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07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

26/04/2024

Domicílio Conjugal

O trabalho obrigatório poda a criação liberta. Tive que guardar umas poucas coisas antes de deitar para escrever essas linhas e quase perdi totalmente a vontade. São 3h35 da manhã nesse exato momento. Acabo de assistir ao filme Domicílio Conjugal, com Jean Pierre Leaud e Claude Jade. Direção de François Truffaut, um dos favoritos da casa.

Estou na residência dos meus pais. Fechei a janela do banheiro porque minha mãe achou corretamente que poderia encarnar vento e do banheiro a corrente de ar bater as portas do meu e do quarto deles. Cheguei a escutar algo assim hora atrás. Ela correta. Também procurei dar descarga silenciosamente agora, o que é impossível, mas na minha cabeça eu tento. 

Minhas meias e minha cueca apertam minha circulação e parecem danificar mais ainda meus nervos e músculos. O que será do meu futuro? Procurei e a bela dentucinha Claude Jade morreu em 2006. Isso é há muito tempo. Jean Leaud ainda não foi embora, mas tem 79 anos e irá. Eu sinto muito mesmo. Percebo ao beber água na cozinha, novamente tentando não evocar ruídos, que todos vamos morrer. Pensamento que veio de filme que vi ontem, o nacional Depois a Louca Sou Eu, inspirado em livro da paulistana Tati Bernardi, com atuação de Débora Falabella.

Claude Jade morreu e Jean Leaud vai morrer. Os diretores Jean Godard e Truffaut já morreram. Eu um dia irei. É duro perceber que não darei certo com mais alguém. Na verdade é libertador e solitário. Melancólico e abridor de várias possibilidades de acabar em nada. É confortável e desconfortante. Confortante e desconfortável. É enxergar menos passado do que se pretendia e muito pouco futuro. Até pouco tempo a vida correria para frente, para diante, um horizonte a se desenhar, talvez com um emprego agradável, viagens e novas pessoas a conhecer. Agora estou contagiado pelo vírus da mesmice. Penso em pouquíssimas viagens que eu realmente deseje. Vi no documentário Terras, um trecho de rádio latino-americana anunciar que a maior fonte de renda europeia é o turismo. Quero eu dar dinheiro a mais para essa contribuição em troca de migalhas de aprendizado e satisfação visual ou paladar? Quero eu manifestar minha devoção ao continente que mais expulsou meus antepassados judaicos? Quero eu conhecer os complexos vira-latas da família, em algum lugar entre Portugal, Alemanha e Polônia? Quero eu e eu por acaso mereço?

Não planejo mais grandes viagens, mas pode ser que as venham. Não planejo mais grandes empregos, só se me arremessarem algo do tipo no colo e, veja bem, inventarei poréns para trocar grandes oportunidades e melhores salários (ou não) por resquícios de tranquilidade, evitando correrias mesmo que assim aceite cabisbaixo outras.

E não me vejo mais morando com alguém, dividindo experiências profundas em sintonia. Não acredito no amor máximo, uno, indivisível, burguês e vencedor de uma disputa célebre majoritária. Acreditaria no máximo no respeito e na não condenação ao fastio e ao tédio que engodam, sugam e massacram a vida e o sentimento de estar vivo. Acreditaria em uma união positiva para ambos os lados, sem amarras impositivas contrárias à criação e experimentação, mesmo que essas fossem, em virtude do acordo respeitoso, limitadas ao experimento onírico da bebida e da troca amistosa de conhecimentos. Isso é evoluir. É viver. É positivar a existência ao caminho do aprendizado, dá arte e do aproveitamento proveitoso dos tempos. Acreditaria nessa utopia toda, mas nem nisso acredito. Acredito consumir minha existência através de amargas linhas, amargos dias, misturados a pitadas de bom sabor, cuja ponta da língua identifique e se satisfaça em breves intervalos, antes que o soberano fastio se dissemine novamente.

Acredito tão pouco nas utopias do amor e vou tentando, colhendo flores caídas e espinhos revoltos, tentando me reerguer em novas possibilidades muito desafiantes e escassamente prometedoras. Já nada se promete porque não me engano. Ou justamente me engano porque acredito que mais nada se prometa. Talvez caminhos que eu acredito estarem fechados não sejam necessariamente o fim. Talvez.



22/02/2022

Casa em frente ao mar

Uma casa sendo construída em frente ao mar. Ela não está pronta, está sendo erguida. Será um sobrado, o que bloqueia mais a minha vista para o mar naquela direção. Estamos na quadra de trás. Nosso prédio não tem obstáculo imediatamente à frente. À frente está um terreno baldio bastante largo, onde três éguas pastam com uma deliciosa missão de evitar um crescimento desordenado de mato e arbustos. Elas têm se saído bem. Se imediatamente à frente não temos obstáculo que obstrua a visão marítima, para os lados temos a vista de casas erguidas. Erguidas de frente para o mar.

Este sobrado está com o formato pronto. Faltam os acabamentos, como é de se esperar. Do contrário seria só um esqueleto acinzentado. Varios homens estão responsáveis pela obra. O responsável maior, digamos, é um engenheiro de meu sobrenome. Estranha coincidência por estas bandas. Para alguns operários, talvez a maior oportunidade para estar próximo do mar, nesse contato que tantas energias nos despertam. Podem ter vindo de longe, do interior. Podem estar ocupados o suficiente em outras chances, não tendo um fim de semana digno para contemplação, visitação e acolhimento junto às salgadas águas. Uma visão um pouco dramática de minha parte. Porém, não deixo de pensar nesses homens que ouvem, veem, mas estão impedidos de sentir o mar, ali defronte. Trabalham sol a sol, mormaço a mormaço, bronzeiam suas peles, mas não sobre a areia. Remexem o cimento e pavimentam a escada de ligação deste sobrado. Calçadas e concretos.

