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25/12/2025

Xala (1975)

Em pesquisa para confirmar o nome desse filme de Ousmane Sembène, diretor garantido nesses blocos de análises, Xala pode se referir a rituais e feitiços sofridos por uma pessoa. É o que acontece com um político senegalês em Xala. 

Essa é uma bela obra de Ousmane, englobando diferentes assuntos, tópicos que podem atrair mais ou atrair menos atenção para explorar desenvolvimento do filme. Acredito que o mérito para muitas obras está na comunicação, na abordagem de diferentes temas. Isso cria uma riqueza cultural que absorve diferentes envolvimentos com o espectador. Em Xala, se comunica a independência conquistada por Senegal frente à França. Se comunica a corrupção que é persistente. A cultura machista, os casamentos de um homem com várias esposas. O sistema em que empresários são beneficiados enquanto o povo passa fome.

O personagem principal desfruta de prestígio. Usa terno, frequenta a Câmara, convive com outros engravatados. Está às vésperas de seu terceiro casamento. Já é um homem de certa idade. A divisão financeira que impacta a família causa ciúme nas duas primeiras esposas. Mais do que ao homem, parecem temer a posição social em desprestígio, a perda de relevância no convívio, de presentes recebidos no cotidiano. O casamento, o terceiro, ocupa boa parte da primeira metade do filme. Se conhece a desconfiança e o ponto de vista dos filhos já crescidos do sujeito e a convivência ciumenta, belicosa, afrontosa entre as esposas.

No desenvolvimento, ganha relevância a economia, quando o personagem entra em conflito, em atuações suspeitas. Sabe-se que ele lidera uma loja no centro da cidade senegalesa. Interessante que Senegal na época estimava-se abaixo dos 5 milhões de habitantes. Hoje é um país bem maior. O político e empresário demonstra a complexidade da independência. Apesar de sair, em parte, somente em parte, da dominância francesa, o povo senegalês, em grande parte rural, em grande parte campesino, está refém de empresários corruptos, de funcionários que decidem provisões em escritórios com o invento do ar condicionado enquanto a população padece ao sol forte. Em certo momento, em reunião entre o empresariado, na acusação do camarada principal ser acusado de corrupto, de desvio de dinheiro para benefício próprio de seu terceiro casamento, o idioma francês entra em questão. Os empresários proíbem o acusado de se manifestar em um dialeto local, referindo-se orgulhosamente que o idioma oficial do país Senegal é o Francês. Interessante ponto de vista das elites frente a um povo que estima a libertação da herança maldita de um colonizador branco, europeu, violento e saqueador de recursos.

A complexidade deriva em outros temas. Os problemas do acusado começavam na suspeita desse Xala, desse feitiço que causa impotência sexual, quando ele, já idoso e deaconhecdor do raio dos limites, tenta a noite de núpcias com sua recém estimada esposa. Ele não consegue ser pró-ativo na empreitada, não retira a virgindade da jovem e começa uma crise sem precedentes. São problemas pessoais, relacionais na companhia, no comércio, na política, e consequentemente financeiros. Na mescla de modernidade com tradição, o acusado dos delitos ainda tenta retirar esse suposto Xala com um curandeiro, mas, corrupto e atrapalhado que era, não o paga, colocando em risco sua condição de liberto do feitiço.

O cinema de Ousmane Sembène é em prol da África, mas não recai a uma narrativa simplória, unilateral, de heróis e vilões. Parte dos libertadores podem condicionar o povo a continuar na miséria, instituindo benefícios próprios contra a população miserável que espera ajudas que não vêm. A denúncia é da desigualdade entre ricos e pobres, quando a riqueza acumulada pode se dar através de sonegação de impostos, calotes e contratos fraudulentos. Em resposta aos acusadores, o político aponta os dedos de volta, requerendo como resposta à pergunta de qual daqueles empresários na sala não passava também cheques sem fundo. Para além da denúncia ao personagem, o panorama é de empresários corruptos que coagulam entre eles, formam conluios com o povo como outsider, forasteiro. Sembène explora muito os temas dos verdadeiros e incidentes problemas sociais sobre Senegal, desde o que era necessário para libertação ao regime militar francês, como em Emitaï (1971) até esse filme quando passado o processo inicial do recurso da independência. Apesar da independência em relação às maiores forças da França, o jogo de empresários, de controladores do alimento, do arroz e de outras produções senegalesas segue à mercê, à deriva do povo. A revolta popular contra o corrupto, após a dispensa dos engravatados contra ele, decorre nas cenas finais. Sembène mantém um olhar crítico, atento, mas otimista em relação ao potencial que seu próprio povo pode produzir quando liberto de verdadeiras e proeminentes amarras.

Nota final para Xala (1975)

⭐⭐⭐⭐⭐


16/12/2025

El Sur - de Victor Erice

O filme O Sul (El Sur) do diretor espanhol Victor Erice é interessante por muitos aspectos. A história narra o contato e a distância entre a menina Estrella e seu pai, Agustín. O filme é repleto de lacunas a serem preenchidas pela mente em desenvolvimento da jovem ou pelas leituras do espectador. Sabe-se que Vitor gostava de posicionar questões políticas veladas em suas obras.

Também com a presença infantil da menina em Espiritu de la Colmena em 1977, a inocência e o descobrimento, a imaginação e as reinterpretações estão presentes nas obras. No filme mais antigo, é na presença de um soldado buscando refúgio da guerra que a menina defronta as questões que permeiam a Espanha da Guerra Civil (1936-1939), movimento de interesse e fundamental acontecimento na Europa às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Também sobre esse período, assisti ao Terra e Liberdade (1995), direção e história britânicas a permear a Espanha com os confrontos inclusive entre Anarquistas e Stalinistas em Barcelona, quando ambos os grupos deveriam unir forças contra as tropas de General Franco.

Em O Sul, esse dito Sul permanece inexplorado, no imaginário, saudoso e idealizado. A menina Estrella não o conhece, mas lê em registros, ouve falar. Seu pai é de lá, da região mais ensolarada de Espanha, onde mais habitaram os mouros, ocupantes, desenvolvedores, e relativamente expulsos na história. É lá que há noites luminosas, dançantes, comida árabe, arquitetura distinta. É a terra do pai, o médico Agustín. Esse está cada vez mais fechado, distante da família, trancado em um quarto para desenvolver projetos e experimentos não bem descritos. A visão do espectador é oculta como a de Estrella, que fica a imaginar o passado e o presente desse pai, que está ali, mas se ausenta.

Até em manobra para chamar atenção, Estrella se esconde embaixo da cama. A mãe e a empregada se desesperam em turnos para procurá-la, mas o pai não transmite palavra, não deixa seus aposentos. Estrella está em crescimento, o filme navega sua puberdade, ela conhece um menino, chamado de El Carioco, levado, inexistente nas imagens (apenas uma chamada telefônica entre eles aparece). Ele picha um muro, quer Estrella para ele, comunica que já teve outras meninas e é capaz de muito. A jovem não se assusta muito, nem seu pai, quando os trâmites lhe são comunicados. É um sujeito bonachão e saudoso de aventuras, no fim das contas.

O Sul é mais uma obra sensível de Victor Erice. O filme é composto nos detalhes, o pêndulo que a menina carregava, explicado pelo pai, para seu uso e precisão. Uma volta deles de moto quando ela ainda era a garotinha. Ela sozinha de bicicleta pela mesma alameda de muitas árvores, uma beleza natural de cenário estonteante, mas a mudança de puberdade, de idade, de significado e reações. Incluso o filme é feito para um aspecto frio, de silenciamento, de inverno, de alguma solidão. São personagens introspectivos com questões mal resolvidas. São investigações silenciosas. A menina que busca conhecer um pai que cada vez menos se abre, que cada vez menos conversa e interage com a família. Será outra mulher? Será uma atriz de cinema, Irene Rios, que seu pai conheceu no passado e sente falta? Ou o que mais lhe falta ao médico trancafiado? O que representa esse Sul inalcançável?

Fontes afirmam que Victor Erice pretendia prolongar o filme com uma segunda parte que o levaria para casa de três horas de duração, em que Estrella, cada vez mais crescida, independente e disposta, viajaria para encontrar esse Sul da Espanha com a família de seu pai, desvendando mistérios inculcados em sua cabeça. Porém, a não realização dessa segunda parte permitiu que o Sul se tornasse metafórico, inalcançável, inconcebível. Uma espécie de exílio dentro de um próprio país. Essa ideia muitas vezes passa despercebida pelo espectador, pelo apreciador de arte que não vive ali. Que imagina uma Itália unificada, apesar da evidente separação entre as diferentes regiões do país, uma Alemanha unificada mesmo com o que separou o século passado entre Ocidental e Oriental, mesmo a Baviera podendo ter sentimentos de independência, mesmo um Reino Unido apenas no nome para as ilhas ao Norte desses acontecimentos. A Espanha, então, viveu os conflitos de Guerra Civil, de unificação anterior após muitos reinados desfeitos, tem a questão evidente dos separatistas bascos e dos catalães em questões já tidas como históricas - e até hoje polêmicas e pouco solucionáveis para ambas as partes, separatistas e unificadores, população geral e economistas. 

Esse Sul que permanece inexplorado, a não ser pelas cartas e pelas tentativas imaginárias e investigativas de Estrella desvendar. Essa menina que se sentia deslocada, tem universos novos a explorar, como os estudos, o sexo oposto e que precisava mais da palavra do experiente, sensato e bonachão pai. Mas são utopias. São famílias que muitas vezes estão juntas apenas na moradia, aos olhares de quem vê de fora. E vendo de fora, como é o Sul ou o Norte que se imagina? Na vida de cada um.

06/12/2025

Le Petit Voleur (1999)

Filme francês do diretor Erick Zonca, Le Petit Voleur (1999), ou o Ladrãozinho, conta a história do adolescente Esse. O garoto se tornando um jovem adulto primeiro é expulso após uma série de mancadas da padaria onde trabalhava. Ele promete vingança e ganhar a vida custe o que custe, a outros modos. Em momento nenhum do curto filme (1h06) aparece a família do jovem da cidade de Orleans. Após confessar seus planos a uma namorada, Esse, então sem mais dinheiro com a expulsão da padaria, dorme na casa dela, rouba o salário da moça e foge para Marselha, uma cidade grande e portuária, com saída para o mediterrâneo, cosmopolita o suficiente para esconder-se em uma vida criminosa com uma gangue que pratica diversos negócios ilícitos.

