina.

Desde a década de 80 e de antes, se questiona essa contradição entre o papel da mulher pela libertação de um Estado mas em meio a uma cultura que a reprime. A escritora confessa vontade de fugir, mas se reorienta, pensa também nas boas pessoas de seu Estado, recoloca-se em voga por suas aulas, por seus alunos, o trem de volta aos trilhos. Ao passo que Israel numa cultura dita Ocidental daria maior liberdade contra a repressão da mulher, é a ocupação, a invasão do Estado de Israel por sobre a Palestina que provoca uma repressão generalizada sobre o povo que ali já ocupava. A perda de direitos de ir e vir, de cultivar, de gerir, de acesso ao mar, aos portos, às mercadorias. É muitas vezes o direito à herança, ao solo, à pátria e à cultura.

"O passado não pode ser esconderijo. Nem o presente. Há fuga e há luta. A mulher está presa entre elas."

Ao final, o filme homenageia 

Aos torturadores de homens cegos

Aos exércitos conquistadores de pequenas aldeias

E

Aos açougueiros de infância.

Sinopse

Primeiro longa-metragem filmado dentro do território da Palestina chamado de “Linha Verde”, localizado na fronteira com Egito, Jordânia, Líbano e Síria, combina ficção e documentário ao narrar a história de duas mulheres muito diferentes: Farah Hatoum, uma viúva de 50 anos e trabalhadora de Nazareth, e a escritora Sahar Khalifeh, que se divorciou e vive com a filha na área de West Bank, em Ramallah, região ocupada por Israel desde 1967. O diretor observa bem de perto o dia a dia das duas mulheres e elabora um retrato da condição da mulher na sociedade palestina, da vida dirigida pela ocupação e da dominação masculina. A história, a realidade, o futuro, as contradições da Palestina são refletidas através destas duas mulheres, a intelectual e a trabalhadora braçal – ambas na luta por liberdade e dignidade.

16/12/2025

El Sur - de Victor Erice

O filme O Sul (El Sur) do diretor espanhol Victor Erice é interessante por muitos aspectos. A história narra o contato e a distância entre a menina Estrella e seu pai, Agustín. O filme é repleto de lacunas a serem preenchidas pela mente em desenvolvimento da jovem ou pelas leituras do espectador. Sabe-se que Vitor gostava de posicionar questões políticas veladas em suas obras.

Também com a presença infantil da menina em Espiritu de la Colmena em 1977, a inocência e o descobrimento, a imaginação e as reinterpretações estão presentes nas obras. No filme mais antigo, é na presença de um soldado buscando refúgio da guerra que a menina defronta as questões que permeiam a Espanha da Guerra Civil (1936-1939), movimento de interesse e fundamental acontecimento na Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Também sobre esse período, assisti ao Terra e Liberdade (1995), direção e história britânicas a permear a Espanha com os confrontos inclusive entre Anarquistas e Stalinistas em Barcelona, quando ambos os grupos deveriam unir forças contra as tropas de General Franco.

Em O Sul, esse dito Sul permanece inexplorado, no imaginário, saudoso e idealizado. A menina Estrella não o conhece, mas lê em registros, ouve falar. Seu pai é de lá, da região mais ensolarada de Espanha, onde mais habitaram os mouros, ocupantes, desenvolvedores, e relativamente expulsos na história. É lá que há noites luminosas, dançantes, comida árabe, arquitetura distinta. É a terra do pai, o médico Agustín. Esse está cada vez mais fechado, distante da família, trancado em um quarto para desenvolver projetos e experimentos não bem descritos. A visão do espectador é oculta como a de Estrella, que fica a imaginar o passado e o presente desse pai, que está ali, mas se ausenta.

Até em manobra para chamar atenção, Estrella se esconde embaixo da cama. A mãe e a empregada se desesperam em turnos para procurá-la, mas o pai não transmite palavra, não deixa seus aposentos. Estrella está em crescimento, o filme navega sua puberdade, ela conhece um menino, chamado de El Carioco, levado, inexistente nas imagens (apenas uma chamada telefônica entre eles aparece). Ele picha um muro, quer Estrella para ele, comunica que já teve outras meninas e é capaz de muito. A jovem não se assusta muito, nem seu pai, quando os trâmites lhe são comunicados. É um sujeito bonachão e saudoso de aventuras, no fim das contas.

O Sul é mais uma obra sensível de Victor Erice. O filme é composto nos detalhes, o pêndulo que a menina carregava, explicado pelo pai, para seu uso e precisão. Uma volta deles de moto quando ela ainda era a garotinha. Ela sozinha de bicicleta pela mesma alameda de muitas árvores, uma beleza natural de cenário estonteante, mas a mudança de puberdade, de idade, de significado e reações. Incluso o filme é feito para um aspecto frio, de silenciamento, de inverno, de alguma solidão. São personagens introspectivos com questões mal resolvidas. São investigações silenciosas. A menina que busca conhecer um pai que cada vez menos se abre, que cada vez menos conversa e interage com a família. Será outra mulher? Será uma atriz de cinema, Irene Rios, que seu pai conheceu no passado e sente falta? Ou o que mais lhe falta ao médico trancafiado? O que representa esse Sul inalcançável?

Fontes afirmam que Victor Erice pretendia prolongar o filme com uma segunda parte que o levaria para casa de três horas de duração, em que Estrella, cada vez mais crescida, independente e disposta, viajaria para encontrar esse Sul da Espanha com a família de seu pai, desvendando mistérios inculcados em sua cabeça. Porém, a não realização dessa segunda parte permitiu que o Sul se tornasse metafórico, inalcançável, inconcebível. Uma espécie de exílio dentro de um próprio país. Essa ideia muitas vezes passa despercebida pelo espectador, pelo apreciador de arte que não vive ali. Que imagina uma Itália unificada, apesar da evidente separação entre as diferentes regiões do país, uma Alemanha unificada mesmo com o que separou o século passado entre Ocidental e Oriental, mesmo a Baviera podendo ter sentimentos de independência, mesmo um Reino Unido apenas no nome para as ilhas ao Norte desses acontecimentos. A Espanha, então, viveu os conflitos de Guerra Civil, de unificação anterior após muitos reinados desfeitos, tem a questão evidente dos separatistas bascos e dos catalães em questões já tidas como históricas - e até hoje polêmicas e pouco solucionáveis para ambas as partes, separatistas e unificadores, população geral e economistas. 

Esse Sul que permanece inexplorado, a não ser pelas cartas e pelas tentativas imaginárias e investigativas de Estrella desvendar. Essa menina que se sentia deslocada, tem universos novos a explorar, como os estudos, o sexo oposto e que precisava mais da palavra do experiente, sensato e bonachão pai. Mas são utopias. São famílias que muitas vezes estão juntas apenas na moradia, aos olhares de quem vê de fora. E vendo de fora, como é o Sul ou o Norte que se imagina? Na vida de cada um.

13/12/2025

Sidarta, de Hermann Hesse

Sidarta foi publicado originalmente em 1922, período entre guerras, após uma viagem de Hermann Hesse a Índia, por 1911. O aclamado escritor alemão ficou maravilhado com a cultura local e dedicou ensinamentos na escrita baseada em preceitos budistas. Sidarta é o nome do Buda original, que teria fundado a religião ainda antes de Cristo, pela comparação temporal - mas não muitos séculos antes (anos 566-486 a.C). Na história de Hesse, Sidarta é um menino indiano que ao alvorecer da adolescência decide sair de casa, influenciando o amigo Govinda. Eles deixam a aldeia onde viviam e aprendem sobre sobrevivência e a vida na selva. Cruzando por peregrinos do budismo, aceitam a missão de esperar, pensar e jejuar, sobrevivendo com oferendas, com o mínimo necessário, nas extrações da natureza e na solidariedade das pessoas com quem cruzavam no caminho.

