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26/12/2025

Winaypacha (2017)

Filme peruano gravado no alto dos Andes, em terras inóspitas, quase desabitadas, onde, de repente, até os deuses são dificeis de se contatar. O jovem diretor responsável foi Oscar Catacora, ele com nome do alto grau de premiação americano, mas que faleceu aos precoces 34 anos durante gravação de outra filmagem. Winaypacha também é traduzido com o nome de Eternidade, e seu trabalho não deixa de ocupar essa lacuna na história do Cinema latino-americano.

Com apoio governamental nos incentivos à Cultura, Winaypacha foi exibido em mostra de filmes peruanos. O foco da história são dois idosos que vivem solitários nas montanhas, se comunicam em dialeto diferente do Espanhol, criam ovelhas, contam com um cão, uma lhama e esperam desesperados pelo regresso do filho Antuku, que foi tentar a vida na cidade grande. Em resumo, é uma história muito comum à resistência rural frente à agressividade da migração para zonas urbanas, de modo que são abandonadas pelos jovens as tradições, os modos de vida simples e rudimentares.

Uma das abordagens é a dificuldade que os idosos padecem independente de onde vivem. O idoso Wilkka reclama do cansaço, da exaustão e que certas funções laboriosas não cabem mais ao seu corpo envelhecido. Os diálogos são absolutamente simples, mas carregados de ternura, do carinho de um relacionamento longo onde também não há mais escolha, mais o que fazer, mas que o companheirismo prevalece na sobrevivência do casal nas montanhas. Eles rezam, realizam suas funções de manutenção da casa e colheita e pedem pela volta do filho, o qual eles não veem há muitos anos. Phaxsi, a esposa, começa a perder a esperança do seu regresso. É o assunto principal entre eles: a eterna espera. Em algum companheirismo a história de tecer na espera por Ulisses em A Odisseia, Phaxsi passa boa parte do tempo a tricotar gorros, ponchos e casacos ao exausto marido Wilkka. Produções peruanas de um artesanato que podemos conferir em populares feiras brasileiras.

O filme, que inicia devagar, ponderado na ternura, na simplicidade do modo de vida, carrega contornos dramáticos com o rigor do inverno, com a falta de fósforos que ameaça a sobrevivência conjunta. Wilkka resiste em não querer viajar à cidade, com receio da travessia longa, da exposição aos perigos e do cansaço. Apesar das frequentes rezas e orações, uma avalanche de problemas paira sobre o casal. É difícil não se emocionar com a morte das ovelhas, devastadas por algum predador que eles, pela experiência, supõem ser uma raposa. O cachorro, fiel acompanhante de Wilkka, ao lado da casa ou na necessidade de saídas, também desaparece, provavelmente perdido nas trilhas.

A falta de fósforos e o rigor do frio faz com que a dupla tente interceder pela manutenção da fogueira. Antes, as constantes chuvas obrigaram a construção de um telhado extra com palha. A combinação de fogo com a palha pode ser fatal. Envolto em problemas, o casal vê as forças se extinguirem e a esperança ser um ente distante. É um filme de drama, de reflexão, em que a simplicidade do modo de vida milenar nem sempre supera as adversidades de um clima hostil, quando os problemas se acumulam. A morte precoce de Oscar Catacora relembra a morte precoce do uruguaio Juan Pablo Rebella, promissor diretor latino-americano responsável por 25 Watts e Whisky, duas películas aclamadas pela demonstração do modo de vida classe média uruguaio/argentino. Com dois filmes de simplicidade e potência, Rebella faleceu aos repentinos 32 anos. Em Oscar Catacora, o tributo à vida nos andes, nas montanhas, na ruralidade peruana, distante dos grandes centros como Lima, perto dos deuses, mas estes que nem sempre estão prontos ao atendimento. Nós, silenciosos da vista, da exibição, nos aprontamos a aclamar ainda silenciosos em um inclinar de cabeça.

Nota final de Winaypacha em ⭐⭐⭐⭐

25/12/2025

Xala (1975)

Em pesquisa para confirmar o nome desse filme de Ousmane Sembène, diretor garantido nesses blocos de análises, Xala pode se referir a rituais e feitiços sofridos por uma pessoa. É o que acontece com um político senegalês em Xala. 

Essa é uma bela obra de Ousmane, englobando diferentes assuntos, tópicos que podem atrair mais ou atrair menos atenção para explorar desenvolvimento do filme. Acredito que o mérito para muitas obras está na comunicação, na abordagem de diferentes temas. Isso cria uma riqueza cultural que absorve diferentes envolvimentos com o espectador. Em Xala, se comunica a independência conquistada por Senegal frente à França. Se comunica a corrupção que é persistente. A cultura machista, os casamentos de um homem com várias esposas. O sistema em que empresários são beneficiados enquanto o povo passa fome.

O personagem principal desfruta de prestígio. Usa terno, frequenta a Câmara, convive com outros engravatados. Está às vésperas de seu terceiro casamento. Já é um homem de certa idade. A divisão financeira que impacta a família causa ciúme nas duas primeiras esposas. Mais do que ao homem, parecem temer a posição social em desprestígio, a perda de relevância no convívio, de presentes recebidos no cotidiano. O casamento, o terceiro, ocupa boa parte da primeira metade do filme. Se conhece a desconfiança e o ponto de vista dos filhos já crescidos do sujeito e a convivência ciumenta, belicosa, afrontosa entre as esposas.

No desenvolvimento, ganha relevância a economia, quando o personagem entra em conflito, em atuações suspeitas. Sabe-se que ele lidera uma loja no centro da cidade senegalesa. Interessante que Senegal na época estimava-se abaixo dos 5 milhões de habitantes. Hoje é um país bem maior. O político e empresário demonstra a complexidade da independência. Apesar de sair, em parte, somente em parte, da dominância francesa, o povo senegalês, em grande parte rural, em grande parte campesino, está refém de empresários corruptos, de funcionários que decidem provisões em escritórios com o invento do ar condicionado enquanto a população padece ao sol forte. Em certo momento, em reunião entre o empresariado, na acusação do camarada principal ser acusado de corrupto, de desvio de dinheiro para benefício próprio de seu terceiro casamento, o idioma francês entra em questão. Os empresários proíbem o acusado de se manifestar em um dialeto local, referindo-se orgulhosamente que o idioma oficial do país Senegal é o Francês. Interessante ponto de vista das elites frente a um povo que estima a libertação da herança maldita de um colonizador branco, europeu, violento e saqueador de recursos.

A complexidade deriva em outros temas. Os problemas do acusado começavam na suspeita desse Xala, desse feitiço que causa impotência sexual, quando ele, já idoso e deaconhecdor do raio dos limites, tenta a noite de núpcias com sua recém estimada esposa. Ele não consegue ser pró-ativo na empreitada, não retira a virgindade da jovem e começa uma crise sem precedentes. São problemas pessoais, relacionais na companhia, no comércio, na política, e consequentemente financeiros. Na mescla de modernidade com tradição, o acusado dos delitos ainda tenta retirar esse suposto Xala com um curandeiro, mas, corrupto e atrapalhado que era, não o paga, colocando em risco sua condição de liberto do feitiço.

O cinema de Ousmane Sembène é em prol da África, mas não recai a uma narrativa simplória, unilateral, de heróis e vilões. Parte dos libertadores podem condicionar o povo a continuar na miséria, instituindo benefícios próprios contra a população miserável que espera ajudas que não vêm. A denúncia é da desigualdade entre ricos e pobres, quando a riqueza acumulada pode se dar através de sonegação de impostos, calotes e contratos fraudulentos. Em resposta aos acusadores, o político aponta os dedos de volta, requerendo como resposta à pergunta de qual daqueles empresários na sala não passava também cheques sem fundo. Para além da denúncia ao personagem, o panorama é de empresários corruptos que coagulam entre eles, formam conluios com o povo como outsider, forasteiro. Sembène explora muito os temas dos verdadeiros e incidentes problemas sociais sobre Senegal, desde o que era necessário para libertação ao regime militar francês, como em Emitaï (1971) até esse filme quando passado o processo inicial do recurso da independência. Apesar da independência em relação às maiores forças da França, o jogo de empresários, de controladores do alimento, do arroz e de outras produções senegalesas segue à mercê, à deriva do povo. A revolta popular contra o corrupto, após a dispensa dos engravatados contra ele, decorre nas cenas finais. Sembène mantém um olhar crítico, atento, mas otimista em relação ao potencial que seu próprio povo pode produzir quando liberto de verdadeiras e proeminentes amarras.