Do alto de nossa sacada, nem tão alta, segundo andar, os observo sem a definitiva atenção que os pudesse identificá-los ao longe ou ao perto, sem ser o único atrativo, porque realmente mais tempo eu passo olhando diretamente o mar. Mas eles não podem sequer parar muito a obra para apreciar a vista. Precisam cuidar dos materiais, do cimento no ponto certo, da colocação austera. Fico entristecido pelo tão perto tão longe de suas rotinas. Por legislação, parece que nada os impede de terminarem o turno e pularem direto na água, em um fim de tarde/ início de noite. Mas não os vejo nem consigo imaginá-los muito nesse desfecho. Devem direto às casas, direto aos banhos. De chuveiro.

É como se a praia, de construção tão rica, em frente ao mar, fosse restrita aos mais endinheirados. Não sei se é esse o código de conduta. Provavelmente não é. Provavelmente só eu demore tanto tempo a devorar essas questões, que na verdade elas me devoram. Meu pai encerraria esse monólogo todo de uma forma bastante simples.

"Melhor estarem ali trabalhando de frente para o mar do que não estarem trabalhando" - falaria com a experiência de quem já trabalhou e de quem já ficou sem emprego. Com essa frase dele, sem mais delongas, aqui encerro.

31/01/2022

Mosca na Lâmpada

Uma mosca se debate contra minha lâmpada 

Nessa lâmpada habitavam antes cupins

Talvez seja essa uma prova cabal

De que as coisas são mesmo assim


Moscas muitas vezes bateram contra minha janela

Independente da casa eu tinha de abrir para elas 

Ou continuariam a se debater o dia todo

E conhecendo as moscas, a vida toda delas


Mosquitos muitas vezes me provocaram 

Queriam meu sangue, me deixavam aflito

Mais do que o hábito hematófogo

Me agoniavam mesmo eram seus zumbidos


Baratas muitas vezes ganharam a batalha 

Se eu pudesse, não entrava, eram minha falha

Se fossem voadoras, tanto pior o horror da hora

Que somente uma chinelada amenizava 

Pancada com a sola


Enquanto escrevo isto a mosca se debate

Gostaria de deportá-la - talvez à Marte

Mas nem precisa tão longe, para qualquer parte

Deixá-la livre e com vida

Antes das derrotas cruciais o amistoso empate


Ó mosca que não habita sopa

Faz da lâmpada e seu entorno o baluarte

30/07/2021

A última caminhada

Tentei caprichar na última caminhada pelo meu antigo trajeto. Espero na vida ainda fazer muitas caminhadas, mas nunca mais será pelo mesmo trajeto pois vendemos a casa, o ponto de origem das saídas. Era um sábado de sol, até rareado em nosso nublado município, e procurei o centro da cidade, como de costume. Havia pouca presença de pessoas nas ruas, muitas cortinas de ferro baixadas até o nível da calçada. Os cães ainda não haviam levado seus donos para passear, como de hábito fazem aos fins de tarde. Avancei muitas quadras, na linha reta que nossa geografia permite.

Um ponto que me chamou atenção foi em frente ao albergue municipal. Um desolado estava sentado ao meio fio, meio cabisbaixo, para caracterizá-lo desolado. Outro, alto, bastante magro, como se um vento pudesse envergá-lo, saiu de dentro do prédio de entranhas a nós misteriosas. Ele trazia uma marmita e oferecia ao colega, que não consegui, na passagem de minha trajetória, identificar se aceitava, se iria comer, se declinava do convite, se refutava a bóia. Joguei meu olhar para um destino mais distante. Em frente ao albergue, para quem não sabe, localiza-se um dos hospitais da cidade. Lembrei da internação de minha mãe, quando eu justamente conseguia um emprego de verba importante, até para minha confiança profissional e cotidiana. Porém, minha mãe havia passado por delicado procedimento renal na mesma época, o que amansava qualquer sentimento positivo e, mais do que isso, nos preenchia de total preocupação na maioria das horas sóbrias.

Enderecei meu olhar para o maior alcance possível, para dentro daquele conjunto arquitetônico de janelas, que ameaçavam mostrar, mas não permitiam saber-se quem se ocultava para dentro do colosso hospitalar. Uma pessoa em pé também refletia no mesmo exercício, procurava acompanhar o movimento transeunte e dos raros carros pela via. Perguntava a supostos seres superiores sobre os porquês dessa vivência, procurava um modo de passatempo, cansada da programação de televisão aberta disponível, queria aproveitar a vista alta porque morava em uma casa, queria se sentir em casa pela vista alta porque morava em um apartamento, queria desviar o olhar da cena talvez bucólica e deprimente do quadro clínico na cama próxima, queria encontrar uma resposta da qual não tinha, na esperança que o próprio reflexo no vidro ou que a minha passagem, caminhando levemente curvado de fones brancos aos ouvidos, trouxesse. Espero ter ajudado.