Sidarta tinha um espírito irrequieto e, passados alguns anos, caminhando para idade de jovem adulto, resolve deixar a doutrina do Buda para tentar a vida na cidade. Ele conhece a encantadora Kamala e com ela, indiana possuidora de um parque, de casa grande com criados, pretende descobrir os encantos do amor. Kamala apresenta para Sidarta uma outra proposta de vida, com luxo, com jogos de possuir, ensinando a ele que necessitava de um emprego, de roupas e sapatos dignos do posto que ocuparia, inclusive ao lado dela, que recebia outros homens, convidados e figuras de realeza. Dessa forma, foi agendado para Sidarta um emprego com o comerciante Kamasvani, um dos mais ricos da região. Sidarta tinha a vantagem sobre outros meninos ao saber ler e escrever, assim, logo conquistando a confiança de Kamasvani como um importante sócio. Nesse período, Sidarta faz cobranças, cálculos, conquista mercados e bens pessoais. Embora encarasse o que Kamasvani e os demais consideraram essencial como um mero divertimento, uma tolice, Sidarta aos poucos cede a diferentes vícios, o do amor por Kamala, o dos bens materiais arrecadados e até o vício em jogos como o jogo de dardos - o que poderia se atualizar ou descambar em jogos de cartas, apostas, etc.

O cansaço dessa situação leva Sidarta a abandonar essa vida tempos depois, assim como havia deixado a peregrinação dos chamados samanas, seguidores do iluminado. Então Sidarta volta para selva, onde se reencontra com um balseiro, um remador chamado Vasudeva. Eles já haviam se cruzado pelo caminho enquanto Sidarta vivia dos bens materiais proporcionados pelo comércio. Dessa vez, interessado na vida simples do homem solitário, Sidarta resolve acompanhar o cortês remador na vivência em uma cabana isolada, ribeirinha, descobrindo um pouco mais sobre a solidão daquele senhor que escutava o que o rio dizia. Sidarta reconhece na figura do ermitão um grande ouvinte. Passagem interessante do livro, em que, desde a publicação há mais de século, em 1922, já era identificado o problema maior das gerações vindouras: não escutar o outro, não ser um ouvinte atencioso, não se "absorver", não se compadecer dos problemas de outrem com objetivo de ajudar. Pelo contrário do que as pessoas demonstram em seus egos inflados, em sua exaltação ao umbiguismo, o veterano Vasudeva era um grande ouvinte, inspirava compreensão, com olhar cúmplice, sorriso benevolente e mão amiga a repousar sobre os ombros do confidente Sidarta. O viajante contava a vida, seus obstáculos e apreensões ao balseiro.

Mais do que preceitos, dogmas e religiões, Vasudeva acreditava em ouvir a natureza, a torrente das águas, adquirindo respostas para questões existenciais. Reaprendendo a sobreviver da natureza, Sidarta tem um derradeiro reencontro com Kamala, que estava em peregrinação, pois o grande buda dos samanas estava para morrer. Pessoas cruzavam o rio onde viviam Sidarta e o balseiro em busca da despedida do líder pregador. Sem saber, nessa viagem, Kamala se despedia das riquezas materiais. Ela levava consigo o filho criança, o pequeno Sidarta, que o pai Sidarta todavia ainda não conhecia. Mas era o destino. Na travessia pela floresta, antes de chegar ao rio, Kamala foi mordida por uma cobra e o veneno a deixava nos piores lençóis. Levada para cabana do balseiro, o protagonista tenta salvá-la, mas percebe a vida a extinguir-se dos sinais de Kamala. Assim, Sidarta herda a criança para seus cuidados. Eles logo percebem que não havia aptidão, pois a vida do pequeno Sidarta com criadagem, com pessoas a realizarem as tarefas por ele era totalmente diferente dos perrengues da selva. Sidarta tenta ser paciencioso, amoroso, zelador pelo menino, mas a incompatibilidade entre ambos logo é sentida pelos três moradores da cabana florestal.

Apesar do livro percorrer uma trajetória de filosofias e pensamentos sobre como levar a vida, é a partir da separação do Sidarta pai com o Sidarta filho que as questões se aprofundam. Sidarta nota o ciclo da vida, relembra de como se separou de sua família para nunca mais vê-los, como se tornava incompatível viver na aldeia e assim preferia, ao lado do fiel, Govinda, investir na selva, a seguir os samanas. Govinda, por sua vez, persistia na busca pelas respostas, na dedicação às orações, na procura pelo eu. Era seguidor ferrenho da filosofia dos samanas, mesmo após a morte do grande líder.

Sidarta encara o ciclo da vida, pensa em seu pai, que não teve mais contato com Sidarta até uma desconhecida morte, e nota sua situação semelhante: separado, incompatível ao filho que escolhera retornar à cidade, não sem antes proferir ofensas ao modo de vida isolante do pai. Sidarta envelhecia e escutava o rio, que simboliza as mudanças. Sidarta anula a percepção do tempo, pois ele era ao mesmo tempo o menino aldeão e o idoso, assim como o rio corre a todo tempo, da sua nascente, à foz e onde desagua.

Para o final, vem à tona a conhecida frase em que amar e mudar as coisas (Belchior vive) interessava mais à Sidarta do que qualquer teoria, qualquer dogma, quaisquer ideias que, para Sidarta, eram apenas palavras. Essa era a diferença fundamental no encontro final entre ele e o envelhecido Govinda, eles se cruzando pelo caminho em uma terceira oportunidade. Sidarta que havia experimentado de tudo, Govinda ainda fiel aos ensinamentos samanas. Govinda tentava encontrar respostas. "Parece que meu destino é jamais abandonar a busca" (P. 114) Mas Sidarta acreditava no gesto, na ação, na natureza, na escuta do rio, que teria todas as resoluções.

À essa altura da história, já haviam falecido o balseiro, o buda de tantos milhares de seguidores, Kamala, a cortesã de casta abastada, e o filho de Sidarta tinha realmente fugido para não mais voltar. Solitário, Sidarta trava essa última conversa com Govinda, sempre fiéis amigos nesses reencontros, cada qual crente em suas buscas. 

"Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos acha-la, podemos vivê-la, podemos consentir com que ela nos norteie, podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la" (Sidarta, P. 117) Assim, o protagonista acredita que não era possível chegar a esse brama, a esse nirvana. Eram apenas palavras, não uma doutrina com regras, como modus operandi. Mais do que tentar seguir conselhos com palavras valeria escutar o rio, as vozes e transformações da natureza. É uma forma de encarar a vida, em que, para nós cidadãos citadinos, conhecimentos técnicos, instalações, programações e construções são mais valoradas do que os que conseguem da natureza viver e extrair o que precisam, sem subjugar, sem destruir, sem desviar o que pode causar efeito rebote amanhã. "Nada é totalmente Sansara ou totalmente Nirvana. Homem nenhum é totalmente santo ou totalmente pecador", concluía Sidarta. Ele que há muito tempo havia deixado de debochar, de se sentir soberano e prepotente sobre os acumuladores de bens materiais, os seguidores cegos da beleza carnal, adeptos da luxúria. Ele que procurava entender o próprio filho, porque aos viciados em jogos, em poder, em dinheiro, assim era a vida que haviam sido ensinados, que haviam tomado contato e conhecimento, assim eram os valores a eles demonstrados e ensinados a perseguir. Sidarta procurava a humildade de entender que o ser humano percorreria diferentes buscas e, independente desses objetivos, procuraria ele Sidarta amar e mudar as coisas, como ensinar seus passageiros de jangada a escutar e respeitar as vozes do rio. Entendia ele que os preceitos eram importantes no que levasse ao companheirismo, ao amor pelas criaturas e que, no fim das contas, não caberia a ele Sidarta julgar os demais com as diferentes réguas a que ele havia conhecido e se medido. Respeitosamente nessa despedida de Govinda, quando se unia a todas as criaturas, de tempos imensuráveis, Sidarta estaria se aproximando do devido nirvana, ou ao menos do conceito que imaginamos.