Nota final para Xala (1975)

⭐⭐⭐⭐⭐


24/12/2025

Emitaï (1971)

Emitaï é um filme senegalês, na direção de Ousmane Sembène. O diretor é uma importante Ponte para registros e lutas do povo de Senegal, sendo um dos principais nomes na cinematografia africana, defensor da soberania do continente frente aos colonizadores europeus. Em questão, o filme trata da resistência de uma comunidade, uma aldeia senegalesa ao expansionismo e abusos cometidos pela França.

A época retratada é da Segunda Guerra Mundial, com referências de troca de comando Militar na França, de Petain para Charles de Gaulle. O acontecimento inclusive gera troça no filme, quando senegaleses que haviam se aliado voluntariamente à França questionam como poderia um general duas estrelas suceder um marechal de sete estrelas.

O que ocorria? A França, colonizadora sobre Senegal, capturava homens para os enviarem à força para Europa, para lutarem no front contra a Alemanha nazista. Mas também nem sempre foi nessa toada, pois o próprio Petain era acusado de aliviar para Alemanha, temendo maiores perdas e derrotas, de modo que a rendição francesa se deu menos tumultuada do que poderia ser. Entretanto, para Senegal, a guerra já estava formada e dificultando a população sob o domínio dos generais franceses.

Nessa comunidade, um símbolo e principal alimento era o arroz. Produtores de arroz naquelas terras, os campesinos deveriam ceder a produção para alimentar os exércitos franceses rumo às batalhas. Desfalques incontornáveis. O arroz também é protagonista quando um dos líderes da aldeia falece em ritual de invocação aos deuses e seu ritual fúnebre deveria envolver as cantorias das mulheres e a oferta de arroz.

Mas o arroz estava totalmente em disputa e requisito francês. Os militares que controlavam, que cercavam a aldeia e ditavam as regras tinham ordens superiores de levarem as sacas de arroz rumo aos exércitos em guerra. O filme relata o saque em que os brancos submetem os negros a essas humilhações. As mulheres da aldeia cuidavam dos estoques e se revoltaram em esconder os suprimentos. Até que os sacos de arroz aparecessem, todas foram colocadas sob guarda, sentadas ao chão no sol, algumas com crianças de colo por criar.

No papel histórico, o filme relata como as comunidades africanas se dividiam. Havia os conquistados pela lábia, pelo poder e pelos subornos franceses. Homens jovens que preferiam voluntariamente lutar pelo lado da França mesmo que contra seus compatriotas senegaleses. Na selva, também chama atenção o que poderia resultar problemas de comunicação quando comunidades, cada uma à sua criação, a seu modo, cruzavam caminho. Sem a unificação idiomática, que até hoje em África é tabu, é desafio cultural, pelas separações, reuniões de divisões de fronteira e imposições culturais dos colonizadores, a desunião idiomática poderia se mostrar mais uma forma de conflito que desafiasse a unificação das causas em prol dos povos originários africanos.

Mas nesse filme, o conflito está entre os armados e os desarmados. Os defensores da cultural original e os rendidos aos colonizadores. A força das armas em predomínio à crença aos deuses. O filme mostra rituais de invocação religiosa, ritos, sacrifícios, como de galinhas e cabras, passeatas e danças. É uma mescla documental, dramática e suscitadora de suspense. Embora saibamos dos conflitos entre colonizadores e colonizados, muito e cada vez mais se aprende através dessas mostras. Como recrutaram homens e lhes deram armas, na sedução do poder e de ofertas superiores - como se comprava inclusive a honra. Como muitos resistiram, apesar de tudo. O diretor Ousmane Sembène dedica essa e outras produções aos que resistem em nome dos antigos, em nome do povo de África, contra a expropriação, contra a exploração, contra a velha e a nova escravidão do povo negro.

Nota final de Emitaï em 4,5 / 5




21/12/2025

Dane-se a Morte (1990) / No Fear, No Die

Filme francês da diretora Claire Denis, o longa conta a história de Dah (Isaach De Bankolé) e Jocelyn (Alex Descas), dois migrantes, um das Antilhas, outro de Benin, africanos, negros, tentando sobreviver à França. O contexto é após a colonização de diversos países africanos por parte da França, mostrando a dificuldade desses jovens em se adaptar à mudança de país, aos sub-empregos, à ilegalidade e à frequente ameaça de tornarem-se alvo de operações policiais.

O centro da trama são as rinhas de galo, em que os garotos, sendo sócios, protegendo-se um às costas do outro, elaboram parcerias e organizam o ambiente, os treinamentos e as batalhas nos fundos de um restaurante, um café sub-urbano. O sócio dos garotos é um magnata influente e mau caráter. Ao longo da trama, todos se envolvem de alguma forma, criando afetos pela garçonete Toni, que atende no restaurante que serve de fachada ao maior fluxo de caixa: as rinhas de galo.

Um ponto importante do filme é a consciência dos migrantes, quando, por exemplo, sintomaticamente, Jocelyn observa que aquela história não duraria para sempre. É a tônica de programações clandestinas. Tráfico de drogas, tráfico humano, rinhas de galo clandestinas. Nada disso favorece a quem está ganhando por muito tempo. Clientes insatisfeitos, denunciantes, policiais à paisana e, no caso das rinhas de galo, a própria inconstância na dependência da saúde dos animais. Lutam galos, lutam francas, Jocelyn as prepara e até se afeiçoa. Ele, distante de casa, com saudade da família, com sua breve história de vida narrada pelo companheiro nessa partilha.

Os homens brancos, é óbvio, tentam se aproveitar deles. Fazem com que morem no mesmo ambiente onde ao lado ocorrem as disputas. Cobram disposição, preparação, divisões desiguais. O negócio era de fato uma contra-relógio, em um drama que se arrasta com algumas formas de violência, sejam as mais diretas, na luta clandestina com os animais treinados a dedicarem-se a isso, seja na violência de gênero em que Toni é cobiçada e submetida às escolhas de terceiros, ou a violência de classe, ao mesmo tempo racial, da controladoria dos negócios dos homens que ameaçam, por vezes, deportar os forasteiros. A clandestinidade como uma corda bamba, como uma bomba que pode ser desarmada ou explodir no corte de um fio errado.

O nome do filme é sugestivo, inspirado na nomenclatura de um dos animais de briga. Ao longo do filme mesclam-se questões como o direito dos animais, a necessidade dos jovens em sobreviver, evocando esses debates morais na reflexão de cada espectador. Os animais eram alimentados, treinados e até afeiçoados, principalmente por Jocelyn, com muito esmero e cuidado. Mas, o produto final dessa criação são as lutas, que provocam dor, violência e a sangria das pequenas aves. No clímax, toda a pressão sobre a cabeça de Jocelyn pode ser fatal. Não só sua sobrevivência em ambiente estrangeiro e hostil, a pressão para receber algum dinheiro que sobre para futuros planos, pois ele tinha a consciência de que aquilo não duraria para sempre, e a paixão que era evocada sobre a pessoa de Toni, pela qual os sócios, brancos e negros estavam interessados. Não há outra mulher a circular no filme por aquele ambiente masculino, tóxico, como dizem, em atmosfera que os clientes gostariam que lembrasse cada vez mais das disputas originárias de latino-américa, como de Porto Rico.

Nota final em 3,5 / 5

18/12/2025

A Memória Fértil (1980)

Mais documental do que fictício, o longa de 1h39min acompanha a vida de duas mulheres palestinas e suas distintas funções sociais, seus modos de encarar os problemas. Uma é viúva, dona de casa, que criou dois filhos sozinha. Outra é uma mulher moderna, que sai para trabalhar, escritora e professora de literatura.

