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24/12/2025

Emitaï (1971)

Emitaï é um filme senegalês, na direção de Ousmane Sembène. O diretor é uma importante Ponte para registros e lutas do povo de Senegal, sendo um dos principais nomes na cinematografia africana, defensor da soberania do continente frente aos colonizadores europeus. Em questão, o filme trata da resistência de uma comunidade, uma aldeia senegalesa ao expansionismo e abusos cometidos pela França.

A época retratada é da Segunda Guerra Mundial, com referências de troca de comando Militar na França, de Petain para Charles de Gaulle. O acontecimento inclusive gera troça no filme, quando senegaleses que haviam se aliado voluntariamente à França questionam como poderia um general duas estrelas suceder um marechal de sete estrelas.

O que ocorria? A França, colonizadora sobre Senegal, capturava homens para os enviarem à força para Europa, para lutarem no front contra a Alemanha nazista. Mas também nem sempre foi nessa toada, pois o próprio Petain era acusado de aliviar para Alemanha, temendo maiores perdas e derrotas, de modo que a rendição francesa se deu menos tumultuada do que poderia ser. Entretanto, para Senegal, a guerra já estava formada e dificultando a população sob o domínio dos generais franceses.

Nessa comunidade, um símbolo e principal alimento era o arroz. Produtores de arroz naquelas terras, os campesinos deveriam ceder a produção para alimentar os exércitos franceses rumo às batalhas. Desfalques incontornáveis. O arroz também é protagonista quando um dos líderes da aldeia falece em ritual de invocação aos deuses e seu ritual fúnebre deveria envolver as cantorias das mulheres e a oferta de arroz.

Mas o arroz estava totalmente em disputa e requisito francês. Os militares que controlavam, que cercavam a aldeia e ditavam as regras tinham ordens superiores de levarem as sacas de arroz rumo aos exércitos em guerra. O filme relata o saque em que os brancos submetem os negros a essas humilhações. As mulheres da aldeia cuidavam dos estoques e se revoltaram em esconder os suprimentos. Até que os sacos de arroz aparecessem, todas foram colocadas sob guarda, sentadas ao chão no sol, algumas com crianças de colo por criar.

No papel histórico, o filme relata como as comunidades africanas se dividiam. Havia os conquistados pela lábia, pelo poder e pelos subornos franceses. Homens jovens que preferiam voluntariamente lutar pelo lado da França mesmo que contra seus compatriotas senegaleses. Na selva, também chama atenção o que poderia resultar problemas de comunicação quando comunidades, cada uma à sua criação, a seu modo, cruzavam caminho. Sem a unificação idiomática, que até hoje em África é tabu, é desafio cultural, pelas separações, reuniões de divisões de fronteira e imposições culturais dos colonizadores, a desunião idiomática poderia se mostrar mais uma forma de conflito que desafiasse a unificação das causas em prol dos povos originários africanos.

Mas nesse filme, o conflito está entre os armados e os desarmados. Os defensores da cultural original e os rendidos aos colonizadores. A força das armas em predomínio à crença aos deuses. O filme mostra rituais de invocação religiosa, ritos, sacrifícios, como de galinhas e cabras, passeatas e danças. É uma mescla documental, dramática e suscitadora de suspense. Embora saibamos dos conflitos entre colonizadores e colonizados, muito e cada vez mais se aprende através dessas mostras. Como recrutaram homens e lhes deram armas, na sedução do poder e de ofertas superiores - como se comprava inclusive a honra. Como muitos resistiram, apesar de tudo. O diretor Ousmane Sembène dedica essa e outras produções aos que resistem em nome dos antigos, em nome do povo de África, contra a expropriação, contra a exploração, contra a velha e a nova escravidão do povo negro.

Nota final de Emitaï em 4,5 / 5




21/12/2025

Dane-se a Morte (1990) / No Fear, No Die

Filme francês da diretora Claire Denis, o longa conta a história de Dah (Isaach De Bankolé) e Jocelyn (Alex Descas), dois migrantes, um das Antilhas, outro de Benin, africanos, negros, tentando sobreviver à França. O contexto é após a colonização de diversos países africanos por parte da França, mostrando a dificuldade desses jovens em se adaptar à mudança de país, aos sub-empregos, à ilegalidade e à frequente ameaça de tornarem-se alvo de operações policiais.

