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26/12/2025

Winaypacha (2017)

Filme peruano gravado no alto dos Andes, em terras inóspitas, quase desabitadas, onde, de repente, até os deuses são dificeis de se contatar. O jovem diretor responsável foi Oscar Catacora, ele com nome do alto grau de premiação americano, mas que faleceu aos precoces 34 anos durante gravação de outra filmagem. Winaypacha também é traduzido com o nome de Eternidade, e seu trabalho não deixa de ocupar essa lacuna na história do Cinema latino-americano.

Com apoio governamental nos incentivos à Cultura, Winaypacha foi exibido em mostra de filmes peruanos. O foco da história são dois idosos que vivem solitários nas montanhas, se comunicam em dialeto diferente do Espanhol, criam ovelhas, contam com um cão, uma lhama e esperam desesperados pelo regresso do filho Antuku, que foi tentar a vida na cidade grande. Em resumo, é uma história muito comum à resistência rural frente à agressividade da migração para zonas urbanas, de modo que são abandonadas pelos jovens as tradições, os modos de vida simples e rudimentares.

Uma das abordagens é a dificuldade que os idosos padecem independente de onde vivem. O idoso Wilkka reclama do cansaço, da exaustão e que certas funções laboriosas não cabem mais ao seu corpo envelhecido. Os diálogos são absolutamente simples, mas carregados de ternura, do carinho de um relacionamento longo onde também não há mais escolha, mais o que fazer, mas que o companheirismo prevalece na sobrevivência do casal nas montanhas. Eles rezam, realizam suas funções de manutenção da casa e colheita e pedem pela volta do filho, o qual eles não veem há muitos anos. Phaxsi, a esposa, começa a perder a esperança do seu regresso. É o assunto principal entre eles: a eterna espera. Em algum companheirismo a história de tecer na espera por Ulisses em A Odisseia, Phaxsi passa boa parte do tempo a tricotar gorros, ponchos e casacos ao exausto marido Wilkka. Produções peruanas de um artesanato que podemos conferir em populares feiras brasileiras.

O filme, que inicia devagar, ponderado na ternura, na simplicidade do modo de vida, carrega contornos dramáticos com o rigor do inverno, com a falta de fósforos que ameaça a sobrevivência conjunta. Wilkka resiste em não querer viajar à cidade, com receio da travessia longa, da exposição aos perigos e do cansaço. Apesar das frequentes rezas e orações, uma avalanche de problemas paira sobre o casal. É difícil não se emocionar com a morte das ovelhas, devastadas por algum predador que eles, pela experiência, supõem ser uma raposa. O cachorro, fiel acompanhante de Wilkka, ao lado da casa ou na necessidade de saídas, também desaparece, provavelmente perdido nas trilhas.

A falta de fósforos e o rigor do frio faz com que a dupla tente interceder pela manutenção da fogueira. Antes, as constantes chuvas obrigaram a construção de um telhado extra com palha. A combinação de fogo com a palha pode ser fatal. Envolto em problemas, o casal vê as forças se extinguirem e a esperança ser um ente distante. É um filme de drama, de reflexão, em que a simplicidade do modo de vida milenar nem sempre supera as adversidades de um clima hostil, quando os problemas se acumulam. A morte precoce de Oscar Catacora relembra a morte precoce do uruguaio Juan Pablo Rebella, promissor diretor latino-americano responsável por 25 Watts e Whisky, duas películas aclamadas pela demonstração do modo de vida classe média uruguaio/argentino. Com dois filmes de simplicidade e potência, Rebella faleceu aos repentinos 32 anos. Em Oscar Catacora, o tributo à vida nos andes, nas montanhas, na ruralidade peruana, distante dos grandes centros como Lima, perto dos deuses, mas estes que nem sempre estão prontos ao atendimento. Nós, silenciosos da vista, da exibição, nos aprontamos a aclamar ainda silenciosos em um inclinar de cabeça.

Nota final de Winaypacha em ⭐⭐⭐⭐

11/12/2025

É Noite na América (2022)

É Noite na América é um documentário de 1h06 em uma co-produção entre Brasil, Itália e França com assinatura de direção da jovem Ana Vaz. Nascida em Brasília, sendo ela um pouco mais jovem do que a jovem capital federal, Ana tinha à época 36 anos e mostrou o comportamento brasiliense em relação com a fauna local.

O ponto de vista dos animais é fundamental na narrativa, em cena marcante que, enquanto nosso olhar não se volta aos bichos, no filme se volta aos bichos, mas, mais do que isso, é elaborada uma reflexão em que o interno dos olhos animais confrontam a relação com a humanidade. Os animais nos olham de volta. O filme avalia a situação de onças pintadas, ariranhas, saguis, serpentes e tamanduás bandeira e mirim, entre outras espécies, muitas delas na ameaça pela extinção. A culpa humana é delegada em imagens e entrevistas. O crescimento desordenado de nossas cidades em contraponto à perda de habitat da natureza é o resultado da mostra documental.

Brasília é exibida desde sua fundação, desde imagens antigas de zoológico, passando por seu crescimento em novas ruas, arquitetura e rodovias que cortam o Planalto Central brasileiro. O zoológico aqui não é mostrado como culpado ou capturante para excluir da natureza. Pelo contrário: o zoológico é uma resistência de animais que foram salvos, mas não tem maior condição de voltar para o habitat natural. Dessa forma, espécies são realocadas em cativeiros e convivência com semelhantes em menores espaços artificiais, mas como forma de manutenção do indivíduo, não de desproteção ou exclusão da espécie.

Como forma narrativa, o documentário traz entrevista e imagens de cuidadores, exemplo de chamada telefônica para o controle ambiental e demais autoridades em como lidar com o resgate e captura de espécies ameaçadas - e às vezes ameaçantes - na perigosa cruza entre ser humano e animais nativos. O filme de Ana convida à reflexão do papel humano em seu crescimento desordenado, desordenante de recursos e de proteção animal e vegetal. Como a selvageria das rodovias cortam o habitat de animais como os tamanduás, os maiores ameaçados de extinção ao passo que ao menos os mirins estão mais seguros, mas muito em função de estarem espalhados pelo território de diferentes países, inclusive ao território andino, mais afastado. Os bandeira, ao contrário, estão extintos em alguns estados como Santa Catarina e necessitam de grande proteção onde ainda resistem. Triste pesquisa resulta após o filme em descobrir que a pequena cidade de Ariranha no estado de São Paulo tem população humana superior à população total estimada das lontras ariranhas em nosso país. Mais uma perda preocupante da ordenação humana descontrolada, das caças e da violência de nosso convívio agressivo com as espécies nativas.

De Brasília, cidade criada mais artificial que outras artificialidades das construções brasileiras (nem entremos na invasão europeia à mata nativa sobre os indígenas), de Brasília percebe-se o estimulante centro cada vez mais em densidade populacional, em exploração de recursos e transposição comercial para dificultar a manutenção e sobrevivência das espécies. É importante o trabalho relatado no documentário de Vaz porque alerta sobre risco de explorações que podem se tornar irreversíveis, às pobres espécies cada vez mais indefesas e à própria humanidade em seu convívio desarmônico no que tange o clima e a natureza geral. A cena final da queda d'água dá ideia entre o mutável e o imutável, da avalanche de desgraça que o ser humano provoca e da avalanche de resistência que a natureza se permite em seu fluxo, por assim dizer, natural.

Nota final para É Noite na América:

⭐⭐⭐⭐

01/08/2025

Carnaval na Lama (1970)

Acabei de ver que um filme de Sganzerla se perdeu

E agora estou triste

Pelo filme que não existe

Era uma última cópia 

Quem será que viu por último?

Um país que se sabota

Carnaval na Lama em setenta

O Brasil debaixo do chumbo

Como um fumo na placenta

Sganzerla era da arte

E a arte era dele 

Era dela, era nossa, de Sganzerla 

Sganzerla era parte

Era regente, criador do que nasce

Observador do que existe

E eu sem seu filme

Agora estou triste

Contra canhões o dedo em riste 

Um país tão pouco nacional 

O patriotismo dos yankees 

Seria mero coadjuvante no cinema tropical

O patriotismo dos yankees

Seus ataques e seus tanques

Só seriam bonitos em um modo de defesa

Mas atacam gente indefesa

Enquanto a mãe natureza 

Arma golpe tão fatal

Pau a pau

06/07/2025

Historia y Geografía (2023)

Um filme contemporâneo de Chile 🇨🇱. Direção de Bernardo Quesney. Uma atriz de televisão tenta voltar à ativa com uma peça ousada sobre a colonização do país andino. A história de sua peça teatral seria de como os povos originários derrotaram o saqueador e governador espanhol Pedro de Valdivia, um dos fundadores da capital Santiago.

Conhecida pelo papel de Huachita, uma personagem cômica de um humor grosseiro que passava na televisão do Chile, com desafios aos bons costumes, mas mais extravagâncias ao papel feminino do que críticas bem elaboradas. Assim, conhecida pela comicidade, Gioconda Martínez (Amparo Noguera) jamais era levada a sério. Qualquer projeto que ousasse fazer seria sempre castigado pela difamação de seu passado perseguidor. Com o intuito de movimentar sua vida financeiramente com essa peça, ela pede ajuda ao prefeito que buscaria a reeleição na próxima oportunidade. Pressionado por um possível afair passado, o prefeito destina a verba ao projeto, mas é apenas o começo dos problemas.