A viúva de mais idade se queixa sobre a falta de terras, pois o filme nunca perde de vista a história entre Palestina e Israel, Israel e Palestina. A introdução do longa aborda de forma escrita a cronologia em que foi definido por conselhos europeus, sobretudo britânicos, que os judeus seriam reunidos na Palestina. A Palestina em si estava então sob domínio dos britânicos. Após o genocídio da Segunda Guerra Mundial, foi declarado em 1948 o Estado de Israel em terras palestinas. Sob a alegação de "ausentes", muitas propriedades foram tomadas pelos novos moradores judeus. Houve, entre os acontecimentos, a Guerra dos Seis Dias e o confronto de ataques de Israel em escalada ao Egito, a Guerra de Suez. Tudo isso impactou com a ocupação de Israel cada vez mais a dentro da Palestina, com postos militares, instituição de leis e regras como toques de recolher, apropriação dos recursos na tomada dos postos de trabalho e ditames para contratações, colocando em risco sob desemprego e mapa da fome para milhares de palestinos.

É nessa queixa que se orientam os votos da viúva, que reclama suas terras familiares perdidas há cerca de 30 anos (quando gravado o filme em 1980). Ela permanecia na esperança de recuperar a terra, enquanto outros de seus familiares já haviam tomado rumo para Líbano e Jordânia. Os filhos pretendiam aceitar a conciliação por trocar qualquer demanda por aquela terra em troca de outra. A viúva, insistente, para eles teimosa, seguia na ânsia de recuperar o local de sua primeira morada, herança de seus antepassados.

"Quando se luta muito contra a realidade, contra as forças exteriores, não sobra tempo para lidar com a vida interior". É o ensinamento nesse filme em que as mulheres, dentre todos os habitantes na Palestina, têm de lidar com os problemas internos de sua sociedade, além do que é imposto a todos pela política militar israelense.

Acredito que o grande conflito do filme, das vivências, seja o conflito entre progressismo e conservadorismo nos dois estilos. Surpreende que a viúva, conservadora quanto ao estilo de vida das mulheres, seja a que mais lute por suas terras e direitos palestinos contra Israel. A escritora, trabalhadora assalariada, à primeira vista progressista pelo direito de estudar, de lecionar, de trabalhar fora, se respalda mais a esse modo de vida israelense em que a mulher está emancipada financeiramente, sem depender tanto de um marido, sem estar atrelada a machismos culturais. Isso é complexo de se entender, pois é uma diferente cadeia de lutas, de pautas e até de consciências (de classe).

Ao mesmo tempo, a professora é consciente da submissão palestina ao exército de Israel, o que ela repassa através da literatura, das canções populares e de seu conhecimento em História. De modo mais informal e sentindo mais na pele, a dona de casa viúva também sabe disso. Um ponto de vista interessante da professora não ter empregada doméstica é que ela até tenta justificar pela divisão de seu salário, mas sua principal justificativa é que não é justo que as tarefas caseiras mais ingrata receiam sobre outra pessoa, o que seria responsabilidade sua. Para ela, escravizar uma pessoa assim também gera uma angústia, uma escravidão, uma privação sobre o opressor. É um sentimento de culpa que pareceu faltar na era colonial, na exploração de muitas nações sobre as outras, inclusive no próprio conflito: exploração de Israel sobre a Palestina.

Desde a década de 80 e de antes, se questiona essa contradição entre o papel da mulher pela libertação de um Estado mas em meio a uma cultura que a reprime. A escritora confessa vontade de fugir, mas se reorienta, pensa também nas boas pessoas de seu Estado, recoloca-se em voga por suas aulas, por seus alunos, o trem de volta aos trilhos. Ao passo que Israel numa cultura dita Ocidental daria maior liberdade contra a repressão da mulher, é a ocupação, a invasão do Estado de Israel por sobre a Palestina que provoca uma repressão generalizada sobre o povo que ali já ocupava. A perda de direitos de ir e vir, de cultivar, de gerir, de acesso ao mar, aos portos, às mercadorias. É muitas vezes o direito à herança, ao solo, à pátria e à cultura.

"O passado não pode ser esconderijo. Nem o presente. Há fuga e há luta. A mulher está presa entre elas."

Ao final, o filme homenageia 

Aos torturadores de homens cegos

Aos exércitos conquistadores de pequenas aldeias

E

Aos açougueiros de infância.

Sinopse

Primeiro longa-metragem filmado dentro do território da Palestina chamado de “Linha Verde”, localizado na fronteira com Egito, Jordânia, Líbano e Síria, combina ficção e documentário ao narrar a história de duas mulheres muito diferentes: Farah Hatoum, uma viúva de 50 anos e trabalhadora de Nazareth, e a escritora Sahar Khalifeh, que se divorciou e vive com a filha na área de West Bank, em Ramallah, região ocupada por Israel desde 1967. O diretor observa bem de perto o dia a dia das duas mulheres e elabora um retrato da condição da mulher na sociedade palestina, da vida dirigida pela ocupação e da dominação masculina. A história, a realidade, o futuro, as contradições da Palestina são refletidas através destas duas mulheres, a intelectual e a trabalhadora braçal – ambas na luta por liberdade e dignidade.

11/12/2025

É Noite na América (2022)

É Noite na América é um documentário de 1h06 em uma co-produção entre Brasil, Itália e França com assinatura de direção da jovem Ana Vaz. Nascida em Brasília, sendo ela um pouco mais jovem do que a jovem capital federal, Ana tinha à época 36 anos e mostrou o comportamento brasiliense em relação com a fauna local.

O ponto de vista dos animais é fundamental na narrativa, em cena marcante que, enquanto nosso olhar não se volta aos bichos, no filme se volta aos bichos, mas, mais do que isso, é elaborada uma reflexão em que o interno dos olhos animais confrontam a relação com a humanidade. Os animais nos olham de volta. O filme avalia a situação de onças pintadas, ariranhas, saguis, serpentes e tamanduás bandeira e mirim, entre outras espécies, muitas delas na ameaça pela extinção. A culpa humana é delegada em imagens e entrevistas. O crescimento desordenado de nossas cidades em contraponto à perda de habitat da natureza é o resultado da mostra documental.

Brasília é exibida desde sua fundação, desde imagens antigas de zoológico, passando por seu crescimento em novas ruas, arquitetura e rodovias que cortam o Planalto Central brasileiro. O zoológico aqui não é mostrado como culpado ou capturante para excluir da natureza. Pelo contrário: o zoológico é uma resistência de animais que foram salvos, mas não tem maior condição de voltar para o habitat natural. Dessa forma, espécies são realocadas em cativeiros e convivência com semelhantes em menores espaços artificiais, mas como forma de manutenção do indivíduo, não de desproteção ou exclusão da espécie.

Como forma narrativa, o documentário traz entrevista e imagens de cuidadores, exemplo de chamada telefônica para o controle ambiental e demais autoridades em como lidar com o resgate e captura de espécies ameaçadas - e às vezes ameaçantes - na perigosa cruza entre ser humano e animais nativos. O filme de Ana convida à reflexão do papel humano em seu crescimento desordenado, desordenante de recursos e de proteção animal e vegetal. Como a selvageria das rodovias cortam o habitat de animais como os tamanduás, os maiores ameaçados de extinção ao passo que ao menos os mirins estão mais seguros, mas muito em função de estarem espalhados pelo território de diferentes países, inclusive ao território andino, mais afastado. Os bandeira, ao contrário, estão extintos em alguns estados como Santa Catarina e necessitam de grande proteção onde ainda resistem. Triste pesquisa resulta após o filme em descobrir que a pequena cidade de Ariranha no estado de São Paulo tem população humana superior à população total estimada das lontras ariranhas em nosso país. Mais uma perda preocupante da ordenação humana descontrolada, das caças e da violência de nosso convívio agressivo com as espécies nativas.

De Brasília, cidade criada mais artificial que outras artificialidades das construções brasileiras (nem entremos na invasão europeia à mata nativa sobre os indígenas), de Brasília percebe-se o estimulante centro cada vez mais em densidade populacional, em exploração de recursos e transposição comercial para dificultar a manutenção e sobrevivência das espécies. É importante o trabalho relatado no documentário de Vaz porque alerta sobre risco de explorações que podem se tornar irreversíveis, às pobres espécies cada vez mais indefesas e à própria humanidade em seu convívio desarmônico no que tange o clima e a natureza geral. A cena final da queda d'água dá ideia entre o mutável e o imutável, da avalanche de desgraça que o ser humano provoca e da avalanche de resistência que a natureza se permite em seu fluxo, por assim dizer, natural.

