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08/12/2025

O Carroceiro (1963) + Tauw (1970)

Ousmane Sembène é um diretor do cinema senegalês, responsável por grandes trabalhos que demonstram a vida no país sub-saariano. Os filmes aqui explorados remontam ao período em que a influência francesa ainda era tremenda sobre os colonizados, em um ambiente de crescimento das cidades como Dakar, com as dificuldades de sobrevivência com as novas exigências para empregos e moradia a famílias.

Mais aclamado entre esses dois filmes é o Carroceiro, de 1963. Um sujeito sai para trabalhar todos os dias com sua carroça puxada por um cavalo. Ele vive de fretes e pequenos serviços sob contratação. São transportes para mercadorias ou de pessoas. A função do carroceiro, mediante um trânsito que começava a congestionar da presença de carros, se assemelha à função dos motoristas de aplicativo nas selvas de pedra recentes, passado mais de meio século. Entre histórias que ilustram seu cotidiano, há contratação para frete e para buscar uma mulher grávida e levá-la até a maternidade, a tempo para que seja amparada pelo trabalho de parto. Na viagem, um incômodo lhe acomete com uma roda que ameaça a travessia, rangendo e preocupando o transporte.

Em uma missão ousada, o Carroceiro é contratado para uma encomenda em um bairro de ricos, evidenciando o tremendo distanciamento entre os bairros que convive, entre casebres e mazelas e a área asfaltada, mais urbanizada, arborizada e floreada por apartamentos modernos e de arquitetura deslumbrante. Antes da partir pela missão, ele conversava e era alertado por um companheiro dos riscos de trafegar nesse bairro nobre, local de proibido acesso aos pobres. Ignorando o alerta, o carroceiro parte na busca, interceptado por um guarda que lhe pergunta por documentos, habilitação e autorização para dirigir ali. Humilhado e multado, o carroceiro, sem alternativa financeira, é obrigado a abandonar sua charrete (termo escutado igual em francês) e volta de cabeça baixa apenas com seu cavalo. Ele foi abandonado pelo senhor que o contratou, sem sequer o dinheiro do frete para que havia sido contratado, deixando para trás seu meio de trabalho para que os homens ricos lhe aplicassem a multa. O Carroceiro reclama de ter sido enganado, é vítima, foi surrupiado.

"Eles aprendem a ler e a mentir", reclama na viagem de volta. A desigualdade pela cidade é evidente, ele resmunga sobre a diferença das casas, observa o crescimento da cidade como um crescimento impessoal em que não se pode confiar nas pessoas, diferente da convivência aldeã. Com apenas seu cavalo, ele ainda precisa retornar para casa, para o convívio com a mulher, com o peso da humilhação sofrida em mais um dia de trabalho, do qual ele se pergunta os valores de todo o esforço empreendido, se o dia de anteontem, se o de ontem, se o de amanhã nada mais reservam para seu usufruto.

Em recordo do desenvolvimento do filme, em jornada de trabalho ele chega a desistir de almoçar em casa para que aproveite um dia mais movimentado, em que estava sendo bastante requisitado em serviço. Sem saber o que a mulher inventaria para dar conta do almoço, ele se contenta, se satisfaz com um punhado de nozes que havia recebido de um dos amigos de semelhante profissão. O coleguismo entre os pobres ainda existia, ao passo que entre os ricos ele não poderia se confiar. Ao mesmo tempo, os alertas denunciados em Maria Carolina de Jesus e O Quarto de Despejo, de semelhante época em São Paulo, na chamada favela do Canindé - em que a autora apontava que a inocência da união entre os pobres existia na cabeça de quem não fazia parte daquele mundo. No livro, ela aponta brigas entre a vizinhança, desentendimentos severos provocados pela cachaça e até pelas pirraças provocadas pelas crianças, gerando apedrejamento, vinganças com fezes e tudo mais. São retratos de possibilidades de solidariedade ou do desenvolvimento mesmo da raiva entre pessoas em situação precária, debilitada, em déficit econômico, sem ter como proverem o cotidiano com alimentação e dignidade. Em O Carroceiro, Ousmane Sembène prefere optar pela demonstração da desigualdade e pela vilania dos verdadeiros culpados da manifestação de uma pobreza, ao passo que residem em casas nobres, protegidas, supervisionadas e sem interferências que possam ocasionar transtornos. A segregação na África colonizada ocorria sem a necessidade de um apartheid por cor da pele como na África do Sul, mesmo que muitas vezes fosse, sim, francesa a soberania nas terras africanas, como em Senegal, formando ela, França, uma elite ou impulsionando a formação de uma elite negra local.

Nota final para O Carroceiro:

⭐⭐⭐⭐ e meio


Em Tauw, a continuidade da temática da pobreza está nas dificuldades do protagonista em conseguir emprego. Aos 20 anos, ele é acusado por seu pai de fazer corpo mole, de não prover sustento na casa. Tauw, reunido a amigos em situação semelhante, protagonistas de pequenos furtos na cidade, vão em busca de um emprego mais formalizado. Se reúnem a outros tantos jovens que esperavam um chamado como estivadores ou o que fosse. Em uma oportunidade de aparecerem para serviço no Porto de Dakar, Tauw descobre que o bilhete para simples entrada, travessia da cancela do Porto em Dakar, custava o equivalente a 100 francos. 

O dinheiro francês novamente aparece em peça de Ousmane Sembène, evidenciando a influência da França sobre o país na luta por sua libertação e direitos em autonomia. Enquanto não havia essa possibilidade, Tauw e outros senegaleses lutavam pelos francos pela sobrevivência. Enquanto um dos amigos conseguiu o dinheiro, o bilhete e foi trabalhar no porto, Tauw voltou para casa para pedir dinheiro à sua mãe. Ela entrega uma peça de roupa, uma calça do marido para que Tauw venda e possa trabalhar e voltar para casa com mais dinheiro.

Tauw encontra uma mulher e descobre-se que a gravidez dela possa ter sido ocasionada pelo rapaz. Ele gosta dela, quer ajudá-la, ao passo que a moça também passaria naquele dia por uma consulta médica e necessitava do dinheiro para longa passagem de ônibus- visto que obviamente moravam para as equivalentes periferias das cidades grandes, no caso, Dakar. A mulher chega a oferecer ajuda para Tauw, mas não seria a melhor alternativa e ele insiste em tentar vender a calça. Ao mesmo tempo, a falta de dinheiro o irrita, de modo que chega a duvidar ser ele o pai da futura criança. Em reencontro entre eles, a crise se agrava com a mulher necessitando de 2 mil francos para comprar um dito remédio. Tauw se desespera porque nem ele, nem ela teriam condições. 

No avanço final do curta-metragem de 26 minutos (O Carroceiro tem menos tempo, mas ambos abrem espaço para muitas críticas e observações sociais), Tauw toma a medida drástica de contar para seu pai sobre o ocorrido e, para lamúria e discordância da mãe, resolve sair de casa ao pedir a mulher em casamento e tentarem desbravar a difícil jornada da vida juntos. O filme é permeado ainda por tentativas de ensinamentos escolares e religiosos (na verdade adjuntos) em que as crianças leem lições e versos islãs para um mestre. Enquanto percorre as ruas em busca da salvação da sua eminente crise financeira, Tauw ainda se depara com os demais apelando para as rezas diárias para Allah. A salvação, vista nos filmes, não seria da boa índole dos ricos para os carroceiros ou os que tentassem serviços ocasionais no porto, jovens impedidos de uma educação formal e de garantias de trabalho mesmo braçal. O carroceiro que perdeu seu veículo e o rapaz que precisava arranjar primeiro 100 francos que sobrassem para um dia de serviço sob a chancela da administração portuária.

Nota final para história de Tauw:

⭐⭐⭐⭐


Senegal foi colônia da França entre 1817 e 1960. Apesar da data oficial de emancipação ser em 1960, a influência francesa, em dinheiro, costumes, autoridades e burguesia eram constantes nos anos vindouros, conforme denúncia o cinema de Ousmane Sembelé nesses dois curtas apresentados. A influência está desde o idioma ao dinheiro utilizado na exploração do desenvolvimento senegalês. Quanto à exploração dos recursos da terra, caberia mais do que um capítulo à parte dessa análise.

Na curiosidade com o futebol, Senegal derrotou a França na Copa do Mundo de 2002. Os senegaleses venceram a colonizadora e assim a eliminaram do torneio ainda na fase de grupos. Em 2026, novamente Senegal e França foram sorteados para o mesmo grupo e vão realizar novo duelo. Outros países que passaram por enfermidades sob domínio francês, e que costumam se destacar no futebol e nas artes, são Marrocos, Argélia, Camarões, Tunísia e Congo.

06/12/2025

Le Petit Voleur (1999)

Filme francês do diretor Erick Zonca, Le Petit Voleur (1999), ou o Ladrãozinho, conta a história do adolescente Esse. O garoto se tornando um jovem adulto primeiro é expulso após uma série de mancadas da padaria onde trabalhava. Ele promete vingança e ganhar a vida custe o que custe, a outros modos. Em momento nenhum do curto filme (1h06) aparece a família do jovem da cidade de Orleans. Após confessar seus planos a uma namorada, Esse, então sem mais dinheiro com a expulsão da padaria, dorme na casa dela, rouba o salário da moça e foge para Marselha, uma cidade grande e portuária, com saída para o mediterrâneo, cosmopolita o suficiente para esconder-se em uma vida criminosa com uma gangue que pratica diversos negócios ilícitos.

O filme ganha contornos que cada vez mais fogem ao controle de Esse, trazendo surpresa ao jovem e ao espectador. A uma hora de filme torna-se alucinante, pois os episódios de violência são escalantes, contrastando com uma função de caixa baixa que Esse exerce ao ter de cuidar e fazer faxinas para uma idosa. As nuances do filme apresentam sutilezas gratificantes de acompanhar e descobrir. Sem diálogos, é por meio de sucessões de imagens que descobrem-se verdades e apontam-se hipocrisias dos mais diversos tipos. São desigualdades salariais e de tratamento, são leis e hierarquias criadas pelas próprias gangues e pelas ruas. São subordinações que Esse passa muito piores do que o emprego inicial que ele amaldiçoou e prometeu se vingar. O padeiro está ganhando espaço na gangue, mas será sempre assim?

O filme encontra o realismo e explode em adrenalina em diversas passagens. São cenas chocantes de violência urbana, roubos, furtos, linguagem imprópria, prostituição, até descambar em cenas finais cada vez mais alucinantes. A recomendação não é para menores de idade assistirem e mesmo algumas pessoas mais experimentadas podem se ver conflitadas por imagens fortes.

A ideia do filme é o velho jogo de ascensão e queda no mundo do crime, em uma indústria que fabrica funções e, tão rápido recruta novas pessoas sem emprego ou sem estudo, logo se livra delas. Mesmos os apontados reis não possuem lugar cativo no esquema, pois as coisas mudam muito rápido. No jogo de extrema violência com que são resolvidas as questões de acertos de contas a eliminações, as mulheres estão reduzidas a prostitutas ou meras acompanhantes, ou, no caso da idosa, ela apenas sobrevive em condições abaixo de uma classe média com dignidade.

