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18/03/2023

Entre gremistas, formigas e um cão perneta

A família que morava no quarto andar se mudou ontem. Eu vi o caminhão de mudanças pela manhã, desconfiei, mas não me despedi como deveria, agradecendo a boa e rara vizinhança conforme agiram neste ano e meio de convívio. Quase não os ouvi e, se os ouvi, só em horários aceitáveis. Lutamos bravamente juntos contra a ameaça paulista que ocupava o terceiro andar e nos incomodou madrugadas de conversas, fofocas, visitas, vídeo game e sabe-se lá quais bebidas e cigarros. Por mim que consumissem o que bem quisessem, desde que não enchessem o saco, mas logicamente enchiam e nos horários mais inoportunos possíveis. Pois bem, aguentamos isso em 2021 e ganhamos o alívio da ausência dos paulistas, em sua retirada em 2022. Porém, para 2023, a família, que tão bem ocupava o andar mais alto do prédio, está fora. Me acompanhava a dúvida se estavam apenas retirando uns móveis ou se um dos filhos do casal é que iria se mudar, mas partiram todos, como bem prometiam há um tempo atrás, sem eu imaginar que esse tempo de partida não tardaria, que já se avizinhava tão costeiro.

E quem sobra? Apenas nós do segundo andar. A senhora que me aluga tem um companheiro, entendo eu que por conveniência (de quem? de ambos), mas o que tenho eu a ver com a vida privada dos outros? Ela tem viajado às vezes e ele, dessa vez em que escrevo, é quem está cuidado do apartamento e, juntamente comigo, do prédio. Percebo em mim um passo a mais rumo à solidão, o que me desanima e me consola, me traz êxtase e vazio. O prédio cada vez mais silencioso, sem sequer passos mais pesados dos andares de cima ou o raro arrastar de algum móvel (tão mais comum no prédio que meus pais arrumaram em Santa Catarina), a possibilidade de um privado mais extenso. Esses dias, amigo meu, o qual considero um dos melhores escritores vivos que conheço, relatou o perigo de um jovem solitário morar sozinho, porque é a velha extensão de seu quarto, recinto fechado, dessa vez tratando-se de um apartamento inteiro à disposição. E o meu tem o quarto sobrando para quando meus pais oram voltam de Santa Catarina, como assim planejo no mês que vem, abril.

Pois bem: agora tenho não só um quarto para ouvir música, ver filmes, ler, chamar de meu, mas um apartamento e praticamente um prédio à disposição. Concorre a esse extasiar, o fato de que a segurança condominial diminui relativamente. Me sinto quase que enfrentando zumbis em uma pandemia. Me sinto como o protetor desse pequeno e quase desinteressante universo. Além de mim, as formigas fazem questão de aparecerem. Visitam minha cozinha diariamente, entram por trás do balcão embutido na parede, percorrem um espaço milimétrico por entre o buraco por onde passa o fio da internet. Se inserem na minha pia, buscam migalhas de torradas, bebericar um aguado refrigerante esperando o dia da entrega das garrafas para reciclagem, tentam alguma migalha de pão por sobre a mesa da cozinha/sala ou até se aventuram em terras mais íngremes, como o pote de bolachas ou a geladeira. As minúsculas formigas e sua organização invejável são um grande obstáculo na busca pelo sossego, mas por ora me deixam um tapa menos solitário.

Quando fui buscar meu almoço deste sábado, cruzei por um catador de reciclados com uma camisa de número 7 do Grêmio. Peguei o troco do restaurante e lhe depositei moeda em mãos. Fiquei depois pensando que valeria até deixá-lo com uns 10 reais, mas pensar na minha própria condição ainda me impede disso. Por que não cedermos um almoço para quem mais necessita de vez em quando? Elogiei sua camisa e falamos um pouco do Grêmio que ele, de alguma forma, acompanha, seja por transmissões cada vez mais por internet, menos na televisão aberta que facilitava a todos (hoje jogam Caxias e Inter pela semifinal), ou pelo rádio, bem um pouco mais universal, mas que, por tempos, Pelotas sofria de não ter transmissão da dupla Gre-Nal pelo meio do cada vez mais dispensável AM (que me perdoem os torcedores Bra-Far-Pel pela heresia de querer que algum gremista ou colorado acompanhe seu clube do coração em nossa terrinha).