Treinar um grupo de atores teatrais, mesmo ou justamente porque possuíam experiência, selecionar o roteiro e os atores a cada papel são missões que estão fora do alcance da atrapalhada heroína, sempre perseguida pelas horrendas sombras do pretérito. Inimizades, conflitos sociais, raciais, envolvimento de imigrantes haitianos - tema comum para Rio Grande do Sul e outros estados brasileiros - aparecem na trama, que vai mais do constrangimento do humor do que um drama que se pudesse desenhar. Apesar do objetivo humorístico, a vergonha construída é imperial, causando o desconforto do que seria proposital ou não. Talvez aí esteja a mágica proposta por Bernardo.

A ideia de filme dentro de filme já foi abordada por este escriba recentemente ao relatar o longa Em Busca da Fome, de produção da Índia. Pois desta vez trata-se do velho tema da produção teatral dentro do espaço fílmico. Os ensaios, os dramas pessoais, os preconceitos apresentados por parte dos atores, os temperamentos explosivos são abordagens do filme de 2023. A vida dupla, a intromissão do pessoal no profissional, e do profissional no pessoal estão presentes.

Com diversos conflitos, do familiar às relações trabalhistas, os financiamentos obscuros, o valor da arte como temas marginais, o longa chileno perpassa a vida confusa da personagem principal, Gioconda Martínez. Habilitada diretora, Catalina Saavedra também aparece entre as atrizes do filme. Com polêmicas entre relações e algumas cenas de nudez, o longa encaminha seu final explosivo em mais uma bomba de constrangimento, o que lembra até a cena de palco do final de Substância- embora o norte-americano tenha sido lançado depois, diga-se.

É essencial não perder de vista a temática sobre a colonização, o abuso das autoridades espanholas para cima dos povos originários, situação comum com tantos países da América Latina, e sobre o Brasil com maior influência do desmatamento proposta pelas forças de Portugal sobre os indígenas. O termo indígena mais constantemente usado no Brasil, na abordagem correta chilena trata-se por povos originários. Embora no Brasil também ouça-se mencionar dessa forma, mas com predominância do uso "indígena" para designar os nativos.

É também essencial centrar a análise nos malefícios da fama, da baixaria apresentada em programas televisivos, na impossibilidade de passar uma borracha sobre passados vexatórios, tudo isso envolvendo a desarrumada carreira da constrangedora Gioconda Martínez, uma atriz decadente com delírios de grandeza, quando sempre que se apresenta lembrada é por situações estapafúrdias.

Nota final para História e Geografia (2023)

⭐⭐⭐½


24/04/2024

Vale das Bonecas (1967) e Terras (2009)

Acabo de ver o filme Vale das Bonecas, direção de Mark Robson, de 1967. A primeira crítica que leio sobre foi a de entregar a direção nas mãos de um homem. O filme tem total protagonismo feminino, através da história de três mulheres. Ou quatro. O destaque vai para cantora Nilley O'Hara, rejeitada de um musical por uma invejosa veterana, dona do espetáculo em Nova York. Ela busca a carreira na parte oposta dos Estados Unidos, em Los Angeles. Mas seu vício por pílulas vai colocar tudo a perder. É sobre ascenção e queda, o vício, a indústria, a substituição, a obsolescência programada. Pessoas substituíveis e uma engrenagem de espetáculo que não para, empilhando atrizes e atores descartáveis. Aqui a ênfase nas mulheres, substituíveis tão logo passem seus auges, suas mocidades. 

Mulheres que são usadas por homens ricos, por donos dos estúdios, das gravadoras, da programação. Homens que escolhem, apontam dedos quando ninguém os aponta. A crítica inicial ao filme é que o diretor aliviou a crítica para os papéis masculinos, consideração com a qual concordo. Pelo ponto de vista do mostrado no filme, que é baseado em um romance feminino da época (da autora Jacqueline Susann), parece que as mulheres brigam entre si, surtam entre si, enquanto os culpados saem pela tangencial da inocência.

Pois no mesmo dia recebo a fofoca de que duas ex-colegas de escola estão passando pela prostituição em grande centro brasileiro para serem investidoras desse dinheiro na cidade natal delas, no interior. Andam com magnatas, se vendem corporalmente em troca de pequenas ilhas de luxo, talvez carros do ano, quartos de hotel com boas vistas e relógios que custam mais do que minha conta bancária acumulada. Empreendedorismo bonito de rede social, com fotos chiques, roupas da moda, corpos bronzeados e autovenda no açougue aos olhos.

Interessante ter escolhido assistir a esse filme norte-americano na noite anterior a receber essa notícia. Interessante que as mesmas irmãs que agora são empresarias neste ramo aproveitem sua juventude ao passo que recordo criticarem na época uma colegial que já se vendia e usava drogas. Assim imagino outras da época. As que prosperam em carreiras de estudo e devoção a outros trabalhos mais bem anunciáveis são pouquíssimas. O que a tentação e o capitalismo não fazem? O prazer imediato de quem compra, o prazer quase imediato de quem vende e em seguida recebe em troca. Ou até durante. Ou até recebe antes, na troca de promessas. Corridas em carros de luxo, hotéis altos, cafés da manhã, sorrisos brancos consertados, publicações cheias em vidas vazias. O que farão futuramente? Terão história para contar. Ascenção e queda.

A carreira dos holofotes concorridos nos Estados Unidos, os perfis de Instagram com seguidores anônimos. Quem realmente liga para a história que está ali? Quem liga para o abuso de comprimidos, para os preservativos descartados a cada uso, para as pessoas que passam e não ficam sequer para arrumar a cama? O quanto os empresários ligam para suas supostas estrelas, para substituição entre um espetáculo e outro, às vezes entre um show e outro?

Para completar emendo assistir ao documentário Terras, de 2009. Imaginava algo oriental pelo nome da diretora ser Maya Da-Rin. Mas é amazônico. Amazônico na sua essência. As entranhas da floresta. A fronteira entre Brasil e Colômbia, sendo uma das cidades chamada Letícia. Anônimos que fogem de guerrilhas, que vendem batatas, cebolas, artefatos. Indígenas originários, brancos invasores. Quem disse que o modo de vida comercial capitalista é o correto? Quantas gerações de indígenas passaram? Ok, vivendo menos, até os 30 ou 40 que sejam, mas por milhares de anos, enquanto nosso modo de vida industrial acabará em ilhas enormes de plástico nos oceanos, terras e seres para cultivo exterminados, garimpo, gula, egoísmo, extração final de recursos. Nosso modo de vida proposto pelos industriários e verdadeiros capitalistas detentores acabará com o planeta em pouco tempo. Mais algumas décadas, mais tardar século, se não com as bombas, drones e guerrilhas armadas no Oriente médio, Ásia, Europa ou respingos aqui. O nuclear é potente.

Uma indígena afirma que antigamente tudo era compartilhado, enquanto o dinheiro hoje é um modo que cada ajuda, cada competência, cada correspondência entregue é cobrada ou nada feito. É o modo com que aprenderam dos brancos.

Quem está em capacidade de julgar atrizes excluídas e decadentes, prostitutas, indígenas corrompidos, indígenas que participam da corrupção ou dela são somente vítima? Quem está no julgamento de gente que perde o rumo seja pelo desespero da primeira fome ou pelos anseios de diamantes falsos da segunda fome, a espiritual ou só do mundo das aparências?

Certa vez cheguei a me indagar porque alguns poucos milhares de indígenas precisariam de áreas grandes do tamanho de estados, mas imagine a importância da preservação de terras, de natureza e o impedimento da ganância máxima. Por que os originários que tanto sofreram na mão dos brancos em matanças, escravização, imposições religiosas, imposições de costume não podem ter seu espaço de preservação enquanto empresários 1% mais ricos detêm a riqueza de milhões e milhões de nosso povo? Em terras, heliportos, empresas sonegadoras, financiadores de armas, de drogas escondidas e achadas, terras, terras e mais terras. Nós cada vez mais longe de devolver para os indígenas como hoje em dia só propõem da boca para fora, do sonho radiante, esvoaçante e passageiro como fumaça de cachimbo ou em postagens ligeiras de redes sociais. Para onde vamos e quem dá mais?

17/05/2023

Sempre mudo

Acho que obedeço demais

A régua das morais e dos bons costumes 

Como um peixe que nada livre

Ainda dentro do cardume


Acho que às vezes fujo

Cuja fuga reconheço 

E retorno réu culpado

Pro lugar que me é berço


Acho que brasileiro é bicho triste

Europeu é pra pendurar em cabide

Do velho continente vem enfermiço 

Pra nessas terras sem permisso 

A mexer no que não é dele 


Acho que misturo assuntos

Elogios com insultos

Companhias, oleodutos 

E termino sempre mudo

14/07/2021

Reflexões sobre o filme Salt and Fire

Não se escreve mais sobre as estrelas porque as cidades nem as deixam vê-las.

Aprendi que todos os gestos, ações e palavras podem contagiar os outros e criar memórias que nem fazemos ideia que geramos.

O deserto sempre é autoconhecimento.

Quando não houver mais para onde ir, para onde vamos?

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"A Verdade é a filha única do Tempo"

23/04/2021

Pós Travessuras da Menina Má

Comentaram intensamente sobre hoje ser uma dessas datas, um Dia do Livro. Mediante o conhecimento dessa informação, confesso um esforço a mais para terminar As Travessuras da Menina Má, mais um livro do peruano Mario Vargas Llosa, este que lhe rendeu simplesmente o prêmio Nobel de literatura. Cheguei à conclusão e não me surpreendi com o desfecho, sendo Vargas Llosa expert em preparar esses terrenos, que, se fossem comparados a terrenos, literalmente, seriam terrenos castigados pelas ações corrosivas do clima e pela ação degradadora do ser humano.

