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10/03/2025

Montanhas de Canguçu

Te procurei em todos nasceres do sol

Você fugiu em todos nasceres do sol

Talvez você nem desconfie 

Se não um sol ao menos meu farol 


Senti contigo uma conexão 

Ou queria sentir contigo uma conexão 

Queria um pouco mais de chão 

Pra caminharmos em imensidão 


Eu vi contigo a água em repouso

Senti o lugar certo pra pousar 

A maré que não se mexia

Nem eu queria sair do lugar 


Te procurei em todo nascer do sol

Você fugiu a cada nascer do sol

Talvez você nem desconfie 

Se não um sol ao menos meu farol 


Eu vi o sol me cumprimentar

Subir a linha do horizonte

Escrever de novo com suas fontes

Eu vi você não estar 

Estou cansado de imaginar-te 

Troco ter mais vida e menos arte


Subiria as montanhas de Canguçu

Por tu, por tu 

Porto seguro encontraria em ti 

Em ti, em ti 

Subiria as montanhas de Canguçu 

Por tu, por tu 

Viveria na imensidão azul

Do céu do Sul

Por tu, por ti 

Por ti, por tu

15/11/2024

Loucarícias

Queria um pouco de loucura

E um pouco de carinho

Um pouco de aventura

Mas nem sempre sozinho


Queria um pouco de loucura

E um pouco de carinho

Loucura se atura

Carinho é como vinho


Queria um pouco para não reclamar

Tempos ele queria congelar

Lamentou os tempos que só passou

O sol prometia voltar


Queria um pouco de cura

A doença sabia que ia voltar

Queria o pouco que lhe cabe 

Nem era muito antes de matar


Queria um pouco que chamavam verão 

E um inverno para se fechar

Queria um pouco de saúde

E mais de uma forma de se estragar



14/01/2024

Depressão e padrões

Acredito que após se passarem os dias de maior depressão, sente-se um sentimento de tempo perdido pelos dias desperdiçados. Apenas acredito nisso, porque, na verdade, não sinto que superei esses dias para olhar com outra ótica.

Em um exercício de imaginação, estava apenas imaginando como seria estar escape das garras da depressão, que cercam e encurralam, limitando nossas atuações no cotidiano.

O sol brilha forte lá fora, mas não quero sair. Tenho preguiça e vergonha e desinteresse. Às vezes mais preguiça, às vezes mais vergonha, às vezes mais desinteresse. Deixo minha cidade e meus amigos me perguntam quando irei voltar. Não sei quem encontrarei futuramente. A insegurança do futuro é prejudicial, mas, para o pleno exercício do viver, apenas o presente seria agora essencial. E no presente o sol brilha lá fora e não saio. Por preguiça, vergonha ou desinteresse.

O primeiro verão que vim para cá foi melhor. O tom da novidade, a proximidade a menos de quadra do mar. Caminhadas longas de exploração. Nem a ausência de Internet impedindo que eu caminhasse ouvindo músicas sortidas nos fones impedia. Nem o descontentamento constante com meu próprio corpo, de julgamentos imaginários ou existentes por outrem - certo é que eu sim me julgo.

Na Internet tiraram a semana para debater corpo feminino. A verdade é que uma tal indústria da moda construiu paradigmas antes inexistentes. Para vender roupa ou não vender, dificultar que se compre. Esses tempos ouvi uma ótima teoria que os estilistas, muitos deles gays, projetavam roupas para alterar a percepção das mulheres, concorrentes deles pelos homens. Se verdade ou não, há pingos de razão e sentido. A indústria é muito mais cruel do que o homem "comum". Ok, a indústria, as indústrias são comandadas por homens, mas pelos poucos capitalistas detentores do capital. Eles que mandam, constroem padrões inexistentes, mais fáceis ou mais difíceis de romper com.

O tal mercado de trabalho, a televisão também moldam padrões que em geral nem concordamos. Às vezes é escrachado, e tão falsa a aparência sobressaindo sobre a competência que o sentimento é repugnante ou de vergonha alheia.

Se o homem "comum" age em julgamento tão cruel quanto a indústria, ele é, sem meias palavras, um otário.

28/12/2022

Reinado

Há vários tipos de escritores. Os que relatam dramas. Os que rebuscam prosas. Os que abrem caminhos pela poesia. Os que relatam cientificamente, biologicamente, astronomicamente e outros termos acompanhados do mente. Os que constroem ficção bem ficcional. Os que constroem ficção bem apoiada no mundo existente. Os que panfletam politicamente. Os que se inserem. Os que se autodiagnosticam. Os que observam as lamúrias e chagas nos outros. Escritores por uma causa. Escritores por uma valsa. Por um sonho de. Escritores que descrevem seus sonhos, acordados ou dormidos. Escritores que inventam mundos por ação. Escritores eróticos. Escritores debochados. Escritores paisagistas. Escritores de criações estritamente psicológicas.

E quem sou eu no meio de tantos tipos? Espero me apresentar com um pouco de cada. Não bato na porta com apenas uma proposta. Recuse meu verso e tento uma prosa. Um outro verso. Um inverso. Uma contradição. Um contrargumento. Contra ti ou contra mim mesmo. Com o perdão do trocadilho, um novo universo. Une versos. Verídicos desconexos. Vereditos anexos. Créditos e débitos no cartão da vida. Curativos e feridas. Chegadas e despedidas.

