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20/08/2021

Sacrifício

Mesmo envolto a filmes de terror nos últimos dias, me surpreendi tamanho plano ousado que minha mente ornou. Percebia uma casa muito cinza e afastada, por onde transitavam muitas pessoas que eu desconhecia. O movimento intenso daria ideia incluso de um comércio, bazar em funcionamento, mas não era o caso. Era como se morassem ali ou ali estivessem refugiadas e assim poderia ser também o meu caso. Ou o que eu fazia por ali? A casa tinha um aspecto acolhedor, mas decadente. Era a morada, mas era estranha. Era uma casa de proporções esquisitas, onde poderíamos associar sua figura a um grande templo. Fato é que as sensações que nos causavam eram meio horripilantes, sem saber o que decerto iria ocorrer logo adiante. A suspeita eram dos moldes da bruxaria.

Entre tubos de diferentes tamanhos e formatos que se amontoavam sobre os móveis, como se esquecidos ou recém-usados e ainda não passados pelo lava-louças, lembro de aparecer por entre meus dedos um bilhete. Um bilhete tão misterioso quanto todos os entornos daquelas curiosas cenas. Tentei fixar meus olhos somente naquele papel parcialmente amassado e em caligrafia apressada ou relaxada quando foi manuscrita. Seriam códigos que fugiriam a meu entendimento? E o fluxo de pessoas, ora tão numeroso, tudo desaparecia e as trevas se faziam presentes, como se de repente uma vela fosse rapidamente assoprada, transformando o estado cinzento em mais trancafiada e aprisionante penumbra.

Percebo esse código em papel de repente em outro espaço, quando me deparo em uma espécie de shopping, talvez semelhante aos estabelecimentos Angeloni de Criciúma, ao sul de Santa Catarina. Era semelhante àquele estabelecimento ou de lá lembrei por causa do número musical que se apresentava: um músico diante de uma razoável plateia. Conforme ocorre com os músicos de centros comerciais, as pessoas mais seguiam suas atividades de admirar vitrines ou seus telefones celular do que prestavam atenção, mas sempre uma quantidade reduzida também o escuta e acompanha das melodias. Pois outro músico, talvez transformado em eu mesmo, se depara, após o dedilhar de algumas notas que está sozinho. Tão sozinho quanto na penumbra daquela casa cinzenta e esquisita.

Ele olha ao redor e, com o perdão da utilização da letra daquela música, acha melhor parar de olhar. Ou ao menos parar de tocar. Ninguém o escuta. Pois o código. O código o é entregue mais uma vez. Por alguma mão sorrateira que por ali passa, ou surge diante dele, como na superfície de alguma mesa próxima, ou mesmo o músico o encontra de seu bolso (como é possível surgir assim do nada?). Enfim, ele tem o bilhete em mãos, olha atento àquela combinação ridícula que lhe foge aos conhecimentos em significado. Mas tem para ele que aquela é a salvação de sua carreira musical. Ele precisa copiar aquele código para acessar ao sucesso. Para, ao menos, copiar seu parceiro que tocava para meia dúzia, dúzia inteira ou até três ou quatro dúzias de gente num shopping estilo estabelecimentos Angeloni em Criciúma.

Ele precisa ser escutado, é sua razão de ser e existir, ele não se importa, naquele momento, de fazer o tráfico com o mais temido diabo em troca de sua merecida plateia. A razão da existência musical, tocar para alguém ouvir. Ele aceita os termos de uso e sai em desembaraço do código que sacie sua vontade de receber os louros advindos de um tímido aplauso ao final de cada canção - algo do tipo. Com o código transcrito para sua mente ou para outro papel, ou dito em voz alta, na tentativa da convocação do diablo que lhe conceda a glória, o músico (será eu?) é novamente transportado.