Segui me ajudando ao procurar meu caminho pelas bandas da zona norte, região que acho feia pelo seu complexo de engenhos, mais ou menos abandonados, necessitados de pintura, manutenção, limpeza. Pichações ininteligíveis, uma escola em que minha avó trabalhou atirada às traças, da mesma forma que um prédio administrativo recentemente utilizado pela prefeitura. Prédios de funções cruciais no século passado ou em temporadas recém passadas. Restaurantes que trocaram de nome. Uma família na praça que bifurcava a rua logo adiante. Somente eles no banco do parque. Um casal, pelo que me recordo e uma criança a rodopiar, pequeno primata sobre sua bicicleta, procurando diversão enquanto os adultos apenas desfaziam o laço do enfado de qualquer fim de semana à tarde. A criança que pouco difere da presença ou ausência desses dias e quando se dá por conta caminha a esmo por sua terra natal. O adulto que sabe que sábado é folga e obrigação de aproveito, mas como fazê-lo? A criança sabe como agir e rodopia entortando o guidão da bicicleta, manuseando-o ora para um lado, ora para outro. Os ultrapasso. Encontro calçadas tão estreitas que preciso flertar com a ideia do meio da rua, contra os perigos dos carros em sentido contrário. Eu os vejo antes de me verem. Nenhum problema em desviarmos levemente o percurso.

Da calçada estreita, reparo em um conjunto de degraus que não bem representam uma escada, mas levam para um prédio de pequeno comércio, armazém ou farmácia - como são comuns por aqui as farmácias - para onde na vidraça em vitrine anunciam o jornal descontraído para quem se descontrai Diário Gaúcho. Meu amigo me informou outro dia quando ali passávamos que naquela escadaria haviam matado um ex-menino e agora ex-adulto que estudava conosco na mesma escola. Declinado ao tráfico de drogas teve o triste fim por encomenda bem cumprida através dos disparos que viraram anúncio na página dos nossos Diários Gaúchos locais, em foto do corpo estirado circulada por alguns meios virtuais - possivelmente, porque a mim não me interessaria ver.

Contorno essa calçada e prefiro investir pelo contorno da zona norte em shopping que só lembro tê-lo adentrado em distante infância. Prédio branco de arquitetura duvidosa e amplo estacionamento, por onde alguns gradeados condôminos olham para o exterior de suas vidas no espaço urbano. Eu contorno a rua e sigo em frente, ao esmo meio planejado de meus movimentos. Pelos condomínios observo e sou observado por vidas que há muito tempo habitam por aquelas bandas. São pessoas que curvaram o dorso mais do que hoje erroneamente me curvo. São cabelos que branquearam ou caíram, são casais que se criaram ou se desfizeram, são mortes que os separaram ou a plena vontade garantida pelas assinaturas em ata de divórcio. São casais recontratados, são novas e velhas uniões, são bodas das mais diversas cores. São gente junta com filhos distantes. São gente junta, com o filho ao lado esperando alguma ordem serviçal de busca ou entrega. São amigos que se ajuntam para curtir o solzinho no que no Rio Grande do Sul se ponderou em comum acordo chamar de lagartear e o dia estava propício para tal atividade preguiçosa.

Enquanto escrevo essa breve passagem, meu maior exemplo próximo, meus pais discutem os hábitos dos vizinhos que se interferem em nossa vida através dos ruídos que descubro próprios dos apartamentos, que muito afetam a ordem natural do desenrolar de meus pensamentos. Quase me misturo à discussão, mas prefiro continuar debruçado sobre minhas linhas. Onde eu estava? A zona norte. Os casais idosos. Os amigos de longa data. Os passos retesados, tensos, diminutos, calculados no anti-quedas. A oposição jovial a cruzar o caminho, de passos incertos, arrogantes, incalculáveis, inimigos da matemática mortal que sombreia a vida. Arrogantes por ignorarem o fim que a todos nós aguarda. Caminham determinados com o mate, com a cuia, com a certeza de mal de alguém falarem, de se atualizarem por seus smartphones. Visualmente namoro vultos, acompanho passos, ao mesmo tempo ciente de que não devo exagerar-me nas perseguições visuais, evito chamar a atenção quaisquer que seja e prefiro o trotar a esmo que volto a repetir como objetivo e finalidade. Abandono as visões mais ou menos agradáveis, me dirijo a outras, gosto da inconstância, gosto da improbabilidade, da probabilidade, da surpresa do que vou encontrar pela frente.

Passo por um par de charretes, comuns a nosso município, incomuns para o corretor ortográfico que aqui grifa em vermelho como se, assim como é para muitos, elas não existissem. Acompanho de revesgueio seus movimentos para dentro dos descartes alheios, o manuseio, na seleção, o subir e o descer do veículo, com a esperança que vem e que vai, como ondas. Não se comunicaram entre eles e nem eles comigo. Segui minha viagem. Reencontrei duas moças com as quais havia cruzado caminho mais cedo. Não entendi para onde iriam, já que a avenida de destino jovem era para o outro lado. Me dirigi para lá, passando dessa vez por guaritas de segurança para um trecho de bairro serpenteado por casas mais altas e subsidiadas. As guaritas correspondiam ao pouso/local de trabalho de porteiros e seguranças particulares contratados. Desafiavam o tédio com o gosto amargo do café, com palavras-cruzadas ou simplesmente procurando algum dorso para onde pousar os olhos.