Espero ser um pouco de cada. Cercado pelas paredes e pelo nada. Pelas batidas extasiadas que meu coração por vezes abdica. Espero ser um pouco de cada e seguir as dicas. As pistas e iscas de meus professores antecedentes, antepassados, diante do ausente e do presente, militante combatente, guerrilheiro entorpecente, pássaro e serpente, ente dos mais queridos, por vezes na cova dos inimigos. Sou e estou contigo. Meu bravo ou mesmo breve amigo. Te, ti, contigo. Não sei se consigo, mas tento. Atento aos mais breves movimentos, brisas e ventos, verões laranjas e invernos cinzentos, cinzeiro das pontas que se apagam, do mar das águas que alagam, das páginas que alargam meus sentimentos.

Espero ser mais do que parecer. Posso parecer ser de cimento. Mas sou o mais frágil pré-sentimento que em flor se abre e às vezes não cabe, ou às vezes só se vê em lente de aumento. Aumento o rebento de meus rebentos, minha rebentação mar a dentro de ondas, de sondas espaciais e especiais, zonas urbanas e rurais de meu testamento.

Espero. Mas enquanto espero ergo. Ermo. Com o cedro na mão de meu triste reinado. De minhas terras e pedaços arrasados, de sentimentos irados, pensamentos pirados e trabalhos a serem arados. Gado. Não peço que sejam, nem sereias nem aqueles que rastejam, talvez com que eu beba uma cerveja, talvez nem isso seja o combinado. O comboio armado, o combo formado pelo que fui e pelo que serei. Se rei for, ser rei do quê? Do quê serei? Espero por algo que ainda não sei.

17/03/2022

Caminhada

O fim do verão se aproxima. Os salva-vidas já não repõem as bandeiras com as condições do mar. Aprendi eu mesmo a diferenciar o estado para bandeira vermelha ou para amarela. Considero que anda bem mais para vermelha. Mas hoje o mar estava quente. Costumo caminhar com os pés e às vezes as panturrilhas para dentro d'água. E o mar subiu bastante nos últimos dias. Não ameaça as dunas, mas cobre a areia, que fica com uma cor mais morena e com aspecto mais mole a cada pegada que lhe impomos.

A praia já não era das mais cheias, agora convive com poucas pessoas. Gosto de caminhar assim, com a extensão de areia para mim, com raros guarda-sóis, raros transeuntes que se apresentam. Acho melhor dessa forma, sem a possível obrigação repentina de cumprimentar alguém que conheço ou deveria conhecer, talvez algum vizinho da mesma quadra, porque em cidades pequenas as pessoas são acolhedoras e se conhecem. Caminho com menor dúvida dessa necessidade com o rosto parcialmente exposto por detrás de meus óculos escuros.

Observo a sucessão de ondas marítimas, hoje bastante envolvedoras, uma atrás da outra, elas mal esperando a respectiva vez de desaguar a espuma esbranquiçada. Direciono o olhar para o outro lado, com as dunas ora mais altas, ora mais baixas, obstruindo a visão das casas ou dos raros prédios, ou ora os permitindo uma visão mais completa e panorâmica. Observo as manchas que a água insiste em manter sobre as areias. Lagoinhas formadas que só serão desmanchadas quando o mar novamente avançar à noite. Permanecerão ali, sem passar do líquido para o gasoso na atmosfera, sem evaporar. Pequenas reservas de água salgada nos caminhos que encontram-se entre a imensidão do mar e as dunas, naturais barreiras, retenções de sua força.

Essas poças formadas, as lagoinhas, elas proporcionaram um aspecto de abandono para a cidade que se desenhava tímida por trás das dunas. Era como se alguém não tivesse feito o trabalho de recolhimento daquela água. Besteira, ilusão criada minha porque o processo é todo comandado pela natureza. Agora pela natureza, mas sem intervenção humana onde costumava haver é o crescimento do mato na descida da guarita dos salva-vidas. A grama cresce mais sem ser pisoteada pelos banhistas que subiam e desciam a estradinha. O mato avança e cobre as dunas, sem adversário na ação humana. Isto é recém março. Como estará o trabalho de poda em maio ou junho? O aspecto sombrio da cidade mais esverdeada de mato crescendo, de água salgada parada sobre as areias, de menos fluxo de humanos. Um paraíso turbilhante entre radiante ou esquecido. Entre maravilhoso e assustador.

Caminhei a passos firmes e determinados, para avançar alguma etapa em minha recuperação de saúde, para mostrar que é possível ou para simplesmente desopilar mais um pouco. Tinha quase como promessa a chegada à próxima praia, um bairro bem mais residencial do que o meu. E notei que as pessoas para lá são mais praieiras. Aproveitaram o dia nada nublado, perfeito de sol para abrirem guarda-sóis, reunirem a família e porem as crianças a brincar.