Mais uma vez encontro-me diante do cursor do mouse que pisca e me convida a transpassar minhas impressões para o espaço em branco. Imagino, nessa hora, o saltear dos demônios internos em direção à máquina, para o devido lugar em que ora tento posicioná-los, enfileirá-los, domá-los. Tarefa difícil que somente cada escritor sabe o quanto enfrenta. Nessas horas, penso também em todos aqueles que passaram por essas missões com a pena e a tinta em mãos, nos pergaminhos demorados e sagrados de antigamente.

Este livro abriu um preâmbulo sobre a vida que tenho a encarar pela frente. Missões e mais missões como essa que ora me dedico. O personagem principal, um tradutor, um peruano que lançou-se à Europa como meta e sonho, o principal deles viver em Paris. O reencontro com a menina que realmente amou. Ela nunca o tratou bem. Ele é insistente por ela, mesmo sendo usado. Me faz questionar o que temos de propósito para essa passagem, para essa existência. O trabalho dele, que circunda a narrativa, a tradução, é bastante nobre. Embora muitas pessoas reduzam o valor presente nas palavras, imagine o inalcançável tom que diariamente nossas palavras, mesmo o que aqui escrevo, não encontram na maior parte da humanidade, porque a maior parte da humanidade não dispõe dos conhecimentos necessários para decifrar o que é dito ou escrito em nosso idioma. A tradução é fundamental. Os tradutores, de encontros da Unesco, como ocorre no livro, ou em outras ocasiões, são também embaixadores pela paz. Mas esta ideia sobre a tradução apenas permeia a narrativa principal: os encontros de Ricardito com a menina má.

A transposição das ideias desse livro, que não fui atrás da informação mas deve ser de conhecimento a nível mundial, vide o prêmio Nobel, para indicarem algum rumo à minha vida é um egocentrismo desvairado. Por óbvio que é. Mas, ao mesmo tempo, me encontro contente pelo papel que a arte desempenha em atiçarmos-nos, em buscarmos inspiração, coincidências e motivações. A arte cumpriu sua missão. Foi um pouco antes de iniciar a leitura dessa narrativa, mas após já ter a ideia de comprar o livro, sem saber exatamente do que se tratava, foi aí que aprofundei, afunilei minhas conversas com a que tracei o paralelo de que ela é a minha menina má. Tal qual a personagem principal, a amante de Ricardito na história, ela também oferece um amor até inesperado pelo que se propõe entregar-se em madrugadas. Promete, estende tapetes e logo recolhe mundos e fundos. Tudo isso pelo efeito do álcool ou pelas suas ideias mais resguardadas que erupcionam verdadeiras nessa hora. Com minha maneira de gato escaldado, mantenho o pé atrás, a distância necessária, mas pronto também para um possível recuo estratégico que represente o impulso para o grande salto. É sempre um risco, mas é uma aventura, uma adrenalina, uma vertigem, um sentimento de sentir-se vivo que muitas vezes parece em falta nas gôndolas padronizadas dessa passagem. Tal qual Ricardito, sinto que saltaria por ela ou faria outras loucuras ou, como na própria linguagem do livro, faria as breguices que fossem necessárias como provas intrínsecas à essa situação.

Se preencho bem essa lacuna como o Ricardito, por sua vez, sei que ela enfrenta sentimentos suicidas e a incredulidade quanto ao amor romântico. Também me posiciono reticente quanto a isso, mas o sabor dessa vivência como um sabor de sorvete que sabemos não voltar a experimentar da mesma forma, parece-me válido. E quanto mais ela repete que no amor romântico não acredita, mais estudo aplacar nisso um reverso em que na verdade ela acredita, caso contrário não o citaria tantas vezes. Por que tanto falaria de algo que considera não existir? Ao mesmo tempo sei o quanto ela se sente confusa, talvez exatamente por esse conflito interno: existir ou não existir? Eu ou quem nessa narrativa? Como ela é muito acima da média em todos os requisitos, não me tardaria criar fantasias ilusórias e de ciúme sobre quem ocuparia meu lugar quando ela passar a acreditar no que afirma não crer. Não acredito em destino, mas considero muito bonitas as nossas coincidências.

Não acredito que meu destino seria tão belo quanto ela. Distante do positivismo, afastado dessa possibilidade afirmativa, o mais comum seria aceitar que ela realmente não crê na exploração de um amor romântico, este que seria altamente lindo enquanto durasse - quanto duraria? tu também, "Ricardito", tão efêmero sentimentalmente e enjoado e criador de fantasmas paranoicos buuuuu - ou, caso ela acredite, caso ela passe a acreditar, não seria contigo, Ricardito, por que seria contigo? Que tens de mais? Tu que, sendo tradutor ou professor ou o que for, também não terás os recursos para o conforto e a hospitalidade necessários para essa vida conjugal burguesa. Tu que, em casa, encontras apenas o exemplo pragmático de teus pais, que se confortam no desenvolver das tarefas, mas enxerga neles o auge da primavera amorosa como passado, distante do despertar de cada nova manhã e do horizonte futuro. Tu que, mesmo assim, lê, ou melhor, apenas passa os olhos, ignora as dores, os espinhos e os machucados das entrelinhas e aceitaria os termos de uso. Tu que avalia que é melhor existir o amor nessas condições efêmeras que findam logo adiante, em alguma esquina, do que conviver com a inexistência dele. O vazio de não vivê-lo. Pois é, pois é, talvez seja melhor pegar a lupa para esmiuçar a leitura das tais entrelinhas. Elas são perigosas. Alta periculosidade.

Enquanto isso, barcos que se movimentam no fluxo fluvial de algum porto. Não falando agora de amores, mas de livros, obviamente. O fluxo dos livros. Foi-se mais uma leitura e a próxima, o que poderá reservar? Tu, Ricardito (gostou do apelido, sonhador Ricardito?), tu que enfeitas tua existência no rabiscar mais ou menos ordenado das palavras, tu que és pastor delas e não te importas (não muito) que algumas te fujam o controle, porque sabes que faz parte na totalidade do rebanho. Tu que terminas mais um livro da leitura e pensa o que isso pode te ajudar num futuro teu. Num futuro, futuro mesmo, tempo a ser vivido, ou mesmo num futuro livro, quem sabe? Exatamente, Ricardito, quem é que sabe? Quem é que sabe de ti mais do que tu? Quem é que sabe da tua niña mala ou de que qualquer outra que te cruze o caminho? Assim sendo, que venham outros livros. És um influenciado. És uma esponja absorvente dessas narrativas. És um ser que vomita literatura sempre que termina alguma refeição oferecida por ela. Um anoréxico literário. Um viciado. Guardas quase nada em teu corpo, expões muito. Pões para fora. Um insaciado nesse campo difuso e eternamente exploratório, do qual nunca vencerás nem te darás por vencido. E nesse campo viverás, nas limitações e nas infinitudes previstas desse vasto campo.

Um sonhador que agradece aos livros enquanto não te encontras com as travessuras dessa ou daquela menina má.

11/03/2021

Esperanças Recônditas

Não, saí para respirar um pouco e estava a pensar que nem tudo que penso ou escrevo será aproveitado. Não, não na questão se vão ler e utilizar de alguma forma intelectual ou mais prática na vida. Questão de que nem tudo vai prestar. Deve ser comum para várias profissões, inclusive, como cozinheiros ou cabeleireiros. Não se acerta sempre. Talvez ainda sirva de aprendizado. Talvez.

Obviamente, o tempo útil de um texto também pode ser duramente afetado. A efemeridade. De repente, o que pensei ou teci por agora, de nada vai valer daqui a uns anos, daqui a uns dias, ou mesmo daqui a umas horas. O jornalismo impresso, gravado na pedra, está com o tempo como inimigo nos últimos tempos. As opções digitais podem ser facilmente alteradas. Marca-se (ou não) a data e horário da alteração e segue-se o baile. No impresso não, estará lá computado para registros póstumos.

Muitas vezes escrevemos por impulso ou por desabafo momentâneo. É geralmente nesses indutos que acabo escrevendo muita coisa. Será que minha racionalidade irracional ou irracionalidade racional terá fins positivos futuramente? Me importa que no momento em que foram escritas me valeram. Às vezes penso onde elas podem chegar. Velha metáfora da cartinha enrolada em garrafa em alto mar. Que os piratas possam surrupiar.

Erro muitas previsões, naturalmente, mas esses dias constatei que acertei sobre Flamengo e Palmeiras alternarem títulos de 2018 em diante. Realmente foram os únicos campeões de Campeonato Brasileiro até 2020. Flamengo ainda faturou Libertadores em 2019 e o Palmeiras a seguinte, em 2020. Monopólio do futebol nacional. Mas errei previsão, sim, pois acrescentei a esses dois clubes, o triunvirato do Corinthians, que tem ficado fora das disputas desde o seu título brasileiro de 2017. Tem contraído dívidas e não tem encontrado o seu melhor futebol em desempenho nas últimas temporadas. Devolvam o Luan ao Sul. Devolver o Luan seria um erro que eu estaria disposto a correr.