12/12/2025

Charles Baudelaire - Cuadernos de un Disconforme

Neste livro reúnem-se anotações, pensamentos, poemas, contos e finalmente ensaios do escritor Charles Baudelaire, um dos mais importantes da França do século XIX. Em seus poucos mais de 40 anos, Baudelaire causou polêmica, foi censurado, foi acusado de flertar demais com o mal - como está nas Flores do Mal - e terminou a vida em padecimento, doente sobre uma cama - nada de tão anormal quanto a isso.

Através desse livro lido em espanhol, nessa reunião interessante de diferentes gêneros e assuntos explorados pelo icônico escritor, desafia-se a ordem ao tragar-se novos conhecimentos sobre as relações de amor, de religião e de saberes e valores sociais, como a interessantíssima discussão final sobre os flaneurs, os dandis (que aparecem no decorrer do livro) e sobre a posição do artista frente a arte, no desafio da criação e da reprodução.

Envolvido pela história de um certo Sr. G, que Baudelaire mantém em segredo a identidade pela vontade do criador, o escritor debruça os atos da criação proporcionados pelo Sr. G, na arte da pintura e da escrita. Acredita Baudelaire que os grandes criadores são aqueles impulsionados por espasmos de criação, reféns das interpretações e das lembranças, e não meros reprodutores naturalistas, como a muitos acreditaram. Cita grandes pintores de sua época e desde o Renascimento na Europa, em que o vislumbre, a contemplação, o alarde, o marcante das obras era soberano sobre as próprias impressões realistas. Uma espécie de "Quem viu não esquece".

Outro debate importante é sobre as escolas dessas artes, pois Baudelaire acredita na mudança dos tempos e que os aprendizados servem para reprodução, para os ensinamentos de uma determinada época, mas a humanidade persiste em avanços, em novas etapas, em novas técnicas e percepções. O mesmo poderia ser observado incluso na própria ciência que, por meio de novas experiências, descobre caminhos, benefícios e malefícios antes ocultos, não se restringindo aos resultados de outrora, em contínuos avanço e descobrimentos. Quanto à arte, as impressões, os traços, as batidas, os costumes de uma época não serviriam para representar um século seguinte, ou tão mais rápido sejam as mudanças dos ventos de nosso cotidiano.

Nesse processo de criação para além do aprendizado, do sabido, do conhecido, Baudelaire demonstra confiança e interesse em artistas cujas mentes tenham esse poder de ir além, essa inquietação, esse transbordo por sobre os trejeitos já aceitos. Baudelaire elogia e usa de exemplo o tal sr. G, o qual ficamos sem conhecer a identidade, de gostos refinados, flaneur e cosmopolita de atuação francesa.

No livro dos registros desses ditos cadernos, Baudelaire também oferece notas pouco traduzíveis ou inteligíveis pela falta de contexto das anotações, recados e comentários sobre artistas e pessoas públicas da época, e aforismos, como o que acredita que Deus é o único que nem precisa necessariamente existir para exercer seu poderio. Algo como o aforismo da dúvida de se os deuses criam os homens ou os homens que criam os deuses.

O eterno combate ao fastio e ao tédio é a luta de Baudelaire e do que ele acredita ser um exemplar artista. A imaginação, a mente em constante inquietação e necessidade criadora tornam as caminhadas, o ato constante de indignação dos dândis e a exploração dos flaneurs como instrumentos para criação artística. O próprio amor também é debatido à época sobre sua volúpia inicial que praticamente inevitavelmente resulta a posteriori no fastio devorador e derrotado do ser humano. A convivência com sociedade devassa e com uso de ópio e outras substâncias conferiu a Baudelaire lendas e maldições (maledicências). É gratificante o reconhecimento de sua filosofia, suas rimas e poemas traduzidos e aforismos que em algo nos acrescentam para conclusão da leitura do livro com nota em:

⭐⭐⭐⭐



11/12/2025

É Noite na América (2022)

É Noite na América é um documentário de 1h06 em uma co-produção entre Brasil, Itália e França com assinatura de direção da jovem Ana Vaz. Nascida em Brasília, sendo ela um pouco mais jovem do que a jovem capital federal, Ana tinha à época 36 anos e mostrou o comportamento brasiliense em relação com a fauna local.

O ponto de vista dos animais é fundamental na narrativa, em cena marcante que, enquanto nosso olhar não se volta aos bichos, no filme se volta aos bichos, mas, mais do que isso, é elaborada uma reflexão em que o interno dos olhos animais confrontam a relação com a humanidade. Os animais nos olham de volta. O filme avalia a situação de onças pintadas, ariranhas, saguis, serpentes e tamanduás bandeira e mirim, entre outras espécies, muitas delas na ameaça pela extinção. A culpa humana é delegada em imagens e entrevistas. O crescimento desordenado de nossas cidades em contraponto à perda de habitat da natureza é o resultado da mostra documental.

Brasília é exibida desde sua fundação, desde imagens antigas de zoológico, passando por seu crescimento em novas ruas, arquitetura e rodovias que cortam o Planalto Central brasileiro. O zoológico aqui não é mostrado como culpado ou capturante para excluir da natureza. Pelo contrário: o zoológico é uma resistência de animais que foram salvos, mas não tem maior condição de voltar para o habitat natural. Dessa forma, espécies são realocadas em cativeiros e convivência com semelhantes em menores espaços artificiais, mas como forma de manutenção do indivíduo, não de desproteção ou exclusão da espécie.

Como forma narrativa, o documentário traz entrevista e imagens de cuidadores, exemplo de chamada telefônica para o controle ambiental e demais autoridades em como lidar com o resgate e captura de espécies ameaçadas - e às vezes ameaçantes - na perigosa cruza entre ser humano e animais nativos. O filme de Ana convida à reflexão do papel humano em seu crescimento desordenado, desordenante de recursos e de proteção animal e vegetal. Como a selvageria das rodovias cortam o habitat de animais como os tamanduás, os maiores ameaçados de extinção ao passo que ao menos os mirins estão mais seguros, mas muito em função de estarem espalhados pelo território de diferentes países, inclusive ao território andino, mais afastado. Os bandeira, ao contrário, estão extintos em alguns estados como Santa Catarina e necessitam de grande proteção onde ainda resistem. Triste pesquisa resulta após o filme em descobrir que a pequena cidade de Ariranha no estado de São Paulo tem população humana superior à população total estimada das lontras ariranhas em nosso país. Mais uma perda preocupante da ordenação humana descontrolada, das caças e da violência de nosso convívio agressivo com as espécies nativas.

De Brasília, cidade criada mais artificial que outras artificialidades das construções brasileiras (nem entremos na invasão europeia à mata nativa sobre os indígenas), de Brasília percebe-se o estimulante centro cada vez mais em densidade populacional, em exploração de recursos e transposição comercial para dificultar a manutenção e sobrevivência das espécies. É importante o trabalho relatado no documentário de Vaz porque alerta sobre risco de explorações que podem se tornar irreversíveis, às pobres espécies cada vez mais indefesas e à própria humanidade em seu convívio desarmônico no que tange o clima e a natureza geral. A cena final da queda d'água dá ideia entre o mutável e o imutável, da avalanche de desgraça que o ser humano provoca e da avalanche de resistência que a natureza se permite em seu fluxo, por assim dizer, natural.

Nota final para É Noite na América:

⭐⭐⭐⭐

08/12/2025

Stray Dogs (2013) de Tsai Ming Liang

Filme lançado em 2013, Cães Errantes tem esse nome forte para provocar impacto, seu objetivo como um todo. Comparar a família de humanos a cães pode remeter ao mau tratamento que o capitalismo, que as grandes cidades, que as demais pessoas prestam aos semelhantes, apenas, no caso, mais pobres. Mexe inclusive com os protetores de animais, guardiões de cães e gatos, pessoas que não prestariam tratamentos tão ruins sequer a outras espécies como essas.

