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15/08/2025

A Chinesa (1967)

Por ordem cronológica de preparação, o filme seguinte a ser analisado é A Chinesa (1967), um dos mais políticos de Godard enquanto fase da primeira Nouvelle Vague, iniciada em Acossado (1960), com roteiro do companheiro François Truffaut. Em A Chinesa, feito após 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela e antes de Weekend, Godard já havia começado seu relacionamento com a atriz alemã/francesa Anna Wiazemsky, destaque no ano anterior no filme A Testemunha. Anna estreia nos filmes de Jean Luc com papel de importância em A Chinesa.

Jean Pierre Leaud e outros atores compõem nesse filme uma célula comunista, com as locações internas em uma casa altamente decorada com material político. O filme é todo composto por debates, discussões, pensamentos e manifestações de cunho político, com atuações locais ou mediante os problemas globais. Os jovens escutam a tradução da Rádio de Pequim e buscam se manter informados sobre as guardas vermelhas impulsionadas na China. Claramente, se vê que a célula comunista está com novos membros e os debates são de iniciação e com foco na continuidade das atividades. No início do filme, um companheiro deles aparece ensanguentado e rapidamente o acodem e o posicionam em uma cadeira. Quando questionado quem teria feito isso com ele, afirma, para alguma surpresa, que foram outros ditos comunistas, da Sorbonne, numa dissidência ocorrida sobre a situação russa (diante da Soviética de 67). Jean Leaud considera isso positivo, pois marca as opiniões contrárias e o posicionamento da célula enquanto modelo político. 

As paredes da casa em questão estão sempre decoradas com frases de efeito. Uma delas afirma que se devem combater ideias vagas com ideias claras. O filme tem andamento quase como um manual para recrutar, se politizar e entender questões político-globais. Nenhuma surpresa que tenha sido vetado/censurado de exibição qualquer no Brasil da época. A pensa os objetivos da ditadura cívico-militar brasileira, atuaram como a censura previa atuar: sem espaço para manifestações pró-comunismo.

Um convidado discursa para a célula sobre a perspectiva global após a morte de Lenin. Abre-se espaço para novas pesquisas, perspectivas e formulações. Sementes já foram plantadas. Eles debatem que as classes sociais vivem em constante choque, ebulição, movimento: há classes que ora surgem, outras desaparecem como movimento de atuação social. "Essa é a história da civilização." E essa pressão, essa luta de classes acabaria sob uma ditadura com base nas escolhas do proletariado? É negado. Desde 1921, Lenin afirmava que a ideia de classes sociais não se dissiparia sequer com essa organização social.

No filme, também se considera que revoluções só são possíveis tendendo-se, entendendo-se, buscando-se revoluções. Não acontecem por acaso ou não sendo almejadas. Para alcançar objetivos, é preciso focar na prática desde o bairro, a vila, a cidade, com exemplos práticos e não especulativos, imaginários. Além dos debates, diga-se, com o objetivo em tempp real, o filme é entrecortado com espécies de entrevistas com os membros da célula, com suas histórias pessoais de como aderiram à ideologia, de onde conheceram, o que têm passado e quais objetivos possuem na causa. Dentro disso, comentam situações cotidianas e de relevância para as discussões políticas.

Diferentes lugares de fala são apresentados. Veronique, a personagem de Anna Wiazemsky vem de uma família de banqueiros e estudava filosofia. Percebeu as desigualdades impostas pelo capitalismo (classes sociais, campo x cidade, agricultura x indústria), percebeu que somente estudar filosofia vinda de um bairro operário era uma contradição muito grande, mas tenta aplicar os conhecimentos em busca de uma teoria mais justa, que possa ser praticada. Segundo ela, queimar livros também não seria bom, pois assim não se consegue criticá-los.

O personagem de Jean Leaud levanta uma questão sobre linguagem (lá vem Godard). Se fosse uma sociedade de cegos, se prestaria mais atenção ao que é dito, em conversas verdadeiras, com atenção ao interlocutor. É uma crítica que ganha espaço cada vez mais em uma sociedade de muitos falantes e poucos ouvintes; poucos ouvintes ativos, poucos interpretadores, reflexivos, pensantes, questionadores.

Após o descanso da noite, os personagens despertam pela manhã e vão em direção a varanda da casa. Alongam e realizam exercícios enquanto pronunciam frases de teoria marxista como se fossem um exército a cantar durante os exercícios físicos. Uma sátira godardiana. O personagem de Jean Leaud então ministra a próxima conversa sobre os tons e directrizes da guerra na Ásia. Satiriza a ação dos países, cada qual representado por óculos escuros com suas bandeiras, enquanto o Vietnã está limitado a pedir socorro. Estados Unidos enviaram mais bombas ao país asiático do que durante a Segunda Guerra (princípios para quê? Ásia para os norte-americano?), União Soviética muito teoriza e pouco aplica. A China de Mao pede atenção, mas não teme o imperialismo e o capitalismo (como até hoje permanece). Nas palavras de Mao, esses impositores seriam como tigres de papel, ferozes na aparência, mas, para China, inofensivos aos objetivos. Inglaterra e França, consideradas potências mundiais, são passivas e não demonstram posicionamento profundo, como em outras guerras modernas - até sobre a passividade no caso Israel-Palestina.

Percebo que Godard também utiliza muito das armas de fogo, de representações de conflitos como apenas brinquedos, como se os personagens, os adultos brincassem com essas arminhas, como crianças. E as guerras não são assim? Com homens velhos a regular, a controlar, a ordenar distantes da linha de frente por objetivos econômicos, sem a real dimensão da desgraça de cada frente, do saldo de cada bombardeio. Assim como na psicologia infantil, são nas brincadeiras que muito é demonstrado e pode ser interpretado.

Ao longo do filme, Godard defende a corrente maoísta, considerando os segmentos da esquerda europeia como reformistas, insuficientes, impotentes. O exemplo maior a ser estudado, segundo a demonstração do filme, é a China (até por isso leva o nome, A Chinesa).

O personagem de Jean Leaud e Veronique escutam um discurso, escutam música e que os comunistas devem combater em duas frentes, entre elas, a arte. Leaud anuncia que é difícil para ele fazer duas coisas de uma vez, só consegue uma. Veronique simula uma DR de casal, que não o ama mais, justifica e diz que ele entenderá. O exercício era para mostrar que ele consegue sim fazer duas coisas ao mesmo tempo, no caso foi entender a questão e ouvir música. Questionável resultado, pois às vezes abdicamos da atenção de uma música ou a rebaixamos para segundo plano enquanto nos dedicamos em cheio a algo mais urgente e relevante. Complicado atuar em duas frentes, mas fica o debate da cena.

Prossegue mais um debate sobre linguagem, o que envolve a exclusão do personagem loiro Henri na célula. Por dissidências, foi votada sua saída. Ele comenta o episódio enquanto prepara um café da manhã, ou coisa parecida. O debate sobre linguagem é interessante no sentido de que, para se expressarem, discursarem, pautarem uma revolução, deveriam os comunistas armas discursos, panfletos, anúncios e transcrições na mesma linguagem considerada burguesa, tradicional? Há como romper esse obstáculo rumo a uma libertação, a uma alternativa? São questões de estilo ou há como revolucionar dentro daquilo (a linguagem) que é consagrado, inteligível e usual? Henri acreditava na coexistência pacífica das formas distintas enquanto Veronique era mais radical, pelo rompimento total. A própria Veronique encontra um escritor em um trem e conversam para atualizarem-se. Ela comentam que seus inimigos são os generais, os burocratas (...) e os intelectuais reacionários - um grande grupo. O debate dela com o escritor no trem vai da ideia de Veronique fechar ou explodir as universidades, como a causa inicial do filme do membro da célula após ataque na Sorbonne. Veronique crê que a educação é reprodutora dos paradigmas das autoridades e contribui para o reacionarismo, por isso deseja fechá-las e intimidá-las, propondo até ataques a professores e estudantes, na intimidação aos demais. O escritor se posiciona contra, porque essa ideia é dela e de mais dois ou três, não é uma atitude geral e revolucionária. É diferente do atentado proposto por uma mulher argelina, Djamila, que explodiu um café, "mas em nome da revolução", enfatiza o escritor. "Você não pode fazer a revolução pelos outros", transmite em um sentido da necessidade de acompanhamento, de retaguarda. Veronique nisso deseja que para aplicar as teorias revolucionárias que tem aprendido, ela precisaria da prática e o exemplo descrito era o modelo dela de atuação necessária.

Nas contestações aos planos, o escritor afirma que uma revolução precisa de bases firmes para o prosseguimento, que apenas atos isolados ou tomadas de poder sem uma base forte e planos vigentes se tornam ações temporárias e interrompidas, com altos riscos de apreensões e retenções. Quando a palavra volta para Henri, ele destaca o marxismo como uma espécie de ciência, de método e que os argumentos para atuações da célula eram válidos, mas estavam bagunçados; considerava falta de métodos.

O filme encaminha seu final com o suicídio de Serge, um dos convidados à célula que tinha a missão de assassinar um ministro russo como protesto. Assim, a missão recai para Veronique. Enquanto isso, segue uma entrevista com o excluído Henri, que não sabia do suicídio de Serge, conforme revelou, e não sabia mais sobre os companheiros, ex-companheiros de célula. O personagem de Jean Leaud chega a aparecer como comerciante de verduras, um simples feirante, também deixando que por centavos as pessoas tentassem acertar legumes em sua cara, como aqueles games norte-americanos ou japoneses.

Com muita referência ao famoso livro vermelho de Mao e com uma trilha sonora que o homenageia, o filme A Chinesa chega ao fim com a dissolução da célula daqueles jovens franceses e o futuro sempre incerto das organizações comunistas. Seria a China um modelo a ser seguido? Pelo comunismo da época ou pelo destaque econômico de décadas seguintes? Questões.