O centro da trama são as rinhas de galo, em que os garotos, sendo sócios, protegendo-se um às costas do outro, elaboram parcerias e organizam o ambiente, os treinamentos e as batalhas nos fundos de um restaurante, um café sub-urbano. O sócio dos garotos é um magnata influente e mau caráter. Ao longo da trama, todos se envolvem de alguma forma, criando afetos pela garçonete Toni, que atende no restaurante que serve de fachada ao maior fluxo de caixa: as rinhas de galo.

Um ponto importante do filme é a consciência dos migrantes, quando, por exemplo, sintomaticamente, Jocelyn observa que aquela história não duraria para sempre. É a tônica de programações clandestinas. Tráfico de drogas, tráfico humano, rinhas de galo clandestinas. Nada disso favorece a quem está ganhando por muito tempo. Clientes insatisfeitos, denunciantes, policiais à paisana e, no caso das rinhas de galo, a própria inconstância na dependência da saúde dos animais. Lutam galos, lutam francas, Jocelyn as prepara e até se afeiçoa. Ele, distante de casa, com saudade da família, com sua breve história de vida narrada pelo companheiro nessa partilha.

Os homens brancos, é óbvio, tentam se aproveitar deles. Fazem com que morem no mesmo ambiente onde ao lado ocorrem as disputas. Cobram disposição, preparação, divisões desiguais. O negócio era de fato uma contra-relógio, em um drama que se arrasta com algumas formas de violência, sejam as mais diretas, na luta clandestina com os animais treinados a dedicarem-se a isso, seja na violência de gênero em que Toni é cobiçada e submetida às escolhas de terceiros, ou a violência de classe, ao mesmo tempo racial, da controladoria dos negócios dos homens que ameaçam, por vezes, deportar os forasteiros. A clandestinidade como uma corda bamba, como uma bomba que pode ser desarmada ou explodir no corte de um fio errado.

O nome do filme é sugestivo, inspirado na nomenclatura de um dos animais de briga. Ao longo do filme mesclam-se questões como o direito dos animais, a necessidade dos jovens em sobreviver, evocando esses debates morais na reflexão de cada espectador. Os animais eram alimentados, treinados e até afeiçoados, principalmente por Jocelyn, com muito esmero e cuidado. Mas, o produto final dessa criação são as lutas, que provocam dor, violência e a sangria das pequenas aves. No clímax, toda a pressão sobre a cabeça de Jocelyn pode ser fatal. Não só sua sobrevivência em ambiente estrangeiro e hostil, a pressão para receber algum dinheiro que sobre para futuros planos, pois ele tinha a consciência de que aquilo não duraria para sempre, e a paixão que era evocada sobre a pessoa de Toni, pela qual os sócios, brancos e negros estavam interessados. Não há outra mulher a circular no filme por aquele ambiente masculino, tóxico, como dizem, em atmosfera que os clientes gostariam que lembrasse cada vez mais das disputas originárias de latino-américa, como de Porto Rico.

Nota final em 3,5 / 5

08/12/2025

O Carroceiro (1963) + Tauw (1970)

Ousmane Sembène é um diretor do cinema senegalês, responsável por grandes trabalhos que demonstram a vida no país sub-saariano. Os filmes aqui explorados remontam ao período em que a influência francesa ainda era tremenda sobre os colonizados, em um ambiente de crescimento das cidades como Dakar, com as dificuldades de sobrevivência com as novas exigências para empregos e moradia a famílias.

Mais aclamado entre esses dois filmes é o Carroceiro, de 1963. Um sujeito sai para trabalhar todos os dias com sua carroça puxada por um cavalo. Ele vive de fretes e pequenos serviços sob contratação. São transportes para mercadorias ou de pessoas. A função do carroceiro, mediante um trânsito que começava a congestionar da presença de carros, se assemelha à função dos motoristas de aplicativo nas selvas de pedra recentes, passado mais de meio século. Entre histórias que ilustram seu cotidiano, há contratação para frete e para buscar uma mulher grávida e levá-la até a maternidade, a tempo para que seja amparada pelo trabalho de parto. Na viagem, um incômodo lhe acomete com uma roda que ameaça a travessia, rangendo e preocupando o transporte.