Um menino aguarda que sua irmã chute a bola. Ela ameaça duas vezes, finge que vai chutar, mas erra de propósito e recomeça a corrida lá de trás novamente em direção à bola. O menino está ansioso, não aguenta mais a demora da irmã. Na terceira vez ela chuta, bastante fraco, é verdade, avisa para mãe que já jogou, já jogou, e corre em direção ao mar. O menino espera a bola vagarosamente descer a pequena rampa de areia e chegar para seu domínio. Ele a envolve, quica e faz embaixadinhas, demonstra bom controle. Talvez sua mãe o obrigue a brincar com a irmã mais nova. É possível. Algumas mulheres e alguns homens dominam os raios solares em suas peles expostas sobre as areias. Noto que aqui os homens também gostam de tomar banho de sol e há nenhum problema nisto. Apenas que mais para o Extremo Sul deste vasto Brasil considerava eu que essa atividade era mais feminina. Podem ser novos tempos também, porque andei ausente das praias pelos últimos anos, principalmente pela vinda da surpreendente pandemia.

Digo que as pessoas do outro bairro são mais praieiras porque demonstraram boa concentração de interessados pelo desfrutar do dia nas areias, mas é somente na baixadinha daquele pequeno conjunto de ruas. Ruas que serviam para boa prática de um outro esporte: o skate. Vi alguns meninos andarem assim em outras expedições que fiz. Me refiro a esse como o 'outro' esporte, porque o primeiro nessas condições de praia seria o surf. Noto que com o avançar da retirada do verão, as ondas parecem mais propícias aos surfistas, ou ao menos assim eu considero. A praia catarinense começa a apropriar-se melhor do apelido de capital do surf, embora acho que este rótulo no desempate pertença à Garopaba.

Nenhuma nuvem interrompeu meu contato com o sol. Tomei cuidado para não me cansar em demasiado, porque ainda me recupero das maiores fraquezas, do meu naufrágio pessoal. Levei comigo além das chaves do apartamento, no bolso oposto uma garrafa d'água, que desfrutei já no caminho de volta. A caminhada foi muito positiva para o meu bem estar. Passei sim por alguns pescadores, como de costume, mais idosos do que jovens, alguns acenares de cabeça, mas nenhum boa tarde arrancado de minhas cordas vocais. Algumas pessoas realizam também a atividade física, algumas de tênis pela altura maior das areias, eu no patamar mais baixo da suposta rampa que afirmei sobre a trajetória da bola do menino. Eu molhando os pés e retardando meus movimentos quando este me alcançava até altura maior das pernas. Os passos ficam mais vagarosos e tenho de cuidar para a água que levanto com os pés não molhar as chaves, com dispositivo eletrônico, dentro de meu próprio bolso.

Me surpreendeu a temperatura elevada da água, porque nos últimos dias até moletom eu tive de usar pelas noites. Tomaria um banho, sem dúvida alguma. Durante a caminhada, identifico alguns pontos de referência. Os prédios os quais minha mãe afirma que um apartamento deles pertence a um corretor imobiliário que os ajudou nessa mudança de moradia. Antes desses prédios, o topo do morro mais alto, com uma antena de sinal que com certeza não pertence à minha infrutífera operadora, sem sinal na praia. Antes do topo do morro, uma simples arvorezinha, onde quase sempre há algum morador que organiza seus pertences, cadeira de praia, toalha, roupas, à sombra da mesma. Antes disso tudo o hotel maior, que dispõe cadeiras e espreguiçadeiras brancas raramente ocupadas pelos seus cada vez mais escassos hóspedes. Antes disso o restaurante maior que fica encravado entre as dunas, onde não se deve poder mais construir. Antes disso um pequeno centro de eventos para apresentações musicais, alguma prática esportiva, como o vôlei de praia ou o frescobol, que eles gostam muito. E antes disso a guarita de salva-vidas, onde costumo subir e descer pela praia, ficando bem próxima ao nosso prédio esverdeado. 

Deixei que minha mente divagasse por essa caminhada, uma das últimas que farei nesse verão, seja pelo fim cronológico da estação, seja pelo fim de minha estada nessas terras, embora por enquanto. Voltarei em outro momento? Não sei quando nem por quanto tempo. Gostei bastante dessa cidade que eu consideraria uma cidade de brinquedo, nomenclatura que talvez eu melhor desenvolva em outro texto. De brinquedo por suas dimensões reduzidas, por sua organização bem plausível, por suas acomodações até eficientes e aconchegantes. Uma cidade planejada como um brinquedo ou algo muito sério... uma estrutura de maquete escolar ou universitária sobre uma planície de isopores.

Lembrei do que já passamos, do que estamos passando, mesmo longe, e do que ainda iremos passar. Conectei-me a esse fim de verão, a esse fim de tarde antes do meu exercício diário da escrita jornalística - ou algo próximo a isso - com a certeza de que o tempo passa. Se as coisas vão melhorar, é uma grande dúvida. Tive a certeza do respaldo de ter sido uma boa tarde. Torço para que mais gente consiga atingir esse objetivo. Não sei quantas vezes mais irei atingir, por minhas condições clínicas (dramático) ou simplesmente porque a vida nos surpreende em eliminações inesperadas. Quantos irão antes de mim mesmo que meu quadro clínico piore? Sem dúvida muitos, porque não cessam as guerras na Ucrânia, no Afeganistão ou na Síria, ou na Palestina, ou os surtos de Covid-19 que voltam a ameaçar a China, a Coréia do Sul, setores da Europa e jamais abandonou o Brasil, embora a revogação do uso de máscaras.