Referência ao filme Alemanha Ano Zero, sobre o pós-Segunda Guerra









12/08/2025

Masculine - Feminine (1966)

Não sei se porque são filmes revistos, mas sempre fica uma pulga por detrás da orelha de que já teria escrito sobre, em formato resenha, como aqui ocorre. Masculine-Feminine é um filme de 1966, e creio que é a terceira vez que o assisto. Componente da grade de programação do canal Telecine Cult, este filme de Jean Luc Godard pode ter sido encarado por mim algumas vezes também aos pedaços. A revisão agora é completa para satisfazer o interesse da proposta da resenha crítica. Diferente de outros filmes, talvez Masculine-Feminine tenha despertado mais na surpresa da primeira vista e tenha caído em elementos comuns a outros filmes nessa revisão. Escrevo isto enquanto acompanho o filme e os comentários seguintes vão ratificar ou retificar essa percepção.

O começo do filme em preto e branco é arrastado. Paul conhece Madeleine em um café, encontra um pretexto para lhe dirigir a palavra pela primeira vez. Ao reconhecê-la, pergunta pelo seu nome, menciona um amigo em comum e a possibilidade de um emprego. A crítica política é o forte desse filme, com a primeira entrega quando Paul (Jean Leaud) afirma ter prestado os meses de serviço militar obrigatório para o exército da França, se queixa da falta de lazer, de descanso, da solidão, da perda de contato com o mundo exterior e do excesso de ordens, obediência e imposição feitas pelos superiores aos jovens que, segundo ele, primeiro recebem esse tratamento do que opções culturais para criação.

Madeleine acompanha atenta ao discurso do jovem Paul. O amigo que eles têm em comum seria Dumas, que trabalha em um jornal. Paul não sabia ou faz que não sabia. Madeleine também já havia trabalhado em periódico, se dedicando às fotos.

Desde essa sequência do filme estão claros os posicionamentos políticos, como sindicalizados e comunistas. Em conversa com o amigo, Paul e ele concluem que a baixa adesão aos partidos ocorre porque ps trabalhadores têm jornadas de trabalho longas, apenas casa, comida e trabalho, sem tempo para dedicarem-se a mais estudos e lazer, muito menos a fazer política para justamente mudar essa realidade. Uma conclusão apontada na Europa de 1965, 20 anos após a conclusão, entre aspas, da Segunda Guerra Mundial (que teve desdobramentos, julgamentos e decisões mais tardar).

Entre a política, desde a manifestação da empregada que atira no patrão na saída do café na cena inicial, Godard encontra espaço para as conversas de casal com banalidades sempre involucradas em filosofia densa. Para um simples convite para sair entre Paul e Madeleine, se misturam questões do que os jovens pensam da vida, sobre como se sentiriam felizes, quais os limites a que se pode chegar e submeter a um primeiro encontro, quais são os limites das mentiras sociais que são contadas todos os dias para a digestão da convivência. A cena ocorre enquanto Madeleine está se maquiando e penteando seu cabelo. Godard estava sempre atento às nuances sociais sobre comportamento da juventude, atitudes, pensamentos, aberturas de espaço e oportunidades e feminismo. Seus filmes são memória viva, na ficção que imita, que segue lado a lado aos acontecimentos contemporâneos, a Nouvelle Vague da França sessentista, época de cisões e transformações.

Acoplados em saídas juntos e com um grupo de jovens militantes, encorajados e encorajadores para juventude da época, Paul e Madeleine partem em missões, seja de colocação de cartazes e dizeres pela cidade até pressionar a embaixada dos Estados Unidos com direito à pichação a carro e protestos para que largassem a injusta investida no Vietnã, combatentes do napalm. Durante cena, Paul e o amigo prestam abaixo-assinado para libertação de presos políticos no que dizia respeito ao Rio de Janeiro. Não era a primeira vez que o Brasil estava nos planos e nos assuntos de Godard, que também investia nesse como um destino para Bruno Forestier em O Pequeno Soldado, quando almejava deixar a França. É de se dar conta que quase sempre os personagens de Godard almejam fugas mal sucedidas, como em O Pequeno Soldado, O Desprezo, Acossado e Pierrot le Fou, atingindo o objetivo, aparentemente, ao final da prisão de Alphaville, contrariando a ideia de prisão de segurança máxima lançada por aquele universo distópico futurista.

Em cena no trem, Paul combina uma ação militante enquanto ouvem um diálogo inusitado. Uma loira está sentada em banco junto a dois negros e os três passam a se insultar. Enquanto ela chama os migrantes de assassinos em potencial, eles rebatem que ela seria apenas uma vagabunda com sonhos hollywoodianos. O preconceito racial é foco pelo que acontecia na Europa e nos Estados Unidos, sobre a dissolução de colônias africanas na independência de virarem países e o tratamento aos novos migrantes europeus.

"Não é a consciência do homem que determina a existência, mas a existência social que determina a consciência"

Enquanto isso, Madeleine e Paul não passam por bons momentos e ele questiona se deve mantê-la em sua vida, ao passo que também precisaria dela, por ser desalojado pela proprietária de seu apartamento, que o alugaria ao próprio sobrinho. Situações reais. O filme também é permeado pelo surrealismo. Entre as brincadeiras e cenas extravagantes. Paul implica com um jogador de pinball (Godard adora inserir o lazer da época com cenas em bares, mesas de sinuca, boliche e os novos fliperamas) e o jogador misterioso saca uma faca e o ameaça. Conforme Paul foge e sai da imagem, o rapaz, de cutillo em punho, esfaquea a si mesmo e é amparado pela volta de Paul. Surreal.

Madeleine começa a se afastar do estilo de vida de Paul ao alavancar uma carreira de cantora. Seu disco faz sucesso no Japão, atingindo as primeiras posições, o que também ocorria em casa. O relacionamento deles esfriava, mas prosseguia. A amiga de Madeleine, Elizabeth também interferia e tecia seus comentários negativos, em desaprovação ao andamento. Durante investidas e diálogos, a temática que aparece bastante nesta película é sobre os métodos anticoncepcionais, novidades cada vez mais introduzidas na época. Tanto a pílula quanto dispositivos internos de resolução cirúrgica eram afirmados e assim recomendados ou ao menos postos em pauta durante a trama que envolvia os personagens principais. 

Paul realiza uma entrevista com amiga de Madeleine a respeito de questões políticas e pauta a ocorrência de guerras pelo mundo, a preocupação com empregos e o controle de natalidade. Godard requenta temas entre um filme e outro, mantendo as pautas de seu interesse e, é claro, de interesse público à tona. Outro estilo narrativo presente nas obras é a introdução de notícias e de figuras em voga na época, por exemplo, para mencionar a temática da música pelo fato de Madeleine ser cantora, uma notícia sobre o sucesso de Bob Dylan aparece direto dos periódicos de papel.

Na cena do restaurante em que estão Paul, minimizado por Elizabeth ao afirmar, antes da chegada de Madeleine, que não havia chance dele com elas, porque não eram o tipo de garotas para ele e que ele ficaria sempre infeliz, o que revolta Paul, na cena do restaurante aparece uma sequência bastante forte sobre o título do filme. Apesar do título ter sido mencionado em uma brincadeira entre Paul e seu amigo, a questão do Feminino aparece em três momentos em sequência.

Madeleine recebeu discos autografados de presente, por sua carreira satisfatória e troca de contatos. Paul minimiza e tenta sempre sair por cima por um gosto musical refinado; ele é fã de música clássica e não das cantoras que estão fazendo sucesso nos anos 60. Parece não ser fã da própria namorada, não a admira e reconhece, apenas a quer manter de posse. Em uma das mesas do restaurante, Madeleine reconhece a mulher que assassinou o homem no começo do filme. Fofoca que ela agora trabalha de prostituta e, sendo prostituta, é continuada a cena com a negociação entre ela e o cliente. Propõem preços e situações diferentes, ela admite odiar os alemães porque seus pais morreram na Alemanha durante a guerra. Uma preocupação com o quão recente se foi e se esquece uma guerra devastadora para história da humanidade.

Em outra mesa, Brigitte Bardot, a princípio no papel de ela mesma, ensaia falas de uma peça, mas é totalmente submetida às instruções do arrogante diretor, que discursa sem parar e interfere na atuação da moça. São três mulheres submetidas em sequência ao machismo, à dominação, à imposição e à inferioridade em geral. Seja em um relacionamento com um partidário de esquerda, autoconsiderado progressista, seja na profissão mais antiga em que se submete ao cliente, seja na relação trabalhista enquanto profissional de atuação cênica. Três casos no mesmo restaurante, de forma escrachada ou velada para esta crítica.

A 1h15 de filme, aproximadamente, Paul e as amigas vão ao cinema. O filme em exibição mostra cenas de um relacionamento abusivo e com agressões inclusive físicas. Mais alertas para o objetivo da película. Apesar dos absurdos mostrados na tela, a inquietação de Paul é terem mudado o formato da transmissão e nisso ele se levanta rapidamente e, impositivo e pró-ativo, se dirige à sala de projeção para reclamar a mudança. Antes disso, vale a lembrança de sua ida ao banheiro, quando encontra um casal homossexual atrás de uma das portas, dentro de uma cabine, e, após urinar, o militante picha a porta com os dizeres "Abaixo à República de covardes".

Após Paul reclamar sobre as diretrizes e regulamentações da exibição de um filme em cinema de acordo com algum código que lê, ele sai da cabine de transmissão e picha um muro contra Charles de Gaulle. Alguns operários próximos ao local assistem à cena e um casal está a trocar carícias ao lado da parede, numa possível cena de prostituição, tudo à luz do dia. Ao retornar para o filme, cenas de violência sexual são sugeridas pelo ator que interpreta o homem com a mulher. Ele a pega de maneira agressiva e também a dirige a seu órgão para sexo oral. São cenas que desagradam aos personagens do filme de Godard, que ameaçam deixar a sessão.

Catherine-Isabelle, atriz que atua com seu próprio nome, amiga de Elizabeth e Madeleine, conversa com o amigo de Paul em uma cozinha. O amigo de Paul está muito interessado nela, mas não é recíproco. Ele desconfiava que a moça prefira Paul, que mantém o relacionamento capenga com Madeleine. Na sabatina à moça, são feitas perguntas sobre suas preferências, sobre sua vida sexual, sobre perspectivas e se ela se interessa pelas questões de política global. É interessante pensar que há poucos anos, no Brasil, perguntas do mesmo tom seriam totalmente estranhadas, enquanto pós 2013, por exemplo, a politização disparou no interesse de jovens e das redes sociais, com engajamento premeditados ou orgânicos. Na época, 1966, explorar tanto os assuntos políticos talvez soasse piegas para maioria dos jovens, que se politizariam mais nos anos a seguir. A cultural Paris e a França foram o berço do movimento conhecido como Maio de 68, abordado em outras críticas.