O filme ganha contornos que cada vez mais fogem ao controle de Esse, trazendo surpresa ao jovem e ao espectador. A uma hora de filme torna-se alucinante, pois os episódios de violência são escalantes, contrastando com uma função de caixa baixa que Esse exerce ao ter de cuidar e fazer faxinas para uma idosa. As nuances do filme apresentam sutilezas gratificantes de acompanhar e descobrir. Sem diálogos, é por meio de sucessões de imagens que descobrem-se verdades e apontam-se hipocrisias dos mais diversos tipos. São desigualdades salariais e de tratamento, são leis e hierarquias criadas pelas próprias gangues e pelas ruas. São subordinações que Esse passa muito piores do que o emprego inicial que ele amaldiçoou e prometeu se vingar. O padeiro está ganhando espaço na gangue, mas será sempre assim?

O filme encontra o realismo e explode em adrenalina em diversas passagens. São cenas chocantes de violência urbana, roubos, furtos, linguagem imprópria, prostituição, até descambar em cenas finais cada vez mais alucinantes. A recomendação não é para menores de idade assistirem e mesmo algumas pessoas mais experimentadas podem se ver conflitadas por imagens fortes.

A ideia do filme é o velho jogo de ascensão e queda no mundo do crime, em uma indústria que fabrica funções e, tão rápido recruta novas pessoas sem emprego ou sem estudo, logo se livra delas. Mesmos os apontados reis não possuem lugar cativo no esquema, pois as coisas mudam muito rápido. No jogo de extrema violência com que são resolvidas as questões de acertos de contas a eliminações, as mulheres estão reduzidas a prostitutas ou meras acompanhantes, ou, no caso da idosa, ela apenas sobrevive em condições abaixo de uma classe média com dignidade.

Sabe-se que a escalada criminosa na França e em outros países da Europa conta com a convocação de jovens sub-urbanos e imigrantes desamparados por leis nacionais e observações de senso comum racista. Apesar da dura realidade para muitos jovens de origens diversas de africanos a asiáticos muçulmanos, passando pela comunidade judaica, o filme retrata a vida de um jovem do interior da França, Orleans, desamparado pela falta de estrutura familiar e do que chamam rede de apoio. A transformação do perfil de Esse são os últimos pregos no caixão de sua juventude, o conflito entre o jovem que tenta performar como gângster criminoso, mas também enxerga-se na condição tímida do abandono, do interiorano perdido na metrópole cerceada por crimes. As ruas de Marselha tornam-se palco de desventuras das mais cruéis e cruas que o cinema possa oferecer a corajosos espectadores, que saciam-se pela transparência de uma sociedade suja e corrompida.

Nota final para Le Petit Voleur em

⭐⭐⭐⭐

04/12/2025

Umberto Domenico Ferrari (1952)

Umberto Domenico Ferrari ou Umberto D é um filme italiano do consagrado diretor Vittorio de Sica, realizado em 1952. Ele mostra e prevê uma Itália difícil aos aposentados, aos anciãos, aos trabalhadores. Salários indignos e protestos marcam o início da trajetória do personagem principal, homônimo ao filme, morador de aluguel, cuja moradia consome muito de seus vencimentos. 

A Itália é retratada com a constância das obras, das ampliações, dos restauros, da luta entre passado e presente de ruas muito antigas, monumentos e arquiteturas que, apesar da beleza, são de trabalhosa manutenção. E os salários dos ocupados com tais serviços não reflete dignidade nos ganhos.

Umberto vive as agruras do pós guerra que assolava a Europa, mais radicalmente nas reconstruções e misérias de Alemanha, França, mas sem poupar a Itália de Sicca. Na companhia de um fiel cachorrinho, ele percorre as ruas entre manifestações, tentativas de um companheirismo à italiana que já dava lugar à indiferença e individualismo das sociedades plenamente capitalistas, tentando desesperadamente penhoras como as de um relógio.

"TODOS SE APROVEITAM DOS IGNORANTES" - Umberto tenta instruir a jovem Maria, que trabalha na pensão, na qual Umberto está prestes a ser despejado por uma dívida de 15 mil liras. Ele inicialmente consegue apenas 4 mil e luta bravamente para manejar o dinheiro necessário, pensando até em uma greve na sua alimentação. Maria, por sua vez, está grávida de três meses de um rapaz de Nápoles ou de um Florença. Nem ela sabe. À essa altura também se nota os fragmentos de uma Itália unida a menos de século, onde a nascença de um canto ou outro do unificado país ainda são motivos de preconceito, desconfiança ou desavenças - como, a bem de verdades, parece nunca ter deixado de ser.

Conforme diminui o prazo para Umberto quitar as dívidas com o pensionato, ele arma planos para poupar dinheiro. Chega a se internar em um hospital de caridade, liderado pelas freiras franciscanas. O maior problema não era fingir problemas maiores que sua amigdalite, mas sim se manter distante do cachorro Flike. Por sua vez, o cachorro Flike ganha destaque na parte final do filme, pois seu destino estava atrelado ao dono desesperançoso, cansado da vida sem tostões, da batalha constante pela sobrevivência mesmo após, diz ele, ter servido ao ministério do trabalho por 30 longos anos. Ele decide deixar definitivamente o pensionato, não aguentando mais os desaforos recebidos da condutora da pensão. Ele convivia com invasões a seu quarto quando estava fora, um tragicômico que até gerou reações de riso por parte de espectador que assim relatou na rede social Filmow. O quarto chegava a ser usado como aluguel de motel, cobrando liras a hora de uso. Por fim, a patroa resolveu operar obras de demolição de parede lateral que acabava de vez com a privacidade do impassivo Umberto D.

Sua única confessora, além de Flike, era a funcionária Maria, para qual ele deixa pertences em sua despedida. O destino para os últimos minutos de filme reservam a cruel despedida com Flike. São cenas fortes para qualquer tutor animal, anseios e agonia pela frente. Cenas fortes mesmo passados mais de 70 anos da gravação, o que torna Umberto D um clássico de drama, de neo-realismo, de apontes sobre as dificuldades da época pós-guerra e para os aposentados do mundo todo, sem família por perto, sem dinheiro no banco, sem ter com quem contar e com o quê contar.

O protagonismo final de Flike faz lembrar personagens como a cachorra Baleia no romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, levado ao cinema pelo excelente diretor do Cinema Novo brasileiro, Nelson Pereira dos Santos. A despedida entre Umberto e Flike desespera os espectadores para desfechos inevitáveis. Diariamente, quantos se separam por saúde, por impossibilidades de prosseguir juntos, mudança de casa? Final reflexivo de um clássico do neo-realismo italiano, concorrente aos maiores prêmios das academias de cinema.

⭐⭐⭐⭐ e meio.



02/12/2025

My Dinner With Andre (1981)

Um dos filmes mais ousadamente filosóficos que já vi sendo gravado nos Estados Unidos. A direção, é bem verdade, é assinada pelo francês Louis Malle. Como o nome aponta, o desenrolar todo do filme ocorre durante um jantar entre dois amigos, os originais Wallace Shawn, narrador e interlocutor para o papo com o amigo Andre Gregory. Não são propriamente grandes amigos, mas, passados alguns anos, foi sugerido por um terceiro que eles retomassem contato e assim foi feito. Em comum, ambos desenvolviam peças de teatro. Andre obtinha maior sucesso e muito do assunto transcorre de suas longínquas viagens. Shawn, por outro lado, vinha em uma decadência, a qual ele apresenta em resmungos e cuspes ao introduzir a história e o porquê do encontro com Andre.

Shawn aparenta mais idade, mas tem apenas 36 anos. Se sentia meio fora do círculo de aceitações e sucessos em Nova York - outra protagonista na história de poucos personagens, complementados pelas esposas que não aparecem, apenas são citadas, e pelos atendentes do restaurante chique. O filme é considerado prolixo e pedante por parte da crítica, porque Andre descarrega suas teorias e assimilações a um atento ouvinte Shawn, o qual tenta colher novidades e refletir sobre sua vida a partir dos ensinamentos e teorizações do verborrágico Andre. Shawn escuta atento e às vezes até cômico ou incrédulo e raramente parte para suas objeções e complementos. Andre garante protagonismo na conversa ao controlar os assuntos, as passagens, as histórias de seu conturbado e atabalhoado passado. Ele conta como foi parar em experiências em floresta na Polônia, com o dramaturgo Grotowiski, no Tibet ou em Israel com a esposa. Andre alternava sua vida conjugal fechada em Nova York com aventuras de viagens longas. Além da esposa, ele tinha dois filhos, chamados Nicolas e Marina. 

Sem o mesmo leque de experiências diversas, Shawn escutava atento ao amigo desenvolver suas teorias sobre enxergar a vida sob outras óticas, outros prismas. Nas mais radicais das ideias, Andre considerava suas experiências válidas para um despertar de verdade, uma consciência sobre a vida e a morte. Segundo ele, um dos problemas dessa consciência por demais atenta seria a conscientização sobre a proximidade da morte, tal qual filósofos antigos já haviam previsto e anunciado. 

A preocupação dos amigos passa pela amortização da vida na sociedade ocidental, preveem a robotização futura e a automaticidade com que percorrem suas vidas. Shawn chega a defender seu direito a acordar e enxergar seu conforto em uma xícara de café, os dias com a namorada Debbie e seu emprego de ler, pesquisar, ler críticas e escrever suas peças teatrais, sem algo de acontecimento extraordinário. Andre rebate se o conforto é escolha dele ou apenas uma imposição, um modo automático de encarar a vida. Pesada crítica está na comparação de Andre entre a metrópole Nova York e um imenso campo de concentração. Citando outros críticos, Andre aponta que a Grande Maçã seria como um campo de concentração construído, vigiado e administrado pelos próprios prisioneiros. Ele cita a quantidade de conterrâneos que desejam sair da cidade, mas nunca o fazem, cita sua própria situação e, ao mesmo tempo, a incapacidade de definir junto à esposa um futuro, um local para investir, pois enxerga as prisões invisíveis em que é transformado o mundo. As armadilhas da globalização que davam as caras desde o início da década de 80. Em determinada passagem, Andre acredita que a década de 60 do século passado seria a última em que o ser humano ainda foi autêntico. Será?