O catador falou que já teve oportunidade de ir na Arena e que achou "muito massa". Mas quer mais também de Luis Suárez, pois este "é muito caro", o que concordei sobre querer render ainda mais um pouco - queremos sempre mais. Mas qual parâmetro possível de comparação entre o ser muito caro, o salário de milhões, em relação a um trabalhador braçal, autônomo, que agradece qualquer moeda que o entreguem? Como é difícil visualizar alguma justiça nesse mundo. Renato Russo - vejam só, do nada, Renato Russo e Luis Suárez no mesmo parágrafo - Renato, pessoa muito chato da qual não sei se seríamos amigos, creio que foi até bondoso quando afirmou que "o mundo anda tão complicado". Creio que o mundo está impossível, em suas injustiças, perda de valores, convívios, chantagens, relacionamentos entre as pessoas. Mas, de alguma forma, ainda acredito na solidariedade, dentro dos nossos possíveis - talvez um dia dar-lhe 10 reais e não apenas um. É preciso tratar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque, na verdade, não há muitos mesmo.

Por fim, após meu almoço, enquanto degustava a sobremesa dita gratuita - vai nessa - apareceu por nossa rua um cachorro que por vezes vejo, um perneta de três patas. Atropelado ou vítima de algum outro problema que lhe amputou, ele, maltratado pelo calor dos últimos dias, foi digno do que restou de minha marmita, a qual agradeceu deliciando-se tão logo depositei ao chão para que se servisse. Mastigou até o que eu não esperava e percebi que precisava dar-lhe água contra esse calor todo. Só depois percebi que lhe dei minha água mineral ao invés da torneira, mas vai que ele merece, pois água das torneiras pelotenses não é lá coisa que se recomende. Bebeu também e fez a expressão que me pareceu contente, como quando percebemos contentes os cachorros, sobretudo - porque os gatos são mais difíceis de leitura - penso eu. Fiquei feliz e talvez agora eu tenha um novo companheiro. Enquanto aqui ainda habito este velho prédio, antiho, surrado, pouco chamativo, quase desabitado. Eu, um casal de conveniência, as formigas, um cachorro perneta para ocupar nossa quadra e dar-me mais motivos por mais dias. Não sei se ele me agradece ou agradeço a ele. Enquanto escrevi percebo que da janela voou um pó para dentro do meu doce (vai nessa) gratuito de maracujá. A sorte nem sempre me sorri.

22/03/2022

Noite de pesadelo zumbi

Nos protegíamos minha família e eu pela casa dos avós de um antigo amigo. A casa era simplesmente a maior da praia. Ocupava o centro de uma quadra, mas o seu tamanho era de uma quadra inteira para trás. As casas costumam ter os fundos voltados para os fundos de outra. Esta não. Havia pátio na frente e pátio atrás. Enorme. A pintura dos muros era salmão e as grades altas bordô.

Começamos apenas minha vó, minha mãe, meu pai e minha irmã. Procurávamos armas com as quais nos proteger. De quarto em quarto, subindo e descendo escadas nessa missão. Havia longa sala, como um saguão na parte de baixo. Este ligava a cozinha. Mas também quartos no interior. E obviamente os quartos - e escritório - e salão de jogos no superior.

Uma família relativamente pequena a minha para aquele palacete. Mas onde estariam os donos originais? Era de se pensar. Só que não havia tempo. Os zumbis iniciaram o cerco, aglutinando-se nas grades, na parte aberta do extenso muro salmão, que se estendia sobretudo como muralha pelas laterais da casa. Estávamos armados, mas era questão de tempo para eles transporem as barreiras e, movediços e escorregadios do jeito que estavam, nos alcançarem pelo lado de dentro. 