Vi uma dessas mensagens reduzidas em microblog - Twitter - garantindo a importância do amor e que deve-se apostar nele. Concordo, deve-se valer o risco. Mas fui ver quem havia curtido essa mensagem. Somente pessoas com namoro ou casamento adiantado. Talvez uma dessas pessoas não, mas na esperança. Pensei: assim fica fácil. As pessoas utilizam as suas vivências e experiências práticas como verdades absolutas. Não é bem dessa forma que a banda toca. Mas ok, admirável otimismo de vocês. All you need, etc.

E realmente é muito importante isso do amor. Do se sentir amado. Desperdicei algumas formas dele, reconheço. Talvez não tenham sido poucas vezes. Mas também imagino e reconheço que não o aproveitaria da melhor forma. Tenho meus impropérios (sentido 2º: censura injuriosa; repreensão) e minhas dificuldades para lidar com isso. Certa vez escrevi meio poema, meio aproveitamento aqui em prosa: saber lidar é o bastante. Como lidar é a questão.

Minha real preocupação antes de vir aqui são os cenários políticos. A polarização novamente está formada, Grêmio, eu te dou a vida, por esta jornada. Não, os cenários políticos. O otimismo total da liberação eleitoral para Luiz Inácio e seus discursos iniciais preponderantes. É uma luz, como foi classificado. O atual desgoverno inclusive passou a, vejam só, usar máscara na pandemia. Altamente radical. Lula é efusivo. Falou em ser radical para atacar as raízes dos problemas nacionais. Frase de persuasão e impacto. O Brasil era muito melhor no tempo do Partido dos Trabalhadores. Nas oportunidades, na renda, no controle da economia, que chegou a uma das melhores do mundo. Nas vagas universitárias e de ensino profissionalizante, nos auxílios desde a profissão de serviços domésticos até a quem estudava e procurava primeira oportunidade no mercado de trabalho. Auxílios para moradias, financiamentos, respeito internacional, comitivas bem recebidas e recebendo bem. Política participativa. Tanta coisa era melhor e foi sendo desmanchada desde o golpe de 2016. É completamente injusto comparar o governo anterior ao atual desgoverno. Não são duas faces da mesma moeda. Não são farinhas do mesmo saco. Não é uma escolha difícil, como pode sugerir o editorial de grandes jornais. Será que um dia esqueceremos esse editorial criminoso, que empurra o Brasil para uma das piores, se não a pior, gestão de pandemia no planeta? De um "líder" que não utilizava máscaras até Luiz Inácio ser liberado com seus direitos políticos a, quem sabe, se as coisas derem certo, concorrer. De um ignorante das questões sanitárias e de saúde. De um verdadeiro genocídio, pois que outro nome dar às vésperas das 300 mil mortes no país? Qual outro nome, vos pergunto?

Não é meu campo, não tenho formações em ciência política, então procuro absorver de outros especialistas, mas, irrequieto, também arrisco meus pitacos. É facilmente para registros póstumos que podemos afirmar que Lula é muito superior a Bolsonaro. Talvez sejam, inclusive, as extremas, as oposições, os que se diferem demasiadamente. O Brasil do PT da melhor economia, do Bolsa Família, do Fome Zero, dos programas sociais elogiados mundo afora, por ONU e outras entidades, pelos ensinos técnicos, profissionalizantes e universitários, pelas vagas ofertadas, pelos ataques que a grande mídia descarregava furiosamente, criminosamente com capas de revistas, com editoriais de jornais. E o Brasil atual de nenhuma responsabilidade social - já dizia o companheiro Marroni para outros - do colapso da saúde, porque as soluções anteriores ofertadas não foram procuradas. Porque as vacinas não vieram, demoraram a vir, passou-se todo o 2020 e precisou-se organizar mórbidos containers para arrecadar os corpos já sem vida. Vidas que não voltam mais. A economia ainda poderá voltar - mas digo, não com eles. O combustível vai seguir subindo, o gás de cozinha vai seguir subindo, os alimentos nas bancadas e estantes continuarão a subir em preço, ao menos enquanto o mesmo ministro da economia permanecer. Ele não sabe gerir, não sabe gerir para o povo, não sabe controlar a alta dos preços, vai desvalorizar a moeda real até os seus confins, vergonha internacional, mais uma a ser sentida, para as mais diversas críticas da imprensa de outros países.

Nem tudo que eu escrever ou pensar será aproveitado, mas novamente me encontro ao tentar alinhar os desabafos. Na certeza que o pior ainda não passou, mas pode passar. Na certeza que a saúde e a economia ainda descambarão suas tragédias em um tango longe de seu findar. Não há piloto, há cortinas de fumaça, mas o antigo piloto deu as caras. Pode retornar. Ou não. É o país das surpresas, das reviravoltas, da Justiça com suas injustiças. Ficou claro que ele poderia concorrer em 2018. Que sua sucessora foi deposta em golpe em 2016. Disso não há dúvida. Disso já sabíamos. Já deveríamos saber, embora muitos ignorem. E, na minha concepção, erre ou acerte, acredito na vontade popular de que ainda há possibilidade dele voltar a vencer. Mas são muitos fatores na tortuosa estrada. Se estará elegível ou não, na reabertura de processos judiciais e novo resultado de absolvição ou condenação. A depender de como será a futura campanha políticas. As futuras alianças a serem desbravadas. Sozinho, no campo de esquerda? Não há como. Mas seu vice anterior era José Alencar e houve o episódio mais do que conhecido com Michel Temer, além de José Sarney, Renan Calheiros e outros. Não há como acreditar na pureza, somente da boca para fora. Mas como serão as campanhas políticas em um país movido nas últimas temporadas a ódio? Altamente arriscado. A proximidade física, o aproximar com o povo, o corpo a corpo, ou manter-se a cautela para evitar uma catástrofe, uma tragédia, como já houve ataques violentos a tiro na fronteira do Rio Grande do Sul e como houve (ou não) o incidente que afastou candidato de debates em 2018. E pensar que hoje em dia quase tudo é no modo digital, nas câmeras, nos aplicativos zoom, nas aulas online, nos ambientes virtuais e na época ninguém obrigou a ocorrência de debate, mesmo à distância. Frouxidão e desgoverno, lado a lado.

Encerro por aqui sem a certeza dos acertos, mas com a consciência em alinhamento com o dever cumprido novamente, pelos meus impulsos para a presente época. Espero que os mais otimistas estejam certos com essa volta, pelo menos na semana, triunfal e rejuvenescedora. Mas entendo o processo como um caminho muito longo a ser caminhado. Tudo está distante do rompimento com as nebulosidades que ascenderam nos últimos tempos. Eles ainda têm o controle, o poder, as tentativas de veto, as tentativas de censura, as intimações, as armas na mão - como abordou Luis Fernando Verissimo. Eles ainda têm a gestão desregulada e imprópria da saúde e do combate à pandemia, tudo muito lento, muito devagar para haver a devida massa popular às ruas pelos direitos a serem mantidos, conquistados ou reconquistados. É necessário caminhar com os passos que nos forem possíveis. Sem a esperança intacta - pois já foi muito apedrejada e afetada - sem a ideia de pureza política e ideológica, sem pensar que o livramento das sombras será fácil, mas que ainda ali, em canto recôndito, ainda é possível arrumar boa parte da casa.

01/01/2021

Perdão às andorinhas e gaivotas e maçanicos

Após assistir ao filme de Manou, a Andorinha, animação que me parece ser de origem alemã, com direção e produção e um impacto coletivista interessante para o imaginário de crianças, jovens e quaisquer pessoa, tenho observado algumas revoadas, bandos cruzarem o céu. Liberdade deles, livres de impostos, tarifas, custos, ordens e horários. O instinto e o pacto do bando a favor dos indivíduos, conjuntos que planam com a beleza de suas asas. Eles nos sobrevoam enquanto buscamos ganhar a terra, um pedaço para chamar de nosso ninho, protegê-lo dos demais, nos isolarmos em algum canto, contra os furtos de fortunas e contra a pandemia vigente. Para ganharmos os céus só por meio dos aeroplanos tecnológicos, cujo conseguimos adentrar através de passagens aéreas caras, fora de nossos orçamentos, também por conta da logística de dias de trabalho e férias. Há também as imagens de satélite chegando para nós através da imensidão. Mas aí estamos presos diante da televisão, sobre as almofadas do sofá da sala de estar.

E os pássaros acima de nós. Manou e as demais andorinhas, seu irmão gaivota e as demais gaivotas (Manou era adotado). Da minha cadeira de praia no interior de nosso restrito pátio, cercado pelos muros e cercas elétricas, olho para os bandos enquanto nossa gata, Melissa, me faz companhia, deitada sobre o piso que considera mais adequado para suportar o calor do verão nesta virada de ano. Por uns instantes, cometo a heresia de admirar mais aos pássaros do que à preferida Memel, nossa companheira desde 2017. Entre bocejos e semicerrar de olhos, Melissa encontra o mundo dos sonhos, enquanto me pairo a reflexões.

