Acordo cedo e parto em viagem. Sei que é bastante cedo porque não há pessoas acordadas em casa e é assim que me agrada. A escuridão espessa da noite comprime-se agora em tons acinzentados, coloco o que considero essencial corriqueiramente na mochila e tomo meu rumo ao estado vizinho em trajeto percorrido por ônibus.
A viagem era para durar muitas horas, mas aparentemente chego em poucas. Não somente pela impressão que me é passada, mas pelo horário de chegada sendo constatado. Sou recepcionado não sei bem como. Sigo uma caravana em procissão, guiado por quem conhece os caminhos.
Por entre meados de uma zona asfáltica, ingressamos em um prédio absolutamente moderno, com uma arquitetura interessante, formatos distintos nas sacadas, fazendo cada andar assemelhar-se a um iate. Na entrada do prédio, um dispositivo automático libera a passagem da catraca para as pessoas através de um cartão magnético. As demais pessoas, por ali morarem ou estarem acostumadas a visitar, possuem o cartão. Eu, visitante de primeira viagem a esse destino, não possuo. Os olhares de quem passou sem dificuldades voltam-se para trás em impaciência à minha demora. Não sem antes eu tentar pechinchar meu ingresso com a mulher fiscalizadora da portaria, finalmente a moradora do prédio libera a minha entrada.
Ao caminhar por entre os corredores internos, em direção à subida até o iate, digo, até o andar derradeiro, percebo que estou usando apenas uma bermuda e estou sem camisa, como se recém houvesse acordado, como as horas anteriores à viagem em que levantava cedo e preparava-me para aventura. Em um dia de verão, obviamente. Ao caminhar, constato que é possível estar perdendo as bermudas utilizadas. Mais passos adiante e visto na verdade um pequeno calção cinza, reconhecido por mim como um pijama. Não me apavoraria recordar que somente uma cueca me separaria da nudez em momentos posteriores.
Questionado pela minha aproximação com a nudez, embora minha mente já se recolhesse à vergonha de estar assim, realmente começo a perguntar-me pelos meus pertences. Despojado da presença de mais roupas, noto de minha posse somente uma conhecida e pequena mochila vazia. Acerco-me do desespero por estar em uma cidade distante, exposto ao ridículo e sem grandes possibilidades de sair dessa situação.
A caravana de acompanhantes era composta por mulheres, as quais, após me dirigirem o olhar de reprovação pela demora em liberarem a minha entrada no dispositivo de catraca do cartão magnético, comentavam umas com as outras ao considerarem a procissão como "um veleiro", em referência às velas que poderiam ser acesas caso me unisse nos deleites íntimos com a moradora do prédio, minha convidadora, anfitriã e potencial agraciante e agraciada nisso tudo.
Mas de volta ao drama da situação matinal, em meio ao turvo mar desesperador, não encontro saídas desse vexame. Onde estão minhas roupas e dinheiro? Surge entre as pessoas um rapaz que eu logo assimilo como uma possibilidade. Precipitadamente afirmo que esqueci os pertences em seu carro na vinda para cá. Ele me confirma com um olhar duro de "porra, agora temos que ir lá pegar suas tralhas", seja lá onde estava o carro.
De certa forma resplandece um alívio multiplicado, que parte inicialmente de recuperar meus pertences e possibilidades de estadia, com a obrigatoriedade de portar roupas e dinheiro; em seguida, alívio de deixar a caravana de olhares inquisidores e concentrar somente que o cara me ajude. Despeço-me da moça com um até breve, na esperança de voltar o mais rápido possível para continuar os planos, seja qual forem.
Coberto pela sombra dicotômica que anuncia: estás com a melhor ou com nenhuma.
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