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02/12/2025

My Dinner With Andre (1981)

Um dos filmes mais ousadamente filosóficos que já vi sendo gravado nos Estados Unidos. A direção, é bem verdade, é assinada pelo francês Louis Malle. Como o nome aponta, o desenrolar todo do filme ocorre durante um jantar entre dois amigos, os originais Wallace Shawn, narrador e interlocutor para o papo com o amigo Andre Gregory. Não são propriamente grandes amigos, mas, passados alguns anos, foi sugerido por um terceiro que eles retomassem contato e assim foi feito. Em comum, ambos desenvolviam peças de teatro. Andre obtinha maior sucesso e muito do assunto transcorre de suas longínquas viagens. Shawn, por outro lado, vinha em uma decadência, a qual ele apresenta em resmungos e cuspes ao introduzir a história e o porquê do encontro com Andre.

Shawn aparenta mais idade, mas tem apenas 36 anos. Se sentia meio fora do círculo de aceitações e sucessos em Nova York - outra protagonista na história de poucos personagens, complementados pelas esposas que não aparecem, apenas são citadas, e pelos atendentes do restaurante chique. O filme é considerado prolixo e pedante por parte da crítica, porque Andre descarrega suas teorias e assimilações a um atento ouvinte Shawn, o qual tenta colher novidades e refletir sobre sua vida a partir dos ensinamentos e teorizações do verborrágico Andre. Shawn escuta atento e às vezes até cômico ou incrédulo e raramente parte para suas objeções e complementos. Andre garante protagonismo na conversa ao controlar os assuntos, as passagens, as histórias de seu conturbado e atabalhoado passado. Ele conta como foi parar em experiências em floresta na Polônia, com o dramaturgo Grotowiski, no Tibet ou em Israel com a esposa. Andre alternava sua vida conjugal fechada em Nova York com aventuras de viagens longas. Além da esposa, ele tinha dois filhos, chamados Nicolas e Marina. 

Sem o mesmo leque de experiências diversas, Shawn escutava atento ao amigo desenvolver suas teorias sobre enxergar a vida sob outras óticas, outros prismas. Nas mais radicais das ideias, Andre considerava suas experiências válidas para um despertar de verdade, uma consciência sobre a vida e a morte. Segundo ele, um dos problemas dessa consciência por demais atenta seria a conscientização sobre a proximidade da morte, tal qual filósofos antigos já haviam previsto e anunciado. 

A preocupação dos amigos passa pela amortização da vida na sociedade ocidental, preveem a robotização futura e a automaticidade com que percorrem suas vidas. Shawn chega a defender seu direito a acordar e enxergar seu conforto em uma xícara de café, os dias com a namorada Debbie e seu emprego de ler, pesquisar, ler críticas e escrever suas peças teatrais, sem algo de acontecimento extraordinário. Andre rebate se o conforto é escolha dele ou apenas uma imposição, um modo automático de encarar a vida. Pesada crítica está na comparação de Andre entre a metrópole Nova York e um imenso campo de concentração. Citando outros críticos, Andre aponta que a Grande Maçã seria como um campo de concentração construído, vigiado e administrado pelos próprios prisioneiros. Ele cita a quantidade de conterrâneos que desejam sair da cidade, mas nunca o fazem, cita sua própria situação e, ao mesmo tempo, a incapacidade de definir junto à esposa um futuro, um local para investir, pois enxerga as prisões invisíveis em que é transformado o mundo. As armadilhas da globalização que davam as caras desde o início da década de 80. Em determinada passagem, Andre acredita que a década de 60 do século passado seria a última em que o ser humano ainda foi autêntico. Será?

