Mostrando postagens com marcador Direitos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Direitos. Mostrar todas as postagens

29/12/2025

Ceddo / Outsiders (1977)

Ceddo é mais um filme do cineasta senegalês Ousmane Sembène, figura de honra nas análises. Um dos mais importantes produtores cinematográficos da África em libertações, neste longa-metragem de duas horas, a história é bastante complexa e necessária.

Um dos tipos de conflitos mais marcantes e polêmicos na África, que passou décadas sob domínio europeu, é a escalada do islamismo imposto pelos imãs vindos de fora. Nessa história em Ceddo, a população é convertida à força em uma escalada de violência a envolver todos os cidadãos.

O rei da região é convertido ao islamismo na presença do imã (líder religioso e espiritual no islã). Rapidamente, súditos, pessoas ligadas ao rei também se convertem à nova religião. Em contrapartida, como represália, a princesa Dior (Tabata Ndiaye) é sequestrada como forma de desaprovação das mudanças de regime. O Conselho local é convocado a votar, a debater, a decidir. As controvérsias e a pólvora esquentam. A princesa Dior está sob domínio dos resistentes, que querem manter sua cultura, suas crenças, seus chamados ídolos, e, de qualquer modo, seu estilo de vida de muitas gerações passadas. A chegada repentina do islamismo ameaça quem discorde de Allah, quem não queira rezar cinco vezes ao dia e obedeça as imposições do Corão.

Enquanto a princesa está fora da aldeia nesse sequestro, o imã segue a convencer a população, outros são convertidos à força. Figuras influentes da comunidade são postas umas contra as outras. Em uma crescente de suspense e ação para o fim do filme, o rei de repente está fora de combate. Provavelmente foi morto. A desculpa repassada aos súditos é de que fora morto por uma picada de cobra. Amplamente suspeito. Nesse movimento, o imã, que já havia convencido o rei dos poderes sob a crença de Allah, toma totalmente os poderes. Ele quem passa a reinar absoluto. Nessa manobra, ele convoca a população, reúne resistentes, impostos pelo poder das armas de fogo - O verdadeiro poder.

Esses homens são sentados ao chão, estão sob vigília constante. Convocados um a um, eles, sempre sob a mira das armas, são postos frente ao imã e, após raspados seus cabelos, recebem um nome islâmico. A identidade está totalmente trocada na vila. Ao mesmo tempo, os verdadeiros resistentes armam um plano. Após trocarem pessoas, adolescentes pelo preço de um fuzil e pólvora, adultos pelo preço de dois fuzis e pólvora, armam uma emboscada envolvendo a libertação da princesa. Em uma reviravolta, a princesa volta à vila, que está irreconhecível. Seu pai está morto, o poder trocou de mãos. Ela precisa resolver com suas últimas forças reunidas.

Ceddo é um termo que pode designar guerreiros resistentes. Aqui são os outsiders na tradução para o inglês. Não se subordinaram ao poder dos brancos que colonizaram África durante séculos. Não baixaram a guarda perante essas invasões que lhes colocaram uns contra os outros, presenciaram traições, subordinações, humilhações, mortes e precisaram montar guardas de resistência nas comunidades, por seu modo de vida, suas produções, pelo simples direito de existir. Após essas décadas de resistência aos brancos, tempero a mais surge com aparição da imposição islã. Os resistentes, ceddos, se reúnem e concluem que nunca estarão livres. Ora são os brancos, ora são os islamitas de fora, ora são traidores em sua própria comunidade, e a nobreza e o clero negros mesmo a definir o futuro de milhares de aldeões, de campesinos pobres, subsistentes. Nessa conclusão típica dos filmes de Ousmane Sembène, se parte para ação final. É a face intacta dos valores da resistência.

Ousmane era um ferrenho defensor da legitimidade africana, da cultura, dos povos seculares resistentes. Em cada filme, tece os desafios seja contra a colonização branca, seja contra os novos adversários, colocando em evidência um povo clamoroso por soluções, por direitos. Esse povo contra a predominância, contra a desigualdade oriunda das elites ociosas. Essas questões que se replicam em tantos povos, em países que ora mais ora menos percebem sua subordinação, sua submissão a elites que decidem em votos que favorecem a elas mesmas. Seja Congressos na fantasia da democracia, seja em domínios ainda com aspectos mais abertamente feudais. A rebelião, a resistência, o contra-golpe são as alternativas a não permitir que a história seja reescrita somente por alguns, por poucos que dela se beneficiam e tentam congelar poderes. O recado final da libertação da princesa não é pela manutenção daquela monarquia, mas também aponta que as mulheres têm voz e devem ter vez na tomada de decisões. Durante o filme, inclusive, alguns discutem que uma mulher subir a trono dos mandamentos seria o cúmulo, na negatividade. Mas, sem o rei, morto, sem seu irmão, ela quer seus direitos.