Outro ápice no filme é Andre discorrendo sobre a falsidade das relações humanas, em uma crítica ao mundo de aparências da sociedade ocidental, isso muito antes das armadilhas das redes sociais online, embora até um notebook seja citado por Shawn, nos primeiros passos da computação ao alcance da população mais abastada. O próprio Shawn se considerava um filho de família de considerado prestígio, iniciado e atentado às Artes, a erudição, à música e assim perdendo a consciência de outras ações práticas que o levariam à bancarrota, à necessidade de procurar ocupações, a andar de metrô, à necessidade de que sua companheira trabalhasse incluso de garçonete durante algumas noites semanais. Quanto à hipocrisia da população, ele cita que Debbie servir de garçonete ou secretária causava uma distorção, uma repulsa, uma pena nos demais interlocutores como se ela estivesse condenada a um grande castigo, a um individual inferno. Em acordo com essas falas, Andre denuncia as máscaras sociais, a necessidade constante das pessoas fazerem piadas fora do tom, jantarem, rirem, sem na verdade se abrirem, repensarem suas ações e práticas do cotidiano. Ele conta as dificuldades que passou com a morte de sua mãe e que, passadas umas semanas, duas ou três, foi convidado por amigos a um jantar. Em meio a tantas piadas e descontração que propunham inadvertidamente, em nenhum momento questionaram sobre como Andre se sentia com a perda, se gostaria de um ombro amigo, de um real desabafo. Em contraponto, Andre apresenta as versões sinceras e introspectivas de monges para os lugares distantes em que viajou na Ásia, como o Tibet. Em certo momento, Shawn declama suas dúvidas quanto às teorias de enxergar a vida, de se descobrir e libertar, se eram necessárias viagens às florestas da Europa Oriental, ou ao Tibet, ou um retiro em Israel. Segundo o dramaturgo de 36 anos, nem todos podem ter oportunidade desses retiros sabáticos, então mais valeria uma autodescoberta ao revisitar seu bairro, como a um restaurante ou a uma tabacaria vizinha;  a autodescoberta estaria em suas próprias redistribuições, reorganizações, na redescoberta de hábitos. Andre nisso tudo aponta os perigos que os governos, de uma forma fascista e proposital, amolecem as expectativas, drenam as vontades e os sonhos, amortizam a população a viver como construtora, vigia e responsável pela manutenção dos campos concentradores e vigilantes da sociedade ocidental. Uma população não reflexiva, automatizada, em busca de pequenos confortos e nenhuma verdade. As duras críticas, as palavras de um experiente Andre amarguram Shawn a se questionar e ele confessa repassar essa conversa para Debbie após redescobrir, recolorir com novos olhares para o bairro na volta de táxi - que ele se permitiu pegar na volta para casa, segundo confessa. Enquanto conversavam nessa profundidade à parte de um cardápio que Andre dominava em francês ou no idioma que precisasse, e Shawn pouco sabia, os demais clientes foram sumindo até a bruma que antes cobria os pensamentos sombreados de Shawn se dissipar. Com novas atenções para suas ocupações, vivência e atento à falta de transparência nas pessoas em suas convivências e conveniências, Shawn voltara para casa, para seu casulo na Grande Maçã.

⭐⭐⭐⭐

14/11/2025

Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade (2014)

Mais uma pela incursão ao cinema nacional. Joli é uma mulher que se recupera do vício em drogas. Ela está de volta a Recife. Seu pai é um importante deputado, chamado Antônio. Antônio concorre a um novo cargo,  a prefeitura da capital pernambucana. O regresso de Joli pode atrapalhar os planos do bon vivant. 

Quanto vale o preço para vencer uma eleição? Talvez vender a própria filha.  Poderia ser a frase que inicia a análise. O filme Prometo um dia deixar essa cidade traz muitos assuntos, ampliados e esmiuçados até as cenas paralelas ao subir dos créditos finais. De um filme com tanta pretensão e ideias pode-se tirar coisas positivas. O longa é um dos poucos até hoje lançados pelo diretor Daniel Aragão. Seus pôsteres são artísticos, um comentarista afirma lembrar a arte do alemão Werner Fassbinder. As propostas tornam-se ousadas, desafiadoras e polêmicas. Detalhes não passam despercebidos. Qual será a intenção ao utilizar a sigla fictícia para o partido do matreiro Antônio como PSTB. No filme podemos ouvir errado até que a sigla se destaque em painel diante de nossos olhos. A semiótica e as cores em vermelho estão lançadas.

Marcado pelo episódio negativo na família, Antônio anseia sua campanha em uma disputa para erradicar as drogas, para financiar projetos como os de um pastor em comunidade carente. A Recife é demonstrada entre as reuniões de terno e gravata, as casas com jardins e os apartamentos caros que contrastam com comunidade carentes, com ruas de terra, sem esgoto, difícil acesso para chegar ou sair, e crianças marginalizadas em diversões improvisadas, como jogar bola sobre a cancha de terra.

O retorno de Joli desafia a campanha de Antônio. Ele exerce um paternalismo doentio, arranja um casamento para filha se manter fora de enrascada. Em vão. O casamento arranjado não é suficiente para drenar a fúria e a revolta de Joli, que, se havia se curado do antigo vício, não suportava a vida de mentiras e de campanha difamatória, falsa e moralista proposta por seu pai no almejo ao cargo maior no município. Joli convive com personagens contraditórias. A amiga em recaída com o crack, o marido da amiga que acredita ser Joli a permanente má influência da esposa, mesmo a ruiva estando livre das drogas ilícitas.

Um debate aberto, proposto pelo filme é o entre as drogas, os fármacos lícitos e os ilícitos. O poder de decisão vindo de um político influente torna inclusive a saúde da própria filha como um experimento. Ele pretende sedá-la e até seduzi-la para manter a estrada da eleição aberta e encaminhada. Enquanto algumas drogas que fogem ao controle dos políticos, por efeitos ou principalmente pela fuga de lucro e fiscalização de impostos, são combatidas, outras são assinadas em convênios, testadas sem perspectiva exata a longo prazo, incentivadas sobre corpos ratos de laboratório. Mesmo as pesquisas nacionais e internacionais podem ser fraudadas. Mesmo os estudos assinados podem ser comprados. Mesmo um ente querido, quando interfere na caminhada rumo ao poder, pode e deve ser derrotado pela lógica maior do lucro.

O filme possui alguns elementos fantasiosos, simulações da mente e dos efeitos dos narcóticos sobre a mente de Joli. O ponto de vista é alternado dela para também mostrar o desespero do político que se vê encurralado em sua campanha de talvez precisar apoiar um adversário, que também deveria ser derrotado. A volta de Joli causa burburinho, mobiliza noticiário, exprime agenda negativa, causa desconfiança e precisa ser combatida como consequência.

A falta de escrúpulos e limites nas agendas e métodos políticos são abordados no filme; da campanha envolta em falsidade e publicidades enganosas na aplicação de fundos partidários, da corrupção aos convênios de eliminar adversários, de desbloquear o caminho a qualquer custo. A conveniência e o poder movem o jogo, contra quem for. Na metodologia utilizada por António estão a participação da indústria farmacêutica e da medicina a serviço do poder, do terno e da gravata. A farda policial na mesma linha, forma de atuar idem. De sabotadora à sabotada estava selado o destino de Joli, na promessa fantasiosa de um dia deixar essa cidade: custe o que custar.

Nota final para Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade:

3,5 / 5



12/11/2025

Carruagem Fantasma (1921) + Sudoeste (2011)

No Decurso do Tempo é um filme de Wim Wenders, mas poderia ser o nome deste texto. A relação temporal em Carruagem Fantasma e em Sudoeste é muito interessante. Em Carruagem Fantasma, a história sueca conta a vida perversa levada pelo personagem principal, David Holm.

Beberrão e despreocupado, David aguardava o ano novo com seus capangas em um cemitério. Eram as últimas horas daquele ano e uma enfermeira do Exército de Salvação, chamada Edit, estava para morrer. Seu último desejo? Receber no leito de morte a David Holm. A família estranhava o desejo repentino, mas providenciaram a procura pelo sujeito. Febria, ela viria a morrer poucas horas depois. Mas antes, David causara uma última briga com seus capangas, com um consequente desafeto e assim levara uma garrafada fatal na cabeça. Ficou estendido definitivamente ao solo do cemitério: caiu morto.

Sem que o mundo dos vivos saiba, estabelecido era o pacto de que o último morto no dia 31 de dezembro deveria ser o cocheiro da carruagem da morte, condutor da carruagem fantasma pelo próximo ano. Pelo próximo ciclo. Mas é também explicado que o trabalho interminável do cocheiro em serviço de Morte era multiplicado incontáveis vezes pela seguinte fórmula: de que cada dia do ano poderiam ser o equivalente a um trabalho centenário. Por que essa passagem de tempo diferente? Porque o serviço consistia em buscar cada alma que partisse do corpo, como se imagina a imagem de capuz e foice da Morte. Apenas não especifica o território a serem buscadas as almas, mas a história, o filme restringe-se à Suécia.

David recebe o cocheiro da morte e o anúncio de que precisará cumprir essa pena no próximo ciclo. Antes, como trama de Carruagem Fantasma, ele revisita os eventos que marcaram sua vida e o levaram até a tragédia: dele e da enfermeira febria. David estava com tuberculose e fazia absurdos, por exemplo, tossir contra pessoas para que também contraíssem a doença, "ou acha que são melhores do que eu para não ficarem doentes?". Inclusive crianças. Inclusive sua primeira esposa, que ele perseguida o paradeiro de seu sumiço por toda a Suécia. O comportamento perseguidor e contagioso quanto à doença nas atitudes de David o tornam um dos maiores desgraçados já vistos na História do Cinema. Passado mais de século da narrativa sueca, o rótulo permanece. É difícil encontrar personagens tão tacanhos quanto David.

O personagem principal amaldiçoou a vida da enfermeira, com a doença contagiosa e a incrível saudade de ter se interessado pelo perverso. O filme tenta amenizar a figura de David por meio de um arrependimento para metade final do longa, o que não convence a este escriba, após tamanhas sem-vergonhices. A relação temporal estabelecida entre o serviço de cocheiro da Carruagem Fantasma, condenação tremenda por um tempo incalculável em relação à vida humana, e o filme Sudoeste pode ser entendida a partir de agora.

Em Sudoeste (2011), filme nacional de 2008, com direção de Eduardo Nunes, a vida de Clarice transcorre ao contrário da eterna demora a que seria condenado David. A menina Clarice nasce de uma magia, de uma considerada bruxaria, em uma minúscula comunidade ribeira ou litorânea. Os pais originalmente acreditam que a menina havia morrido, mas na verdade ela está sob uma condenação bem diferente a do cocheiro. A vida de Clarice transcorre toda durante um dia. Ela de bebê se torna menina, de menina se torna adolescente e assim por diante.

A perspectiva de vivência do tempo é alterada, transformada pelas diferença comensal entre as experiências. David com uma jornada de castigo, de retratação, de azar, pode-se dizer, pois justamente sua briga derradeira resultaria na última morte sueca daquele ano. Clarice condenada a observar os demais personagens em suas vidas naturalmente sequenciais de um dia após o outro, enquanto ela, inocente menina de nascença, sem conhecer o que seria uma chuva, o que seriam as coisas da vida até o avançar de sua idade conforme declinava-se a tarde de um aparente dia comum.

