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29/12/2025

Ceddo / Outsiders (1977)

Ceddo é mais um filme do cineasta senegalês Ousmane Sembène, figura de honra nas análises. Um dos mais importantes produtores cinematográficos da África em libertações, neste longa-metragem de duas horas, a história é bastante complexa e necessária.

Um dos tipos de conflitos mais marcantes e polêmicos na África, que passou décadas sob domínio europeu, é a escalada do islamismo imposto pelos imãs vindos de fora. Nessa história em Ceddo, a população é convertida à força em uma escalada de violência a envolver todos os cidadãos.

O rei da região é convertido ao islamismo na presença do imã (líder religioso e espiritual no islã). Rapidamente, súditos, pessoas ligadas ao rei também se convertem à nova religião. Em contrapartida, como represália, a princesa Dior (Tabata Ndiaye) é sequestrada como forma de desaprovação das mudanças de regime. O Conselho local é convocado a votar, a debater, a decidir. As controvérsias e a pólvora esquentam. A princesa Dior está sob domínio dos resistentes, que querem manter sua cultura, suas crenças, seus chamados ídolos, e, de qualquer modo, seu estilo de vida de muitas gerações passadas. A chegada repentina do islamismo ameaça quem discorde de Allah, quem não queira rezar cinco vezes ao dia e obedeça as imposições do Corão.

Enquanto a princesa está fora da aldeia nesse sequestro, o imã segue a convencer a população, outros são convertidos à força. Figuras influentes da comunidade são postas umas contra as outras. Em uma crescente de suspense e ação para o fim do filme, o rei de repente está fora de combate. Provavelmente foi morto. A desculpa repassada aos súditos é de que fora morto por uma picada de cobra. Amplamente suspeito. Nesse movimento, o imã, que já havia convencido o rei dos poderes sob a crença de Allah, toma totalmente os poderes. Ele quem passa a reinar absoluto. Nessa manobra, ele convoca a população, reúne resistentes, impostos pelo poder das armas de fogo - O verdadeiro poder.

Esses homens são sentados ao chão, estão sob vigília constante. Convocados um a um, eles, sempre sob a mira das armas, são postos frente ao imã e, após raspados seus cabelos, recebem um nome islâmico. A identidade está totalmente trocada na vila. Ao mesmo tempo, os verdadeiros resistentes armam um plano. Após trocarem pessoas, adolescentes pelo preço de um fuzil e pólvora, adultos pelo preço de dois fuzis e pólvora, armam uma emboscada envolvendo a libertação da princesa. Em uma reviravolta, a princesa volta à vila, que está irreconhecível. Seu pai está morto, o poder trocou de mãos. Ela precisa resolver com suas últimas forças reunidas.

Ceddo é um termo que pode designar guerreiros resistentes. Aqui são os outsiders na tradução para o inglês. Não se subordinaram ao poder dos brancos que colonizaram África durante séculos. Não baixaram a guarda perante essas invasões que lhes colocaram uns contra os outros, presenciaram traições, subordinações, humilhações, mortes e precisaram montar guardas de resistência nas comunidades, por seu modo de vida, suas produções, pelo simples direito de existir. Após essas décadas de resistência aos brancos, tempero a mais surge com aparição da imposição islã. Os resistentes, ceddos, se reúnem e concluem que nunca estarão livres. Ora são os brancos, ora são os islamitas de fora, ora são traidores em sua própria comunidade, e a nobreza e o clero negros mesmo a definir o futuro de milhares de aldeões, de campesinos pobres, subsistentes. Nessa conclusão típica dos filmes de Ousmane Sembène, se parte para ação final. É a face intacta dos valores da resistência.

Ousmane era um ferrenho defensor da legitimidade africana, da cultura, dos povos seculares resistentes. Em cada filme, tece os desafios seja contra a colonização branca, seja contra os novos adversários, colocando em evidência um povo clamoroso por soluções, por direitos. Esse povo contra a predominância, contra a desigualdade oriunda das elites ociosas. Essas questões que se replicam em tantos povos, em países que ora mais ora menos percebem sua subordinação, sua submissão a elites que decidem em votos que favorecem a elas mesmas. Seja Congressos na fantasia da democracia, seja em domínios ainda com aspectos mais abertamente feudais. A rebelião, a resistência, o contra-golpe são as alternativas a não permitir que a história seja reescrita somente por alguns, por poucos que dela se beneficiam e tentam congelar poderes. O recado final da libertação da princesa não é pela manutenção daquela monarquia, mas também aponta que as mulheres têm voz e devem ter vez na tomada de decisões. Durante o filme, inclusive, alguns discutem que uma mulher subir a trono dos mandamentos seria o cúmulo, na negatividade. Mas, sem o rei, morto, sem seu irmão, ela quer seus direitos.

