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08/09/2021

Leonardo Haag e a denúncia

Leonardo Haag estava deitado, dormindo com seu pijama listrado, que consistia em um conjunto de camisola e calças. Como ele julgava correto, dormia sem meias, mas tinha uma touca também listrada para completar o conjunto em questão. Trabalhador brasileiro, ele era do ramo de entregas, ou motoboy, como não gostava de ser chamado. Só precisaria trabalhar na próxima noite, mas estava determinado a aproveitar a noite de sono naquela sexta-feira.

Ele ouviu o som repetitivo da música eletrônica e olhou para o copo d'água que deixava na mesa de cabeceira. A água vibrava conforme as batidas musicais. Leonardo levantou e esfregou os olhos diante do espelho, com um olhar interrogativo de quem ainda não se reconhecia naquele horário. Calçou suas pantufas para não apanhar frio, vestiu um casaco de tom neutro e foi para seu patiozinho para averiguar o que estava acontecendo nas redondezas.

- Devem ser esses malditos jovens baderneiros - falou consigo próprio. A verdade é que Leonardo ainda era bastante jovem também, mas, homem dedicado ao trabalho desde a adolescência, sentia-se um verdadeiro tiozão, como poderia confirmar a hipótese quando retornava à sua terra natal, Barueri, nos feriados ou fins de ano, para confraternizar com os sobrinhos, filhos de sua irmã. Em poucos dias, Leonardo era capaz de estragá-los com as piadas mais obscenas que possam ser imaginadas. - Eles sempre riem hehe - constatava.

Leonardo sabia que, no meio da pandemia de 2020, uma festa naquelas proporções não era correto. Qualquer reunião de pessoas sem máscara o deixava meio agoniado, destemperado com o sistema. - Se as pessoas não podem ir para nossa lancheria curtir uma bóia, essas festinhas aqui no meu bairro também não! - Exclamava consigo.

O paulista pegou um binóculo e foi para rua, tentar avistar algo da movimentação. Percebeu algum movimento de veículos na rua, uns estacionando, outros possivelmente já indo embora. Primeiro, com suas ideias pré-concebidas, pensou tratar-se dos jovens do lava-jato alguns terrenos adiante de sua moradia. Aqueles gostavam de beber alguma vodka e fazer uso de cigarrilhos. Mas Leonardo lembrou que eles não costumavam promover festas assim, com medo de que o terreno fosse desapossado daquela irregularidade em fachada de lavagem de veículos, como era comum no seu bairro. - Não levo minha moto nesses lugares, eles não entendem de cuidar veículo. - Protestava.

Enfim. Leonardo pensou que o correto, até para o bem de seu sono, era desmontar a movimentação que estava acontecendo. Fechou o seu casaco de tom neutro por sobre o pijama, mas, como o casaco estava curto, as listras do pijama ainda estavam para fora, aparecendo diante de sua cintura. Procurou rapidamente suas calças, tateando por sobre os móveis onde poderia tê-la depositado de qualquer jeito. Finalmente sentiu pelo tato e foi colocando por cima da calça de pijama. Manteve as pantufas, pois, em plena noite, não seriam chamativas na ocasião. Com dificuldade para enxergar diante dos fracos postes de luz do bairro, Haag foi avançando de seu portãozinho até as calçadas, na companhia de uma lanterna, notando haver veículos estacionados dos dois lados da rua. Um ou outro cachorro latia de fundo, para complementar o som musical que vinha da determinada casa vizinha.

Tentando se ocultar pelas sombras, sabe-se lá o porquê, Leonardo andava na ponta dos pés, procurando não chamar a atenção. Queria surpreender os meliantes festeiros. Depois de ter sintonizado sua visão àquela rua escura, ele depositou a lanterna no bolso interno de seu pijama, conferindo um volume difícil de ser explicado. Ele apalpou com a certeza da lanterna estar segura naquele pequeno bolso e soltou uma risadinha.

Chegando ao portão de entrada da casa derradeira, Leonardo respirou fundo, com a testa a produzir gotículas de suor. Era um momento decisivo. Ele notou que o portão estava aberto, na segurança e confiança daqueles infratores, e foi adentrando. A música estava a toda, agora com algum pagode que ele quase cantou junto, mas lembrou-se de sua importante missão. Engoliu em seco e prosseguiu. - A hora é agora, amigão - falou para si mesmo.

Ele chegou no pátio de acesso para a piscina e para a área dos fundos, onde estavam as pessoas, curtindo, a princípio sem notar a presença do intruso. Até que tropeçou em uma pedra e quase foi de nariz ao encontro da calçadinha. O tombo não passou despercebido por um primeiro meliante, que olhou coçando a cabeça, sem entender de quem se tratava. Ele avisou sua companheira, que a princípio não entendeu com o som alto da música, mas, quando cara repetiu, ela se deparou com a cena de Leonardo se levantando, sacodindo a poeira e constatou que também não o conhecia. A fofoca foi se espalhando e as pessoas começavam a olhá-lo. Leonardo manteve a frieza e a cabeça no lugar, se é que podemos falar assim. Ele permaneceu com o foco na missão, olhando um por um daqueles rostos que agora o miravam de volta. Com o dedo indicador para que não perdesse as contas, tentou contabilizar um por um dos meliantes.

19, 20, 21, 22, 23...

- Quem é você? - Ecoou o grito de repente, rompendo com o alto som do Guere Guere... Guere Guere.

- Espere um pouco - Ordenou Leonardo, com a mão espalmada, enquanto a outra terminava o serviço. - 28.

Ele continuou olhando atônito para aquela gama de olhares em volta de si. Novamente respirou fundo, engolindo em seco. Começou a recuar, tomando cuidado dessa vez para não tropeçar de volta na mesma pedra. Quem diabos colocaria uma pedra ali, no caminhozinho para estacionar algum carro? Alguns avançaram para tentar se informar sobre o estranho, querendo saber o que ele queria ali. Mas, sabendo do perigo que corria dali em diante, Leonardo desatou a correr. Um disparo com pantufa e tudo.

Sem perder seus calçados Deus sabe como, Leonardo avançou pelas calçadas da vizinhança, agora já despertando e agitando diversos cachorros prisioneiros das grades de ferro. Ele também conseguiu manobrar perfeitamente a chave em seu fiel portãozinho e foi para dentro de casa, se dando conta da ausência do volume em suas calças: havia perdido a lanterna pelo caminho. - Droga, gostava muito daquela lanterna!

Pelo basculante do banheiro, tomou uma posição de guarda e, subindo em um banquinho de madeira para enxergar melhor, ficou atento, com o binóculo diante da face, cuidando alguma movimentação suspeita, se estavam atrás dele. Só relaxou após longos cinco minutos de tocaia. Antes, ele havia rabiscado uma folha de papel com um dado muito importante: 28.

Ainda ofegante pela aventura de corrida e de esperar por uma alguma emboscada, Leonardo finalmente foi para o telefone registrar sua ocorrência.

- Brigada Militar, boa noite.

- Boa noite, policial. Policial, acabo de ver uma cena aterradora! O senhor não vai acreditar, oficial.

- Sim.

- Estou aqui no bairro ainda pertencente ao centro de Pelotas mais precisamente em direção ao bairro Areal compreende?! Gonçalves Chaves a rua. Nesta rua policial uma coisa terrível policial. Eu estava dormindo. Sou trabalhador brasileiro policial necessitando de gozar do descanso entendeu? Eu estava dormindo e fui despertado e... horrível oficial.

- Sim, diga.

- Eu primeiro ouvi para falar ao bem da verdade policial. Ouvi a música acho que era do DJ Blazy. Não que eu conheça e escute essas coisas aí oficial sou um sujeito até bem decente quando tive imposto para pagar sempre paguei entende? Eu ouvi a música o barulho retumbante o alarido jovem compreende? Entendo os fugores da idade policial. Quem é que não dá uns tiros fora entende?

- ...

- Pois então policial para ir direto ao assunto me desloquei até a casa dos meliantes e tomei todas as precauções possíveis policial. Vocês se orgulhariam do ato de bravura e coragem que desempenhei essa noite policial. Eu fui até a casa dos meliantes trajado em condições dignas para não levantar a bola da suspeita. De forma discreta adentrei o recinto e procurei contabilizar quantas pessoas havia no local policial. No local da festa. Deixe-me ver policial. - Pegou a folha de papel em que havia anotado o número. - 28. 28 é o número exato policial. Desculpe policial desculpe me contradizer. Mas é que estava escuro sabe como é? Estava escuro no local da festa e eu não consegui contar com precisão alguns se beijando podiam estar encobertos e se um estava no banheiro policial? Ou se duas pessoas estavam no banheiro ou até pior entende? Não sei se vem ao caso. E alguns eram muito feios. Não tenho preconceitos assim mas ah se pudesse evitá-los. Contei 28 pessoas policial.

- Você gostaria de denunciar uma aglomeração?

- Sim policial. Sim senhor.

- 15 de Novembro?

- Gonçalves Chaves policial em direção ao Areal policial.

- Gonçalves Chaves...

- Penúltima quadra. Agora estão ouvindo pagode. Quando cheguei lá já estavam no pagode. Ouvi algo do Mc Menor e algo talvez do Dilsinho mas acho que não vem ao caso. Não acho que sejam coisas que pessoas direitas fazem entende? Isso é complicado. Tive meus tempos policial. O pai era bom mesmo. Elas vinham atrás. Eu nem precisava enviar solicitação depois. Elas procuravam. Mas sabe como é pandemia é complicado. Eu tenho evitado. Elas ainda me chamam mas a força de vontade quem tem consegue manter certo policial?

- Certo, certo.

- Agi certo policial? Estou salvando pessoas.

- Muito bem.

- No que precisarem policial. Estou a serviço da lei. Já tive meus problemas com outras coisas. Sonegação até o momento não tive. Hoje ainda trabalho no ramo de entregas então não estou devendo o de renda. Mas tive meus tempos. O pai era bom mesmo. A grana entrava. O barulhinho da caixa registradora. Às vezes ainda sonho com isso. Entrava grana mesmo. A coisa fluía. Eram outros tempos. Mas tudo ok policial?

- Tudo sim. Agradeço, senhor.

- Leonardo policial. Pode me chamar de Leonardo. A serviço da lei. Para o que precisarem. Admiro muito sua profissão. Tentei contato com a academia de superiores mas fui logo dispensado. Uma longa história. Acontece que o Crystopher...

- Obrigado mesmo, senhor. Precisamos liberar a linha. Uma viatura está a caminho.

- Às ordens senhor policial. Se precisarem de plantão policial. Sabe como é, me acostumei a dormir tarde, trabalho no ramo das entregas. Um plantão não cairia mal posso ajudar no que for preciso.

- Tudo bem. Desculpa o incômodo, senhor. Tenha boa noite.

- Sim policial. Você também amigão. Oficial. Câmbio e desligo.

- ...

Leonardo foi para cama. Retirou o casaco de tom neutro e as calças que combinavam. Permanecia de pijama listrado em azul e branco. Sentiu falta da lanterna, mas dormiu com o sentimento de dever cumprido para o exercício da cidadania em prol de nossos compatriotas. Teve pesadelo com alguns dos rostos que viu e considerava feios. Além disso, uma música do DJ Grilo o incomodava e não permitiu um sono tranquilo como havia desejado o policial do outro lado da linha.

Na noite seguinte, o soldado que o atendeu pediu demissão do turno.

- Olá policial é daí que estamos precisando de um novo plantonista?

