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25/12/2025

Xala (1975)

Em pesquisa para confirmar o nome desse filme de Ousmane Sembène, diretor garantido nesses blocos de análises, Xala pode se referir a rituais e feitiços sofridos por uma pessoa. É o que acontece com um político senegalês em Xala. 

Essa é uma bela obra de Ousmane, englobando diferentes assuntos, tópicos que podem atrair mais ou atrair menos atenção para explorar desenvolvimento do filme. Acredito que o mérito para muitas obras está na comunicação, na abordagem de diferentes temas. Isso cria uma riqueza cultural que absorve diferentes envolvimentos com o espectador. Em Xala, se comunica a independência conquistada por Senegal frente à França. Se comunica a corrupção que é persistente. A cultura machista, os casamentos de um homem com várias esposas. O sistema em que empresários são beneficiados enquanto o povo passa fome.

O personagem principal desfruta de prestígio. Usa terno, frequenta a Câmara, convive com outros engravatados. Está às vésperas de seu terceiro casamento. Já é um homem de certa idade. A divisão financeira que impacta a família causa ciúme nas duas primeiras esposas. Mais do que ao homem, parecem temer a posição social em desprestígio, a perda de relevância no convívio, de presentes recebidos no cotidiano. O casamento, o terceiro, ocupa boa parte da primeira metade do filme. Se conhece a desconfiança e o ponto de vista dos filhos já crescidos do sujeito e a convivência ciumenta, belicosa, afrontosa entre as esposas.

No desenvolvimento, ganha relevância a economia, quando o personagem entra em conflito, em atuações suspeitas. Sabe-se que ele lidera uma loja no centro da cidade senegalesa. Interessante que Senegal na época estimava-se abaixo dos 5 milhões de habitantes. Hoje é um país bem maior. O político e empresário demonstra a complexidade da independência. Apesar de sair, em parte, somente em parte, da dominância francesa, o povo senegalês, em grande parte rural, em grande parte campesino, está refém de empresários corruptos, de funcionários que decidem provisões em escritórios com o invento do ar condicionado enquanto a população padece ao sol forte. Em certo momento, em reunião entre o empresariado, na acusação do camarada principal ser acusado de corrupto, de desvio de dinheiro para benefício próprio de seu terceiro casamento, o idioma francês entra em questão. Os empresários proíbem o acusado de se manifestar em um dialeto local, referindo-se orgulhosamente que o idioma oficial do país Senegal é o Francês. Interessante ponto de vista das elites frente a um povo que estima a libertação da herança maldita de um colonizador branco, europeu, violento e saqueador de recursos.

A complexidade deriva em outros temas. Os problemas do acusado começavam na suspeita desse Xala, desse feitiço que causa impotência sexual, quando ele, já idoso e deaconhecdor do raio dos limites, tenta a noite de núpcias com sua recém estimada esposa. Ele não consegue ser pró-ativo na empreitada, não retira a virgindade da jovem e começa uma crise sem precedentes. São problemas pessoais, relacionais na companhia, no comércio, na política, e consequentemente financeiros. Na mescla de modernidade com tradição, o acusado dos delitos ainda tenta retirar esse suposto Xala com um curandeiro, mas, corrupto e atrapalhado que era, não o paga, colocando em risco sua condição de liberto do feitiço.

O cinema de Ousmane Sembène é em prol da África, mas não recai a uma narrativa simplória, unilateral, de heróis e vilões. Parte dos libertadores podem condicionar o povo a continuar na miséria, instituindo benefícios próprios contra a população miserável que espera ajudas que não vêm. A denúncia é da desigualdade entre ricos e pobres, quando a riqueza acumulada pode se dar através de sonegação de impostos, calotes e contratos fraudulentos. Em resposta aos acusadores, o político aponta os dedos de volta, requerendo como resposta à pergunta de qual daqueles empresários na sala não passava também cheques sem fundo. Para além da denúncia ao personagem, o panorama é de empresários corruptos que coagulam entre eles, formam conluios com o povo como outsider, forasteiro. Sembène explora muito os temas dos verdadeiros e incidentes problemas sociais sobre Senegal, desde o que era necessário para libertação ao regime militar francês, como em Emitaï (1971) até esse filme quando passado o processo inicial do recurso da independência. Apesar da independência em relação às maiores forças da França, o jogo de empresários, de controladores do alimento, do arroz e de outras produções senegalesas segue à mercê, à deriva do povo. A revolta popular contra o corrupto, após a dispensa dos engravatados contra ele, decorre nas cenas finais. Sembène mantém um olhar crítico, atento, mas otimista em relação ao potencial que seu próprio povo pode produzir quando liberto de verdadeiras e proeminentes amarras.

Nota final para Xala (1975)

⭐⭐⭐⭐⭐


21/12/2025

Dane-se a Morte (1990) / No Fear, No Die

Filme francês da diretora Claire Denis, o longa conta a história de Dah (Isaach De Bankolé) e Jocelyn (Alex Descas), dois migrantes, um das Antilhas, outro de Benin, africanos, negros, tentando sobreviver à França. O contexto é após a colonização de diversos países africanos por parte da França, mostrando a dificuldade desses jovens em se adaptar à mudança de país, aos sub-empregos, à ilegalidade e à frequente ameaça de tornarem-se alvo de operações policiais.

O centro da trama são as rinhas de galo, em que os garotos, sendo sócios, protegendo-se um às costas do outro, elaboram parcerias e organizam o ambiente, os treinamentos e as batalhas nos fundos de um restaurante, um café sub-urbano. O sócio dos garotos é um magnata influente e mau caráter. Ao longo da trama, todos se envolvem de alguma forma, criando afetos pela garçonete Toni, que atende no restaurante que serve de fachada ao maior fluxo de caixa: as rinhas de galo.

Um ponto importante do filme é a consciência dos migrantes, quando, por exemplo, sintomaticamente, Jocelyn observa que aquela história não duraria para sempre. É a tônica de programações clandestinas. Tráfico de drogas, tráfico humano, rinhas de galo clandestinas. Nada disso favorece a quem está ganhando por muito tempo. Clientes insatisfeitos, denunciantes, policiais à paisana e, no caso das rinhas de galo, a própria inconstância na dependência da saúde dos animais. Lutam galos, lutam francas, Jocelyn as prepara e até se afeiçoa. Ele, distante de casa, com saudade da família, com sua breve história de vida narrada pelo companheiro nessa partilha.

Os homens brancos, é óbvio, tentam se aproveitar deles. Fazem com que morem no mesmo ambiente onde ao lado ocorrem as disputas. Cobram disposição, preparação, divisões desiguais. O negócio era de fato uma contra-relógio, em um drama que se arrasta com algumas formas de violência, sejam as mais diretas, na luta clandestina com os animais treinados a dedicarem-se a isso, seja na violência de gênero em que Toni é cobiçada e submetida às escolhas de terceiros, ou a violência de classe, ao mesmo tempo racial, da controladoria dos negócios dos homens que ameaçam, por vezes, deportar os forasteiros. A clandestinidade como uma corda bamba, como uma bomba que pode ser desarmada ou explodir no corte de um fio errado.

O nome do filme é sugestivo, inspirado na nomenclatura de um dos animais de briga. Ao longo do filme mesclam-se questões como o direito dos animais, a necessidade dos jovens em sobreviver, evocando esses debates morais na reflexão de cada espectador. Os animais eram alimentados, treinados e até afeiçoados, principalmente por Jocelyn, com muito esmero e cuidado. Mas, o produto final dessa criação são as lutas, que provocam dor, violência e a sangria das pequenas aves. No clímax, toda a pressão sobre a cabeça de Jocelyn pode ser fatal. Não só sua sobrevivência em ambiente estrangeiro e hostil, a pressão para receber algum dinheiro que sobre para futuros planos, pois ele tinha a consciência de que aquilo não duraria para sempre, e a paixão que era evocada sobre a pessoa de Toni, pela qual os sócios, brancos e negros estavam interessados. Não há outra mulher a circular no filme por aquele ambiente masculino, tóxico, como dizem, em atmosfera que os clientes gostariam que lembrasse cada vez mais das disputas originárias de latino-américa, como de Porto Rico.