Em resumo, é uma população que se rebela à ameaça estrangeira, já acostumada, entre aspas, a lidar com a opressão vinda dos brancos. A questão do islamismo imposto ainda é um debate de crueldade e sangue derramado, principalmente em últimos tempos às notícias vindas da Nigéria, onde, a bem da verdade, esse debate se estendeu também no confronto dos cristãos com os islãs. Mortes e mais tentativas de imposição, na tentativa de chegar ao poder com o prenúncio da religião, são uma constante. E não se pense exclusivamente em África nessa questão; longe disso. Estados Unidos e Brasil que tanto erguem templos por pastores que se metem em política, opinam por forças políticas que os mantém isentos de impostos e controladores de camadas substanciais da população. Esses projetos se mostram funcionais, perigosos e ameaçadores aos direitos cidadãos. É preciso sempre estar atento sobre quem dita as regras e com quais objetivos - geralmente pelos benefícios próprios contra o povo.

Nota final de Ceddo:

🌟🌟🌟🌟

25/12/2025

Xala (1975)

Em pesquisa para confirmar o nome desse filme de Ousmane Sembène, diretor garantido nesses blocos de análises, Xala pode se referir a rituais e feitiços sofridos por uma pessoa. É o que acontece com um político senegalês em Xala. 

Essa é uma bela obra de Ousmane, englobando diferentes assuntos, tópicos que podem atrair mais ou atrair menos atenção para explorar desenvolvimento do filme. Acredito que o mérito para muitas obras está na comunicação, na abordagem de diferentes temas. Isso cria uma riqueza cultural que absorve diferentes envolvimentos com o espectador. Em Xala, se comunica a independência conquistada por Senegal frente à França. Se comunica a corrupção que é persistente. A cultura machista, os casamentos de um homem com várias esposas. O sistema em que empresários são beneficiados enquanto o povo passa fome.

O personagem principal desfruta de prestígio. Usa terno, frequenta a Câmara, convive com outros engravatados. Está às vésperas de seu terceiro casamento. Já é um homem de certa idade. A divisão financeira que impacta a família causa ciúme nas duas primeiras esposas. Mais do que ao homem, parecem temer a posição social em desprestígio, a perda de relevância no convívio, de presentes recebidos no cotidiano. O casamento, o terceiro, ocupa boa parte da primeira metade do filme. Se conhece a desconfiança e o ponto de vista dos filhos já crescidos do sujeito e a convivência ciumenta, belicosa, afrontosa entre as esposas.

No desenvolvimento, ganha relevância a economia, quando o personagem entra em conflito, em atuações suspeitas. Sabe-se que ele lidera uma loja no centro da cidade senegalesa. Interessante que Senegal na época estimava-se abaixo dos 5 milhões de habitantes. Hoje é um país bem maior. O político e empresário demonstra a complexidade da independência. Apesar de sair, em parte, somente em parte, da dominância francesa, o povo senegalês, em grande parte rural, em grande parte campesino, está refém de empresários corruptos, de funcionários que decidem provisões em escritórios com o invento do ar condicionado enquanto a população padece ao sol forte. Em certo momento, em reunião entre o empresariado, na acusação do camarada principal ser acusado de corrupto, de desvio de dinheiro para benefício próprio de seu terceiro casamento, o idioma francês entra em questão. Os empresários proíbem o acusado de se manifestar em um dialeto local, referindo-se orgulhosamente que o idioma oficial do país Senegal é o Francês. Interessante ponto de vista das elites frente a um povo que estima a libertação da herança maldita de um colonizador branco, europeu, violento e saqueador de recursos.

A complexidade deriva em outros temas. Os problemas do acusado começavam na suspeita desse Xala, desse feitiço que causa impotência sexual, quando ele, já idoso e deaconhecdor do raio dos limites, tenta a noite de núpcias com sua recém estimada esposa. Ele não consegue ser pró-ativo na empreitada, não retira a virgindade da jovem e começa uma crise sem precedentes. São problemas pessoais, relacionais na companhia, no comércio, na política, e consequentemente financeiros. Na mescla de modernidade com tradição, o acusado dos delitos ainda tenta retirar esse suposto Xala com um curandeiro, mas, corrupto e atrapalhado que era, não o paga, colocando em risco sua condição de liberto do feitiço.

O cinema de Ousmane Sembène é em prol da África, mas não recai a uma narrativa simplória, unilateral, de heróis e vilões. Parte dos libertadores podem condicionar o povo a continuar na miséria, instituindo benefícios próprios contra a população miserável que espera ajudas que não vêm. A denúncia é da desigualdade entre ricos e pobres, quando a riqueza acumulada pode se dar através de sonegação de impostos, calotes e contratos fraudulentos. Em resposta aos acusadores, o político aponta os dedos de volta, requerendo como resposta à pergunta de qual daqueles empresários na sala não passava também cheques sem fundo. Para além da denúncia ao personagem, o panorama é de empresários corruptos que coagulam entre eles, formam conluios com o povo como outsider, forasteiro. Sembène explora muito os temas dos verdadeiros e incidentes problemas sociais sobre Senegal, desde o que era necessário para libertação ao regime militar francês, como em Emitaï (1971) até esse filme quando passado o processo inicial do recurso da independência. Apesar da independência em relação às maiores forças da França, o jogo de empresários, de controladores do alimento, do arroz e de outras produções senegalesas segue à mercê, à deriva do povo. A revolta popular contra o corrupto, após a dispensa dos engravatados contra ele, decorre nas cenas finais. Sembène mantém um olhar crítico, atento, mas otimista em relação ao potencial que seu próprio povo pode produzir quando liberto de verdadeiras e proeminentes amarras.