Outro ápice no filme é Andre discorrendo sobre a falsidade das relações humanas, em uma crítica ao mundo de aparências da sociedade ocidental, isso muito antes das armadilhas das redes sociais online, embora até um notebook seja citado por Shawn, nos primeiros passos da computação ao alcance da população mais abastada. O próprio Shawn se considerava um filho de família de considerado prestígio, iniciado e atentado às Artes, a erudição, à música e assim perdendo a consciência de outras ações práticas que o levariam à bancarrota, à necessidade de procurar ocupações, a andar de metrô, à necessidade de que sua companheira trabalhasse incluso de garçonete durante algumas noites semanais. Quanto à hipocrisia da população, ele cita que Debbie servir de garçonete ou secretária causava uma distorção, uma repulsa, uma pena nos demais interlocutores como se ela estivesse condenada a um grande castigo, a um individual inferno. Em acordo com essas falas, Andre denuncia as máscaras sociais, a necessidade constante das pessoas fazerem piadas fora do tom, jantarem, rirem, sem na verdade se abrirem, repensarem suas ações e práticas do cotidiano. Ele conta as dificuldades que passou com a morte de sua mãe e que, passadas umas semanas, duas ou três, foi convidado por amigos a um jantar. Em meio a tantas piadas e descontração que propunham inadvertidamente, em nenhum momento questionaram sobre como Andre se sentia com a perda, se gostaria de um ombro amigo, de um real desabafo. Em contraponto, Andre apresenta as versões sinceras e introspectivas de monges para os lugares distantes em que viajou na Ásia, como o Tibet. Em certo momento, Shawn declama suas dúvidas quanto às teorias de enxergar a vida, de se descobrir e libertar, se eram necessárias viagens às florestas da Europa Oriental, ou ao Tibet, ou um retiro em Israel. Segundo o dramaturgo de 36 anos, nem todos podem ter oportunidade desses retiros sabáticos, então mais valeria uma autodescoberta ao revisitar seu bairro, como a um restaurante ou a uma tabacaria vizinha;  a autodescoberta estaria em suas próprias redistribuições, reorganizações, na redescoberta de hábitos. Andre nisso tudo aponta os perigos que os governos, de uma forma fascista e proposital, amolecem as expectativas, drenam as vontades e os sonhos, amortizam a população a viver como construtora, vigia e responsável pela manutenção dos campos concentradores e vigilantes da sociedade ocidental. Uma população não reflexiva, automatizada, em busca de pequenos confortos e nenhuma verdade. As duras críticas, as palavras de um experiente Andre amarguram Shawn a se questionar e ele confessa repassar essa conversa para Debbie após redescobrir, recolorir com novos olhares para o bairro na volta de táxi - que ele se permitiu pegar na volta para casa, segundo confessa. Enquanto conversavam nessa profundidade à parte de um cardápio que Andre dominava em francês ou no idioma que precisasse, e Shawn pouco sabia, os demais clientes foram sumindo até a bruma que antes cobria os pensamentos sombreados de Shawn se dissipar. Com novas atenções para suas ocupações, vivência e atento à falta de transparência nas pessoas em suas convivências e conveniências, Shawn voltara para casa, para seu casulo na Grande Maçã.

⭐⭐⭐⭐

08/01/2025

Reflexão após Um Dia na Rampa (1960)

Me interessa o ser humano apaixonado e verdadeiro, desnudo dos disfarces do cotidiano, em que deve fingir para proteger seu emprego, fingir para discursar vantagem, fingir para aparentar normalidade, fingir para não chamar atenção das autoridades que o podam, fingir para caminhar pela multidão, fingir para ser bem avaliado no aplicativo, fingir para vender produto, fingir que gostaria se vestir assim, fingir que assim está bom.

Me interessa o ser humano despudorado com suas verdades, com seus gostos, mesmo ridículos e considerados ruins, manifestos, me interessa suas falhas e passo a entender melhor as minhas. Me sinto menos alien, menos alienado e menos sozinho. Me interessa que suas buscas não cessem e que na outra esquina o lampião ou os mais modernos postes a led se acendam. Ou não se acendam, mas que possam se acender.

Não me interessa o fingimento dos negócios, a capa que somos obrigados a vestir quantas horas por dia, quantos dias no mês, quantos todos meses de um ano, quantos anos na vida? Não me interessa o fingimento que é ordem, que é lei, por sobre as leis de nossa natureza, capa invisível, mas que visualizo tão fácil em ti, sorriso difícil, olhos tristes e desesperançados, não me interessa o que te causa isso, me interessa tirar-te disso. Me interessa o ser humano ainda esperançoso, que chegue ao fim do dia agradecido e ao mesmo tempo esperando que na outra esquina o lampião ou o poste a led se acenda, que a colheita valha o vigor de seu esforço, que a mesa farta não seja só a obrigatoriedade da refeição. Me importa que seu sono seja sonho e que seu sonho possa ou não ser realizado, mas que a possibilidade esteja a teu alcance, que possas acreditar tatear a parede no escuro esperando encontrar o interruptor que o salve da escuridão. Ou talvez encontre a mão amiga que necessites. 

Me interessa que teu céu tenha estrelas, ou quando não tenha, que saibas esperar as nuvens dissiparem, a chuva parar e que até dela tenhas colhido água. Me interessa que te hidrates e bebas e nutra teus sonhos, não demais também, que não percas contato com tão vasto solo, que nos é tanto, os japoneses creio que sabem.

Me interessa do ser humano que seja humano e não engrenagem do capitalismo ou outros achismos que comandam a vida dos outros. Me interessa que assumas um pouco o timão de teu próprio navio e ao final vejas, e talvez até compartilhes, algo que ninguém mais viu. Não o que todo mundo tenha visto - pois nem queriam ver.

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Acredito que quando respeitados os desejos e o direito de sonhar do ser humano, incluso este mesmo indivíduo se sinta assim mais humano, possa ser mais bondoso e não tão automático, não tão somente concorrente contra seus semelhantes, não somente um instrumento de usufruto dos mais poderosos. Acredito que respeitado o direito ao sonho, este possa olhar com mais carinho para seus semelhantes, possa desejar que eles também sonhem e, alcançando, desejar que os demais alcancem, em uma aliança até utópica - corrente do bem.