Sabe-se que a escalada criminosa na França e em outros países da Europa conta com a convocação de jovens sub-urbanos e imigrantes desamparados por leis nacionais e observações de senso comum racista. Apesar da dura realidade para muitos jovens de origens diversas de africanos a asiáticos muçulmanos, passando pela comunidade judaica, o filme retrata a vida de um jovem do interior da França, Orleans, desamparado pela falta de estrutura familiar e do que chamam rede de apoio. A transformação do perfil de Esse são os últimos pregos no caixão de sua juventude, o conflito entre o jovem que tenta performar como gângster criminoso, mas também enxerga-se na condição tímida do abandono, do interiorano perdido na metrópole cerceada por crimes. As ruas de Marselha tornam-se palco de desventuras das mais cruéis e cruas que o cinema possa oferecer a corajosos espectadores, que saciam-se pela transparência de uma sociedade suja e corrompida.

Nota final para Le Petit Voleur em

⭐⭐⭐⭐

11/11/2025

Trabalhar Cansa (2011) + Quando Eu Era Vivo (2014)

Ao assistir esses dois filmes em sequência, o que me chamou atenção é que o final de Trabalhar Cansa termina com um grito e o início de Quando Eu Era Vivo começa com outro. Se emendam. Com crítica social mais apurada, ao estilo incessante das denúncias sociais de Que Horas Ela Volta?, o longa Trabalhar Cansa (2011) tem direção dos paulistas Marco Dutra e Juliana Rojas.

Otávio é um pai de família recém desempregado. Ele sabe que será difícil arranjar uma nova oportunidade e o filme gira em torno disso. Para manter o padrão elevado da família do executivo, do trabalhador de escritório, a esposa Helena resolve alugar um espaço para reabrir um supermercado de bairro, o Curumim. Eles alugam do senhor Alfredo, mas as coisas nunca se encaminham como planejavam. Helena vai se tornando uma tirana, tem dificuldade em lidar e orientar os funcionários (antes da mania nacional de chamarem a todos de colaboradores). Os problemas estruturais do prédio e relacionais entre patrão e empregado são o atemperamento do filme. 

Além de lidar com o Curumim, Helena contratou a jovem Paula para ser empregada doméstica. O filme cita questões polêmicas como a assinatura de carteira de trabalho, os benefícios e garantias para os trabalhadores e a dificuldade dos patrões em cumprirem as normas e leis empregatícias. O movimento do reaberto supermercado nunca agrada. São problemas estrururais, infiltrações em parede, entupimento de esgoto, clientela exigente, saudosista ou insatisfeita, funcionários suspeitos de desvios de mercadorias.

Enquanto Helena se espezinha em contratar jovens funcionários, Otávio luta em agências de emprego para cargos que procuram gente mais proativa, jovem e capacitada. Sua experiência de cabeça calva não agrada aos contratantes. "Afrouxa a gravata, tira uma foto sem para o currículo". E os meses passam com uma casa onde o marido perdeu protagonismo. A sogra, a mãe de Helena ainda passa a ajudar financeiramente a família e a interferir cada vez mais nas decisões, inclusive se estranhando com Paula, a empregada. O casal tinha dois filhos, que por ora aparecem em cenas de estranhamento com o corte de energia elétrica, em planejamento de viagem de férias familiares e episódios da escola, não especificada assim, mas com elementos do filme com os quais podemos concluir que era particular e elitista. Até o uso da chamada black face em apresentação da escola gera polêmica para quem assiste - objetivo atingido na escolha da direção do filme.

Trabalhar Cansa denuncia as polêmicas relações de patrão e empregado, aponta as diferenças nos serviços, na forma de tratamento, na tomada de decisões, por exemplo Helena, que se nega a reduzir gastos em casa com a família e insiste com o supermercado até medidas drásticas, como abrir o Curumim em pleno feriado de carnaval, quando os estabelecimentos concorrentes estariam fechados, causando maior desagrado e ruído de comunicação entre os funcionários do super. 

A obsolescência de Otávio com o mercado de trabalho permanece até o final do filme. A figura do funcionário descartável, ultrapassado, preterido por mais jovens e proativos. A figura das crianças alheias a decisões, mas vítimas das mesmas, sem entender a crise familiar que tenta excluí-los dessa tomada de conhecimento. A união dos funcionários em tomar decisões por eles próprios, alheios ao desconforto que poderiam gerar ao patronato.

Para parte final do longa, a mescla com o terror apimenta um pouco o suspense e as reações, mas sem transfigurar o objetivo maior do filme. Trabalhar Cansa fica subordinado à temática do nome proposto, sem adentrar tamanho espaço à lenda urbana que se desenvolvia no próprio supermercado. Antes a figura monstruosa a surgir poderia ser metáfora do escravismo, derrubado a marretadas estruturais na parede do supermercado. 

Em Quando Eu Era Vivo (2014), além dos gritos do louco que vivia na rua do prédio para onde o protagonista se desloca para encontrar o pai - e viver polemicamente com ele - a relação com o filme Trabalhar Cansa está na situação desse personagem principal com o papel de Otávio no primeiro filme. Ambos são homens desempregados, cada vez mais solitários, excluídos e pressionados pela dependência e pela pressão social de serem novamente provedores e tomadores de decisão.

O protagonista recebe o nome de Júnior, mas aos poucos começa a se estranhar com o pai, que ele diz "não ser mais o mesmo de antes". No apartamento eles recebem a estudante Bruna, musicista interpretada pela cantora e atriz Sandy Leah (ela mesma). Junior obviamente, na vida solitária e despropositada, se interessa pela jovem Bruna, a qual tem um namorado que pouco aparece.

Júnior faz buscas em caixotes aprisionados no apartamento e descobre heranças familiares, vídeos antigos, cartas e enigmas escritos pela falecida mãe e pelo irmão Pedrinho, que está desaparecido na primeira metade do filme, mas, a quem não viu, talvez ele não esteja morto. Nas brincadeiras antigas com Pedrinho, gravadas ou documentadas por meio da escrita, Júnior reúne provas para avançar uma pesquisa ao encontro de verdades ocultas: justamente o caminho para o suspense e o terror em Quando Eu Era Vivo. Os contatos espirituais intrigam pessoas ligadas à família e até uma medium contratada para leitura e melhora espiritual da situação de Júnior, este cada vez mais trabalhoso para seu pai lidar com isso.

Em comum em outro longa assinado pelo Marco Dutra, os personagens Otávio e Junior avançam na paranoia e não na solução de arrumar um emprego e cessarem, ou ao menos reduzirem, a loucura daquele tempo de ócio. As pesquisas aprofundadas de Júnior geram contatos com o além e uma porta aberta para outros seres estarem entre eles.

O segundo filme comentado aqui tem muito mais da temática do terror comumente abordado nessas produções, não tanto o terror social do desempregado, da dificuldade empregatícia e dos apertos financeiros pelos quais passam a sociedade  brasileira. São duas formas de se abordar o terror. São dois legítimos representantes do cinema brasileiro, em que o primeiro faz por merecer uma melhor nota, se pensarmos em uma avaliação final.


29/08/2025

Meu Pé de Laranja Lima (1970)

Meu Pé de Laranja Lima causou grande impressão e pode ser considerado um dos melhores filmes nacionais. Acostumado a filmes iranianos que retratam a infância, observar essa obra autobiográfica que vem do livro de José Mauro de Vasconcelos é contemplar a identificação com milhões de jovens brasileiros.

Zezé só revela o nome completo no filme ao recitar para preencher a ficha escolar. José Mauro de Vasconcelos. O menino tem seis anos, é miúdo, mas destemido. Tem um irmão menor chamado Luis (ou Luiz), com o qual é muito atencioso. Seu irmão mais velho aparece em algumas cenas e procura instruir o imaginativo e aventureiro Zezé. A infância neste filme não é retratada como a maior das nostalgias, do fantasioso e do maravilhoso enquanto não se cresce. Zezé, pelo contrário, vive à margem de uma sociedade abastada. Seu pai desempregou e não tem previsão de receber um novo emprego. A substituição dos postos por operários mais jovens é realidade. José mesmo muito criança já sai atrás de suas rendas, sempre pensando nos próximos. Sonha dar um presente de Natal ao maninho menor. Quando questionado por roubar uma flor para professora, confessa não ter dinheiro para comprar, não ter jardim em sua casa com flores e que não tolerava assistir ao copo na mesa da professora vazio. Roubou-lhe uma flor. Em seguida fala que a professora não deveria destinar brindes de comida só a ele, que era excelente aluno. Uma negrinha na escola era ainda mais pobre e ele dividiria a comida sempre com ela, que era excluída por outras crianças. A professora poderia dar brindes direto à menina. Zezé cometia erros, xingava, se metia em brigas, mas tinha bom coração. Passados anos da vida adulta é fácil enxergar. O envolvimento de todo contexto e o perdão para os erros infantis do aprendizado.

Nessa vida com percalços, descalço pelas ruas, Zezé não romantiza a infância. Sonha viajar, fala até em suicídio, conversa que pesa clima ao fazer amizade com um confessor português, o senhor Manuel Valadares. Como o pai estava desempregado e ocorriam algumas brigas em sua casa, com a irmã adolescente e os pais, Zezé chega a projetar que o português o adote. Manuel, que não tinha filhos, não descarta a ideia, mas não tiraria o menino do seio familiar.

Claro, o personagem principal das confissões de Zezé seria o que dá nome ao filme, o tal do Pé de Laranja Lima. Zezé o descobre no terreno avulso à casa e lá parte para brincadeiras e imaginações. A árvore além de ouvinte também dava dicas maravilhosas ao menino. Um realismo fantástico. Zezé gostava de brincar de imaginar um zoológico e animais ferozes para impressionar o mano Luis. Além da árvore do protagonista, os irmãos também tinham entre mangueiras e outras árvores, uma da tamarindo.

O efeito do filme com acontecimentos tristes, emocionantes, crus, remendadores de nossas e outras infâncias torna as lembranças como um clássico. Se comparam as épocas, se pensa no raio do capitalismo que faz crianças trabalharem e adultos sucumbirem. Faz com que desejem fugir ou morrer, que sejam discriminadas, que percebam ou não as diferentes classes sociais e financeiras. O dinheiro como base de tudo, para comer, para presentes, para determinar as crianças que tenham ou não tenham Natal, que tenham ou não tenham figurinhas de chiclete e outros brinquedos, que possam ter a bicicleta ou não, conforme o filme recém avaliado neste canal, o Este Mundo é Meu (1964).

Meu Pé de Laranja Lima supera sensores para cortar/contar essa época da arte brasileira com amostras de pobreza, mas de esperança. Retratos crus, a mistura do rural e do urbano, da sociedade ainda muito religiosa, do crescimento das cidades, da passagem do bastão das gerações. Dos portugueses incorporados à sociedade brasileira: amigos? Confessores? Por que não?