Clarice perspassa pelos personagens camponeses e de sua própria família. O pai Sebastião e a mãe que conheciam o luto imediato da perda de bebê - Clarice. O irmãozinho João nem desconfiava que a menina que surgia na comunidade era na verdade sua irmã. O roteiro e a relação entre as personagens não oferece muita história. O destaque do filme está por conta da fotografia, das composições todas em preto e branco, lembrando dos melhores longas do próprio Wim Wenders, que abriu este texto, ou, melhor lembrança, o cinema do húngaro Bela Tarr, especialista em histórias lentas mas impactantes, pela composição de imagens, planos, escolhas de posicionamento e construção semiótica das narrativas.

Sudoeste se aproxima desse cinema sensível, impactante, emocionante de Bela Tarr. As diferenças óbvias são em relação ao comum de cada cenário geográfico construído. A frieza, a aspereza da natureza na Europa profunda contrasta com o clima tropical brasileiro, com os personagens mais experimentados na sociabilidade, apesar das profundezas rurais. Bela Tarr experiencia e oferece mais silêncios, mais frieza, ao passo que Nunes em Sudoeste também oferece os espaços, os períodos de respiro e reflexão, a composição proposital com o ermo das paisagens, mas sem perder o calor e a sociabilidade da latinidade nas personagens. Ou seja, há traços que se aproximam entre as culturas e o modo de fazer cinema, mas diferenças fundamentais permanecem no que é próprio de cada região do mundo.

A proposta de comparação temporal se deve, portanto, nas condenações distintas: a demora de um dia durar anos de serviço ao condenado cocheiro da morte, e a vida ligeira e tão difícil de discernir, de atinar, de compreender e aproveitar para a inocente Clarice. A menina, logo adolescente, logo mulher, logo anciã, anseia pelas descobertas ao passo que as personagens que cruzam por ora seu caminho apenas estranham sumiços e transformações da Clarice a que haviam começado a reconhecer e a se acostumar. A diferença de perspectiva do que pode ser um dia qualquer, um dia comum, OU um dia decisivo, derradeiro, único, singular. Ímpar (ou seja, sem par). Dias decisivos de escolhas e arrependimentos e remorsos que definiram os rumos trágicos para David Holm e seu amor desperdiçado. Oportunidades e desperdícios que Clarice não teria o luxo de experimentar em uma única experiência de 24 horas. Quem nunca comparou seu tempo vital com as larvas, as borboletas, as moscas, ou, no outro vértice, as tartarugas, outros répteis e alguns urubus?

11/11/2025

Trabalhar Cansa (2011) + Quando Eu Era Vivo (2014)

Ao assistir esses dois filmes em sequência, o que me chamou atenção é que o final de Trabalhar Cansa termina com um grito e o início de Quando Eu Era Vivo começa com outro. Se emendam. Com crítica social mais apurada, ao estilo incessante das denúncias sociais de Que Horas Ela Volta?, o longa Trabalhar Cansa (2011) tem direção dos paulistas Marco Dutra e Juliana Rojas.

Otávio é um pai de família recém desempregado. Ele sabe que será difícil arranjar uma nova oportunidade e o filme gira em torno disso. Para manter o padrão elevado da família do executivo, do trabalhador de escritório, a esposa Helena resolve alugar um espaço para reabrir um supermercado de bairro, o Curumim. Eles alugam do senhor Alfredo, mas as coisas nunca se encaminham como planejavam. Helena vai se tornando uma tirana, tem dificuldade em lidar e orientar os funcionários (antes da mania nacional de chamarem a todos de colaboradores). Os problemas estruturais do prédio e relacionais entre patrão e empregado são o atemperamento do filme. 

Além de lidar com o Curumim, Helena contratou a jovem Paula para ser empregada doméstica. O filme cita questões polêmicas como a assinatura de carteira de trabalho, os benefícios e garantias para os trabalhadores e a dificuldade dos patrões em cumprirem as normas e leis empregatícias. O movimento do reaberto supermercado nunca agrada. São problemas estrururais, infiltrações em parede, entupimento de esgoto, clientela exigente, saudosista ou insatisfeita, funcionários suspeitos de desvios de mercadorias.

Enquanto Helena se espezinha em contratar jovens funcionários, Otávio luta em agências de emprego para cargos que procuram gente mais proativa, jovem e capacitada. Sua experiência de cabeça calva não agrada aos contratantes. "Afrouxa a gravata, tira uma foto sem para o currículo". E os meses passam com uma casa onde o marido perdeu protagonismo. A sogra, a mãe de Helena ainda passa a ajudar financeiramente a família e a interferir cada vez mais nas decisões, inclusive se estranhando com Paula, a empregada. O casal tinha dois filhos, que por ora aparecem em cenas de estranhamento com o corte de energia elétrica, em planejamento de viagem de férias familiares e episódios da escola, não especificada assim, mas com elementos do filme com os quais podemos concluir que era particular e elitista. Até o uso da chamada black face em apresentação da escola gera polêmica para quem assiste - objetivo atingido na escolha da direção do filme.

Trabalhar Cansa denuncia as polêmicas relações de patrão e empregado, aponta as diferenças nos serviços, na forma de tratamento, na tomada de decisões, por exemplo Helena, que se nega a reduzir gastos em casa com a família e insiste com o supermercado até medidas drásticas, como abrir o Curumim em pleno feriado de carnaval, quando os estabelecimentos concorrentes estariam fechados, causando maior desagrado e ruído de comunicação entre os funcionários do super. 

A obsolescência de Otávio com o mercado de trabalho permanece até o final do filme. A figura do funcionário descartável, ultrapassado, preterido por mais jovens e proativos. A figura das crianças alheias a decisões, mas vítimas das mesmas, sem entender a crise familiar que tenta excluí-los dessa tomada de conhecimento. A união dos funcionários em tomar decisões por eles próprios, alheios ao desconforto que poderiam gerar ao patronato.

Para parte final do longa, a mescla com o terror apimenta um pouco o suspense e as reações, mas sem transfigurar o objetivo maior do filme. Trabalhar Cansa fica subordinado à temática do nome proposto, sem adentrar tamanho espaço à lenda urbana que se desenvolvia no próprio supermercado. Antes a figura monstruosa a surgir poderia ser metáfora do escravismo, derrubado a marretadas estruturais na parede do supermercado. 

Em Quando Eu Era Vivo (2014), além dos gritos do louco que vivia na rua do prédio para onde o protagonista se desloca para encontrar o pai - e viver polemicamente com ele - a relação com o filme Trabalhar Cansa está na situação desse personagem principal com o papel de Otávio no primeiro filme. Ambos são homens desempregados, cada vez mais solitários, excluídos e pressionados pela dependência e pela pressão social de serem novamente provedores e tomadores de decisão.

O protagonista recebe o nome de Júnior, mas aos poucos começa a se estranhar com o pai, que ele diz "não ser mais o mesmo de antes". No apartamento eles recebem a estudante Bruna, musicista interpretada pela cantora e atriz Sandy Leah (ela mesma). Junior obviamente, na vida solitária e despropositada, se interessa pela jovem Bruna, a qual tem um namorado que pouco aparece.

Júnior faz buscas em caixotes aprisionados no apartamento e descobre heranças familiares, vídeos antigos, cartas e enigmas escritos pela falecida mãe e pelo irmão Pedrinho, que está desaparecido na primeira metade do filme, mas, a quem não viu, talvez ele não esteja morto. Nas brincadeiras antigas com Pedrinho, gravadas ou documentadas por meio da escrita, Júnior reúne provas para avançar uma pesquisa ao encontro de verdades ocultas: justamente o caminho para o suspense e o terror em Quando Eu Era Vivo. Os contatos espirituais intrigam pessoas ligadas à família e até uma medium contratada para leitura e melhora espiritual da situação de Júnior, este cada vez mais trabalhoso para seu pai lidar com isso.

Em comum em outro longa assinado pelo Marco Dutra, os personagens Otávio e Junior avançam na paranoia e não na solução de arrumar um emprego e cessarem, ou ao menos reduzirem, a loucura daquele tempo de ócio. As pesquisas aprofundadas de Júnior geram contatos com o além e uma porta aberta para outros seres estarem entre eles.

O segundo filme comentado aqui tem muito mais da temática do terror comumente abordado nessas produções, não tanto o terror social do desempregado, da dificuldade empregatícia e dos apertos financeiros pelos quais passam a sociedade  brasileira. São duas formas de se abordar o terror. São dois legítimos representantes do cinema brasileiro, em que o primeiro faz por merecer uma melhor nota, se pensarmos em uma avaliação final.


07/11/2025

Contra Todos (2004)

Um dos poucos longas do diretor e produtor paulista Roberto Moreira. Contra Todos conta uma história cheia de reviravoltas sobre uma família já inicialmente polêmica e posteriormente desmantelada na periferia da maior cidade da América. Theodoro é um pai de família que vive com sua filha Soninha e com a (segunda) esposa Cláudia. As desavenças entre os três são crescentes e os motivos são os mais diversos nesse carrossel de climas e situações.

Theodoro aos poucos demonstra que não é o sujeito respeitado e respeitável que aparenta ser. No submundo em que faz parte, ele tem amigos próximos, mas talvez próximos demais. A trama gira em torno da confiança e da desconfiança implantada na relação entre as personagens. Quem errar pode pagar caro por isso, pois a lei da selva e de quem possua maior poder - de fogo ou de decisão - é bastante levada em conta.

A ambientação para o início dos anos 2000 é interessante, com a estética de ídolos do pop e do rock, a aparição da filha rebelde com Guns and Roses, Nirvana, Ozzy Osbourne, Bob Marley e outros ídolos. A temática do tráfico de drogas como uma crescente na vida desses jovens e dos sub-empregos adultos. A vida dupla controlando as ações na trama.

Theodoro busca mais outra esposa e pode até se apoiar na fé evangélica para deixar para trás o rastro de erros de seu caminho. Cláudia se mostra insaciável em seu desejo por quem apareça. Soninha vive entre a rebeldia adolescente e a falta de regras e de controle, encontrando consolo e algum apoio em mais figuras distintas que irão proporcionar esses crossovers.

Os personagens fabricam suas leis e diretrizes demonstrando comportamentos desruptivos, impulsivos e inconsequentes. As reviravoltas ocorrem a cada poucos minutos, retendo a atenção do espectador e convidando a adivinhar os destinos dessa trama de sonhos despedaçados, readequados ou mesmo completamente perdidos.

Contra Todos não é um nome por acaso. A casa pode cair a qualquer momento e o jogo de confianças pode mudar muito rapidamente. Ou nem tanto. Apesar da produção baixa em valores e dos improvisos de locações, isso não compromete o produto final, feito também com atores de crescente aparição ou mesmo desaparição das telas de maior sucesso a seguir.