16/03/2021

Costa Rica

Era uma viagem de férias, porque ela merecia. Afinal, foi um ano difícil, de atrasos salariais, de ameaças de cortes, com sua renda sem garantias. Como conseguiu manter-se em meio à pandemia mundial, preferiu seguir seus dias de descanso rumo a um país em que os casos estavam muito mais controlados. Não faria mal. Tirar férias do Brasil também seria importante, um distanciamento de verdade das pessoas que a sufocavam e das próprias atrocidades governistas.

A professora de faculdade foi para Costa Rica, o que chamou a atenção dos amigos, porque viajar neste período muitos fizeram, mas para a confusa América Central ela era a única. Mas única ela queria ser, porque cercada de gente que ela considerava brega já se sentia. Questionava aquelas formações familiares forçadas e casas em bairro burguês de breguice exagerada. "Bem fazia pegar as bagagens e ir adiante, conhecer o mundo e, pior do que estava no Brasil, não poderia ficar."

Os dias de trilhas e calor intenso na Costa Rica foram maravilhosos. Chegava exausta na volta das viagens internas em fascinante país, mas para ela tudo valia a pena. O aprendizado, o olhar simples no semblante da população, encarar a precariedade mesmo dos serviços de transporte fazia parte do desafio. Novas realidades a serem exploradas, praias e paisagens magníficas, conciliadas com aquele sentimento ainda positivo de distância de casa, de dar um tempo de brasilis. Esses dias lhe encantavam, mas no fundo ela sabia valorizar sua própria terra. Conhecia o valor de seu povo, acolhedor e animado quando isso era tudo o que se precisava. Esse aspecto ressaltava pontos em comum com aquela cultura de país colonizado pelos hispânicos.

Seu passatempo era viajar, aproveitar para registros oculares e alguns fotográficos. Aguçar os sentidos, sentir na pele aquela outra parte do mundo, capturar olhares, sons e cheiros, da terra, das ondas, dos verdes e tons pastéis tropicais. Dessa maneira, não ficava muito assentada no hostel, que ela teve considerada sorte em conseguir uma satisfatória estadia. Não se sentiu importunada, nada além dos acostumes. Havia mesmo um grande grupo de turistas argentinos, este povo cisplatino que se espalha aventureiro com tamanha facilidade. Mesmo com população em tão menor número do que os brasileiros, as menores barreiras de idioma, ao menos pelas Américas e mesmo para o Sul da Europa, condições financeiras percentualmente melhores de boa parte daquele país e um espírito mais nômade garantiam que nossa companheira cruzasse por pampeanos do país vizinho. E eles falavam e gesticulavam e incomodaram a leitura; ela intercalava o cansaço físico com o exercício para a mente, aprendendo mais de seu ofício, mas principalmente distraindo as ideias com temas avulsos, de romances, a contos e poesia. E os argentos também queriam dar palpite em seus poemas escolhidos. Uns traziam dicas para somar, enquanto outros somente aporrinhavam aquele momento introspectivo da viajante.

Como escapulia do país de forma solitária, vários dos momentos eram dela combinar planos com ela mesma, mas as intervenções até eram positivas, com exceção de se meterem no que ela já havia proposto. As demais dicas, quando realmente precisava, quando se sentia perdida, muitas vezes equilibravam a boa tomada de decisões. Aceitava sugestões de onde seria o melhor restaurante, em qual ponto turístico poderia comparecer, embora não se apegasse muito aos pontos mais conhecidos sempre que viajava. Não queria ter as mesmas fotos que todos os turistas já têm. Para muitos casos, bastava que comprasse um cartão postal da reverenciada imagem e sairia resoluta da situação.

Foram quase três semanas conclusas de rotina que combinava as condições positivas fisicamente atribuídas à atividade esportiva. O corpo passava por experiências que exigiam esforço, mas o resultado final era reconfortante, era apaziguador. Facilitava a interrupção da malfadada insônia que a perseguia, fosse no extremo sul brasileiro ou no país em que estivesse, ela com viagens realizadas para diferentes cantos do mundo.

O exame

Quase no dia do retorno, passagem já comprada, itinerário produzido e revisto, nossa professora Gisele descobriu que necessitava certificar um exame negativo para a doença pandêmica para voltar ao território nacional. O chão abriu-se, era ela a cair. Como poderia naquele mês a situação de aeroportos e controle do tráfego de pessoas ter mudado tão significativamente? Ela até torcia por essa rigidez, mas que viesse acompanhada de um impeachment no desgovernante do país. Ela que viajou tão tranquilamente - isto é, tranquilamente em ritmo para deixar o país e aproveitar o pouco que fosse de suas férias de verão; e isto ela fez - mas agora necessitava correr atrás do exame, do resultado, da logística mantida porque não queria perder ou passar pelos perrengues de tentar cartear a mudança de sua passagem para outra data. Estava tudo certo e passara um vendaval por aquele fim de viagem.

Agora ela, que encontrava refúgio da pandemia naquele país de exatos 5 milhões de habitantes na América Central, menos da metade do Rio Grande do Sul dela, se via contra as paredes da legislação de portarias contra a pandemia. A exigência do teste, que ela conseguiu providenciar em um hospital já na capital San Jose, de prontidão para o reembarque. Havia se deslocado do litoral da Costa Rica para a capital para facilitar seu acesso ao aeroporto no dia derradeiro. Ela realizou o teste e precisava aguardar mais 24 horas na esperança de obter o resultado definitivo na noite anterior de sua viagem. Dramática sua vida naquele instante.

Se acusou e se chibatou pela proposta de tão pitoresca viagem em meio ao caos global, mas de uma coisa não havia errado, a circulação do vírus era menor no país caribenho. Se sentia mais segura e não foi mal acolhida nem pela gerência do hostel, nem por demais visitantes, nem pelas últimas atividades de obrigatoriedade em passar pelos controles estatais. Conseguiu realizar o teste de saúde, foi bem encaminhada e aguardava ansiosa o resultado do teste para deixar aquele novo hostel, o da capital, para chegar cedo ao aeroporto para a viagem de regresso.

Cerrada dos compromissos de viajar fisicamente pelo país, ingressara então em uma viagem mental entre o sentimento de culpa, o desespero, alcançando índices de paranoia. Só faltava pensar que havia uma conspiração para mantê-la presa na América Central. Uma refém brasileira, uma negociação com as embaixadas, a exigência de um resgate, as notícias no telejornal, a família sem comunicação de sua baixa. Não. Era apenas o resultado do teste contra a doença da vez. Mas foi assaltada pelo sentimento de culpa de que não teria a necessidade de se embrenhar em tão distante local, ela que possuía sim a reserva financeira necessária para mais uns dias, mas pensando em no máximo três ou quatro, não uma quarentena caso fosse detectada a doença. E precisaria armar um plano junto ao hostel ou a outro hostel para ser aceita na quarentena. Ou ser aceita em um hospital, em qualquer abrigo em que estivesse a salvo naqueles dias e ao mesmo tempo não comprometesse a saúde de mais gente com o vírus em vigência na sua circulação pelo corpo.

Então era isso. O possível resultado positivo no teste aplicaria sanções financeiras para o seu planejamento, pediria transferências bancárias com a família ou amigos. Precisaria de um local para passar aquele inferno de mais dias, ela já um pouco deteriorada de tamanho calor naquela região absolutamente tropical. Ela já um pouco enjoada do sotaque acentuado dos caribenhos, com um espanhol que nos primeiros dias lhe soava divertido, mas ao final incomodava seus ouvidos, para desembaralhar palavras adjuntas, como o povo local se pronuncia mais rápido - despacito, por favor, señor - e com o aditivo de gírias que nem sempre ela capturava no ar como uma esvoaçante borboleta contra a rede de caça. Era um turbilhão de pensamentos sobre as punições de ousado plano de descanso e de aventura; que se tornava, ao menos ao estresse imediato da incerteza da situação, um plano mais de aventura, sem dúvida. O descanso, se ela podia praticar agora para o corpo, após tantas trilhas, viagens internas na Costa Rica e com uma alimentação diferente da que estava acostumada, a mente não a deixava na esperada paz.

A ansiedade aí não escolhe vítimas de quem já sofra desse mal precocemente. Não adianta. Nos coloquemos na situação de Gisele. Solitária naquele país distante, com a companhia mais próxima de onde nasceu sendo um bando de argentinos ostentadores e falantes aos cotovelos. Aliás, erro nosso, porque o grupo de argentinos e argentinas havia ficado para trás, no litoral, ela estava era trancafiada em San José. Gisele que não conseguia mais sequer se concentrar nas leituras. E era apenas um dia o aguardado pela espera. Encontrou companhia no atendente do hostel, embora, pelo revezamento dos turnos, ele estaria com ela a parlar somente durante seis horas. Diminutas horas porque ele atendia a chamadas telefônicas, informações de alguns poucos clientes e urgências de manunteção da limpeza, como se deslocou para passar um pano em um dos banheiros da casa.

Gisele torcia para o hostel não receber mais gente naquela noite, porque assim possivelmente teria um quarto inteiro à disposição para ela, não precisaria "ser expulsa" ou "convidada a se retirar" da habitação caso fosse positivada de covid. Mas e nos demais dias? E a exigência do hostel? O atendente procurava tranquilizá-la de que não costumam receber tantos visitantes. É um hostel mais de passagem, porque a capital não concentrava tantas visitas quanto os que ela havia conhecido no litoral. Ela recordou das lotações maiores, do grupo de argentinos, sorriu e concordou. Ela estaria próxima de um hospital caso houvesse alguma complicação e teria um quarto reservado para si, o máximo de tempo possível, com demais clientes a chegar sendo organizados em outros pontos. A grande confusão é que não havia organização anterior por causa da covid. Ela mesmo pensava: "se peguei a doença, pode ter sido em algum dos outros hostel". E aí recordou dos passeios de ônibus, restaurantes, comércios e todas essas situações em que estava exposta de alguma forma. Mas também equilibrava a disputa no campo de guerra da mente lembrando de que a Costa Rica era muito menos atingida do que o Brasil, à essa altura. "E qual país não era?", se perguntava.

Conferiu em noticiário mais uma vez e constatou que a média de casos e mortes na Costa Rica seria cerca de um terço do seu Rio Grande do Sul. Ou menos, que ela também não era especialista na matemática. Mas de fato eram números significativamente inferiores ao que estaria exposta em outros locais. Tentava reduzir sua penalidade aflitiva com aquele incerto desfecho da viagem.

Após conversarem bastante naquele turno da tarde, o atendente, don Juan, ou ao menos deste nome sim, Juan, prometeu que voltaria na manhã seguinte, trocaria de turno com o outro funcionário se fosse preciso. Queria se despedir dela. Gisele agradeceu a gentileza pela conversa, pela redução de seus impulsos nervosos que a martirizavam naquele momento. Evitou roer as unhas e tentou folhear mais um pouco de seus livros. Ameaçou caminhar um pouco, mas a chuva a surpreendeu. Havia pego tempo bom durante quase toda a viagem, rompendo com quase nenhum plano anterior. Achava ela que a chuva àquela altura era mau indício. Mas também sabia que estava procurando chifres em cabeça de cavalo. Acabou mesmo trancando seus pertences no sistema mundial de armarinhos em hostel e foi para o banho de chuva, a ajudaria com as ideias, hábito que ela sempre curtiu, mesmo na sua cidade gaúcha, um pouco de água pluvial para reerguer os ânimos, prepará-la para aquela última batalha, saber o resultado.

Andou algumas quadras, cuidou atentamente os sinais de trânsito, publicidades e tudo que poderia ajudá-la a recordar com precisão o caminho de volta, já que não levava o celular para a aventura na chuva. Estaria alheia aos mapas virtuais. Pensou na imprudência de sair a caminhar com a água lavando as calçadas, vai que tivesse positivado para a doença e uma chuva daquelas comprometesse seu geralmente bem comportado e triunfante sistema imunológico. Mas de onde que seria derrubada pelos pingos em um calor fascinante daqueles? Estava era novamente procurando ovos no ninho errado.