Talvez a melhor recomendação fosse não criar mais ruídos, mas eu gritava por meus familiares. Precisaríamos de um plano de fuga conjunto. Ni una a menos. O palacete seria o sonho de vivência para outros tempos, mas não naquela noite cerrada, demorada, arrastada como se não soubéssemos se haveria dia após esta madrugada.

O cordão de zumbis invasores mostrou o caminho por entre o ornamento trabalhado em determinado espaço da grade. Eles haviam entrado. A maioria não corria, mas alguns eram capazes. Esses diminuíram a margem de nossas reações. De pronto nossas armas pareciam inúteis àquela quantidade crescente exponencialmente de invasores. O rolo de massa poderia acertar o primeiro sim. A potente vara de pesca (?) poderia decapitar outro? Claro. Mas logo para enfrentar três e a esmagadora arma de deitar a massa de pão parecia inútil. A não ser que tivéssemos sobrenaturais habilidades de kung fu, mas não era o caso.

Conseguimos não se sabe como conduzir a vó para o carro, e a família acionou o estranho furgão que daria orgulho ao Fred, não só ao Flintstone que nunca havia visto uma engenhoca tecnológica daquelas, mas principalmente ao Fred da turma do Scooby Doo. Sem direito a um cachorro falante ou maconha que nos ajudasse a enxergar saída daquele pesadelo, procuramos acionar o controle elétrico da garagem. Por obra positiva do destino a energia elétrica ainda não havia sido cortada no bairro, porque nenhum daqueles mentecaptos havia tropeçado nos cabos de energia ou tentado subir num poste, admirados pelas luzes. As luzes os chamavam atenção.

O controle da garagem abriu vagarosamente o portão da garagem. Dos fundos, é importante dizer. A parte da rua da frente estava ainda mais lotada, abarrotada de zumbis como se fosse a recepção da torcida xavante. Então saímos por esse vagaroso, relutante e teimoso portão dos fundos, aquele que respondeu ao chamado eletrônico com uma inclinação lenta e preguiçosa. Ele ia aos poucos, travava e seguia a angulação rumo aos 90 graus. A cada travadinha que ameaçava não passar a altura suficiente àquele furgão de cachorro-quente, nosso coração também parava junto. Eis que meu pai perdeu a paciência e arremessou o furgãozinho com tudo naquele portão. Foi uma má escolha, porque arrancou, ou melhor contando, abriu um certo rombo no teto do veículo. O mais sensato no momento era pensar que saímos daquele inferno. Saímos munidos de algumas armas de mão para os futuros combates corpo a corpo e com duas pistolas as quais tínhamos dificuldade de decidir quem manejaria. 

Minha irmã a bem da verdade era a especialista pelo seu conhecimento advindo de jogos de tiro. Eu muito pouco permanecia com um facão que seria mais útil para acertar um vivo do que um daqueles mortos. Junto à nossa família já se juntavam outras três pessoas. Um homem que parecia uma reprodução clássica de um guerrilheiro dos Panteras Negras. Uma mulher de idade semelhante e um terceiro esquisito que em algo me lembrava o don Ramón (seu Madruga) ou a outro mexicano de bigodes proeminentes e rosto sugado pelo passar dos anos e pelos absurdos sustos que convivíamos nessa epidemia zumbi.

Chegávamos às proximidades de um porto quando minha avó, temendo a aproximação de tantas daquelas figuras, numa reação súbita de um plano suicida, declarou que já estava muito velha e só atrasaria jornadas. Conseguiu com o que lhe restava de força nas mãos, que com destreza construíram retalhos, bordados, roupinhas, pastéis, massas, arroz, carreteiros, assados, os mais diversos almoços, com força conseguiu abrir a porta de correr daquele maldito furgão e pulou para um tombo violento para qualquer idade, tanto mais a dela. Mas a dor de impactar-se com o asfalto ou com as pedras não demorou, porque, como ela estava certa, os zumbis logo a atacaram para devorar em minutos, talvez mesmo em segundos. Cena brutal que não sei porque cargas d'água tentei direcionar meu olhar para os vidros retrovisores do furgão. Eles aproveitaram a rara iluminação dos postes dali para mostrar o aglomerado de criaturas por sobre o que há instantes era minha avó.