Nota final para É Noite na América:

⭐⭐⭐⭐

08/12/2025

Stray Dogs (2013) de Tsai Ming Liang

Filme lançado em 2013, Cães Errantes tem esse nome forte para provocar impacto, seu objetivo como um todo. Comparar a família de humanos a cães pode remeter ao mau tratamento que o capitalismo, que as grandes cidades, que as demais pessoas prestam aos semelhantes, apenas, no caso, mais pobres. Mexe inclusive com os protetores de animais, guardiões de cães e gatos, pessoas que não prestariam tratamentos tão ruins sequer a outras espécies como essas.

Tsai Ming Liang é um diretor malaio, conhecido por filmes de narrativas lentas, mas profundas, com a densidade na produção de imagens impactantes, jogos de cena com o aproveitamento de cenários e cores. Exige muito que seus atores mantenham a compostura, o enquadramento e a fissura ocasionados pelas cenas. Explora temas como a solidão, o sentimentalismo, a nostalgia, e aqui em Stray Dogs joga com o sofrimento da família protagonista - em um filme de pouquíssimos atores. A família é composta por um pai e suas duas crianças. Enquanto ele tenta ganhar a vida pelas ruas de Taipei, norte da ilha de Taiwan, as crianças vagam (errantes) pelo espaço urbano, rural desabitado, ribeiro, mas sobretudo ao lançar mão do contraste de ambientes e dos perigos que as cercam. As crianças sozinhas poderiam se meter em grandes enrascadas, visto que o irmão maior, responsável nessas horas pela caçula, é poucos anos e centímetros mais velho e mais alto. No espaço rural, os perigos de animais peçonhentos ou mesmo de caírem, de se machucarem, de fuxicarem onde não devem. No espaço urbano, a errância por ruas, em meio a estranhos, na impessoalidade característica das novas organizações sociais das metrópoles. Os irmãos percorrem ruas e shopping centers onde buscam transcorrer essa infância entre brincadeiras, imaginação e necessidade fisiológicas. Para se alimentarem, necessitam de provas, amostras grátis de supermercados. Vivem de cafés, misturas, molhos e o que for possível arrecadar. Em uma escolha duvidosa, a pequena opta por comprar um repolho, que acaba por se tornar, na verdade, um brinquedo para dupla, que a disfarça em forma de mulher. 

O desespero do pai, inclusive, traz cena impactante em que, na ausência feminina, se deslumbra com a boneca de repolho deitada ao seu lado. Cospe o disfarce fora e se alimenta da verdura aos pedaços, com o gosto amargo da verdade que lhe saltava à vista. Além da alimentação precária, os hábitos de higiene são por meio de banheiros públicos desses locais, os shoppings centers e os supermercados. A moradia para passarem as noites, em busca de proteção de chuva e insetos, é com o teto de prédios e casarões abandonados. Eles são como nômades à procura de um espaço e do mínimo de dignidade. Uma figura que fez parte de minha infância e aparece no filme é a da rede tida como mosqueteiro para impedir a passagem de insetos durante o sono. Quando em minha infância vivia para proteção dos mosquitos, as crianças do filme poderiam ser importunadas por criaturas piores, de barata para pior.

O emprego informal do pai delas é das contribuições mais destoantes, no mergulho à desigualdade da proposta de exibição do diretor malaio. O pai nada mais é do que um outdoor humano, um cartaz nas sinaleiras, nos semáforos de Taipei. Enquanto carros e motos se digladiam pelas avenidas de luxuoso asfalto em veículos custosos, o sujeito perambula na desorientação de segurar letreiros com promoções que não lhe competem conferir. Por exemplo, promoções de quartos de hotel e anúncios de classificados fora de sua pouca enverdura financeira, para fora de seu alcance.

É com esses anúncios que ele retira misérias de garantia para tentar refeição junto aos filhos no cair da noite e retomarem a jornada para moradia improvisada. Recordo post recorrente nas redes sociais sobre os imóveis parados e as pessoas sem teto. Quantos vendedores ambulantes, camelôs, flanelinhas, limpadores de vidros e outdoores humanos pelas ruas e sem bem para onde ir ao final de cada extenuante e desesperançosa jornada? Trabalham informais aos montes, estatisticamente até contabilizados, mas diariamente ignorados por ineficientes e desinteressados poderes públicos. Pelas Taipei de Leste a Oeste do Mundo se escondem em moradias improvisadas, insalubres e construtoras de infâncias capengas e perdidas.

É com suspiro de esperança que na parte final de lento filme uma mulher surge para condicionar a família a novos rumos e as crianças passam a receber maiores atenções, histórias infantis, fábulas, novas possibilidades, como e principalmente a de estudar. Fazendo lições de casa com o acompanhamento da mulher surge um sorriso de esperança ao espectador congelado pela perspectiva antes tão ilhota e fria. Ao mesmo tempo, na crítica que sempre lhe cabe, o espectador se pergunta sobre o papel social da mulher em diferentes culturas, parecendo atrelar a ela e somente a ela o equilíbrio familiar, o cuidado infantil e ainda por cima a figura de tutora dos primeiros anos de alfabetização, resultados garantidos em números estatísticos e totais da grande maioria de professoras no ensino e na pedagogia. É no acúmulo de tarefas que muitas dessas mães e professoras se frustram no cotidiano. Cabe ao pai nesse filme somente após longa cena de mais de 7 minutos dos atores parados perante um quadro de paisagem na moradia antes abandonada, cabe a ele com abraço agradecer a presença nova no convívio familiar, seguradora e garantidora de restabelecer equilíbrio àquelas pobres vidas, não como solução definitiva, mas apaziguadora.

Nota final para Stray Dogs:

⭐⭐⭐ e meio



O Carroceiro (1963) + Tauw (1970)

Ousmane Sembène é um diretor do cinema senegalês, responsável por grandes trabalhos que demonstram a vida no país sub-saariano. Os filmes aqui explorados remontam ao período em que a influência francesa ainda era tremenda sobre os colonizados, em um ambiente de crescimento das cidades como Dakar, com as dificuldades de sobrevivência com as novas exigências para empregos e moradia a famílias.

Mais aclamado entre esses dois filmes é o Carroceiro, de 1963. Um sujeito sai para trabalhar todos os dias com sua carroça puxada por um cavalo. Ele vive de fretes e pequenos serviços sob contratação. São transportes para mercadorias ou de pessoas. A função do carroceiro, mediante um trânsito que começava a congestionar da presença de carros, se assemelha à função dos motoristas de aplicativo nas selvas de pedra recentes, passado mais de meio século. Entre histórias que ilustram seu cotidiano, há contratação para frete e para buscar uma mulher grávida e levá-la até a maternidade, a tempo para que seja amparada pelo trabalho de parto. Na viagem, um incômodo lhe acomete com uma roda que ameaça a travessia, rangendo e preocupando o transporte.

Em uma missão ousada, o Carroceiro é contratado para uma encomenda em um bairro de ricos, evidenciando o tremendo distanciamento entre os bairros que convive, entre casebres e mazelas e a área asfaltada, mais urbanizada, arborizada e floreada por apartamentos modernos e de arquitetura deslumbrante. Antes da partir pela missão, ele conversava e era alertado por um companheiro dos riscos de trafegar nesse bairro nobre, local de proibido acesso aos pobres. Ignorando o alerta, o carroceiro parte na busca, interceptado por um guarda que lhe pergunta por documentos, habilitação e autorização para dirigir ali. Humilhado e multado, o carroceiro, sem alternativa financeira, é obrigado a abandonar sua charrete (termo escutado igual em francês) e volta de cabeça baixa apenas com seu cavalo. Ele foi abandonado pelo senhor que o contratou, sem sequer o dinheiro do frete para que havia sido contratado, deixando para trás seu meio de trabalho para que os homens ricos lhe aplicassem a multa. O Carroceiro reclama de ter sido enganado, é vítima, foi surrupiado.

"Eles aprendem a ler e a mentir", reclama na viagem de volta. A desigualdade pela cidade é evidente, ele resmunga sobre a diferença das casas, observa o crescimento da cidade como um crescimento impessoal em que não se pode confiar nas pessoas, diferente da convivência aldeã. Com apenas seu cavalo, ele ainda precisa retornar para casa, para o convívio com a mulher, com o peso da humilhação sofrida em mais um dia de trabalho, do qual ele se pergunta os valores de todo o esforço empreendido, se o dia de anteontem, se o de ontem, se o de amanhã nada mais reservam para seu usufruto.