Tsai Ming Liang é um diretor malaio, conhecido por filmes de narrativas lentas, mas profundas, com a densidade na produção de imagens impactantes, jogos de cena com o aproveitamento de cenários e cores. Exige muito que seus atores mantenham a compostura, o enquadramento e a fissura ocasionados pelas cenas. Explora temas como a solidão, o sentimentalismo, a nostalgia, e aqui em Stray Dogs joga com o sofrimento da família protagonista - em um filme de pouquíssimos atores. A família é composta por um pai e suas duas crianças. Enquanto ele tenta ganhar a vida pelas ruas de Taipei, norte da ilha de Taiwan, as crianças vagam (errantes) pelo espaço urbano, rural desabitado, ribeiro, mas sobretudo ao lançar mão do contraste de ambientes e dos perigos que as cercam. As crianças sozinhas poderiam se meter em grandes enrascadas, visto que o irmão maior, responsável nessas horas pela caçula, é poucos anos e centímetros mais velho e mais alto. No espaço rural, os perigos de animais peçonhentos ou mesmo de caírem, de se machucarem, de fuxicarem onde não devem. No espaço urbano, a errância por ruas, em meio a estranhos, na impessoalidade característica das novas organizações sociais das metrópoles. Os irmãos percorrem ruas e shopping centers onde buscam transcorrer essa infância entre brincadeiras, imaginação e necessidade fisiológicas. Para se alimentarem, necessitam de provas, amostras grátis de supermercados. Vivem de cafés, misturas, molhos e o que for possível arrecadar. Em uma escolha duvidosa, a pequena opta por comprar um repolho, que acaba por se tornar, na verdade, um brinquedo para dupla, que a disfarça em forma de mulher. 

O desespero do pai, inclusive, traz cena impactante em que, na ausência feminina, se deslumbra com a boneca de repolho deitada ao seu lado. Cospe o disfarce fora e se alimenta da verdura aos pedaços, com o gosto amargo da verdade que lhe saltava à vista. Além da alimentação precária, os hábitos de higiene são por meio de banheiros públicos desses locais, os shoppings centers e os supermercados. A moradia para passarem as noites, em busca de proteção de chuva e insetos, é com o teto de prédios e casarões abandonados. Eles são como nômades à procura de um espaço e do mínimo de dignidade. Uma figura que fez parte de minha infância e aparece no filme é a da rede tida como mosqueteiro para impedir a passagem de insetos durante o sono. Quando em minha infância vivia para proteção dos mosquitos, as crianças do filme poderiam ser importunadas por criaturas piores, de barata para pior.

O emprego informal do pai delas é das contribuições mais destoantes, no mergulho à desigualdade da proposta de exibição do diretor malaio. O pai nada mais é do que um outdoor humano, um cartaz nas sinaleiras, nos semáforos de Taipei. Enquanto carros e motos se digladiam pelas avenidas de luxuoso asfalto em veículos custosos, o sujeito perambula na desorientação de segurar letreiros com promoções que não lhe competem conferir. Por exemplo, promoções de quartos de hotel e anúncios de classificados fora de sua pouca enverdura financeira, para fora de seu alcance.

É com esses anúncios que ele retira misérias de garantia para tentar refeição junto aos filhos no cair da noite e retomarem a jornada para moradia improvisada. Recordo post recorrente nas redes sociais sobre os imóveis parados e as pessoas sem teto. Quantos vendedores ambulantes, camelôs, flanelinhas, limpadores de vidros e outdoores humanos pelas ruas e sem bem para onde ir ao final de cada extenuante e desesperançosa jornada? Trabalham informais aos montes, estatisticamente até contabilizados, mas diariamente ignorados por ineficientes e desinteressados poderes públicos. Pelas Taipei de Leste a Oeste do Mundo se escondem em moradias improvisadas, insalubres e construtoras de infâncias capengas e perdidas.

É com suspiro de esperança que na parte final de lento filme uma mulher surge para condicionar a família a novos rumos e as crianças passam a receber maiores atenções, histórias infantis, fábulas, novas possibilidades, como e principalmente a de estudar. Fazendo lições de casa com o acompanhamento da mulher surge um sorriso de esperança ao espectador congelado pela perspectiva antes tão ilhota e fria. Ao mesmo tempo, na crítica que sempre lhe cabe, o espectador se pergunta sobre o papel social da mulher em diferentes culturas, parecendo atrelar a ela e somente a ela o equilíbrio familiar, o cuidado infantil e ainda por cima a figura de tutora dos primeiros anos de alfabetização, resultados garantidos em números estatísticos e totais da grande maioria de professoras no ensino e na pedagogia. É no acúmulo de tarefas que muitas dessas mães e professoras se frustram no cotidiano. Cabe ao pai nesse filme somente após longa cena de mais de 7 minutos dos atores parados perante um quadro de paisagem na moradia antes abandonada, cabe a ele com abraço agradecer a presença nova no convívio familiar, seguradora e garantidora de restabelecer equilíbrio àquelas pobres vidas, não como solução definitiva, mas apaziguadora.

Nota final para Stray Dogs:

⭐⭐⭐ e meio



O Carroceiro (1963) + Tauw (1970)

Ousmane Sembène é um diretor do cinema senegalês, responsável por grandes trabalhos que demonstram a vida no país sub-saariano. Os filmes aqui explorados remontam ao período em que a influência francesa ainda era tremenda sobre os colonizados, em um ambiente de crescimento das cidades como Dakar, com as dificuldades de sobrevivência com as novas exigências para empregos e moradia a famílias.

Mais aclamado entre esses dois filmes é o Carroceiro, de 1963. Um sujeito sai para trabalhar todos os dias com sua carroça puxada por um cavalo. Ele vive de fretes e pequenos serviços sob contratação. São transportes para mercadorias ou de pessoas. A função do carroceiro, mediante um trânsito que começava a congestionar da presença de carros, se assemelha à função dos motoristas de aplicativo nas selvas de pedra recentes, passado mais de meio século. Entre histórias que ilustram seu cotidiano, há contratação para frete e para buscar uma mulher grávida e levá-la até a maternidade, a tempo para que seja amparada pelo trabalho de parto. Na viagem, um incômodo lhe acomete com uma roda que ameaça a travessia, rangendo e preocupando o transporte.

Em uma missão ousada, o Carroceiro é contratado para uma encomenda em um bairro de ricos, evidenciando o tremendo distanciamento entre os bairros que convive, entre casebres e mazelas e a área asfaltada, mais urbanizada, arborizada e floreada por apartamentos modernos e de arquitetura deslumbrante. Antes da partir pela missão, ele conversava e era alertado por um companheiro dos riscos de trafegar nesse bairro nobre, local de proibido acesso aos pobres. Ignorando o alerta, o carroceiro parte na busca, interceptado por um guarda que lhe pergunta por documentos, habilitação e autorização para dirigir ali. Humilhado e multado, o carroceiro, sem alternativa financeira, é obrigado a abandonar sua charrete (termo escutado igual em francês) e volta de cabeça baixa apenas com seu cavalo. Ele foi abandonado pelo senhor que o contratou, sem sequer o dinheiro do frete para que havia sido contratado, deixando para trás seu meio de trabalho para que os homens ricos lhe aplicassem a multa. O Carroceiro reclama de ter sido enganado, é vítima, foi surrupiado.

"Eles aprendem a ler e a mentir", reclama na viagem de volta. A desigualdade pela cidade é evidente, ele resmunga sobre a diferença das casas, observa o crescimento da cidade como um crescimento impessoal em que não se pode confiar nas pessoas, diferente da convivência aldeã. Com apenas seu cavalo, ele ainda precisa retornar para casa, para o convívio com a mulher, com o peso da humilhação sofrida em mais um dia de trabalho, do qual ele se pergunta os valores de todo o esforço empreendido, se o dia de anteontem, se o de ontem, se o de amanhã nada mais reservam para seu usufruto.