Chocado com a cena, precisávamos ainda ser resilientes. Logo nem todos precisariam demonstrar ganas de coragem porque nosso furgão tombaria em uma rua de calçamento bastante acidentado. Ele conseguiria se manter de pé, mas aí o motor já não funcionava. O pior é que, independente do motor, a bateria estava engasgando, indo para o saco e teríamos nada para substituí-lo. Abandonamos o furgãozinho na rua. Mas mal os metidos a mecânico haviam descido de plantão (o mexicano e o pantera negra) e o exército de zumbis também dava as caras como plantonista contra nossa missão de sobrevivência.

Meu pai ficou para trás naquele episódio, isto eu consegui visualizar. E talvez fosse melhor que não vi o paradeiro de minha mãe. Embora assim ainda me reste alguma esperança de que esteja viva. Sobravam comigo o grupo de forasteiros, os incapazes de consertar um furgão de bateria desgastada em tempo recorde. Também em nossa corrida inicial para fugir daquelas coisas, minha irmã e o pantera negra em posse das armas, não valeria gastar um tiro que fosse na direção daquelas criaturas. A necessidade de acertar na cabeça com a luz oscilante dos falhados postes dariam grande chance de desperdício. Além do mais, a velha descoberta. Mandar bala dali só serviria para atrair mais daquelas errantes criaturas. O que precisávamos de fato era de um novo carro para tomar distância em busca de uma estrada segura, algo que nem aquela praia nem o porto podiam oferecer.

25/09/2021

Sobre as críticas

Quando e se me perguntarem sobre o que gosto nas obras do cinema, responderei que precisam me vender sua ideia. Preciso ser comprado, fisgado ou alguma palavra mais dócil. Atraído, é possível. Preciso identificar que a história poderia ser verídica. Não na exigência de um realismo, mas na possibilidade de acreditar no que estão me mostrando. Seja numa realidade paralela, preciso identificar que aquilo é possível.

Para isso, personagens muito preto no branco, como dizem, geralmente não me servem. Preciso de conflito, preciso acreditar que eles existam. De alguma maneira precisam ser possíveis. A gama de variáveis é enorme: pessoas consideradas ruins tentando praticar o bem. Pessoas consideradas boas inclinadas a atitudes desprezíveis, talvez com seus motivos próprios. Mundos paralelos me apresentando novas formas de pensar. Novas realidades através de civilizações diferentes, organizações e sistemas parecidos ou distintos. Aproximações e distanciamentos do que estamos saturados de viver no dia a dia. A busca pela identificação nas atitudes das personagens. A busca por apontar que aquele personagem pode ser visto no cotidiano da sua cidade ou resgatado das memórias escolares mais soterradas em nossos baús.

Enfim, precisam me convencer. E apesar de chegar aqui chutando a porta, listando algumas exigências, passo longe de ser exigente. Costumo concordar com os autores e procurar entendê-los. Seja nos livros, seja nas criações cinematográficas. Até mesmo nos esforços da produção das pinturas. Procuro contextualizar e entender onde querem chegar. Acho louváveis as produções. Muita gente critica com o prazer da depreciação alheia, seres incapazes de construírem suas próprias histórias, de apontar caminhos em suas narrativas. Preferem depreciar o trabalho alheio e destruir quem equilibrou os blocos.