Em resumo, é uma população que se rebela à ameaça estrangeira, já acostumada, entre aspas, a lidar com a opressão vinda dos brancos. A questão do islamismo imposto ainda é um debate de crueldade e sangue derramado, principalmente em últimos tempos às notícias vindas da Nigéria, onde, a bem da verdade, esse debate se estendeu também no confronto dos cristãos com os islãs. Mortes e mais tentativas de imposição, na tentativa de chegar ao poder com o prenúncio da religião, são uma constante. E não se pense exclusivamente em África nessa questão; longe disso. Estados Unidos e Brasil que tanto erguem templos por pastores que se metem em política, opinam por forças políticas que os mantém isentos de impostos e controladores de camadas substanciais da população. Esses projetos se mostram funcionais, perigosos e ameaçadores aos direitos cidadãos. É preciso sempre estar atento sobre quem dita as regras e com quais objetivos - geralmente pelos benefícios próprios contra o povo.

Nota final de Ceddo:

🌟🌟🌟🌟

25/12/2025

Xala (1975)

Em pesquisa para confirmar o nome desse filme de Ousmane Sembène, diretor garantido nesses blocos de análises, Xala pode se referir a rituais e feitiços sofridos por uma pessoa. É o que acontece com um político senegalês em Xala. 

Essa é uma bela obra de Ousmane, englobando diferentes assuntos, tópicos que podem atrair mais ou atrair menos atenção para explorar desenvolvimento do filme. Acredito que o mérito para muitas obras está na comunicação, na abordagem de diferentes temas. Isso cria uma riqueza cultural que absorve diferentes envolvimentos com o espectador. Em Xala, se comunica a independência conquistada por Senegal frente à França. Se comunica a corrupção que é persistente. A cultura machista, os casamentos de um homem com várias esposas. O sistema em que empresários são beneficiados enquanto o povo passa fome.

O personagem principal desfruta de prestígio. Usa terno, frequenta a Câmara, convive com outros engravatados. Está às vésperas de seu terceiro casamento. Já é um homem de certa idade. A divisão financeira que impacta a família causa ciúme nas duas primeiras esposas. Mais do que ao homem, parecem temer a posição social em desprestígio, a perda de relevância no convívio, de presentes recebidos no cotidiano. O casamento, o terceiro, ocupa boa parte da primeira metade do filme. Se conhece a desconfiança e o ponto de vista dos filhos já crescidos do sujeito e a convivência ciumenta, belicosa, afrontosa entre as esposas.

No desenvolvimento, ganha relevância a economia, quando o personagem entra em conflito, em atuações suspeitas. Sabe-se que ele lidera uma loja no centro da cidade senegalesa. Interessante que Senegal na época estimava-se abaixo dos 5 milhões de habitantes. Hoje é um país bem maior. O político e empresário demonstra a complexidade da independência. Apesar de sair, em parte, somente em parte, da dominância francesa, o povo senegalês, em grande parte rural, em grande parte campesino, está refém de empresários corruptos, de funcionários que decidem provisões em escritórios com o invento do ar condicionado enquanto a população padece ao sol forte. Em certo momento, em reunião entre o empresariado, na acusação do camarada principal ser acusado de corrupto, de desvio de dinheiro para benefício próprio de seu terceiro casamento, o idioma francês entra em questão. Os empresários proíbem o acusado de se manifestar em um dialeto local, referindo-se orgulhosamente que o idioma oficial do país Senegal é o Francês. Interessante ponto de vista das elites frente a um povo que estima a libertação da herança maldita de um colonizador branco, europeu, violento e saqueador de recursos.