Direção do curta: Luiz Paulino dos Santos

18/01/2024

Entre minha tia, Pierre Goldman e Petzold

Chove de leve ali fora, do outro lado da janela. São 3h30 da manhã quando inicio o texto. Provavelmente serão pelas quatro quando encerrarei. Aguardo pela minha tia, que vem a Santa Catarina. Este a sem crase. Vou a Santa Catarina. Volto de Santa Catarina. Estou lendo um livro de um Judeu chamado Pierre Goldman. Ele era filho de poloneses, mas nasceu em Lyon, na França. Por isso o livro se chama Lembranças Obacuras de um Judeu Nascido na França.

Ele aborda o preconceito racial e os conflitos armados que permearam toda sua vida. Um erro de grafia no livro é assalto à mão armada, que leva crase, mas a cada citação no livro não há o sinal gráfico. Irrelevâncias. Escrevo a partir do meu celular. Sinto fome, mas não quero correr o risco de interromper o sono de meus pais, talvez a coisa mais preciosa que eu zele em vida, porque sei o quanto meu pai é esforçado quando acordado e merece repouso. Minha mãe passa o dia seguinte muito debilitada quando dorme mal. Eles merecem dormir bem. Não saio do quarto para comer algo para não correr o risco de cortar o sono deles. Mesmo sabendo que a aproximação de minha tia na rodoviária fará com que ela emita uma mensagem e acorde minha mãe. E meu pai a busque na rodoviária. Eu de metido insone devo ir junto de acompanhante.

Escrevo a partir do meu celular com o carregador não original, que fica acusando o mau contato entre dispositivo e aparelho. Raios.

Pierre Goldman se defendeu de tribunais injustos que imputiram assassinatos, homicídios em sua ficha criminal, que, segundo a vítima do sistema, deveria constar apenas de assaltos, quando nem fazia uso das referidas armas. Goldman fez contato com homens das Antilhas, congoleses, haitianos e demais latino-americanos. O livro tem tudo a ver com o clima pós segunda guerra. Goldman era um Judeu não pertencente ao país de seus pais, uma Polônia cada vez mais antissemita, barril de pólvora entre sovietes e anti-stalinistas. Também nunca foi um francês, sofrendo o preconceito racial por ser considerado um estrangeiro judeu. Engraçado que quando foi para os Estados Unidos, em uma passagem de navio, trabalhando para um comandante noruegueses, nos EUA, Goldman era visto como "o francês". As coisas mudam.

Minha tia conviveu no mesmo apartamento comigo no fim de 2022. Me ajudou em um período difícil de minha longa doença, quando eu não conseguia evacuar direito, pelo mau funcionamento de meu intestino, que não absorve mais vitaminas como deveria (atualmente tenho reforçado vitamina B oralmente, mas já levei injeções também em outros tempos).

A vinda de minha tia, que voltou a morar em Pelotas mesmo após a insistência de meus pais que ela ficasse em Santa Catarina, a vinda dela tornou-se um evento importante de meu verão. Estou muito isolado, sem amigos por aqui. Ter a companhia de minha tia pode me fazer bem. Deixo aberta a possibilidade disso. Me faz lembrar perspectivas quando, por exemplo, o volante Jailson saiu do Grêmio e não era assim dos mais importantes. Tempos depois a qualidade de elenco recaiu e a torcida esteve em polvorosa para que ele voltasse, o que nunca ocorreu. Fez campanhas e títulos pelo Palmeiras. Além dele, lembro o caso de Rafael Carioca. Ou até Douglas Costa, que viria como salvador. Maior desperdício da história que já vi no futebol brasileiro. Perspectivas.

Pois a perspectiva de minha tia próxima a mim, pessoa da qual nunca fui tão ligado, aumenta na medida em que não tenho outras pessoas com quem contar. E assim devo me acostumar por idade ou distância, ou rotinas atarefadas dos demais, ou menos tempo ou menos grana para disporem conosco. Nos viremos.

Além do livro de Pierre Goldman, a ver com o assunto, os últimos filmes de Christian Petzold, talvez o cineasta alemão que eu mais goste, escalando posição preciosa entre todos os europeus (estou acompanhando toda filmografia dele). Petzold dedicou os últimos anos a filmes com referências de segunda guerra mundial, a exemplo de Phoenix e agora Transit, o qual estou assistindo. Parei e aqui escrevo. Em Transit, traduzido como Em Trânsito, o personagem foge pela França cada vez mais ocupada pelos nazistas, necessitando de passaportes falsos, desculpas, dinheiro e muita desenvoltura. O interessante deste filme, além da troca de identidade com o escritor que se matou no início da trama, o interessante é que Petzold não se preocupou em ocultar os novos carros e as novas ruas francesas ou alemãs. Adaptou um filme de segunda guerra em um mundo como podemos presenciar em cenários dos anos 2020. O filme ainda dispõe de cartas, luminárias, trens (?), mas também há carros modernos e ruas que não escondem o avanço tecnológico pelo qual passamos.