Está agora em uma estrada vazia, sabe que essa mesma estrada vazia, interiorana, sem residências que a circundem, leva em direção àquela mesma casa sinistra, deslocada, opressiva, cinzenta e morada dos mais impiedosos segredos e feitiços, dos confins porãonizados da humanidade. Mas, ao manobrar uma camionete - ou desta mesma camionete ser apenas um secundário personagem no banco de carona - o músico atolado até o pescoço com as bruxarias se depara com uma cena de lhe tirar o fôlego. E ainda bem aqui tratamos de um músico de instrumentos de corda e não um soprador de saxofone, por exemplo. Isto porque sem o fôlego ele fica ao deparar-se com uma fileira de corpos em um pequeno vale - talvez escavado - que se desenha na estrada. A estrada é vazia de movimentos e entulhada de neve. Sobre essa neve estão deitados uma parelha inteira de corpos. Os corpos ele custa a assimilar se são humanos ou de algum antílope que por ali habite, onde Canadás será que estava? São humanos ou são alces depositados sobre a neve? As autoridades sabem desse absurdo? Onde está a sua camionete? Era o carona e foi chutado pelo motorista, para observar àquela audaz e impiedosa cena? Sejam alces, sejam humanos deitados naquela clareira que muda radicalmente os tons inebriantes do constante volume de neve que se acumula pela estrada, sejam do que forem aqueles horripilantes corpos antes escondidos, sejam esquecidos ou lembrados, ele tem certeza de uma única palavra sobre aquela quantidade de corpos: sacrifício.

29/03/2020

sábados pela manhã

Acelero meu processo de envelhecimento. Sinto que posso percorrer em voo baixo a infância que já se desenha há duas décadas passadas. Nos confinamentos dessas páginas de cimento recordo os sábados em que eu almoçava fora. E isso ficou bem marcante como uma divisória, como se uma régua posicionada sobre a folha induzisse a mão jeitosa a rasgar o papel em duas partes. Almoçar fora, em restaurante propriamente, era um exercício civilizatório resguardado a esse período da minha vida. Conforme minha adolescência e início da fase adulta, meu pai trazia a comida de restaurante e mantínhamos o hábito de almoçar em casa, com a salva diferença de que, aos sábados, minha mãe não se atarefava no preparo da refeição.

Mediante essa linha cronológica traçada, voltamos ao sol sobre o calçadão envolto de comércio nas matinês de sábado. Era o período que minha mãe, já aposentada, saía de casa. Pelo menos uns dois traumas, pensando durante a oração, talvez três, surgiram em decorrência dessa repetição de episódios. O primeiro que me acercou a memória era encostar nas monótonas vitrines de lojas, com os seres inanimados a exibir artigos de luxo e acessórios que os seres animados (demais para meu gosto) ansiavam adquirir. Definição dicionária de vitrine, com os vidros impecavelmente limpos e bonecos intactos em poses estilosas. Até que era interessante notar em lojas de menor recurso como os próprios manequins perdiam seus estados incriticáveis no desgastar do tempo. Deviam eles aguardar sofregamente pela aposentadoria dessa função semi-desnuda em exibição para desconhecidos (e sem adicionais salariais).

Passado o trauma das inquietantes vitrines, que, quando parávamos, faziam com que eu olhasse tudo ao meu redor, com exceção das próprias vitrines, o segundo trauma seria o de palhaços. Creio que mais do que desgostar dos palhaços, a perturbação era virtude da forçada interação social. Aquele ser pintado das mais diversas cores já programadas em paletas e que, avidamente com sorriso fixo, estimulava as crianças para elas contraírem a concavidade da boca em mesmo ângulo, mostrarem seus dentes (ou a ausência deles, dependendo a troca na formação de porteiras). Doravante que muitas vezes o efeito desejado era simplesmente o oposto, com muitos cedendo ao choro do desespero. Eu, pelo contrário, apenas aguentava, como também aguentava as vitrines, em sofrimento interno e não repassado para minha mãe ou demais familiares.

O momento de cruzar pelos palhaços parece ficar estagnado na infância. Se repararmos, apesar da mudança dos tempos, os palhaços ainda estão por lá, a entreter - ou tentar - nas calçadas envoltas de comércios. Passam despercebidos, como os tatus-bola (ou seja lá qual for o plural de tatu-bola) nos jardins olvidados. Contornadas as vitrines que não mais sou obrigado a parar e os palhaços que procuram novas vítimas (e vítimas novas, mediante o critério da idade do público-alvo), o terceiro trauma pode ser considerado o da quantidade de pessoas ou mesmo do consumismo.

Essas organizações comerciais centrais nas cidades foram gradualmente ou até bruscamente substituídas pelos shopping centers, assunto o qual já abordei muitas vezes em meus textos críticos ao consumismo exacerbado, locomotiva desfreada. Posicionaria esse terceiro trauma nas lembranças desses sábados matinais exatamente na larga presença de pessoas e seus barulhos típicos, conversas cruzadas desprovidas de significado, passos, vendedores anunciando obrigatoriamente ofertas em que 95% não está interessado, posteriormente cambiados pelos de mesma função em empresas de telefonia celular (vale sempre ressaltar que recordistas de reclamações!) e até mesmo artistas de rua que, separadamente, podem trazer um benefício cultural interessante, mas naquelas organizações desorganizadas dos centros comerciais, disputam espaço aos solavancos e confunde-se o som de um com o de outro, as apresentações teatrais e dançantes sem um palco se tornam bizarras e mesmo a poluição sonora das lojas aos microfones ou com outras músicas completam um cenário horripilante.