Em recordo do desenvolvimento do filme, em jornada de trabalho ele chega a desistir de almoçar em casa para que aproveite um dia mais movimentado, em que estava sendo bastante requisitado em serviço. Sem saber o que a mulher inventaria para dar conta do almoço, ele se contenta, se satisfaz com um punhado de nozes que havia recebido de um dos amigos de semelhante profissão. O coleguismo entre os pobres ainda existia, ao passo que entre os ricos ele não poderia se confiar. Ao mesmo tempo, os alertas denunciados em Maria Carolina de Jesus e O Quarto de Despejo, de semelhante época em São Paulo, na chamada favela do Canindé - em que a autora apontava que a inocência da união entre os pobres existia na cabeça de quem não fazia parte daquele mundo. No livro, ela aponta brigas entre a vizinhança, desentendimentos severos provocados pela cachaça e até pelas pirraças provocadas pelas crianças, gerando apedrejamento, vinganças com fezes e tudo mais. São retratos de possibilidades de solidariedade ou do desenvolvimento mesmo da raiva entre pessoas em situação precária, debilitada, em déficit econômico, sem ter como proverem o cotidiano com alimentação e dignidade. Em O Carroceiro, Ousmane Sembène prefere optar pela demonstração da desigualdade e pela vilania dos verdadeiros culpados da manifestação de uma pobreza, ao passo que residem em casas nobres, protegidas, supervisionadas e sem interferências que possam ocasionar transtornos. A segregação na África colonizada ocorria sem a necessidade de um apartheid por cor da pele como na África do Sul, mesmo que muitas vezes fosse, sim, francesa a soberania nas terras africanas, como em Senegal, formando ela, França, uma elite ou impulsionando a formação de uma elite negra local.

Nota final para O Carroceiro:

⭐⭐⭐⭐ e meio


Em Tauw, a continuidade da temática da pobreza está nas dificuldades do protagonista em conseguir emprego. Aos 20 anos, ele é acusado por seu pai de fazer corpo mole, de não prover sustento na casa. Tauw, reunido a amigos em situação semelhante, protagonistas de pequenos furtos na cidade, vão em busca de um emprego mais formalizado. Se reúnem a outros tantos jovens que esperavam um chamado como estivadores ou o que fosse. Em uma oportunidade de aparecerem para serviço no Porto de Dakar, Tauw descobre que o bilhete para simples entrada, travessia da cancela do Porto em Dakar, custava o equivalente a 100 francos. 

O dinheiro francês novamente aparece em peça de Ousmane Sembène, evidenciando a influência da França sobre o país na luta por sua libertação e direitos em autonomia. Enquanto não havia essa possibilidade, Tauw e outros senegaleses lutavam pelos francos pela sobrevivência. Enquanto um dos amigos conseguiu o dinheiro, o bilhete e foi trabalhar no porto, Tauw voltou para casa para pedir dinheiro à sua mãe. Ela entrega uma peça de roupa, uma calça do marido para que Tauw venda e possa trabalhar e voltar para casa com mais dinheiro.

Tauw encontra uma mulher e descobre-se que a gravidez dela possa ter sido ocasionada pelo rapaz. Ele gosta dela, quer ajudá-la, ao passo que a moça também passaria naquele dia por uma consulta médica e necessitava do dinheiro para longa passagem de ônibus- visto que obviamente moravam para as equivalentes periferias das cidades grandes, no caso, Dakar. A mulher chega a oferecer ajuda para Tauw, mas não seria a melhor alternativa e ele insiste em tentar vender a calça. Ao mesmo tempo, a falta de dinheiro o irrita, de modo que chega a duvidar ser ele o pai da futura criança. Em reencontro entre eles, a crise se agrava com a mulher necessitando de 2 mil francos para comprar um dito remédio. Tauw se desespera porque nem ele, nem ela teriam condições. 

No avanço final do curta-metragem de 26 minutos (O Carroceiro tem menos tempo, mas ambos abrem espaço para muitas críticas e observações sociais), Tauw toma a medida drástica de contar para seu pai sobre o ocorrido e, para lamúria e discordância da mãe, resolve sair de casa ao pedir a mulher em casamento e tentarem desbravar a difícil jornada da vida juntos. O filme é permeado ainda por tentativas de ensinamentos escolares e religiosos (na verdade adjuntos) em que as crianças leem lições e versos islãs para um mestre. Enquanto percorre as ruas em busca da salvação da sua eminente crise financeira, Tauw ainda se depara com os demais apelando para as rezas diárias para Allah. A salvação, vista nos filmes, não seria da boa índole dos ricos para os carroceiros ou os que tentassem serviços ocasionais no porto, jovens impedidos de uma educação formal e de garantias de trabalho mesmo braçal. O carroceiro que perdeu seu veículo e o rapaz que precisava arranjar primeiro 100 francos que sobrassem para um dia de serviço sob a chancela da administração portuária.

Nota final para história de Tauw:

⭐⭐⭐⭐


Senegal foi colônia da França entre 1817 e 1960. Apesar da data oficial de emancipação ser em 1960, a influência francesa, em dinheiro, costumes, autoridades e burguesia eram constantes nos anos vindouros, conforme denúncia o cinema de Ousmane Sembelé nesses dois curtas apresentados. A influência está desde o idioma ao dinheiro utilizado na exploração do desenvolvimento senegalês. Quanto à exploração dos recursos da terra, caberia mais do que um capítulo à parte dessa análise.

Na curiosidade com o futebol, Senegal derrotou a França na Copa do Mundo de 2002. Os senegaleses venceram a colonizadora e assim a eliminaram do torneio ainda na fase de grupos. Em 2026, novamente Senegal e França foram sorteados para o mesmo grupo e vão realizar novo duelo. Outros países que passaram por enfermidades sob domínio francês, e que costumam se destacar no futebol e nas artes, são Marrocos, Argélia, Camarões, Tunísia e Congo.

06/12/2025

Le Petit Voleur (1999)

Filme francês do diretor Erick Zonca, Le Petit Voleur (1999), ou o Ladrãozinho, conta a história do adolescente Esse. O garoto se tornando um jovem adulto primeiro é expulso após uma série de mancadas da padaria onde trabalhava. Ele promete vingança e ganhar a vida custe o que custe, a outros modos. Em momento nenhum do curto filme (1h06) aparece a família do jovem da cidade de Orleans. Após confessar seus planos a uma namorada, Esse, então sem mais dinheiro com a expulsão da padaria, dorme na casa dela, rouba o salário da moça e foge para Marselha, uma cidade grande e portuária, com saída para o mediterrâneo, cosmopolita o suficiente para esconder-se em uma vida criminosa com uma gangue que pratica diversos negócios ilícitos.

O filme ganha contornos que cada vez mais fogem ao controle de Esse, trazendo surpresa ao jovem e ao espectador. A uma hora de filme torna-se alucinante, pois os episódios de violência são escalantes, contrastando com uma função de caixa baixa que Esse exerce ao ter de cuidar e fazer faxinas para uma idosa. As nuances do filme apresentam sutilezas gratificantes de acompanhar e descobrir. Sem diálogos, é por meio de sucessões de imagens que descobrem-se verdades e apontam-se hipocrisias dos mais diversos tipos. São desigualdades salariais e de tratamento, são leis e hierarquias criadas pelas próprias gangues e pelas ruas. São subordinações que Esse passa muito piores do que o emprego inicial que ele amaldiçoou e prometeu se vingar. O padeiro está ganhando espaço na gangue, mas será sempre assim?

O filme encontra o realismo e explode em adrenalina em diversas passagens. São cenas chocantes de violência urbana, roubos, furtos, linguagem imprópria, prostituição, até descambar em cenas finais cada vez mais alucinantes. A recomendação não é para menores de idade assistirem e mesmo algumas pessoas mais experimentadas podem se ver conflitadas por imagens fortes.