Em recordo do desenvolvimento do filme, em jornada de trabalho ele chega a desistir de almoçar em casa para que aproveite um dia mais movimentado, em que estava sendo bastante requisitado em serviço. Sem saber o que a mulher inventaria para dar conta do almoço, ele se contenta, se satisfaz com um punhado de nozes que havia recebido de um dos amigos de semelhante profissão. O coleguismo entre os pobres ainda existia, ao passo que entre os ricos ele não poderia se confiar. Ao mesmo tempo, os alertas denunciados em Maria Carolina de Jesus e O Quarto de Despejo, de semelhante época em São Paulo, na chamada favela do Canindé - em que a autora apontava que a inocência da união entre os pobres existia na cabeça de quem não fazia parte daquele mundo. No livro, ela aponta brigas entre a vizinhança, desentendimentos severos provocados pela cachaça e até pelas pirraças provocadas pelas crianças, gerando apedrejamento, vinganças com fezes e tudo mais. São retratos de possibilidades de solidariedade ou do desenvolvimento mesmo da raiva entre pessoas em situação precária, debilitada, em déficit econômico, sem ter como proverem o cotidiano com alimentação e dignidade. Em O Carroceiro, Ousmane Sembène prefere optar pela demonstração da desigualdade e pela vilania dos verdadeiros culpados da manifestação de uma pobreza, ao passo que residem em casas nobres, protegidas, supervisionadas e sem interferências que possam ocasionar transtornos. A segregação na África colonizada ocorria sem a necessidade de um apartheid por cor da pele como na África do Sul, mesmo que muitas vezes fosse, sim, francesa a soberania nas terras africanas, como em Senegal, formando ela, França, uma elite ou impulsionando a formação de uma elite negra local.

Nota final para O Carroceiro:

⭐⭐⭐⭐ e meio


Em Tauw, a continuidade da temática da pobreza está nas dificuldades do protagonista em conseguir emprego. Aos 20 anos, ele é acusado por seu pai de fazer corpo mole, de não prover sustento na casa. Tauw, reunido a amigos em situação semelhante, protagonistas de pequenos furtos na cidade, vão em busca de um emprego mais formalizado. Se reúnem a outros tantos jovens que esperavam um chamado como estivadores ou o que fosse. Em uma oportunidade de aparecerem para serviço no Porto de Dakar, Tauw descobre que o bilhete para simples entrada, travessia da cancela do Porto em Dakar, custava o equivalente a 100 francos. 

O dinheiro francês novamente aparece em peça de Ousmane Sembène, evidenciando a influência da França sobre o país na luta por sua libertação e direitos em autonomia. Enquanto não havia essa possibilidade, Tauw e outros senegaleses lutavam pelos francos pela sobrevivência. Enquanto um dos amigos conseguiu o dinheiro, o bilhete e foi trabalhar no porto, Tauw voltou para casa para pedir dinheiro à sua mãe. Ela entrega uma peça de roupa, uma calça do marido para que Tauw venda e possa trabalhar e voltar para casa com mais dinheiro.

Tauw encontra uma mulher e descobre-se que a gravidez dela possa ter sido ocasionada pelo rapaz. Ele gosta dela, quer ajudá-la, ao passo que a moça também passaria naquele dia por uma consulta médica e necessitava do dinheiro para longa passagem de ônibus- visto que obviamente moravam para as equivalentes periferias das cidades grandes, no caso, Dakar. A mulher chega a oferecer ajuda para Tauw, mas não seria a melhor alternativa e ele insiste em tentar vender a calça. Ao mesmo tempo, a falta de dinheiro o irrita, de modo que chega a duvidar ser ele o pai da futura criança. Em reencontro entre eles, a crise se agrava com a mulher necessitando de 2 mil francos para comprar um dito remédio. Tauw se desespera porque nem ele, nem ela teriam condições. 

No avanço final do curta-metragem de 26 minutos (O Carroceiro tem menos tempo, mas ambos abrem espaço para muitas críticas e observações sociais), Tauw toma a medida drástica de contar para seu pai sobre o ocorrido e, para lamúria e discordância da mãe, resolve sair de casa ao pedir a mulher em casamento e tentarem desbravar a difícil jornada da vida juntos. O filme é permeado ainda por tentativas de ensinamentos escolares e religiosos (na verdade adjuntos) em que as crianças leem lições e versos islãs para um mestre. Enquanto percorre as ruas em busca da salvação da sua eminente crise financeira, Tauw ainda se depara com os demais apelando para as rezas diárias para Allah. A salvação, vista nos filmes, não seria da boa índole dos ricos para os carroceiros ou os que tentassem serviços ocasionais no porto, jovens impedidos de uma educação formal e de garantias de trabalho mesmo braçal. O carroceiro que perdeu seu veículo e o rapaz que precisava arranjar primeiro 100 francos que sobrassem para um dia de serviço sob a chancela da administração portuária.

Nota final para história de Tauw:

⭐⭐⭐⭐


Senegal foi colônia da França entre 1817 e 1960. Apesar da data oficial de emancipação ser em 1960, a influência francesa, em dinheiro, costumes, autoridades e burguesia eram constantes nos anos vindouros, conforme denúncia o cinema de Ousmane Sembelé nesses dois curtas apresentados. A influência está desde o idioma ao dinheiro utilizado na exploração do desenvolvimento senegalês. Quanto à exploração dos recursos da terra, caberia mais do que um capítulo à parte dessa análise.

Na curiosidade com o futebol, Senegal derrotou a França na Copa do Mundo de 2002. Os senegaleses venceram a colonizadora e assim a eliminaram do torneio ainda na fase de grupos. Em 2026, novamente Senegal e França foram sorteados para o mesmo grupo e vão realizar novo duelo. Outros países que passaram por enfermidades sob domínio francês, e que costumam se destacar no futebol e nas artes, são Marrocos, Argélia, Camarões, Tunísia e Congo.

14/11/2025

Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade (2014)

Mais uma pela incursão ao cinema nacional. Joli é uma mulher que se recupera do vício em drogas. Ela está de volta a Recife. Seu pai é um importante deputado, chamado Antônio. Antônio concorre a um novo cargo,  a prefeitura da capital pernambucana. O regresso de Joli pode atrapalhar os planos do bon vivant. 

Quanto vale o preço para vencer uma eleição? Talvez vender a própria filha.  Poderia ser a frase que inicia a análise. O filme Prometo um dia deixar essa cidade traz muitos assuntos, ampliados e esmiuçados até as cenas paralelas ao subir dos créditos finais. De um filme com tanta pretensão e ideias pode-se tirar coisas positivas. O longa é um dos poucos até hoje lançados pelo diretor Daniel Aragão. Seus pôsteres são artísticos, um comentarista afirma lembrar a arte do alemão Werner Fassbinder. As propostas tornam-se ousadas, desafiadoras e polêmicas. Detalhes não passam despercebidos. Qual será a intenção ao utilizar a sigla fictícia para o partido do matreiro Antônio como PSTB. No filme podemos ouvir errado até que a sigla se destaque em painel diante de nossos olhos. A semiótica e as cores em vermelho estão lançadas.

Marcado pelo episódio negativo na família, Antônio anseia sua campanha em uma disputa para erradicar as drogas, para financiar projetos como os de um pastor em comunidade carente. A Recife é demonstrada entre as reuniões de terno e gravata, as casas com jardins e os apartamentos caros que contrastam com comunidade carentes, com ruas de terra, sem esgoto, difícil acesso para chegar ou sair, e crianças marginalizadas em diversões improvisadas, como jogar bola sobre a cancha de terra.

O retorno de Joli desafia a campanha de Antônio. Ele exerce um paternalismo doentio, arranja um casamento para filha se manter fora de enrascada. Em vão. O casamento arranjado não é suficiente para drenar a fúria e a revolta de Joli, que, se havia se curado do antigo vício, não suportava a vida de mentiras e de campanha difamatória, falsa e moralista proposta por seu pai no almejo ao cargo maior no município. Joli convive com personagens contraditórias. A amiga em recaída com o crack, o marido da amiga que acredita ser Joli a permanente má influência da esposa, mesmo a ruiva estando livre das drogas ilícitas.