Por fim, gostaria de afirmar que gosto muito dos heróis das tramas de Petzold, pessoas comuns e muitas vezes entricheiradas entre escolhas, além do bem e do mal. Diferença sagaz, preciosa em relação aos mais vistos de Hollywood, em personagens que despertam apenas admiração ou raiva, ufanismo demasiado, leitura rasa. Nos filmes de Petzold somos convidados a pensar em situações cotidianas e ao mesmo tempo extremas: o que eu faria naquela situação? Preciso roubar? Preciso fugir? Preciso amar? Preciso abandonar? Preciso aplicar um golpe? Preciso fugir das autoridades? Quem tem a razão, tão mutável e movediça, tão escamoteada e fugidia? Assim acompanharmos os últimos minutos do filme Transit, para descobrir se nosso protagonista ficará ao lado da família que encontrou pelo caminho ou fugirá com o passaporte que está encaminhado, concedido para iniciar uma nova vida não nos Estados Unidos, mas no México. 

O que será que Pierre Goldman escolheria se fosse ele no papel principal não do livro biográfico de sua vida, mas nesta interessante trama do filme de Petzold? Goldman que, ao largo do livro parece querer se livrar da morte - que o perseguia em pensamentos e ações desde a infância-, justamente por um amor distante, de uma antilhana distante, no tropical caribenho, encontra uma desculpa para manter-se vigilante no sonho de libertar-se da prisão e continuar combatendo, talvez ao lado das diversas organizações comunistas estudantis das quais fez parte, ou deseja apenas uma vida em calmaria, mais justa e menos ambiciosa. O que escolher para salvação e continuação quando os caminhos se entrecruzam e as soluções não são tremendamente iluminadas e dispostas como a facilidade de escolher um ingrediente nas gôndolas do supermercado ou um livro de uma estante?

Assim vivemos entre liberdades e aprisionamentos e eu, enquanto ainda chove, e passam das prometidas quatro da manhã, espero minha tia chegar na rodoviária.

02/04/2023

um coitado

me olho no espelho e vejo apenas um coitado 

alguém que um dia teve ambição e percebeu suas limitações, as limitações da sociedade e a realidade

deixo a água do chuveiro correr sobre meu corpo, mas parece que sou eu e não ela que vai pelo ralo

20/11/2022

Caminhada rápida por novembro

Caminhada rápida para buscar itens básicos de sobrevivência (frutas) no calor de novembro. Fui pelas quadras que agora tão bem conheço, deslizando a cada bloco até a fruteira que eu esperava encontrar aberta. Mas não encontrei. Tive que fazer o retorno disfarçadamente para meu diminuto público como se ali não fosse meu destino inicial. Não me permito essas pequenas vergonhas, embora sofra hoje com as maiores. Ou o nervo de minha maior catástrofe não se chamaria pudendo.

Enfim, contornei por outras quadras, arriscando trajeto que ainda pouco tenho conhecimento, desviando pela Rua Três de Maio. Ela apresentou calçadas irregulares como as outras, com uma subida pouco íngreme e o calor cobrindo a rua fortemente, como uma capa aprisionadora. Pelo caminho, aos fins de semana, é normal topar pelas ruas com catadores de papelões ou plásticos. Procuro tentar identificar o que cada um carrega em seus carrinhos de ferro ou charretes. Observo que alguns carregam apenas o saco, em quantidade bem menor que seus companheiros. Outros batalham em carregamentos cheios, sol a sol, chuva a chuva. Lixeira a lixeira. Já os vi conversando sobre se o trajeto em questão valia a pena ou seria perda de tempo. Interessante a comunicação. Um ajuda o outro. Não adianta passar por onde outros vários passaram. Mas lixos e luxos se misturam também.

Medi meus passos na hora de passar por outra venda. Calculei que infelizmente chegaria quase emparelhando ao cidadão de carrinho quase cheio (ou seja lá a qual limite ele se submeta na árdua luta diária). Entrei finalmente na venda e perguntei em voz baixa sobre as frutas, que me foram apontadas uma a uma até completar minha pequena missão. Enquanto aguardava que o senhor de cabelos grisalhos me servisse mais um copo de salada de frutas, o trabalhador que passava simultaneamente à rua havia desaparecido de minha vista. Não voltaria a encontrá-lo nesta ocasião, mas possivelmente em outra, pelo bairro revisitado.

Em posse das frutas, dei o dinheiro, recebi o troco e segui minha breve caminhada com o destino de volta. O calor estava de rachar e eu certamente não aguentaria grandes distâncias, com o menor que fosse o carregamento a suprir. Ao cruzar pela esquina da Almirante Tamandaré, onde foi oriundo o importante movimento Sofá na Rua, avistei lá para baixo da quadra um par de pessoas, sem conseguir identificar de quem se tratava. Poderiam ser crianças brincando, poderiam ser usuários de droga à luz do dia, ou somente adultos desiludidos, cabisbaixos, sentados ao meio fio a refletir. Todas as possibilidades, embora antonímias, me evocam uma tristeza, uma espécie de nostalgia.