Nota final para Xala (1975)

⭐⭐⭐⭐⭐


24/12/2025

Emitaï (1971)

Emitaï é um filme senegalês, na direção de Ousmane Sembène. O diretor é uma importante Ponte para registros e lutas do povo de Senegal, sendo um dos principais nomes na cinematografia africana, defensor da soberania do continente frente aos colonizadores europeus. Em questão, o filme trata da resistência de uma comunidade, uma aldeia senegalesa ao expansionismo e abusos cometidos pela França.

A época retratada é da Segunda Guerra Mundial, com referências de troca de comando Militar na França, de Petain para Charles de Gaulle. O acontecimento inclusive gera troça no filme, quando senegaleses que haviam se aliado voluntariamente à França questionam como poderia um general duas estrelas suceder um marechal de sete estrelas.

O que ocorria? A França, colonizadora sobre Senegal, capturava homens para os enviarem à força para Europa, para lutarem no front contra a Alemanha nazista. Mas também nem sempre foi nessa toada, pois o próprio Petain era acusado de aliviar para Alemanha, temendo maiores perdas e derrotas, de modo que a rendição francesa se deu menos tumultuada do que poderia ser. Entretanto, para Senegal, a guerra já estava formada e dificultando a população sob o domínio dos generais franceses.

Nessa comunidade, um símbolo e principal alimento era o arroz. Produtores de arroz naquelas terras, os campesinos deveriam ceder a produção para alimentar os exércitos franceses rumo às batalhas. Desfalques incontornáveis. O arroz também é protagonista quando um dos líderes da aldeia falece em ritual de invocação aos deuses e seu ritual fúnebre deveria envolver as cantorias das mulheres e a oferta de arroz.

Mas o arroz estava totalmente em disputa e requisito francês. Os militares que controlavam, que cercavam a aldeia e ditavam as regras tinham ordens superiores de levarem as sacas de arroz rumo aos exércitos em guerra. O filme relata o saque em que os brancos submetem os negros a essas humilhações. As mulheres da aldeia cuidavam dos estoques e se revoltaram em esconder os suprimentos. Até que os sacos de arroz aparecessem, todas foram colocadas sob guarda, sentadas ao chão no sol, algumas com crianças de colo por criar.

No papel histórico, o filme relata como as comunidades africanas se dividiam. Havia os conquistados pela lábia, pelo poder e pelos subornos franceses. Homens jovens que preferiam voluntariamente lutar pelo lado da França mesmo que contra seus compatriotas senegaleses. Na selva, também chama atenção o que poderia resultar problemas de comunicação quando comunidades, cada uma à sua criação, a seu modo, cruzavam caminho. Sem a unificação idiomática, que até hoje em África é tabu, é desafio cultural, pelas separações, reuniões de divisões de fronteira e imposições culturais dos colonizadores, a desunião idiomática poderia se mostrar mais uma forma de conflito que desafiasse a unificação das causas em prol dos povos originários africanos.

Mas nesse filme, o conflito está entre os armados e os desarmados. Os defensores da cultural original e os rendidos aos colonizadores. A força das armas em predomínio à crença aos deuses. O filme mostra rituais de invocação religiosa, ritos, sacrifícios, como de galinhas e cabras, passeatas e danças. É uma mescla documental, dramática e suscitadora de suspense. Embora saibamos dos conflitos entre colonizadores e colonizados, muito e cada vez mais se aprende através dessas mostras. Como recrutaram homens e lhes deram armas, na sedução do poder e de ofertas superiores - como se comprava inclusive a honra. Como muitos resistiram, apesar de tudo. O diretor Ousmane Sembène dedica essa e outras produções aos que resistem em nome dos antigos, em nome do povo de África, contra a expropriação, contra a exploração, contra a velha e a nova escravidão do povo negro.

Nota final de Emitaï em 4,5 / 5




08/12/2025

O Carroceiro (1963) + Tauw (1970)

Ousmane Sembène é um diretor do cinema senegalês, responsável por grandes trabalhos que demonstram a vida no país sub-saariano. Os filmes aqui explorados remontam ao período em que a influência francesa ainda era tremenda sobre os colonizados, em um ambiente de crescimento das cidades como Dakar, com as dificuldades de sobrevivência com as novas exigências para empregos e moradia a famílias.

