21/12/2025

Dane-se a Morte (1990) / No Fear, No Die

Filme francês da diretora Claire Denis, o longa conta a história de Dah (Isaach De Bankolé) e Jocelyn (Alex Descas), dois migrantes, um das Antilhas, outro de Benin, africanos, negros, tentando sobreviver à França. O contexto é após a colonização de diversos países africanos por parte da França, mostrando a dificuldade desses jovens em se adaptar à mudança de país, aos sub-empregos, à ilegalidade e à frequente ameaça de tornarem-se alvo de operações policiais.

O centro da trama são as rinhas de galo, em que os garotos, sendo sócios, protegendo-se um às costas do outro, elaboram parcerias e organizam o ambiente, os treinamentos e as batalhas nos fundos de um restaurante, um café sub-urbano. O sócio dos garotos é um magnata influente e mau caráter. Ao longo da trama, todos se envolvem de alguma forma, criando afetos pela garçonete Toni, que atende no restaurante que serve de fachada ao maior fluxo de caixa: as rinhas de galo.

Um ponto importante do filme é a consciência dos migrantes, quando, por exemplo, sintomaticamente, Jocelyn observa que aquela história não duraria para sempre. É a tônica de programações clandestinas. Tráfico de drogas, tráfico humano, rinhas de galo clandestinas. Nada disso favorece a quem está ganhando por muito tempo. Clientes insatisfeitos, denunciantes, policiais à paisana e, no caso das rinhas de galo, a própria inconstância na dependência da saúde dos animais. Lutam galos, lutam francas, Jocelyn as prepara e até se afeiçoa. Ele, distante de casa, com saudade da família, com sua breve história de vida narrada pelo companheiro nessa partilha.

Os homens brancos, é óbvio, tentam se aproveitar deles. Fazem com que morem no mesmo ambiente onde ao lado ocorrem as disputas. Cobram disposição, preparação, divisões desiguais. O negócio era de fato uma contra-relógio, em um drama que se arrasta com algumas formas de violência, sejam as mais diretas, na luta clandestina com os animais treinados a dedicarem-se a isso, seja na violência de gênero em que Toni é cobiçada e submetida às escolhas de terceiros, ou a violência de classe, ao mesmo tempo racial, da controladoria dos negócios dos homens que ameaçam, por vezes, deportar os forasteiros. A clandestinidade como uma corda bamba, como uma bomba que pode ser desarmada ou explodir no corte de um fio errado.

O nome do filme é sugestivo, inspirado na nomenclatura de um dos animais de briga. Ao longo do filme mesclam-se questões como o direito dos animais, a necessidade dos jovens em sobreviver, evocando esses debates morais na reflexão de cada espectador. Os animais eram alimentados, treinados e até afeiçoados, principalmente por Jocelyn, com muito esmero e cuidado. Mas, o produto final dessa criação são as lutas, que provocam dor, violência e a sangria das pequenas aves. No clímax, toda a pressão sobre a cabeça de Jocelyn pode ser fatal. Não só sua sobrevivência em ambiente estrangeiro e hostil, a pressão para receber algum dinheiro que sobre para futuros planos, pois ele tinha a consciência de que aquilo não duraria para sempre, e a paixão que era evocada sobre a pessoa de Toni, pela qual os sócios, brancos e negros estavam interessados. Não há outra mulher a circular no filme por aquele ambiente masculino, tóxico, como dizem, em atmosfera que os clientes gostariam que lembrasse cada vez mais das disputas originárias de latino-américa, como de Porto Rico.

Nota final em 3,5 / 5

Nenhum comentário:

Postar um comentário