Nota final em 3,5 / 5

04/08/2025

Botafogo 2025

Sim, as coisas mudam muito rápido. Isso era bom nas temporadas antigas do futebol em que se apontavam pelo menos meia dúzia de favoritos e postulantes. Hoje não mais. A diferença financeira e um pouco mais de sapiência e planejamento definem os favoritos. No Brasil hão de ser sempre Palmeiras, Flamengo e algum que rompa a bolha. Botafogo de 2024 justificou rapidamente os investimentos certeiros.

O de 2025 é um desastre. Diferente de outras possibilidades aos clubes, como se acentuam polêmicas sobre Grêmio, sobre Internacional, -  vende ou não vende, dibo ou não dibo - o Botafogo não tinha mais administração possível de suas contas; a venda era a única alternativa. A diminuição de suas dívidas, das maiores do Brasil para sair do top 10 destes amaldiçoados justifica também a escolha como provisoriamente acertada. Ademais, o clube mexe com dinheiro e erros e acertos são passíveis a todos os departamentos de futebol. Será que é assim?

O Botafogo passou a vender atletas de forma desordenada e retroativa para o projeto dentro de campo. Vende e não repõe. Repõe mal ou repõe esperando resultados imediatos. Trocas de treinador pelos árabes levarem os escolhidos da vez por terem, adivinhem: mais dinheiro. Ou trocas porque os resultados e o rendimento de campo não agradam. Com tantas trocas, a temporada se tornou um desastre. São inúmeras derrotas e virão mais, certamente. As reposições são bisonhas e o dinheiro escorre pelas sarjetas,  exemplo do que o Grêmio pós 2018 começou a fazer. Barrios por André Balada. Everton Cebolinha para trazer Everton Cardoso. Geromel e Kannemann embalsamados como múmias na defesa a ruir. Maicon inoperante e com cada vez menos companhia. Luan esfacelou. Devo citar as contratações erradas para ficares até amanhã nesta leitura: Braz, Paulo Miranda, Rodrigo Ely, Rodrigo Caio, Thiago Neves, Robinho, Arezo, Hernane, Diego Tardelli, Paulo Victor, goleiro Júlio César, Rafael Cabral, Tiago Volpi, Cuellar, Camilo, Lucas Esteves, Nathan Pescador, Thiago Santos, Diogo Barbosa, Benítez. As contratações mais caras foram Campaz e Cristian Olivera, que serão totalmente esquecíveis pela bola em campo. E sofríveis aos cofres.

O Botafogo passou a errar rudemente. Lucas Halter, Patric de Paula, Rwan Cruz, Mastriani, Joaquín Correa, Elias Manoel, pesado Ariel Cabral do fraco futebol português, goleiros reservas insuficientes. Mas o principal erro é se desfazer do projeto que estava dando certo. Tinha as esperadas vendas de Almada e Luiz Henrique. Aí começou o desmanche. Desmanche, não há mais como encobrir ou reduzir os efeitos. Desmanche de vender Eduardo, Gatito Fernández, Júnior Santos e as mais recentes saídas: promissor zagueiro Jair que vinha evoluindo, principalmente Igor Jesus, nome de referência no ataque, e Gregore, o pitbull na marcação. Danilo Barbosa, que podia ser volante ou zagueiro, tambem foi liberado. Goleiro John deve sair nos próximos dias. O último apague a luz.

Se jogadores vinham desempenhando e fortalecendo o projeto dentro de campo, não se deveria abrir mão da utilização tão facilmente. É difícil repor rapidamente. Enquanto isso o futebol do meia Savarino some e o jovem Montoro fica impossibilitado de render o que sabe em mares de ausência e pressão. A saída de bola se torna defeituosa desde a defesa e a marcação acompanha à distância. Marlon Freitas só joga com a bola; sem ela, assiste aos ataques adversários. O capitão está totalmente exposto ao ridículo de seu navio ruir em volta. Haverá motim? Há um jovem e inexperiente italiano no comando e um norte-americano que começa a perder os rumos dos projetos da Águia.

As coisas mudam muito rápido. Palmeiras e Flamengo é que seguem sólidos. Quem ousou romper seu império, o Atlético Mineiro de 2021 na pandemia, conquistas sem público ou de baixo/médio público, o assertivo Fluminense de 2023 e o mágico Botafogo de 2024, já despenteado por sequenciais erros. O Atlético está com dívidas galo-pantes e não sabe os dias de amanhã. O Fluminense segue bravo e guerreiro apesar de menores reservas financeiras. O Botafogo, mesmo abastado, descobre-se abestado de frustrantes erros.

As coisas mudam muito rápido. Rádio AM que trabalhei não existe mais. Jornal impresso que trabalhei não existe mais. O link do YouTube que usei de objeto observador para meu TCC de Jornalismo não existe mais. Amores que existiram não existem mais. O estádio do Farroupilha, onde muito trabalhei, joguei bola e assisti a meu primeiro jogo em estádio em 2002, não existe mais. O Botafogo quando vence é porque foi comprado e é SAF, não é o velho Botafogo; quando perde, dizem que é o velho Botafogo. Deveríamos boicotar a corneta, porque se para eles quando ganha não é, quando perde também não há de ser.

A Arena não era do Grêmio. Então os títulos e as muitas vitórias em Gre-Nal eram em campo misto, neutro: pior para os derrotados, que então nem visitantes eram. Quando ganha, não tinha casa. Quando perde, tem: perdeu em casa. Hipocrisias.

Hipocrisias. As coisas mudam muito rápido. O Grêmio Esportivo Brasil, para qual narrei jogos entre 2018 e 2021/2022, vira SAF nos proxmos dias. Será o Brasil ou fingirão que não é? As coisas mudam muito rápido. O dinheiro que condeno é o que compra títulos e gestões. Gestões de futebol e de manutenção de estádios. Compra os benefícios mais diversos. Dinheiro amaldiçoa, estressa, se vê jogado fora, pelos ralos, se vê entupir; dinheiro resolve e amaldiçoa, resolve dívidas e gestões de estádio, nos acostuma ao mal, muda perspetivas, amaldiçoa e enriquece descomprometidos, vagabundos e desqualificados. É uma roleta.

É cansativo. Penso faz anos que preciso dar um tempo. Foi quando começaram os fiascos, as vendas de jogadores sem reposição, a falta de escuta e de respaldo para as torcidas; quem aguenta? Tudo cada vez mais caro, da camisa às biometrias faciais e smartphones para qr code de ingressos que não guardamos mais como lembranças e queridas recordações únicas. As casas de aposta nas camisas, nas placas de publicidade, na internet, nas transmissões ao vivo, nas propagandas, nos bonés, no financiamento de crimes, nos tribunais, nas famílias dos jogadores, no STJD, nas maiores competições, na terceira divisão gaúcha, na terceira divisão do Ceará, nos amigos que apostam; o VAR que dá pênaltis ridículos ao Palmeiras, ao Flamengo, sempre, sempre eles. Penso que preciso dar um tempo. Não se pode conviver com tantos erros sabendo que poderia ser diferente. Quem aguenta?


03/08/2025

Mossane (1996)

Mossane é um filme de Senegal, dirigido pela diretora Safi Faye. Longa-metragem de 1h40min, diferente de filmes anteriores da diretora africana, esta peça é totalmente ficcional, embora o drama seja identificável para diversas mulheres do continente e também da cultura islã alastrada pela Ásia e por outros locais.