Conversava mais cedo com uma professora de Nutrição que está na Costa Rica sobre a condição dos latino-americanos terem melhores noções de coletivismo do que a ilha brasilis, na qual vivemos. Enumerei alguns pontos, como desde as origens com a vinda dos europeus, a demora pela independência e a prorrogação do período escravocrata até muito recentemente. Como a população ainda não parece associar a força que possui, as possibilidades, os lugares que merecem. As relações ainda parecerem muito trancafiadas e hierarquizadas, entre patrões/senhores e funcionários do proletariado. As noções faltando. A consciência de classe em falta. A consciência dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, as conquistas operárias, tudo isso muito distante do entendimento. Nosso sistema educacional que não aborda esses direitos, as influências externas (principalmente dos Estados Unidos) que nos complexam e nos encaixotam como vira-latas. Nossa extensão territorial e a desarmonia entre as regiões, a falta de unidade para garantir a luta e as vitórias que dela poderiam surgir. Estamos tão distantes.

Enquanto isso se recolhem Manou e as andorinhas e as gaivotas acima de mim. O maçanico do banhado também em formações negras no céu. A leitura do final de tarde é do livro Troca d'Armas de Luisa Valenzuela, uma argentina sobre o período conturbado da ditadura militar em seu país. Protagonismo na cabeça de personagens mulheres sobre como enfrentam os complexos da época, seu espaço, suas lutas, seus amores, suas vivências. Luisa é uma exímia escritora, fácil de se elogiar, difícil de digerir, tamanha qualidade do que transpassa para o papel. O livro me parece raro, tive que cadastrá-lo no site Skoob. Espero que mais pessoas acompanhem meu futuro julgamento de cinco estrelas para sua obra. Pelo incrível que pareça, o livro tomei de escolha após um início insatisfatório, quanto ao ritmo apenas, tomara, de Dou Por Vivido Tudo Que Sonhei, da também sul-americana, porém chilena, Isidora Aguirre. É a procura pelas vozes de nossa América através da crítica social. Escritas sensíveis, mas que apresentem conteúdos denunciadores, contextos sociais efervescentes, turbilhão de sentimentos em ebulição - no momento desta escrita fervidos com o disco das melhores dos norueguesas do A-Ha.

De volta para a professora de nutrição, ela acompanha meu raciocínio e ratifica que os fatores do individualismo brasileiro são mesmo os que apresentei. Deve haver tantos outros, obviamente. Nós lamentamos ambos com a novidade do primeiro dia do ano tendo sido um (mais um) vídeo irresponsável do atual (ó, céus, por quanto tempo? quero voar com as andorinhas e gaivotas e maçanicos) presidente da república. Ele salta de barco e sai a nadar em direção a banhistas, onde é muito bem recepcionado pela desgraçada cena. As aglomerações nas praias durante a pandemia colocam em xeque meu pensamento positivo sobre elas. A natureza segue bela, formidável, quanto mais intocável melhor. A humanidade a tudo polui. Além das embalagens e bitucas de cigarro, a novidade é a troca constante do contágio pelo novo coronavírus. Os mares e seus habitantes, as andorinhas, as gaivotas e os maçanicos que nos perdoem. E me deparo a finalizar a tarde com o declinar da noite e o pensamento que logo a espécie humana se extinguisse, esses pássaros tomariam conta do ambiente. O mais incrível parece que seguem sobrevivendo, levando jeito, se reinventando apesar da presença humana. Enquanto não destruirmos de vez o planeta, muitas dessas espécies seguirão planando sobre nossas cabeças. Outras, mais restritas a ambientes dizimados como o Pantanal não terão a mesma sorte, mas novamente que nos perdoem as andorinhas, as gaivotas e os maçanicos do banhado.

Às vezes enfrentamos os demais, às vezes nos refugiamos. Constantemente atacamos a natureza e naturalmente ela nos contra-ataca.

10/05/2020

Cochabamba e algures

Acordei em Cochabamba, uma das maiores cidades da Bolívia. Ao menos, minha imaginação me levou a crer que ali estava. Meu inconsciente certa vez levou-me a conhecer Cacoal, na Rondônia, bem sei eu o porquê. No país vizinho, nas terras bolivianas, um antigo sonho a ser realizado e uma parcela reduzida de realidade ao meu alcance.

Saio para as calçadas na parte central de Cochabamba. As ruas são, em suma, retas, na conhecida descrição de jogo da velha que se expande, quadras de tabuleiro. Assim é que devem ser para melhor orientação dos visitantes, a exemplo dos pampeanos. Só se recortam ou curvam-se as estradas em caso de obstáculos de relevo ou outras barreiras. Não era o caso. O trânsito pedestre era intenso, bolivianos apressados, rotinados no dia a dia. Qual dia da semana era? Eu não fazia ideia. Não sabia o que estava fazendo ali. Tão distante de minha terra natal, nas entranhas do continente sul-americano.

O tempo era um adversário voraz e percebia-se uma orientação para o fim da tarde. Os passos dos transeuntes indicavam a pressa em chegar em casa. Eu, pelo contrário, estava deslumbrado e não possuía casa definida para aportar. Imaginava que um hotel não sairia muito caro e assim eu torcia com meus botões. Estava sozinho, nenhuma companhia, mas o ar que eu respirava era a plenitude da coragem em socializar. Queria conversar com todos, com qualquer um, falar de onde eu vinha, que estava maravilhado em aportar naquela cidade tão interessante, histórica, sintetizadora da América do Sul. Queria conversar com a primeira pessoa que me cruzasse o caminho, entretanto os bolivianos e bolivianas seguiam seus rumos, não ligavam para o turista em questão.

Um pouco desorientado enquanto tentava assimilar meu papel naquele barril de vida, praticamente esbarro, após atravessar uma rua e encontrar o ângulo de 90 graus de uma esquina, praticamente colido com uma descoberta ainda mais inacreditável: Azocar. O jovem mais jovem do que eu, mais baixo do que eu, mais moreno do que eu, cabelos mais escuros do que os meus, Azocar, em total coincidência, também havia saído de nossa cidade natal para Cochabamba na Bolívia. Na mesma data! Absolutamente inacreditável façanha. Fui parar em Cochabamba, Azocar, seja lá com quem tenha vindo, tomou a mesma ideia, coincidência de dias e, naquele universo de pelo menos 600 mil bolivianos, nos peixamos. A probabilidade, naqueles 2500 metros de altitude, a probabilidade foi definitivamente lançada ao espaço.

Cumprimentei efusivamente meu amigo, ele naquele estilo recatado, mais do que o meu, voz baixa, tom comportado em moderação bem dosada, olhos e expressões inteligentes, parecia estar melhor habituado àquele trânsito central. Teria planejado melhor a viagem? Pior do que eu nesse aspecto era impossível, eu caído de para-quedas. Teria estado em Cochabamba há mais dias? Provavelmente, tamanha tranquilidade com a qual me encarava. Como, se não antecedemos esse encontro casual, poderia ele estar tranquilo daquela maneira? A altitude daquele município pitoresco deveria estar carregando minha alma aos céus e nada mais faria sentido.

Seguimos regulando nossos passos para dividirmos as calçadas. Eu estava em êxtase e trocava palavras breves com os bolivianos que cruzavam conosco. "Ese es mi amigo Azocar, no combinamos el viaje, pero acá estamos nosotros." E eles nos olhavam com pouco interesse naqueles turistas. Alguns traziam jornais em mãos e eu imploraria que algum me entregasse para melhor me situar no tempo, no espaço, no lugar, naquele transe de acontecimentos sucessivamente inexplicáveis.

Atravessamos mais duas quadras, o tempo se acinzentava, não era somente a noite que mergulhava sua treva sobre a copa dos edifícios centralizados, eram o cheiro e o som da violência pungentes, a iminência do caos na profecia do pior por vir. Os bolivianos perdiam o pudor em correr, disparavam pelas ruas, mudavam suas rotas, dispersavam-se e temiam as ameaças prometendo se concretizar. Um formigueiro posto a perigo, uma mangueira a enxotar a desordem naqueles concidadãos aspirados pelo desespero. Tumulto logo adiante, mentiria se eu dissesse que era na quadra seguinte. Era na mesma! Menos de 50 metros de nossos atônitos olhares.

A polícia se movimentava, formação do batalhão organizadamente pronta para conter ou, como é comum, ampliar uma baderna. Escudos, bombas de efeito moral, armas em punho, uns protegendo os outros enquanto as formigas daquele urbano formigueiro eram postas ao efeito desestabilizador dos inseticidas. Não tínhamos escolha. Ninguém nos ouviria, na surdez dos disparos de gás lacrimogêneo. "Somos turistas! Somos jornalistas! Somos periodistas!", mas nada adiantaria.

Meia volta em nosso trajeto ainda atordoado no efeito inebriante do sonho daquela aventura romanesca. Azocar e eu em pernadas pela sobrevivência na altitude boliviana de Cochabamba. Frases que pensamos jamais um dia pronunciar, mas aqui é feito o relato tal como ocorreu. Se antes era impossível atrair a atenção dos concidadãos, agora era missão que nem me cabia tentar, cada um por si pela sobrevivência. Obviamente, um grupo aguerrido, destemido de revolucionários procurava enfrentar o batalhão da polícia local. Não saberia precisar, naquele vespeiro em chamas, qual a reivindicação em pauta, o motivo do confronto em plena porta de saída do sol no horizonte. A névoa, a bruma do gás lacrimogêneo misturando-se ao nebuloso cerrar da noite. Precisávamos de abrigo.

De repente, sinto-me encurralado, minhas pernas talvez não tenham sido rápidas o suficiente, os estalidos e o crepitar dos disparos seguem envolvendo completamente meus tímpanos, Azocar é minha única esperança. Ele, minguado ser de bom coração, astuto nos projetos que desenvolve, é ele quem me ajuda a terminar a travessia, carregando-me ombro a ombro, arrastado, canelas contra as calçadas, inoperância minha pela perda parcial dos sentidos, meios fios das ruas atulhados de jornais abandonados por seus leitores. Aquilo seria notícia no dia de amanhã.