Orgulho de Allan Poe, Alfredo Hitchcock ou H.P. Lovecraft, que, por sorte, jamais presenciaram meus sábados matinais ou terminariam de sepultarem-se no horror compilado de suas mentes. Brincadeira de bom ou mau gosto, a ideia inicial era transcorrer pelos restaurantes de minha infância. Ou o restaurante, visto que frequentávamos sempre o mesmo, um de nome alemão e tradução Tudo Azul (nada mal, embora o prédio sequer fosse azul). Contudo, as lembranças acumuladas, como aquelas cenas errôneas de desenhos animados na prática do futebol americano, em que um jogador pegava a bola oval ao chão e os outros amontoavam-se como uma cordilheira sobre falhas tectônicas, as lembranças desvirtuaram o plano e me convidaram, como se me apontassem uma faca, para que eu descrevesse alguns dos traumas passados pelas voltas desferidas aos sábados de, naquela hora, contrafeita infância. Mas o restaurante depois valia pena. Valia muito.

30/01/2020

motoristas

O motorista do aplicativo uber que me levou tinha mais ou menos a minha idade. O penteado com bastante precisão, raspado dos lados com um topete, uma elevação ao centro, moda das baladas sertanejas ou de outras festas. As bochechas salientes, os dentes frontais adiantados de maneira a quase escaparem da boca, tornando seu aspecto mais infantil. Os olhos idem, confirmavam, animaram-se com minhas puxadas de assunto.

O motorista do aplicativo uber da ida era gaúcho de Flores da Cunha, cidade à qual ele não sabia situar exatamente ao mapa ou indicar a região pertencente. Tentei auxiliá-lo com meus conhecimentos geográficos. A verdade é que havia ido embora cedo da região e há algum tempo se dedicava na função de transportar passageiros pelo meio tecnológico de chamada. Dissertamos sobre a qualidade de vida local e como o nosso estado era violento em demasia se feita a comparação com o roteiro turístico onde estávamos. Apesar disso, ele relatou experiências de assalto sofridas por ali mesmo. Ambas enquanto se deslocava a pé, sem o fiel companheiro das viagens atuais. O celular, entretanto, ficou pelo caminho nas jornadas que narrou-me. Também dividi meus casos como se estivéssemos a abrir potes e sacarmos sanduíches para o desfrute de um piquenique sobre um gramado e uma quadriculada toalha qualquer.

Perguntou se eu gostava de música eletrônica. Eu neguei e meio que entendi qual era a dele. Tocou Gorillaz - Feel Good Inc e gostamos. Ele aumentou o som e elogiou a música do projeto do ex-vocalista do Blur, Damon Albarn. Os motoristas por ali são bem agradáveis no sentido de instruir os turistas e demonstrarem que as opções de lazer noturno são bem variáveis de uma maneira eclética, um cardápio multiplicado às diferentes preferências.

Enquanto falava na variedade de pessoas possíveis e na ascensão total do número de argentinos na localidade, relatou ter aceito uma chamada de um passageiro do país islã ou algo assim. Refutei a hipótese pois islã não é um país. Ele disse que era tipo islã. Islã é a religião, conforme eu expliquei para ele. Nisso, resolvi chutar alguns nomes de países do Oriente Médio e predominância do islamismo na fé de suas populações. Era nenhum desses, ele negava ocultando os dentinhos que lhe davam um aspecto juvenil. Lá pelas tantas, pela associação do começo das palavras, perguntei se não era Israel. Isso! Era Israel. Justo o país que não tinha o islã em predominância, mas sim o judaísmo, na fundação após a segunda guerra mundial. Mancada dele. Espero que tenha aprendido essa.

Apesar dos deslizes, fez por merecer as cinco estrelas de avaliação para mantê-lo com uma nota bastante satisfatória, próxima do topo. Gremista, bastante atencioso, ele me deixou no local em que uma rápida subida na íngreme rua estreita me levava ao destino na praia.