O tema do filme Mossane é a promessa de casamento para jovem que, segundo sinopses, teria apenas 14 anos. Ao assistir o filme, se imagina até uma Mossane mais próxima da idade adulta, mas é comum que em diversas culturas se prometa o casamento para meninas ainda entre a idade de crianças e adolescentes. A personagem principal deveria se casar com Diogaye, com uma família considerada rica e de oportunidades interessantes também para o vilarejo e familiares de Mossane. Desafiando a história como ocorre desde Romeus e Julietas pelo mundo, a jovem, considerada pérola maior do vilarejo, se apaixona pelo estudante universitário Fara, que tem vida totalmente distinta das aspirações da família de Mossane. Segundo os relatos, curandeiros e demais fofoqueiros da vila, Mossane e Diogaye haviam sido prometidos desde o nascimento, aquele papo piegas de feitos um para o outro.

O drama senegalês não traz tantos acontecimentos. Mais uma vez, a exemplo de outros curtas documentais de Safi Faye, a experiência do espectador é também uma imersão na cultura senegalesa, na vida no campo, nas raras aspirações possíveis, no estilo de vida segregado e de poucas possibilidades. Embora muito jovem, Mossane teria de se dedicar ao matrimônio, a expectativa e os dotes financeiros são todos dedicados a esse casamento arranjado, e só restaria a ela fugir com o verdadeiro amor. Existe alguma tensão entre os pretendentes e principalmente o nervosismo das famílias envolvidas, como se a vida deles dependesse mais da união do que o sentimento costurado entre os próprios noivos. O andamento, os preparativos, tudo é desenvolvido com determinado rigor, com palavras espirituais, sentenças intransponíveis: Mossane precisa casar com o escolhido e ponto.

A história de rebeldia é conhecida na humanidade e a ideia de Safi Faye é demonstrar como isso ainda ocorre muito em Senegal e em outras comunidades africanas. Apesar de dessa vez não optar por personagens reais no estilo documentário, Safi aproxima ao máximo a lente do realismo e emoldura a história com drama familiar da doença do irmão de Mossane, a necessidade da jovem por novos sustentos para família, a consulta da preocupada mãe com guias espirituais, referências de sapiência nessas aldeias e também demonstra brincadeiras das crianças ao redor e, é claro, a preparação para o clímax do casamento, que poderá resultar na aceitação ou na tragédia anunciada.

Nota final de Mossane em:

🌟🌟🌟🌟

09/06/2025

Todo Modo (1976)

Com elenco recheado de estrelas do cinema italiano, o longa (2h05) Todo Modo, com direção de Elio Petri, conta os entrelaços de igreja e política na Itália. De forma humorada e exagerada, a tensão ora cresce, ora se dissipa quando figurões da política e da religião Católica se encontram em exercícios de fé, em uma espécie de retiro, distante dos holofotes dos jornais e das grandes cidades italianas.

Após a queda do Fascismo com a derrota na Segunda Guerra Mundial, a Itália passou a ter dois partidos de maior força, um mais progressivista e outro mais conservador, sob a doutrina e a asa da Igreja Católica. Sem usar nomes oficiais sequer para identificar qual seria o Partido do filme, a ligação é evidente. Quando mencionam durante todo o filme sobre afirmados 30 anos de poder, é ao conservador que se referem. Justamente o tempo entre a queda da Segunda Guerra e a realização do filme de Petri. 

Os velhos brancos, engravatados e de terno se reúnem em um fim de semana para rezas, mas também, cada qual tramando em seu quarto, para um perigoso jogo de gato e rato em acerto de contas. Dom Gaetano é o padre principal que organiza o cronograma e as realizações cristãs do encontro. Logo ao começo uma cena entre ele e o dito Presidente (provavelmente mencionado assim por dirigir o Partido) dá indícios de uma relação homossexual entre ambos. O filme é repleto de sátiras. 

Os políticos e religiosos lavam as mãos nesses encontros. O Partido é tomado por donos de empresas, banqueiros, empresários e influenciadores do sub-mundo financeiro. Do meio para o fim da história aparecem, também de forma satírica, uma verdadeira salada de siglas para tentar compreender quais empresas estariam envolvidas e na reta dos escândalos. A tensão passou a tomar conta quando ocorre a primeira morte. Um investigador é contratado para entrar em cena, enquanto o escândalo ainda é abafado das famílias, dos populares e dos jornais.

Tão logo chega o investidor, os homens de terno demonstram seus temores, suas inseguranças, no velho ditado de quem não deve, não teme. Mas como ali estão figurões dos mais corruptos da Europa, o aspecto de máfia se sobressai e o pânico se instaura. A crítica proposta é conhecida pelos problemas de corrupção que a Itália sempre atravessou, além de burocracias e nepotismos, heranças que parece terem sido bem transportadas com os imigrantes ao nosso Brasil. O nepotismo aparece com maior força em cena para o final do filme, quando cobranças de esquemas vêm à tona e ninguém mais mantém a calma durante o alarido das investigações e consequências.

A ligação entre igreja e política denuncia tanto uma instituição quanto a outra, a do Partido. O próprio Dom Gaetano afirma que se a Igreja Católica logrou êxito nos últimos séculos foi mais por competência dos padres ruins do que dos bons. O suficiente para bom entendedor.

Além dos escândalos financeiros e da possível tentativa de eliminar denunciantes ou opositores, ainda percorrem o filme os escândalos sexuais, outro tormento para as instituições lidarem e se protegerem das investigações e da opinião pública. O comentário sobre o filme vem em imaculado momento, pois recém divulgaram-se os dados sobre as religiões em território do Brasil, com o catolicismo ainda sobressaindo na casa dos 56% das pessoas, queda em relação a outras pesquisas, mas o suficiente para manter vantagem sobre o crescimento dos evangélicos, já representantes de pelo menos um quarto da população brasileira. Os sem religião representariam cerca de 10%.

A ligação entre Igreja e Estado (Política) no filme italiano denuncia as hipocrisias, farsas, inaptidões e desinteresse dos engravatados pelos reais problemas de sua população, enquanto miram lucro e boas relações interpessoais para vantagens exclusivas. Em um momento de crise, após o estopim dos problemas no encontro, alguns dos políticos discutem os problemas e se não seria vantagem então pular o muro rumo à oposição, pois os riscos de permanecer no Partido em crise eram evidentes.

Escândalos financeiros, interpessoais, acusações, falsidade, escândalos sexuais, tentativa de manter a ordem e as práticas de doutrina: tudo isso se encontra nas confusões reservadas ao filme Todo Modo, nome importante e que deve ser prestado atenção para descobre os enigmas que envolvem essas corruptas instituições mandatárias secularmente na maior parte da Europa, antes mesmo de unirem os fragmentos e a Itália ser Itália, visto que o país é relativamente novo, saindo dos impérios e denominações feudais rumo às fragilidades ditas democráticas.

Drama, comédia, suspense e até o terror dos cadáveres estão reservados em Todo Modo, um filme que desafia as instituições regulamentadas a exercer o poder, denuncia práticas obscuras sem citar nomes oficiais, apenas alguns símbolos, sem crucificar quem já não estivesse crucificado há quase dois mil anos do prazo de lançamento em 1976. Aventura sagrada e profana muito bem-vinda na exploração de diferentes temas.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐½

18/05/2024

Longe do Vietnam (1967)

Um grupo de diretores franceses, compositores da chamada Nouvelle Vague, fez apontamentos sobre a guerra do Vietnã em 1967.

Enquanto a guerra transcorria na Ásia, debates sobre as imagens e os sentimentos gerados também ocorriam. Segundo as próprias vozes oficiais dos Estados Unidos, era a primeira guerra com uma cobertura completa de imagens, televisão e telejornais. Correspondentes que acompanharam as movimentações do local voltaram zonzos. Uma repórter relata que não aguentava mais o som de motores, helicópteros e bombardeios.

Era a guerra do exército mais rico do mundo contra um pobre país. Uma guerra ideológica. Uma guerra para tentar servir de exemplo a todos que dessem oportunidade para a corrente do comunismo. Um pequeno país campesino se organizando para se defender de toneladas de bombas lançadas diariamente. Um país agrário em sua própria defesa, pois ali os soviéticos não quiseram esquentar a mão no que ainda hoje se chama de Guerra Fria.