Em uma missão ousada, o Carroceiro é contratado para uma encomenda em um bairro de ricos, evidenciando o tremendo distanciamento entre os bairros que convive, entre casebres e mazelas e a área asfaltada, mais urbanizada, arborizada e floreada por apartamentos modernos e de arquitetura deslumbrante. Antes da partir pela missão, ele conversava e era alertado por um companheiro dos riscos de trafegar nesse bairro nobre, local de proibido acesso aos pobres. Ignorando o alerta, o carroceiro parte na busca, interceptado por um guarda que lhe pergunta por documentos, habilitação e autorização para dirigir ali. Humilhado e multado, o carroceiro, sem alternativa financeira, é obrigado a abandonar sua charrete (termo escutado igual em francês) e volta de cabeça baixa apenas com seu cavalo. Ele foi abandonado pelo senhor que o contratou, sem sequer o dinheiro do frete para que havia sido contratado, deixando para trás seu meio de trabalho para que os homens ricos lhe aplicassem a multa. O Carroceiro reclama de ter sido enganado, é vítima, foi surrupiado.

"Eles aprendem a ler e a mentir", reclama na viagem de volta. A desigualdade pela cidade é evidente, ele resmunga sobre a diferença das casas, observa o crescimento da cidade como um crescimento impessoal em que não se pode confiar nas pessoas, diferente da convivência aldeã. Com apenas seu cavalo, ele ainda precisa retornar para casa, para o convívio com a mulher, com o peso da humilhação sofrida em mais um dia de trabalho, do qual ele se pergunta os valores de todo o esforço empreendido, se o dia de anteontem, se o de ontem, se o de amanhã nada mais reservam para seu usufruto.

Em recordo do desenvolvimento do filme, em jornada de trabalho ele chega a desistir de almoçar em casa para que aproveite um dia mais movimentado, em que estava sendo bastante requisitado em serviço. Sem saber o que a mulher inventaria para dar conta do almoço, ele se contenta, se satisfaz com um punhado de nozes que havia recebido de um dos amigos de semelhante profissão. O coleguismo entre os pobres ainda existia, ao passo que entre os ricos ele não poderia se confiar. Ao mesmo tempo, os alertas denunciados em Maria Carolina de Jesus e O Quarto de Despejo, de semelhante época em São Paulo, na chamada favela do Canindé - em que a autora apontava que a inocência da união entre os pobres existia na cabeça de quem não fazia parte daquele mundo. No livro, ela aponta brigas entre a vizinhança, desentendimentos severos provocados pela cachaça e até pelas pirraças provocadas pelas crianças, gerando apedrejamento, vinganças com fezes e tudo mais. São retratos de possibilidades de solidariedade ou do desenvolvimento mesmo da raiva entre pessoas em situação precária, debilitada, em déficit econômico, sem ter como proverem o cotidiano com alimentação e dignidade. Em O Carroceiro, Ousmane Sembène prefere optar pela demonstração da desigualdade e pela vilania dos verdadeiros culpados da manifestação de uma pobreza, ao passo que residem em casas nobres, protegidas, supervisionadas e sem interferências que possam ocasionar transtornos. A segregação na África colonizada ocorria sem a necessidade de um apartheid por cor da pele como na África do Sul, mesmo que muitas vezes fosse, sim, francesa a soberania nas terras africanas, como em Senegal, formando ela, França, uma elite ou impulsionando a formação de uma elite negra local.

Nota final para O Carroceiro:

⭐⭐⭐⭐ e meio


Em Tauw, a continuidade da temática da pobreza está nas dificuldades do protagonista em conseguir emprego. Aos 20 anos, ele é acusado por seu pai de fazer corpo mole, de não prover sustento na casa. Tauw, reunido a amigos em situação semelhante, protagonistas de pequenos furtos na cidade, vão em busca de um emprego mais formalizado. Se reúnem a outros tantos jovens que esperavam um chamado como estivadores ou o que fosse. Em uma oportunidade de aparecerem para serviço no Porto de Dakar, Tauw descobre que o bilhete para simples entrada, travessia da cancela do Porto em Dakar, custava o equivalente a 100 francos. 