No dia seguinte...

Estou recuperado do baque sofrido. A ressaca não foi de cerveja, licor ou aguardente. Nem mesmo a imbebível cocoroco, mistura boliviana considerada uma das soluções alcoólicas mais dissolventes do mundo. A ressaca foi de balas de borracha, estouros, bombas arquitetadas pelos policiais, pane de meu sistema nervoso central. Azocar havia me salvado.

A claridade matinal estava a nosso favor novamente, um dia após o outro. Penso naqueles bolivianos envolvidos no violento conflito, torço do fundo de meu coração não ter sido um inescrupuloso massacre em plena área central da grande Cochabamba. Recordo do filme que se passa na Bolívia, o Conflito das Águas, com atuação do bem renomado ator mexicano, Gael García Bernal. Direção da espanhola Icíar Bollaín. A Bolívia como palco da trama, complexa obra de crítica social contra a desigualdade no abastecimento. Em questão, o acesso à água. A população revoltosa pela inefetividade do transporte desse recurso vital, ensandecida pela má vontade governamental em assisti-los. Os protestos tomaram conta, as gravações de um filme (dentro do filme) sendo desarticuladas em meio aos conflitos, segundo plano, inclusive na mente do ator interpretado por Gael Bernal.

Minha cabeça permanecia zonza, a recuperação da memória ainda tornava em vão a pergunta de como fui parar em Cochabamba. Não recordava o planejamento dessa diferenciada viagem. Não lembro da passagem por aeroportos no Brasil ou na Bolívia, nem de conhecer a malha rodoviária das estradas bolivianas, nada de autobus. Como havia parado ali e qual era a minha missão, tudo isso era um mistério.

Pelo deslocamento de algumas ruas íngremes, onde rapidamente me perdi da presença do amigo Azocar - e fiquei a pensar se eu tinha o seu número celular para nos comunicarmos - fui conduzido por uma jovem moradora até o que ela indicava como litoral. Inebriado pela moça de tom de pele bastante moreno, cabelos negros, olhos sedutores, praticamente ignorei aquela sentença espantosa, visto que a Bolívia, trancafiada entre países, não possuía um litoral. Ao pesquisar sobre Cochabamba, os possíveis pontos daquela condução quase de mãos dadas podiam ser o lago Angostura ou o Alalay. Mas, pelas imagens que a internet me retransmite, é provável que aquela paisagem fosse de nenhum deles.

Estava mais para o Angostura, sem dúvida, mas os arredores ainda eram urbanos, como se fosse a Praia dos Ingleses em altitudes bolivianas. Um lago totalmente povoado em volta, o que não é a característica de Cochabamba, ou uma encosta de tranquilizado mar à uma altitude impressionante. Nada mais fazia sentido. Provavelmente, com o estouro do conflito do dia anterior, eu havia me despedido de Cochabamba com Azocar. Não sabia mais em qual cidade estava. E o próprio Azocar havia sumido. Só boas notícias.

Mas havia a minha nova guia turística. A primeira moça ou mesmo primeira pessoa que havia me notado, aparentemente mais nova do que eu. Entre subidas e descidas naquelas ruas apertadas e de trânsito dificultoso, por serem íngremes e estreitas, chegamos finalmente a uma encosta derradeira, onde as últimas casas desciam em direção à baía em questão. Ela estava orgulhosa do molde geográfico de sua cidade. Eu sorri com os olhos para a apresentação de nossa anfitriã, que só faltou abrir cortinas para aquela paisagem arrebatadora.

Acompanhei-a até uma pedra que se elevava entre dois e três metros acima da areia lambida pelas águas calmas daquele oásis. A vegetação por trás da gente era semelhante à mata atlântica, densa, cerrada, local perfeito para inimigos se esconderem, imaginava minha mente paranoica, ainda ofegante das trêmulas imagens do dia anterior. Ela fazia questão de me acalmar, ouviu meu breve discurso de jornalista perdido naquele mundo, interessada, ouvinte, boca e olhos a rebolarem naquele bem esculpido rosto. Em seguida foram os dedos que se mexeram e percebi que ela enrolava um cigarrillo de maconha. Fiquei entre o contentamento e a apreensão com aquela cena, pois não queria problema com as leis estrangeiras, ainda mais depois do cartão de visitas daquele ontem. Ao mesmo tempo, se sobrassaíam a excitação e aparência paradisíaca de toda aquela região, em um dos átrios da América do Sul, paisagem que eu jamais havia visto pela internet, em reportagens de televisão ou em fotos publicadas por amigos. Tudo era absolutamente inédito e desconhecido.

Ficaria muito exitoso em narrar que estávamos a sós com aquele mundo recém-descoberto, torcendo que nem os espanhóis tenham se banhado naquelas águas, bolivianas ou não. Apesar de meu desejo de paraíso à moda de Adão e Eva, havia bastante gente ao redor. Parecia um lago, baía ou pedaço abençoado de mar calmo frequentado pela camada jovem daquela sociedade. Alguns eram atléticos e mal encarados, uns exibindo tatuagens, outros mirando meu aparente retrato de turista, germânico demais para disfarçar-me naquelas terras.

Com qualquer tentativa de camuflagem sendo-me inútil, ao menos eu teria que agradecer que essas características me garantiram uma anfitriã atenciosa, rica em vários aspectos e que sabia se posicionar para uma boa paisagem. Recordei que no dia anterior eu lamentava não estar portando minha câmera, desesperado por não registrar minha inusitada aos paraísos bolivianos. Entretanto, após a confusão geral nas ruas de Cochabamba, passei a considerar sorte não ter perdido minha Nikon, prejuízo financeiro que eu não poderia arcar.

Tímido, pitei aquele cigarrillo e rapidamente o devolvi, ainda tentando assimilar tudo aquilo. Observei os jovens em volta e temi pela minha integridade caso a menina anfitriã tivesse qualquer caso com um daqueles nativos. Provavelmente me atacariam em bando, eu precisava estar preparado para manobras defensivas. Tive a impressão dela cumprimentar alguns e permaneci em guarda. Passados uns minutos, minha vista começava a decorar os rochedos impressionantes que emolduravam a paisagem, fundidos e difusos até emaranharem-se nas teias da semelhante mata atlântica. Fui defenestrado dessa tranquilidade quando minha guia se levantou e subiu as areias em direção à civilização de casas. Atrasado com minhas pernas atordoadas pelo meu natural cansaço físico e pelas atividades extenuantes do ontem, eu a perdi de vista. Não, não poderia estar acontecendo. Primeiro sumiu Azocar, agora a única pessoa que me sorria e tentava ajudar. Era muita falta de sorte aliada à incompetência. Nem sei em que cidade estou!

Daquelas ruas de centímetros acumulados de areia aos seus encostos, nas juntas com o meio fio, em um aspecto praiano, serpenteei em busca da fascinante morena que nem o nome eu sabia. Não sabia, naquele momento, se preferia saber onde estava ou saber o nome dela. Provavelmente o dela. Continuei cruzando por pessoas que me ignoravam a presença. Daquela encosta de tirar o fôlego (pela vista e pela cansativa caminhada), acabei chegando junto a um mercadinho, que interpretei como mercado central. Sim, havia história, haviam casas antigas, logo percebi. Ao eixo de uma praça central concretada, se estendiam por ali o mercado e outras construções antigas, segmentadas, um labirinto a desconhecidos. Rodei por ali.

Digo que rodei porque evidentemente não sabia para onde ir, encontrei pequenos vendedores, camelôs, posicionados em bancas ou amontoados pelas calçadas. Vendiam tecnologias celulares e adereços para os mesmos. Capinhas, protetores, películas e chips. Microbolsas, acessórios, brincos, pulseiras, pérolas, lembrancinhas. Nada disso eu adquiri. A maioria dos vendedores era composta por latinos ou africanos. Circulavam muitos nativos daquela américa andina, uma excencial predominância de jovens. Aspectos estudantis, pessoas de mochila. Os mais velhos talvez fossem os trabalhadores do mercadinho central. Aquele comércio contava com trabalhadores braçais, vendedores cansados de seu repetitivo trabalho. Assim como os demais, nenhum deles me notou, nem perguntaram se eu queria alguma coisa. Limpavam peixes, organizavam caixas e o que seria exposto pela vitrine dos balcões. O cheiro dos frutos das águas se misturava a um potente odor de urina. Os mercados em todos os lugares eram assim. Alta concentração de pessoas, higienes duvidosas.

Descobri uma fonte de pedra que me pareceu o marco zero daquela praça antiga. Sentei-me junto à escultura. Encontrei um bom encosto em degrau que levava à estátua. Ela despejava um pouco de água, mas os jatos escorriam lateralmente a mim, sem me molhar. O cheiro da urina era muito forte, pensei que podia estar exposto aos esgotos. Estava perplexo, congelado, não conseguia me mexer. Meus olhos, estes sim, percorriam toda a paisagem urbana como me era possível. Mochilas e mais mochilas nas costas daqueles cidadãos em idades plenamente estudantis. Adolescentes de um lado para o outro. Nenhum sinal ainda de Azocar e nenhum sinal da moça local. Quando consegui reagir, me levantei e segui reto o máximo que pude, por uma avenida de calçadas preenchidas por vendedores e suas mercadorias, areias por trás deles e novamente a água completando o panorama ao fundo. No lado oposto à essa calçada, uma avenida e as casas e pequenos comércios no meio ainda urbano. De fato, era uma praia, de lago, de baía, de enseada, mas uma praia.