E é sem máscara (ou com alguma subjetiva?) que desfilo esses passos com no rosto nem um semblante emburrado nem um sorriso forçado, mas uma expressão até satisfatória. Satisfeito pela volta que dei à tarde, por ter cumprido a promessa feita a mim mesmo de atingir até a outra praia de distância, pela superação hoje de meus múltiplos problemas médicos, pela conclusão inconclusa de mais um verão, de estar morando na praia, embora enfrentando essas adversidades surpreendentemente advindas em meu corpo. Chego ao fim da praia e retorno, chego ao fim do verão e quero mais verões, chego ao fim de um bom dia e desejo mais alguns.


05/03/2022

Crítico de Praia Famosa

A começar que o acesso para essa praia me deixa tremendamente claustrofóbico. Ok, entendo que seu isolamento impossibilite outros acessos, faz parte da preservação ambiental inclusive. Porém a estrada que liga o caminho é composta por carros, carros e mais carros. A mata é cerrada por ambos os lados. São poucas casas desde o trevo de acesso. Notei o abandono de algumas. As demais mantém estilos mais simples até carregarem-se com o esnobismo quanto mais próximas das areias.

Após a hora de condução por essa estrada, na fileira de carros, uma pista de mão dupla, finalmente chega-se ao mar. Antes do mar, melhor recordando, passamos por lojas de biquínis, de vestidos, bijouterias e muitos restaurantes. Lancherias também existem aos montes. Impossível que alguém com opção financeira fique sem o que comer. A mistura de molhos e cheiros me deixa meio zonzo. Não reparem tanto, meu estômago sempre foi fraco. Cachorros quentes, prensados, restaurantes de frutos do mar, bares especializados nas misturas. Em algumas travessas para dentro do mato observo cachorros. Esses também devem ganhar boa recompensa de sobras a cada noite. São realmente muitos restaurantes. Quando certa vez há quase uma década fomos procurar o restaurante de um parente, percebemos que jamais encontraríamos sem a pista do nome. Só tínhamos o nome dele, fato quenem todos, ou mesmo poucos, deveriam saber.

Soube nessa ida descrita agora que eles nem estão mais com o restaurante. Se mudaram e se especializaram em bebidas medicinais. Uma loucura. Loucura é o que posso imaginar para vida noturna desse paraíso estranho. Paraíso a gosto de muitos, visto a lotação. Mas que, às primeiras impressões, não me apetece. Mas enquanto escrevo percebo minha curiosidade com ambiente tão diferenciado. Experiência antropológica é o mínimo que posso imaginar nesse cenário. Percebo um clima esnobe. Como se as classes mais altas quisessem não só o contato, mas o extenso domínio sobre a natureza. Como se as tatuagens tribais ganhassem novo sentido nesse espaço. Como se as camionetes de ostentação fossem pró-natureza. Como se não fossem necessárias as tantas placas de aviso para recolhimento de lixo. O ser humano quando se ajunta costuma aprontar.

Noto os muitos carros parados na incessante disputa por espaços. Cada vaga pode ser comemorada como se fosse a para Copa Libertadores. As pessoas param para observar o mar, para observar umas às outras, como costumam fazer nas praias. Alguma disputa é sonora por música. Eles escolhem o ritmo, você não, obviamente. Entre a encosta dos morros e a areia não há tamanha distribuição de espaço. É uma praia disputada como um ingresso vip, muito celebrado com selfies em stories. É o objetivo de muita gente.

Chegar até lá exige um bom tempo de deslocamento de carro. Quem quiser algo mais alternativo pode tentar a sorte de uma carona no caminho. Para encarar a trilha de subidas e descidas a pé ou de bicicleta, é preciso um esforço épico e uma pré-disposição atlética.

A ambientação sugere a conquista de lugares rústicos e alternativos. São decorações que a muitos atrai. A mim mais afugenta. Mas é possível que eu encare, embora me sinta ameaçado pela proximidade das casas de alimentação e entretenimento. Tudo isso me faz pensar em um ambiente tumultuado e badalado demais para uma calma refeição. À noite mesmo, quando o objetivo das pessoas for exclusivamente o entretenimento, talvez tenha seu valor.

Além das tantas casas nessas ousadas, ou tentativas de ousar simples, casas de espetáculos, é preciso frisar a quantidade de placas para pousadas e hostéis. Como não há disponibilidade para construção de prédios (mas bom), o predomínio são dessas modalidades de hospedagem. Nada de hotéis. Apenas pousadas e hostéis. Hostéis ou hostels? Que me perdoem a grafia correta. Neles também está a presença forte do capitalismo na disputa de fachadas e decorações. Me parece um ponto importante. É para transparecer uma conexão sagrada com a natureza, mas são lugares onde só os mais abastados com camionetes costumam chegar, onde o preço da comida não é convidativo e onde os estabelecimentos seguem a mais pura cartilha do capital, na lei da concorrência por seus clientes. Não parece muito com alguma edição do programa Largados e Pelados, tirando o predomínio da natureza em volta.

Pois no predomínio de pessoas querendo se conectar à natureza, observa-se a tentativa de variação em relação à espécie humana urbana, mas bem notamos que quase todos ali são urbanos na amplitude do ano. Em uma rápida pesquisa, a estimativa é que a população praiana dessa localidade não ultrapasse 4 mil pessoas durante o percorrer do calendário. Sendo assim, são realmente poucos os privilegiados que podem se considerar moradores fixos. Imagino a desolação do espaço no inverno, quando aí sim pode adquirir um tom mais cabível com a proposta.