Mais adiante, enquanto caminho entre as maiores casas do bairro, com garagens amplas e muros que escondem momentos alegres em churrascos ou tristes apesar dos dinheiros, me aproximo da avenida de maior público e passam por mim uma família de ciclistas: duas mulheres e duas crianças. Penso na minha incompetência para desbravar os mesmos movimentos sobre duas rodas. Sigo caminhando até perpendicularmente ultrapassar a avenida movimentada em direção a uma recordista de imóveis à venda, local onde os jovens gostam de disputar rachas nas tardes de domingo ou nas noites de qualquer dia. Me surpreende e surpreende a vários motoristas um desavisado na contramão, recebendo a saraivada de buzinas para que guiasse pelo rumo correto. Ele consegue um desvio para a rua lateral, onde some de minha vista. Apresento a dúvida constante entre o sol quente ou a sombra a esfriar no resfolegar do fim de tarde. A parede frontal do clube de tênis projeta uma imensa sombra até o asfalto da rua. As árvores altas que ornamentam a agremiação terminam o serviço de encobrir o sol. Não gosto de caminhar por entre os demais andarilhos e corredores, na via central, disputando espaço também com bicicletas. Prefiro a calçada mais distante dos holofotes crossfiteiros. Gosto de observar se há algum jogo de futebol rolando em um campo em que muitas vezes frequentei na infância.

Acho interessante quem diga que a algum lugar muitas vezes foi, sendo que não foi. Ao passo que por mais que tenha ido dezenas de vezes ali, ponho em dúvida se digo que fui frequentador. Mas fui, bastante joguei bola naquele campo da via central de traves inclinadas para trás, desde a construção ou sabe-se lá qual efeito do solo ou do entortar por forças humanas. Alguns batem bola, me questiono porque não jogam juntos, recordo da máscara em meu rosto, desgraçada pandemia e encontro assim a resposta. Melhor que cada grupinho jogue somente com os seus - quando vê nem deveriam jogar. Observo, também não quero chamar atenção, assim como também passo pelas pracinhas e tento adivinhar do quê as crianças brincam, se diferente ou semelhante aos meus passos de infância. Raramente entendo. E quem as entende passados tantos anos? Mais me afasto desse conhecimento tão importante enquanto me estendo por outras áreas que para o quê servem?

Transferido de calçada, rumo à direção onde bate sol, ainda encontro uma outra família que me chama atenção. Após a mãe passar com o pensamento desvirtuado e distante, segue-se a ela a dupla de crianças. Um irmão mais velho empurrando sua menor versão, uma menina dentro de um carrinho assim projetado para crianças. Ele tem um determinado semblante de insatisfação, pois, tão pouca idade, de certo gostaria que alguém o empurrasse. Os irmãos mais velhos cedo lidam com essas tarefas. Novamente frisando, a mãe adiante na calçada e o par de pequenos dando seu jeito de acompanhar os maiores e mais separados passos da progenitora. O olhar emburrado do menino gordinho ficou-me na mente. A menina, ignorando a empatia ao mano, sorria divertindo-se.

Tentei um olhar complacente ao menino que trabalhava na ingrata missão de carregador, mas não sei afirmar se ele compreendeu. Talvez mais adiante compreenda, se assim se deparar com essa reproduzida cena, conforme o passar das gerações. Para os últimos passos, regressei para minha zona de sempre, o supermercado abandonado por onde lacraram as paredes e, mesmo assim, pela fachada alguns montam acampamento nesses caóticos tempos de pouca política governamental de acolhimento e renda de susbsistência - milhões de desempregados. Pelo cenário das pichações e tendo como vista de seus barracões improvisados o pátio acimentado de onde havia o ir e vir dos carrinhos de super. Logo adiante, nem 50 metros, uma padaria com drive thru, novidade pandêmica, contrasta os pontos do retrocesso e do avanço, do que fechou e do que abre, de quem se alimenta e quem precisa lutar arduamente por algo tão básico. Um pouco mais adiante, me deparo que há o conjunto colossal arquitetônico de prédios dos mais altos de nossa cidade, por onde dizem viver muitos dos jogadores do Grêmio Esportivo Brasil. Grande obra em condomínio de gramas naturais e artificiais, salões de festa, portaria e outras exclusividades que excluem a nós passeadores de calçadas.

Mais adiante e mais condomínios, os mais velhos apelidados de Rua Brasil e mais adiante os novos blocos de prédios que erguem-se em velocidade absurda, mudando o cenário, o horizonte, a vista ao céu e tudo o mais do que me era familiar de bairro Areal - e já não o é. O posto de gasolina, a entrada para a rua em terra muito em breve asfaltada como nunca havia sido, meus pais que haviam morado ali três décadas atrás. Abandonam o bairro e agora a rua recebe a camada asfáltica. Típica para aplicar a Murphy. Pelos paralelepípedos distorcidos das últimas quadras, visualizo o senhor que sempre está parado ali com o rosto de olhar vidrado, que eu sempre tento cumprimentar; ele quase não se mexe, mas responde afirmativamente à minha tentativa. Todas as vezes é engraçado e ao mesmo tempo desconfortável e assustador. Tem obra na esquina, um parente meu distante e entrando para a idade idosa toca a massa obreira junto com jovens do sistema braçal, apoiando-se em empregos do que há disponível para fazerem. Costado de outro conjunto de prédios em rua de esgoto à vista, calçadas que somem e reaparecem, terrenos baldios, mas a maioria construída como bem quis o autor, de simulacros de palacetes a apertadas aproveitações de terreno. Chego a meu destino final, no fim do final da quadra, para meus últimos momentos em hoje, passados 14 dias, apenas sonhado bairro no invólucro sútil de minha mente.