Caso sejam crianças, lembro que minha infância não foi nas ruas do centro ou em rua alguma. Muito mais tempo eu passei em casa, com saídas ou na companhia de meu pai para jogar bola, ou na praia, mas nunca muito distante da casa de meus tios no Balneário dos Prazeres, vulgo Barro Duro. Esse distanciamento das ruas causa-me essa nostalgia. Não tenho mais esse tempo que passou, jamais o teremos de volta. As crianças ainda terão, sabe-se lá a qual custo futuro nesse mundo incerto. Mas meu tempo foi esmigalhado, sobra-se nada entre os dedos das mãos. Tudo que pode ser evocado desse tempo está no campo do imaginativo.

Outra possibilidade levantada de quem seriam aquelas pessoas ao longe no semi-abrigo do sol foi de que se tratavam de usuários de droga. Proposta oposta ao povoamento da solitária e desértica rua com crianças. Os usuários de droga tem-se falado - não tenho visto - andam por espaços na rua Benjamin Constant. Mas não só por ela. Recordo que na própria Três de Maio, em direção ao bairro ferroviário Simões Lopes também estão. Procuram lugares isolados para seus cultivos e usos. Podem procurar vítimas, para saciar seus vícios. Não seria bom dividirem o espaço com as crianças que também especulei. Apostas diferentes.

O terceiro grupo eu mais me identificaria, entre os adultos simplesmente cansados ou desolados, apenas tirando um tempo para organizarem os afazeres, as ideias ou a vida como um todo. Sentados à beira da calçada, mirando os próprios sapatos gastos. Mirando os gastos em contas de cabeça ou de acordo com o que lhe sobra dos bolsos. A vida adulta talvez não seja tão mais difícil do que a imaginada quando se tem a idade dos de primeira hipótese. Mas é um acúmulo de situações com as quais lidar. Ainda estou estudando, preciso comprar o que me alimenta, o que visto, o que uso como produto de limpeza, corporal ou do apartamento. Mesmo os mais pobres, ninguém se imagina apenas catando papéis ou plásticos pelas ruas desertas de um fim de semana no centro da cidade, mas esta é a realidade de milhares, talvez milhões de brasileiros. Eles aumentaram pelas vias urbanas nos últimos anos, pessoas que perderam casas ou tiveram que ir à caça de como se virar no cotidiano, atrás de trocados que já não servem e precisam notas de dinheiro. O que se compra hoje em dia com 50 centavos? O que se compra hoje com dois reais? A nota de dois reais anda tão surrada quanto as desaparecidas de um real, as verdinhas substituídas pelas generosas moedas.

Hoje crianças brincam, amanhã também serão adultos desolados. Alguns perderão bondes pelo caminho e serão os usuários das ruas desertas em busca de vítimas, em busca de como saciar os vícios criados. Mas mesmo os não viciados precisam dar um jeito nesse estranho vício que o corpo possui em se alimentar, nessa mente viciada em tentar ser alguém, em traçar e conquistar objetivos nesse mundo complicado, de sonhos que se diluem, de perguntas que mudam e nos deixam com respostas insatisfatórias em nossas mãos suadas, marcadas e a cada dia um pouco mais calejadas com as agruras enfrentadas. A distância entre o que se sonhou e o que se viveu, as folhas que caem, as flores que murcham, os cães e as pessoas sob a terra. Os olhos baixos, o vento que assovia, o andarilho que passa distante, pessoas que fingimos não ver. Pessoas que também não nos veem, pessoas que nos ignoram, pessoas que fingem não nos ver. Pessoas que cruzam por nós em tardes de calor em novembro.

Pessoas que descascam frutas, pessoas que também são as mesmas que servem o troco do dinheiro que circula de mão em mão. Crianças que brincaram de ser polícia ou ser ladrão e mais tarde algumas delas prestarão concurso para serem policiais, mas outras serão ladras mesmo. Alunos que viram professores, pessoas que jogam o lixo fora e talvez no futuro tenham de catá-lo. Pessoas que separam o lixo e pessoas que não separam. Pessoas que jogam coisas proveitosas fora e pessoas que esgotam as possibilidades de consumo dos recursos, de reutilização. Pessoas que nos chamam atenção, mas jamais lembraremos ou jamais saberemos se realmente já a vimos ou se é a primeira vez, porque certamente as cartas se repetem entre as ruas atravessadas em sinais de pare, em carros freados e sinais vermelhos. Rostos marcados e rapidamente desmarcados. Rostos com marcas que somente a própria pessoa saberia explicar, entre a violência, o sol, o tempo, o trabalho, as rugas, as lembranças, as fantasias e as desilusões. Rostos voltados para baixo e que me impedem de vê-los enquanto passo pela Rua Almirante Tamandaré seguindo pela 15 de Novembro, me brotando dúvidas insaciáveis e pouco relevantes. Quando o sol está muito forte, tendo a sair sem óculos e ficar na penumbra de respostas que a quase todos pouco importam. 