Esse ambiente de boas vibrações criado durante a estação do verão, quando o dinheiro circula, é facilitado para pessoas em que as dificuldades latentes do país ainda não fazem cócegas, o que também explica um percentual de votação em certos políticos. Em resumo, é muito fácil buscar saciar a fome espiritual, quanso a barriga está tranquila. Quando alterações trabalhistas não lhes competem, quando os atrasos sem precedentes no país chegaram e não lhes aborrecem a vista marítima e o digno período de férias.

Pode ser que tudo isso se some à minha descrente apreciação, crescente depreciação e curiosidade. Isto mesmo. Conforme critiquei também me vi curioso por explorar essa fauna tão diferenciada de minhas ambientações costumeiras. Seria eu um infiltrado, um espião, um anotador a lápis de minhas voláteis ideias. Na pior experiência possível, caberia ao menos uma melhor exploração antropológica dessa situação toda. Assim sendo, posso confirmar ou depor meus pontos, ratificar ou retificar. Façam suas futuras apostas.

22/02/2022

Casa em frente ao mar

Uma casa sendo construída em frente ao mar. Ela não está pronta, está sendo erguida. Será um sobrado, o que bloqueia mais a minha vista para o mar naquela direção. Estamos na quadra de trás. Nosso prédio não tem obstáculo imediatamente à frente. À frente está um terreno baldio bastante largo, onde três éguas pastam com uma deliciosa missão de evitar um crescimento desordenado de mato e arbustos. Elas têm se saído bem. Se imediatamente à frente não temos obstáculo que obstrua a visão marítima, para os lados temos a vista de casas erguidas. Erguidas de frente para o mar.

Este sobrado está com o formato pronto. Faltam os acabamentos, como é de se esperar. Do contrário seria só um esqueleto acinzentado. Varios homens estão responsáveis pela obra. O responsável maior, digamos, é um engenheiro de meu sobrenome. Estranha coincidência por estas bandas. Para alguns operários, talvez a maior oportunidade para estar próximo do mar, nesse contato que tantas energias nos despertam. Podem ter vindo de longe, do interior. Podem estar ocupados o suficiente em outras chances, não tendo um fim de semana digno para contemplação, visitação e acolhimento junto às salgadas águas. Uma visão um pouco dramática de minha parte. Porém, não deixo de pensar nesses homens que ouvem, veem, mas estão impedidos de sentir o mar, ali defronte. Trabalham sol a sol, mormaço a mormaço, bronzeiam suas peles, mas não sobre a areia. Remexem o cimento e pavimentam a escada de ligação deste sobrado. Calçadas e concretos.

Do alto de nossa sacada, nem tão alta, segundo andar, os observo sem a definitiva atenção que os pudesse identificá-los ao longe ou ao perto, sem ser o único atrativo, porque realmente mais tempo eu passo olhando diretamente o mar. Mas eles não podem sequer parar muito a obra para apreciar a vista. Precisam cuidar dos materiais, do cimento no ponto certo, da colocação austera. Fico entristecido pelo tão perto tão longe de suas rotinas. Por legislação, parece que nada os impede de terminarem o turno e pularem direto na água, em um fim de tarde/ início de noite. Mas não os vejo nem consigo imaginá-los muito nesse desfecho. Devem direto às casas, direto aos banhos. De chuveiro.

É como se a praia, de construção tão rica, em frente ao mar, fosse restrita aos mais endinheirados. Não sei se é esse o código de conduta. Provavelmente não é. Provavelmente só eu demore tanto tempo a devorar essas questões, que na verdade elas me devoram. Meu pai encerraria esse monólogo todo de uma forma bastante simples.

"Melhor estarem ali trabalhando de frente para o mar do que não estarem trabalhando" - falaria com a experiência de quem já trabalhou e de quem já ficou sem emprego. Com essa frase dele, sem mais delongas, aqui encerro.

08/02/2022

Paisagens são como rostos - disse um filme de Godard

Paradas em uma paisagem da praia de Laguna, as pedras me traziam a alegria imensurável de poder vê-las e apreciá-las, mas também sentia a tristeza por elas nunca mudarem. Talvez esteja em Raul Seixas a tristeza das pedras que choram sozinhas em um mesmo lugar. Talvez tenha nada a ver com pedras esse discurso todo. Mas quando eu estava em Laguna, era visualizar as pedras, pensar na paisagem que eu queria capturar para sempre em minha vista. Era revê-las alguns anos depois sabendo que estariam lá. E minha tia que lá morava não estaria mais, porque faleceu. E a casa dela foi rapidamente demolida sem negociarem uma possível venda e divisão da obra sobre o terreno. E no bairro em volta, ao invés de demolirem, casas eram construídas. E tudo mudava, menos as pedras. E a tristeza pela imobilidade das pedras fixadas há séculos sobre o declive dos morros dava lugar à tristeza pelas mudanças bruscas em algo que eu também tive como familiar. Porque passei verões entre as belezas naturais e a ansiedade, a incompatibilidade que sentia ao contato humano. A solidão adolescente de estar apenas com meus pais e conhecer mais nenhum jovem daquela região. Meu próprio primo, com o qual o pequeno contato que tive sempre foi positivo, mas hoje envelhecemos, sou adulto e ele mais ainda, pois mais velho, com esposa e filha pequena. Filha dele sem avó, porque minha tia faleceu. E sua casa, nossa casa por alguns dias, sumiu. E o cachorro manco. E o pequeno garotinho gago o qual ensinei um pouco de palavras cruzadas. Não sei se aprendeu, mas espero que esteja alfabetizado. Já deve ser um adolescente. Talvez da minha altura. Ele bebia coca-cola com suco de uva e eu pensava que alguém deveria detê-lo. Mas eu era responsável pelo gurizinho apenas por minutos, talvez nem horas, pois logo esgotada minha bateria social. Um amigo da família ia para lá. Morava de favor, ajudava a cuidar os doentes que foram nos deixando. E ele, homossexual que teve aids quando era jovem adulto, também já partiu. Tinha as bochechas vastas como se fosse o personagem Quico (ou Kiko?) do seriado mexicano Chaves. Me mostrou suas fotos quando era maquiador do sistema brasileiro de televisão, popular SBT. Isto foi antes de eu entrar no Jornalismo.