Fim de papo.

07/03/2021

Casar contigo

Eu pensei que ia casar contigo

Assistindo a um filme de Godard

Mas você terminou comigo

Antes da gente chegar lá


Eu pensei em casar contigo

Assistindo aos casais de lá

Mas você terminou comigo

Antes da gente ter nosso lar


Impostos, taxas de condomínio

A mobília da sala de estar

A TV, nitidez e brilho

E os domingos a passear


Eu pensei em casar contigo

Sem saber os riscos de casar

Escovas de dente, figos de cera

Maçãs e peras

As chaves onde vou pendurar?


Pensei completar a cartela do bingo

Quando a gente se casar

Eu pensei em casar contigo

Mas sozinho eu vou ficar


Eu pensei e pensei comigo

Que contigo posso me casar

Mas casar pode ser um perigo

E sozinho e eu vou ficar

06/02/2021

eu quero uma guerrilheira

eu quero uma guerrilheira

enquanto eu cuido da casa

ela luta na trincheira

eu contra o nome no serasa


eu quero uma guerrilheira

armada até os dentes

ela luta contra a polícia

e eu pra vencer a preguiça

e eu pra vencer a preguiça


eu quero uma guerrilheira

brasileira procurada

que eu ajude a esconder

suas identidades falsas

suas identidades falsas


eu quero uma guerrilheira

que chegue tarde em casa

chegue meia-noite e meia

e coma a janta requentada

e coma a janta requentada


eu quero uma guerrilheira

fugitiva de aparelho

que se veja no espelho

no semblante muita estrada

com sua vista cansada

guerrilheira da pesada

guerrilheira da pesada


eu quero uma guerrilheira

solteira por opção

marxista-leninista

sem medo da prisão

sem querer desistir

mesmo com medo da prisão

12/01/2021

Estaba a oír un rock chileno

Estaba a oír un rock chileno
Y ya estoy con rabia de nuevo

No necesito salir de casa
Para escribir un tema
¿Por qué lloras reggae
Si no te ves el mar?

La rabia bloquea mis capacidades
No me encuentro con la ciudad
Las fátias de mi vida
Están muy desencontradas
Si estoy así, no sirvo de nada

Sin embargo me voy
Encontrarme alrededor
Como un barco a navegar
Y más allá me voy
Salir de alrededor
De la seguridad del farol
Con un futuro a descubrir

No necesito salir de casa
Para escribir un tema
¿Por qué lloras reggae
Si no te ves el mar?

Estaba a oír un rock peruano
Y me recordé cosas de hace un año
Cosas que me saltan cuando me voy al baño
Su rostro al espejo a me mirar

Me miré al espejo
Y no hay lo que ver
Si está en mi mente
Y va a trasparecer

25/12/2020

Se Chamava Antônio

Ele suspirou, respirou fundo, parou o carro e puderam saltar os três. Ele era o pai, acompanhado da esposa e do filho estudante de alguma engenharia, pelo segundo semestre, mas com noções imobiliárias, metido que era naquela missão. O financiamento era do casal. Pararam naquela rua de aspecto pacato, um bairro de residências antigas, algumas quase centenárias e o prédio, de quatro andares, cada qual com um apartamento. Era ali o destino da família.

Conforme dito, desafivelaram os cintos, destravaram as portas e pousaram-se à beirada da rua, para acionar a calçada. Voltaram a lacrar as portas e o pai deixou em alerta o alarme. Embora nenhum transeunte passasse por ali. Provavelmente menos de um para cada 10 minutos. Nem os cachorros da vizinhança se manifestavam naquele final de tarde. O sol se declinava por sobre os telhados da via. Os únicos pets a darem sinal de vida eram os gatos da proprietária do apartamento em questão, o que motivava a visita. Os felinos botaram a cabeça por entre as grades de uma das sacadas acima.

Tocaram o interruptor e ela demorou quase dois minutos para descer daquele terceiro andar. Se identificaram como os interessados em adquirir o imóvel. Subiram pela escada íngreme de degraus perigosos. Se espantaram por aquela senhora subir e descer tamanha dificuldade diariamente. Seria um ponto para pressionar caso ela não cedesse à oferta.

Chegaram defronte à porta do apartamento do terceiro andar, em um inexplicável molho de chaves, a velhinha se perdia para saber qual a correspondente daquela específica fechadura. Na terceira tentativa, talvez nervosa por receber visitantes depois de tanto tempo, acertou. Abriu, arredou-se para dentro do vestíbulo e convidou os interessados. A sala era contígua à cozinha. Havia um sofá de uso limitado para dois assentos, além de cadeiras de madeira, revestidas com assentos de tecido. O filho e a mãe se acomodaram nas cadeiras essas. O pai optou por um banquinho, também de madeira, com um estofado um pouco mais confortável, aparentemente, embora sem encosto. A senhora, acariciando um gato na almofada conseguinte, voltou-se para o sofá, que ela de pronto respondeu ter recém adquirido pelo preço de 180 reais: - uma pechincha!

O marido sorriu e concordou. A esposa parecia impaciente, tentou esboçar uma reação semelhante, mas lhe soou toda falsa e logo desistiu, sem completar um segundo para seu infeliz movimento de boca.

- 180... Precisamente. - Emendou o marido para quebrar o silêncio. - Esse é o valor que logo chegaríamos. - Ele resolveu não perder tempo na negociata.
- O que quer dizer? - Rebateu a velha residente.
- É o valor de minha oferta.
- Não querem um chazinho? Já estava fazendo para mim. - Mudou de assunto a dona do gato.
- Obrigado. Recém tomamos café.