Rua Almirante Tamandaré, local de nascimento do Sofá na Rua e deste singelo texto
Foto: Divulgação / Sofá na Rua




O poeta morto aos 27

Cheguei diante daqueles portões. Perguntaram meu nome por formalidade. Acho que eles sabem tudo. Conferiram meu registro geral na lista deles. Deixaram-me passar. Do outro lado daquelas elevadas portas estava pronto para reencontrar os poucos que conheci bem e também haviam partido. A maioria de mais velhos, bem mais velhos.

Já tinha ideia de algumas reações, que se confirmaram ou não. Tia Hildegart havia sofrido muito para partir aos 80 que eu chuto terem sido sete. Ela foi se apagando lentamente. A mente e o corpo lhe escapando dos domínios. Mas restituiu sua boa forma. Estava saudável e mais jovem até do que quando a conheci na mais tenra idade. Quase não a reconheci. Mas ela obviamente me viu, um pouco modificado pela barba de crescimento falhado e os óculos que eu mantinha a dúvida entre usar ou não.

- O que está fazendo aqui? - Ela me inquiriu. 

Certamente não estava pronta para me ver naquela ocasião. "Pois é", apenas lhe disse.

- Mas é tão cedo para ti. Que absurdo!

- Foram 27 anos. Eu já não estava bem.

- Vivi mais do que seu triplo.

- Também tenho feito muitas contas.

E realmente meus cálculos indicavam que eu havia pelo menos vivido por dois cachorros. São as situações da vida. Ela me abraçou e nos olhamos nos olhos. Um primeiro reencontro familiar.

O irmão de titia era muito mais indiferente. Gastou o dinheiro de minha bisavó na promessa de cursos e formações. Curtiu boa parte da vida em um clima de descompromisso. Acabou a vida muito mais rejeitado. Usou finanças que poderiam ter melhorado a vida de tia Hildegart e minha avó, irmã deles dois.

- Deveria ter aproveitado muito mais - disse ele, com a voz recuperada de uma forma que eu jamais havia escutado. Ele passou por cirurgias de garganta e sistema respiratório que fizeram com que sua voz sumisse, respigando somente filetes de suas intenções de fala. Agora eu o escutava.

E balbuciou mais algumas prepotências que eu quase desejei que perdesse a voz mais uma vez. Estava de bom tamanho aquele reencontro. Lembro que sofri um pouco sua morte, mesmo distante e em uma situação precária a que se encontrava. Faleceu na região metropolitana da Porto Alegre eleita por ele como cidade de sua maior vivência após o nascimento em Pelotas. Aos cuidados de uma pessoa paga para tal função, coube às filhas prepararem o conseguinte velório. Minha mãe e minha tia foram a Porto Alegre em uma ocasião em que minha mãe conheceu o então Olímpico Monumental de outro ângulo, do alto da funerária, casas comuns no saudoso bairro da Azenha e arredores. Estranhou aquele estádio azulado um pouco distante, diante de si pelo vidro como se fosse uma singela maquete de brinquedo.

Tio também era gremista, contrário à minha tia-avó e minha avó, coloradas de olhos castanhos. Ele tinha muito o hábito da leitura e, sapiente de meu apreço também pelos escritores, me encaminhou para sua biblioteca pessoal paradisíaca, a qual revelou que para mim sempre estaria em portas dispostas.

Da minha família, bem recente foi o reencontro com minha madrinha, vítima de um câncer que se alastrou e a comprometeu para eternidade. Passados os 70 e nas condições precárias de seu corpo, ela também havia retomado sua desejada juventude, tão saudosa para ela. Minha madrinha costumava mentir a idade ou ao menos escondê-la. Escamoteá-la também poderia aqui ser o termo empregado. Viveu para fora e sempre cuidou dos pais dela. Teve uma vida até então reservada, apesar das saídas e do apreço pelo álcool, algo que nunca escondeu. Socialmente, como se emprega nas lábias populares.

Me recebeu entre a euforia de rever-me e o lamento da precocidade. Diferente deles, todos finados na terceira idade, eu ainda não tinha década de vida adulta.

- ó, meu afilhado - lhe cabia exclamar a dinda. Queria saber logo o que passou e não passou. Eu, sem graça e esquivo, tinha o que lhe confidenciar e o que esconder. E queria mesmo era sair desse ambiente familiar um pouco asfixiante, ambiente o qual logo eu poderia retornar, já que estávamos todos ali transpassados os portões. Queria descobrir sobre as demais pessoas que conheci.

Mas logo também perceberia minha volta aos entornos familiares, pois das demais pessoas quase nenhum contato tive nem pretendia ter. Voltaria eu para o melhor humor de minha tia-avó Hildegart após ter visto os dois lados dela, em que predominava o humor mais azedado com os convivas. Retornaria com gosto para o convite da biblioteca de tio Hildebrant.