Azocar veio acompanhado do grande amigo dele, Gustavo. Eles, viajantes em outros tempos pela Europa, esses dois reunidos pela Bolívia ou onde fosse, na mesma época em que eu. Sem combinarmos. Eu permanecia abismado por essas coincidências. A última o caso de Azocar me reencontrar, nós sem nos comunicarmos, nada de ligações celulares, meu celular que seguia à segurança de meu bolso, inutilizável, que código de área seria aquele? Conversei rapidamente com os rapazes, que agora me direcionavam, pareciam saber para onde ir. Fui seguindo os passos deles, brevemente à minha frente, ditando o ritmo e a orientação. Em poucas frases, me confessaram estarem de saída daquela Bolívia (será a Bolívia que todos conhecem pelo mapa, pelas viagens? ou só a Bolívia confusa de meus sonhos?), estavam voltando para casa ou seguindo a trouxa de pertences para outro lugar. Viraram beduínos, por acaso?

Eu me sentia como recém-chegado. Fui aturdido por aquela coleção de imagens, fui viajado, estava distante de casa, aparentemente despreparado, com minha pequena mochila às costas, o que me assemelhava ao leque de estudantes que transitavam naquela praia. Logo no começo de minhas reflexões, estourou o conflito que me derrubou os sentidos, salvo por Azocar ou quem quer que fosse, talvez até pela mágica anfitriã daquele dia seguinte. Não sabia onde dormi, não sabia onde eu dormiria. Procurei pela minha carteira, tirei-a do bolso pela primeira vez ao que havia me lembrado, remexi na memória procurando algo sobre tirar passaporte para aquela viagem, conferi alguns reais junto aos meus documentos, possuía dois cartões de crédito, mas ambos brasileiros. Eu precisava, urgentemente, visitar uma casa de câmbio. Sonhava uma liberdade minha naquela Bolívia não liberta.

29/03/2020

por duas quadras

Interessante o desenvolvimento da natureza. Como resplandecem suas aplicações e propriedades em seres que se adaptam ao meio ambiente em que vivem. A natureza e sua paleta de cores, suas nuances, ideias que a nós, meros humanos, passavam batidas até ser estudadas e catalogadas. Insetos com suas camuflagens e predadores de rapina com as garras torneadas de uma determinada forma.

Para exclusiva atuação dessas linhas, serve de exemplo a seriema, ave característica do cerrado brasileiro, que também pode ser encontrada em alguns vizinhos de América do Sul, mas que não existe em outros continentes. Procurem pelas imagens da seriema, ave mimosa e simpática por demais. Na catalogação brasileira também aparece a arara azul, que, caso procurada para observações de nossos curiosos leitores, é uma ave da família das psitaciformes com a cauda longa e bico curvado e, evidente, sim, são azuladas. Belíssima riqueza de tons edificantes a preencher seus contornos de elegância.

Ao passo que essas espécies citadas são tipicamente brasileiras, do outro lado do planeta, na Austrália e na Nova Zelândia, dentre outras ilhas do continente de nome Oceania, muitas espécies são específicas, restritas, somente encontradas nessas regiões. Há muitos animais australianos que desconhecem a sequência do globo, existem somente no país da atriz Marny Kennedy. Outros, neozelandeses, tampouco sabem haver uma vasta ilha como a Austrália, ou mesmo ilhas menores em outros lugares, próximos ou distantes. Além de ser o chamado paraíso dos marsupiais, a Austrália também concentra espécies curiosas como o demônio da Tasmânia ou o famoso cisne negro. Especula-se que porcentagens tremendas da fauna australiana seja endêmica, ou seja, exclusiva desse país. Emus e cangurus vermelhos, equidnas, que são semelhantes aos porcos-espinho, e os de aparência carinhosa dingos estão entre os nomeáveis nessa categoria de exclusividade australiana.

O planeta Terra está repleto dessas maravilhosas espécies e procurar por elas, para aprendizado repassado em prosa, seria um exercício de completude para este curto período da alma. A junção das amigáveis sensações de aprender e, de bate-pronto, sem deixar a bola cair, estar ensinando. Entretanto, curiosa foi a atuação de como pude perceber que mesmo a um curtíssimo espaço, a fauna e a flora estão à disposição em ordens variadas. Explico.

De prontidão, minha percepção modificada foi em relação a nossos predadores quando mudei de casa para duas quadras de distância de onde sempre vivi. As moscas apresentaram-se mais perdidas, sobretudo nas noites, como é de praxe. Esses animalescos detestáveis em suas rotas pouco objetivas, senão o alvo atingido de cessar minha quietude através de um pseudo ataque de nervos. Entretanto, ao menos as moscas mais toscas de quadras ao lado mostraram-se com uma disposição para a morte, desfecho muitas vezes proferido com as próprias mãos, para passageiro gozo da mortificação dessas abominações e uma consequente e enojante necessidade de lavar as extremidades dos membros assassinos.

Além das moscas, os mosquitos também se dispuseram mutantes. Os da casa anterior eram uma fase anterior da evolução. Os da moradia nova foram mais insolentes, desagradáveis, cruéis e adversários de duradouros combates. Notei não bastar um arremate para que desistissem em suas vontades de vida. Vagavam pelo cômodo ainda trôpegos, em planos de voo estranhos, mas insistentes. Resolutos, obstinados a me provocarem, a me encarregarem de suas respectivas eliminações. Não eram fáceis. Após verdadeiros duelos travados, o saldo dos cadáveres a esperar um balde de lixo ou uma privada sanitária.

Para além dos insetos aqui mencionados, o encerramento dessa passagem é justamente ao que ela deu origem. Contraditória alimentação da cobra textual, não é mesmo? Minha mãe ao pátio da frente (único pátio que aqui dispomos), arremata uma pérola certeira para o gatilho crônico. Ela, na despreocupação de quem estende roupas com o único objetivo de estender as roupas, entre uma ou outra pregada no varal, cumpre a sentença prometida: "as pombas daqui são mais magrinhas, as da casa anterior eram abastecidas pelos grãos de milho sobráveis das galinhas".

E assim, a partir de humilde frase, acende-me essa diferenciação de fauna, ¿e por que não flora?, entre duas residências, ecossistemas variantes, separados somente por duas quadras, 200 ou pouco mais, pouco menos metros de distância. Entre as moscas, entre mosquitos, entre as pombas e, consequentemente, no somatório de fatores, quais as diferenças entre nós mesmos em tão pouca mudança geográfica, segundo se pode constatar no Google Maps?

18/02/2020

ondas e marés

"A gata mia, boemia aqui não me tens de regresso"
Faz todo o sentido na vida tumultuada do rapper Black Alien, o Gustavo de Almeida Ribeiro, na época da gravação e lançamento do último disco com 46 anos. Outros temas abordados em Abaixo de Zero: Hello Hell são as experiências e problemas com drogas e como quer distância disso para se manter sóbrio daqui para frente. Com filhos pequenos para criar, aumenta até a necessidade de ficar inteiro para essa importante etapa de sua passagem.

Toda essa introdução para colocar o ponto de que nem sempre e muitas vezes a vida do fã não estará em sintonia com a etapa vivenciada pelo ídolo. A diferença de idade acaba sendo decisiva nesse ponto. Embora algumas características entrem em convergência, o que traz a própria aproximação entre fã e ídolo, outros aspectos os afastam e é interessante que se atente para isso. Apesar dos diferentes pontos nesse tabuleiro em jogo de dados da vida, muitos ensinamentos são aproveitados, ou para a hora, de imediato, ou armazenados no freezer das experiências para quando chegar o momento de utilizá-los.

É uma diferença crucial dos fãs para os ídolos, estes que estão em um aspecto de transição dos 40 para os 50, dos 50 para os 60, dos 60 para os 70 ou até onde forem. Vivenciaram muito mais coisas, colocaram em suas letras, poemas, prosas, textos, blogs, livros, reportagens. Associaram suas vivências e observações com outras vivências e observações. Eles sabem como fazer isso, sabem como conduzir, sabem como infiltrarem-se nesses campos, onde pisar, receitas para o que dá ou não dá certo. E muitas vezes quando erraram, se posicionaram para admitir e para que os mais jovens, ou mesmo de suas gerações ou até mais velhos, não façam isso. São histórias contadas, ensinamentos e alertas.

Outros dois músicos cabem em minhas observações sobre as diferentes etapas em que se encontram, enquanto estou aqui adentrado nos 20 e poucos anos, já em crises dignas de meia idade. O primeiro que lembrei é Humberto Gessinger. Após o encerramento das atividades com os Engenheiros do Hawaii, e a prorrogação do nome Engenheiros do Hawaii com outros músicos, subiu no tapete voador da carreira solo, mas parece que não decolou muito. Lança discos, mas as canções já não emplacam da mesma forma frente a um público que está menos vigoroso com suas empreitadas. Os De Fé que antes tomavam conta da internet estão mais sossegados, em outros passatempos, descobrindo novas músicas ou mesmo acariciando a nostalgia das antigas melodias. Os mais novos vão descobrindo e curtem Engenheiros através de ensinamentos dos mais velhos ou mesmo fuçando pelos amplos arquivos da internet. São letras históricas e que nos acompanham em vários momentos da vida, o que faz todo o sentido que sobrevivam a essas épocas. É como Titãs ou Legião Urbana incessantemente pelos bares em que frequentas, o gerador de memes das noites brasileiras.