Os vietnamitas se organizavam como podiam em suas pequenas cidades e vilarejos. Também tentavam encenações, peças de teatro para distração mas instruções. Foram cavados milhares de túneis e de abrigos individuais subterrâneos. Em caso de alarmes de bombardeios ou invasões, os vietnamitas se escondiam em alojamentos concretados abaixo da terra. Milhares devem ter sobrevivido a partir dessas construções rústicas e muito úteis. Os Estados Unidos eram o exército mais rico do mundo, com equipamentos tecnológicos até hoje para muitos países. Porém, os jovens mandados à guerra sabemos quem são. Não são os de famílias abastadas. São negros, latinos e pobres de estudos atrasados. Esses foram a maioria dos chamados voluntários. Muitas vezes coagidos e esperançosos por um emprego ou algum orgulho para suas chorosas famílias.

Protestos ocorreram longe do Vietnã. Na França  o vice-presidente dos Estados Unidos foi recebido a protestos, cartazes, correria e confrontos policiais. Ignorava os constantes "Go home". Ao mesmo tempo discursava seu discurso pronto de falso bom acolhimento, receptação amistosa e bem sucedida. Ao mesmo tempo os franceses viviam naquela década os confrontos com a Argélia, por exemplo, tema de filmes da época, como O Pequeno Soldado, de 1963, de Jean-Luc Godard.

Recentemente falecido, Godard é um dos que mais aparece em minhas citações. Ele encabeça essa lista de diretores responsáveis pelo drama documentário em questão. Godard afirmou que pensava fazer um filme específico sobre o Vietnã. Pensava colocar sua visão sobre a guerra, uma visão francesa e distante sobre a guerra. Percebeu que não adiantaria e isso é colonizar culturalmente, como os próprios Estados Unidos costumam fazer. Em seu relato, o diretor compara as lutas. O Vietnã em uma luta desesperada para sobreviver e ser seu próprio país, com seu próprio costume e seu povo humilde e simples de sempre. O cinema de Godard e de outros franceses e europeus travavam uma luta contra o domínio hollywoodiano do modo de fazer cinema. Comparações à parte, uns pela sobrevivência direta, outros pelos afazeres em modo de pensar e refletir cinema, para um ganho sim da comunidade intelectual europeia, ambos viviam aquela urgência para escapar das garras norte-americanas. Godard então não fez o filme direto sobre o Vietnam e comentou que era melhor que a visão vietnamita chegasse até eles, até a distância europeia para guerra. Aprender com eles ao invés de impor o ponto de vista sobre aquele distante conflito, que chegava apenas por imagens captadas e editadas para uso pelo mundo ocidental.

Um norte-americano de nome Morrison se suicidou nos Estados Unidos ateando fogo em seu próprio corpo. Foi um protesto pela forma como muitos vietnamitas morriam na Ásia, queimados pelos soldados dos EUA. A esposa concedeu entrevista que não se surpreendeu com a atitude de Morrison, pois era assim que ele reagia ao ver as imagens da guerra. Impotente, mas jamais desinteressado. Suicidou-se em gesto lembrado até hoje. Uma família vietnamita em França deu entrevista sobre o ocorrido, agradecendo ao norte-americano que se sacrificou por eles, pelo seu povo.

Em tempos de refletir quem conhecemos, quem tem fama, sabemos então que o suicida chama-se Morrison. Mas quantos vietnamitas conhecemos? Quais figuras públicas nos chegam ao conhecimento? E os milhares que lá morremos que conhecemos apenas por "os vietnamitas"? Quantas histórias de agricultores, pescadores, motoristas e trabalhadores de construção ou de organizações comunitárias lá foram ceifadas? Em Nova York houve enorme protesto, assim como em outras cidades dos EUA, calculando que mais de 500 mil pessoas foram às ruas pedir pela paz, pelo cessar fogo, para trazerem as tropas de volta para casa. Muitos ainda eram a favor da guerra e devolviam argumentos típicos da direita. Uma luta patriótica pela libertação do Vietnã. Libertação  de quem? Do comunismo? Dos sovietes que nem mais se meteram nesse conflito armado?

E todas essas mortes em nome do domínio, do imperialismo, da economia dos Estados Unidos ao longo do século 20? Por que chamamos guerra fria se tantos morreram? E essa economia dos Estados Unidos que cedo ou tarde seria ultrapassada e hoje chamamos o seu capitalismo de tardio? Valeu a pena?

Cartazes afirmavam frases prontas sobre os ricos ficarem mais ricos e os pobres na pior. É isto que ocorre. Empresas lucram de forma bélica e jovens são postos à morte, entregues a terrenos hostis e desconhecidos, em Vietnãs, Iraques ou Afeganistões. Ou Palestinas. Mais do que isso, esses confrontos em que os apertadores de botão não botam a cara, não saem de suas salinhas condicionadas, ceifam jovens, mulheres, civis, crianças do lado oposto, gerações perdidas eternamente. O Vietnã pontuou que seria resistência. Este era o pensamento nacional, pela sua própria libertação dos yankees, custe o que custasse, o tempo que custasse. A guerra declinava e para os Estados Unidos a desistência foi uma dura derrota. O sentimento nacional dos yankees debilitado, o rabo entre as pernas, a soberania afetada, o saldo sempre em mortes mais do que representado em cifras.

Os vietnamitas dos exércitos improvisados e desestruturados resistiram. Um pequeno país agrário, conhecedor de seu terreno, contra jatos, aviões, tanques e rambos. Um trecho do filme Longe do Vietnã convoca a todos formarem seu próprio Vietnã ideológico. Se você for dos Estados Unidos, lute pelos negros, pelos panteras negras, se você for da Guiné ou da Angola, lute contra os portugueses, se você for latino-americano, lute pela sua América, pela sua gente, pelos seus produtores. Não caia nas garras da dominação estrangeira que tanto tenta interferir e explorar o máximo possível o seu país. O Vietnã foi um exemplo positivo, como defendia o governo cubano, de que era possível resistir, mesmo a um preço tão caro, vidas acabadas pela guerra contra a dominação estrangeira com seu aparato tecnológico bélico.

O Vietnã ainda tão pouco estudado ainda pode ser visto por nós. Como em filmes como Longe do Vietnã, mesmo nós estando distantes. Estávamos distante territorialmente, distantes agora temporalmente passados mais de 50 anos, mas a dominação capitalista selvagem em nossas florestas, nossas cidades, nossas agências de notícias permanece. O que fazemos a respeito? Onde está o nosso Vietnã? Por que Elon Musk doa antenas ao Rio Grande do Sul? Por que o governo Biden doou 100 mil reais enquanto para as guerras em Israel ou na frente ucraniana são bilhões? Que interesse eles têm em ajudar? Ou permanecem esquentando guerras que só são frias porque não são no território deles? Perguntas que devemos nos fazer. Onde está o nosso Vietnã que poderíamos constituir no dia a dia?


Longe do Vietnã (1967)

Direção: Chris Marker, Joris IvensClaude LelouchAlain ResnaisJean-Luc GodardAgnès Varda e William Klein.

Sinopse pelo Filmow: Diversos cineastas da Nouvelle Vague documentam e expressam sua simpatia pelo exército norte-vietnamita, durante a guerra do Vietnã.






24/04/2024

Vale das Bonecas (1967) e Terras (2009)

Acabo de ver o filme Vale das Bonecas, direção de Mark Robson, de 1967. A primeira crítica que leio sobre foi a de entregar a direção nas mãos de um homem. O filme tem total protagonismo feminino, através da história de três mulheres. Ou quatro. O destaque vai para cantora Nilley O'Hara, rejeitada de um musical por uma invejosa veterana, dona do espetáculo em Nova York. Ela busca a carreira na parte oposta dos Estados Unidos, em Los Angeles. Mas seu vício por pílulas vai colocar tudo a perder. É sobre ascenção e queda, o vício, a indústria, a substituição, a obsolescência programada. Pessoas substituíveis e uma engrenagem de espetáculo que não para, empilhando atrizes e atores descartáveis. Aqui a ênfase nas mulheres, substituíveis tão logo passem seus auges, suas mocidades. 