Zezé encanta por seu senso aventureiro, por não se intimidar, briga e busca melhoras pelos irmãos, chega a brigar com menino maior do que ele. Luta contra as desigualdades, sonha planos para si e pelos outros, roga contra Jesus que o teria abandonado. Não é fácil ser criança. Toda a romantização da infância esquece de muitos exemplos. O escritor José Mauro de Vasconcelos não nos deixou esquecer das agruras de um Brasil profundo e relativamente recente. Talvez da nossa janela para fora ainda hoje.

28/08/2025

Esse Mundo é Meu (1964)

Filme lançado em ano marcante para história brasileira, Esse Mundo é Meu teve o "luxo" de permitir críticas sociais à essa época. A ambiguidade no título do filme é interessante. Pode-se pensar em uma conduta de posse, de poder, de aquisição, mas a análise final resulta pensar em apenas assimilação, pertencimento. Esse Mundo também é o meu, também é o que vivo.

A história mostra dois trabalhadores, um negro e um branco, e suas respectivas vidas com as companheiras. O negro Toninho é engraxate e sonha comprar uma bicicleta, mas, embora desça ao centro para trabalhar em barbearias e na rua, entre em lojas para namorar o transporte de seu desejo, não consegue atingir a quantia para sobreviver e comprar. O branco Pedro descobre que a companheira está grávida, deseja um aumento de salário na fábrica, na serralheria em que trabalha, coisa que não obtém. O chefe brava em plena discordância. "Se eu der aumento pra ti, precisarei dar aumento pra todos."

A companheira de Pedro pensa no aborto, pois não quer ter um filho sem estudos, um engraxate ou situação semelhante. O operário sonha que o futuro filho estude e seja um respeitado doutor. Situação distante para o Brasil da época?

O cansaço da espera, a ansiedade e o desespero moldam, modelam as duas histórias em pouco mais de 1h18min de filme. A direção é de Sérgio Ricardo, brasileiro que por muito tempo se dedicou à música, trilhas sonoras e canções. Assim, o filme tem acabamento apesar dos parcos recursos. As histórias fluem.

A figura central da bicicleta faz pensar em outros filmes da época, como o clássico italiano Ladrões de Bicicleta, o neorrealismo nas telas. No futuro, o árabe O Sonho de Wadja lembrará da importância da bicicleta, dessa vez para uma menina que não poderia brincar e se mover como os outros meninos, em função das restrições impostas na cultura islã. No Brasil de 1964, a identificação com o mundo do trabalhador que vive de bicos, não tem salário fixo, mal tem para arrematar a saída da miséria da fome, não tem para juntar para uma simples bicicleta e não encontra outra forma que não seja o roubo. A identificação com o operário que almeja uma vida melhor para família, deve dois meses do aluguel de um barraco. Ele e a mulher então recorrem, na dúvida sobre a manutenção ou a extração do filho, a uma clínica clandestina de aborto, com métodos mal afamados e polêmicos. Irão sobreviver?

A colocação da temática do aborto em plena época demonstra ousadia e abertura para um debate ainda muito distante de ser vencido em 2025, mais de 60 anos depois. A identificação com a dura realidade das personagens mostra um Brasil que muito precisa avançar e a dificuldade de sobrevivência para quem vive à margem, na localização, no acesso à saúde e oportunidades.

⭐⭐⭐⭐

09/08/2025

Uma Mulher Casada (1964)

Ao contrário da análise positiva de Alphaville, Uma Mulher Casada talvez seja um dos filmes que menos gosto da filmografia de Godard durante a era da Nouvelle Vague. Este filme é de 1964 e conta a história de Charlotte, uma jovem esposa dividida entre dois homens: seu marido oficial, Pierre, e o amante, Robert. Ela é madrasta do pequeno Nicholas, filho do primeiro casamento de Pierre.

Seus pretendentes são mais velhos. Pierre é piloto de avião e constantemente está fora da cidade no exercício da profissão. Robert também tem de tirar dias fora, porque é ator de teatro. Charlotte vive à espera das viagens de Pierre para manter seu relacionamento extra-conjugal. Das suas poucas tarefas é manter o garoto Nicholas sendo buscado diariamente da escola.

Entre tantos elogios feitos recentemente aos filmes de Jean Luc Godard, este não é dos mais chamativos, explicando o porquê: não há filosofia mais densa e trabalhada, não há um roteiro cativante com as personagens, as atuações também não chegam a ser memoráveis ou divinas, não há acontecimentos que suscitem a trama em ação ou grandes suspenses. É um drama bastante morno, mas procuraremos atingir o objetivo de elencar pontos do filme.

Godard consegue mesclar seu gosto pela História ao pontuar uma viagem de Pierre, que passou da Alemanha a Auschwitz, na Polônia, local do maior campo de concentração da Segunda Guerra. O assunto permeia o filme. Em um dos encontros clandestinos de Charlotte com Robert, o destino é uma acanhada sala de cinema, precisamente na poltrona 12, quando a sessão de filme era referente à Segunda Guerra Mundial, e especificamente sobre os campos de concentração e suas aparências normais para os cidadãos que pudessem ver apenas de longe, de fora. É uma coincidência, pois Robert não tinha acesso a esse assunto que Charlotte travou com Pierre.

A trama do filme se desenvolve do meio para o final. Charlotte estava marcando consultas médicas e com a suspeita de uma gravidez. Ela descobre estar grávida em andamento, de três meses. Na hora, o espectador já fórmula a única pergunta possível: de quem será o filho? Há uma esperança de que a própria Charlotte tenha a resposta, mas adiantamos que ela não tem. Portanto, a dúvida é levada até o final do filme. Poderia ela, nessas escapadas, ter um cálculo mais preciso de com quem tenha dormido nesse tempo, mas durante o filme é provado que ela poderia estar até mesmo com os dois pretendentes em um único dia. Na manhã com Robert e à noite com Pierre, de volta de viagem.

Em visita a amigos de Pierre, a filosofia corre um pouco à solta no filme, mas entende-se que não com a profundidade de outras obras de Jean Luc. O objetivo maior do filme é entender a cabeça - e nela a bagunça - da situação entre um marido que tem um filho pequeno de outro casamento e almeja ter um filho de Charlotte, a cabeça da própria Charlotte, dividida entre os dois compromissos, e o bom vivente Roberto, sem a responsabilidade familiar e tentando alavancar sua vida de ator. Segundo ele, nunca foi casado. É um que dispensa compromissos do tipo.

A liberdade de escolha de Charlotte, à mostra da possível traição feminina, chocante aos olhos de 1964, são temas que podem ser mais reveladores, nesse olhar retrospectivo. Vale a lembrança, como outras análises por mim feitas, sobre os casamentos arranjados que perpassam tantas culturas pelo mundo em pleno 2025. Trata-se então de uma realidade francesa e europeia em plena década de 1960.

O feminismo aparece em algumas cenas do centro da trama. Charlotte frequentava uma piscina, de um clube ou pública, mas indiferente. Ali, tinha amigas e também passou a escutar a conversa de mulheres mais jovens, iniciando a vida sexual. Uma das adolescentes aconselhava a outra sobre como seria a experiência, sobre despir ou não, manter luzes acesas ou não, algum comportamento corporal de um jeito ou de outro. Charlotte escutava com a nostalgia de quem há muito estava iniciada e agora com compromissos maiores, tanto com o cônjuge, o cuidado com o enteado e o planejamento do que estaria por vir. Em meio a essas conversas, assuntos de penteado, de vestimentas e de signos do horóscopo, novidades e assuntos clássicos do que se considera moda feminina.

Em casa, com a empregada doméstica, com a madame da qual esquecemos o nome, Charlotte também desenvolve conversa a respeito de relacionamentos, modernidade e aparência. Apesar de sua beleza definitiva, a personagem principal estava incomodada com o tamanho de seus seios, preocupação e pressão julgadas sobre as mulheres e suas aparências. Revistas femininas, conceito que se estendeu por décadas nos salões de beleza e salas de espera, erguiam métodos capazes de corrigir postura, aumentar as mamas, etc.

É de se pensar por esse lado também a diferença de classes e do feminismo na época, entre madames que tinham a possibilidade de escolha, enquanto outras simplesmente as serviam em emprego, ou lutavam por direitos contra preconceitos raciais, por exemplo. A conhecida diferença entre feminismo branco e feminismo negro; lugar de fala acentuado para época (imaginem só em Estados Unidos, por exemplo). Em depoimento da empregada, sabatinada em perguntas sobre como era seu relacionamento em casa, ela reclama que os homens muitas vezes reduzem a relação ao sexo; assim, ela precisa fingir para manter tudo bem - é a falta de direito de escolha, de autonomia sobre o corpo sendo transmitida nesse depoimento. Ao final, porém, talvez sintoma também de suas limitações de perspectiva, educação sexual e lazer, a empregada opina que essa forma de amor é a única verdade na vida, e, quando considerado o todo, é um remédio contra apatia.

Interessante que, após esses depoimentos, chega a hora da revelação no consultório médico: Charlotte descobre definitivamente que está grávida. Ela aplica uma sabatina ao doutor sobre aspectos, por exemplo, do prazer que uma mulher pode sentir, e se ele, o médico, poderia ajudar a descobrir de quem seria o filho. Em depoimento que pode ser considerado contínuo à situação das muitas empregadas domésticas e mulheres e casais de classes sociais mais baixas: Charlotte pergunta sobre o controle da natalidade. O ano, lembrem-se, era 1964, e a explanação do médico é mais um trunfo de Godard para antecipar problemáticas do mundo atual. Por enquanto não havia necessidade do controle de natalidade, mas este poderia vir a ser um grave problema. Assim foi e é em alguns países (como não lembrar o caso da China acima de bilhão de habitantes e como isso vem à tona para Índias, Bangladesh e Paquistão, e também para realidade de países da África). Enquanto Europa e regiões das Américas viviam a expansão das famílias amparadas pela medicina que reduzia a mortalidade infantil, hoje essas mesmas regiões do globo já apresentam quedas vertiginosas no número de filhos por mulher.

A situação da classe média em que Pierre tinha o único filho pequeno Nicholas, Robert não era pai e Charlotte passava a esperar o seu primogênito, demonstra já uma sociedade europeia bastante desenvolta em planejamentos. Situação recorrente à zona urbana, enquanto os rurais ainda possuíam maior natalidade com os cuidados das muitas tarefas do campo. Observação que pode sim ser retomada ao Brasil, com o habitual atraso de décadas, mas com resultados inclusive semelhantes.

Enfim, apesar da obra Uma Mulher Casada não ser da magnificência a que Godard nos acostuma, ela tem sim pontos altos que refletem o comportamento, os debates e as discussões da época. Godard era mestre em inserir nos diálogos banais, nos vazios, números, notícias, novidades, tópicos de interesse da sociedade e que garantem, passado mais de meio século, uma contemporaneidade clássica, um achado, um apanhado de informações ricas e dignas da época, objeto de estudo sedutor para acompanhar o desenvolvimento e os peculiares caminhos da humanidade.