Mais aclamado entre esses dois filmes é o Carroceiro, de 1963. Um sujeito sai para trabalhar todos os dias com sua carroça puxada por um cavalo. Ele vive de fretes e pequenos serviços sob contratação. São transportes para mercadorias ou de pessoas. A função do carroceiro, mediante um trânsito que começava a congestionar da presença de carros, se assemelha à função dos motoristas de aplicativo nas selvas de pedra recentes, passado mais de meio século. Entre histórias que ilustram seu cotidiano, há contratação para frete e para buscar uma mulher grávida e levá-la até a maternidade, a tempo para que seja amparada pelo trabalho de parto. Na viagem, um incômodo lhe acomete com uma roda que ameaça a travessia, rangendo e preocupando o transporte.

Em uma missão ousada, o Carroceiro é contratado para uma encomenda em um bairro de ricos, evidenciando o tremendo distanciamento entre os bairros que convive, entre casebres e mazelas e a área asfaltada, mais urbanizada, arborizada e floreada por apartamentos modernos e de arquitetura deslumbrante. Antes da partir pela missão, ele conversava e era alertado por um companheiro dos riscos de trafegar nesse bairro nobre, local de proibido acesso aos pobres. Ignorando o alerta, o carroceiro parte na busca, interceptado por um guarda que lhe pergunta por documentos, habilitação e autorização para dirigir ali. Humilhado e multado, o carroceiro, sem alternativa financeira, é obrigado a abandonar sua charrete (termo escutado igual em francês) e volta de cabeça baixa apenas com seu cavalo. Ele foi abandonado pelo senhor que o contratou, sem sequer o dinheiro do frete para que havia sido contratado, deixando para trás seu meio de trabalho para que os homens ricos lhe aplicassem a multa. O Carroceiro reclama de ter sido enganado, é vítima, foi surrupiado.

"Eles aprendem a ler e a mentir", reclama na viagem de volta. A desigualdade pela cidade é evidente, ele resmunga sobre a diferença das casas, observa o crescimento da cidade como um crescimento impessoal em que não se pode confiar nas pessoas, diferente da convivência aldeã. Com apenas seu cavalo, ele ainda precisa retornar para casa, para o convívio com a mulher, com o peso da humilhação sofrida em mais um dia de trabalho, do qual ele se pergunta os valores de todo o esforço empreendido, se o dia de anteontem, se o de ontem, se o de amanhã nada mais reservam para seu usufruto.

Em recordo do desenvolvimento do filme, em jornada de trabalho ele chega a desistir de almoçar em casa para que aproveite um dia mais movimentado, em que estava sendo bastante requisitado em serviço. Sem saber o que a mulher inventaria para dar conta do almoço, ele se contenta, se satisfaz com um punhado de nozes que havia recebido de um dos amigos de semelhante profissão. O coleguismo entre os pobres ainda existia, ao passo que entre os ricos ele não poderia se confiar. Ao mesmo tempo, os alertas denunciados em Maria Carolina de Jesus e O Quarto de Despejo, de semelhante época em São Paulo, na chamada favela do Canindé - em que a autora apontava que a inocência da união entre os pobres existia na cabeça de quem não fazia parte daquele mundo. No livro, ela aponta brigas entre a vizinhança, desentendimentos severos provocados pela cachaça e até pelas pirraças provocadas pelas crianças, gerando apedrejamento, vinganças com fezes e tudo mais. São retratos de possibilidades de solidariedade ou do desenvolvimento mesmo da raiva entre pessoas em situação precária, debilitada, em déficit econômico, sem ter como proverem o cotidiano com alimentação e dignidade. Em O Carroceiro, Ousmane Sembène prefere optar pela demonstração da desigualdade e pela vilania dos verdadeiros culpados da manifestação de uma pobreza, ao passo que residem em casas nobres, protegidas, supervisionadas e sem interferências que possam ocasionar transtornos. A segregação na África colonizada ocorria sem a necessidade de um apartheid por cor da pele como na África do Sul, mesmo que muitas vezes fosse, sim, francesa a soberania nas terras africanas, como em Senegal, formando ela, França, uma elite ou impulsionando a formação de uma elite negra local.

Nota final para O Carroceiro:

⭐⭐⭐⭐ e meio


Em Tauw, a continuidade da temática da pobreza está nas dificuldades do protagonista em conseguir emprego. Aos 20 anos, ele é acusado por seu pai de fazer corpo mole, de não prover sustento na casa. Tauw, reunido a amigos em situação semelhante, protagonistas de pequenos furtos na cidade, vão em busca de um emprego mais formalizado. Se reúnem a outros tantos jovens que esperavam um chamado como estivadores ou o que fosse. Em uma oportunidade de aparecerem para serviço no Porto de Dakar, Tauw descobre que o bilhete para simples entrada, travessia da cancela do Porto em Dakar, custava o equivalente a 100 francos. 

