Mais documental do que fictício, o longa de 1h39min acompanha a vida de duas mulheres palestinas e suas distintas funções sociais, seus modos de encarar os problemas. Uma é viúva, dona de casa, que criou dois filhos sozinha. Outra é uma mulher moderna, que sai para trabalhar, escritora e professora de literatura.
A viúva de mais idade se queixa sobre a falta de terras, pois o filme nunca perde de vista a história entre Palestina e Israel, Israel e Palestina. A introdução do longa aborda de forma escrita a cronologia em que foi definido por conselhos europeus, sobretudo britânicos, que os judeus seriam reunidos na Palestina. A Palestina em si estava então sob domínio dos britânicos. Após o genocídio da Segunda Guerra Mundial, foi declarado em 1948 o Estado de Israel em terras palestinas. Sob a alegação de "ausentes", muitas propriedades foram tomadas pelos novos moradores judeus. Houve, entre os acontecimentos, a Guerra dos Seis Dias e o confronto de ataques de Israel em escalada ao Egito, a Guerra de Suez. Tudo isso impactou com a ocupação de Israel cada vez mais a dentro da Palestina, com postos militares, instituição de leis e regras como toques de recolher, apropriação dos recursos na tomada dos postos de trabalho e ditames para contratações, colocando em risco sob desemprego e mapa da fome para milhares de palestinos.
É nessa queixa que se orientam os votos da viúva, que reclama suas terras familiares perdidas há cerca de 30 anos (quando gravado o filme em 1980). Ela permanecia na esperança de recuperar a terra, enquanto outros de seus familiares já haviam tomado rumo para Líbano e Jordânia. Os filhos pretendiam aceitar a conciliação por trocar qualquer demanda por aquela terra em troca de outra. A viúva, insistente, para eles teimosa, seguia na ânsia de recuperar o local de sua primeira morada, herança de seus antepassados.
"Quando se luta muito contra a realidade, contra as forças exteriores, não sobra tempo para lidar com a vida interior". É o ensinamento nesse filme em que as mulheres, dentre todos os habitantes na Palestina, têm de lidar com os problemas internos de sua sociedade, além do que é imposto a todos pela política militar israelense.
Acredito que o grande conflito do filme, das vivências, seja o conflito entre progressismo e conservadorismo nos dois estilos. Surpreende que a viúva, conservadora quanto ao estilo de vida das mulheres, seja a que mais lute por suas terras e direitos palestinos contra Israel. A escritora, trabalhadora assalariada, à primeira vista progressista pelo direito de estudar, de lecionar, de trabalhar fora, se respalda mais a esse modo de vida israelense em que a mulher está emancipada financeiramente, sem depender tanto de um marido, sem estar atrelada a machismos culturais. Isso é complexo de se entender, pois é uma diferente cadeia de lutas, de pautas e até de consciências (de classe).
Ao mesmo tempo, a professora é consciente da submissão palestina ao exército de Israel, o que ela repassa através da literatura, das canções populares e de seu conhecimento em História. De modo mais informal e sentindo mais na pele, a dona de casa viúva também sabe disso. Um ponto de vista interessante da professora não ter empregada doméstica é que ela até tenta justificar pela divisão de seu salário, mas sua principal justificativa é que não é justo que as tarefas caseiras mais ingrata receiam sobre outra pessoa, o que seria responsabilidade sua. Para ela, escravizar uma pessoa assim também gera uma angústia, uma escravidão, uma privação sobre o opressor. É um sentimento de culpa que pareceu faltar na era colonial, na exploração de muitas nações sobre as outras, inclusive no próprio conflito: exploração de Israel sobre a Palestina.
Desde a década de 80 e de antes, se questiona essa contradição entre o papel da mulher pela libertação de um Estado mas em meio a uma cultura que a reprime. A escritora confessa vontade de fugir, mas se reorienta, pensa também nas boas pessoas de seu Estado, recoloca-se em voga por suas aulas, por seus alunos, o trem de volta aos trilhos. Ao passo que Israel numa cultura dita Ocidental daria maior liberdade contra a repressão da mulher, é a ocupação, a invasão do Estado de Israel por sobre a Palestina que provoca uma repressão generalizada sobre o povo que ali já ocupava. A perda de direitos de ir e vir, de cultivar, de gerir, de acesso ao mar, aos portos, às mercadorias. É muitas vezes o direito à herança, ao solo, à pátria e à cultura.
"O passado não pode ser esconderijo. Nem o presente. Há fuga e há luta. A mulher está presa entre elas."
Ao final, o filme homenageia
Aos torturadores de homens cegos
Aos exércitos conquistadores de pequenas aldeias
E
Aos açougueiros de infância.
Sinopse
Primeiro longa-metragem filmado dentro do território da Palestina chamado de “Linha Verde”, localizado na fronteira com Egito, Jordânia, Líbano e Síria, combina ficção e documentário ao narrar a história de duas mulheres muito diferentes: Farah Hatoum, uma viúva de 50 anos e trabalhadora de Nazareth, e a escritora Sahar Khalifeh, que se divorciou e vive com a filha na área de West Bank, em Ramallah, região ocupada por Israel desde 1967. O diretor observa bem de perto o dia a dia das duas mulheres e elabora um retrato da condição da mulher na sociedade palestina, da vida dirigida pela ocupação e da dominação masculina. A história, a realidade, o futuro, as contradições da Palestina são refletidas através destas duas mulheres, a intelectual e a trabalhadora braçal – ambas na luta por liberdade e dignidade.
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