Cenas sensuais são comuns em Uma Mulher Casada (1964)
Olhar crítico de 2025 deve entender as nuances e novidades apresentadas por Godard de forma ousada às telas da época.


30/07/2025

Sad Vacation (2007)

Um filme japonês repleto de reviravoltas. Direção de Shinji Aoyama. Kenjy é um adulto que trabalha como motorista ocasionalmente. Sua vida é misteriosa. No início da história, enquanto prestava serviços junto à máfia, ele resolve adotar um órfão chinês que seria vendido, levado adiante. Mesmo praticamente jurado de morte pela iniciativa, Kenji mantém a guarda do menino, apesar da máfia japonesa Yakuza dar-lhe tempo e prometer voltar num futuro. E essa organização secreta e cruel na história do Japão nunca esquece dos pontos deixados abertos nas feridas. Não há ponto sem nó.

O filme é sobre não esquecer e como agir a partir das memórias e da complicada teia da vida. Kenji vivia com a mulher Iuri (aqui a destacar ser um nome feminino). Ambos passam a criar o jovem chinês.

Muitos anos depois, no seu trabalho de motorista, Kenji carrega um homem recém idoso e descobre, ao levá-lo para casa/empresa, a figura da mãe, que o teria abandonado quando ainda era criança. O filme joga com essas situações. Provavelmente Kenji aceita a criança chinesa, se compadece dela e evita que a máfia a leve adiante somente por relembrar sua infância cruel sem a presença dos pais. A mãe abandonou Kenji e o pai era um atrapalhado alcoólatra  - que aparentemente não é mostrado fisicamente na trama, apenas citado.

Ao descobrir a mãe nessa nova vida, Kenji arma planos de aparição e vingança. Ele descobre ter um meio-irmão, filhos da mesma mãe, mas tendo o senhor idoso como pai. O adolescente irmão de Kenji é bastante rebelde, tendo essa característica em comum com o soturno Kenji. O jovem também arma planos de rebeldia, inclusive emboscadas como assalto a um supermercado, apesar da boa condição de vida que o velho pai e a mãe de Kenji lhe proporcionam.

A mãe de Kenji tenta explicar a emoção do reencontro com o filho e planeja uma vida conjunta para todos na espaçosa casa/empresa, que deixa os funcionários agregados irem se acomodando no grande espaço, com quartos e improviso. Kenji, no entanto, nunca superou o abandono e está mais interessado na vingança, inclusive aconselhando (ou desaconselhando, plantando semente do mal mesmo em) seu meio-irmão rebelde.

Nesse meio tempo das confusões familiares,  a máfia retorna após anos em busca do garoto chinês que havia ficado sob a tutela de Kenji. Ideias de libertação e prisão à história circundam pela mente dos personagens. A trama é levemente confusa, mas passível de entendimento com suas nuances e reviravoltas. Até quanto uma mente pode suportar as ideias de abandono e reescrever a vida em reencontro? Qual o limite de uma tutela a quem não lhe pertence?

Como dito em altura do filme, será que os japoneses não são bons pais e mães? E por isso o garoto chinês teria que seguir seu rumo de volta ao país de origem? E o exercício do perdão é possível ou será que fragmentos de sua história pessoal foram ocultados do conhecimento do confuso Kenji? Como ele vai lidar com essa verdadeira salada, uma das mais temperadas e organizadas já apresentada em roteiro dramático? Antes do estouro de muitas séries à la carte ao público, a impressão é de uma verdadeira novela japonesa, em que temas como a perigosa máfia do Japão, responsável por centenas de mortes ao longo de décadas e até séculos, temas familiares de natureza delicada, a possível ou impossível reconciliação, as buscas e novas parcerias surgidas são todas abaladas e colocadas à prova quando os últimos atos são desferidos.

Um filme em que o cativar pelos personagens parece não emocionar, mas os desfechos prometem. Uma trama bem audaciosa, problemática e de final estarrecedor, estremecedor das estruturas da vida como se fosse um legítimo terremoto.

28/07/2025

Monólogo Silencioso (2008)

Filme senegalês que, em formato documentário, apresenta a vida das empregadas domésticas no país. Através da história de diferentes trabalhadoras, as condições precárias de vida são mostradas. Amy é a primeira a ser apresentada e, de certa forma, é a personagem principal. 

Amy é uma jovem empregada doméstica em uma casa de família de classe média. Enquanto ela trabalha, sua patroa costuma ficar no seu ouvido cobrando, criticando e, entre aspas, incentivando. Depois dela, outras garotas expõem suas situações.

A maioria delas iniciou estudos, mas teve de deixar a escola para trabalhar, seja por dedução própria ou obrigação familiar. Algumas tornam-se mães muito cedo e o compromisso em alimentar os filhos duplica a dificuldade da jornada. São poucas as opções de emprego, portanto o serviço de maid (empregada doméstica) se torna a principal opção para quem evita vender o próprio corpo como comércio.

Uma das mulheres desabafa que ela mantém as casas limpas, mas mesmo assim ela que é considerada suja. A controvérsia é uma dura realidade. Muitas das mulheres trabalham em casas de bom material e em melhores regiões de Dakar (capital do Senegal), mas moram em barracos na periferia. São barracos sem energia elétrica, com somente porta de entrada, em que se deve optar entre ter iluminação e ventilação ou conviver com possíveis insetos.

Uma jovem, ainda de aparência adolescente, desabafa que elas também são humanas e gostaria somente de ser tratada como bem trata os outros. A maior reclamação dessas meninas é a falta de pagamento, pior do que as condições precarias de trabalho. Muitos empregadores, patroas lançam demanda de limpeza e lavagem de roupas, mas não as pagam devidamente. Muitas vezes a lorota é de voltar num outro dia, prometer o pagamento para amanhãs que nunca chegam. Quão injusto é o mundo e a máxima de sempre: com quantos pobres se faz um rico, ou, mesmo não sendo enriquecido, um ser, uma família mais abastada?

O nome Monólogo Silencioso apresenta a crítica de que essas mulheres ainda trabalham silenciadas, seja nas casas ou pelas comunidades. Ninguém as escuta. Por educação forçada elas devem ficar quietas. Devem obedecer, não devem se rebelar. Devem falar baixo e não emitir seus desagrados, não são incentivadas a opiniões. É o silenciamento e o apagamento em voga.

21/07/2025

Classe Operária (1982)

Com título de Moonlighting (1982), o filme conta a história de um trabalhador polonês melhor instruído que seus colegas, por falar a língua inglesa e se meter nos trâmites. Em meio à crise política que cercava a Polônia, Novak vai para Londres com outros três trabalhadores sob sua tutela, entre aspas. Ele é o líder entre os quatro por se comunicar com os empregadores. Com visto/passaporte para apenas um mês, eles precisam agir rápido em uma obra para restauração total de uma casa/apartamento (bem ao estilo britânico, como já devem ter visto).

O objetivo dos ingleses ao contratar a mão de obra estrangeira é reduzir ao máximo os custos. No início do filme fala-se em um serviço até quatro vezes mais baratos quando realizado pelos poloneses. As condições do emprego são extremamente precárias. Os trabalhadores poloneses dormem na própria obra. Um canto, uma esteira, alguns escassos pertences para cada um. Novak obviamente é o mais abastado, chutando para longe qualquer referência a um bom socialismo - ou talvez emulando as maiores desfaçatezes possíveis nos regimes. Assim, o líder do grupo é o que se comunica e recebe o dinheiro do contratante. Inclusive o filme todo se passa em inglês, com diálogos entre os trabalhadores polacos propositalmente não traduzidos.

Para além do protagonismo de Novak, os demais personagens até recebem nomes, mas pouco ou quase nada se sabe sobre suas vidas. Parece um recurso proposital para torná-los simplórios e pouco articulados, ainda mais diante de cultura e país que não conheciam. Novak lê jornais, compra os materiais necessários para obra, mesmo casado tenta encontrar um tempo para uma escapada e, de forma gradual, vai se tornando o grande canalha que dificulta inclusive a relação de prosseguir a vista do filme. É um personagem principal bastante audacioso e apegado a truques.

Novak articula golpes na vizinhança. Além da tentativa de flerte que, perdão, parece até bem secundária na trama, preocupa a Novak o escasso dinheiro que teria de dividir entre seus parceiros. Assim, o mal intencionado promove golpes a supermercado e tenta pechinchar sempre que possível diante das poucas libras que lhe restam. O cerco vai gradativamente fechando contra o canalha, com truques em decadência, confiança dos rapazes em baixa e o prazo para entregar a obra cada vez mais próximo do esgotamento. Com tantas dificuldades para equilibrar-se no estilo de vida britânico, Novak percebe que a grande oportunidade para voltar para Polônia com dinheiro valorizado acaba se tornando uma grande furada.

O filme transcorre acontecimentos paralelos, como uma grande repressão a movimentos políticos de oposição na Polônia, em uma batalha por direitos sociais e por uma maior liberdade no país. Procurando esconder de seus colegas de trabalho as informações, Novak camufla notícias, desconversa sobre a situação polonesa e busca manter a trupe organizada unicamente no objetivo de entregar a obra no prazo estimado.

Socialmente, chama a atenção a peculiaridade de contratar a mão de obra desconhecida, de pouca garantia, mas bem mais barata, movimento comum até hoje a muitos países, com diferentes recortes e possibilidades pelo mundo. Os Estados Unidos contam com latino-americanos, filipinos, a Europa com árabes e africanos e até o Brasil muitas vezes se favorece da diferença de oportunidades e moedas para contar com bolivianos, venezuelanos, paraguaios, haitianos e alguns africanos vindos de longe. Sobre o Paraguai, há um filme brasileiro sobre a contratação dos nativos deste país, principalmente na grande São Paulo, um filme antigo (mesmo ano do filme desta resenha, 1982, em tremenda coincidência) chamado de Noites Paraguaias - este conta como esses migrantes buscam qualquer tipo de emprego para resistir e acomodar suas famílias. O principal nesses assuntos é apontar as dificuldades do elo trabalhista, as tensões criadas entre os estrangeiros e os locais e, obviamente, muitas vezes o preconceito partindo do empregador e da comunidade em relação a esses estranhos em potencial. Trabalhadores homens com ou sem esposas, potenciais estupradores na visão dos locais, financeiramente pobres, talvez pouco instruídos e com costumes diferentes: o preconceito torna-se gritante. A adaptação sempre traz e expande climas de tensão e a continuidade das missões é posta em risco.

Assim, filmes com essa temática trazem excentricidades e pontos em comum, demonstram a vida e o convívio tensos em diferentes partes do mundo, cabendo a identificação do que se repete, do que se difere e onde a ficção encontra a realidade e a realidade bate na porta da ficção. Vocês cumprem os requisitos?