Mulheres que são usadas por homens ricos, por donos dos estúdios, das gravadoras, da programação. Homens que escolhem, apontam dedos quando ninguém os aponta. A crítica inicial ao filme é que o diretor aliviou a crítica para os papéis masculinos, consideração com a qual concordo. Pelo ponto de vista do mostrado no filme, que é baseado em um romance feminino da época (da autora Jacqueline Susann), parece que as mulheres brigam entre si, surtam entre si, enquanto os culpados saem pela tangencial da inocência.

Pois no mesmo dia recebo a fofoca de que duas ex-colegas de escola estão passando pela prostituição em grande centro brasileiro para serem investidoras desse dinheiro na cidade natal delas, no interior. Andam com magnatas, se vendem corporalmente em troca de pequenas ilhas de luxo, talvez carros do ano, quartos de hotel com boas vistas e relógios que custam mais do que minha conta bancária acumulada. Empreendedorismo bonito de rede social, com fotos chiques, roupas da moda, corpos bronzeados e autovenda no açougue aos olhos.

Interessante ter escolhido assistir a esse filme norte-americano na noite anterior a receber essa notícia. Interessante que as mesmas irmãs que agora são empresarias neste ramo aproveitem sua juventude ao passo que recordo criticarem na época uma colegial que já se vendia e usava drogas. Assim imagino outras da época. As que prosperam em carreiras de estudo e devoção a outros trabalhos mais bem anunciáveis são pouquíssimas. O que a tentação e o capitalismo não fazem? O prazer imediato de quem compra, o prazer quase imediato de quem vende e em seguida recebe em troca. Ou até durante. Ou até recebe antes, na troca de promessas. Corridas em carros de luxo, hotéis altos, cafés da manhã, sorrisos brancos consertados, publicações cheias em vidas vazias. O que farão futuramente? Terão história para contar. Ascenção e queda.

A carreira dos holofotes concorridos nos Estados Unidos, os perfis de Instagram com seguidores anônimos. Quem realmente liga para a história que está ali? Quem liga para o abuso de comprimidos, para os preservativos descartados a cada uso, para as pessoas que passam e não ficam sequer para arrumar a cama? O quanto os empresários ligam para suas supostas estrelas, para substituição entre um espetáculo e outro, às vezes entre um show e outro?

Para completar emendo assistir ao documentário Terras, de 2009. Imaginava algo oriental pelo nome da diretora ser Maya Da-Rin. Mas é amazônico. Amazônico na sua essência. As entranhas da floresta. A fronteira entre Brasil e Colômbia, sendo uma das cidades chamada Letícia. Anônimos que fogem de guerrilhas, que vendem batatas, cebolas, artefatos. Indígenas originários, brancos invasores. Quem disse que o modo de vida comercial capitalista é o correto? Quantas gerações de indígenas passaram? Ok, vivendo menos, até os 30 ou 40 que sejam, mas por milhares de anos, enquanto nosso modo de vida industrial acabará em ilhas enormes de plástico nos oceanos, terras e seres para cultivo exterminados, garimpo, gula, egoísmo, extração final de recursos. Nosso modo de vida proposto pelos industriários e verdadeiros capitalistas detentores acabará com o planeta em pouco tempo. Mais algumas décadas, mais tardar século, se não com as bombas, drones e guerrilhas armadas no Oriente médio, Ásia, Europa ou respingos aqui. O nuclear é potente.

Uma indígena afirma que antigamente tudo era compartilhado, enquanto o dinheiro hoje é um modo que cada ajuda, cada competência, cada correspondência entregue é cobrada ou nada feito. É o modo com que aprenderam dos brancos.

Quem está em capacidade de julgar atrizes excluídas e decadentes, prostitutas, indígenas corrompidos, indígenas que participam da corrupção ou dela são somente vítima? Quem está no julgamento de gente que perde o rumo seja pelo desespero da primeira fome ou pelos anseios de diamantes falsos da segunda fome, a espiritual ou só do mundo das aparências?

Certa vez cheguei a me indagar porque alguns poucos milhares de indígenas precisariam de áreas grandes do tamanho de estados, mas imagine a importância da preservação de terras, de natureza e o impedimento da ganância máxima. Por que os originários que tanto sofreram na mão dos brancos em matanças, escravização, imposições religiosas, imposições de costume não podem ter seu espaço de preservação enquanto empresários 1% mais ricos detêm a riqueza de milhões e milhões de nosso povo? Em terras, heliportos, empresas sonegadoras, financiadores de armas, de drogas escondidas e achadas, terras, terras e mais terras. Nós cada vez mais longe de devolver para os indígenas como hoje em dia só propõem da boca para fora, do sonho radiante, esvoaçante e passageiro como fumaça de cachimbo ou em postagens ligeiras de redes sociais. Para onde vamos e quem dá mais?

23/11/2022

Não quero falar sobre

Voltava de ônibus e prestava atenção ao assunto que me era inevitável ouvir. Um rapaz e uma moça falavam sobre concursos a serem feitos. Depois mais alguém se juntou à conversa, piorando minha realidade enquanto ouvinte. Detestei a forma como abordavam os planos de carreira. Eram centrados unicamente no salário. Praticamente só falavam em números, em cifras. Quanto se conseguiria tirar, quanto poderiam evoluir salarialmente. Números e mais números. Algoritmos retirados sabe-se lá de qual embasamento, algoritmos que surgiam com a imprecisão que os algoritmos não sugerem.

Certa vez li que na França é falta de senso comentar sobre (seu ou outros) salário com outras pessoas. Não sei se é verdade essa forma, essa cortesia francesa para repelir esse chateador assunto. Mas concordo com quem pensa assim. Hoje sofro com a realidade de não possuir um salário digno para minha existência. Meu padrão de vida em nada se encaixa no dinheiro que recebo, de forma que recebo o auxílio de meus idosos pais. Caso eu tivesse um salário mais elevado, não falaria sobre, sob a fiscalização e a aplicação de minha própria pena ao constranger os demais. Ou simplesmente pelo assunto não tomar contornos de meu exigente interesse. Já no fato de eu não ter o tal salário, eu, pobre diabo, quem saio constrangido. Apenas escutava a conversa animada dos futuros concurseiros esperando ansiosamente para a parada de algum deles ser nosso próximo destino, para cessar aquele falatório conflitante com minhas ideias.

Pouco me interessam desses cargos que não vou me candidatar. Aliás, os concursos eliminam a quase todos, com exceção da exceção. O vencedor garante a estabilidade. Todos os demais seguem zumbis a vaguear em busca do próximo concurso em alguma desconhecida no mapa cidade interiorana. Ademais, ms irritava a forma como tratavam empregos burocráticos que por si só já se demonstram maçantes. Mas para piorar o debate era apenas centrado no plano salarial. Nem sequer debatiam os benefícios ou as agruras de determinadas profissões a respeito das reais aplicações e implicações delas.

Falavam de tirar 5 mil limpos. Falavam do custo de vida inviável com 1.500. Calculei com o que posso fazer. Continuei apenas ouvindo e com o olhar direcionado para o lado de fora da janela do ônibus. Queria estar distante na rotineira observação urbana que faço a partir das laterais do coletivo, mas fiquei malogrado minutos pelas matracas.