A ideia do filme é o velho jogo de ascensão e queda no mundo do crime, em uma indústria que fabrica funções e, tão rápido recruta novas pessoas sem emprego ou sem estudo, logo se livra delas. Mesmos os apontados reis não possuem lugar cativo no esquema, pois as coisas mudam muito rápido. No jogo de extrema violência com que são resolvidas as questões de acertos de contas a eliminações, as mulheres estão reduzidas a prostitutas ou meras acompanhantes, ou, no caso da idosa, ela apenas sobrevive em condições abaixo de uma classe média com dignidade.

Sabe-se que a escalada criminosa na França e em outros países da Europa conta com a convocação de jovens sub-urbanos e imigrantes desamparados por leis nacionais e observações de senso comum racista. Apesar da dura realidade para muitos jovens de origens diversas de africanos a asiáticos muçulmanos, passando pela comunidade judaica, o filme retrata a vida de um jovem do interior da França, Orleans, desamparado pela falta de estrutura familiar e do que chamam rede de apoio. A transformação do perfil de Esse são os últimos pregos no caixão de sua juventude, o conflito entre o jovem que tenta performar como gângster criminoso, mas também enxerga-se na condição tímida do abandono, do interiorano perdido na metrópole cerceada por crimes. As ruas de Marselha tornam-se palco de desventuras das mais cruéis e cruas que o cinema possa oferecer a corajosos espectadores, que saciam-se pela transparência de uma sociedade suja e corrompida.

Nota final para Le Petit Voleur em

⭐⭐⭐⭐

04/12/2025

Debaixo do alpendre

Você não me entende 

Debaixo do alpendre

Com muita chuva

Nem posso sair


Você não me entende

Dor que se estende

Você que me vende

Frete a combinar


Você de repente

Surge como serpente 

Você que me vende

Preço a parcelar


Você não me entende

Nem eu me entendo

São tantos remendos 

Semi-novo já não sirvo pra

Usado, mas a calhar


Mas se você se rende

Ainda depende

De eu me entender

De eu vir a comprar



*canção iniciada em um mês com ideia inicial que não faço ideia ao concluir; por isso a mudança de postura do eu-lírico que muda o foco para ele mesmo não se entender aonde quer chegar

Umberto Domenico Ferrari (1952)

Umberto Domenico Ferrari ou Umberto D é um filme italiano do consagrado diretor Vittorio de Sica, realizado em 1952. Ele mostra e prevê uma Itália difícil aos aposentados, aos anciãos, aos trabalhadores. Salários indignos e protestos marcam o início da trajetória do personagem principal, homônimo ao filme, morador de aluguel, cuja moradia consome muito de seus vencimentos. 

A Itália é retratada com a constância das obras, das ampliações, dos restauros, da luta entre passado e presente de ruas muito antigas, monumentos e arquiteturas que, apesar da beleza, são de trabalhosa manutenção. E os salários dos ocupados com tais serviços não reflete dignidade nos ganhos.

Umberto vive as agruras do pós guerra que assolava a Europa, mais radicalmente nas reconstruções e misérias de Alemanha, França, mas sem poupar a Itália de Sicca. Na companhia de um fiel cachorrinho, ele percorre as ruas entre manifestações, tentativas de um companheirismo à italiana que já dava lugar à indiferença e individualismo das sociedades plenamente capitalistas, tentando desesperadamente penhoras como as de um relógio.

"TODOS SE APROVEITAM DOS IGNORANTES" - Umberto tenta instruir a jovem Maria, que trabalha na pensão, na qual Umberto está prestes a ser despejado por uma dívida de 15 mil liras. Ele inicialmente consegue apenas 4 mil e luta bravamente para manejar o dinheiro necessário, pensando até em uma greve na sua alimentação. Maria, por sua vez, está grávida de três meses de um rapaz de Nápoles ou de um Florença. Nem ela sabe. À essa altura também se nota os fragmentos de uma Itália unida a menos de século, onde a nascença de um canto ou outro do unificado país ainda são motivos de preconceito, desconfiança ou desavenças - como, a bem de verdades, parece nunca ter deixado de ser.

Conforme diminui o prazo para Umberto quitar as dívidas com o pensionato, ele arma planos para poupar dinheiro. Chega a se internar em um hospital de caridade, liderado pelas freiras franciscanas. O maior problema não era fingir problemas maiores que sua amigdalite, mas sim se manter distante do cachorro Flike. Por sua vez, o cachorro Flike ganha destaque na parte final do filme, pois seu destino estava atrelado ao dono desesperançoso, cansado da vida sem tostões, da batalha constante pela sobrevivência mesmo após, diz ele, ter servido ao ministério do trabalho por 30 longos anos. Ele decide deixar definitivamente o pensionato, não aguentando mais os desaforos recebidos da condutora da pensão. Ele convivia com invasões a seu quarto quando estava fora, um tragicômico que até gerou reações de riso por parte de espectador que assim relatou na rede social Filmow. O quarto chegava a ser usado como aluguel de motel, cobrando liras a hora de uso. Por fim, a patroa resolveu operar obras de demolição de parede lateral que acabava de vez com a privacidade do impassivo Umberto D.

Sua única confessora, além de Flike, era a funcionária Maria, para qual ele deixa pertences em sua despedida. O destino para os últimos minutos de filme reservam a cruel despedida com Flike. São cenas fortes para qualquer tutor animal, anseios e agonia pela frente. Cenas fortes mesmo passados mais de 70 anos da gravação, o que torna Umberto D um clássico de drama, de neo-realismo, de apontes sobre as dificuldades da época pós-guerra e para os aposentados do mundo todo, sem família por perto, sem dinheiro no banco, sem ter com quem contar e com o quê contar.

O protagonismo final de Flike faz lembrar personagens como a cachorra Baleia no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, levado ao cinema pelo excelente diretor do Cinema Novo brasileiro, Nelson Pereira dos Santos. A despedida entre Umberto e Flike desespera os espectadores para desfechos inevitáveis. Diariamente, quantos se separam por saúde, por impossibilidades de prosseguir juntos, mudança de casa? Final reflexivo de um clássico do neo-realismo italiano, concorrente aos maiores prêmios das academias de cinema.

⭐⭐⭐⭐ e meio.



02/12/2025

My Dinner With Andre (1981)

Um dos filmes mais ousadamente filosóficos que já vi sendo gravado nos Estados Unidos. A direção, é bem verdade, é assinada pelo francês Louis Malle. Como o nome aponta, o desenrolar todo do filme ocorre durante um jantar entre dois amigos, os originais Wallace Shawn, narrador e interlocutor para o papo com o amigo Andre Gregory. Não são propriamente grandes amigos, mas, passados alguns anos, foi sugerido por um terceiro que eles retomassem contato e assim foi feito. Em comum, ambos desenvolviam peças de teatro. Andre obtinha maior sucesso e muito do assunto transcorre de suas longínquas viagens. Shawn, por outro lado, vinha em uma decadência, a qual ele apresenta em resmungos e cuspes ao introduzir a história e o porquê do encontro com Andre.

Shawn aparenta mais idade, mas tem apenas 36 anos. Se sentia meio fora do círculo de aceitações e sucessos em Nova York - outra protagonista na história de poucos personagens, complementados pelas esposas que não aparecem, apenas são citadas, e pelos atendentes do restaurante chique. O filme é considerado prolixo e pedante por parte da crítica, porque Andre descarrega suas teorias e assimilações a um atento ouvinte Shawn, o qual tenta colher novidades e refletir sobre sua vida a partir dos ensinamentos e teorizações do verborrágico Andre. Shawn escuta atento e às vezes até cômico ou incrédulo e raramente parte para suas objeções e complementos. Andre garante protagonismo na conversa ao controlar os assuntos, as passagens, as histórias de seu conturbado e atabalhoado passado. Ele conta como foi parar em experiências em floresta na Polônia, com o dramaturgo Grotowiski, no Tibet ou em Israel com a esposa. Andre alternava sua vida conjugal fechada em Nova York com aventuras de viagens longas. Além da esposa, ele tinha dois filhos, chamados Nicolas e Marina. 