O dinheiro francês novamente aparece em peça de Ousmane Sembène, evidenciando a influência da França sobre o país na luta por sua libertação e direitos em autonomia. Enquanto não havia essa possibilidade, Tauw e outros senegaleses lutavam pelos francos pela sobrevivência. Enquanto um dos amigos conseguiu o dinheiro, o bilhete e foi trabalhar no porto, Tauw voltou para casa para pedir dinheiro à sua mãe. Ela entrega uma peça de roupa, uma calça do marido para que Tauw venda e possa trabalhar e voltar para casa com mais dinheiro.

Tauw encontra uma mulher e descobre-se que a gravidez dela possa ter sido ocasionada pelo rapaz. Ele gosta dela, quer ajudá-la, ao passo que a moça também passaria naquele dia por uma consulta médica e necessitava do dinheiro para longa passagem de ônibus- visto que obviamente moravam para as equivalentes periferias das cidades grandes, no caso, Dakar. A mulher chega a oferecer ajuda para Tauw, mas não seria a melhor alternativa e ele insiste em tentar vender a calça. Ao mesmo tempo, a falta de dinheiro o irrita, de modo que chega a duvidar ser ele o pai da futura criança. Em reencontro entre eles, a crise se agrava com a mulher necessitando de 2 mil francos para comprar um dito remédio. Tauw se desespera porque nem ele, nem ela teriam condições. 

No avanço final do curta-metragem de 26 minutos (O Carroceiro tem menos tempo, mas ambos abrem espaço para muitas críticas e observações sociais), Tauw toma a medida drástica de contar para seu pai sobre o ocorrido e, para lamúria e discordância da mãe, resolve sair de casa ao pedir a mulher em casamento e tentarem desbravar a difícil jornada da vida juntos. O filme é permeado ainda por tentativas de ensinamentos escolares e religiosos (na verdade adjuntos) em que as crianças leem lições e versos islãs para um mestre. Enquanto percorre as ruas em busca da salvação da sua eminente crise financeira, Tauw ainda se depara com os demais apelando para as rezas diárias para Allah. A salvação, vista nos filmes, não seria da boa índole dos ricos para os carroceiros ou os que tentassem serviços ocasionais no porto, jovens impedidos de uma educação formal e de garantias de trabalho mesmo braçal. O carroceiro que perdeu seu veículo e o rapaz que precisava arranjar primeiro 100 francos que sobrassem para um dia de serviço sob a chancela da administração portuária.

Nota final para história de Tauw:

⭐⭐⭐⭐


Senegal foi colônia da França entre 1817 e 1960. Apesar da data oficial de emancipação ser em 1960, a influência francesa, em dinheiro, costumes, autoridades e burguesia eram constantes nos anos vindouros, conforme denúncia o cinema de Ousmane Sembelé nesses dois curtas apresentados. A influência está desde o idioma ao dinheiro utilizado na exploração do desenvolvimento senegalês. Quanto à exploração dos recursos da terra, caberia mais do que um capítulo à parte dessa análise.

Na curiosidade com o futebol, Senegal derrotou a França na Copa do Mundo de 2002. Os senegaleses venceram a colonizadora e assim a eliminaram do torneio ainda na fase de grupos. Em 2026, novamente Senegal e França foram sorteados para o mesmo grupo e vão realizar novo duelo. Outros países que passaram por enfermidades sob domínio francês, e que costumam se destacar no futebol e nas artes, são Marrocos, Argélia, Camarões, Tunísia e Congo.