O dinheiro francês novamente aparece em peça de Ousmane Sembène, evidenciando a influência da França sobre o país na luta por sua libertação e direitos em autonomia. Enquanto não havia essa possibilidade, Tauw e outros senegaleses lutavam pelos francos pela sobrevivência. Enquanto um dos amigos conseguiu o dinheiro, o bilhete e foi trabalhar no porto, Tauw voltou para casa para pedir dinheiro à sua mãe. Ela entrega uma peça de roupa, uma calça do marido para que Tauw venda e possa trabalhar e voltar para casa com mais dinheiro.

Tauw encontra uma mulher e descobre-se que a gravidez dela possa ter sido ocasionada pelo rapaz. Ele gosta dela, quer ajudá-la, ao passo que a moça também passaria naquele dia por uma consulta médica e necessitava do dinheiro para longa passagem de ônibus- visto que obviamente moravam para as equivalentes periferias das cidades grandes, no caso, Dakar. A mulher chega a oferecer ajuda para Tauw, mas não seria a melhor alternativa e ele insiste em tentar vender a calça. Ao mesmo tempo, a falta de dinheiro o irrita, de modo que chega a duvidar ser ele o pai da futura criança. Em reencontro entre eles, a crise se agrava com a mulher necessitando de 2 mil francos para comprar um dito remédio. Tauw se desespera porque nem ele, nem ela teriam condições. 

No avanço final do curta-metragem de 26 minutos (O Carroceiro tem menos tempo, mas ambos abrem espaço para muitas críticas e observações sociais), Tauw toma a medida drástica de contar para seu pai sobre o ocorrido e, para lamúria e discordância da mãe, resolve sair de casa ao pedir a mulher em casamento e tentarem desbravar a difícil jornada da vida juntos. O filme é permeado ainda por tentativas de ensinamentos escolares e religiosos (na verdade adjuntos) em que as crianças leem lições e versos islãs para um mestre. Enquanto percorre as ruas em busca da salvação da sua eminente crise financeira, Tauw ainda se depara com os demais apelando para as rezas diárias para Allah. A salvação, vista nos filmes, não seria da boa índole dos ricos para os carroceiros ou os que tentassem serviços ocasionais no porto, jovens impedidos de uma educação formal e de garantias de trabalho mesmo braçal. O carroceiro que perdeu seu veículo e o rapaz que precisava arranjar primeiro 100 francos que sobrassem para um dia de serviço sob a chancela da administração portuária.

Nota final para história de Tauw:

⭐⭐⭐⭐


Senegal foi colônia da França entre 1817 e 1960. Apesar da data oficial de emancipação ser em 1960, a influência francesa, em dinheiro, costumes, autoridades e burguesia eram constantes nos anos vindouros, conforme denúncia o cinema de Ousmane Sembelé nesses dois curtas apresentados. A influência está desde o idioma ao dinheiro utilizado na exploração do desenvolvimento senegalês. Quanto à exploração dos recursos da terra, caberia mais do que um capítulo à parte dessa análise.

Na curiosidade com o futebol, Senegal derrotou a França na Copa do Mundo de 2002. Os senegaleses venceram a colonizadora e assim a eliminaram do torneio ainda na fase de grupos. Em 2026, novamente Senegal e França foram sorteados para o mesmo grupo e vão realizar novo duelo. Outros países que passaram por enfermidades sob domínio francês, e que costumam se destacar no futebol e nas artes, são Marrocos, Argélia, Camarões, Tunísia e Congo.

03/08/2025

Mossane (1996)

Mossane é um filme de Senegal, dirigido pela diretora Safi Faye. Longa-metragem de 1h40min, diferente de filmes anteriores da diretora africana, esta peça é totalmente ficcional, embora o drama seja identificável para diversas mulheres do continente e também da cultura islã alastrada pela Ásia e por outros locais.

O tema do filme Mossane é a promessa de casamento para jovem que, segundo sinopses, teria apenas 14 anos. Ao assistir o filme, se imagina até uma Mossane mais próxima da idade adulta, mas é comum que em diversas culturas se prometa o casamento para meninas ainda entre a idade de crianças e adolescentes. A personagem principal deveria se casar com Diogaye, com uma família considerada rica e de oportunidades interessantes também para o vilarejo e familiares de Mossane. Desafiando a história como ocorre desde Romeus e Julietas pelo mundo, a jovem, considerada pérola maior do vilarejo, se apaixona pelo estudante universitário Fara, que tem vida totalmente distinta das aspirações da família de Mossane. Segundo os relatos, curandeiros e demais fofoqueiros da vila, Mossane e Diogaye haviam sido prometidos desde o nascimento, aquele papo piegas de feitos um para o outro.