Os autores precisam, sim, se esforçarem muito para me desagradarem. Mas faço várias ressalvas. Percebo na pressa com que escrevo e não gostaria de apagar. Nada de subtrair trechos agora. Me dou conta de que escolho minuciosamente. E, vejam bem, isso não restrito às obras com as quais me deparo. Faço uma separação na prévia de assistir. Leio sinopses, procuro alguns resultados, levo em consideração indicações de quem realmente me conheça. E sabe? Geralmente acertam. São bons em dizerem que tal livro ou tal filme possa ser do meu bom gosto, de minha boa causa. Agradeço a cada uma dessas indicações que me formata e constitui no que me torno. Realmente grato.

Através desse parágrafo anterior fomento o ponto de vista de que, sim, infelizmente muitas obras me deprimem. Me deprimem no sentido de nada me acrescentarem, e aí me trazerem a sensação da verdadeira perda de tempo. E costumo fazer várias concessões. Se consigo aproveitar alguns pontos da totalidade de um filme ou livro, focarei no positivo. Juro. Boas cenas ou citações podem salvar uma obra. Ao menos para minha cabeça e minha crítica que aqui teço. Então, a decepção quando não consigo extrair algo de livros e filmes é muito grande. Dou-lhes todas as oportunidades de me agradarem. Alguma passagem, uma mera lauda, um dependurado de frases, um poema, uma cena marcante, uma boa ambientação, um bom roteiro mal trabalhado, um ator ou uma atriz que tenha se preparado bem para a função ou, melhor ainda, incorporado seu papel com maestria. Tudo isso pode ser salvo, excluindo uma análise mais crítica ao todo. Procuro subir as notas levando em consideração o que me agradou, o que me atraiu.

Portanto, algo na obra que alguém levou tempo e esforço para desenvolver me comprou, ou me fisgou, ou, realmente a palavra que me pareceu mais propícia a esse desabafo textual: me atraiu. Vou relevar outros pontos de meu desagrado e guardá-los. Ou melhor liberá-los para que encontrem aconchego em outras pessoas destinadas como público-alvo. E, olhem que curiosa a expressão de público-alvo. Posso ser público-alvo das tosqueiras maiores envolvendo zumbis até as filosofias mais densas a que o homem equilibrou-se na corda bamba contra a morte para desafiá-la. E está tudo bem. Afinal de contas, não estamos tão longe dos zumbis quanto imaginamos. E isso que muitas vezes me fascina neles.

É isto aí. Bom desenvolvimento a todos. Não digo que procurem me agradar porque eu mesmo posso me direcionar rumo ao proveito e ao gozo. E, no final, das contas, prefiro escrever sobre o que eu gosto e me atrai do que os pontos negativos que identifico nas obras. Mas os diabos que não me testem. Neoliberalismos e meritocracias não passarão impunes pelos meus olhos. E é por isso que os evito, caso não tenha ficado claro. Além do mais, o mundo 'real' já está repleto de coisas ruins para falarmos. Não gostaria de ater meu tempo à negatividade das obras a que me submeto.

Bom desenvolvimento a todos. Silêncio à reflexão ou aplausos? Estamos abertos a várias ofertas.

06/03/2021

Velas que não se apagam

Madrugada em que sonhamos com os mortos. Ou com os vivos conhecendo seus futuros. Foi o curioso caso que aconteceu com minha irmã.

Um céu cinzento, o alto mar, as velas embandeiras, bem tecidas, perigosamente estiradas contra o resfolegar do vento. O barco em deslocamento sobre o sofregar do ir e vir das ondas. O olhar dianteiro tentando antecipar as desventuras que nos apareceriam. Minha irmã toma a frente apoiando sua cintura contra a proa da embarcação. Estende o braço adiante como que para indicar a batida frase de terra à vista.

A ilha é um isolamento de tal modo que o barco não tem muito onde acostar-se. Começa a brecar nos inevitáveis bancos de areia, defesa impenetrável. Os solavancos nos preparam para a descida. Minha irmã é a protagonista, embora as palavras aqui sejam narradas por mim. Contra a vegetação altiva de coqueiros e outras árvores, os pássaros voam ora em círculos sobre nossas cabeças, ora de maneira desordenada e atônitos por tão bela vista, ao mesmo tempo temos que sincronizar nossas energias na real missão e também torcer para que não nos acertem com seus dejetos.