Durante a noite, o motorista do aplicativo uber que me levou tinha mais ou menos a minha idade. O cabelo também curto, como era escassez de cabeludos nas localidades, muito em função dos argentinos terem totalmente abortado essa ideia nos últimos anos, passando de geração para geração dos nucas descobertas. Eu contrastando. Este tinha olhos espertos, mas tranquilidade para encarar o pesado trânsito em que mal nos movíamos. Isso resultou em um assunto bem desenvolvido. Ele gostava de falar, então usei a tática de deixá-lo em seguida assumir o controle da conversa.

Talvez tenha sido algo que eu disse sobre ostentação. Como as pessoas estão dependentes das redes sociais para tudo, mesmo nos momentos de aproveitar ao ar livre, diante de belas pessoas ou paisagens. Estamos para dentro do mundo virtual, fotos, legendas, fiscais da vida alheia, stalkers dos outros ou de nós mesmos. Obviamente não elevei tanto o papo a esse ponto, mas fiz sim a minha crítica a respeito e ele fisgou a pescaria.

Este era gaúcho de Porto Alegre e vivia ali há alguns anos. Pai médico e ele também com a vida sendo ganha a partir de hospitais, mas em outra função. Relatou a chegada dele ao paraíso, meses torrando a grana que tinha, podendo dispor do que de melhor tem os destinos de festas e rotas locais. Só teu Deus pode saber o que tanto pode ter aprontado, ainda mais relatando que não viera só e outros companheiros estavam pelo espaço, desbravando experiências e novidades. Só as portas cerradas das noites para o interior das entranhas no que as paredes viram e muitos certamente esqueceram. Outras coisas se lembra e não se esquece jamais.

Demoramos para sair rumo à estrada mais movimentada. Uma infinidade de carros por todos os lados. Vertigem aos desacostumados. Loucura aos sãos, sanidade aos loucos. Ele repetiu o trecho de que ali se encontrava diversão para todas as tribos e a diferença e os rótulos não combinavam muito. Falou por sua preferência de música nacional, do samba ao sertanejo, mas que assistiu a showzinhos de rock em outra noite e curtiu pra caramba. Falou que a tal da ostentação vinha de fora para ali e poderia morrer em alguma barreira. O povo local já estava acostumando, tinha seu próprio modo de vida. Uns se escondendo, outros se mostrando naturalmente, assim são as pessoas. Algumas aparecem demais e outras querem apenas fugir dos holofotes, agora eu quem concluo.

Escondido por trás dos vidros com insufilm, mãos aos volantes e identidade desconhecida. Ao longe, somente o brilho dos faróis na dificuldade para se identificar com qual carro ele dirigia naquela escuridão das noites, nosso motorista aqui falou e falou sobre sua vida. Contou sobre as experiências de chegar ali, achar que tinha certo domínio, que possuía alguma coisam seja conhecimento ou materiais, mas, do lado de fora dessas portas de vai-e-vem da chamada vida, estar sempre em descoberta e em constante aprendizado.

Viu gente muito mais endinheirada do que ele, nenhuma surpresa para mim ele se tocar disso, tamanha a ostentação que nos aparecia ao redor. Relatou, na parte mais surpreendente da conversa, sobre uma garota com quem saía e se dava bem, que os amigos dela tinham muita grana. Possivelmente ele se deparou com outras vertigens, com outras inseguranças, com outras incertezas, com os mesmos enjoos nos sintomas que conheço. Que um desses amigos dela, vejam só, ganhou um posto de gasolina para administrar de presente aos 18 anos. Você aí brigando contra os centavos do litro de derivado do petróleo que não para de subir em preço e o cabeça lá virando de adolescente para adolescente mais velho com o domínio de uma instituição que te vende isso e fatura e lucra e tem de tudo na vida, tão fácil e tão cedo. Influência dos pais, fator de herança, desmonte aos teorizadores das oportunidades iguais e da meritocracia.

Ele disse que, apesar de ter as coisas em casa (e aqui se constata que nada deveria faltar para ele), as constantes broncas da família impulsionaram ele a "trampar", como repetia, e buscar o seu próprio espaço e os seus próprios ganhos; isso o felicitava. O trabalho dele no hospital rendia o suficiente para dividir casa com amigos e ir levando; ter o carro e o carro gerar mais esses trocos nas corridas de uber, três ou quatro corridas por noite e cofrinho e caixa 2 para farrear quando bem entendesse. Um bom método de vida, assimilei. Boa sorte a ele.