De Santa Catarina também tive tios que partiram. Os bem-humorados gostavam do álcool. Um deles bastante saudoso de minha parte, justamente o mais jovem de nascença daquela fileira de tios. Ele até recuperou um cabelo desconhecido de quem só o viu na idade adulta. As entradas preenchidas. O sorriso no rosto era o mesmo. As piadas e os deboches também. Era bom revê-lo dessa maneira.

Uma dessas tias, a que morava em Laguna e daquela cidade havia nos deixado um tremendo vazio ao passarmos pelo ou cerca do bairro em que morava, essa havia reencontrado seu marido, amor de sua vida. Eles tagarelavam bastante. Era o esporte de ambos. Falavam de deixar o interlocutor torto de tamanha verborragia. Agora novamente juntos poderiam exercitar o falatório na revista a amigos do casal e também conhecendo novos ocupantes daqueles nimbos esvoaçantes.

Um sentimento me acossava tristeza, o fato de ter sido o mais jovem pelas famílias de pai e mãe a morrer. O lanterninha. O Xavante na Série B 2021. O Juventude na Série A 2022. Nem passar dos 30 - no caso, para eles, pontos - era a piada que eu utilizava na época. Nos pontos corridos realmente acumulei muito pouco de vivência, embora tenha ido a uns shows, namorado ao fim da vida e presenciado alguns eventos esportivos, mais vistos do que jogados.

Para mim, era inútil comparar minha curta vivência com as de meus antepassados, com as pessoas de gerações anteriores, as primeiras que encontrei ao cruzar os enigmáticos portões. Queria eu interagir de alguma forma com os que presenciei em escola e vivências juvenis, mas poucos eram, na verdade, os que conheci e haviam partido.

Vitor era um dos que incomodavam na escola. Nome comum na boca dos professores e até de conhecimento de coordenação e provavelmente direção - embora a idade avançada das diretoras impedisse que se dedicassem a finco às questões de cada insubornidado aluno. Vitor era um menino negro, como haviam outros meninos negros na escola, principalmente naqueles últimos anos em que estudei. Não chamaria tanta atenção em uma lista de destaques entre os estudantes, pois, embora matreiro e provocativo, haviam outros mais matreiros e provocativos, creio. Ou me equivoco. Pois melhor lembrando é possível que ele encabeçasse uma lista semelhante à dessa hipótese. Fato é que não se pensa um sujeito desses morrer tão cedo. Mas as estatísticas estão aí e suas escolhas contribuíram ao fatal desfecho. O envolvimento com drogas posicionou Vitor nesse ranking de um dos primeiros a nos deixar. Eu já não sabia mais sobre seus paradouros, mas confesso que também não foi a maior emoção que experimentei, saber que esse havia partido e por conta do motivo descrito. Envolvido com o tráfico, foi baleado pelos infratores que estavam dentro de um veículo. Cena de filme. Vidros baixados, cano devidamente posicionado enquanto o vidro desaparecia no pequeno vão que lhe cabe. Onomatopeias, talvez algun escândalo na vizinhança. Aquelas escadas pintadas em meios fio de verde, e com a calçada propriamente cinza do concreto, foram tingidas do vermelho-sangue. Vitor partiu muito cedo. O vi de relance. Estava de boné pra trás, sorriso não mais metálico, olhos arregalados como bem me lembro. Era novamente o Vitor dos tempos de escola. Não sei se me reconheceu, pois não éramos de mesmos convívios.

Outro Vitor, de primeiro nome João, também havia morrido durante o período da escola. Este nos pegou de surpresa. Eram férias e o garoto branquelo de topete e poucas palavras, estava nos campos com sua família. Acabou dizimado em um episódio o tanto quanto estranho. Ao manobrar um trator, acabou tombando roda em um buraco e não conseguiu manobrar o veículo de volta. A capotagem o feriu gravemente e dizem que a própria expressão facial não serviu para o enterro. Uma tragédia que mobilizou a comunidade, mesmo que ele talvez não estudasse mais em nosso espaço para o ano seguinte. Era tido como um bom jovem. Repito que de poucas palavras e, para aqueles mais arteiros, servia de obediente para planos mais ousados. João tinha alguns amigos que ainda devem lembrá-lo mesmo década depois.