18/05/2025

Buena Vista Social Club

Pelas ruas de Havana

Eu me vou desde pequeno

Ou me disse uma cigana

Ou foi um outro moreno 

Se não fosse Havana

Preferia fosse a morte

A Santiago de Cuba 

O meu abraço mais forte


A Santiago de Cuba

Santiago de Rio Grande

A Santiago de Chile 

Ou por onde mais deixei amante 


Jamais deixei de amar-te 

A arte dessa salsa

Jamais em alguma balsa

Jamais deixei de amar-te

Tú eres mi à la carte 


Ao controle dos cartéis 

E dos papéis das autoridades

Quero nos meus registros

O meu crime de amar-te

Quero anunciado em alto-falantes 

Quero que conste nos autos 

Os meus prantos de saudade 

O meu crime de amar-te


Jamais deixei de amar-te 

Pela arte dessa salsa

Jamais em alguma balsa

Jamais deixei de amar-te

Tú siempre mi à la carte 


Te dedico o sol que me nasce

Te dedico as minhas preces

Mesmo que nada aconteça

Te dedico más de mil veces 

Tus besos son lo que me vale 

Por lo vale de la utopía 


Te dedico o dia que me nasce 

O amanhã e o mesmo de julho 

Te dedico calendários 

Aqueles que ainda nem penduro 


A Santiago de Cuba 

E toda sua luta

Buena Vista Social Club 

Som que me faz permuta

15/05/2025

Há algumas espécies de filmes ou documentários baseados em homenagens preocupadas em serem feitas em vida, como se diz. E conforme se tornam filmes ou documentários mais antigos, assiste-se sabendo que os então homenageados em vida já morreram. E isto é bastante triste.

Nessa passagem chamada vida, encontrei em algumas pessoas negras a bondade e a humildade que não consegui discernir nos melhores brancos.

Visto o Buena Vista Social Club, sobre a música cubana, documentário do imprescindível Wim Wenders.

19/06/2018

Lutas e Gratidões

Minha irmã acorda tarde, toma o café da manhã tarde e reclama do almoço, que é servido em um intervalo de tempo curto entre as duas refeições. Minha mãe acumula cabelos brancos que ela não mais esconde e estresse que não mais segura, entrando em erupção de quando em quando. Hoje foi um desses quando.

Mais tarde, entre o almoço e um jogo da Copa do Mundo na televisão, minha vó aparece de jaqueta rosa e óculos escuros bastante chamativos. Em um horário que muito bem poderia ser de algum pedinte, geralmente uma senhora negra com uma filha com necessidades especiais e que pede leite ou algum ser adulto não disposto ao trabalho para o ganha pão. Confiro para confirmar pelo olho mágico e abro a porta para minha vó na certeza que o jogo entra em segundo plano, porque ela insistentemente e incessantemente puxa assunto ou narra com detalhes episódios cotidianos de pouca relevância. O encontro com as mesmas vizinhas, uma ou outra palavra trocada na frente de casa ou no caminho para ônibus ou em armazém. Pequenos causos de pessoas as quais não conheço e que para minha mãe pouca diferença faz também são uma constante.

Porém, ela conta de uma conhecida, alguma família que adotou uma menina. E minha vó a caracteriza que dizem ser muito alegre, muito obediente. E sobre algo que a ofereceram, se manifestou com "tudo isso é para mim?", com as mãos cruzadas sobre o peito, em claro e universal gesto de agradecimento. Tem três anos, completa os dizeres minha vó. E tudo isso me leva a uma reflexão sobre gratidão, uma reflexão que na minha mente ocupa e ocupa o primeiro plano. O jogo passava ao segundo posto, mas logo voltaria à tona por outros encaixes.

Às 14 horas na pontualidade terminava a partida da Copa do Mundo com a surpreendente (para alguns nem tanto) vitória de Senegal sobre a Polônia em plena capital russa de Moscou, local de muitos acontecimentos de injúrias raciais. Racismo não escondido. Jogadores negros na atualidade, mais e mais pessoas em antigamente. Ou talvez menos antes sem o advento da globalização dos dias atuais. A globalização que coloca jogadores negros em praticamente todos os times titulares das seleções da Copa, com exceção do extremo oriente, Argentina e a própria Polônia. Outras, se não tem na titularidade, tem reservas imediatos que costumam adentrar nos jogos.

No mesmo horário de término do jogo com triunfo senegalês, uma senhora que aqui é pedinte há bastante tempo retorna em busca de mínimo sustento. Seus filhos já não são pequenos e agora buscam driblar as condições desfavoráveis em busca de emprego ou desviando do mundo mais ilícito de drogas e assaltos. Nada fácil. Frutas e leite e um papo cordial são o que minha mãe oferece à senhora. Um de seus filhos é Romário e, não recordando o nome dela, apenas a lembro como Romária.