Bastante política se soma na parte final do filme. Paul está com Catherine-Isabelle na rua, um homem passa e pede fósforos. Ele rouba a caixa de Paul. Em seguida cumprimenta uma pessoa em um carro estacionado e pede para transferir bons votos às crianças. Ele retorna, estão em frente a um hospital dos "americanos", Paul o segue e tenta reaver a caixa de fósforos. Godard, muito esperto, não persegue essa cena e posiciona a câmera sobre a espera de Catherine. Paul volta nervoso que o homem havia se jogado gasolina e se incendiado. Catherine estranha que foi em frente ao hospital dos EUA. Paul informa que o homem deixou uma última mensagem em prol do Vietnã.

Em seguida, os jovens caminham em direção aos estúdios de música onde Madeleine ensaia as composições para seu novo disco. Ela inclusive é recebida por um repórter de rádio. Os Beatles aparecem novamente, pois Madeleine responde que eles e Bach são seus compositores favoritos. Na companhia de Catherine, Paul havia largado um raciocínio assaz interessante: "se mato um homem sou um assassino, se mato milhões sou um conquistador, se mato a todos sou Deus". Catherine apenas responde que não acredita em Deus.

O filme encaminha o encerramento com uma série de questionamentos que Paul fazia para um instituto de pesquisa e opiniões. As perguntas eram direcionadas aos franceses para saberem suas opiniões de comportamento, sobre interesse e entendimento da realidade política, com perguntas sobre o que é ser comunista, se sabem de guerra entre Iraque e o povo curdo, o que pensam das minissaias ou dos métodos contraceptivos. Paul conclui que as perguntas que eram para registrar o comportamento da população acabam perdendo o foco e objetivo principais para virar uma batalha de juízos de valor. Os ideais progressistas e conservadores seguem essas tendências até os dias atuais de 2025. Paul pensava que manipulava as pessoas na formulação das perguntas em rápidas trocas de assunto e que as pessoas em seguida o manipulavam com respostas falsas, infrutíferas e, portanto, improdutivas para o objetivo das pesquisas.

Em depoimento para polícia, as moças explicam o desfecho trágico de Paul. A mãe dele havia lhe conseguido dinheiro (os homens dependem das mulheres) para adquirir um apartamento. E conseguiu em uma área nobre de Paris. Madeleine, ao saber da notícia, quis morar junto dele, mas Paul recusou. Irônico que quando ele precisava de lugar para moradia contava com Madeleine. Quando adquiriu para si, a recusou. Como não há imagens do desfecho, apenas o depoimento das jovens, não se descarta que a morte de Paul, ao cair em um buraco, tenha sido acidental. A questão final é Madeleine Zimmer, grávida de Paul, saber o que faria com o filho que tem no ventre. Sendo dele, a criança sem o pai seria abortada ou não? O aborto é uma questão central das sociedades modernas, sobre a autonomia que a mulher possa ter, acima de questões tradicionais, religiosas e burocráticas, de decidir o futuro do que ela começa a produzir no ventre. Mesmo mulheres bastantes progressistas como Madeleine tinham total incerteza, insegurança e restrições ao futuro. O método que Elizabeth havia proposto a ela era inacreditável: agredir-se com um pau que sustenta cortina.

Fim.

Paul reclama do militarismo no começo do filme Masculino-Feminino. Apesar de não serem submetidas diretamente ao exército, as mulheres enfrentam outras formas de dominação, até pela atuação do próprio progressista Paul



11/08/2025

Pierrot le Fou (1965)

Pierrot le Fou não era de meus filmes mais apreciados na filmografia de Jean Luc Godard. Mas a segunda vista é de novos olhares e experiências, assim como deve ser. A história começa devagar, na explicação de quem são nossos personagens. Ferdinand está a tomar banho e desenvolver seu hábito da leitura. Mais tarde se verá que gostaria de ser um escritor, mas está preso a um casamento com filhos pequenos e um trabalho burocrata, para burguesia. O tédio é evidente diante das limitações trancafiadas da vida. A oportunidade de uma aventura não será desperdiçada.

Para interagir com seu futuro empregador, na família do sogro, Ferdinand está em uma festa onde vê (ou, saberemos, no caso revê) a garota Marianne. Na oportunidade que se apossa deles, os dois formam uma dupla em disparada, no espírito dos road movies que ganhariam as telas pelo mundo. Até o próprio conhecidíssimo Easy Rider ainda não havia sido lançado. E Ferdinand e Marianne aprontaram o primeiro de outros golpes para cair na estrada. Ferdinand é sempre chamado pela garota como Pierrot e ele a corrige, sem demonstrar entusiasmo ou frustração (na maioria das vezes) : "meu nome é Ferdinand". Esse dialogo se repete inúmeras vezes, geralmente em trocas de cena ou de assunto, quando Marianne introduz uma nova perspectiva e adere ao uso do vocativo: Pierrot. "Meu nome é Ferdinand" é a resposta.

Nessa fase, Godard e sua cinematografia não poupam críticas ao fetiche aos carros. Na festa na casa do sogro de Ferdinand, são oferecidos drinks e assuntos assaz interessantes, como a velocidade que um Alfa Romeo (carro preferido da sátira godardiana) pode atingir em tantos segundos, relevância suprema que pode ser encontrada nas atuais rodas de conversa, em ambientes, digamos, mais pobres quando se perguntam a potência do motor de um carro ou quantos quilômetros o dito cujo consegue devorar por litro de combustível depositado. Godard também utiliza da acidez para recriar propagandas de produtos cosméticos e de higiene. O assunto entre a high society, injustamente desinteressante para Ferdinand, transcorre sobre adrenalinas-fetiches, produtos e aparência - nada muito diferente de 2025.

Durante a fuga com Marianne, eles têm a ideia de abandonarem o primeiro carro para evitarem uma perseguição bem sucedida por quem estava em suas caças. Assim, aproveitam de um acidente verdadeiro com vítimas expostas à beira da rodovia para estacionarem simplesmente o carro ao lado da tragédia e incendiarem tudo. Nesse planejamento que aparentava êxito, foi esquecido o dinheiro na valise no porta-luvas, tornando a aventura mais dramática pela continuidade da sobrevivência ao sabor de obcecado e imparável amor, na excitação pela estrada aos rumos de nova vida. Tanta promessa juvenil em um oferecimento caótico que um road movie pode trazer aos sonhos inocentes.

Godard satiriza o que por muito é considerado sublime. "Senti vontade de escrever um diário. Quem diante da natureza não sente a vontade de descrevê-la?" Assim ocorre desde a origem da literatura feita em terra brasileira, como a conhecida carta de Pero Vas de Caminha. Assim é orientada a literatura, nesse desbravamento, nos Sertões de Euclides da Cunha, nas paisagens cerradas, amazônicas ou pampeano-missioneiras, de Simões Lopes a Tiarajus, para se ater ao vasto Brasil.

À essa altura, há um deboche sobre as histórias, sobre os filmes de sobrevivência na natureza a qualquer custo. Sobre os urbanos que se deslocam realmente deslocados para áreas rurais, áreas remotas. Ferdinand afirma que estavam vivendo da natureza, da caça e da pesca, e na cena seguinte aparece dirigindo um trator com Marianne a reboque. O que será que Godard pensava sobre os programas que surgiram como Largados e Pelados?

"O escritor escolhe a liberdade dos outros."

O filme é permeado de literatura. Ferdinand é altamente preocupado com as manifestações culturais. Vale lembrar que em cena inicial ele estava a ler sobre o pintor espanhol Velásquez para sua pequena filha e que ela deveria se interessar por essa temática e ir ao cinema quantas vezes considerasse necessário. "Vivemos em um mundo de tolos", dizia ele sobre a criança que ele não queria que se tornasse parte do exército de tolos incultos.

Tomado de surrealismo, ou pelo menos muitos elementos surrealistas, está essa fase do cinema de Godard. No convívio com a natureza, Ferdinand e Marianne dividem ombro, refeição e espaço com animais dos mais exóticos, entre araras e pequenos mamíferos. Esses elementos, em recapitulação da memória, estão presentes em vários dos filmes de Jean Luc, mesmo que sejam pequenas pausas na realidade aflorada com momentos musicais e dançantes que quebram o ritmo e a seriedade do drama que poderiam ser/se tornar os filmes. O surrealismo era uma corrente respeitada na Europa, sendo impossibilitada a ausência de lembrança ao polêmico espanhol Luis Buñuel.

As brincadeiras com as linguagens são constantes. Quando Ferdinand questiona se Marianne o amava e não o deixaria, ela responde com a certeza: "sim, totalmente." Convicta, depois olha para câmera e repete o "sim, totalmente", mas com outro tom, que sugere a dúvida. Mas não é uma pergunta. É uma retórica ou, antes disso, uma tremenda brincadeira. Em seguida, na troca de cena a atriz passeia com os pés na água em afirmação de que não sabe o que fazer, mas também não tem o que fazer. A liberdade e o tédio lado a lado.

Depois, Ferdinand elabora um pensamento filosófico de que, quando uma pessoa espera pela outra, ao mesmo tempo o que era esperado só passa a existir, na casa em que a pessoa espera, quando esse cruza a porta, chegando ao recinto. Antes, tudo era pensamento, memória, desejo e suposição. Loucura aos casais que se divirtam com essa corrente de raciocínio.

Pausa do filme aos 50 minutos*

Godard passa de uma ode à natureza, com seus animais silvestres, árvores enormes em paisagens praticamente intocáveis para causar a provocação que foi um de seus principais temas dos anos 1965-1970, com a Guerra do Vietnã. Para arranjar algum dinheiro vivendo em meio à natureza, Ferdinand e Marianne resolvem engambelar turistas estrangeiros, que somente falavam inglês. Ferdinand debocha do sotaque e das gírias atarracadas dos gringos, enquanto os personagens principais simulam uma conversação entre um almirante da marinha dos States e uma jovem vietnamita, feita por Anna Karina, em uma provocante 'yellow face'. Com uma espécie de mímica, de teatro de marionetes, queimam fósforos sobre combustível; metáforas da guerra. Vale a citação de Made in USA de 1966, crítica maior em relação à arte fílmica produzida no país norte-americano. Outras aventuras godardianas focariam mais na política armamentista e nas escaladas de guerra, diretamente.

