Filme francês do diretor Erick Zonca, Le Petit Voleur (1999), ou o Ladrãozinho, conta a história do adolescente Esse. O garoto se tornando um jovem adulto primeiro é expulso após uma série de mancadas da padaria onde trabalhava. Ele promete vingança e ganhar a vida custe o que custe, a outros modos. Em momento nenhum do curto filme (1h06) aparece a família do jovem da cidade de Orleans. Após confessar seus planos a uma namorada, Esse, então sem mais dinheiro com a expulsão da padaria, dorme na casa dela, rouba o salário da moça e foge para Marselha, uma cidade grande e portuária, com saída para o mediterrâneo, cosmopolita o suficiente para esconder-se em uma vida criminosa com uma gangue que pratica diversos negócios ilícitos.
O filme ganha contornos que cada vez mais fogem ao controle de Esse, trazendo surpresa ao jovem e ao espectador. A uma hora de filme torna-se alucinante, pois os episódios de violência são escalantes, contrastando com uma função de caixa baixa que Esse exerce ao ter de cuidar e fazer faxinas para uma idosa. As nuances do filme apresentam sutilezas gratificantes de acompanhar e descobrir. Sem diálogos, é por meio de sucessões de imagens que descobrem-se verdades e apontam-se hipocrisias dos mais diversos tipos. São desigualdades salariais e de tratamento, são leis e hierarquias criadas pelas próprias gangues e pelas ruas. São subordinações que Esse passa muito piores do que o emprego inicial que ele amaldiçoou e prometeu se vingar. O padeiro está ganhando espaço na gangue, mas será sempre assim?
O filme encontra o realismo e explode em adrenalina em diversas passagens. São cenas chocantes de violência urbana, roubos, furtos, linguagem imprópria, prostituição, até descambar em cenas finais cada vez mais alucinantes. A recomendação não é para menores de idade assistirem e mesmo algumas pessoas mais experimentadas podem se ver conflitadas por imagens fortes.
A ideia do filme é o velho jogo de ascensão e queda no mundo do crime, em uma indústria que fabrica funções e, tão rápido recruta novas pessoas sem emprego ou sem estudo, logo se livra delas. Mesmos os apontados reis não possuem lugar cativo no esquema, pois as coisas mudam muito rápido. No jogo de extrema violência com que são resolvidas as questões de acertos de contas a eliminações, as mulheres estão reduzidas a prostitutas ou meras acompanhantes, ou, no caso da idosa, ela apenas sobrevive em condições abaixo de uma classe média com dignidade.
Sabe-se que a escalada criminosa na França e em outros países da Europa conta com a convocação de jovens sub-urbanos e imigrantes desamparados por leis nacionais e observações de senso comum racista. Apesar da dura realidade para muitos jovens de origens diversas de africanos a asiáticos muçulmanos, passando pela comunidade judaica, o filme retrata a vida de um jovem do interior da França, Orleans, desamparado pela falta de estrutura familiar e do que chamam rede de apoio. A transformação do perfil de Esse são os últimos pregos no caixão de sua juventude, o conflito entre o jovem que tenta performar como gângster criminoso, mas também enxerga-se na condição tímida do abandono, do interiorano perdido na metrópole cerceada por crimes. As ruas de Marselha tornam-se palco de desventuras das mais cruéis e cruas que o cinema possa oferecer a corajosos espectadores, que saciam-se pela transparência de uma sociedade suja e corrompida.
Nota final para Le Petit Voleur em
⭐⭐⭐⭐
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