Outro caso que aqui recupero é mais recente. Um ex-namorado de irmã de amigo. Foi encontrado assassinado em uma estrada da cidade. Foi encontrado dias depois de seu desaparacimento. Sempre aquela história. Alguém passava pelo local, sentiu o cheiro que se alastrava por metros que já deviam ultrapassar dezena. Um pouco de investigação e eis o corpo. O reconhecimento. A notícia que paira nas páginas policiais de nossos jornais impressos locais. Este jogava futebol muito bem, pelo menos para época. Mas também recordo que jogava conosco, que éramos mais jovens. Portanto, ele se sobressaía. Demorei a associar o nome quando o vi em notícia pela internet. A foto bateu um pouco com minhas lembranças e eu já não tinha mais dúvidas. Lamentei o ocorrido, ele que eu nunca mais havia visto. Sempre chocante redescobrir pessoas em ocasiões caracterizadas por um ar tão denso e pesado. Ao mesmo tempo, não cometerei a hipocrisia de ocultar que também é uma excitação, uma adrenalina se sentir parte de um ocorrido dessa magnitude. Também é um momento em que as pessoas abraçam os seus, agradecendo pela atrocidade não ter passado com nenhum deles. Poderia ter preservado o nome de todos, mas pelo menos deste preservarei. Mas, ao que me consta, ele havia passado, sim, a casa dos 30 anos, diferente da minha pessoa.

Obviamente vamos passando pelos metros que nos separam do portão dos vivos e vamos relembrando. Outro cujo nome iniciava com P era também muito bom jogador e posso afirmar que de atuações contra pessoas de sua mesma faixa etária. P ainda é relembrando por amigo(s) em comum nas redes sociais, talvez passado seu aniversário de nascimento ou de morte. Joguei bola com eles em algumas oportunidades. Eram mais velhos, mas confiavam em meu trabalho de guarda-redes. Jogávamos muito no Ginásio do Spieker, finado complexo esportivo - sendo bondoso - na baixada da escola estadual Assis Brasil, com entrada pela Avenida Juscelino Kubitschek. E que saudade das boas peleias que não voltam mais e do tio, de aspecto boliviano, que cuidava a quadra, recebia os trocados e também fazia ligeiros e protocolares trabalhos de limpeza no espaço.

P era um de nossos melhores jogadores. Agora misturo completamente a memória com os acontecidos. Não gostaria de ser injusto. Mas pode ter sido uma internação por drogas ou pode ter sido apenas de sintomas psiquiátricos bastante agressivos. Pode ter sido também separação familiar, problemas com envolvimento, como com padrastro, por exemplo. Posso misturar todas essas sentenças até a derradeira ocasião que o vitimou com um tiro policial na cabeça. Ele estava atendido em um hospital e foi agressivo com enfermeiro. O caso voltaria para ações policiais e eles não tiveram dúvida, na hora H, em disparar. Com a bala na cabeça, perdíamos P definitivamente para partidas que nem cogitávamos jogar, mas hoje sentimos falta. Seus amigos mais próximos, sem dúvida, choraram essa perda. Eu novamente fiquei em choque, novamente atormentado pela estranha excitação que exponencia essa sensação de conhecer e fazer parte, de alguma forma, da notícia. Ter algo a acrescentar, ter algo a relatar, a compartilhar com outros que ficaram sabendo ou que só ficaram sabendo justamente porque, em algum momento, colocamos esse assunto à tona.

Mais do que dele, de minha parte, relembrava nostalgicamente esses bons momentos. Quando me sentia útil na função de guarda-metas. Quando era requisitado, às vezes insistiam, pela minha presença. Mas eu sempre me sentia meio deslocado, independente do grupo, na hora das conversas, tanto pré como principalmente pós-jogo. Não fazia parte de nenhum grupo de forma mais fechada ou definitiva. Mas gostava de me sentir útil, de imaginar as partidas como grandes decisões, de ficar relembrando meus lances. Rememorando quando a adrenalina baixava e voltava para casa. Colecionava roxos nas pernas, dores e boas sensações provindas delas. Colecionava defesas, atacantes que saíam decepcionados, às vezes surpresos por eu conseguir ter agilidade ou inteligência para buscar onde jogariam a bola. Era sempre um prazer. A vibração da bola colidir contra seu corpo, contra sua perna, contra seu braço, até defesa de cabeça que eu já havia feito e, comum que era por vezes, sofrer uma bolada no rosto, justamente posicionado onde seria dado o arremate a ser bloqueado. Faço voltas assim relembrando de minha passagem, para chegar ao ponto que a turma de P havia inovado um apelido para mim: Van der Sar. Um goleiro que gosto em um clube que detesto, o Manchester United. O holandês realmente possuía história, embora tenha também bloqueado o caminho vencedor do meu Grêmio em 1995.

Outros nomes eu havia recebido anteriormente, entre Victor, do Grêmio, futuramente do Galo, Lehmann, o próprio Van der Sar e até De Gea, outro do United, até pendurar as luvas. Passei os últimos anos de minha vida saudoso desses jogos e das defesas que praticava, e de como eu conseguia me movimentar de forma satisfatória. Ali, naquele céu, ninguém me conhecia o suficiente para ressuscitar tais momentos e eu teria de esperar mais anos por isso. Tampouco sabiam de minhas habilidades descritivas e inventivas de analogias, tais quais as que aqui presto em carta de minha chegada ao outro lado dos portais gloriosos - que tanto nos prometem. Assim foi minha chegada ou assim será, ou ao menos assim espero que seja, pois minhas malas parecem cada vez mais arrumadas para o inevitável destino.