Um debate aberto, proposto pelo filme é o entre as drogas, os fármacos lícitos e os ilícitos. O poder de decisão vindo de um político influente torna inclusive a saúde da própria filha como um experimento. Ele pretende sedá-la e até seduzi-la para manter a estrada da eleição aberta e encaminhada. Enquanto algumas drogas que fogem ao controle dos políticos, por efeitos ou principalmente pela fuga de lucro e fiscalização de impostos, são combatidas, outras são assinadas em convênios, testadas sem perspectiva exata a longo prazo, incentivadas sobre corpos ratos de laboratório. Mesmo as pesquisas nacionais e internacionais podem ser fraudadas. Mesmo os estudos assinados podem ser comprados. Mesmo um ente querido, quando interfere na caminhada rumo ao poder, pode e deve ser derrotado pela lógica maior do lucro.

O filme possui alguns elementos fantasiosos, simulações da mente e dos efeitos dos narcóticos sobre a mente de Joli. O ponto de vista é alternado dela para também mostrar o desespero do político que se vê encurralado em sua campanha de talvez precisar apoiar um adversário, que também deveria ser derrotado. A volta de Joli causa burburinho, mobiliza noticiário, exprime agenda negativa, causa desconfiança e precisa ser combatida como consequência.

A falta de escrúpulos e limites nas agendas e métodos políticos são abordados no filme; da campanha envolta em falsidade e publicidades enganosas na aplicação de fundos partidários, da corrupção aos convênios de eliminar adversários, de desbloquear o caminho a qualquer custo. A conveniência e o poder movem o jogo, contra quem for. Na metodologia utilizada por António estão a participação da indústria farmacêutica e da medicina a serviço do poder, do terno e da gravata. A farda policial na mesma linha, forma de atuar idem. De sabotadora à sabotada estava selado o destino de Joli, na promessa fantasiosa de um dia deixar essa cidade: custe o que custar.

Nota final para Prometo Um Dia Deixar Essa Cidade:

3,5 / 5



11/11/2025

Trabalhar Cansa (2011) + Quando Eu Era Vivo (2014)

Ao assistir esses dois filmes em sequência, o que me chamou atenção é que o final de Trabalhar Cansa termina com um grito e o início de Quando Eu Era Vivo começa com outro. Se emendam. Com crítica social mais apurada, ao estilo incessante das denúncias sociais de Que Horas Ela Volta?, o longa Trabalhar Cansa (2011) tem direção dos paulistas Marco Dutra e Juliana Rojas.

Otávio é um pai de família recém desempregado. Ele sabe que será difícil arranjar uma nova oportunidade e o filme gira em torno disso. Para manter o padrão elevado da família do executivo, do trabalhador de escritório, a esposa Helena resolve alugar um espaço para reabrir um supermercado de bairro, o Curumim. Eles alugam do senhor Alfredo, mas as coisas nunca se encaminham como planejavam. Helena vai se tornando uma tirana, tem dificuldade em lidar e orientar os funcionários (antes da mania nacional de chamarem a todos de colaboradores). Os problemas estruturais do prédio e relacionais entre patrão e empregado são o atemperamento do filme. 

Além de lidar com o Curumim, Helena contratou a jovem Paula para ser empregada doméstica. O filme cita questões polêmicas como a assinatura de carteira de trabalho, os benefícios e garantias para os trabalhadores e a dificuldade dos patrões em cumprirem as normas e leis empregatícias. O movimento do reaberto supermercado nunca agrada. São problemas estrururais, infiltrações em parede, entupimento de esgoto, clientela exigente, saudosista ou insatisfeita, funcionários suspeitos de desvios de mercadorias.

Enquanto Helena se espezinha em contratar jovens funcionários, Otávio luta em agências de emprego para cargos que procuram gente mais proativa, jovem e capacitada. Sua experiência de cabeça calva não agrada aos contratantes. "Afrouxa a gravata, tira uma foto sem para o currículo". E os meses passam com uma casa onde o marido perdeu protagonismo. A sogra, a mãe de Helena ainda passa a ajudar financeiramente a família e a interferir cada vez mais nas decisões, inclusive se estranhando com Paula, a empregada. O casal tinha dois filhos, que por ora aparecem em cenas de estranhamento com o corte de energia elétrica, em planejamento de viagem de férias familiares e episódios da escola, não especificada assim, mas com elementos do filme com os quais podemos concluir que era particular e elitista. Até o uso da chamada black face em apresentação da escola gera polêmica para quem assiste - objetivo atingido na escolha da direção do filme.

Trabalhar Cansa denuncia as polêmicas relações de patrão e empregado, aponta as diferenças nos serviços, na forma de tratamento, na tomada de decisões, por exemplo Helena, que se nega a reduzir gastos em casa com a família e insiste com o supermercado até medidas drásticas, como abrir o Curumim em pleno feriado de carnaval, quando os estabelecimentos concorrentes estariam fechados, causando maior desagrado e ruído de comunicação entre os funcionários do super. 

A obsolescência de Otávio com o mercado de trabalho permanece até o final do filme. A figura do funcionário descartável, ultrapassado, preterido por mais jovens e proativos. A figura das crianças alheias a decisões, mas vítimas das mesmas, sem entender a crise familiar que tenta excluí-los dessa tomada de conhecimento. A união dos funcionários em tomar decisões por eles próprios, alheios ao desconforto que poderiam gerar ao patronato.

Para parte final do longa, a mescla com o terror apimenta um pouco o suspense e as reações, mas sem transfigurar o objetivo maior do filme. Trabalhar Cansa fica subordinado à temática do nome proposto, sem adentrar tamanho espaço à lenda urbana que se desenvolvia no próprio supermercado. Antes a figura monstruosa a surgir poderia ser metáfora do escravismo, derrubado a marretadas estruturais na parede do supermercado. 

Em Quando Eu Era Vivo (2014), além dos gritos do louco que vivia na rua do prédio para onde o protagonista se desloca para encontrar o pai - e viver polemicamente com ele - a relação com o filme Trabalhar Cansa está na situação desse personagem principal com o papel de Otávio no primeiro filme. Ambos são homens desempregados, cada vez mais solitários, excluídos e pressionados pela dependência e pela pressão social de serem novamente provedores e tomadores de decisão.

O protagonista recebe o nome de Júnior, mas aos poucos começa a se estranhar com o pai, que ele diz "não ser mais o mesmo de antes". No apartamento eles recebem a estudante Bruna, musicista interpretada pela cantora e atriz Sandy Leah (ela mesma). Junior obviamente, na vida solitária e despropositada, se interessa pela jovem Bruna, a qual tem um namorado que pouco aparece.

Júnior faz buscas em caixotes aprisionados no apartamento e descobre heranças familiares, vídeos antigos, cartas e enigmas escritos pela falecida mãe e pelo irmão Pedrinho, que está desaparecido na primeira metade do filme, mas, a quem não viu, talvez ele não esteja morto. Nas brincadeiras antigas com Pedrinho, gravadas ou documentadas por meio da escrita, Júnior reúne provas para avançar uma pesquisa ao encontro de verdades ocultas: justamente o caminho para o suspense e o terror em Quando Eu Era Vivo. Os contatos espirituais intrigam pessoas ligadas à família e até uma medium contratada para leitura e melhora espiritual da situação de Júnior, este cada vez mais trabalhoso para seu pai lidar com isso.

Em comum em outro longa assinado pelo Marco Dutra, os personagens Otávio e Junior avançam na paranoia e não na solução de arrumar um emprego e cessarem, ou ao menos reduzirem, a loucura daquele tempo de ócio. As pesquisas aprofundadas de Júnior geram contatos com o além e uma porta aberta para outros seres estarem entre eles.

O segundo filme comentado aqui tem muito mais da temática do terror comumente abordado nessas produções, não tanto o terror social do desempregado, da dificuldade empregatícia e dos apertos financeiros pelos quais passam a sociedade  brasileira. São duas formas de se abordar o terror. São dois legítimos representantes do cinema brasileiro, em que o primeiro faz por merecer uma melhor nota, se pensarmos em uma avaliação final.