Toda essa observação para a carreira solo de Humberto Gessinger, de excursões cada vez mais esvaziadas na web mas de shows ainda lotados para seu sucesso, mesclado às canções antigas, para observar como essa fase entre fã e ídolo pode estar separada em uma ponte difícil demais de obter ligação. É como o trecho de música dele em que nem caiu a ficha e caiu a ligação. Perde-se essa completa identidade que te acompanhava nas primeiras músicas. Ainda há muita highway para quem sabe encontrar seus ensinamentos novamente. Também admiti-se aqui que o referencial nem sempre tem aquilo tudo para se passar. Nem sempre que se pega uma caneta ou um violão muda-se por completo a vida do ouvinte ou leitor. A inspiração tem de estar do lado de lá também. A vontade de se inspirar com a inspiração tem de estar do lado de cá também.

Toda essa observação para afirmar que não tenho me identificado como me identificava e mesmo as canções antigas estão guardadas em recantos emocionais de meu coração; nem sempre mexo neles. De vez em quando é bom ouvir, lembrar disso ou daquilo, relembrar uma lição ou outra, mas "agora é bola pra frente, agora é bola no chão". Tem outros grenais.

Outro gremista nessa viagem toda é o músico de Venâncio Aires, o Wander Wildner. Em alguns pontos em comum com Gessinger, o fim da banda Replicantes como conhecíamos e a partida para uma carreira solo, que já dura bem mais tempo. Muitos e muitos discos, passando dos 13 para 14 volumes. Com ele vivo outra identificação, a carreira solo me diz muito mais do que Humberto tem me dito. Mesmo assim, a noção de que Wanderley Luis Wildner é agora e sexagenário, nem sempre vai abordar sexo e drogas e desejos obscuros em suas canções.

É bem provável inclusive que não faça mais isso. Não muito. Está em uma fase mais calma, em um autodescobrimento, vivendo entre os shows no extremo Sul brasileiro e as voltas para Santa Catarina, para relaxar entre o Campeche e o Balneário das Gaivotas. Comenta em entrevistas que está aprendendo com a física quântica, que pensa em matéria e energia, que a energia e as vibrações ditam muito do que ocorre e nos cerca. E quem ousa dizer que não? A biologia, a química e a física estão por toda parte. E nós poquitos aqui tentando surfar melhor nesse mar e moto. Com essas explicações, reflito e refriso que tenho me identificado mais com as paradas de Wander, que está lançando álbuns quase anualmente em músicas inéditas e regravações. Inédito pelo que está acontecendo em sua vida, se descobrindo e passando mensagens adiante; regravações do que para ele continua importando e fazendo sentido subir em um palco e mandar ver para os novos fãs que o descobrem e para os antigos, com o tamanho respeito ao carinho nostálgico de cada um.

Ser músico é um pouco dessa transição. Continuar surfando nessas águas, com novas manobras, novos alcances, novas praias, mas entender que não se pode desancorar por completo dos passos que feitos. As pessoas consomem suas músicas, seus discos, suas ideias por um acúmulo. Algumas serão eternamente gratas pelo primeiro disco, pelas primeiras canções e outras vão seguir acompanhando a carreira porque ainda se identificam, apesar da diferença de idade.

Um escritor também passa por isso, como o próprio uruguaio Eduardo Galeano, de maior fama pelo livro de brilhante título também, as Veias Abertas da América Latina (que Black Alien parece ter adaptado daí, ou não, para renomear nossas Américas como Latrinas de outros). Galeano muito comentava sobre adaptações, mudanças que faria nas Veias Abertas (da América Latina), mas o que estava feito, estava feito e as pessoas compravam e liam e assim estava um dos maiores feitos do escritor uruguaio, de tantos outros títulos importantes em latinidades.


Wander Wildner comenta bem essa ideia de assimilar por seus antigos fãs e por seus fãs que seguem o acompanhando, em um grupo que parece melhor acolher os que chegaram por último. Tem espaço na janela do bonde ainda, ao que me consta opinar. O músico das pequenas multidões, como é chamado.

Muitos desses escritores, músicos, artistas em geral, passaram por períodos de baixa, perrengues grandes, o que também é combustível para contarem suas experiências. Transformarem os maus bocados em canções, poemas e prosas da melhor qualidade. É o dito aquele do mar calmo não formar os melhores marinheiros. Entretanto, é o fã procurar entender essas diferentes etapas da vida de cada um. A hora de acelerar e a hora de puxar o freio. A hora de aproximar e a hora de distanciar. A hora de colher e do que já não nos identificamos tanto.

Humberto Gessinger dizia que produzia a sua arte, conforme sua introdução em rede social de que "faz música" e faz música com o que ele sente, com o que ele vive, com o que acredita. Conta que não liga muito para o que vão pensar e fazer a partir do que ouvem de seus trabalhos, mas que segue fazendo. É um ponto confiante de quem sabe que essa receita já deu muito certo. Escritor voraz desde a juventude, produzia muitas letras de músicas e boa parte de seu material nunca foi utilizado. Acreditou, apostou onde estava confiante e colheu safras cheias. Segue embalando melodias com suas crenças e ideais e encontrando quem escute, dos mais velhos aos mais novos. Bom para quem está em sintonia.

A relação entre quem busca um referencial e quem é o referencial é assim. Os navios precisam dos faróis, mas não vão estar sempre próximos aos faróis. Às vezes nos arriscamos a outras águas e navegações mais distantes. Suas luzes ainda estarão lá, para outras embarcações que necessitem na hora certa em um certo lugar. O próprio Humberto me auxilia a encerrar, onde é preciso deixar a onda te levar.

21/10/2019

Sudoku

quando no violão dedilha
minha vida muito menos ilha
quando no violão dedilha
acordo as cordas e essas novas linhas
acordo as cordas e essas novelinhas

quando no violão dedilho
minha vida muito mais andarilho
quando no violão dedilho
mudo as cores e os brilhos
mudo o ritmo dos seus cílios

pensando nos nossos trilhos
pensando nos nossos filtros
pensando nos nossos trilhos
pensando nos nossos filtros

Sudamérica em colapso
e eu nem ao menos
um Sudoku que tomamos
nos seus braços
nós condenados
das ciências entre humanos

27/06/2018

As Amazonas

Não tinha jeito ruim a batalha, hoje, dia de São João. Dos bergantins, os homens de Francisco de Orellana estavam esvaziando de inimigos, com rajadas de arcabuz e de balestra, as brancas canoas
vindas da costa.


Mas aí, a bruxa deu as caras. Apareceram as mulheres guerreiras, tão belas e ferozes que eram um escândalo, e então as canoas cobriram o rio e os navios saíram correndo, rio acima, como porco-espinhos assustados, eriçados de flechas de proa à popa e até no mastro-mor.

As capitãs lutaram rindo. Se puseram à frente dos homens, fêmeas garbosas, e já não houve medo na aldeia de Conlapayara. Lutaram rindo e dançando e cantando,as tetas vibrantes ao ar,até que os espanhóis se perderam para lá da boca do rio Tapajós, exaustos de tanto esforço e assombro.
Tinham ouvido falar destas mulheres, e agora acreditam. Elas vivem ao sul,em senhorios sem homens, onde afogam os filhos que nascem varões. Quando o corpo pede, dão guerra às tribos da costa e conseguem prisioneiros. Os devolvem na manhã seguinte. Ao cabo de uma noite de amor, o que chegou rapaz regressa velho.


Orellana e seus soldados continuarão percorrendo o rio mais caudaloso do mundo e sairão ao mar sem piloto, nem bússola, nem carta de navegação.

Viajam nos bergantins que eles construíram ou inventaram a golpes de machado,em plena selva,fazendo pregos e bisagras com as ferraduras dos
cavalos mortos e soprando o carvão com botinas convertidas em foles. Deixam-se ir sem rumo pelo rio das Amazonas,costeando a selva,sem energias para o remo, e vão murmurando orações: rogam a Deus que sejam machos, por mais machos que possam ser, os próximos inimigos.


Eduardo Galeano
Os Nascimentos.

16/02/2018

go away

américa?
leias bem
essas leis
não te pertencem

não são de metal
o sorriso dessa gente
não é o final
teu ponto entorpecente

américa?
leias bem
jamais foste
e jamais serás
dessa gente

you're lost
in the middle
where I think
different

américa ama rica

américa
ama rica
de dentro do seu barraco
à rica oferece tudo
estende a mão: o tato
trabalha a mão: o trato
limpa a mansão: olfato
"sim senhora": acato
enquanto a rica
devora
devolve pra sempre
o agora
que é a fome
no prato

américa calminha

américa caminha
do meu sono
do meu sonho
de meu sangue
e de américa do sul
américa calminha
repousa
não ousa
mais sangue
não ousa
ser mais do que
império yankee

américa daninha

a américa latina
caminha sem pernas
sobrevive
entre hérnias e ervas
economia
daninha
caminha
minha
américa latina
latrina
das trevas

12/11/2017

Lixo e Purpurina - Caio Fernando Abreu

31 de janeiro

“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso o relógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.

Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro-de-mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beirada da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro com kol, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existe um verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”

Trecho do livro Ovelhas Negras. L&PM Pocket.