O filho até faria menção de aceitar, mas desistiu com a tomada de dianteira feita por seu pai. Engoliu em seco e sacou o celular do bolso. Estaria atento à conversa se precisasse ou considerasse necessário interferir.

O pai começou a tamborilar com os dedos sobre a mesa e até ameaçou evocar a mão fechada contra os lábios para simular um instrumento de sopro, hábito que sua mulher odiava. Ao aproximar a mão da boca, ela lhe surpreendeu com um olhar inquisidor e ele logo desistiu. Voltou a tamborilar com a outra mão enquanto a velha se deslocava alguns passos do centro da sala para o hemisfério da cozinha.

- Conhecem o apartamento? - Perguntou a velha, esquentando a água do dito chá.
- Sim - Prontificou o marido.
- Ainda não vimos, apenas as fotos. Você veio antes aqui, Antônio?
- Ah, sim, sim, por supuesto, as fotos.
- Antônio é arquiteto. É muito imaginativo.
- Me encanta a arquitetura do edifício.
- É só um prédio velho - interveio a velha.

Voltou-se profundamente o silêncio. O filho percebeu e retirou qualquer ruído do teclar do celular, que estava em volume baixo, mas ainda audível. Era tamanho o silêncio.

- Enquanto ferve a água, podemos dar uma olhada, o corredor desagua nas peças todas. Isso vocês devem saber. E não há muito o que se ver. As fotos na imobiliária estão com minhas poucas coisas que acumulei. Sou uma senhora muito sozinha.
- Deve dar trabalho um apartamento desses só para a senhora.
- Uma diarista me visita quinzenalmente. E ainda adianto trabalhos para ela. Não duvidem de mim.
A mulher tentou melhorar o sorriso. Foi melhor do que a primeira tentativa, de fato.

- São bonitas suas estantes. - Emendou a esposa, já desmanchando o movimento anterior na face, dessa vez nem se esforçando por repor.
- O principal são os conteúdos nelas. Os quadros, as lembranças...
- Entendo. - Apenas assentiu o marido.
- Já enterrei minha família - Dizia a velha, que na verdade nem tão velha era, apenas com idade para ser mãe do casal, avó do menino, que até seguiu pelo corredor, mas à essa altura sem desgrudar do celular.
- O revestimento das paredes é muito bom - se manifestou Antônio.
- Parece que sim - Concordou o filho.
- Certeza que é - reiterou o Antônio
- Isto é - se limitou a mais velha.

Ela caminhava com alguma dificuldade, após uma sequência de passos, apoiando-se com a mão na parede. Antônio ficava cada vez mais amargurado, angustiado com a situação.

- Dona...
- Nilza.
- Dona Nilza... Averiguamos o bairro... A área total, em metros quadrados, excelente... O revestimento, os parquês, embora alguns fora de lugar, naturalmente, sem problema. O acabamento das paredes, o das lajotas nos banheiros, acabo de ver... Em ordem para o que procuramos... 180.
- O anúncio é de 190.
- 180. Em mãos. À vista.
- Conheço seu perfil, Antônio.
Ele engoliu em seco.
- Conheço seu perfil - ela repetiu, abusando de embrenhar-se como a voz da experiência ali presente.
Antônio, que havia voltado ao ponto zero, seu banquinho ligado à mesa, a de refeições, leitura e o que mais a senhora pudesse fazer, repetia o tamborilar de dedos. Nervoso. Quase elencou o instrumento de sopro improvisado com a outra mão para a sua orquestra.

- Tem aparecido clientes, dona Nilza?
- De fato não têm vindo.
- 180 em mãos é uma belíssima oferta.
- Os materiais de construção subiram de preço. Estava pensando mesmo em valorizar mais meu apartamento.
- Mais do que 190?! Estaria disposta a 200?
- 200 é fora de questão - interrompeu Suzana, esposa de Antônio.
O marido abriu as mãos como em um gesto de complacência, de concordância pela opinião emitida pela esposa. Não disse palavra.
- Sim, sim... 200.
- Mas a senhora acaba de dizer que não procuram sequer pelos 180!
- O que não muda o fato de que os materiais de construção subiram, seu Antônio... Conheço seu tipo e você não conhece o meu... Leio jornais e vejo televisão. Só não estou tão inteirada quanto o menino.

Fez um gesto de cabeça em direção a Luis Otávio, que repentinamente elevou o rosto que estava direcionado à tela do celular. Alçou as sobrancelhas decretando sua parcial derrota e voltou a seus interesses no dispositivo que por ora gastava os dados móveis, pois não teria a cara de pau de pedir o wi-fi da senhora. Se é que ela tinha.

- É, não tanto quanto ele, Antônio.
A água ferveu.
Fervia também a paciência do Antônio, que tinha trabalhos atrasados de sua agência, mas, mesmo assim, encaixotado pela sua ansiedade e por alguma pressão de Suzana, resolvera usufruir do sábado para estar ali, disposto a resolver o dilema do apartamento naquela outra região da capital.

- 195 - disparou.
- Antônio!
- Pai!
- Shhhh. 195, dona Nilza. Veja bem, viemos com a sabedoria dos 190, nem ideia que a senhora aumentaria. É dinheiro à vista, é pegar ou largar.
- Vocês têm cachorro?
- Temos - disse Luis.
- Não é um bom apartamento para criar cachorros. - Disse, acariciando o gato imóvel no sofá, alheio ao tom intempestivo da conversa. - Nunca criamos cachorros aqui.
- Até parece que esse seu gato já nasceu aqui.
- O avô dele era daqui.
Para Antônio era como se fossem o mesmo.