Depois falaram mal da docência. E pensaram a carreira de professor também a partir do salário. Reduziram uma profissão tão complexa, tão edificante, tão desafiadora, tão enriquecedora a partir da troca de conhecimentos e experiências para uma pobre questão salarial. A profissão de professor que deve sim ser debatida e mais valorizada e não rechaçada de forma rasteira, unicamente a rejeitando porque de fato não paga bem ou não atinge o que pensam por custo benefício. Depois investiram para possibilidade de um emprego na política - "onde poderia mandar". Tá bom. Mandar, criar leis e ter assessores. Agora que me cai a ficha do desejo, da sede de poder que move os humanos. O poder está no dinheiro. O poder financeiro e as portas que se abrem a partir dele. Tudo pelo poder, não pelo prazer, não pela jornada, não por outras coisas, o lúdico que poderia guiar nosso cotidiano. Apenas o dinheiro como farol. Ou o poder de subestimar, subordinar e outros sub a outros humanos. Ser chefe e ter funcionário. Ter dinheiro e de alguma forma escravizar o conseguinte dependente. O sonho do opressor, andando de ônibus bancos atrás do meu, oprimir.

Felizmente em algum momento a conversa acabou. Ou até eu tomei a iniciativa de saltar uma parada antes. O sol ainda brilhava lá fora e minhas ideias buscaram novos bosques para se sustentarem. Quando não podemos vencer o assunto, a possibilidade de puxar a cordinha. Do ônibus, para descer antes.

24/05/2022

Processos da loucura

Como não ficar louco em uma sociedade em que uma consulta médica custa 500 reais? Com desconto do plano de saúde 400. Nem a consulta o plano de saúde capta, absorve, abrange integral. Só um mero desconto. 500 reais, quase meio salário mínimo. Mais de meio salário para muita gente abaixo do mínimo.

Vai gastar meio mês para uma consulta em que o médico apenas olha para sua cara? Os médicos estão cansados da exaustiva pandemia. Concordo, muito eu penso neles. Mas muito penso em nossos abatidos pacientes. Atendidos com demora e muitas vezes atendidos de qualquer jeito. Chateados com os sintomas e com a forma como são tratados. Ou destratados. 

A pessoa muitas vezes volta para casa sem a resolução de seu problema. E ainda cansa mais o psicológico. E hoje em dia o que não cansa o psicológico? Na era de tanta informação. De tanta tecnologia que nos bombardeia assuntos. Imagina não ter assuntos, algo vai pousar para falarmos. De piadas às piores crueldades, mas algo vai. E aqui mesmo no texto de uma origem fujo pela tangente em outras raízes. Mas o psicológico. O psicológico cansado dessas notícias, dessa necessidade de interagir, da era do pós-trabalho para quem trabalha, de casa ou não, mas sempre sobrando para casa. Antes levava do restaurante um pouco de comida para o cachorro, hoje leva mais algum cliente insatisfeito que poderia ter sido tratado mais cedo. Consultorias e atendimentos. Preocupação e ansiedade.

A era do pós-trabalho para quem trabalha e quer garantir um sustento que lhe permita 500 reais em uma consulta particular,  ou 400 reais se você bancar a continuidade mensal do plano de saúde que não cobre todos os gastos, sinto-lhe muito. Como estiquei o ouvido para o caso da senhora que consultou as secretarias para tentar um atendimento o quanto antes porque depois que ela foi no dentista passou a sentir-se tonta. Será que é neurológico ou o que é? Ela, à beira de seus 90 anos, nascida em 1933, irá descobrir e minha fofoca ficará incompleta porque ela agendou retorno só para o dia seguinte, às 18 horas.

Não gostei das secretarias. Quando falaram do tempo, de casa ou apartamento frio e sujeito à umidade, ok, mas também falaram de outros pacientes, que uma mulher no exame dela nada apontava então não haveria necessidade de pressa na marcação de sua consulta. O desaforo. E eu ouvindo me sentindo tapeado porque eu mesmo havia sido remarcado já duas vezes, passando da suspeita de um ciclone que ao fim nem veio, e depois pelas prioridades médicas de atender um necessitado de cirurgia, sua especialidade, corta e corta. E lá se foi outro turno. E eu reagendado olhando ali cabisbaixo para meus próprios tênis que já foram mais brancos, sujam e já não limpo e minha roupa amassada e já não me importo se assim fica porque tenho prioridade é de resolver a minha saúde.

E cabisbaixo como eu aguardava, cabisbaixo eu saio porque sou eu reagendado, sem solução, não é com esse médico muito menos com as secretarias fofoqueiras que vou me resolver. Adio meus problemas e preocupações. Gasto tempo e dinheiro. E linhas que obviamente esse texto é sobre muita gente dependente de SUS ou apalermada mesmo na sorte de um plano de saúde, talvez incompleto. O texto é sobre mim  cabisbaixo, abatido e um pouco mais pobre, sim. Também mais pobre de espírito. Ah, o psicológico... Ainda não sou totalmente louco porque redijo essas linhas todas. Mas só por isso será?

30/04/2022

Fazendo as malas

Sinto agora que me aproximo de minha morte. E é tão triste percorrer esse trajeto, que ameaçava ser de forma voluntária, pela maneira involuntária que buscam as vítimas.

Antes de mim ainda irão alguns. Mas creio que a fila diminuiu bastante. Não sei se volto para trazer mais notícias. Qualquer publicação desse espaço maldito que gere algum ganho financeiro (risos), gostaria que este fosse encaminhado a meus pais ou a instituições de acolhimento de crianças ou idosos.

Ou para salvar algum enxerto de natureza. É para lá que eu vou. Se é que vamos a mais algum lugar. Câmbio e desligo.

22/04/2022

Cotações Selvagens

Antes de ser o último álbum (a que tenho conhecimento) do Wander Wildner, Coração Selvagem, com design muito semelhante, foi filme do polêmico e ousado diretor estadunidense David Lynch.

Muitas vezes me pego pensando nas relações estabelecidas no mundo e no mundo da arte, especificamente. Quem inspira quem? De onde saem tais referências? Me sinto muito inteligente quando capto, embora muitas vezes seja apenas questão de ter acesso. Nada a ver com a capacidade de estabelecer a conexão. Quando desconheço ou quando desconhecia, me sinto limitado. Somos duros demais com nós mesmos.

Me pego pensando também que muitas vezes as referências são mais óbvias. Eu, por exemplo, gosto muito do filme Forrest Gump (1994). Fiz até trabalho da faculdade sobre. Aliás, quando me debruço sobre assuntos recorrentes a mim, me sinto trapaceando, o que é errado. No fundo, parece correto explorarmos temas de nosso conhecimento prévio. É importante. Claro, sem perder de vista que podemos nos aventurar em novos temas, desafios mais distantes.

"Para alimentar o seu coração selvagem.

Para alimentar o seu coração selvagem."

Meu coração selvagem procura filmes e livros fora dos mais vistos e dos mais vendidos. Faz parte da sede por descobrimentos. Por explorar algo que os demais não tenham acesso. Sou muito movido dessa forma. Reconheço que seguidamente é solitário, pela falta de com quem debater. No meu blog é comum eu trazer referência a livros de traduções mais raras ou do cinema latino-americano ou do leste europeu. De certa forma, ponho para fora as reflexões que desejo estabelecer sobre essas obras apreciadas e procuro fomentar a vontade dos leitores em buscar casos semelhantes. Ao me pedirem dicas de filmes ou livros, não hesito em deixá -las.

Minto. Sempre hesito, porque assisto a tantas obras que minha primeira reação sempre é de parar e tentar trazer da memória o melhor que tenho visto. Orgulhosamente os temas também são muito variados. As pessoas são distintas. Há temáticas de ação desenfreada, roteiros vencidos e requentados que não me chamam atenção. Ao passo que as missões estritamente filosóficas, as aproximações com a vida real que muito me saciam podem aporrinhar a opinião alheia. Aí eu sinto muito.

Gosto de explorar os processos antropológicos, os limites da mente humana, os desafios da vida real nas páginas dos livros e nas telas em filmes. Quem procura por ficções que muitas vezes fogem do meu interesse pode se decepcionar com minhas dicas. Mas busco ser bastante autêntico, honesto e reflexivo, a cada análise e a cada conselho. Disso espero não reclamarem. Assim me justifico.