É até difícil acompanhar o ritmo de mudanças nesse filme de Godard (em outros também). Marianne entra em uma fase niilista, de negações, mas logo se preocupa com sua "linha vital" na palma da mão, uma crença desvairada. A resposta de Ferdinand é que se torna niilista, não ligando muito para essas crenças ou quaisquer outras. Próximos de serem apanhados, a dupla se separa. Ferdinand vai a um bar que tem, categoricamente, um carro estacionado entre as cadeiras, uma hippie que dança freneticamente ao som de uma jukebox, como uma previsão das raves, e Ferdinand pede dois chopps: "assim terei um para quando acabar o primeiro".

Antes de se dividirem e retomarem contato por telefone, Marianne havia dado palpite sobre o que Ferdinand deveria escrever, ele enquanto aspirante a escritor, que já estava, entre sua obsessão por livros, a escrever seu diário de convívio entre o amor e a natureza. "Escreva sobre um sujeito que anda por Paris e encontra a Morte. Ele tenta fugir da Morte, anda por tudo, e quando pensa que a driblou, é acidentado por um caminhão". Uma boa anedota.

Com a separação de Ferdinand e Marianne, a família da moça sequestra o rapaz e exige informações sobre o dinheiro que havia no carro (e eles queimaram) e o paradeiro da sobrinha. Godard repete as técnicas de tortura apresentadas em O Pequeno Soldado (1962), dessa vez com Ferdinand sendo submetido a afogamentos enquanto tem uma arma de fogo apontada para sua cabeça. O objetivo dos sequestradores é encontrar o paradeiro de Marianne.

Liberto dos sequestradores após indicar que Marianne deveria estar em uma boate, um dancing, porque ela queria dançar, Ferdinand perambula de volta até o litoral e apenas reclamava que era uma tarde terrível, sem mais o que exprimir. Dias depois, de emprego no cais embarcadouro, o surrealismo retorna com tudo ao aparecer uma dita princesa do Líbano com fantasias de perseguição e de realeza, que se protege das perseguições de metralhadora porque Alá a protege. A refugiada tem um ajudante chamado Alexis e apenas passa pelo filme enquanto Ferdinand está a comer um pedaço gigante de queijo; bem surrealista. Marianne vai retornar em seguida apresentando o que prometia, que também sabia escrever uns versos. Escreveu sobre Ferdinand, o chamando novamente, como sempre, de Pierrot, le Fou (a nominação do filme em cena, elemento comum de várias das obras de Godard).

O filme segue seu ritmo frenético entre denunciar a escalada dos EUA sobre o Vietnã, o tráfico de armas no Oriente Médio, ao citar a Guerra do Iêmen, e encontra espaço para jornadas de autodescoberta. Ferdinand e Marianne estão juntos novamente e fogem do embarcadouro com um barco, pois ainda eram procurados pela polícia pelo primeiro homicídio cometido antes da primeira fuga. Nessas perguntas de autodescrição, Ferdinand afirma que ele é "um ponto de interrogação diante do Mediterrâneo", enquanto a imagem abre em plano com o Mar e a civilização em construção civil ao fundo. Poético.

Um resumo do filme está em declaração a 1h30min: "com você (Marianne) tudo é complicado. Não, tudo é simples. É tudo ao mesmo tempo". Resumo da ópera da ensalada de assuntos. Mas que não ousem desqualificar o roteiro. São apenas muitas informações, mas não totalmente desconexas. Em verdade, na primeira vista, tratando-se de filmes de Godard, o erro que o espectador comete é: levar muito a sério. Esperar que os personagens tenham comportamento tradicional e não disruptivo. Em verdade eles vão sempre oferecer saídas estratégicas, improvisação, inovação, rebeldia, soluções distâncias do comportamento usual. É o surrealismo que dá cara ao holofote. Com esse aprendizado sobre os filmes de Jean Luc, o espectador fica preparado para as próximas jornadas estonteantes. É sempre fora da caixa, fora da casinha, propositalmente; oposição ao padrão, ao tradicional, ao consagrado e batido.

Para os últimos 20 minutos do filme, Ferdinand e Marianne aplicam um último golpe para reaverem dinheiro e planejarem uma fuga para ilhas do exterior. A surpresa é quando a moça não segue a parte do plano e aplica um golpe no fugitivo marido golpista. O desfecho trágico, pode-se afirmar, é bastante francês. O impacto da poesia está na última das tantas frases pronunciadas no filme: "encontramos a eternidade. É o encontro do sol com o mar", em uma bela paisagem que, se não cumpre o desejo, a expectativa após quase duas horas de filme, encerra poeticamente uma aventura à francesa, com o impacto do cinema a cores vibrantes, com muita sátira, filosofia, aventura, reviravoltas e críticas.





10/08/2025

Made in USA (1966)

Apontamentos sobre o filme:

1- as técnicas, sonoplastia, cores, roupas

2- diálogos e exagero com as mortes e armas de fogo

3- a crítica aos roteiros e execuções comerciais de Hollywood

4- as reviravoltas

5- o final sobre o fascismo

Extra: a comparação temporal entre Beatles e o cinema de Godard

Made in USA (1966) é uma das grandes obras de Godard, talvez subestimada frente a outros títulos. A ideia do filmmaker era principalmente desdenhar do cinema comercial e das propostas batidas apresentadas desde a época por Hollywood e os principais estúdios estadunidenses.

No filme, uma história clichê, como não poderia deixar de ser, de um crime, uma investigação, alguma reviravolta. A trama principal é a investigação de Paula sobre a morte de um affair chamado Richard. Para não ficar na mesmice, apesar das técnicas e comicidades que iremos comentar, Jean Luc Godard introduz fatores histórico-modernos na narrativa. O desaparecido/morto Richard era membro ativo e polêmico do Partido Comunista: elogiado por uns, perseguido por outros. Ao começo do filme, a camareira do hotel onde está Paula destaca: se os comunistas tivessem ganho a eleição, seria proibido o banjo. Conflito de classes apresentado.

Godard abusa de diálogos banais com tons forçados, frases repetidas dos clássicos norte-americanos. São falas com frases de efeito, jograis feitos entre os atores, apresentações ensaiadas e um jogo de câmeras que não é comum ao cinema de Jean Luc. A aparição de muitas armas dá o tom da investigação, de uma vida sob constante perigo, contornada e intermediada pela violência e pelas formas self services de resolução, com ou sem a atuação da lei (na intermediação policial).

As mortes desde a aparição de um intrometido no quarto de Paula, quando questionamos, de onde pode aparecer de repente um tipo desses, Paula o executa de forma cômica, com um sapato, em que ela pedia a vítima para escolher a cor da arma. Com sangue em tons muito falsos, Paula arrasta o corpo desse tiozinho, como uma autêntica cena repetitiva dos filmes hollywoodianos. É de se questionar como não cansamos (mas cansamos) de assistir a isso.

Por onde vai, Paula torna-se suspeita, é acompanhada de perto por investigadores e carrega sempre sua arma de fogo. A sonoplastia do filme é interessante, com efeitos exagerados, interrupções sonoras durante falas importantes, signo usado por Godard em filmes vindouros, como Weekend À Francesa (1967), que também será analisado durante esse apanhado de resenhas.

A figuração também é especial em relação ao que costuma apresentar Godard. Como é um dos seus primeiros filmes coloridos, o diretor exagera nas cores vibrantes, nas vestimentas forçadas e desenha personagens com personalidades e diálogos toscos. Uma das cenas cômicas ocorre em um café, em que o atendente, o barman Paullllll (como ele se autointitula) oferece charadas e troca palavras com um bêbado e Paula. A troca de olhares entre Paula e um dos atendentes que aparecerá mais na narrativa também é forçosamente proposital. É de se questionar o treinamento, o pedido e a formulação para os atores, ao invés de parecerem mais reais, como costuma ser, terem de parecer mais artificiais e zombeteiros para com a situação.

Anna Karina consegue manter o nível de suas atuações, como quando desempenhou a srta. Von Braun em Alphaville, filme lançado no ano anterior. Entre cenas mais marcantes do filme, nesses encontros em cafés ou com investigadores e a importância destinada a seus carros, destacam-se mais mortes forçadas, inclusive na brilhante ideia da encenação demorada e dramática até finalmente cair morto, e na ação de criminosos se escondendo entre arbustos e à vista de janelas.

Como apontado no início dessa resenha, a crítica ao cinema comercial e repetitivo de Hollywood é a grande arte e inovação no filme. Uma acidez, uma ousadia, uma elegância para infâmia, para o deboche, para ironia. Essa forma de paródia poderia ter despertado o cinema contra os padrões impostos e enfadonho; bem verdade, se a mesma paródia não fosse podada e totalmente encoberta pelos próprios investidores do que é criticado no filme de Godard. O remédio contra a crítica manifesta é re-elaborar mais antídotos que se sobreponham e silenciem a crítica. Produzir mais, manter a onda que encubra a mancha na indústria. Tanto funciona que a manutenção dos estúdios norte-americanos da produção industrial é soberana sobre as obras feitas pelo crítico diretor politizado.

Godard muitas vezes é um eco solitário contra a selvageria das ações impositoras, imperialistas que cegam linguagens, manifestos e doutrinam pessoas ao silenciamento, ao amanso, ao conhecimento só de uma cota limitada, ao permitido, impedindo a crítica, o questionamento, proibindo-os. 

Na parte final do filme, Godard mantém sua preocupação sobre escaladas fascistas, sombras do que centenariamente nunca deixa a Europa, o mundo. Desde antes do bigode austríaco, até... até enquanto o mundo for mundo. A barbárie, a imposição, as restrições sobre, o controle sobre, a dominância de uma classe sobre outras será sempre o estigma da realidade. Fazem-se adaptações, forja-se um pontilhado ou frágil progresso para aprisionar as classes sociais sob novas arestas, atrás de novas grades. Na parte final do filme, o assombro do fascismo sempre à mostra, ampliado, amplificado ou mesmo velado sobre as práticas do cinema convencional, às vezes brevemente questionado sob a figura de vilões, mas geralmente combatido por indivíduos dotados, especiais, neoliberais no combate. Esperar pela figura heroica, masculina e branca, preferencialmente, combater com suas próprias armas, com o uso e a resposta da violência como providenciais soluções. Vencer a disputa contra "o mal" e dirigir rumo ao pôr do sol ou céu azul com um final decididamente feliz. Sob essa custódia, não criticar os líderes globais, suas empresas e muito menos aos patrocinadores, financiadores comerciais do cinema comercial. Apresentar as marcas e as mensagens subliminares para o público. No final, o produto deve ser a venda sobrepondo-se à arte, ao argumento, à filosofia, às intenções humanas.