07/11/2025

Contra Todos (2004)

Um dos poucos longas do diretor e produtor paulista Roberto Moreira. Contra Todos conta uma história cheia de reviravoltas sobre uma família já inicialmente polêmica e posteriormente desmantelada na periferia da maior cidade da América. Theodoro é um pai de família que vive com sua filha Soninha e com a (segunda) esposa Cláudia. As desavenças entre os três são crescentes e os motivos são os mais diversos nesse carrossel de climas e situações.

Theodoro aos poucos demonstra que não é o sujeito respeitado e respeitável que aparenta ser. No submundo em que faz parte, ele tem amigos próximos, mas talvez próximos demais. A trama gira em torno da confiança e da desconfiança implantada na relação entre as personagens. Quem errar pode pagar caro por isso, pois a lei da selva e de quem possua maior poder - de fogo ou de decisão - é bastante levada em conta.

A ambientação para o início dos anos 2000 é interessante, com a estética de ídolos do pop e do rock, a aparição da filha rebelde com Guns and Roses, Nirvana, Ozzy Osbourne, Bob Marley e outros ídolos. A temática do tráfico de drogas como uma crescente na vida desses jovens e dos sub-empregos adultos. A vida dupla controlando as ações na trama.

Theodoro busca mais outra esposa e pode até se apoiar na fé evangélica para deixar para trás o rastro de erros de seu caminho. Cláudia se mostra insaciável em seu desejo por quem apareça. Soninha vive entre a rebeldia adolescente e a falta de regras e de controle, encontrando consolo e algum apoio em mais figuras distintas que irão proporcionar esses crossovers.

Os personagens fabricam suas leis e diretrizes demonstrando comportamentos desruptivos, impulsivos e inconsequentes. As reviravoltas ocorrem a cada poucos minutos, retendo a atenção do espectador e convidando a adivinhar os destinos dessa trama de sonhos despedaçados, readequados ou mesmo completamente perdidos.

Contra Todos não é um nome por acaso. A casa pode cair a qualquer momento e o jogo de confianças pode mudar muito rapidamente. Ou nem tanto. Apesar da produção baixa em valores e dos improvisos de locações, isso não compromete o produto final, feito também com atores de crescente aparição ou mesmo desaparição das telas de maior sucesso a seguir.

🌟🌟🌟🌟

07/10/2025

The Last Black Man in San Francisco (2019)

Um retrato cada vez mais atual dos Estados Unidos, O Último Homem Negro em São Francisco (2019), direção de Joe Talbot, foi gravado e lançado antes da grande pandemia de covid-19, que seria ainda mais devastadora para o país. A história de Jimmy Fails e sua obsessão por recuperar a casa de seu avô, em zona nobre de uma das mais nobres cidades na América do Norte e no mundo (será?), uma casa do que chamam traços vitorianos e que tem toda pinta de ser construída durante o século 19 (1800 e lá vai pedrada).

A história de Jimmy aproxima os Estados Unidos muito mais do chamado Terceiro Mundo do que eles gostariam. Um jovem sem perspectivas, que vive em uma zona metropolitana, mas na periferia, anda de skate ou aguarda ônibus que nunca chegam no horário que ele deseja. Com ajuda do seu amigo Mont, eles rumam diariamente para São Francisco para manter conservada a casa que foi do avô de Jimmy, mesmo que outras pessoas, brancas, vivam nela atualmente. É com uma morte na família dos atuais proprietários e com a casa se transformando em uma briga judicial entre irmãs que Jimmy enxerga a possibilidade de morar novamente na casa, enquanto a questão na Justiça não fosse tratada. Mas a especulação imobiliária fortíssima, predadora e voraz nos EUA não dará muito tempo ou sossego ao personagem principal.

Quanto a seus familiares, Jimmy tem um pai envolvido com tráfico de drogas e pirataria, onde aparece cortando encartes de CDs e DVDs piratas. A mãe de Jimmy é totalmente ausente, ele nem sabia por onde ela andava, acreditando que ela teria se mudado e permanecido em Los Angeles. A grande esperança para ajudar Jimmy é o amigo Mont, fiel escudeiro desse Dom Quixote, e escritor de teatro, mais uma missão difícil, tratando-se de investir culturalmente àqueles lados. Por conta da casa promissora em região nobre, Jimmy acredita com algum ar de superioridade levar vantagem sobre outros moradores de seu bairro original, jovens como ele que passam o dia na calçada se xingando e inventando passatempos suspeitos.

O filme é preenchido por coadjuvantes e figurantes típicos dos subúrbios estadunidenses (e que os aproximam do Terceiro Mundo mais do que eles gostariam de admitir). Um fanático religioso recitando discurso para poucos ouvintes - geralmente o próprio Jimmy na espera pelo ônibus. Um velho que aparece totalmente nu em ponto de ônibus de San Francisco. Uma multidão de turistas em bondinho que ovaciona o velho pelado como símbolo de loucura e autenticidade. Duas jovens sem perspectiva em um ônibus falando sobre as desvantagens de morar em uma aparente decadente San Francisco, que, literalmente, mantém a(s) fachada(s). Moradores brancos de classe média alta, maioria de idade avançada, que estranham a movimentação de negros no bairro torneado de nobreza. Guia turístico e seus clientes em patinetes eletrônicos em visita ao bairro e às casas nobres, procurando saber sobre as respectivas histórias das construções. Corretores imobiliários nada empáticos, devoradores de oportunidades e sonhos - mais do que vendedores de sonhos e oportunidades. Um maluco, amigo/conhecido de Jimmy que transformou o carro em sua própria moradia, com luzes de natal, varal de roupas, bancos/cama reclináveis, mesclado entre a loucura e a lucidez.

São vistas vítimas da violência urbana, da falta de oportunidades de emprego, da desigualdade racial entre brancos e negros, da desigualdade social entre classes econômicas; aparecem os bicos, os sub-empregos, as lembranças guardadas em caixas pela tia de Jimmy, a mistura entre realidade e a fantasia na mente do jovem adulto, a mescla entre história, identidade e projeção futura nas ambições de Jimmy; a busca desesperada e afunilada de Jimmy pelo direito à moradia que um dia foi de sua família. No enfrentamento ao tema da devoração imobiliária, que mantém casas históricas, espaçosas e bem construídas, reforçadas, paradas, sem uso, enquanto milhares de norte-americanos em todas as capitais vivem em barracas, veículos e parques urbanos. A luta pela ocupação, ao menos a oportunidade como direito, sendo vista, sendo tratada como um sonho, uma alucinação, um devaneio, um delírio. Aqui lembra o filme francês sobre o edifício Gagarine, e a velha pergunta - quantos edifícios Gagarine não estão nos cines? Estão no cotidiano das grandes cidades.

Nota final para The Last Black Man in San Francisco:

🌟🌟🌟🌟

04/10/2025

O Azarento, Um Homem de Sorte (1972)

Um filme brasileiro de comédia com humor até bastante escrachado, mas com caprichos do cotidiano que conferem comicidade. Direção de João Bennio. Se mudando do interior para Goiânia, um sujeito apático, solitário e sem o intuito de criar problemas é na verdade o Azarento. Ele atrai situação de desastre, desregula de motores a eletrônicos, destrói vidraças, distrai trabalhadores em curso. Um perigo por onde anda.

O dito Azarento nasceu em uma sexta-feira 13 de agosto, o mês dos cães loucos, de um ano bissexto. Aí calculem qual ano desse calendário gregoriano poderia Lazarento ter vindo ao mundo. Não aprontava tanto em seu pequeno sítio, até mulher apaixonada e prometida esposa havia, mas ele foi para ganhar a vida. Ou perdê-la ou fazer com que percam. O filme não traz tanta história: o princípio é que Lazarento passeia de um lado a outro e por onde por acaso passa é fait diver na certa. Uma confusão que pára o trânsito goiano com engarrafamento, falhas mecânicas e colisões é digna do videoclipe da canção do Green Day, Walking Contradction, quando Billie Joe Armstrong e seus capangas caminham por uma cidade do interior dos EUA fazendo pifar semáforos, postes, placas e veículos. Uma balbúrdia. O Azarento era dessa radicalidade.