Foi para espairecer que tomou o rumo das ruas, mas continuava concentrada no processamento dos resultados do exame. Para ela, parecia que cada passo que se adiantava poderia alterar alguma coisa na logística dos laboratórios costa-riquenhos. Pensou quantos testes estariam em processamento naquele instante, será que já o dela? Prometeram para a noite. 24 horas... Mas 24 horas deveria ser o prazo máximo, o estendido, ou seja, poderia sair o resultado a qualquer momento. Pediu para que entregassem o resultado no número do hostel, ou por papel no pequeno saguão - mais para sala de estar - ou que telefonassem e anunciassem o resultado final. Pensou em todos os exames que já feito ao longo da vida. Quando quis doar sangue. Deu certo e retornou mais cinco vezes ao hemocentro. Exames para detectar gravidez, todos negativos, ela bem comemorava. Esperava manter esse ótimo índice de aproveitamento. Sempre estivera apta para a doação de sangue, nunca caiu no indesejado oblíquo de adquirir filhos. Pensou que nas bem-feitorias da doação de sangue estava em crédito, em saldo positivo com as entidades reguladoras sobre a face da Terra. Os costa-riquenhos, assim como os brasileiros, em geral apostam na igreja católica, por tantos motivos de suas colonizações, mas ela não sabia ao certo quais eram. Apenas esperava estar em sintonia, do mesmo lado dos sobrepujantes e onipresentes. Queria acreditar que daria tudo certo.

Quando chegou ao hostel, após a caminhada de mais de duas horas, aliviada e reanimada pela liberação dos hormônios na atividade física, tentava manter o otimismo atingido durante as últimas quadras. Mas, ao portão e hall de entrada, já vinha tomada pela ânsia de perguntar ao novo funcionário, substituto de Juan, se havia chegado o resultado do teste. Não havia. Murchou um pouco o resfolegar de suas pétalas. Deixou-se cair sobre uma poltrona e ali passou mais duas horas, após ter pego o celular em meio a seus pertences. Percebeu que as 24 horas haviam sido expiradas. Quase chorou.

O funcionário foi atencioso. Ligou para a clinicagem dos resultados. Ele cobrou, percebeu-se seu tom acentuado na voz, com aspereza para conduzir a chamada telefônica. Gisele achou graça. Mas riu de nervosa. Pensou que o novo funcionário, um tal de Yeferson, estava fazendo mais do que a parte dele, mas lembrou como com Juan pareciam que as coisas estavam fadadas a dar certo. Enquanto rolava as timelines no celular, pensou que Juan daria um jeito, como em um toque de mágica.

Eis que naquela sala de recepção surgiu um vulto pelas portas envidraçadas da entrada, tendo já rompido a primeira grade protetora do prédio. Pela agilidade e precisão dos movimentos logo se viu que não era um cliente comum para o hostel. Ensopado pela chuva que havia apertado e caía torrencialmente nos últimos minutos, o homem retirou o capuz. Era Juan. Trazia consigo uma pasta no interior das roupas.

Cumprimentou rapidamente a Yeferson. Estendeu a misteriosa pasta na direção de Gisele: - Seus exames. Não queriam ceder, mas me identifiquei como sendo do hostel e perceberam que és brasileira. Portanto, aqui está.

Gisele estava muito surpresa com aquela sucessão de acontecimentos nos últimos segundos. Tremeu um pouco o lábio e não menos as mãos para alcançar os papéis que recheavam a pasta. - Não se preocupe. Teste negativo - garantiu Juan, cada vez mais Don.

- Mas não poderemos deixar que passe a noite aqui no hostel. - Novamente ela ficou sem entender. Yeferson também franziu a testa, desentendido. Mas aí olhou melhor para Gisele, custou meio segundo para entender. Tirou a prova real ao voltar os olhos para o colega. Juan também já entregava as pistas todas.

- Pode ir para minha casa. Fica por minha conta. - Ele tranquilizou-a. Gisele uniu o alívio instantâneo do resultado negativo do teste com a nova possibilidade em sua vida. Ao fundo tocava a música Incendiémonos, da banda La Beriso.

Enquanto sua mente seguia a divagar, juntava sua bagagem para deixar o quartinho dos últimos tempos. Sorria sozinha e prestou atenção na letra, enquanto Juan dirigia o carro que buscou a algumas quadras dali. No rádio se fazia audível a música No Necesito Nada, do grupo uruguaio No Te Va Gustar, alcançando a América Central na hora exata em que poderia ser convocado por vontade própria. Assim se desenhava o melhor dos seus dias na Costa Rica, embora justamente fosse o último, pois a passagem de avião a chamava e Juan não conseguiria bancar mais do que a noite no seu próprio hostel, o melhor desconto que poderiam oferecer em seu salário.

Renovados de ânimo e de esperança, separaram-se para seguirem suas vidas. Logicamente ficava no ar e nas palavras de Juan o convite para o retorno. Era nisso que ela pensava quando terminava de gravar suas videoaulas. Dava tchau para aquela invasora câmera, baixava o notebook em um gesto decisivo e alçava o olhar para o céu azul ou cinzento (muitas vezes cinzento), sonhando seu retorno à Costa Rica, longe daquelas obrigações de um país que lhe devia tanto.

E lembrava da canção do No Te Va Gustar - Na na na na na...

15/02/2021

Blindagens

Estava inquieto para escrever. Meu cérebro geralmente está assim. Mas não sabia exatamente o que colocar no papel. Cronologicamente estamos no feriado de carnaval durante a pandemia. O primeiro carnaval evidentemente pandêmico, embora muitas pessoas ignorem esses sinais, alertas e riscos. Tentam uma normalidade inexistente. Pouco mais de 2% da população foi vacinada, uma para cada 50 pessoas. Mesmo assim, festas clandestinas em diferentes locais, sobretudo ao litoral.

Creio que minha mãe perdeu parte do gosto pelas praias ao ver imagens na televisão. Ela quer se mudar para perto do oceano, mas acaba balançando suas estimativas a partir desses contratempos. Meu pai recebe SMS da irmã dele, geralmente com agradecimentos por depósitos feitos ou informando sobre a saúde dos demais irmãos. Não é boa a situação dos tios. Receio que a continuidade dos fatos estremeça a relação positivista com que meu pai sempre encarou a vida e eu discordava. Mas é complicado discordarmos sem entendermos o que move e dá forças aos demais continuarem. Enquanto me blindo em pleno pessimismo e tentando assimilar os assustadores realismos que nos cercam, meu pai talvez se feche em pensamentos otimistas que o mantenham íntegro, com força para comprar algo na padaria, abastecer o carro e fazer serviços manuais, sejam mais ou sejam menos urgentes.

Eu estava refletindo sobre minha necessidade de estar sempre refletindo. Sou assaltado constantemente por pensamentos insólitos, transfigurados, adjacentes, entrecruzantes, enviesados. Mudo de assunto com rapidez. Crio uma ilusão de que minhas reflexões são mais importantes do que outras coisas. Passo-as ao papel no ritmo voraz da urgência. Na verdade, desabafo com menos funcionalidade e interferência ao mundo externo do que qualquer mascote ou palhaço fantasiado em frente a farmácias econômicas, anunciando descontos e tentando convergir clientes ao local. Qualquer vendedor de vale-transporte ou de equipamentos para bolhas de sabão, na luta diária pela sobrevivência, está mais interagido com o mundo.

Mas talvez esse seja o meu modo de lidar com as situações. Muito mais introspectivo e criativo textual do que os demais habitantes. Compartilhei uma campanha para ajudar um cão atropelado. Chamada vaquinha virtual. Para além de auxiliar esse pobre indivíduo, pensamos nos todos recolhidos e amparados pelas mais diversas ONGs, em parceria ou não com os poderes executivos municipais ou estaduais. Cães, gatos e outros animais, os outros que podemos comer à mesa. Socialmente aceito.

Outro dia eu caminhava pela avenida mais badalada da cidade, com os melhores imóveis, modernidades, novidades, gente se exercitando, carros à mostra, exibicionismos, restaurantes mais caros, inclusive um constatado que filava energia elétrica. Roubo. Bom, por ali eu me deslocava e reconheci um senhor de meia-idade que, na dificuldade do alto índice de desemprego, empunha um cartaz em busca encarecidamente de moedas, dinheiro para se alimentar e cruzar o facho de mais um dia. Parei diante dele, me atrapalhando com as palavras para informar que já o conhecia de ali passar outras vezes e que dessa vez iria ajudá-lo. Remexi meus bolsos, enrolado junto com minha língua que não pronunciava as melhores palavras para ocasião, acrescentado o efeito de estar por trás da máscara de tecido pela prevenção do vírus pandêmico. Ele também estava assim. Consegui sacar os dois reais que pretendia contribuir com o dia daquele cidadão. Não ganho para estar distribuindo mais do que isso. Tenho receio de meu próprio futuro. Tenho total desacostume com a rotina laboriosa. Fui criado dessa forma, infelizmente. Em uma aparente tranquilidade que de modo nenhum combina com a sociedade brasileira. A luta é diária. O lutar é exaustivo. É preciso seguir de algum jeito.

Me blindar com o pessimismo nem sempre vai resolver, é necessário interagir com as batalhas. Com os demais humanos e, nisso tudo, agraciar aos bichinhos. Os que não comemos. É duro tentar fugir da hipocrisia. Ela nos persegue. Pensei nessa frase anteriormente: enquanto buscamos o elixir máximo e inalcançável da justiça, nos persegue o bafejar constante e irrequieto da hipocrisia. Somos todos hipócritas. É muito difícil, senão impossível, escapar do aprisionamento da contradição.

Meu pai, ao contrário, se blinda em um otimismo que também nada combina com a sociedade brasileira. A cada SMS que recebe, informes de piora da saúde familiar, a televisão desde suas manchetes e complementos reportagens de que as coisas pioram. Desemprego, saúde, aumento da miséria, violência urbana, racismo combatido, racismo que combate, fascistas e antifascistas e antifascistas facistas. Tudo isso nos cerca.

No caos total, provavelmente meus julgamentos são muito duros. Às vezes com os outros e constantemente comigo mesmo. Já esperávamos pouco, mas permanece seguidamente a sensação de que podíamos mais. Correndo atrás da desabalada carreira da justiça, tentando vencer, ficar à frente da hipocrisia, mas lado a lado com ela.

11/01/2021

Esmagar baratas

Ela estava na parede da lavanderia. Minha mãe suspeita que sempre entrem pelo túnel intitulado ralo aberto da pia daquele cômodo. Seja lá como ela nos encontrara, a barata estava entre o vão da porta de correr e a parede, bem pousada na vertical. Traçamos um plano, chinelo em mãos, para que dali ela não escapasse. Como mesmo fazendo a porta de correr deslizar, a barata deslizava junto, mãe optou pelo spray SBP e ele deu resultado. Fique de brinde a propaganda. A barata caiu tonta pelo lado lado oposto e pude exterminá-la de vez na segunda chinelada, grudando-a ligeiramente ao tapetinho de entrada da lavanderia. Eis seu fim.

A partir da constituição desse homicídio e ocultação de cadáver, com breve lavagem no manchado tapetinho com o corpo da vítima, pensei nas baratas que são assim exterminadas diariamente. Pensei nas que eu gostaria de exterminar e pensei, infelizmente, nas que na verdade são exterminadas pelo sistema diariamente. Não bastasse minha conexão de raciocínios com essa temática, a primeira pessoa que cruzou a última quadra da rua onde moramos foi um carregador de sacos de lixo reciclado, conduzindo seu carrinho de mão com as costas arqueadas, como deve ser feito o movimento, situação que leva muitos a reclinarem a postura até se adaptarem de maneira corcunda. É a reclinação da humilhação, enquanto muitas pessoas reclinam suas cadeiras de praia, na praia ou à beira de piscinas. É o serviço árduo que lhes sobra executar como ganho de vida, por mais quanto tempo nunca sabemos.