- Há outras casas no bairro, apartamento é somente este. Vocês precisam de uma casa, sr. arquiteto - Insistiu a senhora. - Só está à venda este andar porque minha filha, que mora longe, quer me levar com ela. Ela sabe de nada. Não sabe o que é melhor para mim. Quero continuar bem aqui. Respeite uma anciã como eu.
- Conheço o perfil. - Apenas disse Antônio, reticente. - Nós voltaremos. Poderia falar com sua filha sobre o apartamento?
- Não poderia.
- Tudo bem, daremos um jeito.... Nem que seja por 200.
- Antônio!
- Pai!
Antônio se levantou, retirando da gola rumo ao rosto seus óculos escuros. Tentou fazer cara de mal, mas não parece ter levado muito jeito para isso. Parou de súbito, antes que a senhora lhes abrisse a porta, diante da estante tão elogiada anteriormente. Um retrato em específico lhe concentrava a atenção. O rosto esmoreceu por baixo dos óculos escuros, rugas estranhas tornaram sinuosa sua fronte. Ele engoliu em seco, respirou fundo e retirou-se ofegante, ainda dirigindo, por baixo dos óculos escuros, um olhar suplicante para a senhora, que quase o entendeu, que também se tornou vacilante, mas deixou-o ir. Sem mais delongas sobre a conturbada negociação infrutífera.

Cada passo no lance de escadas o levava de volta a 20 anos atrás. Ele segurou as lágrimas. Amava uma das filhas da senhora, teria que negociar com a outra, mas não poderia, seria prontamente reconhecido. Foi naquele apartamento sua noite mais marcante. Naquele apartamento, inclusive, começaria a ser gerado seu primeiro filho. Mas Luísa, a filha da senhora, que estava em férias então com o marido, ela nunca contou de quem era aquele princípio de gravidez. Antônio não tinha emprego, não estudava, não se sentia confiante para assumir tudo o que viesse. Luísa certa vez entrou em ebulição com a família, não resistiria mais ali, estava disposta, com duas bolsas, a sumir de casa, a procurar Antônio, a ver o que poderiam fazer. A pressioná-lo a fazer algo. Ele, que se culpava, mas não se movia.

Ela saiu de carro, parou no primeiro orelhão, telefonou para a casa de Antônio, chamou-o de voz angustiada. A mãe de Antônio atendeu, se preocupou, mas passou-o ainda fora do gancho. Ela contou tudo no tom de urgência. Antônio petrificado novamente. Mas cedeu, disse que ela viesse, que tentariam resolver o que fazer. Mais dois segundos e conseguiu gaguejar para que não fizesse bobagens. Ele poderia buscá-la. Ela insistiu que dirigiria até a casa de Antônio, que a família poderia caçá-la pela fuga inesperada. Olhava para os lados enquanto usava o orelhão e não demorou mais, queria voltar para o carro e não só ouvir, como ver Antônio.

Em um cruzamento, tudo acabou. Uma colisão direto na porta da motorista. Do carro e da jovem pouco sobrou. Luísa recém havia saído de seu bairro, mirando o carro em direção ao outro lado da cidade, para o bairro e a casa do Antônio. Ele estranhava e se desesperava pela sua demora. Resolveu, após uma hora, refazer o caminho que ela faria. Quanto mais corria, mais se esforçava, maior era o desespero. Demorou uma hora e meia para chegar ao local do acidente. Estavam finalmente recolhendo o carro. Apesar do impacto do acidente fatal, Antônio reconheceu o carro de Luísa. Ainda havia sangue no asfalto. Luísa e do que viria a ser o bebê, Antônio nunca mais viu.

Chegou a ir para o hospital, só não entrar no IML. Reconheceu, ao longe, a família de Luísa. Teria medo de ser reconhecido por amigos mais próximos dela. Quando viu alguns se aproximarem da família, fugiu. Sem estudos e sem empregos até então, foi direto para sua casa. Avisou a mãe aos prantos que precisava partir. Arrumou sua mala. Disse que não era culpado de crime, mas poderia ser apontado por gente influente que lhe manchariam a já desgraçada vida. Beijou a mãe e procurou pelo primeiro ônibus.

Os amigos de Luísa tinham dúvidas, assim como os pais da jovem. Ela era bem requisitada e o Antônio, daquela festa, era um possível palpite, mas o com menos pinta de assumir a paternidade. Para o comentário para aqueles lados da sociedade, para os donos daquele prédio inteiro de quatro andares, estava no final da fila. Mas Luísa não contava quem era o pai da criança e as suspeitas começavam a ficar mais fortes. Apenas duas amigas de Luísa sabiam. Ela havia confessado para Manuela e Lissandra. Com a súbita morte da amiga, em que a família confessou o desespero todo da situação do dia, foram ao encalço do tal Antônio, que nem costumava frequentar os mesmos círculos de amizade.