De alimentar o Coração Selvagem que me coçava a começar esse texto, lembro aqui do documentário Super Size Me, popularmente conhecido como A Dieta do Palhaço - em alusão ao Ronald McDonald. Vejam bem, aqui está um exemplo dos próprios Estados Unidos. Bom para vocês? Pois este documentário tenta, no início do presente século, detonar com a abastada fama das lanchonetes, em especial o McDonalds. O personagem principal e diretor propõe a si mesmo o desafio de comer somente na lanchonete mais famosa do mundo durante um mês. Os resultados contra sua saúde são alarmantes, embora não o suficiente para desmanchar o hábito do fast food, que só cresce pelo planeta.

Me chamaram a atenção alguns dados, como na época haver 58 restaurantes McDonalds em Nova York. Ao passo que não me deixou de surpreender o dado de que os nova iorquinos caminham, em média, uma boa quantidade de quilômetros por dia. Menos mau nisso tudo. Enfim, sobre o documentário, vi algumas análises negativas em sites 'especializados' em criticar. Por outro lado, eu procuro ser bastante defensor dos documentários, porque entendo suas limitações de orçamento, principamente quando criticam os verdadeiros endinheirados orçamentários, e também entendo a importância dos temas trazidos à tona. A luz que procuram jogar sobre os cegos olhares da sociedade.

Dessa maneira, defendo o Super Size Me, por questionar a chamada epidemia de obesidade nos Estados Unidos, criticar a indústria cruel da propaganda e, de certa forma, se preocupar com a saúde daquela e das próximas gerações. O autor procurou entrevistas com autoridades, buscou saber dados das lanchonetes, expor a indústria comandada pelos lobistas, a indústria da publicidade desvairada e incontrolável e o impacto nas escolas e na saúde dos jovens. Tudo isso intercalado com a sua proposta de, a cada dia, tentar somente se alimentar com os lanches nada ou pouquíssimo nutritivos desse verdadeiro e avassalador conglomerado.

Alguns procuraram diminuir o filme por uma ou outra colocação que fugiria do considerado bom padrão do politicamente correto. Acredito que algum deslize que venha a ocorrer nessa questão não diminua o tamanho e a importância do documentário. Uma exposição que certamente preocupou, mesmo que por limitado espaço de tempo, os donos da barganha, das mentes e dos corpos, dos Estados Unidos e de seus mais ou menos controlados quintais. Concluo após assistir a essas assustadoras exposições que, novamente, fica a impressão da tal liberdade defendida nos Estados Unidos suterrar a saúde de seu próprio povo. Além de, é claro, influenciar em uma derrocada dos seus "ali(en)ados" países.

Me refiro assim porque é recorrente pensar na destruição do povo dos Estados Unidos através das epidemias de drogas, como heroína, que matam dezenas de milhares de pessoas por ano, além de outras drogas, regularizadas ou não, à venda em farmácias ou não, além do conhecido álcool, bem acessível a nós brasileiros, e além obviamente das milhares de mortes anuais por armas de fogo, de homicídios a suicídios. Embora aqui eu não traga imediatamente dados dessas mortes todas, todos esses números são facilmente acessíveis na internet. Mortes por heroína, embriagados na direção ou armas de fogo que disparam e sepultam.

Soma-se a esses problemas crônicos na sociedade dos EUA, a quantidade absurda de sódio e gordura trans e outras consumidas pelas pessoas diariamente. Silenciosamente agindo em seus corpos. Modificando-os, interna ou externamente. Riscos à saúde. O barato que sai caro. A comida rápida que vagarosamente os leva aos mais diversos problemas. Diabetes, safenas, cálculos renais. Muita coisa acumulada no organismo.

Enfim, acredito que os homens à frente de seus tempos, David Lynch e Wander Wildner dimensionem que muito além dos corações selvagens está o capitalismo selvagem dessa maneira algoz e matreira, agindo na autodestruição da nossa espécie. Ah, certamente eles sabem disso. E quem mais lucra com isso também sabe.

20/01/2022

Samba triste ou MPB?

A propaganda nos invade 

Como o lixo invade os mares

Como o lixo invade os mares

A propaganda nos invade

Invasivo

Ministério de Damares

Ministério de Damares


A multa da imobiliária

É quase o valor

Dos meses que faltam

O capitalismo

Jogando de presa em alta

Jogando de presa em alta

O primeiro drible é feito

Nos desarmam e não tem falta

Desarmam e não tem falta

O juiz é companheiro

Dessa turma falcatrua

Roubam tanto quanto é dia

Quanto sob a luz da lua

16/02/2021

sem ganhar uma rupia

trabalho pra caralho
sem nunca ganhar uma rupia
capitalismo porco
sistema filho da puta

nossas terras engendradas
por empresas estrangeiras
eles enchem as algibeiras
e pra nós resta naaadaaaaaa

trabalho, quebro galhos
sem ganhar uma rupia
sem sistema de esgoto
cegos operando lupas

empresas privatizadas
o lucro é todo deles
nossas terras arrasadas
somos sempre os mais reeeleeees

trabalho sem me sentar
sem ganhar um centavo
outros passam o dia inteiro
estando parados

população deslocada
periferias e favelas
acendendo toco de vela
longe das fachaaadaaaas

trabalho bem paspalho
sem ganhar uma rupia
tua utopia tá aonde?
não vale nenhum trocaaadooo

inverto os termos
dentro dessa música
sem nunca ganhar uma rupia
ou ganhando nenhuma rupia
ou sem ganhar uma rupia
pra parecer original
na hora de fazer o vocal
pra ninguém me copiar
sem ganhar um real
ou ganhando nenhum real
ou sem nunca ganhar um real

inverto os termos
dentro dessa música
sem nunca ganhar uma rupia
ou ganhando nenhuma rupia
ou sem ganhar uma rupia
pra parecer original
na hora de fazer o vocal
pra ninguém me copiar
sem ganhar um real
ou ganhando nenhum real
ou sem nunca ganhar um real

trabalho como uma mula
sem ganhar uma rupia
trabalho como uma mula
sem ganhar uma rupia
trabalho como uma mula
sem ganhar uma rupia

eu quero é ruupiaaaa
a mais rupia é minha
ninguém tasca, eu vi primeiro
eu quero é ruupiaaaa
a mais rupia é minha.................................



como uma mula

como uma mula eu reformulo
as mesmas frases
mudando palavras e talvez
algumas crases

como uma mula eu fico preso
ao que me cerca
se eu passar a primeira cerca
tem outra na minha reta
se eu for desobediente
é bala na minha testa

como uma mula estou junto
a outras mulas
tem quem viva e não se importe
e outras só simulam
e outras só simulam
e outras só simulam

como uma mula eu vejo os dias
passar no calendário
as folhas pulam e caem fora
e não cai o meu salário
e nada do meu salário
a droga do meu salário

como uma mula eu trabalho
todos os dias
(((exceto feriados)))
no departamento circula
grande quantidade de mulas
propina, débito em conta
laranjas, cheques sem fundo
sobre o lombo cargas em dobro
e drogas do submundo
e drogas do submundo
e drogas do submundo
e dólares na cueca
e drogas do submundo
e notas ultra-secretas
e drogas do submundo


04/12/2020

Verbas

Verbas aos "Vermes"

É o que o governo

A cada inverno serve

Entre parapeitos e soleiras

Longe das estufas e lareiras

E os juízes e seus auxílios

Em seus corruptíveis exílios

Champanhe aos chefes

Tribunais e seus blefes

Siglas terminadas em Efes

Federais

Ai Ai Ai

Ai Ai

Os bingos clandestinos

E os destinos oficiais

O que segue funcionando

E o que se esconde pelas capitais

Ai Ai Ai

Ai Ai

10/06/2020

Se eu tivesse...