Sem o mesmo leque de experiências diversas, Shawn escutava atento ao amigo desenvolver suas teorias sobre enxergar a vida sob outras óticas, outros prismas. Nas mais radicais das ideias, Andre considerava suas experiências válidas para um despertar de verdade, uma consciência sobre a vida e a morte. Segundo ele, um dos problemas dessa consciência por demais atenta seria a conscientização sobre a proximidade da morte, tal qual filósofos antigos já haviam previsto e anunciado. 

A preocupação dos amigos passa pela amortização da vida na sociedade ocidental, preveem a robotização futura e a automaticidade com que percorrem suas vidas. Shawn chega a defender seu direito a acordar e enxergar seu conforto em uma xícara de café, os dias com a namorada Debbie e seu emprego de ler, pesquisar, ler críticas e escrever suas peças teatrais, sem algo de acontecimento extraordinário. Andre rebate se o conforto é escolha dele ou apenas uma imposição, um modo automático de encarar a vida. Pesada crítica está na comparação de Andre entre a metrópole Nova York e um imenso campo de concentração. Citando outros críticos, Andre aponta que a Grande Maçã seria como um campo de concentração construído, vigiado e administrado pelos próprios prisioneiros. Ele cita a quantidade de conterrâneos que desejam sair da cidade, mas nunca o fazem, cita sua própria situação e, ao mesmo tempo, a incapacidade de definir junto à esposa um futuro, um local para investir, pois enxerga as prisões invisíveis em que é transformado o mundo. As armadilhas da globalização que davam as caras desde o início da década de 80. Em determinada passagem, Andre acredita que a década de 60 do século passado seria a última em que o ser humano ainda foi autêntico. Será?

Outro ápice no filme é Andre discorrendo sobre a falsidade das relações humanas, em uma crítica ao mundo de aparências da sociedade ocidental, isso muito antes das armadilhas das redes sociais online, embora até um notebook seja citado por Shawn, nos primeiros passos da computação ao alcance da população mais abastada. O próprio Shawn se considerava um filho de família de considerado prestígio, iniciado e atentado às Artes, a erudição, à música e assim perdendo a consciência de outras ações práticas que o levariam à bancarrota, à necessidade de procurar ocupações, a andar de metrô, à necessidade de que sua companheira trabalhasse incluso de garçonete durante algumas noites semanais. Quanto à hipocrisia da população, ele cita que Debbie servir de garçonete ou secretária causava uma distorção, uma repulsa, uma pena nos demais interlocutores como se ela estivesse condenada a um grande castigo, a um individual inferno. Em acordo com essas falas, Andre denuncia as máscaras sociais, a necessidade constante das pessoas fazerem piadas fora do tom, jantarem, rirem, sem na verdade se abrirem, repensarem suas ações e práticas do cotidiano. Ele conta as dificuldades que passou com a morte de sua mãe e que, passadas umas semanas, duas ou três, foi convidado por amigos a um jantar. Em meio a tantas piadas e descontração que propunham inadvertidamente, em nenhum momento questionaram sobre como Andre se sentia com a perda, se gostaria de um ombro amigo, de um real desabafo. Em contraponto, Andre apresenta as versões sinceras e introspectivas de monges para os lugares distantes em que viajou na Ásia, como o Tibet. Em certo momento, Shawn declama suas dúvidas quanto às teorias de enxergar a vida, de se descobrir e libertar, se eram necessárias viagens às florestas da Europa Oriental, ou ao Tibet, ou um retiro em Israel. Segundo o dramaturgo de 36 anos, nem todos podem ter oportunidade desses retiros sabáticos, então mais valeria uma autodescoberta ao revisitar seu bairro, como a um restaurante ou a uma tabacaria vizinha;  a autodescoberta estaria em suas próprias redistribuições, reorganizações, na redescoberta de hábitos. Andre nisso tudo aponta os perigos que os governos, de uma forma fascista e proposital, amolecem as expectativas, drenam as vontades e os sonhos, amortizam a população a viver como construtora, vigia e responsável pela manutenção dos campos concentradores e vigilantes da sociedade ocidental. Uma população não reflexiva, automatizada, em busca de pequenos confortos e nenhuma verdade. As duras críticas, as palavras de um experiente Andre amarguram Shawn a se questionar e ele confessa repassar essa conversa para Debbie após redescobrir, recolorir com novos olhares para o bairro na volta de táxi - que ele se permitiu pegar na volta para casa, segundo confessa. Enquanto conversavam nessa profundidade à parte de um cardápio que Andre dominava em francês ou no idioma que precisasse, e Shawn pouco sabia, os demais clientes foram sumindo até a bruma que antes cobria os pensamentos sombreados de Shawn se dissipar. Com novas atenções para suas ocupações, vivência e atento à falta de transparência nas pessoas em suas convivências e conveniências, Shawn voltara para casa, para seu casulo na Grande Maçã.

⭐⭐⭐⭐

14/11/2025

The Only One

Talvez eu tenha sido o melhor escritor que conheci. Mas também o único com o qual andei em tempo integral fui eu mesmo.


Cada um tem suas verdades.


Já discordei muito de mim. Isso pode provar que aprendi. Ou não.

Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade (2014)

Mais uma pela incursão ao cinema nacional. Joli é uma mulher que se recupera do vício em drogas. Ela está de volta a Recife. Seu pai é um importante deputado, chamado Antônio. Antônio concorre a um novo cargo,  a prefeitura da capital pernambucana. O regresso de Joli pode atrapalhar os planos do bon vivant. 

Quanto vale o preço para vencer uma eleição? Talvez vender a própria filha.  Poderia ser a frase que inicia a análise. O filme Prometo um dia deixar essa cidade traz muitos assuntos, ampliados e esmiuçados até as cenas paralelas ao subir dos créditos finais. De um filme com tanta pretensão e ideias pode-se tirar coisas positivas. O longa é um dos poucos até hoje lançados pelo diretor Daniel Aragão. Seus pôsteres são artísticos, um comentarista afirma lembrar a arte do alemão Werner Fassbinder. As propostas tornam-se ousadas, desafiadoras e polêmicas. Detalhes não passam despercebidos. Qual será a intenção ao utilizar a sigla fictícia para o partido do matreiro Antônio como PSTB. No filme podemos ouvir errado até que a sigla se destaque em painel diante de nossos olhos. A semiótica e as cores em vermelho estão lançadas.

Marcado pelo episódio negativo na família, Antônio anseia sua campanha em uma disputa para erradicar as drogas, para financiar projetos como os de um pastor em comunidade carente. A Recife é demonstrada entre as reuniões de terno e gravata, as casas com jardins e os apartamentos caros que contrastam com comunidade carentes, com ruas de terra, sem esgoto, difícil acesso para chegar ou sair, e crianças marginalizadas em diversões improvisadas, como jogar bola sobre a cancha de terra.

O retorno de Joli desafia a campanha de Antônio. Ele exerce um paternalismo doentio, arranja um casamento para filha se manter fora de enrascada. Em vão. O casamento arranjado não é suficiente para drenar a fúria e a revolta de Joli, que, se havia se curado do antigo vício, não suportava a vida de mentiras e de campanha difamatória, falsa e moralista proposta por seu pai no almejo ao cargo maior no município. Joli convive com personagens contraditórias. A amiga em recaída com o crack, o marido da amiga que acredita ser Joli a permanente má influência da esposa, mesmo a ruiva estando livre das drogas ilícitas.

Um debate aberto, proposto pelo filme é o entre as drogas, os fármacos lícitos e os ilícitos. O poder de decisão vindo de um político influente torna inclusive a saúde da própria filha como um experimento. Ele pretende sedá-la e até seduzi-la para manter a estrada da eleição aberta e encaminhada. Enquanto algumas drogas que fogem ao controle dos políticos, por efeitos ou principalmente pela fuga de lucro e fiscalização de impostos, são combatidas, outras são assinadas em convênios, testadas sem perspectiva exata a longo prazo, incentivadas sobre corpos ratos de laboratório. Mesmo as pesquisas nacionais e internacionais podem ser fraudadas. Mesmo os estudos assinados podem ser comprados. Mesmo um ente querido, quando interfere na caminhada rumo ao poder, pode e deve ser derrotado pela lógica maior do lucro.