Como palhinha sobre a época, estive pensando sobre o ápice da Nouvelle Vague questionadora do cinema de vanguarda europeu enquanto vivia-se a Beatlemania, do rock n roll revolucionário, de pedidos de paz e boas mensagens transmitidas até o esvaziamento cultural do enchimento e preenchimento de estádios para ouvirem-se gritos. Nos Estados Unidos da América, sobretudo. Turnês esvaziadas de significado que passaram a frustrar e ameaçar os próprios Beatles. Tanto é que fecharam-se nos estúdios para produzir música e pararam de se apresentar ao vivo. Vi por aí (ótima fonte essa) que Godard havia criticado a beatlemania enquanto vedetes sem questionamentos maiores. Os Beatles não se pronunciaram politicamente, ou muito menos do que poderiam. Também aponta-se que uma recusa causou o filme de Godard envolvendo os Rolling Stones ainda nos anos 1960, com o especial Sympathy for the Devil. Em rebate, Godard teria questionado os Beatles sobre o sumiço das apresentações e apontado que fazer um show em um telhado era uma inovação e tanto, antes proposta por outra banda.

Se a ideia da crítica de Made in USA é apontar as limitações e sujeições de uma indústria de cinema, sobre os Beatles a crítica de Godard também poderia pairar sobre apolitização, sociedade corrompida a partir da máxima do dinheiro e a idolatria acrítica e descontrolada das pessoas acerca dessa estrondosa mania. Apenas um parênteses sobre dois fenômenos dos mais importantes mundialmente a respeito da década de 1960: as canções dos Beatles (e do rock inglês em geral) e os filmes de Godard (com outras exibições do cinema francês em geral). É possível aprofundar o tema, por exemplo, expressando ano a ano as nuances, contribuições, a forma disruptiva, antagônica ou convencional do papel desses artistas, na aplicação da arte e seu valor: a transformação social. A transformação social vista sob duas óticas: a atingida e a almejada. Um tema e tanto.





09/08/2025

Uma Mulher Casada (1964)

Ao contrário da análise positiva de Alphaville, Uma Mulher Casada talvez seja um dos filmes que menos gosto da filmografia de Godard durante a era da Nouvelle Vague. Este filme é de 1964 e conta a história de Charlotte, uma jovem esposa dividida entre dois homens: seu marido oficial, Pierre, e o amante, Robert. Ela é madrasta do pequeno Nicholas, filho do primeiro casamento de Pierre.

Seus pretendentes são mais velhos. Pierre é piloto de avião e constantemente está fora da cidade no exercício da profissão. Robert também tem de tirar dias fora, porque é ator de teatro. Charlotte vive à espera das viagens de Pierre para manter seu relacionamento extra-conjugal. Das suas poucas tarefas é manter o garoto Nicholas sendo buscado diariamente da escola.

Entre tantos elogios feitos recentemente aos filmes de Jean Luc Godard, este não é dos mais chamativos, explicando o porquê: não há filosofia mais densa e trabalhada, não há um roteiro cativante com as personagens, as atuações também não chegam a ser memoráveis ou divinas, não há acontecimentos que suscitem a trama em ação ou grandes suspenses. É um drama bastante morno, mas procuraremos atingir o objetivo de elencar pontos do filme.

Godard consegue mesclar seu gosto pela História ao pontuar uma viagem de Pierre, que passou da Alemanha a Auschwitz, na Polônia, local do maior campo de concentração da Segunda Guerra. O assunto permeia o filme. Em um dos encontros clandestinos de Charlotte com Robert, o destino é uma acanhada sala de cinema, precisamente na poltrona 12, quando a sessão de filme era referente à Segunda Guerra Mundial, e especificamente sobre os campos de concentração e suas aparências normais para os cidadãos que pudessem ver apenas de longe, de fora. É uma coincidência, pois Robert não tinha acesso a esse assunto que Charlotte travou com Pierre.

A trama do filme se desenvolve do meio para o final. Charlotte estava marcando consultas médicas e com a suspeita de uma gravidez. Ela descobre estar grávida em andamento, de três meses. Na hora, o espectador já fórmula a única pergunta possível: de quem será o filho? Há uma esperança de que a própria Charlotte tenha a resposta, mas adiantamos que ela não tem. Portanto, a dúvida é levada até o final do filme. Poderia ela, nessas escapadas, ter um cálculo mais preciso de com quem tenha dormido nesse tempo, mas durante o filme é provado que ela poderia estar até mesmo com os dois pretendentes em um único dia. Na manhã com Robert e à noite com Pierre, de volta de viagem.

Em visita a amigos de Pierre, a filosofia corre um pouco à solta no filme, mas entende-se que não com a profundidade de outras obras de Jean Luc. O objetivo maior do filme é entender a cabeça - e nela a bagunça - da situação entre um marido que tem um filho pequeno de outro casamento e almeja ter um filho de Charlotte, a cabeça da própria Charlotte, dividida entre os dois compromissos, e o bom vivente Roberto, sem a responsabilidade familiar e tentando alavancar sua vida de ator. Segundo ele, nunca foi casado. É um que dispensa compromissos do tipo.

A liberdade de escolha de Charlotte, à mostra da possível traição feminina, chocante aos olhos de 1964, são temas que podem ser mais reveladores, nesse olhar retrospectivo. Vale a lembrança, como outras análises por mim feitas, sobre os casamentos arranjados que perpassam tantas culturas pelo mundo em pleno 2025. Trata-se então de uma realidade francesa e europeia em plena década de 1960.

O feminismo aparece em algumas cenas do centro da trama. Charlotte frequentava uma piscina, de um clube ou pública, mas indiferente. Ali, tinha amigas e também passou a escutar a conversa de mulheres mais jovens, iniciando a vida sexual. Uma das adolescentes aconselhava a outra sobre como seria a experiência, sobre despir ou não, manter luzes acesas ou não, algum comportamento corporal de um jeito ou de outro. Charlotte escutava com a nostalgia de quem há muito estava iniciada e agora com compromissos maiores, tanto com o cônjuge, o cuidado com o enteado e o planejamento do que estaria por vir. Em meio a essas conversas, assuntos de penteado, de vestimentas e de signos do horóscopo, novidades e assuntos clássicos do que se considera moda feminina.

Em casa, com a empregada doméstica, com a madame da qual esquecemos o nome, Charlotte também desenvolve conversa a respeito de relacionamentos, modernidade e aparência. Apesar de sua beleza definitiva, a personagem principal estava incomodada com o tamanho de seus seios, preocupação e pressão julgadas sobre as mulheres e suas aparências. Revistas femininas, conceito que se estendeu por décadas nos salões de beleza e salas de espera, erguiam métodos capazes de corrigir postura, aumentar as mamas, etc.

É de se pensar por esse lado também a diferença de classes e do feminismo na época, entre madames que tinham a possibilidade de escolha, enquanto outras simplesmente as serviam em emprego, ou lutavam por direitos contra preconceitos raciais, por exemplo. A conhecida diferença entre feminismo branco e feminismo negro; lugar de fala acentuado para época (imaginem só em Estados Unidos, por exemplo). Em depoimento da empregada, sabatinada em perguntas sobre como era seu relacionamento em casa, ela reclama que os homens muitas vezes reduzem a relação ao sexo; assim, ela precisa fingir para manter tudo bem - é a falta de direito de escolha, de autonomia sobre o corpo sendo transmitida nesse depoimento. Ao final, porém, talvez sintoma também de suas limitações de perspectiva, educação sexual e lazer, a empregada opina que essa forma de amor é a única verdade na vida, e, quando considerado o todo, é um remédio contra apatia.

Interessante que, após esses depoimentos, chega a hora da revelação no consultório médico: Charlotte descobre definitivamente que está grávida. Ela aplica uma sabatina ao doutor sobre aspectos, por exemplo, do prazer que uma mulher pode sentir, e se ele, o médico, poderia ajudar a descobrir de quem seria o filho. Em depoimento que pode ser considerado contínuo à situação das muitas empregadas domésticas e mulheres e casais de classes sociais mais baixas: Charlotte pergunta sobre o controle da natalidade. O ano, lembrem-se, era 1964, e a explanação do médico é mais um trunfo de Godard para antecipar problemáticas do mundo atual. Por enquanto não havia necessidade do controle de natalidade, mas este poderia vir a ser um grave problema. Assim foi e é em alguns países (como não lembrar o caso da China acima de bilhão de habitantes e como isso vem à tona para Índias, Bangladesh e Paquistão, e também para realidade de países da África). Enquanto Europa e regiões das Américas viviam a expansão das famílias amparadas pela medicina que reduzia a mortalidade infantil, hoje essas mesmas regiões do globo já apresentam quedas vertiginosas no número de filhos por mulher.

A situação da classe média em que Pierre tinha o único filho pequeno Nicholas, Robert não era pai e Charlotte passava a esperar o seu primogênito, demonstra já uma sociedade europeia bastante desenvolta em planejamentos. Situação recorrente à zona urbana, enquanto os rurais ainda possuíam maior natalidade com os cuidados das muitas tarefas do campo. Observação que pode sim ser retomada ao Brasil, com o habitual atraso de décadas, mas com resultados inclusive semelhantes.

Enfim, apesar da obra Uma Mulher Casada não ser da magnificência a que Godard nos acostuma, ela tem sim pontos altos que refletem o comportamento, os debates e as discussões da época. Godard era mestre em inserir nos diálogos banais, nos vazios, números, notícias, novidades, tópicos de interesse da sociedade e que garantem, passado mais de meio século, uma contemporaneidade clássica, um achado, um apanhado de informações ricas e dignas da época, objeto de estudo sedutor para acompanhar o desenvolvimento e os peculiares caminhos da humanidade.