Classe Operária (Moonlighting)

🌟🌟🌟

17/07/2025

Uzak (Distante)

Instruções

Elencar as diferentes distâncias abordadas no filme:

1- distância dos personagens principais

2- distância do primo se saísse a trabalhar no mar em navios

3- distância do primo pra conseguir um emprego 

4- distância do fotógrafo pra reconquistar antigo relacionamento

5- distância do primo para se adequar ao outro estilo de vida

6- distância do fotógrafo para esquecer

7- distâncias da vida em Istambul 

8- distância de largar o vício em cigarro

9- distância final entre os dois; separação


Uzak é um filme turco de 2002. Yusuf sai do interior do país em busca de emprego na capital Istambul. Lá, de surpresa, ele procura pelo primo Mahmut, o qual vive com um espaçoso apartamento, trabalhando como fotógrafo freelancer. Yusuf planeja trabalhar no porto da cidade, mas as expectativas de emprego se mostram frustradas.

Identificados apenas como primos, sem aproximação, Yusuf e Mahmut passam o filme todo resguardando certa distância. São diálogos frios, situações de anfitrião apenas forçadas pela boa educação a que se deve e a distância entre eles se alastra pelos círculos de amizade, hobbies e diferenças culturais. Em certo momento da película, Yusuf reclama que a cidade grande havia "mudado" o jeito de Mahmut. A verdade é que o anfitrião era um homem bastante misterioso e solitário e jamais deixa o primo se aproximar demais de suas questões pessoais, inclusive ao atender telefonemas sempre com a porta fechada e até dentro do banheiro. Era 2002, quando a moda do telefone sem fio já estava lançada, embora os aparelhos celulares não fossem unanimidade para classe média.

Yusuf toma seu espaço no apartamento e passa dias a sair e procurar emprego. Mas a tentativa de empregar-se no porto é frustrada de prontidão. Não tem emprego e ponto final. Ok, afirma Yusuf, que teve de viajar até outro local em busca do escritório onde o poderiam empregar. Ele faz passeios sempre solitários, conversando com outros portuários em cafés e perseguindo mulheres à distância. Um desempregado de meia idade não era o partido preferido para tomar atitudes.

Sem credenciais e sem quem o pudesse apresentar a novas oportunidades, seja de emprego ou de relacionamento, Yusuf fica à margem da sociedade e, sem opções para enviar dinheiro para sua mãe na cidadezinha distante, acaba por ocupar mesmo o quarto no apartamento do primo, cada vez menos paciente com a inusitada e atrevida visita.

Embora Yusuf não soubesse, Mahmut vai ao encontro de sua antiga esposa. Eles passaram por um aborto e ela acredita que não possa mais ter filhos. Mahmut descobre que ela (Nazan) vai ao Canadá com seu novo marido. Ele mantém a esperança da ex-companheira ao afirmar que lá talvez um médico diagnostique diferente, que ela talvez ainda possa ser fértil. A conversa entre eles é em tom melancólico e não vai adiante. Mahmut demonstra não superá-la.

Algumas das cenas mais constrangedoras são das interações entre os amigos do fotógrafo Mahmut com o primo forasteiro. Ele fica totalmente deslocado, sem participar dos assuntos culturais em foco. Em uma das saídas, desocupado, Yusuf ajuda Mahmut a realizar sessões de foto, trabalhando com flashs e carregando equipamentos. Isso garantiu uma grana mínima para sorriso do visitante.

O filme avança e a melancolia de Mahmut não passa. É interessante ter em vista que suas atitudes grosseiras e pouco paciensiosas com o visitante são somáticas de sua frustação amorosa, com o relacionamento que resultou em divórcio e a impossibilidade de reatar. Yusuf sabe nada a respeito da vida pessoal do primo e, portanto, não pode sequer entender ou tentar apaziguá-lo. Entre eles, o clima se torna cada vez mais hostil e as grosserias e ressentimentos se multiplicam. Um rato escondido no apartamento, cujas ratoeiras ficam espalhadas pelo piso, preenche vazios no espaçoso recinto. Talvez a luta contra o frágil roedor possa unir os primos. Talvez.

Istambul é uma cidade muito grande, uma das maiores entre Europa e Ásia, unindo culturas e trazendo particularidades relevantes, de vendas, gastronomia, portos de entradas e saídas da Europa e Ásia para o mundo. Istambul é grande e também impessoal, como se espera de uma cidade grande. Ela também reúne clima variado, do qual também se orgulham ali próximos os iranianos: estações que pelo menos eram bem definidas (hoje em dia já não se sabe). Assim, o filme passa do rigoroso e cheio de neve inverno até a crepuscular primavera. Na impessoalidade de Istambul, Yusuf se perde por cafés, shoppings e ruas, persegue mulheres e amplia sua frustração, tapete estendido da falta de emprego.

Entre belas fotografias da metrópole turca, está também os momentos filosóficos dos primos e o vício em cigarro. Mahmut até que tenta parar... Mas não é fácil. Assim como não é fácil manter os cinzeiros e a casa arrumada na presença do estabanado e inconveniente primo. Ao final, a solidão que cada um sentia é um hectare cravado em seus peitos. Olhares distantes em direção ao nada, onde só as mentes sabem por onde divagam. Será que a distância entre os primos ainda pode se transformar em consolação ou saudade? Um filme frio entre familiares, solidão e metrópole. Entre o capitalismo que rejeita e as estações que mudam totalmente o jogo.

🌟🌟🌟🌟

Uzek 

Lançamento: 20 de dezembro de 2002

Direção e Roteiro: Nuri Bilge Ceylan 

Direção de Arte: Ebru Ceylan 


Belas paisagens da grande Istambul e muitos silêncios compõem o filme turco


12/07/2025

Fireworks Wednesday (2006)

Mais um filme assistido feito pelo iraniano Asghar Farhadi e co-escrito por Farhadi e Mani Haghighi. Segue a senda de filmes colocados ao máximo os valores e as dúvidas de como proceder, exercitando extremamente os limites humanos dos personagens. Roohi é jovem noiva que está prestes a se casar na semana. Para os gastos da vida conjugal que lhe espera, inicia numa agência de empregos na tarefa de empregada doméstica para pessoas abastadas. É em um apartamento longe de seu humilde bairro que a banda toca. O filme ocorre com poucas locações, praticamente apenas no prédio da patroa e do marido.

Logo de entrada, Roohi pressente que as coisas não vão bem. O casal vive em implicância e até o vidro de uma das janelas teve de ser trocado em meio ao caos da faxina necessária. Uma outra mulher também estava contatada para função de limpeza. Roohi logo percebe que a patroa desconfia do marido, sempre ao telefone com número e voz estranha. Um número registrado em chamadas provoca sua atenção, pois as ligações são quando ela não está no apartamento. Para aprofundar as suspeitas, a patroa pede a Roohi que marque um horário no salão de beleza improvisado de uma vizinha, a suspeita número 1 da acusação de traição. Muito além da limpeza, Roohi tem a missão de descobrir informações sobre a suposta traição entre a vizinha do salão de beleza improvisado no prédio e o marido da patroa.

A trama começa a envolver a gama de personagens. O casal em derretimento tem um filho pequeno na escola, Amir Ali, estudante de primeira série. Roohi é contratada inclusive para buscar o menino no colégio, enquanto a mãe está ocupada com as suspeitas a pairar sobre o marido, que trabalha em uma agência há muitos anos. A tarde é percorrida entre desencontros, suspeitas, suspense e o drama do que fazer no lugar de cada personagem. Casamentos ao desgaste, pessoas tentando ganhar a vida em seus empregos, valores morais postos à prova em uma sociedade patriarcal. A própria criança envolvida no filme já partilhava dos problemas, pois, ao ouvir o som da janela quebrando na noite anterior, desconfiava de ladrões no prédio, quando eram apenas seus pais a brigar.

O filme ocorre todo durante a última quarta-feira para os iranianos em um ano, data marcada pela queima de fogos que se estende da tarde à noite. Um exercício de explosões, ocupação das ruas e festejos selvagens para testar o coração de qualquer nordestino ao comemorar as datas juninas. O clima para o final do filme chega ao hostil pelas explosões nas ruas, quase a noite de anarquia interpretada de forma fictícia no cinema em outra franquia (dos EUA). Entre as explosões dos artefatos baratos e caseiros segue a martelar na cabeça de Roohi o que ela deveria fazer sobre as descobertas do dia, levando a questionar os valores e as fronteiras de um mero emprego e a oportunidade de intervir na vida alheia. Mais uma vez nas tramas de Asghar Farhadi nos vemos envoltos entre muitos personagens com suas razões, seus erros, suas peripécias e o ar pesado da sociedade iraniana, tão condenável às mulheres abaixo dos trajes obrigatórios.

Outra grande trama de reviravoltas, detalhes bem produzidos e adequados ao roteiro que enriquecem nos pequenos objetos e detalhes cênicos ao resultado final devastador e ganhador do vazio de cerne ao final.

Nota final para Fireworks Wednesday:
🌟🌟🌟🌟

03/07/2025

A Garota da Fábrica de Fósforos (1990)

Um filme bem ao estilo do finlandês Aki Kaurismaki, cineasta de diversos lançamentos, do drama e das pitadas de comédia. Neste filme de 1990, a personagem principal é Iris, uma adulta que vive com os pais, trabalha exaustivamente na maçante missão de comandar uma esteira de caixas de fósforo. Quando tenta se divertir, não é notada pelos homens; quando recebe seu salário, mira um bonito vestido colorido em uma vitrine, o compra, mas é reprimida por seus pais; o velho o chama de vagabunda e a mãe prontamente adverte que ela devolva à loja.

Apesar do aviso, a loira Iris vai a uma festa com o vestido e chama a atenção de um homem esquisito. O breve relacionamento deles é um tremendo fracasso, conforme ele revela, em encontro seguinte, que nada mais lhe dava pena e desinteresse do que o amor que ela sentia; Iris fica arrasada. Mas tudo poderia piorar na crueza deste filme de Kaurismaki, conhecido pela ironia, destinos trágicos e atrapalhados de seus personagens marginais. Iris descobre estar grávida. Apesar da represália sofrida pelo antes companheiro, ela escreve uma carta e lhe entrega em mãos. O homem é categórico na resposta: livre-se do filho.

Socialmente analisada, a condição de Iris é de uma trabalhadora sem perspectiva de crescimento na empresa, com dificuldade para fazer amigas, não recebia apoio sequer de casa, por onde não é explicitado, mas provavelmente era considerada uma solteirona sem solução. Ao se acidentar, parar no hospital e tomarem conhecimento do azar de ter engravidado no único encontro em que isso era possível, os pais de Iris desejam que ela deixe a casa e arrume outro lugar onde morar. Ela até conta com ajuda e começa a bolar seus planos de vingança contra os que a humilharam em sua trajetória.

É um filme cru, na crueza e na crueldade, um filme frio como o clima portuário e provavelmente ventoso da Helsinki, capital finlandesa, confins de parte do mundo coberto de gelo. A atriz Kati Outinen, que realizou outros trabalhos com o diretor Kaurismaki, dá vida a uma personagem quase inanimada, uma espécie de Macabeia, da Hora da Estrela de Clarice Lispector, em plena terra antes pertencente aos russos (incluso as Lispector sendo de origem ucraniana, pois mirem a coincidência a que se chega).