O drama senegalês não traz tantos acontecimentos. Mais uma vez, a exemplo de outros curtas documentais de Safi Faye, a experiência do espectador é também uma imersão na cultura senegalesa, na vida no campo, nas raras aspirações possíveis, no estilo de vida segregado e de poucas possibilidades. Embora muito jovem, Mossane teria de se dedicar ao matrimônio, a expectativa e os dotes financeiros são todos dedicados a esse casamento arranjado, e só restaria a ela fugir com o verdadeiro amor. Existe alguma tensão entre os pretendentes e principalmente o nervosismo das famílias envolvidas, como se a vida deles dependesse mais da união do que o sentimento costurado entre os próprios noivos. O andamento, os preparativos, tudo é desenvolvido com determinado rigor, com palavras espirituais, sentenças intransponíveis: Mossane precisa casar com o escolhido e ponto.

A história de rebeldia é conhecida na humanidade e a ideia de Safi Faye é demonstrar como isso ainda ocorre muito em Senegal e em outras comunidades africanas. Apesar de dessa vez não optar por personagens reais no estilo documentário, Safi aproxima ao máximo a lente do realismo e emoldura a história com drama familiar da doença do irmão de Mossane, a necessidade da jovem por novos sustentos para família, a consulta da preocupada mãe com guias espirituais, referências de sapiência nessas aldeias e também demonstra brincadeiras das crianças ao redor e, é claro, a preparação para o clímax do casamento, que poderá resultar na aceitação ou na tragédia anunciada.

Nota final de Mossane em:

🌟🌟🌟🌟

28/07/2025

Monólogo Silencioso (2008)

Filme senegalês que, em formato documentário, apresenta a vida das empregadas domésticas no país. Através da história de diferentes trabalhadoras, as condições precárias de vida são mostradas. Amy é a primeira a ser apresentada e, de certa forma, é a personagem principal. 

Amy é uma jovem empregada doméstica em uma casa de família de classe média. Enquanto ela trabalha, sua patroa costuma ficar no seu ouvido cobrando, criticando e, entre aspas, incentivando. Depois dela, outras garotas expõem suas situações.

A maioria delas iniciou estudos, mas teve de deixar a escola para trabalhar, seja por dedução própria ou obrigação familiar. Algumas tornam-se mães muito cedo e o compromisso em alimentar os filhos duplica a dificuldade da jornada. São poucas as opções de emprego, portanto o serviço de maid (empregada doméstica) se torna a principal opção para quem evita vender o próprio corpo como comércio.

Uma das mulheres desabafa que ela mantém as casas limpas, mas mesmo assim ela que é considerada suja. A controvérsia é uma dura realidade. Muitas das mulheres trabalham em casas de bom material e em melhores regiões de Dakar (capital do Senegal), mas moram em barracos na periferia. São barracos sem energia elétrica, com somente porta de entrada, em que se deve optar entre ter iluminação e ventilação ou conviver com possíveis insetos.

Uma jovem, ainda de aparência adolescente, desabafa que elas também são humanas e gostaria somente de ser tratada como bem trata os outros. A maior reclamação dessas meninas é a falta de pagamento, pior do que as condições precarias de trabalho. Muitos empregadores, patroas lançam demanda de limpeza e lavagem de roupas, mas não as pagam devidamente. Muitas vezes a lorota é de voltar num outro dia, prometer o pagamento para amanhãs que nunca chegam. Quão injusto é o mundo e a máxima de sempre: com quantos pobres se faz um rico, ou, mesmo não sendo enriquecido, um ser, uma família mais abastada?

O nome Monólogo Silencioso apresenta a crítica de que essas mulheres ainda trabalham silenciadas, seja nas casas ou pelas comunidades. Ninguém as escuta. Por educação forçada elas devem ficar quietas. Devem obedecer, não devem se rebelar. Devem falar baixo e não emitir seus desagrados, não são incentivadas a opiniões. É o silenciamento e o apagamento em voga.

05/07/2023

Touki Bouki e Vidas Secas - Semelhanças e Diferenças

Touki Bouki foi apresentado recentemente por este escriba. Um filme que se passa em Senegal, retratando um jovem casal que sonha em deixar o país e suas mazelas, para uma vida melhor na Europa, desejando Paris. Em Vidas Secas, aqui se tratando do filme de 1963, com direção de Nelson Pereira dos Santos, inspirado diretamente na obra Vidas Secas, do escritor Graciliano Ramos, o casal também almeja uma vida melhor, tentando fugir dos rincões mais escassos de despovoado Nordeste.

Enquanto o casal em Touki Bouki - A Viagem da Hiena - é mais jovem, sem filhos e, portanto, com menos compromisso, os nordestinos brasileiros carregam consigo duas crianças, sendo dois meninos, e mais o cachorro da família, ironicamente chamado de Baleia, visto que a comida geralmente era escassa para todos os envolvidos.

No filme senegalês outrora apresentado, o casal discute seus sonhos à beira do mar, sonhando com outro continente. Estão dispostos a viver à margem da lei, aplicando golpes seja em quem for: autoridades, pessoas ricas ou mesmo artistas de rua. Como fuga, possuem uma motocicleta adaptada em que se destaca um dos símbolos máximos do filme: o crânio de boi - visto que são feitas várias metáforas entre a vida de gado dos humanos senegaleses e a vida dos bichos sendo ancorados rumo aos abatedouros. 