As ostentações locais ele minimizou, daí o que considerei que era fácil para ele, na sua classe sempre média para alta deparando-se somente com a alta condição de vida. Moleza para ele estar à vontade nesse universo, redoma de vidro. Convivendo ou buscando conviver somente com a high society para aliviar a loucura cercadora, porque a pobreza ainda se esconde por esses becos e pelos vendedores ambulantes e caroneiros e pedintes oprimidos por olhares ou pelas mais severas forças resguardadoras policiais. Gente que nem uma corrida de uber conseguiria bancar. E celular com internet para isso, será? Só teriam acesso ao ônibus dos quase cinco reais para rodar terminais e tentar vender a arte ou convencer turistas de que um almoço pode sim ser necessário e imprescindível. Convencer de que a fome existe, não importa onde, que os estômagos vão roncar caso não comam. Parece incrível que isso aconteça ainda aqui, não é mesmo? Mas acontece.

Outra parte surpreendente foi o motorista revelar seu método de poupança, afirmando que tem em casa uma corrente de ouro, que, sempre que pode, vai aumentando sua massa com mais peças, valorizadas pelo mercado e pela eminente raridade do visado elemento da tabela periódica. Mantém ela trancada e quieta por lá e com ele carrega apenas uma correntinha ao pescoço. Discreta, pouco chamativa mesmo.

Mas novamente ocorria o deparar com a tal da ostentação capital. Mudam as capitais, algumas coisas mudam e outras não. Ao terminar minha viagem com o motorista da volta, entrei para os terminais e catei o ônibus indicado rumo ao centro. Ao conseguir uma boa vaga para ir sentado, o trajeto foi preenchido com as palavras de um outro condutor, que tinha mais ou menos a minha idade. Este não dirigia, andava de ônibus com um violão nas mãos e covers na cabeça para atrair a atenção de um disperso e variado público, entre as pessoas muitos idosos. No repertório dele estavam Djavan, Tim Maia e um bem recebido, requisitado e aplaudido poema do gaúcho alegretense Mário Quintana, que me tornou reflexivo o suficiente para quase chorar já sem o filtro de meus óculos escuros entre meus olhos e a janela do ônibus.

A menina ruiva impecavelmente bonita na poltrona à minha direita também não ajudava, inacessível de tantas formas nas nossas diferentes e imaginárias redomas de vidro. Uma Titi Müller em beleza com seus amplos fones de ouvido e um mundo a ser desbravado por outro alguém em outra oportunidade. Falou com uma senhora que talvez sua mãe, talvez sua tia, talvez sua amiga mais velha. Será que prestou atenção nas canções do cara do transporte coletivo, este trabalhador tão jovem e com duas filhas para sustentar?

Será que ela convive se esquivando dos às vezes diferentes às vezes iguais motoristas de uber? Será que a ela nada disso interessa? Só ela sabe o que passava dos seus grandes fones pretos para dentro da cabeça, por baixo dos balizados cabelos ruivos. Eu mal via seu rosto refletido pelos reflexos da noite nas janelas do ônibus. Havia as luzes da cidade no alto dos apartamentos ou nas propagandas fluorescentes pelo shopping; shopping onde aquela vez estivemos, eu e outra distante, e depois daquela vez eu soube da morbidez das pessoas que lá se suicidavam. E isso me deixava confuso como confusos já eram meus sentimentos antes desse acréscimo de informações sobre o ponto de encontro na praça dos consumos. Na avenida/estrada que seguíamos eram carros, carros e mais carros ao redor, acrescendo e fomentando o resplandecer cego daquelas luzes todas. Loucura aos sãos e sanidade aos loucos. Quais enquadrados ao primeiro caso e quais enquadrados ao segundo? Juntos e misturados no iluminódromo delirante.

Quando chegamos ao destino final da trajetória programada do ônibus, as mulheres à minha volta agarraram-se às sacolas e não perderam tempo refletindo sobre tudo aquilo. Zarparam porta afora. Enquanto isso, o músico estava satisfeito com os trocos recebidos naquela viagem, uma em quantas que ele fazia em único dia? Tinha as filhas para sustentar. Guardara o chapéu e se deslocava pelo terminal rumo ao próximo ônibus, sem dúvida, voz e violão em prontidão para buscar o ganha-pão daquela oportunidade. Mensagens positivas de suas frases para aproveitar o que temos. E eu saí daquilo tudo, próximo do destino final da rodoviária com tempo de sobra e falta de opções para encerrar o dia. Fiscalizei as redes sociais, que eu criticava mas não necessariamente desgrudava delas naquele retorno. Esperei partir o próximo ônibus dos mochileiros e sacoleiros à minha volta para finalmente deixar o terminal. Pedi uma ou outra informação e rodei a catraca para fora.