Cenas sensuais são comuns em Uma Mulher Casada (1964)
Olhar crítico de 2025 deve entender as nuances e novidades apresentadas por Godard de forma ousada às telas da época.


08/08/2025

Alphaville (1965)

Alphaville talvez seja meu filme favorito de Godard. E o talvez aqui ainda é totalmente humano. Alphaville é um lugar robotizado no futuro, onde o controle sobre os cidadãos e as mentes é total e as pessoas são ou condicionadas à tecnologia ou eliminadas. O lugar obedece à lógica das máquinas e tudo é programado. Desde a chegada do estrangeiro Lemmy Caution em um hotel, a recepção é feita por sedutoras programadas. "Sedutoras de nível 3."

Godard usa elementos sutis ou não para expressar sua preocupação com a sociedade futura. A eliminação de estrangeiros e o seu controle total. Quem não se adaptar à tecnologia e às ordens da lógica será eliminado. Até a forma de eliminação é calculada e tem bases, por exemplo, na solução final contra os judeus na Segunda Guerra. Ao invés da frieza das manipuladas câmaras de gás, as pessoas seriam eliminadas em um teatro enquanto assistissem a uma apresentação qualquer.

O Alpha 60 é o grande cérebro programado para controlar Alphaville. Godard está atento às artimanhas das guerras. Em certo momento, enquanto Caution, jornalista estrangeiro, está conhecendo as estruturas do colossal Alpha 60, o recepcionista afirma que os Países Exteriores em breve entrarão em guerra com Alphaville, então, pela lógica programada, Alphaville resolveu invadi-los antes que isso ocorra. É a lógica e a disputa e o interesse que, por exemplo, os Estados Unidos usam no plano global a várias décadas, seja para justificar obtenção de petróleo, seja para intervir em questões ideológicas, como ocorreu na busca por recursos em Guatemala, Honduras, Nicarágua, embargo a Cuba, guerra em Vietnã, Camboja, intervenção na África em Ruanda, Angola, Líbia, ditaduras na América do Sul e assim por diante.

Alphaville demonstra a preocupação com o estrangeiro, com o que não se adapte. Eles dizem respeitar, precisar dos cérebros mais fortes e ao mesmo tempo temê-los. É a linha tênue entre a necessidade do controle desses ou eliminá-los. É uma sociedade mecanizada, onde a Bíblia está presente nos quartos de hóspedes em hotel e assim se imagina, se conclui que a teocracia estaria por tudo. Também no quarto de Cautton é apresentada a forma como as pessoas lidarão com a saúde no futuro: "os tranquilizantes estão no banheiro, senhor". Não é se você precisar, senhor. É óbvio que você vai precisar. A sociedade não tem como se sustentar sem esses medicamentos de uso controlado.

Godard sempre foi muito cuidadoso nos usos da linguagem, desde seus primeiros filmes. Experiência que ele vai ampliar ao longo da carreira até seus últimos filmes, mais técnicos, documentais. Em Alphaville, foi abolido o uso da pergunta "por quê?". Caution, enquanto jornalista estrangeiro, está acostumado a investigar e utilizar esse interrogativo. Já os cidadãos na Alphaville sequer reconhecem o significado do por quê. Um dos receptores para Cautton explica que não se usa mais "por quê" e sim apenas "para quê", porque tudo é guiado pelo objetivo, pela causa e pela consequência. É a lógica que controla e subverte qualquer saída dela. É interessante pensar que na mesma década, apenas dois anos após seria lançado o livro com tantos aforismas e pensamentos acerca disso, A Sociedade do Espetáculo, do também francês Guy Debord.

Durante o filme e suas investigações, Lemmy Caution é inquerido em diferentes interrogatórios, quando querem saber sobre seu passado e sentimentos. Os sentimentos, obviamente, também foram abolidos de Alphaville. Seduções e atos sexuais também são programados como tarefas das mais banais. Durante suas ações, Caution chega a excursionar com uma tentativa de nome falso: Ivan Johnson (algo até enfadonho e repetitivo, como um nome comum dos russos, mas com uma mistura proposital).

"Desde que está aqui, não entendo o que está acontecendo", afirma Natasha von Braun (Anna Karina), demonstrando que Lemmy Caution causa esse efeito na programada cidade de Alphaville: confusão, sentimentos humanos. Caution questiona Natasha sobre literatura e sobre conhecimentos básicos que parecem banais a nosso mundo, mas que em Alphaville foram abolidos.

Ao início do filme, Lemmy encontra Henry Dickinson, que conta que são comuns os suicídios. "E o que acontece com quem não se adapta e não se suicida?" Bom, aí eles te matam. Soa como uma ditadura, não é? Natasha von Braun é a filha do mentor Dr. von Braun. Palavras de sua lembrança foram eliminadas. Em comum com a Novilíngua do 1984 de George Orwell, em Alphaville também se proibem e eliminam palavras. Em Alphaville, a Bíblia e o Dicionário podem ser a mesma coisa na busca por respostas. A população não diferencia um desses livros do outro. No Dicionário as palavras somem e são abduzidas ou adaptadas, reprogramadas. Consciência é uma palavra inexistente. Ninguém deve pensar nela. Ternura também foi abduzida. São repaginadas em comum com os ministérios organizados na sociedade oceânica do 1984.

"O que faz com que a madrugada se ilumine?" A Poesia. A Poesia foi abolida. Até havia escritores, mas eles vivem na Zona Proibida (novamente em comum com 1984), "escreviam coisas incompreensíveis". Usam das palavras proibidas e dos sentimentos. Godard sempre quebra momentos de tensões com anedotas sejam mais ou sejam menos conhecidas. São casos de folclore, ditados populares ou provérbios de diferentes culturas. Alphaville quer controlar todos esses testemunhos. "Farei os cálculos necessários para não existir fracasso", afirma o poderoso Alpha 60. "Pois eu lutarei para que o fracasso exista", rebate Lemmy Caution.

"Você tem ideias estranhas, sr. Caution", afirma o professor von Braun. "Seriam consideradas sublimes na era das ideias. Mas em breve homens como você não existirão mais. Serão convertidos em algo pior do que a morte. Serão lendas", dando a entender que caíriam na vala comum do esquecimento, da eliminação. Um dos métodos sublimes apresentados no filme, no limiar cômico, é uma forma de eliminação dos inimigos do Estado que consistia em posicioná-los em uma cerimônia sobre um trampolim de piscina, deixá-los recitar suas últimas palavras e serem baleados, como um paredão de fuzilamento, mas artisticamente à beira da piscina. Um grupo de mulheres como a um nado sincronizado recolhia os corpos recém caídos na água. Métodos de tortura e execução, sem perder o brilho. A referida Sociedade do Espetáculo.

Entre quem poderia ser adaptado, selecionado, recrutado à sociedade de Alphaville, Godard levanta a crítica de que muitas vezes os selecionáveis eram alemães, suecos, norte-americanos. Será o preconceito daquela sociedade em favor dos que se trocam prêmios Nobel a cada ano, ou serão esses mais adaptáveis pela frieza sentimental? Perguntar não consolida a acusação.

Este filme de Godard é bem completo aos objetivos quando revista sua obra. Tem ação, tem suspense, tem altas doses de sua vasta filosofia, tem ideias distópicas, tem humor, tem o drama com disfarce/espaço a romance, tem a pesada crítica sobre as sociedades daquela guerra fria e com projeção ao futuro da inteligência artificial.

Ao começar a crítica de Alphaville, o foco seria a inteligência artificial, que está atingindo o ápice de desenvolvimento e preocupação agora pelos 2020 e poucos, rumo a 2030. Robotização, programação, substituição, algoritmos, subtração das importâncias culturais, desemprego. O final é especial, quando tenta salvar Natasha von Braun e ela tem dificuldade de proferir as palavras que deseja, do fundo de sua alma, Lemmy afirma que só ela poderá dizer o que quer, ou estará morta como os demais mecanizados de Alphaville. Será essa a crítica derradeira de uma sociedade que se comporta à luz da Inteligência Artificial e esquece de pensar, esquece de interpretar, esquece de raciocinar, esquece de sentir por si. Necessita de aspectos programados para responder simples (ou não tão simples) perguntas. Como você se sente?

Bando à Parte (1964)

Bando à Parte é mais um filme de Jean Luc Godard lançado em 1964, em uma fase muito trabalhadora do então jovem diretor francês. A cinematografia é assinada pelo camarada Raoul Coutard. Bando à Parte conta a história de um trio. São dois jovens trambiqueiros que tentam convencer uma simples moça, trabalhadora e estudante, a roubar o alto dinheiro de seus patrões, com os quais ela mora; e depois zarparem, fugirem, caírem fora.

Odile está apaixonada por Franz, um dos capangas, que, juntamente com Arthur, quer arquitetar o audacioso golpe. Franz e Odile (Anna Karina) se conheceram em aulas de inglês. Godard debocha do ensino da língua estrangeira, sobre a metodologia das aulas e o comportamento infantil dos estudantes, mesmo todos eles sendo adultos. Flertes e bobajadas acontecem durante a aula. Nos intervalos, Franz investe sobre Odile e Arthur aparece para compor o trio em busca do grande assalto.

É um filme que satiriza as técnicas de Hollywood, as histórias de grandes grupos, gangues e roubos. A técnica narrativa de Godard é cômica, chegando a propor um minuto de silêncio no meio do filme, quando o trio de reúne em um bar, e também uma pausa bem humorada para dança, avançando o tempo do filme.

O satírico também está nos personagens, com Odile muito inocente e pueril, tomando rumo e convencida a participar do roubo apenas com muita técnica e crueldade dos demais rapazes. Os patrões da jovem também são satirizados de modo que a Madame Victoria e o senhor que guardavam o almejado dinheiro seriam queixos elevados, sendo ele um sonegador de impostos, segundo Odile. O fato de ser um sonegador dificultaria que o patrão abrisse caso com a polícia para reaver a quantia do roubo.