🌟🌟🌟🌟

15/10/2025

Cinema Russo: My Joy (2010) + Hard To Be a God (2013)

Destacar tópicos dos filmes:

- cinema russo como pessimismo e de denúncia da violência social gratuita

- personagens encontrados em My Joy: prostitutas, saqueadores, policiais corruptos, vilarejos que recebem mal a estrangeiros

- jornada dos personagens principais como salvadores inoperantes em meio ao sistema corroído e adoecido

- crítica da Idade Média e possibilidade de refletir o que seria do mundo não houvesse avanços científicos, tecnológicos e iluminismos 

- escatologia em Hard to be a God, evidenciando a falta de saneamento e de soluções na Idade Média

- crueza do sexo e os duelos como forma de resolução de desavenças - comuns à história russa

- a crueza com que os russos muitas vezes lidam com a religião. entre o respeito ou a total descrença com as divindades. a frase definitiva é o nome do filme: é duro ser um deus.

- em My Joy ocorre a transformação do personagem principal entre um idealista a praticar seu ofício para um ser descrente, frio, transtornado e corroído pelo meio que o subjuga, o distingue, o violenta. sai da figura de uma colaborador para um praticante, um ator ativo do cenário violento proposto pelo filme e pelos interiores da Rússia

- em Hard to be a God, o personagem principal, humano em outro planeta atrasado, perde a compostura de salvador, de ser eficiente e evoluído perante as agruras que o cercam. ele convive com imagens que o sequelam, o adoecem, o maltratam, entre escatologia, má alimentação e violência de duelos seguidos.

- a ambientação de ambos os filmes é excelente e inclusive se sobrepõe à história, aos roteiros. a Rússia de devastação, longe das capitais, sem leis ou de vilarejos que fabricam suas próprias leis (comum ao Brasil?). com policiais que impõem suas vontades acima do que constituições traduziriam.

em Hard to be a God, a ambientação se deve ao uso do preto e branco, à entrada e saída de personagens constantemente, em uma dinâmica de eterna movimentação, um bailado infernal, em que seres cada vez mais grotescos e asquerosos passam pela frente da câmera, alguns a encarando como forma de surpresa e rompimento das barreiras do que seria apenas uma gravação neutra: os personagens se inserem, participam, compõem uma filmografia da aberração, do doentio, do mundo distópico que na verdade é histórico e de fato, em grande parte, existiu.

ambos os filmes trazem atmosferas aprisionantes, de ar rarefeito. é importante pensar e concluir que, se apenas de mirarmos tais cenas se têm uma ideia de degradação, de aprisionamento, de asfixia, imagine a vida sem possibilidades de desligar a tela, de fazer outra coisa, de superar as adversidades de contexto, de corrupção, de violência, de brutalidade e crueldade.

07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

04/10/2025

O Azarento, Um Homem de Sorte (1972)

Um filme brasileiro de comédia com humor até bastante escrachado, mas com caprichos do cotidiano que conferem comicidade. Direção de João Bennio. Se mudando do interior para Goiânia, um sujeito apático, solitário e sem o intuito de criar problemas é na verdade o Azarento. Ele atrai situação de desastre, desregula de motores a eletrônicos, destrói vidraças, distrai trabalhadores em curso. Um perigo por onde anda.

O dito Azarento nasceu em uma sexta-feira 13 de agosto, o mês dos cães loucos, de um ano bissexto. Aí calculem qual ano desse calendário gregoriano poderia Lazarento ter vindo ao mundo. Não aprontava tanto em seu pequeno sítio, até mulher apaixonada e prometida esposa havia, mas ele foi para ganhar a vida. Ou perdê-la ou fazer com que percam. O filme não traz tanta história: o princípio é que Lazarento passeia de um lado a outro e por onde por acaso passa é fait diver na certa. Uma confusão que pára o trânsito goiano com engarrafamento, falhas mecânicas e colisões é digna do videoclipe da canção do Green Day, Walking Contradction, quando Billie Joe Armstrong e seus capangas caminham por uma cidade do interior dos EUA fazendo pifar semáforos, postes, placas e veículos. Uma balbúrdia. O Azarento era dessa radicalidade.

Além da cômica cena de parar o trânsito e causar transtorno aos motoristas e pedestres goianos, o sertanejo avança para um páreo de turfe no jockey club. Tudo ocorria bem nas arquibancadas e na arracanda com os cavalos e jóqueis, até que o efeito da presença dele traz quedas, pinotes, andanças em círculo e uma situação de caos que revolta o rápido narrador da corrida. É uma sequência de eventos sem explicação, denunciavam e procuravam resposta entre rádios e jornal impresso. É no jornal que uma conferência se forma ao perceberem um rosto em comum entre fotos dos diferentes desastres que povoariam as páginas do periódico. Mas esse sujeito parece comum a mais eventos, está nesse também e, vejam só, também em outro. Está portanto lançado o apelido maldoso de Azarento para o cidadão presente nos desastres. Ele é ordenado de prisão e afastamento do convívio das ruas.

Após lançada a campanha pela captura do responsável em colocar o cabelo da cidade em pé, uma ligação anônima vinda de um restaurante identifica o herói da trama. A polícia se aproxima da casa onde estão diversos machucados, vítimas das peripécias do Azarento e o procurado estava a tomar café tranquilamente, quando é surpreendido por três guardas. Ele tem voz de prisão decretada, mas nenhum dos homens ousa se aproximar de tamanho azar. À distância e sem algemas, Azarento é conduzido até a penitenciária local. As confusões estariam enfim cessadas? Óbvio que não. Com o azar pendente ao sistema carcerário, os guardas cochilam, os presos armam um plano certeiro apenas com a presença de Azarento, que sequer deixa sua cela, cabisbaixo e recolhido a seu status desprezado. Os demais aproveitam, roubam chave, abrem os portões e ganham as ruas. É caos novamente na pobre Goiânia, não bastassem episódios de Césio na localidade.

Azarento é encontrado pelo diretor da prisão no dia seguinte ainda na solidão da alcova. É expulso. Setenciado que não volte mais, que vá para o mais longe possível. Estava danado o pobre diretor com a debandada de sua farta safra de presos e com o caos novamente a orbitar e a estrebuchar as pacatas terras sertanejas de centro-oeste brasileiro.

Entre episódios de desolação e comicidade, a publicidade é um grande trunfo no filme de João Bennio. Descobrem que o herói passou a calçar sapatos que lhe eliminavam o azar. Se até dele o azar se dissipou, a população estava então obrigada a consumir. Propagandas em rádio, em alto-falantes, em jornais, publicidade até nos começos da televisão em cores para todo Brasil. Azarento vira sujeito famoso e bem quisto, cidadão homenageado, requisitado, entrevistado. O que ele pensa sobre aborto, guerra, política, atores, gente famosa, tudo é questionado ao herói de quase nenhuma convicção e de personalidade nada marcante. Azarento é apenas a personificação do azar, a ambulância dos desprazeres do caos. Mas até para Azarento a vida sorriria. Um garoto traquinas que ele só importunava passageiros de um voo onde sentado ia o herói. Entre outras vítimas enquanto a mãe fazia a egípcia, Azarento tem seu famoso sapato arrancado pelo badboy mirim e assim começa uma turbulência frenética quando o voo da VASP já estava próximo do destino final em terras cariocas. Os passageiros lutavam pela sobrevivência e contra o desespero de uma eminente queda quando percebem o rosto famoso de Azarento na classe da aeronave. Denunciado, aturdido, sem escolha, Azarento deve saltar de pára-quedas para salvar o destino do voo. O calçam com o equipamento de ousado pulo e o empurram para fora. Boa sorte ao Azarento e a todos que chegariam para o Galeão.

Azarento recuperaria sua sorte ao aterrissar justamente em uma piscina lotada de boas pintas cariocas, gente da socialite, de alta recomendação, da classe abastada. Para maior sorte, recorre-se aqui ao spoiler final, ele vai direto para os braços de uma solteira convicta e herdeira, desejada por todos os rapazotes. Azarento estaria recuperado das diversas crises de azar que como uma rinite de espirros o perseguiam em vida? Aí é descobrir nos minutos finais da história genuinamente brasileira e que inspira humor para quem a vê.

Nota final para comédia proposta pelo diretor João Bennio:

3,5 / 5

03/10/2025

La Grande Noirceur (2018)

Philip é um imitador de Charlie Chaplin que vence um concurso entre imitadores do ídolo. O filme tem origem no Quebec, mesclando as falas em inglês e francês, mas Philip está longe de casa, tentando sobreviver em lados ermos do Oeste dos Estados Unidos. Apesar de recente e apocalíptico, La Grande Noirceur é ambientado pós Segunda Guerra Mundial, entre crise e violência, resquícios de nazismo e crueldade.

Logo ao vencer o concurso, Philip sofre nas mãos dos concorrentes derrotados. Tem sua carteira roubada e lhe sobra também somente sua roupa do corpo. O filme é bastante introspectivo, na solidão e nas dificuldades enfrentadas pelo personagem principal. Ele perde e corre atrás de trens. Passa dias endesertado, entre a terra árida e o gelo. Encontra carona com um francês que lhe compreende e ambos podem conversar no idioma que mais lhes convém. O francês conquista a confiança de Philip e se anuncia como um procurador de talentos como o dele. É bonita a cena em que pede para Philip exibir seu número e o protagonista dança solitário pelas terras do deserto, montanhoso ao fundo. Os passos descontraídos e descomedidos são interrompidos por um anúncio de rádio que corta a magia da canção. Os Estados Unidos seguem retrucando pela guerra. São um país que se recusa a perder, que só ambiciona vitórias, que admira os melhores do beisebol, de outros esportes e precisa desse sangue jovem, atrevido e vencedor em busca das conquistas na Europa. Os EUA não toleram os perdedores, então não seja um - Philip, revoltado com a propaganda belicosa, salta para o carro do francês (que talvez nem estivesse entendendo toda a mensagem) e desliga o rádio, enquanto desaba em exaustão e emoção pelo período de crise.

Philip deixa a carona e prossegue sua jornada. Ele encontrará vilarejos remotos e uma casa que parecia a acolhida necessária, com uma loira atraente, mas cada vez mais estranho. La Grande Noirceur é de 2018, mas parece incorporar cenas como Good Boy, de 2022, em que seres humanos são tratados em tempo integral como cachorros. Assim foi a captura da chamada Rosie, uma jovem atada por coleira, controlada pela estranha loira. Rosie revela que foi capturada há cinco anos e seu verdadeiro nome é Esther. Ela se alimenta e dorme no chão, distribui lambidas e vive amarrada na incorporação de ser uma cadela. Está sob controle absoluto dos párias psicopatas. Embora a loira diga que seu marido havia morrido, essa é só mais uma das crescentes suspeitas e dúvidas de Philip nesse universo diabólico e violento.