Caminhei cabisbaixo, mas não o bastante para evitar a visão: diante de mim estava o amigo que não consegui encontrar antes naquela noite, pois ambos ficamos presos no trânsito e no horário. O destino quis que nos víssemos antes de minha partida derradeira na rodoviária. Ele, que morava próximo àquele centro, reconheceu-me, nos reconhecemos e convidou-me para aproveitar aquela hora. Fomos à cerveja mais próxima. Era a ostentação que ali eu precisava. Dependente de outros transportes, era esse o combustível para eu ir além.

22/08/2018

mais um pouco sobre shoppings

Shopping Center não aparece pela primeira vez como assunto de texto aqui. Até vou procurar, ao finalizar este texto, se o shopping está presente nas hashtags de meu histórico. Relembrando as aventuras e peripécias da última viagem realizada, mais uma vez um ponto 'seguro' para realizar refeições e compras foi um centro das compras.

Isso havia acontecido em excursões passadas durante minha graduação. Joinville, Curitiba e Rio de Janeiro nos destinos. Acredito que o de Criciúma tenha nascido a partir de uma rede de supermercados, que foi se moldando para ocupar as necessidades humanas modernas e urbanas. Academia, pet shop, fast foods nos cardápios aos sentidos.

Shopping tem a ver com padronização, conforto, comodidade e facilidade. O modus operandi sendo comum em todas essas cidades e em quase todas as cidades do mundo que contam com eles. A cultura ocidental suprimida, repetida, dividida como se estivesse em cápsulas para o consumo. Lojas semelhantes, restaurantes semelhantes, banheiros que lavam e secam suas mãos de forma automática e facilitam o acerto no lixo no arremesso final do papel higiênico.

Existe o lado duplo dos avanços tecnológicos. O incluir e facilitar e acomodar aos mais jovens pode se misturar ao excluir os mais velhos. Mas meus familiares mais antiquados e desacostumados conseguiram jantar com um pouco de compreensão dos atendentes. Aliás, consegui ser atendido de péssimo modo na noite seguinte, quando a atendente demonstrava insatisfação com seu trabalho, ou seria com os clientes? Espero que nada pessoal contra a minha pessoa.

Pois bem, eis outra contradição desses avanços tecnológicos. Atendentes podem ser mais pacientes e explicativos com públicos mais velhos, mas realmente esperam que todos os jovens, seja lá de que interior vieram, saibam manusear as tecnologias, os aplicativos, as ordens e regras. Qualquer comportamento anormal quanto a isso causa estranhamento. Se você tiver menos de 45 anos. Ou seja lá qual idade você queira delimitar para esse tópico, mas espero que tenha entendido.

O elogio que tenho ao centro das compras de Criciúma é mera coincidência, um erro, um equívoco, ou simplesmente um acerto em cheio aos meus gostos. Por ser grande demais ao público que se apresentou, preferi os atendimentos feitos nesse shopping. Estacionamento fácil, com várias vagas disponíveis, literalmente vagas. Sem congestionamento nas lojas ou na hora de pedir comida. Ou mesmo nas filas do supermercado. Ou, a mais elogiável, várias e várias e várias mesas vagas para aproveitar o lanche, o almoço, a refeição, enfim. Comer com apenas a música ambiente e quase nenhum burburinho, quase nenhum barulho de motor, de tão indecifráveis as conversas que se somam até me esgotarem a resistência. Foram refeições tranquilas.

Foi uma passagem por shopping muito menos dolorosa do que em outras oportunidades. Consegui visualizar e trocar palavras para as responsáveis pela limpeza das bandejas. Consegui trocar comunicação com uma vendedora atenciosa. Consegui ser atendido sem o sentimento de estar atrapalhando aos subsequentes da fila. E tudo isso, sobre shoppings, não é pouca coisa.

25/10/2017

shoppings e ar condicionado

shoppings e ar condicionado (que ainda são completantes e não excludentes) transformaram aos poucos todos os lugares no mesmo

shopping é tudo igual as cores as mentiras os sorrisos falsos as crianças gritando os pais de olho nos manequins os estoquistas escondidos

as marcas supervalorizadas aquele carro brilhoso pra quem colocar o nome no cupom pra concorrer ao sorteio as tias tristes limpando bandejas

indicadores apontando funcionários obedientes uniforme portas e sorrisos automáticos