Godard propõe uma reflexão na imagem que ilustra este capítulo em resenha, uma vez que debocha de uma possível queda de importância do idioma inglês, o que até passa a acontecer na modernidade com a ascensão da economia e da relevância da China e do Mandarim pelo mundo. Por que estudar inglês e não mandarim? O diretor sempre abria espaços no roteiro para inserções de sua preferência política e críticas à sociedade burguesa europeia. A história de Bando à Parte é uma história de safadeza, mas também um conflito de classes, de gerações. A história do planejamento e da execução final de um roubo repleto de momentos de tensão e comicidade. Não é um dos meus favoritos da vasta obra de Jean Luc, mas fica o registro da ficha de leitura a respeito desse filme de 1964, este realizado ainda em preto e branco.





07/08/2025

Desprezo (1963)

Esse é o segundo filme colorido de Jean Luc Godard. Desprezo é um filme que tem meu apreço (trocadilhos), também porque foi um dos primeiros que vi do diretor francês. É uma produção mais bem elaborada, além de ser a cores, traz figuras importantes do cinema da época, com a atração da loira Brigitte Bardot e do muito consagrado diretor de cinema Fritz Lang atuando na peça.

O filme relata a queda de um casal, por isso a destruição do amor ao desprezo. As tentativas de conciliação ainda tentam alimentar um fogo não mais ardente. A bem da verdade me interessam mais as peças sobre essa queda inevitável do que sobre a ascensão. Entre o irreal da ascensão e o real da queda, muitas vezes fico com a escolha realista do término. Ok, não ficaram boas essas frases, mas, em resumo, o filme destaca o fim de relações, quase sempre inevitáveis e cada vez mais comuns.

Um roteirista, chamado Paul Javal, sonha escrever teatro, mas precisa de dinheiro. Ele está para aceitar consertar os rumos do roteiro em um filme bastante elaborado. O produtor, Jeremy, é um ricaço que despeja dinheiro sobre a arte. O diretor é feito pelo Fritz Lang enquanto ator. Esse roteirista tem a bela esposa Brigitte Bardot, com o nome de Camille na peça. O rico produtor estrangeiro logo se interessa pela loira. Como estão com o relacionamento em baixa, logo após conhecerem o produtor e o trabalho de Fritz Lang, o roteirista Paul propõe que a mulher possa ir até a mansão do produtor Jeremy, com o proprietário a dirigir seu belo carro conversível, ao lado da loira. O roteirista vai depois, de táxi, "pode ir, não se preocupe". O filme é repleto de falhas de comunicação, muito em função do produtor só saber falar inglês, enquanto o roteirista e Camille falam francês. Uma tradutora contratada pelo produtor, e possível affair também para o roteirista, serve de intérprete para mediar as conversas cheias de desentendidos, silêncios, bloqueios e constrangimentos.

Na memória da primeira vista, as cenas no apartamento do casal, quando discutem sobre a continuidade ou não da participação do roteirista no filme, são bem duradouras. A montagem de cena traz recortes que mostram os bloqueios na relação do casal. Eles seguidamente falam de um cômodo do ap em direção ao outro cômodo. Um vai para o banho, o outro fica na sala. Um vai para o quarto, ela está na cozinha e assim por diante. São poucas falas de olho nos olhos. São assuntos banais que se tornam provocações apimentadas, tentativas de quebrar silêncio. Ebulição que se tornam xingamentos ora mais ora menos sutis. Há muito paralelo com a Trilogia da Incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni nesse filme.

Eles tentam reacender esperanças com cenas mais requentadas, posições corporais tentadoras, mas as nuances mostram altos e baixos que atentam para um fim inevitável. Após bastante conversinha entre eles nos cenários set de filmagens + casa do rico produtor estrangeiro + apartamento do casal + teatro para ouvirem gravações de cantora, eles finalmente desembarcam nos cenários finais paradisíacos da ilha de Capri. São algumas das mais belas paisagens possíveis ao cinema.

Em análise, poderia se debruçar inteiramente sobre a mitologia no filme, visto que a gravação de Fritz Lang é para uma apresentação de Odisseia, de Homero. Assim, elementos da mitologia, da cultura grega estão incorporados em imagens e citações durante o filme. Uma analogia próxima ao fim do filme que considero muito interessante é a do roteirista tentar interpretar a milenar obra de Homero com sua situação conjugal. Segundo sua teoria, Ulisses saiu de Itaca para atracar nas guerras porque já era rejeitado pela mulher Penélope. Assim, era melhor dar longas voltas distantes do que estar preso à rejeição em casa. Essa teoria é parcialmente aceita, é uma especulação baseada em histórias conjugais que se repetem e ajudam a tornar atemporal uma das mais clássicas das obras. Enquanto debatem sobre essas possiblidades, eles também passeiam por Capri, trocam palavras em diferentes idiomas quando há interferência dos demais personagens com necessidade da intérprete Francesca.

Após tanta filosofia, debate, remoer feridas, o roteirista vê seu casamento mergulhar como a um penhasco da bela ilha de Capri. Ele chega a seu limite sobre aceitar ou recusar a proposta de milhares de dólares, que serviriam para reforma geral do apartamento e segurança financeira do casal. É um debate moral, racional, emocional, trabalhista e pontuando questões de orgulho. Ele sabe que seu casamento está arruinado e seu trabalho também está parcialmente esfarrapado, pois o seu grande sonho de escritor era o de escrever teatro e não se vender a cinema de qualquer maneira.

O Desprezo é uma obra cheia de filosofia, emoldurada a citações, convidativa à reflexão social desde aquela década de 1960, a convite da Nouvelle Vague francesa, que tomava conta da Europa. Uma reflexão interessante ao início do filme é uma crítica de que o cinema italiano já estava em baixa  - pois imaginem hoje. O aumento da possibilidade de escolhas da mulher, a prisão ou a liberdade financeira para servidores da arte, o diálogo cada vez mais global entre os financiadores. A retomada de obras clássicas com releituras a partir do momento cultural do Século 20. Um Fritz Lang até divertido, já consagrado pelo cinema alemão e de entrada forte em Hollywood. Godard investiu pesado para trazer novidades ao seu cinema e foi assim que o Desprezo se tornou o primeiro longa-metragem colorido do maior nome do cinema francês. Revivendo histórias da milenar mitologia grega, debatendo o momento cultural do cinema nos anos 1960 e os problemas conjugais - mais ou menos - clássicos a qualquer época.










05/08/2025

Os Carabineiros (1963)

Tive problema com legenda adiantada, dessincronizada com este filme. Foi a revisão de Os Carabineiros, de Jean Luc Godard. Terceiro filme revisto para essas interações, após Acossado (1960) e Viver sua Vida (1962). Por ordem cronológica, outros filmes de Godard também foram lançados em 1963. A escolha pelos Carabineiros como primeiro entre esses se deve à lembrança de ali se tratar de um dos filmes mais leves do diretor francês.

Gosto de citar bastante os nomes dos diretores, dos atores, dos personagens nas resenhas, sem substituir por outros termos. Por que isso? Porque a falta de memória vai abatendo e é necessário dominar a bola sempre próxima ao pé para não escapar, não é mesmo? Controle.

Os Carabineiros é um dos filmes mais leves de Godard porque é bastante cômico, exagerado e não exige muita interpretação. Não possui diálogos densos, não apela para filosofias mais exóticas e/ou eruditas. Pelo contrário - o termo 'pelo contrário' é repetido várias vezes pelos membros do exército na hora de recrutar os irmãos para guerra. Pelo contrário, os Carabineiros é um filme até surpreendente por bastante simplificado tratando-se de Godard e da genialidade à época daqueles diretores. Mas o tempero com que é tratado o filme em cortes e sequências é de respeito, o que torna um de meus filmes favoritos do diretor, sem dúvida alguma.

Menosprezado e pouco afamado, Os Carabineiros conta a história de uma guerra envolvendo um povo dedicado a um rei. Este rei é vangloriado desde o recrutamento, em que membros do exército, os Carabineiros, chegam de carro até uma casa em região inóspita, onde moram, aparentemente, quatro irmãos: dois homens e duas mulheres. Os garotos, através de carta que eles acreditam ter sido enviada diretamente pelo Rei, são recrutados para guerra. Eles nada sabem sobre política, sobre o que é uma guerra e os exageros a partir disso são cômicos. Acreditam que podem atuar como bem entendem, de arma em punho, a roubar, saquear e violar por onde passam. Fundos de verdade em meio a exageros.

Apesar das opiniões trazidas a respeito, ressalta-se que este não é um filme de muitas cenas fortes. O satírico nas mortes e nas intervenções reduz o impacto. Não há como levar totalmente a sério e também, ao ponto de vista desse escriba, ciente do compromisso com o leitor, não há cenas de exagerada violência ou mau gosto, apenas a conduta estapafúrdia dos irmãos que nada sabiam sobre como atuar. A abertura para um livre arbítrio dantesco por parte deles possibilita suas más condutas e mal entendidos que tornam as situações em algazarra. Eles não têm respeito pelos civis. Sempre que cruzam com superiores não entendem bem as ordens, não sabem se comportar pelas cidades por onde passam e ainda há uma cena icônica no cinema Mexico com o irmão mais jovem sem entender como funcionava a reprodutibilidade da arte através da projeção na sala de cinema. Um completo despreparo. Uma patetice.

O filme mescla com acontecimentos históricos, por exemplo as escaladas da Segunda guerra mundial, enquanto o tempo também era de escalada das guerras entre Europa e África, quando as colônias africanas lutavam por independência, descolonialismo e pela busca da formação de países no continente negro. A trajetória do filme, portanto, é uma das primeiras críticas de Godard aos exércitos, suas condutas e objetivos, algo que se acentuaria em filmes mais elaborados como o seguinte, O Pequeno Soldado e um sobre o Vietnã, além do bastante político com tom em favor de ideais comunistas em A chinesa (1967).

A crítica de Godard se deve ao patriotismo, nacionalismo acrítico para formação, "capacitação", e atuação de exércitos no recrutamento de jovens inexperientes, apolíticos e inocentes. Os irmãos vindos do interior dos mais remotos são fáceis de ludibriar, enganar e comprar com medalhas ou quinquilharias. Houve através da carta endereçada pelo "Rei" a formação de um sonho lúdico de enriquecimento, fantasias jovens e de projetar um ideal para bens de consumo sobre a mente juvenil dos rapazes.