Iris precisava de pouco para se contentar: uma refeição simples, um café, um ombro amigo, um homem que a notasse, a consideração e o respeito familiar. Ao perder cada sonho, degrau a degrau, a saída definitiva foi mirabolar planos de vingança aos desafetos. Em uma cruzada feroz por Helsinki, Iris não deixaria barato sequer para futuros homens interessados em sua pessoa: desejos de vingança completa. Mas, é claro, vindo do podador de sonhos Kaurismaki, nada de brilhante e excepcional, apenas a vida sendo coberta como um campo pela geada. As trilhas sonoras típicas contribuem para isso.

Nota final para Garota da Fábrica de Fósforos:

⭐⭐⭐⭐

02/07/2025

Interview (1970)

Filme da Índia, Interview é uma produção muito interessante. Traz imagens da época, de como era uma grande cidade indiana, no caso Calcutá. O personagem principal é um ator de verdade, o jovem adulto Ranjit Mallick. Ele vive com a mãe e com a irmã. O filme consiste na preparação de Mallick para a entrevista mais importante de sua vida, quando um tio lhe garantiu uma oportunidade de emprego. Tendo experiência com jornais, o jovem considera que a oportunidade estava no papo e que a entrevista seria apenas mera formalidade.

Em preto e branco, o filme lembra outros clássicos da época, produzidos, por exemplo, em França e Itália, os maiores vencedores de Oscar estrangeiros e de demais festivais na época. A direção e a assinatura de roteiro ficam a cargo de Mrinal Sen, diretor bengali que esteve vivo até recentemente, com sua morte ocorrida aos 95 anos.

Ao longo do dia, Ranjit Mallick passa por muitas peripécias, tendo em conta de que a missão que parecia simples, torna-se complexa. Desde atividades simples como fazer a barba e arrumar o cabelo até procurar seus amigos para conseguir terno e sapatos adequados, a principal tramoia do filme. A crítica social final é deveras válida, sobre como a sociedade capitalista, ainda mais no capitalismo tardio indiano, em meio a engatinhar pós superar a sugativa ocupação britânica, levava em conta a aparência acima das qualificações. A dificuldade para um jovem sair da vida extremamente simples de viver com a família em busca de um emprego em uma considerada importante multinacional - no começo do filme, o tio de Mallick afirma que os investimentos vinham da Escócia - também levantando a questão de até que ponto havia superação do domínio britânico.

O fluxo das vias, o trânsito desorganizado, os becos e pequenas ruas onde milhares de pessoas vivem, os bondes e os barbeiros abarrotados do vai e vem diário. A busca pela aparência correta, por um bom nó de gravata, por um terno sob medida - visto que o do pai de Mallick não lhe servia, o pai tinha muita pança e sobravam as calças.

Mallick se envolve na denúncia de um pequeno assaltante em um bonde e acompanha as testemunhas até a delegacia. Nisso precisa registrar rapidamente a queixa e ter tempo de realizar a entrevista na pontualidade das três da tarde. O terno torna-se o grande problema, pois o aspirante ao emprego esqueceu-o no vagão. Como recuperar o tecido perdido? Telefonar para quem? Quem poderá lhe socorrer?

Em instantes no filme, nas técnicas também ensaiadas no cinema europeu, Mallick rompe a parede, como é dita a expressão, e conversa com o público. São momentos interessantes de críticas sociais e questões suscitadas para audiência, convocada a participar. É o primeiro de uma série de alguns filmes recuperados de Mrinal Sen para assistir nos próximos dias. Sem promessas, novas críticas podem ser apresentadas na desbravação do cinema do agora país mais populoso do mundo, ao recentemente superar a China. 

Nota final para o filme Entrevista, dos bengalis:

⭐⭐⭐⭐⭐



12/06/2025

Primeiros filmes de Kiarostami + Clerks (1994)

Acompanhando uma coletânea com todos os filmes do diretor iraniano 🇮🇷 Abbas Kiarostami, as conclusões referentes aqui se devem até o 7⁰ filme do especialista. Ele iniciou a carreira com curtametragens de baixíssimo orçamento passou a desenvolver mais técnica, estilo e maior tempo de duração aos seus projetos. Em destaque, o 7⁰, primeiro com duração superior a uma hora, é O Relatório (1977).

Abbas tem características onipresentes em sua obra, na preferência de trabalhar e contar histórias a partir de personagens crianças ou, mesmo quando adultos, inocentes. Assim foram seus primeiros curtas, de um garoto perdido em um bairro desconhecido e de um garoto que isolou a bola de futebol dos amigos e fugiu para não sofrer as represálias, se escondendo e depois peregrinando pela beira de uma estrada. Em outras obras, destaque para O Terno do Casamento, o mais hilários dos vistos até aqui. Esse considerado média metragem de quase uma hora envolve garotos em seus serviços de aprendizes, mas, como nem sempre frequentavam escolas, seria considerado trabalho infantil na sociedade de hoje em dia. No Irã urbano, tratando-se da capital Teerã, muitos garotos, ao invés de estudar, se dedicavam a ofícios de ajudante, garçons, caixas, officeboys, serventes, vendedores e, no caso, ajudante de alfaiate.

Em O Terno do Casamento, um garoto com sua mãe encomendam um terno para ficar pronto na quinta-feira, quando haveria a consagração de um matrimônio na família. Outros dois garotos pedem ajuda ao ajudante do alfaiate para que este os alugue o terno antes que os clientes regressem e o levem em definitivo. Ou seja, queriam o terno na quarta-feira. A trama gira em torno dos pequenos inventando histórias e tentando sabotar um ao outro para que o ajudante do alfaiate os escolha para o empréstimo. São dois garotos disputando um terno, que, como visto, pertencia a nenhum deles. Várias peripécias até que se decida o vencedor, como farão para pegar o terno escondido, usar e devolverem até a hora limite da data limite. Suspense e emoção.

No curta chamado Experiência, um garoto, órfão, 14 anos, sem perspectiva na vida, trabalha num estúdio de fotografia, aceitando o abuso de autoridade por parte de seu chefe, que o deixava morar e dormir na loja, ao mesmo tempo em que nisso não havia conforto. A história cambia de rumo quando o garoto conhece uma adolescente de uma casa de classe média alta e deseja trabalhar na casa para ficar junto de sua obsessão. Verdades cruas pela frente nessa história de Abbas. Mais uma vez a crítica à sociedade e os sub-empregos, sub-condições sub-urbanas para jovens sem escolaridade e perspectivas. 

Finalmente no longametragem O Relatório, os empregos são criticados nos escritórios, na burocracia e na corrupção em que desenvolvem suas ocupações no serviço, seja privado ou público. O assunto do suborno, se deveria ser aceito ou não, percorre a trama. Um funcionário folgado e que também tomava conta de um cassino nas ausências de seu colega começa a ver o seu mundo desabar quando escorrega no emprego, é acusado, coagido e vê seu casamento ir por água abaixo em uma escalada de enlouquecer. Aluguel do apartamento atrasado, má relação com a esposa e mais os gritos da filha pequena tornam insustentável a situação na crise daquela meia idade. Recorrer a contatos obscuros ou à bebida em um boteco não parece suficiente para salvar o protagonista da catástrofe anunciada, ladeira abaixo no departamento do qual fazia parte e no casamento. Até é cômica a passagem em que leem sua situação de que não estaria todavia demitido, mas apenas "afastado por um tempo". Nuances e figuras de linguagem pata suavizar o caos no serviço burocrático.

Finalmente no drama/comédia norte-americano chamado Clerks (1994), dois jovens de 22 anos, Dante e Randal trabalham em lojas pequenas. Dante em uma lojinha de conveniências, frequentada por viciados em cigarro, pervertidos e clientes com perguntas idiotas, enquanto Randal é um atendente folgado em uma pequena locadora de vídeos, profissão inclusive praticamente abolida da humanidade à esta altura do século 21. Mas em 1994 ainda era comum e estava em alta.

Dante detesta sua rotina. Sonhou com o descanso no sábado da sua escala 6x1 (olha, temas atuais) para jogar uma partida de hóquei com os amigos, mas seu chefe o convocou para abrir e cuidar da loja durante a manhã. Período que se estende para tarde, impossibilitando o jogo e seu possível tempo com a namorada Veronica (alô, 12 de junho).  Até é interessante a escolha de nome do personagem. Dante estaria frequentando uma das etapas do inferno? Inclusive esse livro aparece em outro filme visto recente, um português chamado À Flor do Mar, de João Cesar Monteiro, mas esta é outra história.

Dante está insandecido pelo dia desgraçado que está levando e Randal, embora um grande amigo para ele, não consegue melhorar as notícias e atuações, mas muito pelo contrário. Randal, que trata mal seus clientes, fala pornografias, chega a cuspir em um senhor e, no que complicará Dante adiante no filme, vende cigarros para uma garotinha, este personagem honorário de tantas besteiras desempenhadas é o retrato de um jovem sem ambições na vida, que aceitou a cercania das desgraças e apenas tenta tirar proveito das situações como pode, ironizando os demais, tirando sarro e procurando trabalhar o mínimo possível nas funções às quais foi delegado. Dante, por outro lado, nota-se ainda ambicionar-se, seja no que aspira em sua relação com Veronica ou como trata de um ex-caso seu na escola, com uma moça que ele descobre, por meio de Randal e um anúncio de jornal, que estaria noiva de um asiático que trabalha no ascendente ramo de design. Portanto, Dante ainda possui ambições em relacionamento ou deixar o seu subemprego no subúrbio da cidade não nomeada, mas que, em descoberta de uma passagem policial, seria pertencente ao estado de Nova Jersey. 

O final do filme une as peripécias e críticas propostas por Kiarostami no, por vezes aliado, por vezes inimigo dos Estados Unidos, o Irã. A crítica ao tratamento e oportunidades destinadas aos jovens, sobretudo os de cidades menores e monótonas ou de cidades grandes, mas que não acompanham o universo dos estudos. E, mesmo os que estudam, como poderiam acompanhar o ritmo dos melhores empregos em sociedades tomadas pelo nepotismo, as corrupções e burocratas? E o desfecho dessa droga toda? Randal, que apesar de sarcástico, transbordava muitas verdades na cara de Dante, como reza a lenda assim um amigo deve ser, sem passar a mão no cabelo diante das desgraças que se avizinham, este personagem interpreta as falas colocadas abaixo da crítica/resenha, com reflexões que podem ser feitas por quem viu os filmes ou apenas leu estas pretendidas linhas que esperam ser lidas por ínfimo público no mundo, a exemplo de locadoras péssimas ou lojinhas de conveniências, ou departamentos escondidos em repartições públicas, ou cúbicos onde trabalham alfaiates, estúdios fotográficos e seus ajudantes menosprezados. Estamos todos juntos nessa droga, Randal. 