A Laguna e a casa de minha tia naquela praia acompanharam diferentes verões e períodos da minha vida. Infelizmente era um tempo de somente semana a cada verão. Não conhecia outros jovens, sobretudo outras jovens com os quais eu poderia me divertir. Mas sempre foram períodos muito reflexivos e que recordo até hoje, como o degenerar alcoólico de minha tia, o cachorro manco, o menino gago, o calor do morro que bloqueava o escoamento do vento, as baratas que brotavam pelo solo. As vizinhas, senhoras fofoqueiras, o filho especial de uma que não sabia se comunicar direito, mas tocava violão e era atendido em um centro para crianças apesar de seus quase 2 metros de desengonçada altura. Tudo isso me recordo, enquanto minha vida muda e as pedras da Laguna permanecem solitárias e acompanhadas umas pelas outras no mesmo lugar em que a mente armazena a cena.

28/04/2018

re(in)trospectivo

Juntam-se muitos eventos neste meu sábado que inicia na madrugada. Do aniversário do meu pai ao de um grande amigo que fiz. Jogos do Grêmio contra o Botafogo de meu pai e jogo do Brasil de Pelotas, que eu vou transmitir simultaneamente ao horário do Porto Alegrense. Além disso, duas formaturas, as que tenho reservadas ao mês de abril que vai se encerrando. Coisas que acontecem e se sucedem em minha vida, as formaturas aguardadas no mesmo dia, na mesma noite. Revezar entre elas, aproveitar ao máximo nenhuma, mas procurar aproveitar ao máximo a estada em cada uma. Assim é a vida, suas escolhas, renúncias e disparates do tempo.

Explanação demais sobre a minha vida. Vim tecer linhas de teimoso que sou eu, lata vazia à minha direita, coração esvaziado ao centro, com a ponta para a esquerda, é isso que dizem? Que seja. Durante a semana, dois dias antes foi o aniversário do Farroupilha da cidade de Pelotas, clube que muito bem adotei aos meus gostos e reivindicações. Tenho e prezo um carinho imenso por tal. Trajei minha camisa para percorrer as ruas do centro, sob olhares curiosos e saudosos para um jovem com a vestimenta de um dos clubes de seu miocárdio. Algum problema comigo? Creio eu que cruzei com o comentarista Caldenei Gomes, mas quando percebi que seria ele já havíamos nos despistado da calçada.

Não há rosto mais antigo impassível à camisa do Farroupilha. Recordam que já torceram por ele, ou recordam gente que torceu ou ainda torce. Recordam um pai, um tio, um amigo, um tempo remoto no estádio Nicolau Fico. Recordam um jogo que passou e abrem o baú dos fundos do raciocínio. Assim é a reação quando vista a camisa do Farroupilha nos dias atuais. Quase todos desconhecedores de ser um dia de mais um aniversário da agremiação quase centenária. 92 anos fazia, o campeão gaúcho de 1935, o maior torneio gaúcho da história, o maior estadual, o de centenário da revolução farroupilha.

Tempos difíceis ao futebol do interior. Outros apontamentos dos tempos? Oh, como de sempre faço isso. Dos cuidadores de comércios de esquinas, voluntariosos na função de cuidarem o movimento, encararem uns, cumprimentarem outros. Seguranças e porteiros. De um, de dois, de três comércios, dependendo. Juntando uns pilas no mundo atual. Uns ao celular, quase que bem distraídos.

O calor do centro foi enorme em pleno abril. Comprei uns livros, dos quais apareceu uma confusão sobre tudo que já aconteceu em Londres, um sobre o caçador dos mitológicos nórdicos Trolls e, para mim, a iniciação no universo kafkiano e mais umas ideias do tal argentino Julio Cortázar, ao que tudo indica, um dos maiores do país cisplatino.

Na compra da livraria em formato sebo, a descoberta que a outra pessoa fora o gordinho tatuado que eu nunca vi além de atrás do balcão, é a esposa ou namorada dele. Fiz o possível para evitar um contato mais próximo, embora ela insistisse a arrumar livros próximos a mim. Até a maldita da pequena escada fez questão de pegar para dificultar minhas leituras de orelhas e contracapas. Mas consegui fazer as devidas escolhas. A outra mulher que entrou na livraria parecia-me mais nova pela visão periférica e voz doce e gentil com a qual se comunicava, mas logo notei, ao me dirigir ao caixa do gordinho do balcão, que ela tinha idade mais avançada que os funcionários do local.