No país, os preços sobem, se fala em gás de cozinha em preços acima de 86 reais logo hoje. A previsão para este temerário 2021 é que ultrapassa valores exorbitantes, como até 150 reais. É o fim da classe mais pobre. Mais um dos fins. Como um internauta comentou, se não for para morrer de fome, será tentando fazer o fogo com garrafas de álcool ou como for possível diante de estapafúrdia situação. É o botijão de gás, é o dólar acima de 5 reais e 50 centavos, é a gasolina voltando ao patamar dos cinco reais também. O Brasil definha em vários pontos em uma economia ladeira a baixo. Paulo Guedes talvez nem consiga transformar aqui em caos total do Chile, em projeto extenso de cunho liberal realizado lá. Ou talvez derrube tudo de uma vez de forma meteórica, relâmpago.

As baratas. Guedes seria uma das baratas em que eu teria o prazer de desatar uma chinelada contra. A corja ministerial e governante em vigência, idem. Não hesitaria exterminar as baratas como ato honroso, de justiça, de libertação, de bem-feitoria a todos os necessitados deste extermínio: imensa massa da população. Mesmo que nos asfixiemos com o spray liberado para a caça a esses malditos, seria um martírio em que teríamos tanto a comemorar e saudar o responsável por esse grandioso ato libertador, de renovação, de esperança, de tempos melhores. Ao contrário, vemos os ratos e as baratas se multiplicarem, invadirem nossos bueiros, saírem de nossos ralos, cercando-nos pelo box do chuveiro, pelas pias, pelas panelas, pelas canecas, pelos armários, pelas despensas. Alguns ratos pulam, outros são pegos, mas o sistema segue em pura manutenção. Até quando será assim? O 2022 terá poder de reação propício para o que necessitamos? Por quanto mais tempo aguentaremos? Fingiremos aguentar, enquanto há quem assim não possa, carregando carrinhos de mão pesados, perdendo benefícios, oportunidades, sendo soterrados em tremendo e edificante genocídio?

Estamos cercados, nosso spray em mão hoje não basta, precisamos de muitos exterminadores, precisaremos novamente das ruas. Jogo de xadrez entre a salvação de casos em pandemia a transcorrer e reformas políticas urgentes. Pressões e manifestações para impeachment. Até quanto mais suportaremos? Contra as baratas, enquanto fingimos que está tudo bem ao limparmos novamente nosso tapetinho de entrada, mas de onde não me sai da memória o ser ali antes esmagado. O cadáver pútrido em decomposição. A junção das ideias que não me alivia nem me deixa em paz.

Outras vezes penso que sou a própria barata. E quem não somos? Por vezes, embora haja casos que mereciam mais ser esmagados e há casos que estão sendo diariamente, urgentemente esmagados, sou eu quem está entre a sola do chinelo e o tapete de entrada. Entre a parede da lavanderia e a porta de correr. Sou eu, sou eu quem ocupa o cargo de inseto, de salário afrontoso, de resistência aos percalços, de prisão em minha mente que me oprime mais do que as baratas do poder.

Só por vezes estando no lugar das baratas todas para desatar esses nós e transcorrer essas linhas. Agora estou suando. Entre meu sangue quente humanista e meu sangue frio de barata.

01/01/2021

Perdão às andorinhas e gaivotas e maçanicos

Após assistir ao filme de Manou, a Andorinha, animação que me parece ser de origem alemã, com direção e produção e um impacto coletivista interessante para o imaginário de crianças, jovens e quaisquer pessoa, tenho observado algumas revoadas, bandos cruzarem o céu. Liberdade deles, livres de impostos, tarifas, custos, ordens e horários. O instinto e o pacto do bando a favor dos indivíduos, conjuntos que planam com a beleza de suas asas. Eles nos sobrevoam enquanto buscamos ganhar a terra, um pedaço para chamar de nosso ninho, protegê-lo dos demais, nos isolarmos em algum canto, contra os furtos de fortunas e contra a pandemia vigente. Para ganharmos os céus só por meio dos aeroplanos tecnológicos, cujo conseguimos adentrar através de passagens aéreas caras, fora de nossos orçamentos, também por conta da logística de dias de trabalho e férias. Há também as imagens de satélite chegando para nós através da imensidão. Mas aí estamos presos diante da televisão, sobre as almofadas do sofá da sala de estar.

E os pássaros acima de nós. Manou e as demais andorinhas, seu irmão gaivota e as demais gaivotas (Manou era adotado). Da minha cadeira de praia no interior de nosso restrito pátio, cercado pelos muros e cercas elétricas, olho para os bandos enquanto nossa gata, Melissa, me faz companhia, deitada sobre o piso que considera mais adequado para suportar o calor do verão nesta virada de ano. Por uns instantes, cometo a heresia de admirar mais aos pássaros do que à preferida Memel, nossa companheira desde 2017. Entre bocejos e semicerrar de olhos, Melissa encontra o mundo dos sonhos, enquanto me pairo a reflexões.

Conversava mais cedo com uma professora de Nutrição que está na Costa Rica sobre a condição dos latino-americanos terem melhores noções de coletivismo do que a ilha brasilis, na qual vivemos. Enumerei alguns pontos, como desde as origens com a vinda dos europeus, a demora pela independência e a prorrogação do período escravocrata até muito recentemente. Como a população ainda não parece associar a força que possui, as possibilidades, os lugares que merecem. As relações ainda parecerem muito trancafiadas e hierarquizadas, entre patrões/senhores e funcionários do proletariado. As noções faltando. A consciência de classe em falta. A consciência dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, as conquistas operárias, tudo isso muito distante do entendimento. Nosso sistema educacional que não aborda esses direitos, as influências externas (principalmente dos Estados Unidos) que nos complexam e nos encaixotam como vira-latas. Nossa extensão territorial e a desarmonia entre as regiões, a falta de unidade para garantir a luta e as vitórias que dela poderiam surgir. Estamos tão distantes.

Enquanto isso se recolhem Manou e as andorinhas e as gaivotas acima de mim. O maçanico do banhado também em formações negras no céu. A leitura do final de tarde é do livro Troca d'Armas de Luisa Valenzuela, uma argentina sobre o período conturbado da ditadura militar em seu país. Protagonismo na cabeça de personagens mulheres sobre como enfrentam os complexos da época, seu espaço, suas lutas, seus amores, suas vivências. Luisa é uma exímia escritora, fácil de se elogiar, difícil de digerir, tamanha qualidade do que transpassa para o papel. O livro me parece raro, tive que cadastrá-lo no site Skoob. Espero que mais pessoas acompanhem meu futuro julgamento de cinco estrelas para sua obra. Pelo incrível que pareça, o livro tomei de escolha após um início insatisfatório, quanto ao ritmo apenas, tomara, de Dou Por Vivido Tudo Que Sonhei, da também sul-americana, porém chilena, Isidora Aguirre. É a procura pelas vozes de nossa América através da crítica social. Escritas sensíveis, mas que apresentem conteúdos denunciadores, contextos sociais efervescentes, turbilhão de sentimentos em ebulição - no momento desta escrita fervidos com o disco das melhores dos norueguesas do A-Ha.

De volta para a professora de nutrição, ela acompanha meu raciocínio e ratifica que os fatores do individualismo brasileiro são mesmo os que apresentei. Deve haver tantos outros, obviamente. Nós lamentamos ambos com a novidade do primeiro dia do ano tendo sido um (mais um) vídeo irresponsável do atual (ó, céus, por quanto tempo? quero voar com as andorinhas e gaivotas e maçanicos) presidente da república. Ele salta de barco e sai a nadar em direção a banhistas, onde é muito bem recepcionado pela desgraçada cena. As aglomerações nas praias durante a pandemia colocam em xeque meu pensamento positivo sobre elas. A natureza segue bela, formidável, quanto mais intocável melhor. A humanidade a tudo polui. Além das embalagens e bitucas de cigarro, a novidade é a troca constante do contágio pelo novo coronavírus. Os mares e seus habitantes, as andorinhas, as gaivotas e os maçanicos que nos perdoem. E me deparo a finalizar a tarde com o declinar da noite e o pensamento que logo a espécie humana se extinguisse, esses pássaros tomariam conta do ambiente. O mais incrível parece que seguem sobrevivendo, levando jeito, se reinventando apesar da presença humana. Enquanto não destruirmos de vez o planeta, muitas dessas espécies seguirão planando sobre nossas cabeças. Outras, mais restritas a ambientes dizimados como o Pantanal não terão a mesma sorte, mas novamente que nos perdoem as andorinhas, as gaivotas e os maçanicos do banhado.

Às vezes enfrentamos os demais, às vezes nos refugiamos. Constantemente atacamos a natureza e naturalmente ela nos contra-ataca.

03/12/2020

Só a luz no fim do túnel para nos salvar do invisível

Quem já teve o privilégio ou sacrifício (ou mesmo sacrilégio!) de conversar comigo sabe como gosto de alterar (e alternar) os assuntos rapidamente. Uma troca de marchas sem pisar na embreagem, uma arrancada rumo a outro pensamento sem ligar a seta para o lado que estamos nos deslocando. Eu troco constantemente de assunto e arrisquei minutos antes a propor alguns tópicos para a discussão de hoje.

A ideia, esse conceito abstrato de pandemia ao qual vamos nos adaptando em 2020 me traz em dezembro definições entre as tantas indefinições que estamos vivendo. Seguidamente em casa, com a minha família, debatemos sobre as incertezas do personagem do ano, o - novo - coronavírus. Invisível a olho nu, microscópico e somente podendo ser visualizado através daqueles microscópios eletrônicos, das últimas gerações científicas. Ou seja, nada de saber onde ele está, pelas superfícies, produtos de supermercados e armazéns, corrimãos, bancos de praça, frutas e demais artigos de feiras, obras de arte, mãos amigas, mãos inimigas, mãos desconhecidas, nossos próprios parentes. No ar. Não sabemos onde o coronavírus está.

Depois, outro debate que temos seguidamente em casa é sobre os sintomas. A incerteza de quais os sintomas gerados por essa doença nova, a covid-19, em adultos e crianças. Na semana, o que tem chamado atenção da mídia é a possibilidade da covid causar posteriormente uma síndrome inflamatória multissistêmica. E a mortalidade dela, que tem sido comum em crianças e jovens em geral, é maior do que a taxa da covid-19. Isso desperta a revolta de professores e familiares quanto à abertura das escolas, determinada em portarias pelos estados de nosso Brasil. Para completar a confusão, o Ministério da Educação ainda assinou pela volta das universidades a partir da virada do ano, no primeiro andar do janeiro de 2021. Os reitores são totalmente contrários e classificam incluso como absurda a decisão governamental.

Estava falando dos sintomas biológicos e intrometi o diabo da política. Queria me referir à incerteza dos sintomas provocados pela covid-19. A paranoia dessa pandemia nos faz pensar que qualquer dor pode sim ser a doença. E devemos tomar todos os cuidados para não estarmos com ela em sintomas brandos e acabarmos infectando outras pessoas. Um problemão. Problemas na garganta, difculdades respiratórias, dores de cabeça, a dor no corpo que tive no início da pandemia e que não sabemos o que pode ter ocasionado, eu que nunca tive dor no corpo anteriormente. Mas era recém o começo da pandemia, os casos na cidade eram abaixo dos 500 (no nosso universo de mais de 300 mil pessoas), eu já não saía de casa desde o cancelamento das aulas da universidade, fazendo meu trabalho em home office. A possibilidade de eu ter sido atingido pela pandemia global era diminuta. Mas não impossível, portanto não sabemos.