Na ausência de habitações na encosta, ao menos às nossas vistas, rumamos direto para um objetivo fúnebre: o cemitério local, que comporta, já visualizados ao longe, mais lápides do que provavelmente haja habitantes na ilha. A formação insular, também observamos, não tem embarcações companheiras em nosso retiro. Recordo que quando passava pelo cemitério da cidade, próximo a meu clube e local de trabalho, eu notava sempre a lista de velórios e enterros do dia, constatando os dias de mais ou de menos infortúnios na vida de nossos concidadãos. Se a missão até a distante ilha era conhecer o vasto cemitério, tivemos uma distinta exclusividade em relação às demais pessoas. Onde estariam os demais? Por que encarregavam os mortos a tão distante localidade? As perguntas surgiam aos montes enquanto as formas humanas eram limitadas a nossos passos que constituíam as mais novas pegadas naquele solo arenoso recém aparado pelas ondas marítimas.

Minha irmã guiava a breve caravana, constituída mais por mim e por poucos passageiros. Caminhamos em sentido íngreme para subir a encosta rochosa que levaria até ao cemitério. De uma coisa não havia sombra de dúvida: a pousada definitiva dos mortos contava com uma vista privilegiada que animava a nós, ainda vivos, em uma afanada instantânea do fôlego. Minha irmã estabeleceu contato com uma local que agora terminava o trajeto, já tecendo a voz baixa, exclusiva para nossa líder, sobre o lugar em que estávamos conhecendo. Provavelmente minha irmã passaria as informações para os demais tão logo pudesse conferir-lhe a oportunidade de transmitir.

Seguia a procissão de passos certeiros, agora sobre o chão rochoso, não mais de areia como no desembarque e primeiras centenas de metros. O silêncio combinava com a garoa que ora nos pingava a roupa já transpirada, ora vacilava em cair. O abafamento lembrava a alternância do clima da cidade em que crescemos. Nem o vento litoral dava conta de livrar-nos do peso que já era parte de nossas mentes. A protuberância do cemitério era impressionante. Tentei observar o semblante dos acompanhantes e todos eram inexpressivos, como se aceites de tal destino definitivo. Me perguntei se eu também estaria em estada definida ou teria o poder ou qualquer chance de apelar para a persuasão diante daquele juízo final.

Em uma casa de guarita ao portão de entrada, a guia espiritual curvou-se para dentro da casinha não sem antes gesticular a todos que esperassem pelo seu regresso para prosseguirmos. Um a um, ela se aproximava e cedia uma vela praticamente intacta. Poderíamos considerá-las recém acesas. Ela tinha determinante destreza e habilidade para se encarregar da tarefa. Com agilidade, ia e voltava com os candelabros a servir-nos. Pensei prontamente: repetição e competência. Mais repetição fabril do que qualquer habilidade sobrehumana.

Estremeci quando percebi chegar minha vez de receber o presente. Tentei agradecer, mas minha voz estava entrecortada. Eu seguia a observar a frente da procissão a uma certa distância, pois logo percebi que apenas duas pessoas, provavelmente um casal, estava atrás de mim na breve fila. A mulher com um aspecto cortez de freira novamente posicionou-se diante de todos para, com um gesticular tímido, como quase tudo que fazia, indicar o prosseguimento da jornada, já adentrando aos portões do cemitério.

Percorreu-me a impressão que essa quietude seria apenas para o caminho de ida e não haveria volta. Se houvesse, precisaria ser em uma tremenda batalha. Todos permaneciam muito calados, sem emitir sons, sequer grunhidos e com os rostos perfeitamente intactos quanto aos efeitos de tão lúgubre e macabra aventura. A quietude era cortante, o espaço para elaboração dos pensamentos quase formavam eco de tão alto que meu cérebro raciocinava aquele impressionismo todo.

