Beberrão e despreocupado, David aguardava o ano novo com seus capangas em um cemitério. Eram as últimas horas daquele ano e uma enfermeira do Exército de Salvação, chamada Edit, estava para morrer. Seu último desejo? Receber no leito de morte a David Holm. A família estranhava o desejo repentino, mas providenciaram a procura pelo sujeito. Febria, ela viria a morrer poucas horas depois. Mas antes, David causara uma última briga com seus capangas, com um consequente desafeto e assim levara uma garrafada fatal na cabeça. Ficou estendido definitivamente ao solo do cemitério: caiu morto.
Sem que o mundo dos vivos saiba, estabelecido era o pacto de que o último morto no dia 31 de dezembro deveria ser o cocheiro da carruagem da morte, condutor da carruagem fantasma pelo próximo ano. Pelo próximo ciclo. Mas é também explicado que o trabalho interminável do cocheiro em serviço de Morte era multiplicado incontáveis vezes pela seguinte fórmula: de que cada dia do ano poderiam ser o equivalente a um trabalho centenário. Por que essa passagem de tempo diferente? Porque o serviço consistia em buscar cada alma que partisse do corpo, como se imagina a imagem de capuz e foice da Morte. Apenas não especifica o território a serem buscadas as almas, mas a história, o filme restringe-se à Suécia.
David recebe o cocheiro da morte e o anúncio de que precisará cumprir essa pena no próximo ciclo. Antes, como trama de Carruagem Fantasma, ele revisita os eventos que marcaram sua vida e o levaram até a tragédia: dele e da enfermeira febria. David estava com tuberculose e fazia absurdos, por exemplo, tossir contra pessoas para que também contraíssem a doença, "ou acha que são melhores do que eu para não ficarem doentes?". Inclusive crianças. Inclusive sua primeira esposa, que ele perseguida o paradeiro de seu sumiço por toda a Suécia. O comportamento perseguidor e contagioso quanto à doença nas atitudes de David o tornam um dos maiores desgraçados já vistos na História do Cinema. Passado mais de século da narrativa sueca, o rótulo permanece. É difícil encontrar personagens tão tacanhos quanto David.
O personagem principal amaldiçoou a vida da enfermeira, com a doença contagiosa e a incrível saudade de ter se interessado pelo perverso. O filme tenta amenizar a figura de David por meio de um arrependimento para metade final do longa, o que não convence a este escriba, após tamanhas sem-vergonhices. A relação temporal estabelecida entre o serviço de cocheiro da Carruagem Fantasma, condenação tremenda por um tempo incalculável em relação à vida humana, e o filme Sudoeste pode ser entendida a partir de agora.
Em Sudoeste (2011), filme nacional de 2008, com direção de Eduardo Nunes, a vida de Clarice transcorre ao contrário da eterna demora a que seria condenado David. A menina Clarice nasce de uma magia, de uma considerada bruxaria, em uma minúscula comunidade ribeira ou litorânea. Os pais originalmente acreditam que a menina havia morrido, mas na verdade ela está sob uma condenação bem diferente a do cocheiro. A vida de Clarice transcorre toda durante um dia. Ela de bebê se torna menina, de menina se torna adolescente e assim por diante.
A perspectiva de vivência do tempo é alterada, transformada pelas diferença comensal entre as experiências. David com uma jornada de castigo, de retratação, de azar, pode-se dizer, pois justamente sua briga derradeira resultaria na última morte sueca daquele ano. Clarice condenada a observar os demais personagens em suas vidas naturalmente sequenciais de um dia após o outro, enquanto ela, inocente menina de nascença, sem conhecer o que seria uma chuva, o que seriam as coisas da vida até o avançar de sua idade conforme declinava-se a tarde de um aparente dia comum.
Clarice perspassa pelos personagens camponeses e de sua própria família. O pai Sebastião e a mãe que conheciam o luto imediato da perda de bebê - Clarice. O irmãozinho João nem desconfiava que a menina que surgia na comunidade era na verdade sua irmã. O roteiro e a relação entre as personagens não oferece muita história. O destaque do filme está por conta da fotografia, das composições todas em preto e branco, lembrando dos melhores longas do próprio Wim Wenders, que abriu este texto, ou, melhor lembrança, o cinema do húngaro Bela Tarr, especialista em histórias lentas mas impactantes, pela composição de imagens, planos, escolhas de posicionamento e construção semiótica das narrativas.
Sudoeste se aproxima desse cinema sensível, impactante, emocionante de Bela Tarr. As diferenças óbvias são em relação ao comum de cada cenário geográfico construído. A frieza, a aspereza da natureza na Europa profunda contrasta com o clima tropical brasileiro, com os personagens mais experimentados na sociabilidade, apesar das profundezas rurais. Bela Tarr experiencia e oferece mais silêncios, mais frieza, ao passo que Nunes em Sudoeste também oferece os espaços, os períodos de respiro e reflexão, a composição proposital com o ermo das paisagens, mas sem perder o calor e a sociabilidade da latinidade nas personagens. Ou seja, há traços que se aproximam entre as culturas e o modo de fazer cinema, mas diferenças fundamentais permanecem no que é próprio de cada região do mundo.
A proposta de comparação temporal se deve, portanto, nas condenações distintas: a demora de um dia durar anos de serviço ao condenado cocheiro da morte, e a vida ligeira e tão difícil de discernir, de atinar, de compreender e aproveitar para a inocente Clarice. A menina, logo adolescente, logo mulher, logo anciã, anseia pelas descobertas ao passo que as personagens que cruzam por ora seu caminho apenas estranham sumiços e transformações da Clarice a que haviam começado a reconhecer e a se acostumar. A diferença de perspectiva do que pode ser um dia qualquer, um dia comum, OU um dia decisivo, derradeiro, único, singular. Ímpar (ou seja, sem par). Dias decisivos de escolhas e arrependimentos e remorsos que definiram os rumos trágicos para David Holm e seu amor desperdiçado. Oportunidades e desperdícios que Clarice não teria o luxo de experimentar em uma única experiência de 24 horas. Quem nunca comparou seu tempo vital com as larvas, as borboletas, as moscas, ou, no outro vértice, as tartarugas, outros répteis e alguns urubus?
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