O filme possui alguns elementos fantasiosos, simulações da mente e dos efeitos dos narcóticos sobre a mente de Joli. O ponto de vista é alternado dela para também mostrar o desespero do político que se vê encurralado em sua campanha de talvez precisar apoiar um adversário, que também deveria ser derrotado. A volta de Joli causa burburinho, mobiliza noticiário, exprime agenda negativa, causa desconfiança e precisa ser combatida como consequência.

A falta de escrúpulos e limites nas agendas e métodos políticos são abordados no filme; da campanha envolta em falsidade e publicidades enganosas na aplicação de fundos partidários, da corrupção aos convênios de eliminar adversários, de desbloquear o caminho a qualquer custo. A conveniência e o poder movem o jogo, contra quem for. Na metodologia utilizada por António estão a participação da indústria farmacêutica e da medicina a serviço do poder, do terno e da gravata. A farda policial na mesma linha, forma de atuar idem. De sabotadora à sabotada estava selado o destino de Joli, na promessa fantasiosa de um dia deixar essa cidade: custe o que custar.

Nota final para Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade:

3,5 / 5



12/11/2025

Carruagem Fantasma (1921) + Sudoeste (2011)

No Decurso do Tempo é um filme de Wim Wenders, mas poderia ser o nome deste texto. A relação temporal em Carruagem Fantasma e em Sudoeste é muito interessante. Em Carruagem Fantasma, a história sueca conta a vida perversa levada pelo personagem principal, David Holm.

Beberrão e despreocupado, David aguardava o ano novo com seus capangas em um cemitério. Eram as últimas horas daquele ano e uma enfermeira do Exército de Salvação, chamada Edit, estava para morrer. Seu último desejo? Receber no leito de morte a David Holm. A família estranhava o desejo repentino, mas providenciaram a procura pelo sujeito. Febria, ela viria a morrer poucas horas depois. Mas antes, David causara uma última briga com seus capangas, com um consequente desafeto e assim levara uma garrafada fatal na cabeça. Ficou estendido definitivamente ao solo do cemitério: caiu morto.

Sem que o mundo dos vivos saiba, estabelecido era o pacto de que o último morto no dia 31 de dezembro deveria ser o cocheiro da carruagem da morte, condutor da carruagem fantasma pelo próximo ano. Pelo próximo ciclo. Mas é também explicado que o trabalho interminável do cocheiro em serviço de Morte era multiplicado incontáveis vezes pela seguinte fórmula: de que cada dia do ano poderiam ser o equivalente a um trabalho centenário. Por que essa passagem de tempo diferente? Porque o serviço consistia em buscar cada alma que partisse do corpo, como se imagina a imagem de capuz e foice da Morte. Apenas não especifica o território a serem buscadas as almas, mas a história, o filme restringe-se à Suécia.

David recebe o cocheiro da morte e o anúncio de que precisará cumprir essa pena no próximo ciclo. Antes, como trama de Carruagem Fantasma, ele revisita os eventos que marcaram sua vida e o levaram até a tragédia: dele e da enfermeira febria. David estava com tuberculose e fazia absurdos, por exemplo, tossir contra pessoas para que também contraíssem a doença, "ou acha que são melhores do que eu para não ficarem doentes?". Inclusive crianças. Inclusive sua primeira esposa, que ele perseguida o paradeiro de seu sumiço por toda a Suécia. O comportamento perseguidor e contagioso quanto à doença nas atitudes de David o tornam um dos maiores desgraçados já vistos na História do Cinema. Passado mais de século da narrativa sueca, o rótulo permanece. É difícil encontrar personagens tão tacanhos quanto David.

O personagem principal amaldiçoou a vida da enfermeira, com a doença contagiosa e a incrível saudade de ter se interessado pelo perverso. O filme tenta amenizar a figura de David por meio de um arrependimento para metade final do longa, o que não convence a este escriba, após tamanhas sem-vergonhices. A relação temporal estabelecida entre o serviço de cocheiro da Carruagem Fantasma, condenação tremenda por um tempo incalculável em relação à vida humana, e o filme Sudoeste pode ser entendida a partir de agora.

Em Sudoeste (2011), filme nacional de 2008, com direção de Eduardo Nunes, a vida de Clarice transcorre ao contrário da eterna demora a que seria condenado David. A menina Clarice nasce de uma magia, de uma considerada bruxaria, em uma minúscula comunidade ribeira ou litorânea. Os pais originalmente acreditam que a menina havia morrido, mas na verdade ela está sob uma condenação bem diferente a do cocheiro. A vida de Clarice transcorre toda durante um dia. Ela de bebê se torna menina, de menina se torna adolescente e assim por diante.

A perspectiva de vivência do tempo é alterada, transformada pelas diferença comensal entre as experiências. David com uma jornada de castigo, de retratação, de azar, pode-se dizer, pois justamente sua briga derradeira resultaria na última morte sueca daquele ano. Clarice condenada a observar os demais personagens em suas vidas naturalmente sequenciais de um dia após o outro, enquanto ela, inocente menina de nascença, sem conhecer o que seria uma chuva, o que seriam as coisas da vida até o avançar de sua idade conforme declinava-se a tarde de um aparente dia comum.

Clarice perspassa pelos personagens camponeses e de sua própria família. O pai Sebastião e a mãe que conheciam o luto imediato da perda de bebê - Clarice. O irmãozinho João nem desconfiava que a menina que surgia na comunidade era na verdade sua irmã. O roteiro e a relação entre as personagens não oferece muita história. O destaque do filme está por conta da fotografia, das composições todas em preto e branco, lembrando dos melhores longas do próprio Wim Wenders, que abriu este texto, ou, melhor lembrança, o cinema do húngaro Bela Tarr, especialista em histórias lentas mas impactantes, pela composição de imagens, planos, escolhas de posicionamento e construção semiótica das narrativas.

Sudoeste se aproxima desse cinema sensível, impactante, emocionante de Bela Tarr. As diferenças óbvias são em relação ao comum de cada cenário geográfico construído. A frieza, a aspereza da natureza na Europa profunda contrasta com o clima tropical brasileiro, com os personagens mais experimentados na sociabilidade, apesar das profundezas rurais. Bela Tarr experiencia e oferece mais silêncios, mais frieza, ao passo que Nunes em Sudoeste também oferece os espaços, os períodos de respiro e reflexão, a composição proposital com o ermo das paisagens, mas sem perder o calor e a sociabilidade da latinidade nas personagens. Ou seja, há traços que se aproximam entre as culturas e o modo de fazer cinema, mas diferenças fundamentais permanecem no que é próprio de cada região do mundo.

A proposta de comparação temporal se deve, portanto, nas condenações distintas: a demora de um dia durar anos de serviço ao condenado cocheiro da morte, e a vida ligeira e tão difícil de discernir, de atinar, de compreender e aproveitar para a inocente Clarice. A menina, logo adolescente, logo mulher, logo anciã, anseia pelas descobertas ao passo que as personagens que cruzam por ora seu caminho apenas estranham sumiços e transformações da Clarice a que haviam começado a reconhecer e a se acostumar. A diferença de perspectiva do que pode ser um dia qualquer, um dia comum, OU um dia decisivo, derradeiro, único, singular. Ímpar (ou seja, sem par). Dias decisivos de escolhas e arrependimentos e remorsos que definiram os rumos trágicos para David Holm e seu amor desperdiçado. Oportunidades e desperdícios que Clarice não teria o luxo de experimentar em uma única experiência de 24 horas. Quem nunca comparou seu tempo vital com as larvas, as borboletas, as moscas, ou, no outro vértice, as tartarugas, outros répteis e alguns urubus?