Philip tem uma jornada introspectiva, fugidia e permeada de personagens bizarros que demonstram a cultura de violência sobrevivente dos Estados Unidos da América, mesmo entre não idos à guerra. Sintomático dessa nação de guerrilheiros que pregam uma liberdade para acorrentar pessoas como cachorros. O desejo do canadense era voltar para casa, onde desejava se encontrar com sua mãe. Alguns elementos do filme permitem identificar a época remota, mas fazem pensar justamente em um tempo atual após eventos catastróficos (como uma nomeada guerra distante ou local, civil). O contato com a mãe no Canadá é feito por telefones interpelados por telefonistas, profissão em desuso. A tecnologia aparece pouco, mas é possível ser vista em automóveis como o dirigido pelo francês na erma estrada. As armas de fogo estão sob as mãos dos verozes habitantes, pela sobrevivência ou para realizar ataques contra fragilizados. Onde haverá espaço em um mundo como esse para palhaços imitadores, dançarinos e musicais apreciadores de arte, performadores de arte?

Então, a produção do filme não necessariamente transporta para época do século passado. É uma crítica aos Estados Unidos atuais, um interior armamentista, uma população convocada por forças ditas patrióticas, fomentadora de guerra, dos artefatos bélicos, da liberdade que restringe a liberdade estrangeira, do outro. La Grande Noirceur une elementos dos filmes noir da época, do pós guerra, das décadas de 1940 e 1950, com a crítica que permanece válida em uma nação comandada pelo reeleito e sedento Donald.

Nota final para La Grande Noirceur:
🌟🌟🌟🌟

30/09/2025

Titicut Follies (1967)

Titicut Follies é um dos vários documentários produzidos pelo norte-americano e judeu Frederick Wiseman. Neste, a câmera está ligada em um internato psiquiátrico, uma prisão para condenados e pacientes da ala psiquiátrica. O convívio problemático e conjunto entre eles marca o filme, em que o foco, na verdade, está nas atitudes grosseiras e debochadas dos agentes do local com os detentos.

Um preso no início é provocado pelo seu quarto não estar em ordem. Não está limpo. Ele é intimado a arrumar até o dia seguinte. "Como estará o quarto?" "Limpo", ele responde. Mas a pergunta é feita repetidas vezes, ele grita, se desespera, é um detento das alas psiquiátricas. Ele é provocado à exaustão. Assim seria com vários.

Dois casos em particular chamam atenção pela necessidade e apresentações de discursos coerentes, lúcidos e denunciantes. Na verdade, é impressionante que trabalhos denunciadores como os de Wiseman fossem aprovados e exibidos a algum público. Eles achincalham as instituições norte-americanos, em suas falhas penais, de saúde e bem estar para seus habitantes. Em um dos discursos está um russo com nome de Vladimir - comum à Rússia, mas não seria adaptado? Vladimir nem falaria inglês fluente antes, mas discursa nervoso, ansioso e sedento por sair da instituição. Ele está a um ano e meio nessa prisão e deseja retornar à sociedade o quanto antes. Vale ressaltar o contexto de guerra fria para época, em pleno 1967, como diriam, os auges da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, após segunda guerra e ainda longe do desfecho de queda do muro berlinense. Vladimir reclama dos medicamentos que é obrigado a inserir, que sente alterações no tórax, que sente estar piorando ao invés de melhorar. Os médicos, ao contrário das súplicas, liberariam o paciente somente quando ele apresentasse melhoras. Ele denuncia a contrariedade: como vai melhorar se os medicamentos o pioram? Vai sair dali nunca por essa lógica homicida.

Além de Vladimir, um outro preso denuncia a lógica estadunidense de chamar a todos os inimigos como comunistas dessa guerra fria. A imagem ao final do texto realça os principais pontos tocados pelo paciente. Ele discursa em banhos de sol no pátio, é escutado por poucos, contrariado ainda por outros e ignorado pela maioria que nem sequer o entende, com problemas graves de cognição e déficit de atenção. Todos medicados, talvez pelas mesmas adversas medicinas denunciadas em filmes como Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Este outro preso chega a discutir com um detento patriótico e apoiador das obtusas instituições estadunidenses. Ele perde um pouco da razão ao atropelar as tentativas de interpelar do outro, mas demonstra muita racionalidade, muito mais do que iríamos supor para estar ali. Mas é aquilo: razão até demais. Deve fazer mal.

A interferência no Vietnã, a atração e a provocação por guerras são postas no discurso do referido preso. Ele compara, de uma forma um tanto quanto machista, é bem verdade, a atuação dos Estados Unidos como uma mulher ninfomaníaca, que é sedenta na procura por guerras e só assim teria sua satisfação pessoal. Durante décadas observou-se esse comportamento sedento e sedutor por guerras através de transferências econômicas como investimentos em exércitos e vendas de armas; sem ganho econômico não faria sentido tamanho belicismo.

De volta a Vladimir, este denuncia quando questionado que não possui formas de lazer, é impossível desenvolver-se socialmente em meio ao microcosmos de isolamento e de tentativa frustrada de denominador comum para presos com os mais diversos graus de alterações, transtornos e problemas. Não há esporte, "somente uma luva e uma bola de beisebol". O controle e a rigidez das instituições e dos quartos ofenderia qualquer prisão da península nórdica entre Noruega e Finlândia da posteridade.

Um dos presos estava em greve de fome como protesto e foi obrigado a consumir alimentos pelo nariz, em um tubo, em uma das cenas mais agoniantes em que é recomendável até avançar a fita. Suas costelas em sobressalto, a nudez de algumas cenas e finalmente a injeção intubada pelo nariz da vítima dessa prática torturante. Um padre abençoava os detentos com orações católicas para quem assim quisesse ou não quisesse.

Os documentários de Frederick Wiseman deveriam ser exibidos ao mundo para mostrar atrasos, distorções, noções escondidas e inferiormente conhecidas da chamada terra da liberdade, onde liberdade muitas vezes é controle, liberdade muitas vezes é submissão, liberdade muitas vezes é suborno, liberdade muitas vezes é imposição, é aprisionamento, são ataques ao estrangeiro, ameaças e destruição, seja por falta de métodos mais avançados para o desenvolvimento ou maldade crua.

🌟🌟🌟🌟 

1- A instituição filmada é o Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos Insanos, uma instituição correcional em Bridgewater, Massachusetts.

2- A informação é de que o documentário de Wiseman ficou banido do território estadunidense por pelo menos 25 anos de exibição proibida, o que faz sentido com o questionamento deste escriba.

25/09/2025

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Branco Sai, Preto Fica é um filme nacional de 2014 e possui muitas camadas a serem analisadas. É certo que sua nota não pode ser baixa. O filme mistura gêneros cinematográficos mesmo com um orçamento discreto, inclusive com ficção científica sem efeitos especiais. Está muito no imaginário.

Dimas Cravalanças é um viajante no tempo. Ele tem a missão de voltar para uma época e coletar provas de que havia racismo forte, omissão de governo e violência policial. Brasília é uma cidade sitiada, onde é necessario passaporte e autorização para trocar de bairro à noite, tem toque de recolher. A violência policial foi o episódio capital do filme. Ela é apenas narrada pelos personagens.

Dois personagens negros foram vítimas da violência policial em um baile em Brasília. Logo no começo do filme um cadeirante que adaptou sua casa para cadeira de rodas, e possui uma rádio pirata com um singelo estúdio, conta sua história. Na entrada brusca da polícia para acabar com esse referido baile, ele acabou PCD. Durante a invasão da polícia, logo ao início do filme na narrativa, o personagem anuncia a frase derradeira do nome: "Branco Sai, Preto Fica", no escancarado racismo policial brasileiro.

Ele simula diálogos de abordagem. "Tá olhando o quê? Tá armado?", entre outras frases. Quem conhece operações, principalmente em bairros pobres, sabe da verossimilhança.

Outro personagem perdeu uma das pernas nessa ação e hoje utiliza perna mecânica. O filme é como um documentário da vivência deles, na união com drama e ficção científica pelo viajante no tempo. Esse personagem que perdeu a perna conta que tentou fugir na entrada da polícia, mas o cerco era forte, havia cavalaria e ele foi pisoteado. O resultado foi a amputação. Como forma narrativa e de empatia, ele inclusive conta como foi acordar no hospital após a cirurgia, em visão marcante em que se sentia melhor e pensava levantar para ir ao banheiro, mas ele não tinha mais a perna. Há referências científicas no filme como a sensação em que o cérebro ainda acredita na existência da perna. O sistema nervoso humano demora a se acostumar à nova realidade.

Esses personagens são a espinha dorsal do filme e Dimas Cravalanças precisa conhecê-los, investigar suas vidas e enviar essas provas ao futuro para denunciar a omissão de justiça e o descaso policial. O aprofundamento do filme se deve a maiores detalhes de como os personagens ganham seu sustento. O DJ ainda quer trabalhar com música, mesmo com suas limitações de acessibilidade e de equipamentos. Ele pede ajuda a um sócio, precisa investir grana em nova aparelhagem e em passaportes para circularem pela sitiada Brasília. Era nada fácil. Nessa trama, ele convive com outros artistas um tanto quanto questionáveis. Há um tecno brega que lançava a dança do jumento, balançando o instrumento, e contava com back vocals, cantoras de apoio. Um tanto constrangedor. Outro rapper muito mais sério ajuda nas denúncias propostas pela história do diretor Adirley Queirós. No rap do entrevistado, no improvisado e modernizado estúdio do cadeirante, um pouco mais da história da periferia. Brasília, afinal de contas, é uma cidade que nasce política, centralizada nos poderes executivo, legislativo e judiciário e passa a receber trabalhadores e migrantes de todos os rincões brasileiros - e estrangeiros, bolivianos, peruanos, enfim - Renato Russo já cantava essa proximidade em faroestes caboclos. 

A história de tentar superar traumas e deformidades arregaça o preconceito existente. A dificuldade enfrentada pela periferia, ainda mais quando se sofre preconceito pela cor da pele, quando se sofre preconceito e se enfrentam limitações pela acessibilidade. A perna mecânica que precisa ser comprada, reparada, arrumada, talvez trocada ou adaptada. Sem ajuda pública, um irmão precisa ajudar o outro. Sem espaço na mídia, um DJ precisa buscar investimentos com sócios suspeitos, com artistas estranhos, com recursos limitados.

Branco Sai, Preto Fica é uma frase que abre um leque de significados. Sai de cena? Sai do baile para não levar porrada de polícia? Sai do protagonismo e finalmente abre espaço a quem nunca é ouvido? Esse filme brasileiro tem tudo para, mesmo com limitações na linearidade da história, com o roteiro que pode ser considerado confuso pelos espectadores, se tornar um clássico da época. 2014 de um Brasil escravizado e ainda escravizante.