Ok, caso eu tenha tido, ou meus pais tenham tido, ou minha irmã, que chegou a realizar teste por apresentar sintomas, mas obteve resultado negativo, caso ela tenha tido, ainda existe o raio da possibilidade da reinfecção. Possuir a doença, curar-se, isso não te livra de readquiri-la, ou seja, mais pitadas de paranoia na nossa conturbada receita. Inclusive, na carência de estudos mais detalhados acerca de tão nova doença, alguns companheiros haviam questionado sobre a taxa de reinfecção no Brasil parecer bastante alta em relação ao que se comenta e se traz de notícias de outras partes do mundo. Ou seja, além do Brasil ser um dos países com maiores taxas de contaminação, com a ainda segunda maior mortalidade do mundo (deve ser ultrapassado em seguida pela Índia), ainda convivemos com a possibilidade de, mesmo se livrando da doença uma vez, pegarmos novamente a dita cuja.

Como não sabemos onde está o coronavírus, não temos a garantia de encontros em segurança com parentes, amigos, nem demais encontros afetivos. A possibilidade de respirar o vírus, emergido por meio da fala, da saliva, impossibilita essas reuniões presenciais. Ao menos manteremos essa logística para o mês com a chegada das festas de final de ano. Seremos apenas nós os quatro em casa e os demais familiares em suas residências (e resistências). Em meu círculo de familiares, obtiveram a doença minha prima, após muitos testes negativos e com sequelas graves, as quais ela segue combatendo, meu padrinho, irmão da mesma prima, mas que foi confirmado com a doença tempos depois, por alguma saída ou mesmo no serviço presencial que ele continuou executando na central de alarmes para casas ou veículos automotivos. E para completar as ameaças à minha avó, matriarca hoje da família aos 87 anos, a vizinha de prédio delas, justamente a responsável por um dia alugarem endereço no final do centro, a Dona F. acabou adquirindo a doença e passou pelo período de total isolamento, tendo se recuperado, apesar de sua idade considerável para torná-la grupo de risco e demais doenças que poderiam acometê-la. O pior é que terminar esse longo parágrafo em nada nos submete a garantia de que o pior, antes das vacinas devidamente virem, principalmente para nossos velhos de grupo de risco, nada garante que o pior já tenha sido ultrapassado. Tanto minha prima segue em recuperação de seus sintomas e debilidades mais graves, quanto a cada dia, a cada semana, a cada mês voltamos às atenções à luta para não cruzar com o vírus sem eliminá-lo por meio do álcool em gel ou da lavagem muito bem executada com sabão neutro e água corrente.

Alheio e ao mesmo tempo intrínseco a isso temos nossas batalhas psicológicas, nossa relação com o distanciamento e isolamento sociais. Nosso afastamento de procedimentos rotineiros, cotidianos que gostaríamos de realizar. Pessoas que gostaríamos de rever, outras que gostaríamos de conhecer, atividades físicas negligenciadas pelo risco de contaminação, como nos desportos coletivos, nos passeios em grupo, nas festas, nos cortejos de formaturas, aniversários e outras realizações. Tudo isso em que estamos impedidos. A espera pela vacina dita o ritmo dos próximos passos e, retomando rapidamente o despertar político que ora me surgiu, que Ministério genocida nenhum intervenha no que hoje seria uma vitória calamitosa em favor do vírus. Sigamos em nossas batalhas, unidos pelo distanciamento até que a luz do fim do túnel seja uma agulha em nossos braços com princípios ativos corretos pela imunidade comprovada. Até lá, continuaremos nos esbarrando nesses assuntos e desviando deles com distrações que nos façam bem. Exatamente agora me deu saudade de perder no Scrabble pra ela.

28/11/2020

Não pedem permisso

Estamos em uma era em que os jovens chamam de gatilho as situações que geram consequências, reações, enfim. Geralmente eles exemplificam para casos amorosos ou que possam levar a negatividades, gatilhos para depressão, sentimentos ruins ou mesmo arritmia cardíaca (que pode ser boa, tal qual o gozo). O que me engatilha este texto é a notícia durante a pandemia da festa da faculdade de medicina na cidade de Pelotas, aqui se tratando da universidade privada, a paga, de mensalidades condizentes com meu salário semestral.

Essa situação me 'engatilhou' de tal maneira que aqui venho. Vamos ao contexto. Pandemia global, diversas recomendações e orientações da Organização Mundial da Saúde desde o mês de março, quando o vírus da covid-19 começou a se espalhar pelo planeta. O Brasil foi atingido tardiamente, mas está duramente afetado nesses meses todos, agora que nos aproximamos do final do ano. As aulas foram no ensino remoto, virtual, entre síncrono e assíncrono (palavras novas para minha coleção) durante esses exatos meses, justamente para evitar aglomerações, reuniões em salas de aula, os perigos do contágio desse vírus tão incerto de onde pode estar. Os estudantes terminaram, concluíram o curso de suas casas. Abastadas casas, pensando novamente nesse público específico, dos estudantes e das estudantes de medicina da universidade privada, de mensalidades altíssimas.

Justamente de casa terminaram os estudos e, conforme foi dado por encerrado o semestre decisivo, quando muitos conseguiram o almejado diploma, essas mesmas pessoas acharam que seria uma boa ideia continuar investindo o dinheiro - ainda provavelmente dos pais na maioria dos casos - promovendo festas e aglomerações para comemorar. Uma inconsequência e uma contradição no âmbito do absurdo. Enquanto seus colegas de medicina, médicos e médicas formados, enfermeiros e enfermeiras batalham dia após dia com os cada vez mais lotados hospitais, visto que as contaminações e internações têm aumentado significativamente em Pelotas, enquanto passam por esse sufoco, os mais jovens, os concluidores exalam o péssimo exemplo, a desgraça em forma de músicas entoadas por programas de roteiros conduzidos por djs.

Não há mais muito o que chover sobre esse tenebroso exemplo. Justamente as pessoas que deveriam estar zelando pela saúde dos próximos e próximas, estão, através dessas pataquadas, transferindo a responsabilidade e, em alguns casos, não tenhamos dúvidas, o vírus. Não são mais somente festas clandestinas pelos bairros, são estudantes universitários, diplomados no curso de maior status e mensalidades mais caras, promovendo tudo o que não espera que promovam pela profissão que escolheram, pelo juramente que prestaram e tão prontamente estão por rasgá-lo, fatiá-lo e jogá-lo aos mil pedaços ao vento.

Palestrante chato e maldito sou eu enquanto bebo minha água e me obrigo com o corpo a responder os anseios da mente em concluir esse raciocínio. Pode passar ou recém agora estar passando o efeito da ressaca de quem participou de tais festividades, mas fica uma mancha incomensurável, inominável nos nomes e na lembrança. Justo no pior momento da pandemia, no estado inteiro do Rio Grande do Sul em bandeira vermelha pelo risco de contaminação e pela situação dos seus futuros postos de trabalho, os hospitais. Sujam o nome da instituição, sujam seus próprios nomes e fazem um panorama grotesco do futuro da medicina através desses exemplos. Pessoas que deveriam cuidar da população e se prestam a desmantelá-la em atitudes como essa. Pessoas abastadas, pessoas com situação econômica favorável, como esperar que os mais pobres deem exemplo? Com menos acessos, com menos recursos, com menos exemplos vindos de cima? É tudo absolutamente lamentável e traço esse desabafo sem roteiro pré-meditado, do qual perdoo os exageros ou as diretrizes não condizentes, se assim acharem, mas toda essa situação me enfadou de sobremaneira e aqui precisava vir tecer meus nem tão breves comentários.

Certamente também há outras pontas soltas que eu poderia explorar em meu discurso, mas por ora é isso que o gatilho da situação produziu. Talvez tão inútil quanto uma nota de repúdio, talvez ainda mais mediante as poucas pessoas que por ora acessam esses pensamentos. Julio Cortázar acabou de me confidenciar em sua Obra Crítica 3 (organizada por Saul Sosnowski) que era importante entender a situação política da Nicarágua, por exemplo, e mais importante ainda fazer algo a respeito. Entendi a gravidade, a calamidade do que as festas clandestinas, as aglomerações em nosso município e em nosso estado representam no momento, a crescente, a alta das contaminações, das internações, somadas a mais algumas mortes, vamos bater o número de 180 logo em seguida (e ainda levando em conta a subnotificação, a síndrome respiratória aguda grave que pouco se explica).

Mais de 180 perdas em um único ano em uma cidade de pouco mais de 300 mil habitantes. Isto porque a taxa dela, em geral, está abaixo do estado do Rio Grande do Sul. Ainda. Isto porque, ainda, o RS está abaixo da média nacional. O que dizer desse Brasil em que o governo não deu exemplo? Em que os estados foram coniventes ou frouxos nas medidas sanitárias, de saúde e segurança? O que dizer de um povo em que os que deveriam zelar pela saúde, incluso suas próprias, com risco a seus pais, adultos ou idosos que bancaram seus cursos universitários, esses prestam exemplo tão horrendo? O que dizer, da representação e da profissionalização medicinal enquanto isso? Como suportar tais exemplos que se repetem em ordens governistas, em seus apoiadores ruminantes, em violência discursiva e gestos de impunidade?

Impunidade! Polícia é para agredir estudante de federal, às vezes de forma xenofóbica, muitas vezes de maneira racista. Polícia é para combater pobre em praça, nos centros, agir primeiro e perguntar depois, dependendo o caso - se é que perguntam. Polícia é para esses tipos de pacto pela paz - no mesmo final de semana ainda vem a garantia de mais quatro anos dessa mesma política local. Envergonham. Contra universitários ricos, contra famílias tradicionais, contra o poder aquisitivo, contra a constituinte de jovens brancos nada contra eles. Tudo contra os pobres. Defesa de patrimônios, de propriedade privada. Nenhum efeito, como afirmou meu amigo também jornalista, nenhum uso da bala de borracha quando se precisa dela. Nada disso. Festas que seguiram.

E agora podem estar passando o efeito da ressaca. Mas a vergonha prosseguirá no assalto dessas minhas lembranças. É o Brasil que engatilha. E engatilha sobretudo nos pobres. Os ricos podem. Os ricos saem impunes. Ou como diria meu ficcionista amigo romancista: los ricos no piden permiso.

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Apêndices

Os cursos superiores, as instituições privadas, a busca da medicina por status e capital, estão agravando essas inconsequências. Evidente que a medicina sempre teve essa vertente. Mas parece piorar com os anos. A retroalimentação desse sistema excludente.

Depois reclamam de trazer médicos cubanos.

Qual é o real compromisso dos estudantes de medicina com a sociedade, sobretudo a mais pobre?

Aplicação das lógicas desse sistema: o desmonte de festas clandestinas, a intervenção do Estado em reprimir essas situações se restringem a quais públicos? Vocês sabem.

01/11/2020

Até lá

Não sei o que escrevo. Minha obra - ah, que chique - era composta somente das músicas que eu compunha desde os 12 para 13 anos. Hoje são centenas. Depois parei de musicar algumas e dava ênfase à poesia. Tenho trabalhos da faculdade para fazer enquanto aqui estou. Eles me enfadam. O academicismo me enfada. A obrigação de produzir o que já produziram, de fazer o que os demais já fizeram. Não quero. Priorizo o inédito de quase todas as maneiras. Às vezes, por convenção social, seria melhor imitar os outros, seja pelas maneiras como esperam que você aja, seja pela repetição do que efetivamente dá certo. Mas mesmo assim me complico. Me sinto farsante em quase qualquer obra que colho como ideia alheia. Gosto como particularmente enxergo as coisas ao redor.