Tentei ler as lápides, mas meus olhos desviavam de uns túmulos para os outros, os globos oculares pareciam que ardiam, parecia que as letras me escapuliam, me fugia a interpretação de nosso simples idioma. Em outras, a sopa de letrinhas se embaçava, minha visão piorava e eu não sabia como contornar esse problema incipiente e a curiosidade mórbida de meus pensamentos. Fui desistindo dessa ineficaz tentativa e voltei a atenção para meus trôpegos passos, para evitar maiores acidentes com a vela em mãos. Cheguei a segurar-me o riso porque, dentro de um cemitério vazio de almas vivas, as consequências de um incêndio seriam mínimas. Mas tão logo me apresentou essa ideia, formei o raciocínio de que os pingos da garoa deveriam dar conta de apagar nossas velas rapidamente. Não era o que acontecia. As chamas permaneciam sua dança, seu acovardado rebolar de maneira íntegra. Era impossível. Os pingos até apertavam, eram um bombardeio que não deixariam chances para o fogo sobreviver sobre essas condições. Insano.

E as pedras não pareciam ser afetadas pela umidade crescente. O que estava acontecendo? O que parecia somente um cemitério de encosta, ao sopé de uma montanha, um morro ainda maior, mas acima dos efeitos da ressaca marítima, agora era um caminho sem fim. De repente, nossa procissão parou e a mulher voltou a falar baixo, de maneira que o fim da fila, onde eu estava, não conseguia ouvir. Novamente circundei minha visão para os demais e, para minha surpresa, todos pareciam concordar, com um leve acenar afirmativo de cabeça. O único olhar atônito e a única testa franzida deveriam me pertencer naquele momento. Minha irmã cedeu passagem e não foi a primeira a receber uma espécie de benção, uma oração ao pé do ouvido. A mulher passava instruções precisas e as pessoas, sem pestanejar, apenas assentindo, prosseguiam suas diretrizes cemitério adiante - ainda havia uma eternidade de lápides até onde a vista alcançava. O sopé da montanha já ganhava proporções de ser a própria montanha. Provavelmente subimos de uma maneira tão menos inclinada após a primeira formação rochosa que agora nem percebíamos a intermitente subida que se desenhava. O mar se arremessava contra as areias muito abaixo, visível, mas não mais audível, pelo incrível que fosse.

Minha irmã foi a terceira, após ceder as primeiras vagas, embora não demonstrasse nervosismo, nada de mãos suadas, como eu podia observar, uma de suas marcas registradas, o brilho do suor não lhe brotava das extremidades. O rosto tão impassível quanto as faces dos demais. Era tudo inacreditável. Após receber o palavrear da discursante guia, ela pediu uma licença com um movimento de cabeça semelhante aos cumprimentos do povo oriental asiático e abriu passos em minha direção. Contou-me.

- Chegou minha vez. Fico por aqui. Queria me despedir.

- Mas o que está dizendo?!

- Você não percebeu?

- Eu... - Me sumiu a voz outra vez, como quando fui agradecer à espécie de freira.

- Não estaremos mais juntos. Eu vinha te avisando nos últimos dias, não vinha?

Permaneci emudecido.

- Agora preciso ir, estão me esperando.

Ela girou para retornar sua posição à frente da fileira, mas puxei-a rapidamente pelo braço. Instruí minha força como pude, mas ela reagiu de forma surpreendente, demonstrando precisão para escapar da investida.

- Preciso ir. - Reiterou.

Percebi que minha luta era absolutamente solitária. Enquanto tentava agarrá-la de volta para sairmos daquela insanidade, ela, além de disposta a obedecer seja lá o que lhe disseram, me vi envolto dos demais pares de braço que agora tentavam me conter, por, obviamente, estar atrapalhando o objetivo daquela derradeira jornada. Me senti completamente intruso, como já parecia desde os rumos do barco e do desembarque nas areias, mas agora com certezas.