Assim foi a aventura de compras em uma livraria retrô utilizando uma camisa relativamente nova de um clube essencialmente retrô. Assim seguia o verão improvisado mesmo ao fim de abril, completamente fora de época. E fazia minha dedicação e preparação rumo ao sábado de acontecimentos. Sábado estando a acontecer. Com tecer. Conte ser.

19/03/2018

Balneário Camboriú - Janeiro

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

Balneário Camboriú (Foto: Henrique König)

01/03/2018

Pedra do Frade - Janeiro

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

Pedra do Frade (Foto: Henrique König)

01/01/2018

Entre o uniforme e nudez

Acordo cedo e parto em viagem. Sei que é bastante cedo porque não há pessoas acordadas em casa e é assim que me agrada. A escuridão espessa da noite comprime-se agora em tons acinzentados, coloco o que considero essencial corriqueiramente na mochila e tomo meu rumo ao estado vizinho em trajeto percorrido por ônibus.

A viagem era para durar muitas horas, mas aparentemente chego em poucas. Não somente pela impressão que me é passada, mas pelo horário de chegada sendo constatado. Sou recepcionado não sei bem como. Sigo uma caravana em procissão, guiado por quem conhece os caminhos.

Por entre meados de uma zona asfáltica, ingressamos em um prédio absolutamente moderno, com uma arquitetura interessante, formatos distintos nas sacadas, fazendo cada andar assemelhar-se a um iate. Na entrada do prédio, um dispositivo automático libera a passagem da catraca para as pessoas através de um cartão magnético. As demais pessoas, por ali morarem ou estarem acostumadas a visitar, possuem o cartão. Eu, visitante de primeira viagem a esse destino, não possuo. Os olhares de quem passou sem dificuldades voltam-se para trás em impaciência à minha demora. Não sem antes eu tentar pechinchar meu ingresso com a mulher fiscalizadora da portaria, finalmente a moradora do prédio libera a minha entrada.

Ao caminhar por entre os corredores internos, em direção à subida até o iate, digo, até o andar derradeiro, percebo que estou usando apenas uma bermuda e estou sem camisa, como se recém houvesse acordado, como as horas anteriores à viagem em que levantava cedo e preparava-me para aventura. Em um dia de verão, obviamente. Ao caminhar, constato que é possível estar perdendo as bermudas utilizadas. Mais passos adiante e visto na verdade um pequeno calção cinza, reconhecido por mim como um pijama. Não me apavoraria recordar que somente uma cueca me separaria da nudez em momentos posteriores.

Questionado pela minha aproximação com a nudez, embora minha mente já se recolhesse à vergonha de estar assim, realmente começo a perguntar-me pelos meus pertences. Despojado da presença de mais roupas, noto de minha posse somente uma conhecida e pequena mochila vazia. Acerco-me do desespero por estar em uma cidade distante, exposto ao ridículo e sem grandes possibilidades de sair dessa situação.

A caravana de acompanhantes era composta por mulheres, as quais, após me dirigirem o olhar de reprovação pela demora em liberarem a minha entrada no dispositivo de catraca do cartão magnético, comentavam umas com as outras ao considerarem a procissão como "um veleiro", em referência às velas que poderiam ser acesas caso me unisse nos deleites íntimos com a moradora do prédio, minha convidadora, anfitriã e potencial agraciante e agraciada nisso tudo.

Mas de volta ao drama da situação matinal, em meio ao turvo mar desesperador, não encontro saídas desse vexame. Onde estão minhas roupas e dinheiro? Surge entre as pessoas um rapaz que eu logo assimilo como uma possibilidade. Precipitadamente afirmo que esqueci os pertences em seu carro na vinda para cá. Ele me confirma com um olhar duro de "porra, agora temos que ir lá pegar suas tralhas", seja lá onde estava o carro.

De certa forma resplandece um alívio multiplicado, que parte inicialmente de recuperar meus pertences e possibilidades de estadia, com a obrigatoriedade de portar roupas e dinheiro; em seguida, alívio de deixar a caravana de olhares inquisidores e concentrar somente que o cara me ajude. Despeço-me da moça com um até breve, na esperança de voltar o mais rápido possível para continuar os planos, seja qual forem.

Coberto pela sombra dicotômica que anuncia: estás com a melhor ou com nenhuma.

11/11/2017

Piscinas e Bonés

Um sujeito, meia idade, maletas em mão. Ele conserta piscinas. Conserta consertos. Deve consertar muita coisa. Dessa vez veio verificar os encanamentos da piscina, evitar vazamentos, liberar o fluxo ligado ao motor. Mas será que ele toma banho em piscinas? Obviamente que os que pagam pelo serviço não o convidam. É apenas uma prestação de serviços. Não é uma amizade. Mas será que ele tem piscina na casa dele?

Traz o filho para ajudar. Um garoto. Garoto novo. Boné para frente. Maletinhas nas mãos. Disposto a ajudar. Acostumado assim. Olhar prestativo. Boné para frente, nada de aba reta (ainda). Não para trás (ainda). Como será seu futuro? Força nos estudos? Estudar para ir onde? Vai consertar piscinas? Vai ter uma piscina quando crescer e tiver seu emprego com carteira de trabalho? Acostumado a ver piscinas desde pequeno, eu gostaria de uma piscina.

