Mostrando postagens com marcador O que está por vir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O que está por vir. Mostrar todas as postagens

20/01/2025

Até que tem

Tem música que gosto de ouvir no fone

Tem música que gosto de ouvir ao vivo

Tem música que gosto de jeito nenhum 

Preferia nem estar vivo


Então eu ouvi João Bosco

Me senti menos tosco perante o mundo

Então eu ouvi nosso oco 

Do que parecia profundo


Então eu ouvi o Trump com sotaque traduzido

Preferia ser abduzido

A ouvir esse discurso

No decurso do tempo

Eu só lamento

O que ainda está por vir

Isabelle Huppert me avisou ¿e daí?

Me puxaram o tapete

Antes dele voar

E Alceu Valença me era uma lembrança

Somente protocolar


Tem música que eu gosto como um equinócio 

Palavra nova é boa para os negócios 

Tem música que fizeram de qualquer jeito

Feito um troço 

Tem música industrial que nem a indústria da China

Faz tanta barbeiragem 

Nem o Clube da Esquina

Nenhum outro Nascimento


Tem música que não definiria jamais um valor

Tem música que é troco 

Tem música que eu troco quando mal começa

Tem música que ouço à beça 

Tem música que eu queria ouvir de beca 

Mas a formatura não queria comprometer os direitos autorais

Ai ai ais 

Tem música que é sacada do baralho aleatório 

Como um ás 

Tem música que nunca satisfaz

Tem música que eu canso jamais

Tem música instrumental e tem de Recife

E tem corais

Tem música que me arma pra guerra

Tem música que é quase paz

Tem música que nunca me alcança

Por mais que sejam virais

Tem música que nunca mais ouço 

Agora que somos rivais

Tem música que me dá um troço

Longe demais das capitais 

Tem criança que não conhece Capital Inicial

Obriguei a ouvirem Soda Stereo 

E Cerati sim me dá um revertério 

Ferrari virando um cavalinho de pau 

Tem música que sobra o doce

Tem música que falta sal

Tem música que antes nos fosse 

Ao menos um sinal

Au au au 

Mal



19/06/2022

O que está por vir?

Em um filme francês chamado "O que está por vir" algumas reflexões me chamaram atenção. A filosofia que a professora (interpretada por Isabelle Huppert), personagem principal da película traz: sobre a expectativa da felicidade, o almejo ser maior do que a própria felicidade quando esta chega. Eu já havia pensado a respeito desse assunto, mas esse filme trouxe novamente à tona.

Na vida da personagem principal, as expectativas são frustradas constantemente. O casamento de 25 anos a ruir, os filhos não serem exatamente como ela imaginava, como o menino brinca em uma passagem que o aluno dela era o ideal intelectual e físico que ela almejaria no próprio filho. Mas, como dito, o filho não atingiu esse ideal, seja este existente ou somente deboche do descendente. A mãe dela, má de saúde, delira e flerta com o suicídio. Acredito que os adultos não imaginem que cuidarão de seus pais após anos sendo cuidados por eles.

A gata da mãe da professora é somente um gato comum, chamada Pandora (esta de pronto me recordei do nome). Pandora é aquela mescla entre dependência e independência dos gatos. Percebo agora que ela sempre está contrariando os planos da professora. Quando é levada ao mato, desaparece e preocupa a personagem principal, mas pelo dia seguinte reaparece e com a caça feita de um camundongo, revivendo seus instintos e surpreendendo a surpreendida.

Quando a professora vai conviver com os intelectuais alemães mais jovens, juntamente com seu estudante favorito, em uma casa afastada de Paris, para os campos, ela possuía uma expectativa, mas que novamente é quebrada. O filme inteiro circula por situações cotidianas assim. Ela se vê na encruzilhada da idade, passados os 40 para os 50 anos, sem mais o casamento que lhe parecia estável, com os filhos em idade de adolescentes a adultos, a mãe dela idosa, somente por desfazer o nó que a separa da promessa do céu.

A expectativa, a ânsia pela felicidade, a busca por um ideal, assim são transformados seguidamente. Provavelmente não é o que a maioria das pessoas em vivências classe média esperam naquele degrau de idade. Flertam com a estabilidade, com o conforto de lares, com refeições seguras. Esse tipo de coisa. Quando ela se aventura em desventuras mais alternativas, em moradia comunitária, sente-se só e distante dos companheiros e da própria vida. Vida que era seguramente sua, palpável se possível, em questão de poucos dias atrás.

Cometo o terrível equívoco de esquecer de mencionar que a personagem é professora justamente de filosofia. Então o filme aborda muitas vezes as incongruências entre o pensar e o fazer. Entre a teoria e a prática. Esse tipo de desavença, muitas vezes hipócrita, cerceava inclusive a vida dos próprios autores. Ou seja, nem eles viviam a pleno o que escreviam. Sendo assim, como os desalinhos não vão aparecer na vida de pessoas surgidas décadas depois?

A transformação do mercado de trabalho. A professora-escritora que parecia segura no modo empregatício, criticada pelos jovens marxistas pelo seu estilo burguês, de repente começa a ser rejeitada pela sua editora. O motivo: seus livros já não são mais tão vendáveis. Não interessam como antigamente. Reedições estão fora de cogitação. Novos lançamentos precisam ser de fácil degustação para leitores fastiados e pouco aprofundados. Tapa de luva em nossa personagem.

E o que está por vir? Nada disso do que passou. Talvez o embalo de um neto em seus braços em noite natalina seja o suficiente. Talvez. A vida se adapta e termino o texto me sentindo uma espécie de Martha Medeiros conversando com outras professoras de filosofia divorciadas na faixa dos 50 anos. Mas não é o específico ou exclusivo público-alvo. Absorvo muito a me deparar com vivências como essa. E me adapto, como devemos nos adaptar, ao que me cabe de aprendizado e experiência.