O casal brasileiro, Fabiano e Sinha Vitória, procuram viver dentro do que é possível nas agrestes terras. Eles conseguem um lar temporário, mas precisam trabalhar para o dono das secas pastagens, mais um jagunço que tenta passá-los para trás, depositando menos dinheiro do que o prometido, com a desculpa de que estão descontados os juros pelo 'empréstimo' de ter onde morar. Além do mais, Fabiano é analfabeto, jamais frequentou a escola, cena evidente quando defronta-se com o patrão, alegando que o dinheiro está a menos. O patrão mantém sua posição inflexível, reiterando que a soma está correta. Fabiano abaixa a cabeça, pede perdão e lamenta que a esposa, espécie de financeira da dupla, tenha feito conta que não devia. "Não é necessário barulho", se desculpa o peão vaqueiro.

Ainda dentro das regras de injusto jogo, o casal não consegue vender sua pouca produção de carne animal sem escapar de rigorosos impostos cobrados por prefeitura de pequena cidade - concentração de casas e gente. Fabiano é perseguido pelas autoridades, pois um metido oficial se envolve com a vida do vaqueiro, lamentando que ele tenha pulado fora em um jogo de cartas em que eram dupla. Assim, Fabiano perde o dinheiro, que a mulher acredita tenha sido desperdiçado em apostas, sem saber das injustiças que sofria com as corruputas autoridades locais. O jagunço sofre chibatadas, é vítima do abuso policial.

Na história senegalesa, a dupla vai conseguindo conquistar seus objetivos, almejando algo maior do que o Senegal recém independente após século de colonização francesa sobre aquelas africanas terras. Enquando Vidas Secas é rodado em uma espécie de conto cíclico, em que trilha sonora e paisagens iniciais e finais do filme se misturam, existe alguma perspectiva a mais na surrealista França imaginada pela jovem chamada Anta, no filme de África. Entretanto, o cíclico também está presente em Touki Bouki, pois o jovem Mori é vítima da vida emboscada em que são cercados os bois rumo ao matadouro.

Os bois. São figuras traçadas em ambos os filmes. As terras secas, o trabalho repetitivo e atencioso dos grosseiros vaqueiros em ambos os continentes. Semelhanças que aproximam um Brasil e um Senegal rurais, em épocas parecidas, sendo os filmes rodados com distância de exata década, o brasileiro em 1963, o senegalês lançado em 1973.

Em comparação, para finalizar breve análise, os pôsteres dos filmes em que as duplas protagonistas se destacam contra paisagem seca.




03/07/2023

Touki Bouki (1973)

A Viagem da Hiena. Filme senegalês do diretor Djibril Diop Mambéty. Exibido no Festival de Cinema de Cannes de 1973 e no 8º Festival Internacional de Cinema de Moscou. O filme foi restaurado em 2008 na Cineteca di Bologna, para registros de fichamento.

A história é de dois jovens revoltados com o descaso e a situação de seu país natal (Senegal) e que sonham uma vida de luxo em Paris. Eles desconhecem outras realidades, mas têm o sonho. O Senegal agrário e de paisagens desérticas é evidenciado. É impossível não capturar a força das imagens iniciais e finais da trama. A figura dos bois em última luta nos abatedouros. Sangria. Morte com o animal ainda em vida. Se debater. Morrer. Uma esteira de mortes, um chão de sangue. A crueldade humana, que em seguida é praticamente absolvida ao vermos como é o modo de vida do cidadão senegalês nas favelas, em meio ao lixo. As crianças correm atrás da moto do personagem principal Mori, interpretado pelo ator Magaye Niang. O veículo chama a atenção por possuir um crânio de boi depositado na frente. Sua companheira se chama Anta, interpretada pela atriz Miriam Niang.

Em rápida pesquisa, observamos que o filme é referência no cinema experimental africano. É uma produção bastante marcante, também se pensarmos que considerável dos países em África recém viviam o processo de independência. Senegal, em relação à sonhada França, não era diferente. As cenas urbanas e rurais povoam a obra clássica, que mostra a escassez de qualidade de vida na grande Dakar e suas imediações.

A dupla de protagonistas parte em uma jornada arriscada, roubando dinheiro ora de um golpista de rua, ora de uma arena que recebe combates corpo a corpo. O filme a todo instante mostra um país em dificuldade de progredir, de romper com seus traços mais violentos. O casal precisa driblar os moradores que também os roubariam, driblar a polícia, driblar um curioso taxista, driblar um rico idiota e conseguir embarcar em um navio que os levaria de Senegal a partir de Dakar. A conexão das cenas às vezes deixa a desejar sobre o plano lógico dos acontecimentos. É difícil entender como Mori e Anta não foram capturados no início de tão ousada fuga.

É mais fácil entender que os fugitivos tinham lá suas razões. Rebeldia, descontentamento, falta de perspectiva, ambições. O final é surpreendente, embora também nos deixe reflexivos do porquê tenha ocorrido assim.