A irmã mais velha de Luísa trabalhava fora, mas em cidade próxima. Tinha sido informada de toda a fatalidade e pegou o primeiro ônibus. Quando chegou na cidade, Antônio, azarado de tantos azares, ainda estava aguardando que o seu partisse. Ele havia perdido o anterior por cerca de três minutos. Após quase hora por ali, o ônibus da irmã de Luísa havia chegado. Ela desceu, ele iria subir. A instantes, a metros da porta, trocaram longos olhares. Antônio achou que já estava era vendo fantasma. Não bastasse, a jovem talvez tivesse gosto semelhante da irmã falecida. O olhar entre os dois demorou o equivalente a séculos, naquele conta-gotas de segundos. Ele finalmente embarcou. Ela botou na cabeça a tragédia toda que teria que enfrentar e seguiu, tão atônita como qualquer outro envolvido na trama familiar, embora não fosse exatamente a pessoa mais próxima da irmã.

A família entrou em desespero, culpou indiretamente o pai da criança que nunca nasceu, pela morte da jovem Luísa. Afinal de contas, o motorista do carro que colidiu com Luísa também havia falecido. Não poderiam culpar outro morto. Poderiam, sim, mas procuravam pelo vivo. Aliás, a confusão no hospital que salvou Antônio foi pela quantidade de parentes do outro condutor e, no calor daquele dia, quase que as reuniões de pessoas pelos motoristas opostos que se fecharam naquele cruzamento termina em briga na porta do hospital. Ficaram no quase.

Quanto à família, não podiam criminalizar de botar cartaz de procurado contra Antônio, mas Manuela e Lissandra, que sabiam dele, informaram a irmã. Ela reconheceria. O contato visual foi tão forte que Antônio nunca esqueceu. Voltou a ver a Maurília, irmã de Luísa, na televisão, chorando pelo falecimento da irmã. Ele entendeu toda a cena da rodoviária. Queria distância dela... E conseguiu. 18 anos morando longe, morando fora, esperando todas as poeiras possíveis baixarem.

Reconstituiu a vida. Teve um outro filho, com a Suzana, com quem se acertou. Nunca esqueceu Luísa, muito menos a trágica história. Voltou à cidade com a desculpa de retornar para onde nasceu. Ele já havia perdido a mãe. Ela e os irmãos com quem nunca mais teve contato. Era um foragido daquela catástrofe. Foi morar para outro lado, mas viu pelas ofertas um apartamento à venda. A família de Luísa, que era dona de todo aquele prédio importante, agora tinha apenas um apartamento. O pai de Luísa morreu, muito pelo desgosto, resumiria. A velha se mantinha forte sozinha, ou quase isso, capenga por aqueles degraus e longo corredor, cada vez mais longo, pelo túnel do tempo e por conviver sozinha com o avançar da idade. A Maurília, que começou a se tornar cada vez mais durona como rocha, apenas queria que a mãe vendesse de uma vez o andar em que vivia e fosse adiante. O prédio era decadente, mas a velha senhora, dona Nilza, queria continuar vivendo por ali.

Mãe nunca esquece e o nome Antônio também não seria esquecido. De tão comum, deve ter culpado uns quatro ou cinco por pura paranoia naqueles anos todos. Os Tonis e Toninhos e Tonhões que se cuidassem. Nenhum chegaria perto de Maurília. Ela estranhou a procura daquele apartamento velho em zona pouco comercial, pouco industrial da cidade, embora pacata, uma família, gente ainda no ápice por viver e se socar por ali. Imaginou a briga daquele Antônio com a tal Suzana para forçar a mulher a dar as caras por naquele imóvel. Antônio, outro cabelo, outra barba, o mesmo nome.

Por precaução, por instinto maternal, por suspeita aguçada, telefonou para Maurília.
- Acho que o encontramos.

11/09/2020

Dia de Limpeza

tem que tirar o pó do quarto
tem que varrer o tapete
tirar o pó dos objetos
tirar o mofo da parede

dia de limpeza é um porre
e ninguém nos socorre
pra quê tantos objetos?
coleção de chaveiros
discos que não escuto
livros que não mais reflito
tantos objetos sem uso
lá se vão os meus turnos
afoga a folga
afoga a folga
afoga a folga

tem que por veneno pra rato
e as baratas dos bueiros
tem que aspirar o quarto
passar um pano no espelho
e trocar os lençóis
enquanto há sóis o dia inteiro

dia de limpeza é um porre
e ninguém por nós corre
faremos isso semanalmente
até o dia que se morre
e aí finalmente
tudo em trouxas se recolhe
e segue a prole
e segue a prole
e segue a prole

tem que tirar roupas da corda
que já está vindo a chuva
e remédio para pulgas
no colarinho dos pets
e o processo se repete
até o dia que se morre

dia de limpeza é um porre
e ninguém nos socorre
pra quê tantos objetos?
coleção de chaveiros
discos que não escuto
livros que não mais reflito
tantos objetos sem uso
lá se vão os meus turnos
afoga a folga
afoga a folga
afoga a folga

ao ritmo de Amor e Morte de Wander Wildner

27/03/2020

o socorro da porta

a porta que range abrange
a fronteira, a divisória
do que ficará por dentro
ou fora da história

a porta com seu rangido
gritante, alto-falante
incessante no vai e vem
transitória

a porta que range e incomoda
estridente e insinuante
como uma mola, uma agulha
que arranha e arranha
o mesmo trecho em uma vitrola

a porta com seu rangido
estampido ensurdecedor
insurgente, emergente
clemente em pedidos de socorro
a porta da dobradiça amaldiçoada
fazendo uníssono do chão ao forro

socorro! socorro!
pede a porta e ninguém cancela
meu maior desejo: um óleo nela
ou então sou eu quem morro