Após as diversas músicas, nos variados gêneros musicais, do pop rock ao rap, após as poesias de versos mais para curtos do que compridos, tive contato com as crônicas para relatar episódios da minha vida. Creio que já vinha desenvolvendo isso desde a adolescência, mas a experiência, a releitura inspiram. Para não me contradizer do primeiro parágrafo, são inspirações, não cópias, como o academicismo muitas vezes sugere. As mais diversas críticas à universidade nesse sentido são válidas. Queremos trabalhos inovadores, mas devemos nos basear inteiramente nos antigos. Para muitos é assim. O que é necessário é caminhar. Claro, sempre em vista a comprovação e a aplicação. A expansão efetiva do conhecimento.

Avancei para o gênero das crônicas com aquilo que me entalaria a garganta, com o que me machucaria aos percalços do dia a dia, com as inquietações mundanas, com as observações dos mais heterogêneos personagens que nos cruzam o caminho. A facilidade de seu formato incerto, em que posso escrever ao gosto que aparece e, ao terminar, poder chamar de crônica, sem que critiquem com isto é ou não é uma crônica. É um reduto, uma fortaleza poderosa. A sua suavidade que cabe em página ou duas, não mais do que três. O formato da crônica instiga, flui, me carrega às entranhas das ideias, às distâncias do mundo, ao contato dos outros, mesmo quando me fecho ao mundo externo.

Finalmente, o formato dos contos serviram imediatamente para o espaço do imaginário, as narrativas mesmo curtas, mas com potenciais de expansão. Quantas delas serviriam para livros, para filmes? Algumas, sim, não tenho dúvida quanto a isso, bastaria a boa vontade de expandi-las, mencionando aqui como se fácil fosse. Não é fácil, existe uma atenção mais minuciosa, um cuidado tanto maior com a escrita, porque apontar os erros alheios sempre é fácil. Na verdade, na minha autocrítica encontro muitos erros, mas a preguiça de corrigi-los me impede um resultado, digamos, mais satisfatório. Portanto, me atento aos modelos reduzidos dessas linguagens referidas, me atenho, me confino aos poemas, às músicas que um dia serão ou não gravadas, às crônicas e aos contos.

Um romance de maior fôlego exigiria tempo, que hoje não desfruto, enquanto estudante de letras - dos academicismos que por tantas vezes me enfadam - e escritor diário do jornal Diário da Manhã, e narrador de todos os santos jogos do Brasil (de Pelotas) na Série B do Campeonato Nacional. Ademais, mantenho uma rotina de leituras e visualizações de filmes para colher algumas rosas ou ao menos pétalas e sépalas nas variantes das histórias.

Não sei o que escrevo, mas permaneço atento, descritivo, trazendo detalhes, parâmetros de comparações quase sempre desnecessárias, situações geopolíticas e atuais, comparações e espelhamentos de obras produzidas com nada a ver uma e outra. Acredito que os laços entre obras distintas seja mais válido do que as obviedades dos que claramente foram inspirados uns pelos outros. Ou seja, mais me interessa juntar algo muito distante no tempo ou nos fatores culturais, observando suas semelhanças e comportamentos diferentes, do que comparar obras próximas, em que qualquer sujeito teria a capacidade de enxergar tamanha nitidez. Embora, a nitidez nem sempre esteja nítida a tantos olhares turvos, mas aí...

Não sei o que escrevo, mas escrevo aqui durante um domingo ensolarado que antecede ao feriado de finados, o mais grave da história brasileira pela imensa pandemia de covid-19. Quantos disso se foram? e, na minha vida, tantos outros se foram em 2020 por outras causas e motivos. Circunstâncias. Não sei o que escrevo, mas escrevo aqui ao som do vizinho, apelidado por nós de Dênis, o Pimentinha, um berrão de não sei qual idade, às vezes meu pensamento avança para que ele já tenha mais de 10 anos e tome rédeas ou tomem rédeas de seu próprio incerto comportamento. Outras vezes o acho tão infantil e pequeno que parece não ter mais do que cinco ou seis anos. Está em algo intermediário entre essas impressões. Dênis está saltando na piscina, embora não esteja tão calor ainda. Quando estiver estará apimentado o bastante para que eu deseje meu próximo endereço o quanto antes, embora durante a longa temporada de inverno me senti plenamente acostumado e ambientado nessa troca de casa.

Escrevo enquanto poderia fazer outras coisas, quase nada preocupado com o alcance do público - agora. Futuramente, talvez. Talvez por questões de renda. Talvez por limitações empregatícias. Talvez. Talvez um dia eu também melhor saiba o que, para quem e com qual objetivo escreva. Até lá...

17/08/2020

Reflexões pandêmicas sobre o mundo e meu próprio mundo - acerca de 'Branquinha', 'Eu Vos Saúdo, Maria' e o lamentável episódio da semana

O som das obras, do trabalho braçal, de meu pai em algum reparo pela casa, o som do menino vizinho, da criança brincando, dele ou das outras meninas da quadra em alguma brincadeira, esses sons me despertam do meu próprio mundo. É a realidade batendo à porta.

Um verso de 'A Dança de Tudo', do músico gaúcho Wander Wildner aponta que "sou parte do mundo e sou também o meu próprio mundo". Muitas vezes estou mais para dentro do meu próprio mundo do que à sorte do cotidiano real. É um refúgio, um casulo, uma caverna, uma cápsula de proteção.

Bebo duas cervejas aos finais de semana e escondo a terceira para a reciclagem que recolhe os materiais na segunda-feira. Nem sempre consigo descartar e acumulo algumas latas escondidas num pequeno armário. A vida traz várias falsidades à tona, mas a maioria das pessoas parece saber jogar naturalmente com isso. Fazem parte mais facilmente desse mundo ilusório. Não se questionam ou apenas usufruem dos rumos da maré. Aceitam rebaixamentos, humilhações, ofertas grosseiras, assédios de chefes em suas posições empregatícias.

Acabei de assistir ao filme 'Branquinha (White Girl), estadunidense recente, de 2016. A garota, meio que uma estagiária em uma agência de publicidade ou revista, ela se prepara para a faculdade em um bairro pobre de Nova York, passa a conviver com traficantes e tudo vira, literalmente, uma bola de neve. O novo namorado é preso, ela não devolve um pacote com drogas e tem que lidar com as milionárias consequências. É um filme bastante simplório em diálogos e para o entendimento do público, tudo muito direto, mas de certa forma verdadeiro, pelas tramas que o sub-mundo das drogas aprontam. É difícil dela sair desse trancafioso labirinto. Problemas com a lei, com os traficantes, com o advogado, distância para a vida que ela deve ter, em algum momento, planejado, de apenas seguir a maré rumo às aulas na faculdade. Com outros jovens de classe econômica média.

Fiz a comparação pela nota mais alta que eu havia atribuído ao que alguns consideram o pior filme do histórico francês Jean-Luc Godard. Em 1985, lançou a história de Marie (Eu Vos Saúdo, Maria), com alusões à passagem bíblica do nascimento de Jesus Cristo, traduzido para o cotidiano francês dos casais nos anos 1980. O que acontece? A jovem Maria é interpelada por uma representação de anjo Gabriel que lhe avisa sobre a concepção do filho. O namorado de Marie, Joseph, não acredita na versão e pensa que Marie foi infiel, porque ela não se deitava com ele, etc. A adaptação é uma grande ideia, mas as pessoas questionam a execução da obra. Gosto das interceptações nas cenas com filosofias e cenas da natureza. Mas o produto final realmente parece disperso, o que justifica as críticas de talvez ser a pior obra de Godard.

Na comparação entre a realidade dura e tão crua de Branquinha e a história tão viajada com quês de aterrisagem na Marie de Godard, eu estabeleci o parâmetro de como Branquinha está muito mais para o cotidiano real de tantos jovens (estudantes desviados de seus rumos, traficantes sem ter outro meio de vida após se lançarem ao tráfico), enquanto a vida da Marie de Godard está completamente suspensa pela subjetividade da obra, um voo filosófico (não dos mais inspirados de Jean-Luc Godard) e que os breves pousos ao chão fazem reflexão com a realidade em terra firme.

Branquinha está muito mais para o mundo, em que fazemos parte, embora essas tristes histórias nós ignoramos ou procurar ignorar no dia a dia. Jovens com traficantes, jovens que viraram traficantes, venda de drogas em boates, tribunais e advogados corruptíveis, acertos de contas entre os vendedores com tortura e não obstante morte. Há também breves críticas ao sistema no filme da White Girl. Em passagem do polêmico advogado.

No filme da White Girl francesa, na Marie de Godard, há muito mais elementos para a concepção do 'nosso próprio mundo'. Aspectos filosóficos, frases soltas que ficam emaranhadas ou boiando em nossa interpretação. Cada pessoa, com a sua vivência, as interpreta diferente. Enquanto a Branquinha projeta socos contra a face, em algo bem mais direto, produto típico das Nova Yorks e Estados Unidos, o francês tenta atravessar o âmago, como costuma fazer em suas obras. É bem verdade que pouco inspirado nessa crítica religiosa, provavelmente mais forte para a década de 80, mas que perde muito do efeito desejado em 2020.

Será? O assunto da internet foi o estupro da menina de 10 anos no Espírito Santo. Ela era abusada pelo seu tio há mais tempo, mas finalmente e tragicamente engravidou aos 10. Foi submetida ao aborto na cidade de Recife, após a negação judicial na sua terra natal. Em meio à toda confusão que se transformou a vida conturbada da criança, um grupo religioso - identificado como católico - ainda foi para a porta do hospital para protestar CONTRA a criança e o médico responsável pelo aborto. Movimentos feministas de Recife se organizaram pela justiça e para garantir o procedimento para a criança abusada pelo tio.

Questionamentos do poder da religião. Uma obra francesa tão distante em temporalidade e contexto, será que ainda tem validade em suas críticas em nosso Brasil? As pessoas conseguem apanhar os frutos das altas árvores de Godard? Conseguem apanhar os meus frutos nessas linhas? Mais importante do que apanhar frutos, é ver as pessoas lutarem pela justiça no dia a dia, como é o caso de garantir que a jovem estuprada tenha seu aborto concedido. Ela, que só precisava remover aquela parte do crime de seu organismo, e não ser mais criminalizada por isso. Parece que fundamentalistas religiosos, fanáticos que se dizem 'pró-vida', parece que se importam mais com criminalizar um aborto do que o estupro e o estuprador.

Se dizem pró-vida, mas não ligam para o trauma da criança capixaba. Se dizem pró-vida, mas, mesmo de máscaras, ó, hipocrisia, de máscara dão as mãos em frente ao hospital para bloquear a passagem. E as mais de 107 mil mortes NO BRASIL provocadas pelo novo coronavírus. Não ligam para essas vidas? Não ligam para a proliferação do vírus em seus ridículos atos? Criminalizam profissionais da saúde, talvez a maior negativa surpresa que tenho durante essa pandemia. Esperava eu que os salvadores por meio de processos cirúrgicos e receitas médicas estariam livres dos gabinetes de ódio, mas não estão. Médicos e enfermeiros condenados pelo tribunal genocida e seus diabólicos seguidores.

Mais um episódio triste na contemporaneidade do nosso Brasil. Por fim, que a criminosa Sarah Winter seja condenada. No meu próprio mundo, no dentro de minha cabeça, já está. Resta que o mundo à parte, o aí de fora, esse tão inalcançável por tantos momentos, a condene. Desejo, desde as arestas do âmago de meu próprio mundo, o pior possível para Winter do lado de fora. Desgraçados.