Caminhava a passos firmes pelas ruas, com a mente divagante. No dia, logo cedo conferiu no banco estadual que havia entrado seu humilde salário. O contentamento era completamente efêmero, em seguida cedendo lugar para a frustração de quem pouco ganha. O valor ultrapassava do considerado mínimo, mas não chegava ao piso de sua categoria. Chutava pedras pelo caminho e contou bitucas de cigarro largadas a esmo. Nada lhe sobrava aos finais de mês e ele pensava que não podia reclamar muito, que ainda estava empregado apesar dos 15 a 16% de desemprego assolando o país. Mas também pensava que havia cursado o ensino superior para desfrutar de algo bem maior, sem depender da mãe idosa ou da tia solteirona sem filhos que lhe mesava quase 10% do salário dela, outro picorrucho.

Alimentação ok. Duas refeições e uns complementos. Café da manhã desconhecia com a graça santíssima trindade que oportunizava um emprego no turno vespertino. Dormia sempre tarde e acordava hora antes do almoço no local de maior desconto que conseguia próximo ao apartamento de segundo andar em prédio com quatro, um cubículo meio centro, meio bairro. Contas, contas e mais contas a pagar. Havia cancelado o streaming para filmes online. Detestava tanto o que precisava ser pago, que lhe comia os dígitos salariais como se fosse um furioso pacman, quanto o processo de ida aos bancos e lotéricas. Boletos a dar com o pau. Sentia a falta do pai que podia fazer isso por ele no começo de sua vida adulta. Passados.

Distraído, o sinal de trânsito a revesgueio de sua visão quase acabou com uma perna atropelada, mas resultou mesmo foi em dois longos buzinaços e um xingamento à sua idosa mãe. Ele não deixou por menos: 1 a 1 no placar de ofensas enquanto o do Honda Civic cantava pneu na rua asfaltada havia três anos. Desgraçado. Desgraçados. Havia um de óculos escuros no banco de carona a rir da quase-tragédia, balançando a cabeça, em lapso notado por trás do insufilm escuro. Típicos consumidores de milk shakes repugnantemente doces em drive-thrus.

Continuou sua sina de pensamentos, considerando que não era exatamente mesquinho ou mão-de-vaca, apenas queria um salário mais digno, o mínimo de luxo que não fosse sua mensalidade a custo da sobrevivência básica: comida-água-luz-telefone. Ainda herdara da mãe o perfeccionismo para não atrasar impostos. E votar em esquerda, sempre que possível, apesar do centrão querer se apoderar de tudo. E tantos gritos de - fora fascista! - fora racista! - fora machista! em nada resultarem nos últimos três processos eleitorais. Duras derrotas. Severos golpes. Golpe ou impeachment? Golpe, ele tinha certeza.

Pensando numa duplicata oportuna de seu salário e poderia ajudar a tantos outros. A dívida com o Freitas, o empréstimo do Gabriel, o disco que prometera a Victória. Isso, isso, isso. Mas ajudar além, nada de restrições ao grupo de amigos classe-média, a maioria ainda parasitas das próprias famílias, fato que, sendo ele assim também considerado, o incomodava. Imputava mudanças que tardavam a vir e nunca vinham.

Queria ajudar àquela ONG de gatos de Santa Maria. Ou era Cachoeira do Sul? Se houvesse nas duas cidades, ajudaria ambas. Gostava mais de gatos desde que a Chiquinha aparecera. Nem se lembrava do porquê a felina tricolor se chamar Francisquinha, seria do seriado mexicano que era retransmitido havia décadas pelo Sistema Brasileiro de Televisão? Talvez. A Francisca completava 11 anos no mês passado e morava com a mãe dele, o que seria para a bichana uma avó. Questão de pátio, jardim, lugar para caçar, coisa que o apartamento de segundo andar dele, naquele cubículo meio centro, meio bairro não disponibilizava para a castrada gorduchinha.

Ajudaria a ONG dos cães meio afastada do município, não tinha dúvida. Era para os lados do Capão do Leão e tinha sempre dezenas, senão centenas de cães esperando um melhor destino, uma adoção convincente, em um trabalho sério de seus conterrâneos. Lembrou de seus tempos a ajudar crianças em vulnerabilidade social, em especial meninas, e daria uma ajuda mensal para o instituto do prédio amarelado na baixada do centro em direção ao bairro, era perto de onde ele morava. Auxiliaria, sim. Ajudaria também o extremo oposto da vida, o lar de idosos em que ele serviu sopa durante três semestres, não fechou dois anos. Será que ainda estavam por lá as donas Dercy, Jurema, Faustina e Dilminha? Era possível que a resposta fosse qualquer uma das combinações: 100%, 75%, 50%, 25% ou até todas inscritas na lista definitiva das paredes e tábulas de cemitério. Impossível saber sem visitar. Enfim, ajudaria com pagamento ao invés de servir sopa nos jantares cedo, elas recolhidas pouco depois do horário destinados às galinhas. Antes mesmo dos gatos saírem às caças noturnas. Já havia citado a ONG dos gatos? Já, havia pensado nos tigrados, sim, só não sabia se Santa Maria ou Cachoeira e isso não fazia diferença, porque ele não possuía em mãos os recursos necessários.

O que mais ajudaria? Gatos, cães, crianças em vulnerabilidade social, lar das idosas... Albergue para os moradores de rua. Isto sim, melhores condições sanitárias, reforço na refeição que dispunham. Mereciam. Acha ou desconfia que não somente aqueles que nunca dormiram na rua ou passaram frio sem ser por imprudência de não obedecer a regra materna de levar um casaco. Aqueles desgarrados mereciam melhor decência nas acomodações. Compraria jogos de cama, toalhas, itens de higiene. Se sentir sujo era terrível. Mesmo ele, que não era fã do banho diário, principalmente entre maio e agosto, sabia responder que era brabo não se aceitar higienicamente.

Claro que esse aumento, a duplicata salarial resultaria em uma namorada digna de seus atributos, jantares romanescos e passeios indefinidos na turva mente, ao gosto dela. Ela receberia seus agrados e presentes trimestrais, não mais do que isso para não acostumar mal. Mas importava saber mesmo onde aplicar a grana para o bem estar do próximo, muito além da Clara, da Brenda ou da Francine. E mesmo da Vanessa. Será que não era Santa Maria a ONG dos gatos? Não importava.

Recuou em puro reflexo em uma esquina quando um Renault passou chispando pela poça d'água, com os respingos quase o atingindo. Movimento digno da realidade sobrepujando a ficção do filme Matrix. Filho de uma égua. Fosse político investiria na melhora gradual e sistemática do transporte público, ao invés desses barbeiros imbecis financiarem seus modelos prateados, uns iguais aos outros.

Com um salário político então, ou mesmo assessoria de um deputado poderia pensar além das ONGs de cães, gatos, Santa Maria, Cachoeira do Sul ou Capão do Leão, lares de meninas, orfanatos, idosas, crianças com câncer, assistências para os deficientes visuais e bem estar dos albergues noturnos. Podia ajudar também às agremiações esportivas e aos atletas independentes, patrocínios pontuais para homens e mulheres competirem e alavancarem suas carreiras. Eles não esqueceriam. Mensalidade e carteira de sócio na mão naquele clube de sua preferência, pendendo a fechar as portas, não fosse sua ajuda em três dígitos mensais. O velho Carlos agradeceria muito a ele, poderia sentir os pesados tapas sobre o ombro, a gratificação do amigo pela ajuda prestada.

Em tudo isso ele pensava, martelando como o mundo, o seu mundo, seria melhor com um salário digno. Não era coisa para ele e sim para todos que estivessem ao alcance. Já não se importaria do dinheiro não sobrar no fim do mês, pois as aplicações seriam justas e com retornos, sorrisos que não competiam aos preços das prateleiras. Dobrou outra esquina quase chegando a seu cubículo meio centro, meio bairro, quando notou na calçada, em frente ao prédio vizinho, um mendigo que ele sabia quem era. - Ora, de novo esse...

- Uma moeda, senhor, pra garantir a janta.
- Hoje não tem.
- Ontem também não tinha.
- Talvez amanhã...

E o mendigo notou que ele já estava com as chaves na mão esquerda e que o barulho dos bolsos só poderiam ser o seu exclusivo desejo.