Enquanto me esquivava dos braços peludos, magros, gordos, flácidos, de unhas vermelhas, sem esmalte, roídas ou escuras mãos trabalhadoras daquele grupo heterogêneo, levantei a vista ainda para deparar-me com o olhar fulminante da guardiã da casa dos mortos. Não menos horripilante - pelo contrário - foi perceber que da terra sulcada erguiam-se novos pares de braço. Primeiro um. Um direito, o esquerdo. Um esquerdo, o direito. E cabeças desfiguradas com o topo do couro cabeludo incompleto, com o crânio à vista, com um olho sim, outro não, com a falta da mandíbula, com os ombros deslocados, com relógios de pulso sobre ossos e não mais músculos e pele. Todo tipo de aparência daqueles porteiros se metiam a nosso encontro.

Cambaleei alguns passos, praticamente caí de costas, observando aquela cena inacreditável, aqueles olhares dos humanos que permaneciam aceitadores e inexpressivos, minha irmã que não batalhou comigo, mas ficou a assistir aquele inevitável desfecho. Os mortos, a meu nível estive próximo de tocar completamente o solo, esses de aspecto mais sedento, mas talvez fosse apenas a força de sua decomposição contra meu olhar aturdido.

Corri praticamente em linha reta naquele mar de túmulos que havíamos transpassado e eu não os conseguia ler no momento anterior. Novos grupos de cadáveres lutavam para alcançar meus passos cada vez mais ligeiros rumo a uma tentativa de libertação. Quando avistei a guarita e os portões ainda abertos, percebi a iminente oportunidade de fuga. A corrida me custava um esforço danado sobre as pernas, um suador contínuo e o abafamento da respiração naquele tempo absolutamente cinzento. Parei quase defronte à guarita de onde a mulher sacara as velas. Percebi dois funcionários de rosto em começo de estado de putrefação. As mãos do rosto não só não estavam coradas, como sediam rugas, afundadas, para dentro, uma pele que facilmente seria desmanchada até com uma colher.

- Você?! - A sua já está acesa. - Disse, apontando para uma vela. Outras tantas estavam sendo acendidas aos fundos, em uma peça como uma capela ou, no mínimo, gruta. Novamente não pude fazer melhor julgamento pois a visão estava turva.

Segui correndo, aproveitando aqueles últimos segundos antes de aparecerem novos "funcionários" para cerrarem os portões. Ainda pensei em minha irmã por lapsos de segundo, mas percebendo que não havia como salvá-la e talvez até minha primogênita tentativa seria rechaçada. A encosta abaixo, agora parecia bem mais alta, corria praticamente como se estivesse a saltar degraus de uma imensa escadaria. Tropecei, virei cambalhota, ralei os joelhos e cotovelos, mas não me importava com a dor, desde que a continuasse a senti-la. O que não queria era cair no ostracismo da dor nenhuma, ou o que fosse acontecer com os outros dos portões para lá. Alguns já cambaleavam a me seguir, mas tive a suposição de que não poderiam romper aquelas barreiras imaginárias, desse mundo completamente quimérico e ilusório.

Procurei pelo barco e, cada vez mais desesperado, não o encontrava. Apenas areia e águas. Pensei em me arremessar na água, me livrando das calças para maior agilidade sobre as águas. De repente, senti um toque no ombro. Parei. Congelei. Senti o coração prestar um solavanco como se quisesse romper qualquer barreira do pescoço. Pensei no lapso: "Agora que vou parar lá dentro, com vela, com tudo". No outro segundo, estava minha irmã a me encarar sem entender.

- Por que está tirando as calças?

- O quê?!

Me deparei com um píer de pesca. Algumas pessoas me olhando. Uma criança de uns cinco anos me apontando o dedo. Sua mãe ou tia a repreendendo, ao mesmo tempo que segurava o riso.

- Vista isso aí...

Subi as calças, conforme a ordem de minha irmã. Fechei a braguilha com os dedos nervosos, demorando segundos que jamais havia me custado.

- Não se preocupe - ela concluiu. - Você escapou. Dessa vez.