Emitaï é um filme senegalês, na direção de Ousmane Sembène. O diretor é uma importante Ponte para registros e lutas do povo de Senegal, sendo um dos principais nomes na cinematografia africana, defensor da soberania do continente frente aos colonizadores europeus. Em questão, o filme trata da resistência de uma comunidade, uma aldeia senegalesa ao expansionismo e abusos cometidos pela França.
A época retratada é da Segunda Guerra Mundial, com referências de troca de comando Militar na França, de Petain para Charles de Gaulle. O acontecimento inclusive gera troça no filme, quando senegaleses que haviam se aliado voluntariamente à França questionam como poderia um general duas estrelas suceder um marechal de sete estrelas.
O que ocorria? A França, colonizadora sobre Senegal, capturava homens para os enviarem à força para Europa, para lutarem no front contra a Alemanha nazista. Mas também nem sempre foi nessa toada, pois o próprio Petain era acusado de aliviar para Alemanha, temendo maiores perdas e derrotas, de modo que a rendição francesa se deu menos tumultuada do que poderia ser. Entretanto, para Senegal, a guerra já estava formada e dificultando a população sob o domínio dos generais franceses.
Nessa comunidade, um símbolo e principal alimento era o arroz. Produtores de arroz naquelas terras, os campesinos deveriam ceder a produção para alimentar os exércitos franceses rumo às batalhas. Desfalques incontornáveis. O arroz também é protagonista quando um dos líderes da aldeia falece em ritual de invocação aos deuses e seu ritual fúnebre deveria envolver as cantorias das mulheres e a oferta de arroz.
Mas o arroz estava totalmente em disputa e requisito francês. Os militares que controlavam, que cercavam a aldeia e ditavam as regras tinham ordens superiores de levarem as sacas de arroz rumo aos exércitos em guerra. O filme relata o saque em que os brancos submetem os negros a essas humilhações. As mulheres da aldeia cuidavam dos estoques e se revoltaram em esconder os suprimentos. Até que os sacos de arroz aparecessem, todas foram colocadas sob guarda, sentadas ao chão no sol, algumas com crianças de colo por criar.
No papel histórico, o filme relata como as comunidades africanas se dividiam. Havia os conquistados pela lábia, pelo poder e pelos subornos franceses. Homens jovens que preferiam voluntariamente lutar pelo lado da França mesmo que contra seus compatriotas senegaleses. Na selva, também chama atenção o que poderia resultar problemas de comunicação quando comunidades, cada uma à sua criação, a seu modo, cruzavam caminho. Sem a unificação idiomática, que até hoje em África é tabu, é desafio cultural, pelas separações, reuniões de divisões de fronteira e imposições culturais dos colonizadores, a desunião idiomática poderia se mostrar mais uma forma de conflito que desafiasse a unificação das causas em prol dos povos originários africanos.
Mas nesse filme, o conflito está entre os armados e os desarmados. Os defensores da cultural original e os rendidos aos colonizadores. A força das armas em predomínio à crença aos deuses. O filme mostra rituais de invocação religiosa, ritos, sacrifícios, como de galinhas e cabras, passeatas e danças. É uma mescla documental, dramática e suscitadora de suspense. Embora saibamos dos conflitos entre colonizadores e colonizados, muito e cada vez mais se aprende através dessas mostras. Como recrutaram homens e lhes deram armas, na sedução do poder e de ofertas superiores - como se comprava inclusive a honra. Como muitos resistiram, apesar de tudo. O diretor Ousmane Sembène dedica essa e outras produções aos que resistem em nome dos antigos, em nome do povo de África, contra a expropriação, contra a exploração, contra a velha e a nova escravidão do povo negro.
Nota final de Emitaï em 4,5 / 5


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