Primeiras obras de Abbas Kiarostami variam entre
⭐⭐⭐⭐ e ⭐⭐⭐⭐½

Clerks (1994)
Direção se Kevin Smith
⭐⭐⭐⭐






14/04/2025

Two on the Edge (2021)

O filme japonês 🇯🇵, dirigido por Yusuke Kitaguchi, conta a história de duas garotas (ou serão três?) com dificuldades semelhantes e diferentes. Ainda muito criança, Otose Nishizono vivia com sua mãe e um padrasto violento, que, sem explicitar no filme, pode ter abusado da jovem. Ao menos tinha nenhum pudor, como visto, de usar o banheiro na frente da criança, o que já configura esse excesso.

Em uma noite, sem aguentar mais os maus tratos e o estado constantemente embriagado da mãe, Otose foge. Em uma casa que, segundo sinopse, fazia as vezes de um orfanato, ela permanece o restante da infância e alcança uma maioridade de 18 anos. Assim, deixa o cuidador Yoshi e as demais crianças e sai para procurar emprego, conseguindo a referência em um hotel chique. 

Paralelamente, uma cantora de um grupo tentando estourar em sucesso após pequenas exibições em casas noturnas (ou diurnas com iluminação artificial? São matreiros os japoneses). Ela faz o teste e descobre que está grávida. A jovem está grávida do produtor delas, uma espécie de agente, empresário. E abusador de suas tentativas de fonte de renda, portanto. Deixando claro que apesar do conflito-chave ser entre Otose e sua negligente mãe, existe a denúncia (em mais de um caso) sobre o comportamento abusivo dos homens.

A cantora tem o apoio, mesmo também existindo conflito, da sua mãe. Elas atendem em um pequeno restaurante, por onde Otose passa pela rua a caminho de seu novo apartamento, sente o cheiro de comida, namora a vitrine, mas nunca entrava. Isso muda quando a mãe de Otose descobre o paradeiro da filha. Yoshi, do orfanato improvisado, falha e, sem autorização do que gostaria Otose, fornece o novo local de trabalho de sua até então protegida. Sem mudar de seu passado nebuloso, a mãe de Otose a procura com a desculpa de estar feliz em vê-la, querer recomeçarem e passarem um tempo juntas. Mas tão logo vão a um café e confessa precisar de milhares de yenes (a moeda japonesa).

Otose desconfia, tem uma consciência que lhe sopra perguntas e soluções, quando congela estática. O conflito do drama japonês é bastante forte, ácido. Por vezes a jovem fica nas entranhas da pergunta entre matar ou morrer. O suicídio lhe aparece como saída possível. O emprego no hotel, por conta das reaparições da mãe bêbada, se torna insustentável. Cobrada pela gerência, só lhe resta sair pela porta dos fundos do prédio.

Ela acredita que não tem como ter uma vida digna enquanto viver sua mãe. Otose fica desestimulada e sem respostas e sem emprego. A dura vida acompanha a jovem cantora, que, após uma última apresentação, decide parar e se dedicar só ao restaurante, pensando na criação do bebê. Ela não avisa o produtor, que seguiria simplesmente sua vida em busca de outros talentos. Em uma passagem, a mãe da cantora alerta: "ser mãe não é como ser cantora. Não pode desistir". A jovem de pronto responde que sabe. Nessas horas fica a pergunta se a própria dona do restaurante, que criou a menina sozinha, não teria desistido. Isso se ela tivesse a opção.

São vidas diferente entre as meninas em conflito. Uma teve a mãe que a negligenciava e precisou fugir de casa. A outra, bem ou mal, teve o suporte caseiro. Uma nem mais sonhos parecia apresentar, queria apenas uma vida digna. A outra aspirava à fama, mas acabou tendo de contar com o básico da maternidade que se aproximava.

O filme traz a crítica quanto aos homens, mas também às possíveis negligências praticadas pelas mulheres - e suas enormes consequências. As dificuldades de mudar de vida na sociedade japonesa também estão em alguma camada presente no filme. A cena final de Otose desfrutando de certa liberdade com sua nova bicicleta demonstra esperança. Contrasta com a crítica a sociedades, como nos países do Oriente Médio em que as mulheres não podem usufruir de carteira de habilitação e, muitas vezes, sequer sair de casa de bicicleta. Lembra o filme "Wadja", sobre a menina árabe que sonhava ter uma bike.

Quanto ao questionamento sobre o nome do filme na presente resenha, seriam duas meninas (Otose e a cantora) ou três, contando a confusa e arrependida mãe de Otose como terceira vivendo ao limiar de caminhos difusos? Vidas que se atravessam nos desafios entre a superação e a continuidade.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐


05/02/2025

Mamma Roma (1962)

Filme de Paolo Pasolini 🇮🇹, Mamma Roma conta a história de uma mulher que trabalhou na prostituição no interior da Itália, juntou algum dinheiro para cuidar de seu filho, se transferindo à Roma, onde, ao que parece, também já havia feito carreira, e conseguiu comprar uma casa e administrar uma banca em feira local. Virou feirante e ainda completava renda com faxinas. Foi mãe e pai para o pequeno Ettore.

Crescido, jovem aos 17 para 18 anos, Ettore chega à Roma e começa a andar com outros jovens sem estudo e perspectiva. Vale a sempre válida lembrança dos tempos de Europa pós-guerra, onde nem tudo, ou na verdade quase nada eram flores. Ettore vagueia com os demais em uma formação entre o entretenimento e a formação delinquente. Conhece a amiga dos guris, chamada Bruna e logo se afeiçoam. Mas os demais não vão deixar barato para o caipira, como era reconhecido.

Ao mesmo tempo, a preocupada Mamma Roma tem de lidar com um velho caso da sua vila no interior. O rapaz, na época bem mais moço do que ela, a persegue em Roma, para cobrar como uma dívida, mas que se demonstra algo moral posteriormente, como se a então prostituta tivesse imoralizado o cidadão de bem. Ao mesmo tempo, Ettore desconhece o passado mais conturbado de sua mãe, acreditando que sua renda sempre era proveniente da feira, da faxina ou de outros serviços considerados honestos pela sociedade fofoqueira.

Ettore se apaixona por Bruna e a notícia chega aos ouvidos de Mamma Roma. Preocupada com a repetição caótica do que ocorreu em sua vida, ela arma um plano com uma amiga mais nova, para que ela seduzia o jovem Ettore, o que estava no papo para sedutora amiga. Sem saber, o cômico é que uma briga entre os guris já havia determinado um distanciamento, uma separação de Bruna com Ettore. Desconhecedora do desentrelace entre os jovens, Mamma Roma insiste em seu plano e crê que nele obteve êxito com a colega da noite. Ettore assim estaria curado da paixão pela andarilha Bruna, que, por acaso, também tinha um filho pequeno, em coincidências com a vida da então jovem Mamma Roma.

A construção do filme se dá entre a personagem Mamma Roma que tenta deixar para trás a vida errante e da construção do jovem Ettore, em que não teve formação escolar, tem dificuldade de opções de emprego e acaba caindo na vida de pequenos furtos e delitos. O desespero de uma mãe que só queria o bem para seu filho, mas não tinha muitos métodos nem ideias de como atingir seus objetivos.

Temáticas comuns para época do cinema italiano, em mais uma grande obra clássica. A rebeldia da juventude, os valores sociais contestados, o preconceito que atravessa de passado a presentes, o desespero de famílias capengas e desunidas, a falta de perspectiva das periferias. Tudo isso pode ser observado na hora e quarenta e dois minutos do filme Mamma Roma. 

Nota final em 4,5 / 5.



28/01/2025

Semana para Sempre

Assisti a mais um filme com tons biográficos. Ratcatcher (1999) ou O Lixo e o Sonho, que se passa em Glasgow, na Escócia, demonstrando a vida de um garoto chamado James, descobrindo coisas da adolescência, enquanto a greve do recolhimento acumula sacos de resíduos, ratos e mais problemas do que aquela comunidade pobre e operária já necessariamente passaria por.

Passei essa semana com minha vó, a única semana em nossas vidas sob essa condição de só nós dois. Me sinto tão culpado de várias formas. Ela sempre morava com minha tia e finalmente a liberei para passar férias no litoral de Santa Catarina, enquanto fiquei a cuidar de vovó. Lembrar que em 2022 elas tiveram a condição de morar com o restante de minha família em Santa Catarina, mas decidiram voltar ao estado mais ao Sul do país.

Essa semana com minha vó fez eu me sentir culpado de, embora ajudá-la, não poder fazer tudo por ela. Tudo mesmo. Embora eu saiba que ela se sinta mais útil, mais viva podendo exercer coisas que sempre fez pelas casas onde morou. E também penso que esses dias em que pode se contentar apenas com a vista dos prédios em volta pelo centro e pela televisão, em que ela prefere o entretenimento do SBT, ignorando a assinatura dos canais por assinatura, que não são baratos e chegaram a ser contestados por nosotros (eu e ela).

Me sinto culpado porque, principalmente, o distanciamento sentimental com minha avó se deve, além de minhas condições mentais, à falta de uma experiência anterior que nos unisse em tamanha proximidade. Essa semana possibilitou isso. Jogamos cartas nesse último dia a sós. Ela se divertiu com minha companhia, com a cerveja e com as verdades que compartilhamos, eu me diverti, além disso, por ter ganhado o jogo com certa tranquilidade, em um placar elástico de 15 a 4 no pife. 

Além de adiar essa experiência entre avó e neto, ela agora em seu 92⁰ ano sobre a Terra, me sinto especialmente culpado por esse distanciamento ter me feito pensar, por vezes, que talvez não fizesse a mim uma grande diferença a sua partida. E hoje encontro minha avó muito mais próxima, mais humana do que nunca. Às vezes naturalmente provocativa e sonsa, como características do signo de leão, mas com uma vontade imensurável de acertar, de agradar, de me acompanhar disposta. Algo sem palavras para expressar o bom relato de seu companheirismo, nessa semana em que quase perdi por vezes o bom cabo da paciência, mas sempre consegui mantê-lo, como com outras pessoas talvez não conseguisse, e assim o convívio foi satisfatório e na agradabilidade do companheirismo.

Me sinto culpado pelas vezes em que pensei minha vó como o número de sua idade, agora recordista em nossa família ao cruzar seu 92⁰ ano. Mas ela, muito além de um número, é uma bela história de vida. Filha mais nova do imigrante alemão alcoólatra. Filha talvez preferida entre as filhas por ser a mais jovem, mas não mais do que o moço da geração delas que teve direito a investimentos para estudos e intercambiar fora. Minha vó tem quase nenhuma formação escolar e, mais do que isso, trabalhou de servente em escola por muitos anos. Característica do emprego essa ela levou para vida, sempre muito prestativa e disposta a ajudar os outros, sem luxo e apaixonada pelos pequenos gostos, refeições e momentos familiares, como sei que gostou dos que passei com ela.