A Viagem da Hiena é um retrato importante para registro histórico das cenas de um Senegal setentista. A independência do país em questão recém havia ocorrido em 1969. As marcas de século de colonização francesa estão grifadas durante toda a obra de Diop Mambéty. As citações, a irrupção casando ou colidindo com a ancestralidade africana, o sonho dos jovens. Um Senegal que ainda tenta(va) se encontrar e uma França mais pintada surrealista do que existente.

O ser humano em sua viagem de sonhos que muitas vezes morrem como um boi em um abatedouro.

⭐⭐⭐⭐



19/06/2018

Lutas e Gratidões

Minha irmã acorda tarde, toma o café da manhã tarde e reclama do almoço, que é servido em um intervalo de tempo curto entre as duas refeições. Minha mãe acumula cabelos brancos que ela não mais esconde e estresse que não mais segura, entrando em erupção de quando em quando. Hoje foi um desses quando.

Mais tarde, entre o almoço e um jogo da Copa do Mundo na televisão, minha vó aparece de jaqueta rosa e óculos escuros bastante chamativos. Em um horário que muito bem poderia ser de algum pedinte, geralmente uma senhora negra com uma filha com necessidades especiais e que pede leite ou algum ser adulto não disposto ao trabalho para o ganha pão. Confiro para confirmar pelo olho mágico e abro a porta para minha vó na certeza que o jogo entra em segundo plano, porque ela insistentemente e incessantemente puxa assunto ou narra com detalhes episódios cotidianos de pouca relevância. O encontro com as mesmas vizinhas, uma ou outra palavra trocada na frente de casa ou no caminho para ônibus ou em armazém. Pequenos causos de pessoas as quais não conheço e que para minha mãe pouca diferença faz também são uma constante.

Porém, ela conta de uma conhecida, alguma família que adotou uma menina. E minha vó a caracteriza que dizem ser muito alegre, muito obediente. E sobre algo que a ofereceram, se manifestou com "tudo isso é para mim?", com as mãos cruzadas sobre o peito, em claro e universal gesto de agradecimento. Tem três anos, completa os dizeres minha vó. E tudo isso me leva a uma reflexão sobre gratidão, uma reflexão que na minha mente ocupa e ocupa o primeiro plano. O jogo passava ao segundo posto, mas logo voltaria à tona por outros encaixes.

Às 14 horas na pontualidade terminava a partida da Copa do Mundo com a surpreendente (para alguns nem tanto) vitória de Senegal sobre a Polônia em plena capital russa de Moscou, local de muitos acontecimentos de injúrias raciais. Racismo não escondido. Jogadores negros na atualidade, mais e mais pessoas em antigamente. Ou talvez menos antes sem o advento da globalização dos dias atuais. A globalização que coloca jogadores negros em praticamente todos os times titulares das seleções da Copa, com exceção do extremo oriente, Argentina e a própria Polônia. Outras, se não tem na titularidade, tem reservas imediatos que costumam adentrar nos jogos.

No mesmo horário de término do jogo com triunfo senegalês, uma senhora que aqui é pedinte há bastante tempo retorna em busca de mínimo sustento. Seus filhos já não são pequenos e agora buscam driblar as condições desfavoráveis em busca de emprego ou desviando do mundo mais ilícito de drogas e assaltos. Nada fácil. Frutas e leite e um papo cordial são o que minha mãe oferece à senhora. Um de seus filhos é Romário e, não recordando o nome dela, apenas a lembro como Romária.

Com outros endereços, certamente não são poucas as pessoas nessas condições no município e região. Políticas públicas insuficientes, políticas privadas desinteressadas, procurando apenas por consumidores e não por fazer caridade ou procurando apenas a solidariedade como troca por promoção de carisma e serviços aos olhares dos aí sim consumidores, potenciais clientes. Trocas de favores e espelhos. Reflexos e vitrines.

Em outras cidades gaúchas, incluindo Pelotas, como estão os imigrantes senegaleses? Um momento de cessar o trabalho ambulante, as vendas nos centros e focar um pouco no jogo, na ginga. Um resultado favorável, uma vitória consistente. A alegria nos olhos e nos corpos. Vencer o preconceito é uma batalha muito mais árdua, mas que tal esse tapa no frio, tapa aos que oprimem, deixam mal vistos os imigrantes de hoje, esquecendo suas raízes italianas, alemãs e de outras etnias que um dia foram imigrantes, estrangeirismos nessas mesmas terras.

Numa primeira rodada em que a Alemanha perdeu e numa Copa em que a Itália nem está, a vitória imigrante do Rio Grande do Sul na estreia da competição foi senegalesa. E são tantos os homens e tantas as mulheres, tantos os descendentes, mais diretos ou de povos passados do continente africano, tantas as histórias de linhas torcidas a procurar seus triunfos no dia a dia nesses lados do mundo.