Nota final para o filme de Adirley Queirós:

🌟🌟🌟🌟

24/09/2025

Ladrões de Cinema (1977)

Ladrões de Cinema é um filme brasileiro muito interessante, a começar pelo referido período de 1977, durante a ditadura militar brasileira, ou seja, tinha de passar pelos censores. E conseguiu e mesmo assim trouxe críticas construtivas. O filme começa no carnaval carioca com uma equipe de filmagem vinda dos Estados Unidos. Eles documentam o carnaval do Rio de Janeiro e construiriam um filme/documentário sobre. O equipamento é roubado em plena avenida e os cineastas ficam estatelados no chão, sem poder identificar os ladrões.

O equipamento sobe o morro do Pavãozinho, onde moram os protagonistas do filme: e a comunidade como um todo. Lá eles discutem o que fazer com aquelas câmeras e negativos roubados. Pensam em revender e trocar por dinheiro para comunidade, mas melhor: decidem por fazer eles mesmos um filme. Todo o trabalho em Ladrões de Cinema é de improviso e de cenas que cidadãos comuns com câmeras poderiam desenvolver. Eles decidem por fazer um filme na comunidade e iniciam a luta para decidir um tema. Optam por Tiradentes. Aí a crítica se eleva. A comunidade treina bastante para entender a história brasileira, a história da Inconfidência Mineira, a crítica de que os ricos queriam só para eles, que os líricos e padres não tinham o necessário para uma real revolução e que dependeria de representantes do povo - como eles, do Pavãozinho, eram.

A comunidade de predominância negra passa a gravar as cenas da história mineira, então onde negros interpretam papéis também de portugueses. Ocorre essa mistura. Eles aprendem na prática técnicas de direção e atuação. Pedem dicas e materiais para um francês que mora no Rio de Janeiro. Quebram barreiras idiomáticas e de performance em busca do filme prometido.

Enquanto isso, há traidores entre eles como havia traidores para denunciar a Inconfidência para Coroa Portuguesa. Há portugueses de verdade na comunidade no morro. É uma mistura em três atos: entre a realidade da comunidade, a ficção/atuação de fazer um filme e a história brasileira. Godard ficaria orgulhoso. Os traidores na comunidade o quê queriam para sabotar o filme? Queriam vender os equipamentos caros dos norte-americanos e surrupiar a grana. Nada absurdo, certo? Portanto, paralelamente à gravação do filme, rodam-se os planos dos sabotadores em busca do benefício próprio. Algo comum em todas as esferas sociais, dos mais pobres aos mais ricos.

A escolha do tema por Tiradentes e a pretensa revolução pelo povo brasileiro contra a coroa portuguesa não é por acaso. O espectador observa essas nuances entre o poder sendo conquistado por uma comunidade pobre que agora detém meios midiáticos e protagonistas contra a expectativa de sempre, de que só o estrangeiro, só os abastados pudessem se expressar ou retratá-los. A comunidade do Pavãozinho nunca seria mostrada ou se mostrar não fosse uma mera experiência durante o conhecido carnaval carioca. Mas o morro existe lá o ano todo. Tem seus personagens, sua gente suada e trabalhadora. Assim como possui bandidos como qualquer outro espaço da sociedade, seja ela brasileira ou não. A trama percorre esse trajeto de sabermos se o equipamento vai ser vendido por baixo dos panos ou não. Se os bandidos que roubaram os estrangeiros serão capturados ou não. O filme ficará pronto ou não?

Os norte-americanos apareceram somente na cena inicial da gravação na avenida do carnaval e voltam à cena ao fim, entusiasmados que estão na descoberta dos equipamentos e no tal produto final das filmagens no morro, material intelectual que eles próprios teriam barreiras e não conseguiriam produzir. Novamente o debate entre o estrangeiro roubar o produto brasileiro, a força do trabalho, o estado natural da terra brasilis. A comunidade do Pavãozinho, tão pouco mencionada ao longo da história brasileira, contribui em um filme de rara crítica e posicionamento nacionalistas em um falso período patriótico, em que era silenciada e submetida aos interesses estrangeiros em controle e acordos com o governo brasileiro. Não havia a soberania que até hoje se luta para conquistar pelo Brasil. A crítica também era essa, da saída ou não do domínio da corte para a saída ou não do domínio das garras estrangeiras, estadunidenses. A presença de traidores ou sabotadores quanto a qualquer movimento que causasse desordem ou desconforto às leis vigentes, sejam elas portuguesas dos tempos da coroa regente no Brasil ou da bipolaridade ou multilateralidade do mundo globalizado, durante ou após guerra fria.

Nota final para o filme de Fernando Coni Campos fica em:

🌟🌟🌟🌟

19/09/2025

Memória de Helena (1969)

"Descobri que se tivesse a liberdade que procuro, não saberia o que fazer dela."

Memória de Helena é um filme brasileiro com uma narrativa peculiar. A amiga Rosa conta a história de Helena através de suas lembranças, de um diário de Helena e de pequenos filmes gravados pela protagonista e pelo tio.

O filme não possui uma completa linearidade, mas é possível entender acontecimentos na vida da jovem. O romance com Renato é destaque. O rapaz fica entre Helena e Rosa, nesse convívio cheio de nuances. 

Renato se muda para o Rio de Janeiro e de lá mantém contato com a confusa Helena. Ela reserva uma semana para conhecer a realidade do rapaz em terras cariocas, saindo da interiorana Diamantina, em Minas Gerais. É um romance que reflete também a realidade do êxodo brasileiro entre o interior e o crescimento, em densidade, das grandes capitais. Helena estranha as paisagens e o ritmo de vida no Rio de Janeiro, causa e gera desconfiança e descobre que isso era justificado pela presença de outra mulher, Adriana, na vida do rapaz. Por orgulho, como Helena admite, ela resolve conhecer Adriana, com quem passa seu último dia no Rio de Janeiro.

Em retornos a Diamantina, Renato é elogiado pelos demais interioranos por sua jornada de logros em terras cariocas, objetivo de grande parte dos conterrâneos. Foi assim que Renato conquistou a confiança de Tio Mário, veterano parente próximo de Helena.

"Eu não esperava a hora de ficar novamente com a simplicidade de meus habituais problemas." - Helena filosofa sobre a banalidade, com resignação e um tanto de acidez ou aspereza. "Desde o Rio de Janeiro, adotei uma forma de apatia que me contemplava tanto com o lado bom do mundo quanto com o ruim" - definitivamente.

Há vários debates que permeiam o filme entre as morais e os costumes. Começa na relação próxima de Helena com a criada Inês, uma negra empregada. O principal deve ser a relação lésbica entre Helena e a confissora Rosa, relacionamento abalado desde a chegada de Renato e, após, no fato de Rosa também ter conhecido um rapaz, citado Marcelo. Finalmente, pelos 50 minutos de filme, a ida de Helena ao circo, nas companhias de Inês e Rosa, causa reflexão sobre uma espécie de luta travada como número circense que desafiava o conhecimento de moral aceito e correto. Outros números do circo, entidade itinerante pelos interiores brasileiros, podem abalar os nativos. Há nisso a forma de vida nômade, as propostas artísticas de pintura, sensualidade e convívio e a fuga artística da rotina maçante de trabalho forçado em terras e trabalhos burocráticos, desafiando a lei e ordem pelo descampamento incerto.

Ocorre a chegada de André, personagem complexo, amigo de Marcelo. Ele desembarca de helicóptero, homem com interesse na exploração de terras

"Olha aqui, André, eu peço que você não se explique nem represente, apenas seja como é", alfineta Helena, sempre servida de frases impactantes para apimentar a narrativa.

André é mais velho, apresenta um comportamento o tanto quanto machista, mas fica impactado pela estranheza e característica rude em Helena, causando-lhe interesse e aproximação.

"André me parecia um tipo vulgar, mas é apenas uma pessoa desnorteada e fascinada pelo lado aventureiro de sua vida", Helena descreve os personagens, dentro da trama, melhor do que podemos realizar observando de fora. Isto sim é fascinante. Helena então acredita que seu rápido romance com André bastaria para novas perspectivas em sua vida. Acredita que o metido a empresário a levará junto, para fora de Diamantina, para outras vivências, mas acaba desiludida. Esquecida, desamparada, apática, descrente e sem propósitos. O final trágico causa lágrimas à amiga e contadora da história, Rosa. Ela que por vezes foi mais do que amiga.

"Esta é uma história de amizade, mas amizade de tempo indefinido", sustentando a permanência das lembranças, dos acontecimentos e da saudade, a mais portuguesa das palavras.

🌟🌟🌟🌟


28/08/2025

Esse Mundo é Meu (1964)

Filme lançado em ano marcante para história brasileira, Esse Mundo é Meu teve o "luxo" de permitir críticas sociais à essa época. A ambiguidade no título do filme é interessante. Pode-se pensar em uma conduta de posse, de poder, de aquisição, mas a análise final resulta pensar em apenas assimilação, pertencimento. Esse Mundo também é o meu, também é o que vivo.

A história mostra dois trabalhadores, um negro e um branco, e suas respectivas vidas com as companheiras. O negro Toninho é engraxate e sonha comprar uma bicicleta, mas, embora desça ao centro para trabalhar em barbearias e na rua, entre em lojas para namorar o transporte de seu desejo, não consegue atingir a quantia para sobreviver e comprar. O branco Pedro descobre que a companheira está grávida, deseja um aumento de salário na fábrica, na serralheria em que trabalha, coisa que não obtém. O chefe brava em plena discordância. "Se eu der aumento pra ti, precisarei dar aumento pra todos."

A companheira de Pedro pensa no aborto, pois não quer ter um filho sem estudos, um engraxate ou situação semelhante. O operário sonha que o futuro filho estude e seja um respeitado doutor. Situação distante para o Brasil da época?

O cansaço da espera, a ansiedade e o desespero moldam, modelam as duas histórias em pouco mais de 1h18min de filme. A direção é de Sérgio Ricardo, brasileiro que por muito tempo se dedicou à música, trilhas sonoras e canções. Assim, o filme tem acabamento apesar dos parcos recursos. As histórias fluem.