13/08/2020

novo velho Brasil

o Brasil infortunado
em algum poema
de Gregório de Matos

o Brasil cheio de problema
com ou sem mecenas
e impostos nos livros

o Brasil de Paulo Guedes
só para os banqueiros
é que mata a sede

o Brasil da intolerância
Mata Atlântica e infância
ambas são perdidas

o Brasil amazônico
do povo que sofre
contra covid dezenove
só ideias de ozônio

o Brasil das milícias
e da falta de justiça
para Marielle Franco

o Brasil que anda manco
caminhou um tanto
mas já retrocedeu

Brasil do Pantanal em chamas
nem mais o Meirelles chama
e a gente só reclama
enquanto eles conclamam
trocam civil por militar
em novo velho Brasil
que ninguém quer imitar




19/07/2020

Fragmentos de Tempos Pandêmicos - Dia 19/07

Pensei muitos elementos para aqui trazer. O primeiro deles me lembra do cursor piscando esperando a primeira ou a próxima palavra de um texto. Antes de chegar nesse avançado estágio, me deparo com a tela escura do notebook refletindo meu rosto com o sol deste domingo. Meu cabelo nunca foi tão comprido. Não, não é a recomendação da OMS. Mas acredito que todas as demais eu tenha cumprido, com exceção d uma ou outra cerveja aos finais de semana.

Definitivamente trarei más notícias. Enquanto isso, meu disco preferido do Blur toca ao fundo. É o que mais ouvi nesse período de isolamento social / quarentena. Obrigado, Damon Albarn. Fico pensando na precisão que os escritores precisavam demonstrar à frente das antigas máquinas de escrever. Clareza e coesão nas ideias a serem desenvolvidas e acertos das mãos às teclas. Cirurgiões. Antes deles, o tremendo esforço de molhar a pena nos tinteiros de séculos passados.

Enquanto a música Coffee and TV fala em casar e recomeçar, penso nos afazeres que preciso desenvolver nessa folga dominical do jornal que escrevo. Estamos sem edições de segunda-feira por conta da pandemia, então reiniciamos as notícias do extremo sul para as manhãs pelotenses de terça-feira. Apesar disso, hoje é o último dia de prazo para gravar um vídeo para meu amigo que aniversaria. É uma pressão grande estar diante de uma câmera de baixa resolução falando sobre os anos em que nos acompanhamos, tentando passar uma mensagem o mais bonita e sensível possível e, se não for pedir demais, também engraçada. Uma responsabilidade tremenda que adiei durante a semana até o dia de hoje. Espero que posicionar esse fato nessas linhas me ajude a corresponder com o compromisso.

Agora começa a tocar a música Parklife sobre a monotonia da vida e o sedentarismo. Este último que deve, ou deveria, ser maior na Inglaterra do que aqui. Li uma manchete de que o Reino Unido se prepara para a segunda onda de contágios do novo coronavírus. É o país europeu que registrou mais mortes até o momento, com mais de 45 mil. Proporcionalmente também superior à média brasileira até aqui. O número de idosos lá deve contar bastante para essa alta estatística.

Estou enrolando com outros acontecimentos a tristeza de que estou com um primo internado em UTI em Santa Catarina. Ele tinha problemas crônicos, me parece que bronquite, o que lhe caracteriza como grupo de risco para a maldita pandemia. Penso em sua agonia, sem acompanhamento de parentes no hospital, em alas isoladas pela segurança e tentativa de redução de contágios. Ele fez o teste pela doença e aguarda o resultado. O irmão dele já foi em deslocamento para o hospital, mas mesmo assim não pode ficar ao pé da cama. As situações hospitalares já eram agoniantes, mas tudo pode piorar.

Pensei isso sobre suicídio esses dias. Minha irmã, com seus contatos de mediunidade, me afirma que suicidar traz malefícios incontáveis para a alma, consequências pesadas. Não sei direito sobre isso, penso que o mundo aqui em cima é muito ruim por tudo que relato nesses anos todos, mas claro que podemos, a partir disso, imaginar pelo menos 100 situações de como poderia ser pior. Você não consegue? Obviamente que consegue. Sempre pode ser pior.

A presidência. A ausência de governo, a ausência de ministros, o crescimento de casos, o crescimento de mortes. A corrupção. O desfragmento das esquerdas que novamente serão derrotadas irremediavelmente enquanto mantiverem essas posturas. Os gafanhotos que fugiram de nosso frio e de nossas chuvas. O frio e as chuvas que castigaram ainda mais a pobreza deste país. Os números distorcidos de desempregados, enquanto a informalidade é a realidade do país, com sub-empregos, com pouca garantia, com salários menores do que o salário mínimo para sustento de famílias inteiras. Com auxílios negados ou fraudados ou insuficientes ou volte novamente amanhã, porque por hoje encerramos e não nos interessa o seu pão. A dificuldade das compras, o risco aos funcionários, nas ruas, nos caixas, no transporte público, nas feiras, na manga, na beterraba, no mamão. As máscaras que cobrem meio rosto. As máscaras que cobrem rostos inteiros.

Assisti ontem ao filme Persona, de Ingmar Bergman. Péssima tradução brasileira para "Quando duas Mulheres Pecam", como um comentou no site Filmow, é uma tradução preconceituosa e até lesbofóbica. É uma das grandes obras do sueco Bergman, creio que valha a pena assistir mais de uma vez, para ver onde as personagens de fato se fundem, procurar, teorizar, tentar descobrir onde está a fantasia e onde está a realidade. E onde está a nossa realidade nisso tudo, nesse mundo de máscaras. "Personas", termo das tragédias gregas.

Após a onda de frio, estamos com o calor úmido, que deve ser trágico para rinites e sinusites. Piadas de que são coriza, espirros e inchaços e olhos vermelhos dessas doenças crônicas, não por causa da covid-19. Está tudo junto e somado. Atravessamos no final de julho e para o início de agosto o pior período para combater o novo coronavírus. Leitos em lotação pelo estado e o aumento diário no número de mortes.

Estou lendo As Vantagens de Ser Invisível. Presente de uma amiga e que venceu Macunaíma, de Mário Andrade, na enquete de qual eu leria antes. É um best-seller adolescente dos Estados Unidos. Considerei bobo de início, mas há passagens que me fazem reflexivo e que contribuem para eu estar aqui neste momento. A retomada de situações, o encaixe das idades, as descobertas, o aprendizado contínuo, o como lidar. Como eu agiria em tal ocasião? Esta é uma pergunta que me permite contemplar melhor as obras, participar melhor com elas, entender melhor as personagens, concordando ou discordando, mas entendendo. Se não me enxergo diretamente na situação, penso em como seria estar ali por todo o contexto. Nem me aprofundo muito nessa questão em relação ao livro As Vantagens de Ser Invisível, mas é um exercício que costumo praticar.

O livro me fez lembrar que a primeira vez que vi os pré-adolescentes girarem a garrafa, preferi continuar treinando meus arremessos no basquete. Eram poucas gurias naquela turma, acho que houve um ou outro beijo quando brincaram disso. Mas o que eu penso sobre? Meu arremesso da linha do lance livre era o melhor entre os da minha idade. Isso me importava. Dessa vez sem arrependimentos, só recordações.

Quando será que isso tudo vai passar? O calor úmido, a pandemia que se aproxima e se mistura à história de nossas famílias, essa identificação inexata e surpresa com as obras literárias e do cinema. A escrita que pratico aqui nas folgas de jornal. Continuamos.

09/07/2020

Alfonso Cuarón em 'Roma' (e a Pandemia)

Acabo de assistir ao filme Roma, de um dos diretores que mais considero em toda a história e espero que continue a fazer histórias. O mexicano Alfonso Cuarón. Escrito e dirigido por ele, Roma é uma sucessão de cenas impactantes de uma vida cotidiana, em uma realidade pesada, como é retratado o México de Cuarón na década de 1970. Nos filmes de Cuarón, como tenho observado, não são permitidas respirações muito longas. Como se estivéssemos sozinhos em um mar tormento e a luta contras as ondas torna-se incessante. Escapa-se de uma uma e vem outra diretamente. Como trata de temas do dia a dia, é interessante como sabemos de onde podem vir os problemas, mas ao mesmo tempo eles nos surpreendem. Não sabemos a ordem, não sabemos exatamente quando e onde nos encontrarão. Podemos ser atacados de frente ou pelas costas. Mar violento.

Cuarón mexe muito com a questão dos nascimentos. Em Filhos da Esperança já havia experimentado a temática com força, em um futuro apocalíptico em que os seres humanos não conseguiam mais ser férteis. A esperança depositada em uma imigrante na Inglaterra. A necessidade das crianças para o futuro geracional da espécie humana.

Tenho percebido em tempos pandêmicos como estamos em 2020 que as crianças não são somente a esperança por elas próprias, vida renovada, uma vida inteira pela frente daquelas que nascem e vão escrevendo suas páginas por ora em branco. As crianças servem para modificar a nós mesmos, jovens adultos, velhos adultos, idosos. Nos revivem tempos remotos há muito esquecidos. Nos fertilizam o elixir da esperança de novos tempos. Nos dão motivos para novas lutas, por elas, mais do que por nós, a depender dos casos. Sim, é assim que funciona.

Em 2020, ao passo que as mortes no Brasil são milhares e a pandemia do novo coronavírus leva brasileiros e brasileiras diariamente, em tempos de pouco espaço ao luto e à despedida, as crianças têm vindo repovoar ao menos a minha história. Explico. Minha amiga de jornalismo, a amiga que morava com ela, ambas mães no mesmo ano. Meu primo em Santa Catarina, um de meus preferidos em contatos, este tornando-se pai. Sinto-me renovado ao ver as fotos de Lorena, minha nova prima catarinense. Meu professor e apoiador na carreira do rádio também será pai mais uma vez. Ele me conta isso muito contente. Fico contente por ele e falo sobre esse necessário processo de renovação. Ele assimila e concorda. Estamos felicitados a respeito.

O mundo é muito ruim, é péssimo, é danoso, é hostil. Alfonso Cuarón demonstra isso a cada filme, nos dramas pessoais de seus personagens, seja no espaço sideral com Sandra Bullock tendo que retornar à Terra, ou numa Terra apocalíptica e desmembrada em guerra em Filhos da Esperança. Ou nos dramas familiares dessa última versão que me causa erupção, no filme mexicano Roma, justamente vencedor de prêmios Oscar.

Ao passo que o mundo é ruim e prega peças e persegue a imigrantes, e persegue aos pobres, e persegue às mulheres, Cuarón elucida tudo isso em suas filmagens, deixa transparente para quem quer e necessita ver. Mas deposita esperanças jubilares nas crianças, mostra novas possibilidades a partir delas. Não nos permite a completa ilusão, porque coloca nelas marcas presentes nos adultos. Talvez os garotos com armas de brinquedo no último filme mexicano. Imitação de maus hábitos adultos. Os adultos atirando no interior, na colônia rural. As crianças com pistolas de brinquedo nas cidades.

O contraste das cenas entre o que é permitido aos homens e restrito às mulheres, o que é de permissão aos ricos e proibição aos pobres. Cuarón oscila essas imagens entre cenas mais sutis ou mais grotescas. A ida para comprar um berço e os protestos estudantis duramente reprimidos pela polícia, inclusive com mortes, com muitos feridos. O quase anonimato da paciente pobre que tenta um parto, sem plano de saúde. A forma como as empregadas são tratadas, isso observado em outros sucessos de bilheteria, como o brasileiro Que Horas Ela Volta? e o sul-coreano Parasita, duas outras grandíssimas produções vencedoras em festivais.