Com outros endereços, certamente não são poucas as pessoas nessas condições no município e região. Políticas públicas insuficientes, políticas privadas desinteressadas, procurando apenas por consumidores e não por fazer caridade ou procurando apenas a solidariedade como troca por promoção de carisma e serviços aos olhares dos aí sim consumidores, potenciais clientes. Trocas de favores e espelhos. Reflexos e vitrines.

Em outras cidades gaúchas, incluindo Pelotas, como estão os imigrantes senegaleses? Um momento de cessar o trabalho ambulante, as vendas nos centros e focar um pouco no jogo, na ginga. Um resultado favorável, uma vitória consistente. A alegria nos olhos e nos corpos. Vencer o preconceito é uma batalha muito mais árdua, mas que tal esse tapa no frio, tapa aos que oprimem, deixam mal vistos os imigrantes de hoje, esquecendo suas raízes italianas, alemãs e de outras etnias que um dia foram imigrantes, estrangeirismos nessas mesmas terras.

Numa primeira rodada em que a Alemanha perdeu e numa Copa em que a Itália nem está, a vitória imigrante do Rio Grande do Sul na estreia da competição foi senegalesa. E são tantos os homens e tantas as mulheres, tantos os descendentes, mais diretos ou de povos passados do continente africano, tantas as histórias de linhas torcidas a procurar seus triunfos no dia a dia nesses lados do mundo.

15/11/2016

Histórias de Sangue que não são Contadas

Foi em 14 de novembro de 1844 que houve um extermínio de um batalhão de lanceiros negros no desfecho da guerra dos farrapos. Segue o texto distribuído no Centro de Pelotas. presente no blog RS Insurgente em palavras do Professor de História, Hemerson Ferreira. Na foto, a performance feita por Eduardo Amaro, com objetivo de conscientizar as pessoas sobre as verdades na História. Silenciosamente, vagou pelas ruas do Centro da cidade em memória aos covardemente mortos na guerra.
"Durante a chamada Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul (1835-45), quando um homem livre era chamado a servir tanto nas forças rebeldes quanto nas imperiais, podia enviar em seu lugar (ou no lugar de um filho seu) um de seus trabalhadores escravizados. Em alguns casos, o alforriavam e alistavam. Também foi prática comum buscar atrair ou tomar cativos das tropas inimigas, trazendo-os para seu lado. O primeiro exército a utilizar negros escravizados como soldados foram os imperiais. Precisando também formar uma infantaria e sobretudo preferindo enviá-los como bucha-de-canhão, morrendo na frente em seu lugar, farrapos também os alistaram: eram os famosos Lanceiros Negros. Ambos, farrapos ou imperiais, prometiam também liberdade aqueles que desertassem das tropas rivais, mudando de lado.
A maioria dos cativos que combateu nesta guerra foi obrigada a fazê-lo diante das condições impostas. Por outro lado, apesar da guerra ser horrível e violenta, era até preferível a vida militar, com seus esporádicos combates, do que as agruras diárias da escravidão. A promessa de liberdade após o fim da luta certamente pode ter influenciado em muito o recrutamento daqueles homens. Uma promessa, aliás e como veremos, jamais cumprida.
Não havia igualdade nas tropas farroupilhas, muito menos democracia racial. Negros e brancos marchavam, comiam, dormiam, lutavam e morriam separadamente. Os oficiais dos combatentes negros eram brancos, e jamais um negro chegou a um posto significante, mesmo que intermediário, de comando. Aos Lanceiros Negros era vedado o uso de espadas e armas de fogo de grande porte. Não lutavam a cavalo, como costumam mostrar nos filmes e mini-séries de TV, mas sim a pé, pois havia o risco de se rebelar ou fugir. Sua arma principal era a grande lança de madeira que lhes deu nome e fama, algumas facas, facões, pequenas garruchas, os pés descalços, a bravura e o anseio pela liberdade prometida."
Foto: Henrique König

Foto: Henrique König