A complexidade deriva em outros temas. Os problemas do acusado começavam na suspeita desse Xala, desse feitiço que causa impotência sexual, quando ele, já idoso e deaconhecdor do raio dos limites, tenta a noite de núpcias com sua recém estimada esposa. Ele não consegue ser pró-ativo na empreitada, não retira a virgindade da jovem e começa uma crise sem precedentes. São problemas pessoais, relacionais na companhia, no comércio, na política, e consequentemente financeiros. Na mescla de modernidade com tradição, o acusado dos delitos ainda tenta retirar esse suposto Xala com um curandeiro, mas, corrupto e atrapalhado que era, não o paga, colocando em risco sua condição de liberto do feitiço.

O cinema de Ousmane Sembène é em prol da África, mas não recai a uma narrativa simplória, unilateral, de heróis e vilões. Parte dos libertadores podem condicionar o povo a continuar na miséria, instituindo benefícios próprios contra a população miserável que espera ajudas que não vêm. A denúncia é da desigualdade entre ricos e pobres, quando a riqueza acumulada pode se dar através de sonegação de impostos, calotes e contratos fraudulentos. Em resposta aos acusadores, o político aponta os dedos de volta, requerendo como resposta à pergunta de qual daqueles empresários na sala não passava também cheques sem fundo. Para além da denúncia ao personagem, o panorama é de empresários corruptos que coagulam entre eles, formam conluios com o povo como outsider, forasteiro. Sembène explora muito os temas dos verdadeiros e incidentes problemas sociais sobre Senegal, desde o que era necessário para libertação ao regime militar francês, como em Emitaï (1971) até esse filme quando passado o processo inicial do recurso da independência. Apesar da independência em relação às maiores forças da França, o jogo de empresários, de controladores do alimento, do arroz e de outras produções senegalesas segue à mercê, à deriva do povo. A revolta popular contra o corrupto, após a dispensa dos engravatados contra ele, decorre nas cenas finais. Sembène mantém um olhar crítico, atento, mas otimista em relação ao potencial que seu próprio povo pode produzir quando liberto de verdadeiras e proeminentes amarras.

Nota final para Xala (1975)

⭐⭐⭐⭐⭐


07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

28/07/2025

Monólogo Silencioso (2008)

Filme senegalês que, em formato documentário, apresenta a vida das empregadas domésticas no país. Através da história de diferentes trabalhadoras, as condições precárias de vida são mostradas. Amy é a primeira a ser apresentada e, de certa forma, é a personagem principal. 

Amy é uma jovem empregada doméstica em uma casa de família de classe média. Enquanto ela trabalha, sua patroa costuma ficar no seu ouvido cobrando, criticando e, entre aspas, incentivando. Depois dela, outras garotas expõem suas situações.

A maioria delas iniciou estudos, mas teve de deixar a escola para trabalhar, seja por dedução própria ou obrigação familiar. Algumas tornam-se mães muito cedo e o compromisso em alimentar os filhos duplica a dificuldade da jornada. São poucas as opções de emprego, portanto o serviço de maid (empregada doméstica) se torna a principal opção para quem evita vender o próprio corpo como comércio.

Uma das mulheres desabafa que ela mantém as casas limpas, mas mesmo assim ela que é considerada suja. A controvérsia é uma dura realidade. Muitas das mulheres trabalham em casas de bom material e em melhores regiões de Dakar (capital do Senegal), mas moram em barracos na periferia. São barracos sem energia elétrica, com somente porta de entrada, em que se deve optar entre ter iluminação e ventilação ou conviver com possíveis insetos.

Uma jovem, ainda de aparência adolescente, desabafa que elas também são humanas e gostaria somente de ser tratada como bem trata os outros. A maior reclamação dessas meninas é a falta de pagamento, pior do que as condições precarias de trabalho. Muitos empregadores, patroas lançam demanda de limpeza e lavagem de roupas, mas não as pagam devidamente. Muitas vezes a lorota é de voltar num outro dia, prometer o pagamento para amanhãs que nunca chegam. Quão injusto é o mundo e a máxima de sempre: com quantos pobres se faz um rico, ou, mesmo não sendo enriquecido, um ser, uma família mais abastada?

O nome Monólogo Silencioso apresenta a crítica de que essas mulheres ainda trabalham silenciadas, seja nas casas ou pelas comunidades. Ninguém as escuta. Por educação forçada elas devem ficar quietas. Devem obedecer, não devem se rebelar. Devem falar baixo e não emitir seus desagrados, não são incentivadas a opiniões. É o silenciamento e o apagamento em voga.