Fazer algum paralelo com o filme que assisti. A agonia toma conta dos espectadores ao verem o lixo que se acumula em Ratcatcher, as crianças brincando em riacho poluído, com ratos e todo tipo de exposição a doenças. Minha avó jamais deixaria chegar a esse ponto. Acho que se fosse escocesa dessa época, sairia de casa ela mesma para colher o que conseguisse de lixo, em nome da vizinhança. Uma senhora inacreditavelmente disposta, que sobreviveu a tombos físicos, de cair na calçada ou em casa, a tombos que a vida pudesse lhe pregar em peças desagradáveis. E chegou para me orgulhar, para me atender, para eu me sentir quisto e amado, em pleno seu 92⁰ ano. Se cheguei a duvidar o impacto que teria sua futura partida, à qual nos programos de uma forma ou de outra, agora me é indubitável o poder que as recordações me trarão e tratarão dessa nobre senhora, de seu riso inconfundível, sorriso fácil e surpreendentemente fotogênico, acima até da beleza, cabelos vastos, feições grandes e simpatia simples. Pudera eu ser mais de ti do que o sangue que também sou.

11/01/2025

No Decurso do Tempo (1976)

Direção de Wim Wenders em um filme que propõe vários assuntos, como se espera que decorram as três horas de sua duração. Um assunto só provavelmente seria esgotável em bem menos tempo. A solidão dos personagens é dividida quando um marido agora divorciado pega seu Fusca e o joga contra a água, numa frustrada tentativa suicida. O motorista Bruno, que dirige um caminhão-cinema pelas estradas alemãs, na itinerância de levar filmes e consertos a lugares mais ou menos inóspitos, observou (risonhamente) a cena do incidente dantesco e se propôs a ajudar o pobre "kamikaze", como veio a chamá-lo.

De uma parceria inesperada, o pesquisador, que se separou da mulher em Gênova, Itália, e o motorista, que morava no próprio caminhão, pegam a estrada a refletir sobre suas vidas. O título em inglês ficou como Kings of the Road, em uma tentativa, creio, de tornar a nomeação mais vendável e épica - justamente uma das principais críticas apresentadas no próprio filme, vejam só (imagens do diálogo final aqui trazidas).

Enquanto levava e consertava cinema e salas de cinema pela(s) Alemanha(s) setentista(s), Bruno analisava com os demais trabalhadores da indústria cinematográfica sobre as mudanças, o amadorismo, a falta de estrutura e o caráter do público, muitas vezes, como era comum à época, limitados a filmes pornográficos exibidos em sessões adultas. Salas de cinema caindo aos pedaços e que iam perdendo espaço para televisão - crítica comum em outros filmes, como o brasileiro Cinema Aspirinas e Urubus ou o Cine Holliúdy.

Enquanto rodavam pelas estradas alemãs, a inusitada dupla preparou algumas peças, entreteve crianças, descolou uma motocicleta como as utilizadas em tempos de guerra, e, principalmente para filosofia do filme, conheceu um outro solitário, despreparado para esse novo momento - um marido que recém havia perdido sua esposa, que consumou o suicídio com o choque do carro em alta velocidade contra uma árvore. Os três solitários chegam a dividir algumas cenas, cada qual com seus entendimentos, ruminações e perspectivas.

Bruno parecia o mais calejado, acostumado com seu estilo de vida, mas também revela em cenas suas ambiguidades e ambições. Sempre se sentia saudoso pelas mulheres, então justamente não queria pertencer a uma única. E ao mesmo tempo queria. E assim prosseguia sua vida de estrada. Robert, o suicida frustrado, aproveitou da viagem também para resolver questões passadas com seu pai, em uma nova oportunidade de colocar assuntos pendentes em dia.

As reflexões de No Decurso do Tempo são as mais diversas sobre as escolhas, em que o casamento frustrado quase causa a morte de Robert, causou outra morte por onde eles passaram e deixava sem rumo mais um marido, enquanto Bruno estava livre e preso no existencialismo de suas decisões, nowhere man. Em uma cena interessante, o motorista dos cines, após ter voltado à pequena cidade onde crescera, afirma que pela primeira vez sentia-se pertencente, com um passado, com uma história, algo para agarrar-se, onde situar-se. 

Robert, por sua vez, em certo diálogo com Bruno, quando este lhe perguntou quem ele era, que isso interessava, só soube responder que ele era o que são suas histórias. E assim cada um seguia percorrendo seu caminho, construindo a história como as letras que um aluno analisado por Robert, espécie de "pediatra" (como se referiu) com pesquisas de aquisição de linguagem e escrita para crianças, como as letras construíam sua própria história conforme as linhas. No alemão é comum as vogais i - e andarem juntas. Bruno brincou que ele seria o "e" entre eles. As letras compunham histórias com personalidades distintas. O "L", segundo a criança, seria deitado e preguiçoso.

Em um universo muito mais amplo do que as 23, 26 ou sei lá quantas letras em um alfabeto, a humanidade compõe suas posições talvez como se cada pessoa fosse uma letra, não se repetindo, não se restringindo como se todos os "a" ou todos os "f" fossem iguais, mas cada pessoa uma letra em um infinito texto, de infinitas possibilidades. Mas essa analogia, embora ampla, não satisfaz, porque não estamos fixados em posições restritas. Não somos as pedras solitárias, como o "p" de pedra, desta pedra específica, ou mesmo o duvidoso "o" que forma a palavra alternativa "ou". Os seres humanos têm a possibilidade de se deslocarem no tempo-espaço, construindo suas curiosas histórias. Assuntos do filme No Decurso do Tempo.

E o cinema, como um todo, o que conta? O que mostra? O que nos entretém ou traz para reflexão? Wim Wenders fazia suas escolhas marginais.

Nota final em 4,5 / 5



08/01/2025

Reflexão após Um Dia na Rampa (1960)

Me interessa o ser humano apaixonado e verdadeiro, desnudo dos disfarces do cotidiano, em que deve fingir para proteger seu emprego, fingir para discursar vantagem, fingir para aparentar normalidade, fingir para não chamar atenção das autoridades que o podam, fingir para caminhar pela multidão, fingir para ser bem avaliado no aplicativo, fingir para vender produto, fingir que gostaria se vestir assim, fingir que assim está bom.

Me interessa o ser humano despudorado com suas verdades, com seus gostos, mesmo ridículos e considerados ruins, manifestos, me interessa suas falhas e passo a entender melhor as minhas. Me sinto menos alien, menos alienado e menos sozinho. Me interessa que suas buscas não cessem e que na outra esquina o lampião ou os mais modernos postes a led se acendam. Ou não se acendam, mas que possam se acender.

Não me interessa o fingimento dos negócios, a capa que somos obrigados a vestir quantas horas por dia, quantos dias no mês, quantos todos meses de um ano, quantos anos na vida? Não me interessa o fingimento que é ordem, que é lei, por sobre as leis de nossa natureza, capa invisível, mas que visualizo tão fácil em ti, sorriso difícil, olhos tristes e desesperançados, não me interessa o que te causa isso, me interessa tirar-te disso. Me interessa o ser humano ainda esperançoso, que chegue ao fim do dia agradecido e ao mesmo tempo esperando que na outra esquina o lampião ou o poste a led se acenda, que a colheita valha o vigor de seu esforço, que a mesa farta não seja só a obrigatoriedade da refeição. Me importa que seu sono seja sonho e que seu sonho possa ou não ser realizado, mas que a possibilidade esteja a teu alcance, que possas acreditar tatear a parede no escuro esperando encontrar o interruptor que o salve da escuridão. Ou talvez encontre a mão amiga que necessites. 

Me interessa que teu céu tenha estrelas, ou quando não tenha, que saibas esperar as nuvens dissiparem, a chuva parar e que até dela tenhas colhido água. Me interessa que te hidrates e bebas e nutra teus sonhos, não demais também, que não percas contato com tão vasto solo, que nos é tanto, os japoneses creio que sabem.

Me interessa do ser humano que seja humano e não engrenagem do capitalismo ou outros achismos que comandam a vida dos outros. Me interessa que assumas um pouco o timão de teu próprio navio e ao final vejas, e talvez até compartilhes, algo que ninguém mais viu. Não o que todo mundo tenha visto - pois nem queriam ver.

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Acredito que quando respeitados os desejos e o direito de sonhar do ser humano, incluso este mesmo indivíduo se sinta assim mais humano, possa ser mais bondoso e não tão automático, não tão somente concorrente contra seus semelhantes, não somente um instrumento de usufruto dos mais poderosos. Acredito que respeitado o direito ao sonho, este possa olhar com mais carinho para seus semelhantes, possa desejar que eles também sonhem e, alcançando, desejar que os demais alcancem, em uma aliança até utópica - corrente do bem.


Direção do curta: Luiz Paulino dos Santos

07/01/2025

Estado Itinerante (2016)

Análise de curtas brasileiros. Estado Itinerante é um curta brasileiro, dirigido por Ana Carolina Soares, que conta uma história de Minas Gerais. O espectador acompanha a trajetória de Vivi, uma jovem trabalhadora, que mora na periferia, provavelmente de Belo Horizonte ou de outra grande cidade da conurbação mineira. 

Vivi trabalha como cobradora de ônibus e o itinerante no filme está na vida em transição da passageira. No serviço, em que recém havia começado na empresa, a chance de recomeçar, mas também passando por muitos perrengues entre queixas, fofocas, estranhamento com motorista, má conduta de passageiros e outras histórias. Apesar disso, a amizade feminina com outras trabalhadoras pode ser o caminho para superação de seus próprios dramas.

A organização do filme surpreende com cenas de reviravolta, a violência que cerca a periferia, que persegue a figura da mulher, a tentativa de imposição masculina, seja pela figura de motoristas (que não aparecem, ouvimos só as suas vozes impositivas), seja pela família de Vivi, a qual também não vemos. O relacionamento abusivo é evidente, sabe-se dele pelo depoimento da própria protagonista ao confirmar que seu anel é de casamento, e a violência doméstica deixa marcas na pele e no psicológico. 

A jovem tenta se virar e ainda, através da bebida de fim de expediente, rotina comum dos assalariados brasileiros, vislumbrar alguma saída, no broto das ideias, na música, no fundo do copo, no cigarro a intervalos ou em alguém. Vivi surpreende nesses apenas 25 minutos de curta-metragem, que de fato contam muito sobre nosso Estado e a itinerância dele. A rotatividade, a busca sempre transicional pela sobrevivência, entre as fugas e as feridas, a procura por se encontrar.

Nunca é demais lembrar que são várias as Vivis (e, vá lá, os também, trabalhadores brasileiros) que necessitam de um ombro extra, a terceirização de um ombro ao fim do turno, esse direito trabalhista tantas vezes surrupiado, gente que necessita de compreensão por parte dos clientes e usuários, do comércio aos sistemas. Sairmos do automático para enxergar histórias que estão diante de nós, refletidas nas comunitárias janelas de ônibus.

Data de lançamento: 3 de setembro de 2016

Diretora: Ana Carolina Soares

Duração: 25 minutos

Produção: Denise Flores

Roteiro: Ana Carolina Soares

Elenco: Lira Ribas, Cristal Lopez, Maria Aparecida, Diane Rodrigues, Daniela Souza