A figura central da bicicleta faz pensar em outros filmes da época, como o clássico italiano Ladrões de Bicicleta, o neorrealismo nas telas. No futuro, o árabe O Sonho de Wadja lembrará da importância da bicicleta, dessa vez para uma menina que não poderia brincar e se mover como os outros meninos, em função das restrições impostas na cultura islã. No Brasil de 1964, a identificação com o mundo do trabalhador que vive de bicos, não tem salário fixo, mal tem para arrematar a saída da miséria da fome, não tem para juntar para uma simples bicicleta e não encontra outra forma que não seja o roubo. A identificação com o operário que almeja uma vida melhor para família, deve dois meses do aluguel de um barraco. Ele e a mulher então recorrem, na dúvida sobre a manutenção ou a extração do filho, a uma clínica clandestina de aborto, com métodos mal afamados e polêmicos. Irão sobreviver?

A colocação da temática do aborto em plena época demonstra ousadia e abertura para um debate ainda muito distante de ser vencido em 2025, mais de 60 anos depois. A identificação com a dura realidade das personagens mostra um Brasil que muito precisa avançar e a dificuldade de sobrevivência para quem vive à margem, na localização, no acesso à saúde e oportunidades.

⭐⭐⭐⭐

15/08/2025

A Chinesa (1967)

Por ordem cronológica de preparação, o filme seguinte a ser analisado é A Chinesa (1967), um dos mais políticos de Godard enquanto fase da primeira Nouvelle Vague, iniciada em Acossado (1960), com roteiro do companheiro François Truffaut. Em A Chinesa, feito após 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela e antes de Weekend, Godard já havia começado seu relacionamento com a atriz alemã/francesa Anna Wiazemsky, destaque no ano anterior no filme A Testemunha. Anna estreia nos filmes de Jean Luc com papel de importância em A Chinesa.

Jean Pierre Leaud e outros atores compõem nesse filme uma célula comunista, com as locações internas em uma casa altamente decorada com material político. O filme é todo composto por debates, discussões, pensamentos e manifestações de cunho político, com atuações locais ou mediante os problemas globais. Os jovens escutam a tradução da Rádio de Pequim e buscam se manter informados sobre as guardas vermelhas impulsionadas na China. Claramente, se vê que a célula comunista está com novos membros e os debates são de iniciação e com foco na continuidade das atividades. No início do filme, um companheiro deles aparece ensanguentado e rapidamente o acodem e o posicionam em uma cadeira. Quando questionado quem teria feito isso com ele, afirma, para alguma surpresa, que foram outros ditos comunistas, da Sorbonne, numa dissidência ocorrida sobre a situação russa (diante da Soviética de 67). Jean Leaud considera isso positivo, pois marca as opiniões contrárias e o posicionamento da célula enquanto modelo político. 

As paredes da casa em questão estão sempre decoradas com frases de efeito. Uma delas afirma que se devem combater ideias vagas com ideias claras. O filme tem andamento quase como um manual para recrutar, se politizar e entender questões político-globais. Nenhuma surpresa que tenha sido vetado/censurado de exibição qualquer no Brasil da época. A pensa os objetivos da ditadura cívico-militar brasileira, atuaram como a censura previa atuar: sem espaço para manifestações pró-comunismo.

Um convidado discursa para a célula sobre a perspectiva global após a morte de Lenin. Abre-se espaço para novas pesquisas, perspectivas e formulações. Sementes já foram plantadas. Eles debatem que as classes sociais vivem em constante choque, ebulição, movimento: há classes que ora surgem, outras desaparecem como movimento de atuação social. "Essa é a história da civilização." E essa pressão, essa luta de classes acabaria sob uma ditadura com base nas escolhas do proletariado? É negado. Desde 1921, Lenin afirmava que a ideia de classes sociais não se dissiparia sequer com essa organização social.

No filme, também se considera que revoluções só são possíveis tendendo-se, entendendo-se, buscando-se revoluções. Não acontecem por acaso ou não sendo almejadas. Para alcançar objetivos, é preciso focar na prática desde o bairro, a vila, a cidade, com exemplos práticos e não especulativos, imaginários. Além dos debates, diga-se, com o objetivo em tempp real, o filme é entrecortado com espécies de entrevistas com os membros da célula, com suas histórias pessoais de como aderiram à ideologia, de onde conheceram, o que têm passado e quais objetivos possuem na causa. Dentro disso, comentam situações cotidianas e de relevância para as discussões políticas.

Diferentes lugares de fala são apresentados. Veronique, a personagem de Anna Wiazemsky vem de uma família de banqueiros e estudava filosofia. Percebeu as desigualdades impostas pelo capitalismo (classes sociais, campo x cidade, agricultura x indústria), percebeu que somente estudar filosofia vinda de um bairro operário era uma contradição muito grande, mas tenta aplicar os conhecimentos em busca de uma teoria mais justa, que possa ser praticada. Segundo ela, queimar livros também não seria bom, pois assim não se consegue criticá-los.

O personagem de Jean Leaud levanta uma questão sobre linguagem (lá vem Godard). Se fosse uma sociedade de cegos, se prestaria mais atenção ao que é dito, em conversas verdadeiras, com atenção ao interlocutor. É uma crítica que ganha espaço cada vez mais em uma sociedade de muitos falantes e poucos ouvintes; poucos ouvintes ativos, poucos interpretadores, reflexivos, pensantes, questionadores.

Após o descanso da noite, os personagens despertam pela manhã e vão em direção a varanda da casa. Alongam e realizam exercícios enquanto pronunciam frases de teoria marxista como se fossem um exército a cantar durante os exercícios físicos. Uma sátira godardiana. O personagem de Jean Leaud então ministra a próxima conversa sobre os tons e directrizes da guerra na Ásia. Satiriza a ação dos países, cada qual representado por óculos escuros com suas bandeiras, enquanto o Vietnã está limitado a pedir socorro. Estados Unidos enviaram mais bombas ao país asiático do que durante a Segunda Guerra (princípios para quê? Ásia para os norte-americano?), União Soviética muito teoriza e pouco aplica. A China de Mao pede atenção, mas não teme o imperialismo e o capitalismo (como até hoje permanece). Nas palavras de Mao, esses impositores seriam como tigres de papel, ferozes na aparência, mas, para China, inofensivos aos objetivos. Inglaterra e França, consideradas potências mundiais, são passivas e não demonstram posicionamento profundo, como em outras guerras modernas - até sobre a passividade no caso Israel-Palestina.

Percebo que Godard também utiliza muito das armas de fogo, de representações de conflitos como apenas brinquedos, como se os personagens, os adultos brincassem com essas arminhas, como crianças. E as guerras não são assim? Com homens velhos a regular, a controlar, a ordenar distantes da linha de frente por objetivos econômicos, sem a real dimensão da desgraça de cada frente, do saldo de cada bombardeio. Assim como na psicologia infantil, são nas brincadeiras que muito é demonstrado e pode ser interpretado.

Ao longo do filme, Godard defende a corrente maoísta, considerando os segmentos da esquerda europeia como reformistas, insuficientes, impotentes. O exemplo maior a ser estudado, segundo a demonstração do filme, é a China (até por isso leva o nome, A Chinesa).

O personagem de Jean Leaud e Veronique escutam um discurso, escutam música e que os comunistas devem combater em duas frentes, entre elas, a arte. Leaud anuncia que é difícil para ele fazer duas coisas de uma vez, só consegue uma. Veronique simula uma DR de casal, que não o ama mais, justifica e diz que ele entenderá. O exercício era para mostrar que ele consegue sim fazer duas coisas ao mesmo tempo, no caso foi entender a questão e ouvir música. Questionável resultado, pois às vezes abdicamos da atenção de uma música ou a rebaixamos para segundo plano enquanto nos dedicamos em cheio a algo mais urgente e relevante. Complicado atuar em duas frentes, mas fica o debate da cena.

Prossegue mais um debate sobre linguagem, o que envolve a exclusão do personagem loiro Henri na célula. Por dissidências, foi votada sua saída. Ele comenta o episódio enquanto prepara um café da manhã, ou coisa parecida. O debate sobre linguagem é interessante no sentido de que, para se expressarem, discursarem, pautarem uma revolução, deveriam os comunistas armas discursos, panfletos, anúncios e transcrições na mesma linguagem considerada burguesa, tradicional? Há como romper esse obstáculo rumo a uma libertação, a uma alternativa? São questões de estilo ou há como revolucionar dentro daquilo (a linguagem) que é consagrado, inteligível e usual? Henri acreditava na coexistência pacífica das formas distintas enquanto Veronique era mais radical, pelo rompimento total. A própria Veronique encontra um escritor em um trem e conversam para atualizarem-se. Ela comentam que seus inimigos são os generais, os burocratas (...) e os intelectuais reacionários - um grande grupo. O debate dela com o escritor no trem vai da ideia de Veronique fechar ou explodir as universidades, como a causa inicial do filme do membro da célula após ataque na Sorbonne. Veronique crê que a educação é reprodutora dos paradigmas das autoridades e contribui para o reacionarismo, por isso deseja fechá-las e intimidá-las, propondo até ataques a professores e estudantes, na intimidação aos demais. O escritor se posiciona contra, porque essa ideia é dela e de mais dois ou três, não é uma atitude geral e revolucionária. É diferente do atentado proposto por uma mulher argelina, Djamila, que explodiu um café, "mas em nome da revolução", enfatiza o escritor. "Você não pode fazer a revolução pelos outros", transmite em um sentido da necessidade de acompanhamento, de retaguarda. Veronique nisso deseja que para aplicar as teorias revolucionárias que tem aprendido, ela precisaria da prática e o exemplo descrito era o modelo dela de atuação necessária.

Nas contestações aos planos, o escritor afirma que uma revolução precisa de bases firmes para o prosseguimento, que apenas atos isolados ou tomadas de poder sem uma base forte e planos vigentes se tornam ações temporárias e interrompidas, com altos riscos de apreensões e retenções. Quando a palavra volta para Henri, ele destaca o marxismo como uma espécie de ciência, de método e que os argumentos para atuações da célula eram válidos, mas estavam bagunçados; considerava falta de métodos.

O filme encaminha seu final com o suicídio de Serge, um dos convidados à célula que tinha a missão de assassinar um ministro russo como protesto. Assim, a missão recai para Veronique. Enquanto isso, segue uma entrevista com o excluído Henri, que não sabia do suicídio de Serge, conforme revelou, e não sabia mais sobre os companheiros, ex-companheiros de célula. O personagem de Jean Leaud chega a aparecer como comerciante de verduras, um simples feirante, também deixando que por centavos as pessoas tentassem acertar legumes em sua cara, como aqueles games norte-americanos ou japoneses.

Com muita referência ao famoso livro vermelho de Mao e com uma trilha sonora que o homenageia, o filme A Chinesa chega ao fim com a dissolução da célula daqueles jovens franceses e o futuro sempre incerto das organizações comunistas. Seria a China um modelo a ser seguido? Pelo comunismo da época ou pelo destaque econômico de décadas seguintes? Questões.


Referência ao filme Alemanha Ano Zero, sobre o pós-Segunda Guerra