14/11/2025

Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade (2014)

Mais uma pela incursão ao cinema nacional. Joli é uma mulher que se recupera do vício em drogas. Ela está de volta a Recife. Seu pai é um importante deputado, chamado Antônio. Antônio concorre a um novo cargo,  a prefeitura da capital pernambucana. O regresso de Joli pode atrapalhar os planos do bon vivant. 

Quanto vale o preço para vencer uma eleição? Talvez vender a própria filha.  Poderia ser a frase que inicia a análise. O filme Prometo um dia deixar essa cidade traz muitos assuntos, ampliados e esmiuçados até as cenas paralelas ao subir dos créditos finais. De um filme com tanta pretensão e ideias pode-se tirar coisas positivas. O longa é um dos poucos até hoje lançados pelo diretor Daniel Aragão. Seus pôsteres são artísticos, um comentarista afirma lembrar a arte do alemão Werner Fassbinder. As propostas tornam-se ousadas, desafiadoras e polêmicas. Detalhes não passam despercebidos. Qual será a intenção ao utilizar a sigla fictícia para o partido do matreiro Antônio como PSTB. No filme podemos ouvir errado até que a sigla se destaque em painel diante de nossos olhos. A semiótica e as cores em vermelho estão lançadas.

Marcado pelo episódio negativo na família, Antônio anseia sua campanha em uma disputa para erradicar as drogas, para financiar projetos como os de um pastor em comunidade carente. A Recife é demonstrada entre as reuniões de terno e gravata, as casas com jardins e os apartamentos caros que contrastam com comunidade carentes, com ruas de terra, sem esgoto, difícil acesso para chegar ou sair, e crianças marginalizadas em diversões improvisadas, como jogar bola sobre a cancha de terra.

O retorno de Joli desafia a campanha de Antônio. Ele exerce um paternalismo doentio, arranja um casamento para filha se manter fora de enrascada. Em vão. O casamento arranjado não é suficiente para drenar a fúria e a revolta de Joli, que, se havia se curado do antigo vício, não suportava a vida de mentiras e de campanha difamatória, falsa e moralista proposta por seu pai no almejo ao cargo maior no município. Joli convive com personagens contraditórias. A amiga em recaída com o crack, o marido da amiga que acredita ser Joli a permanente má influência da esposa, mesmo a ruiva estando livre das drogas ilícitas.

Um debate aberto, proposto pelo filme é o entre as drogas, os fármacos lícitos e os ilícitos. O poder de decisão vindo de um político influente torna inclusive a saúde da própria filha como um experimento. Ele pretende sedá-la e até seduzi-la para manter a estrada da eleição aberta e encaminhada. Enquanto algumas drogas que fogem ao controle dos políticos, por efeitos ou principalmente pela fuga de lucro e fiscalização de impostos, são combatidas, outras são assinadas em convênios, testadas sem perspectiva exata a longo prazo, incentivadas sobre corpos ratos de laboratório. Mesmo as pesquisas nacionais e internacionais podem ser fraudadas. Mesmo os estudos assinados podem ser comprados. Mesmo um ente querido, quando interfere na caminhada rumo ao poder, pode e deve ser derrotado pela lógica maior do lucro.

O filme possui alguns elementos fantasiosos, simulações da mente e dos efeitos dos narcóticos sobre a mente de Joli. O ponto de vista é alternado dela para também mostrar o desespero do político que se vê encurralado em sua campanha de talvez precisar apoiar um adversário, que também deveria ser derrotado. A volta de Joli causa burburinho, mobiliza noticiário, exprime agenda negativa, causa desconfiança e precisa ser combatida como consequência.

A falta de escrúpulos e limites nas agendas e métodos políticos são abordados no filme; da campanha envolta em falsidade e publicidades enganosas na aplicação de fundos partidários, da corrupção aos convênios de eliminar adversários, de desbloquear o caminho a qualquer custo. A conveniência e o poder movem o jogo, contra quem for. Na metodologia utilizada por António estão a participação da indústria farmacêutica e da medicina a serviço do poder, do terno e da gravata. A farda policial na mesma linha, forma de atuar idem. De sabotadora à sabotada estava selado o destino de Joli, na promessa fantasiosa de um dia deixar essa cidade: custe o que custar.

Nota final para Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade:

3,5 / 5



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