Cuarón aposta no orgânico das cenas. Paisagens bem definidas, cidades retratadas com o máximo de verossimilhança. Trânsito intenso de pessoas, demonstrando sempre que o mundo não pára à nossa volta, não cessa diante o nosso drama, o nosso luto. É assim para conceber uma nova criança, uma nova esperança em hospitais cheios, com atendimentos limitados, feridos, acidentados, acompanhantes e pacientes em suas lutas particulares na saúde pública. O marido que sai de casa e não volta, enquanto uma banda marcial corta a rua com seus instrumentos barulhentos. O mundo ao nosso entorno não enxerga os pequenos enxertos de dramas em cada casa, menores ou maiores.

Com posicionamentos escatológicos, o diretor mexicano pontua as cenas do cachorro da família, literalmente cagando e andando para o que acontece em volta. Não contente, Cuarón ainda posiciona diversos cachorros de rua durante os outros cenários. Contraste entre o cachorro com casa e os sem? Pode ser também.

O contraste entre homens e mulheres é um dos mais fáceis de enxergar, pela liberdade com que desfecham suas histórias, abandonando filhos, com o uso das ameaças ou da violência ou sem. As tarefas caseiras, o cuidado das crianças sobra para o colo feminino. Duras realidades em tantas famílias, estruturadas ou não, pelo México, pelo Brasil, pelo restante da América Latina, na outra América ou em outros continentes. Histórias que se repetem.

É super recomendado que se assista ao filme para observar esses e mais detalhes, mas desde já salienta-se que Cuarón cumpre o que se espera de suas grandes obras, quando aresta e fecha os pontos, trabalha o dinamismo social nesses contrastes todos: homens x mulheres; ricos x pobres; cultura opressora x cultura oprimida, levando em consideração a origem indígena das empregadas, em contraste com a família dos patrões.

Também está no filme o contraste da cena no povoado para fora. Os ricos consomem o Ano Novo com músicas estrangeiras, tradições vindas de fora, a presença do idioma inglês. Os pobres, os empregados estão no subterrâneo, no limitado espaço com as músicas nativas mexicanas. O ambiente apertado e tumultuado que que faz com que Cleo derrube a sua bebida na hora de um brinde, ao tomar um encontrão. Quantos cutucões o filme impulsiona! quando seria mais sutil ser acometido por um coice.

Por fim, no que pensei durante a exibição do filme, não posso deixar de salientar a questão da mulher com a gestação. O processo inteiro de gestação, não restritamente ao parto ou ao pós-parto, o cuidado com as crianças. Agora escrevendo percebo como esse "início, meio e fim" se prolonga na vida de uma mãe. O homem insere a semente para o filho e larga fora, abandona sua família. A mulher passa os nove meses com o crescimento do feto até a hora do parto do bebê. Depois disso, como salientado no filme, também está sozinha para cuidar daquele novo indivíduo, sem a recomendada divisão das responsabilidades. Aquele pequeno ser necessita constante cuidado, precisa se alimentar do leite, precisa ser acalmado para dormir, precisa trocar as fraldas, precisa estar o tempo inteiro vigiado para não se afogar no mar da vida.

Penso em tudo que minha mãe passou para me conceber. Essa história veio à tona há pouco tempo e não me preocupo em dividi-la. Meus pais tiveram minha irmã já tarde, passados os 30 anos de cada um. A médica, ou os médicos, não sei, disse para minha mãe que ela não teria mais filhos. Foram pelo menos cinco anos de sexo entre eles sem resultado fértil. Fernanda seria filha única, mas então vim ao mundo. Foi uma surpresa para todos, mas minha irmã ganhou um irmão. Penso na gestação que já seria de risco pela idade avançada de minha mãe, o chamado parto de risco, mas incrivelmente deu tudo certo, dentro do possível. Por conta dessa "espera", dessa "demora", hoje aos meus 20 e poucos anos, tenho meus pais como grupo de risco do novo coronavírus, pois já ultrapassaram os 60.

Vale lembrar que minha mãe havia perdido o primeiro filho durante sua primeira gestação. Isso quando era mais jovem. Eram péssimos indícios, mas as outras duas gravidezes acabaram gerando bebês em partos saudáveis, para mãe e crianças. E aqui estou.

Relembrar de onde viemos de certa forma me encoraja a tentar um pouco mais nessa sofrida vida que tantas vezes penso abandonar. Ser um pouco mais saudável, por ela que saudável me carregou contra todos os riscos, por todos esses meses, por todos esses anos, antes de eu ser concebido e depois. São os nove meses e outros tantos anos. É relembrar para eu ser mais saudável e afastar meus pensamentos das drogas e de outras mortes. Sou grato e me restrinjo e me protejo mais por ela do que por qualquer outro ser, inclusive eu próprio.

A cena final do filme Roma talvez seja a mais famosa da película. A família unida na praia, após um entre tantos salvamentos. A gratidão pelo que se tem, a luta com as ferramentas ao alcance. As diferentes concepções possíveis de família. A importância da empregada Cleo para cada uma daquelas crianças. A importância de cada uma daquelas crianças para a sofrida empregada Cleo. Coisas que mudam ou não mudam naquela família de patroa e empregada. Feminismo não é feminismo sem luta de classes, não é mesmo? Ouço muito por aí e concordo. Luta de classes.

Dessa forma, encerro com reverências novamente ao mexicano Alfonso Cuarón, ícone de produções sentimentais, de entendimento social, de transposição da realidade para seus filmes. Provocador de reflexões e retratador de angústias. E que mais seria a vida, e que mais seria o cinema sem esses elementos?

Gracias a mi mamá

Cena final do filme 'Roma', de Alfonso Cuarón (Divulgação)

07/07/2020

A Senhora da Van e a Pandemia

Acabo de assistir ao filme A Senhora da Van. É um inglês, de 2015, se passa em Londres. Um escritor solitário adquire uma casa, naquele melhor estilo inglês, prédios similares, um ligado ao outro em ruas arborizadas com asfalto para os carros ingleses. Acontece que havia uma senhora moradora de uma van, como uma andarilha. Ela estacionava o veículo pelas proximidades no bairro e se instalava defronte às casas; de tempos em tempos mudava de "endereço", mas sempre morando dentro da van. Uma personagem de mão cheia para o escritor atiçar a sua criatividade, mas, mais do que isso, revelou-lhe adaptações para o seu lado mais humano. Ele que também estava com a mãe em condição idosa e cada vez mais deficitária quanto à saúde. É um filme recomendável, história para reflexões e consentimentos. E é o que aqui tentamos traçar a partir de agora.

Como mencionado, a adaptação cinematográfica da história é de 2015. No presente 2020, a própria Inglaterra foi um dos países mundialmente mais afetados pelo novo coronavírus. São muitos idosos na velha bretanha. Condição essa que talvez tenha alavancado a identificação dos britânicos com a história da senhora Mary, ou Margaret.

Para o Brasil, é interessante analisar o que temos passado com a pandemia global de covid-19. Os maus exemplos parecem proliferados, como os focos virais. Os brasileiros jamais deram exemplo de bons cuidados com seus cidadãos de terceira idade. São dificuldades históricas. Além do mais, cresce nos últimos anos o número de idosos, nos números totais e também percentuais, como é possível observar nos gráficos de pirâmides etárias. É chamada de pirâmide porque as tendências sociais sempre foram apresentar bases largas na medição de faixas etárias. O que isso significa? Significa que há sempre mais jovens do que adultos e consequentemente idosos. Mas isso tem mudado pela Europa, pelo Canadá, pelos Estados Unidos e em outros países.

A tendência mundial é o aumento percentual no número de idosos. Ou seja, a pirâmide perde sua característica piramidal e passa para assemelhar-se a outros polígonos. Talvez um retângulo em previsões mais atuais. Futuramente ela pode até inverter-se. No Brasil, a maioria da população ainda é jovem, mas isso também tem se mostrado um problema na pandemia do coronavírus.

Os jovens brasileiros estão desrespeitando muitas regras. São festas clandestinas, aglomerações, saídas desnecessárias para verem amigos, visitar familiares, compromissos de namoro e até de pessoas recém conhecidas. O péssimo exemplo reflete na alta rotatividade do vírus no Brasil. Ao escrever este texto, já somam-se mais de 66 mil mortes no país em decorrência da covid-19. Se somarmos os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, então...

Essa alta taxa de desrespeito pela quarentena, pelo isolamento social, pelo necessário mas pouco infundido lockdownnn, mostra que os brasileiros estão poucos se importando com os idosos, principais afetados pelo novo coronavírus. São os que mais apresentam sintomas, são os que necessitam de leitos, de entubação, de respiradores, de atendimentos médicos urgentes e, nisso tudo, também se tornam as principais vítimas de fatal doença.

Os jovens, por outro lado, em raros casos estão perdendo a vida para a covid-19, mas são os principais vetores. Eles adquirem o vírus e repassam. Repassam até chegar em pessoas gravemente sintomáticas, que lotam os leitos e estão, não raramente nesse período difuso, terminando nos cemitérios em cerimônias pequenas, porque nem a esses momentos de luto o vírus parece querer poupar ou se afeiçoar a suas trágicas vítimas.

É um assunto gravíssimo. Os populares, habituais maus tratos e desrespeitos a idosos adquirem novas conotações com a pandemia global. Como os anciãos e anciãs são as principais vítimas, países que tomam menos cuidados, com maior consequentemente disseminação e mortes, demonstram também o quão relaxados, desprovidos de caráter se mostram seus cidadãos. Profundamente lamentável.

Perde-se na aquiescência dos números o compromisso com as histórias, com o lado humano de quem está nos deixando. É apenas mais uma idosa. São apenas mais dois idosos. Uma mulher de 78 anos, um homem de 83 e outro de 87. Pouco nos importa. Pouco nos choca. Mas são pais e mães, avôs e avós. Eram profissionais, atendentes de padaria, freiras, musicistas, biólogas, escritores, políticos, assistentes sociais, esportistas... uma infinidade de histórias que chocam-se com o luto a rodapé. Números e estatísticas.

Uma emocionante capa do Jornal O Globo, publicada faz dias, foi pelo dia 10 ou 11 de maio. O Brasil ainda estava distante do pico da doença, dos maiores gráficos de contágios e mortes. Mesmo assim, através dessa maneira, prestava-se uma homenagem aos que se foram. Mas a doença maior segue traiçoeira, imparável, insaciável. Já engoliu mais tantas e tantas vidas pelo país. E não há novos editoriais que deem conta. O governo mostra-se genocida pelas medidas que adota, pelas medidas que ignora, pelas mortes que em consequência provoca. Sem ministros da saúde neste crucial momento. Uma calamidade jamais vista na história republicana brasileira.

Funerais já são habitualmente tristes, cerceiam a alma dos que ficam entorno do ente querido que partiu. Nublam os dias, alimentam o farfalhar nostálgico dos ventos contra as folhas das árvores e as páginas da vida. Livros que se fecham para serem abertos apenas por quem prestou atenção nas passageiras histórias, para serem recontadas, reabsorvidas por futuras gerações. E que legado estamos deixando? Cuidamos dos nossos? Ouvimos os nossos? Sentimos os nossos? Fizemos por eles? Essas perguntas podem atormentá-lo ao impassível sereno noturno. Deita-se contigo e ocupa maior parte do travesseiro do que sua cabeça. Pense nisso.

Ao passo de derradeira luta contra a covid-19 e contra outras doenças e contra a própria crueldade e debilidade humana, quantas senhoras da van estamos perdendo. Ou julgando. Ou, todavia, de qualquer forma, estamos perdendo. A cada dia, mesmo vivos, estamos perdendo. Derrotas em looping. Vamos virar um pouco o jogo?
(Filme: A Senhora da Van / Divulgação)