Piscinas dão trabalho. Troca de água, motor, limpeza. Cloro, retirar insetos, folhas. Encanamentos. Consertos. Verão. O verão gaúcho é curto. Três meses se der sorte. Às vezes com noites frias que afugentam o calor para água da piscina no dia seguinte. Uns dias de piscina antes do Natal. Janeiro sempre funciona, mas se tu quiseres tirar uns dias de férias em outra cidade, em uma praia, perde os melhores dias da piscina. A piscina ali. Aprisionada. Aprisionando. A piscina ali. Do conserto do senhor de meia idade e seu provável filho.

O verão é curto. Fevereiro é um mês mais curto. Quando vê já passou. E recomeço a caminhada do demorado outono. Com a piscina ali. Esquecida. Mas exigindo trabalho. Como uma filha. Como um bicho de estimação. Trocar água, motor, limpeza, cloro. Não deixar os mosquitos ou outros insetos tomarem conta.

Qual será o futuro do garoto? Nem me questiono em relação a ter ou não ter uma piscina. São belas, sim, as piscinas. Para alguns dias, sobretudo nas nossas condições climáticas. Subtropicália. Mas qual o seu futuro no mundo? Até onde, até quando vai esse olhar de acompanhamento ao pai. Trabalhar. Acompanhá-lo no trabalho. Desbravar o mundo. Querer ser dono de seu destino. Tarefa difícil.

Talvez se acostume desde cedo. Nesse ritmo. Ensinado pelo pai. Trabalho. Ferramentas. Trabalho. Transporte até chegar às casas. Realizar os consertos. Grana. Guardar direitinho no bolso. Um refrigerante, um suco gelado. Ah, isso é vida. Poupar. Guardar para uma nova ocasião. Calcular. Contas a pagar. Desvios.

Atalhos que parecem bons. Cuidado. Me parece um bom rapaz, o pai. Mas quem pode saber? Várias variáveis. Várias teorias. Por agora, é esperar a cola secar. Parece estar pronto. A piscina está ok. Quanto lhe devo? Ok. Um bom verão a vocês. Pra vocês também. Guarda direitinho no bolso. Que tal um refrigerante, um suco gelado? Isso é vida. Ia dar uns cascudos no seu cabelo. Está de boné. Não de aba reta (ainda). Nem virado para trás (ainda). No rumo certo (espero).

01/04/2017

Março em Imagens

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


Foto: Henrique König

Foto: Henrique König


05/03/2016

Seca Aorta

Se até os verões somem
Tirando o calor do ar e da praia o homem
E as árvores fingem-se de mortas
No cemitério do outono que seca aorta
Por que, me expliquem, preciso a cada dia
Ressuscitar-me como se o produto
Dos meus pulmões fosse alegria?
Foto: Henrique König

03/08/2015

Mar de Revisões

Praia do Hermenegildo - Santa Vitória do Palmar - 2014 (Foto; Henrique König)
Há poucas cenas mais amplas, literalmente, do que estar de frente ao mar. Há um padrão, com sons repetitivos a acompanhar. O vai e vem das ondas, muito semelhantes, mas nenhuma exatamente igual e a espuma a baldear nossos membros inferiores. A mente, entretanto, encontra um universo tão extenso quanto o mundaréu de água do oceano.

Em meio ao inverno já não tão rigoroso do início de agosto, me apossa o sentimento de saudade ao velho mar. Da areia, nunca gostei, mas para encontrar tal companhia marítima nos veraneios, podia atravessar essa barreira sem ter do que reclamar.

E no mar, banhava-me. Mergulho e esqueço o mundo do lado oposto da superfície. Regresso e tudo está igual, mas mergulho e as diferentes sensações me apoderam: o movimentar incessante e ensurdecedor das bolhas, a coloração em novos tons não antes percebidos.

O sal é forte e torna-se personagem principal nas papilas gustativas e no que sobra sobre o tato após os encontros. O cabelo endurece e se rebela, como se não quisesse mais abandonar o mar. Permanece assim até o próximo banho, desa vez sob um chuveiro.

Os dias na praia são os mais extensos e intensos do ano. Acordo mais cedo, como com mais disposição, estabeleço e rompo paixões pelas orlas, vou ao mar, volto à areia. Vou ao mar, volto à areia. Volto pra casa, mas desço novamente ao mar, quando está ou depois do anoitecer.

Ele me confessa mais alguns segredos que só quem presta muita atenção consegue captar. Confesso, por ecossistema, entendê-lo pouco, bem menos do que minha irmã, por exemplo, que é bióloga. Porém, entendo-me mais em sua presença, como se o ir e vir na costa fosse a força eletromotriz para acionar pensamentos de aparições não antes vistas em minha mente.

Às vezes, há revisões presentes, flashbacks e a organização proposta de passar ideias a limpo. Liberdade que só encerra a sessão quando, mais tarde, enxugo os ouvidos.

A despedida nos fins de janeiro machuca e as peles antes despidas voltam à cidade para cobrirem-se de mais roupas e mais problemas. Escrevo esta carta de desabafo mais ao mar do que a qualquer especificidade. O mar, que é fascinante por seu conjunto completo como ecossistema. O mar, que abriga das mais diversas espécies e sonhos. Por sua ausência só daqui a, talvez, um mês saciada, procuro e ilustro o texto com sua simplicidade através de uma foto de veraneios passados.

(Foto está lá em cima. Preguiça de descê-la para cá)