No filme Os Carabineiros, a ação transcorre em algumas explosões e na cena da captura da jovem russa em meio a uma floresta. Enquanto a menina, que estava antes disfarçada de soldado, tenta apaziguar os ânimos, cita elementos culturais ruidosos aos ouvidos despreparados dos "carabineiros", estes demonstram total falta de senso com a situação. Não obtiveram uma educação de qualidade e tampouco sabiam pelo que se lutava na guerra, enquanto a menina apresentava ideais muito mais esclarecidos e devidamente enraizados. Godard nunca escondeu suas preferências políticas e, por mais que exagere em alguns momentos, seu cinema, em obras que podem ser analisadas individualmente ou como conjunto de sua obra, resgatam e evidenciam elementos assaz importantes para entendimento crítico de mundo ao longo do Século 20.

Os Carabineiros é um filme bastante menosprezado, desprezado por assim mencionar, pois tem um potencial leve e conciliador rumo aos objetivos da escola que Godard firmou em preparar filmes críticos. 1h20min de cinema que passam rápido, em mais uma obra em que o diretor francês também transmitia o recado de que é possível conciliar leveza com crítica, filmes maduros apesar de sua pouca idade na profissão, filmes com retratos de guerra apesar de pouco orçamento (o elenco é mais desconhecido do que em outras peças) e apresentações bem elaboradas apesar do pouco tempo de rodagem, em tempo inferior às costumeiras 1h30 de tantos cardápios.

Um filme super recomendado, em que é possível rir e questionar absurdos, com inserções à época, elevando-se como um filme histórico, na denúncia dos recrutamentos que ainda são tendência pelos exércitos por todo o planeta. Qual é o papel transformador desses jovens pelo mundo? Qual é o nosso papel orientador em populações desorientadas?

26/07/2024

 


Jean Luc Godard sobre a repercussão positiva de seu primeiro filme, Acossado, e a necessidade do filme seguinte voltar sua vontade de fazer cinema. Desse sentimento surgiu O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, 1963), sobre um espião de motivação confusa durante o período da Guerra da Argélia pela Independência.


Depoimento publicado no documentário Godard Seul le Cinema (2022), direção de Cyril Leuthy.

18/05/2024

Longe do Vietnam (1967)

Um grupo de diretores franceses, compositores da chamada Nouvelle Vague, fez apontamentos sobre a guerra do Vietnã em 1967.

Enquanto a guerra transcorria na Ásia, debates sobre as imagens e os sentimentos gerados também ocorriam. Segundo as próprias vozes oficiais dos Estados Unidos, era a primeira guerra com uma cobertura completa de imagens, televisão e telejornais. Correspondentes que acompanharam as movimentações do local voltaram zonzos. Uma repórter relata que não aguentava mais o som de motores, helicópteros e bombardeios.

Era a guerra do exército mais rico do mundo contra um pobre país. Uma guerra ideológica. Uma guerra para tentar servir de exemplo a todos que dessem oportunidade para a corrente do comunismo. Um pequeno país campesino se organizando para se defender de toneladas de bombas lançadas diariamente. Um país agrário em sua própria defesa, pois ali os soviéticos não quiseram esquentar a mão no que ainda hoje se chama de Guerra Fria.

Os vietnamitas se organizavam como podiam em suas pequenas cidades e vilarejos. Também tentavam encenações, peças de teatro para distração mas instruções. Foram cavados milhares de túneis e de abrigos individuais subterrâneos. Em caso de alarmes de bombardeios ou invasões, os vietnamitas se escondiam em alojamentos concretados abaixo da terra. Milhares devem ter sobrevivido a partir dessas construções rústicas e muito úteis. Os Estados Unidos eram o exército mais rico do mundo, com equipamentos tecnológicos até hoje para muitos países. Porém, os jovens mandados à guerra sabemos quem são. Não são os de famílias abastadas. São negros, latinos e pobres de estudos atrasados. Esses foram a maioria dos chamados voluntários. Muitas vezes coagidos e esperançosos por um emprego ou algum orgulho para suas chorosas famílias.

Protestos ocorreram longe do Vietnã. Na França  o vice-presidente dos Estados Unidos foi recebido a protestos, cartazes, correria e confrontos policiais. Ignorava os constantes "Go home". Ao mesmo tempo discursava seu discurso pronto de falso bom acolhimento, receptação amistosa e bem sucedida. Ao mesmo tempo os franceses viviam naquela década os confrontos com a Argélia, por exemplo, tema de filmes da época, como O Pequeno Soldado, de 1963, de Jean-Luc Godard.

Recentemente falecido, Godard é um dos que mais aparece em minhas citações. Ele encabeça essa lista de diretores responsáveis pelo drama documentário em questão. Godard afirmou que pensava fazer um filme específico sobre o Vietnã. Pensava colocar sua visão sobre a guerra, uma visão francesa e distante sobre a guerra. Percebeu que não adiantaria e isso é colonizar culturalmente, como os próprios Estados Unidos costumam fazer. Em seu relato, o diretor compara as lutas. O Vietnã em uma luta desesperada para sobreviver e ser seu próprio país, com seu próprio costume e seu povo humilde e simples de sempre. O cinema de Godard e de outros franceses e europeus travavam uma luta contra o domínio hollywoodiano do modo de fazer cinema. Comparações à parte, uns pela sobrevivência direta, outros pelos afazeres em modo de pensar e refletir cinema, para um ganho sim da comunidade intelectual europeia, ambos viviam aquela urgência para escapar das garras norte-americanas. Godard então não fez o filme direto sobre o Vietnam e comentou que era melhor que a visão vietnamita chegasse até eles, até a distância europeia para guerra. Aprender com eles ao invés de impor o ponto de vista sobre aquele distante conflito, que chegava apenas por imagens captadas e editadas para uso pelo mundo ocidental.

Um norte-americano de nome Morrison se suicidou nos Estados Unidos ateando fogo em seu próprio corpo. Foi um protesto pela forma como muitos vietnamitas morriam na Ásia, queimados pelos soldados dos EUA. A esposa concedeu entrevista que não se surpreendeu com a atitude de Morrison, pois era assim que ele reagia ao ver as imagens da guerra. Impotente, mas jamais desinteressado. Suicidou-se em gesto lembrado até hoje. Uma família vietnamita em França deu entrevista sobre o ocorrido, agradecendo ao norte-americano que se sacrificou por eles, pelo seu povo.

Em tempos de refletir quem conhecemos, quem tem fama, sabemos então que o suicida chama-se Morrison. Mas quantos vietnamitas conhecemos? Quais figuras públicas nos chegam ao conhecimento? E os milhares que lá morremos que conhecemos apenas por "os vietnamitas"? Quantas histórias de agricultores, pescadores, motoristas e trabalhadores de construção ou de organizações comunitárias lá foram ceifadas? Em Nova York houve enorme protesto, assim como em outras cidades dos EUA, calculando que mais de 500 mil pessoas foram às ruas pedir pela paz, pelo cessar fogo, para trazerem as tropas de volta para casa. Muitos ainda eram a favor da guerra e devolviam argumentos típicos da direita. Uma luta patriótica pela libertação do Vietnã. Libertação  de quem? Do comunismo? Dos sovietes que nem mais se meteram nesse conflito armado?

E todas essas mortes em nome do domínio, do imperialismo, da economia dos Estados Unidos ao longo do século 20? Por que chamamos guerra fria se tantos morreram? E essa economia dos Estados Unidos que cedo ou tarde seria ultrapassada e hoje chamamos o seu capitalismo de tardio? Valeu a pena?

Cartazes afirmavam frases prontas sobre os ricos ficarem mais ricos e os pobres na pior. É isto que ocorre. Empresas lucram de forma bélica e jovens são postos à morte, entregues a terrenos hostis e desconhecidos, em Vietnãs, Iraques ou Afeganistões. Ou Palestinas. Mais do que isso, esses confrontos em que os apertadores de botão não botam a cara, não saem de suas salinhas condicionadas, ceifam jovens, mulheres, civis, crianças do lado oposto, gerações perdidas eternamente. O Vietnã pontuou que seria resistência. Este era o pensamento nacional, pela sua própria libertação dos yankees, custe o que custasse, o tempo que custasse. A guerra declinava e para os Estados Unidos a desistência foi uma dura derrota. O sentimento nacional dos yankees debilitado, o rabo entre as pernas, a soberania afetada, o saldo sempre em mortes mais do que representado em cifras.

Os vietnamitas dos exércitos improvisados e desestruturados resistiram. Um pequeno país agrário, conhecedor de seu terreno, contra jatos, aviões, tanques e rambos. Um trecho do filme Longe do Vietnã convoca a todos formarem seu próprio Vietnã ideológico. Se você for dos Estados Unidos, lute pelos negros, pelos panteras negras, se você for da Guiné ou da Angola, lute contra os portugueses, se você for latino-americano, lute pela sua América, pela sua gente, pelos seus produtores. Não caia nas garras da dominação estrangeira que tanto tenta interferir e explorar o máximo possível o seu país. O Vietnã foi um exemplo positivo, como defendia o governo cubano, de que era possível resistir, mesmo a um preço tão caro, vidas acabadas pela guerra contra a dominação estrangeira com seu aparato tecnológico bélico.

O Vietnã ainda tão pouco estudado ainda pode ser visto por nós. Como em filmes como Longe do Vietnã, mesmo nós estando distantes. Estávamos distante territorialmente, distantes agora temporalmente passados mais de 50 anos, mas a dominação capitalista selvagem em nossas florestas, nossas cidades, nossas agências de notícias permanece. O que fazemos a respeito? Onde está o nosso Vietnã? Por que Elon Musk doa antenas ao Rio Grande do Sul? Por que o governo Biden doou 100 mil reais enquanto para as guerras em Israel ou na frente ucraniana são bilhões? Que interesse eles têm em ajudar? Ou permanecem esquentando guerras que só são frias porque não são no território deles? Perguntas que devemos nos fazer. Onde está o nosso Vietnã que poderíamos constituir no dia a dia?


Longe do Vietnã (1967)

Direção: Chris Marker, Joris IvensClaude LelouchAlain ResnaisJean-Luc GodardAgnès Varda e William Klein.

Sinopse pelo Filmow: Diversos cineastas da Nouvelle Vague documentam e expressam sua simpatia pelo exército norte-vietnamita, durante a guerra do Vietnã.