Além da cômica cena de parar o trânsito e causar transtorno aos motoristas e pedestres goianos, o sertanejo avança para um páreo de turfe no jockey club. Tudo ocorria bem nas arquibancadas e na arracanda com os cavalos e jóqueis, até que o efeito da presença dele traz quedas, pinotes, andanças em círculo e uma situação de caos que revolta o rápido narrador da corrida. É uma sequência de eventos sem explicação, denunciavam e procuravam resposta entre rádios e jornal impresso. É no jornal que uma conferência se forma ao perceberem um rosto em comum entre fotos dos diferentes desastres que povoariam as páginas do periódico. Mas esse sujeito parece comum a mais eventos, está nesse também e, vejam só, também em outro. Está portanto lançado o apelido maldoso de Azarento para o cidadão presente nos desastres. Ele é ordenado de prisão e afastamento do convívio das ruas.

Após lançada a campanha pela captura do responsável em colocar o cabelo da cidade em pé, uma ligação anônima vinda de um restaurante identifica o herói da trama. A polícia se aproxima da casa onde estão diversos machucados, vítimas das peripécias do Azarento e o procurado estava a tomar café tranquilamente, quando é surpreendido por três guardas. Ele tem voz de prisão decretada, mas nenhum dos homens ousa se aproximar de tamanho azar. À distância e sem algemas, Azarento é conduzido até a penitenciária local. As confusões estariam enfim cessadas? Óbvio que não. Com o azar pendente ao sistema carcerário, os guardas cochilam, os presos armam um plano certeiro apenas com a presença de Azarento, que sequer deixa sua cela, cabisbaixo e recolhido a seu status desprezado. Os demais aproveitam, roubam chave, abrem os portões e ganham as ruas. É caos novamente na pobre Goiânia, não bastassem episódios de Césio na localidade.

Azarento é encontrado pelo diretor da prisão no dia seguinte ainda na solidão da alcova. É expulso. Setenciado que não volte mais, que vá para o mais longe possível. Estava danado o pobre diretor com a debandada de sua farta safra de presos e com o caos novamente a orbitar e a estrebuchar as pacatas terras sertanejas de centro-oeste brasileiro.

Entre episódios de desolação e comicidade, a publicidade é um grande trunfo no filme de João Bennio. Descobrem que o herói passou a calçar sapatos que lhe eliminavam o azar. Se até dele o azar se dissipou, a população estava então obrigada a consumir. Propagandas em rádio, em alto-falantes, em jornais, publicidade até nos começos da televisão em cores para todo Brasil. Azarento vira sujeito famoso e bem quisto, cidadão homenageado, requisitado, entrevistado. O que ele pensa sobre aborto, guerra, política, atores, gente famosa, tudo é questionado ao herói de quase nenhuma convicção e de personalidade nada marcante. Azarento é apenas a personificação do azar, a ambulância dos desprazeres do caos. Mas até para Azarento a vida sorriria. Um garoto traquinas que ele só importunava passageiros de um voo onde sentado ia o herói. Entre outras vítimas enquanto a mãe fazia a egípcia, Azarento tem seu famoso sapato arrancado pelo badboy mirim e assim começa uma turbulência frenética quando o voo da VASP já estava próximo do destino final em terras cariocas. Os passageiros lutavam pela sobrevivência e contra o desespero de uma eminente queda quando percebem o rosto famoso de Azarento na classe da aeronave. Denunciado, aturdido, sem escolha, Azarento deve saltar de pára-quedas para salvar o destino do voo. O calçam com o equipamento de ousado pulo e o empurram para fora. Boa sorte ao Azarento e a todos que chegariam para o Galeão.

Azarento recuperaria sua sorte ao aterrissar justamente em uma piscina lotada de boas pintas cariocas, gente da socialite, de alta recomendação, da classe abastada. Para maior sorte, recorre-se aqui ao spoiler final, ele vai direto para os braços de uma solteira convicta e herdeira, desejada por todos os rapazotes. Azarento estaria recuperado das diversas crises de azar que como uma rinite de espirros o perseguiam em vida? Aí é descobrir nos minutos finais da história genuinamente brasileira e que inspira humor para quem a vê.

Nota final para comédia proposta pelo diretor João Bennio:

3,5 / 5

03/10/2025

La Grande Noirceur (2018)

Philip é um imitador de Charlie Chaplin que vence um concurso entre imitadores do ídolo. O filme tem origem no Quebec, mesclando as falas em inglês e francês, mas Philip está longe de casa, tentando sobreviver em lados ermos do Oeste dos Estados Unidos. Apesar de recente e apocalíptico, La Grande Noirceur é ambientado pós Segunda Guerra Mundial, entre crise e violência, resquícios de nazismo e crueldade.

Logo ao vencer o concurso, Philip sofre nas mãos dos concorrentes derrotados. Tem sua carteira roubada e lhe sobra também somente sua roupa do corpo. O filme é bastante introspectivo, na solidão e nas dificuldades enfrentadas pelo personagem principal. Ele perde e corre atrás de trens. Passa dias endesertado, entre a terra árida e o gelo. Encontra carona com um francês que lhe compreende e ambos podem conversar no idioma que mais lhes convém. O francês conquista a confiança de Philip e se anuncia como um procurador de talentos como o dele. É bonita a cena em que pede para Philip exibir seu número e o protagonista dança solitário pelas terras do deserto, montanhoso ao fundo. Os passos descontraídos e descomedidos são interrompidos por um anúncio de rádio que corta a magia da canção. Os Estados Unidos seguem retrucando pela guerra. São um país que se recusa a perder, que só ambiciona vitórias, que admira os melhores do beisebol, de outros esportes e precisa desse sangue jovem, atrevido e vencedor em busca das conquistas na Europa. Os EUA não toleram os perdedores, então não seja um - Philip, revoltado com a propaganda belicosa, salta para o carro do francês (que talvez nem estivesse entendendo toda a mensagem) e desliga o rádio, enquanto desaba em exaustão e emoção pelo período de crise.

Philip deixa a carona e prossegue sua jornada. Ele encontrará vilarejos remotos e uma casa que parecia a acolhida necessária, com uma loira atraente, mas cada vez mais estranho. La Grande Noirceur é de 2018, mas parece incorporar cenas como Good Boy, de 2022, em que seres humanos são tratados em tempo integral como cachorros. Assim foi a captura da chamada Rosie, uma jovem atada por coleira, controlada pela estranha loira. Rosie revela que foi capturada há cinco anos e seu verdadeiro nome é Esther. Ela se alimenta e dorme no chão, distribui lambidas e vive amarrada na incorporação de ser uma cadela. Está sob controle absoluto dos párias psicopatas. Embora a loira diga que seu marido havia morrido, essa é só mais uma das crescentes suspeitas e dúvidas de Philip nesse universo diabólico e violento.

Philip tem uma jornada introspectiva, fugidia e permeada de personagens bizarros que demonstram a cultura de violência sobrevivente dos Estados Unidos da América, mesmo entre não idos à guerra. Sintomático dessa nação de guerrilheiros que pregam uma liberdade para acorrentar pessoas como cachorros. O desejo do canadense era voltar para casa, onde desejava se encontrar com sua mãe. Alguns elementos do filme permitem identificar a época remota, mas fazem pensar justamente em um tempo atual após eventos catastróficos (como uma nomeada guerra distante ou local, civil). O contato com a mãe no Canadá é feito por telefones interpelados por telefonistas, profissão em desuso. A tecnologia aparece pouco, mas é possível ser vista em automóveis como o dirigido pelo francês na erma estrada. As armas de fogo estão sob as mãos dos verozes habitantes, pela sobrevivência ou para realizar ataques contra fragilizados. Onde haverá espaço em um mundo como esse para palhaços imitadores, dançarinos e musicais apreciadores de arte, performadores de arte?

Então, a produção do filme não necessariamente transporta para época do século passado. É uma crítica aos Estados Unidos atuais, um interior armamentista, uma população convocada por forças ditas patrióticas, fomentadora de guerra, dos artefatos bélicos, da liberdade que restringe a liberdade estrangeira, do outro. La Grande Noirceur une elementos dos filmes noir da época, do pós guerra, das décadas de 1940 e 1950, com a crítica que permanece válida em uma nação comandada pelo reeleito e sedento Donald.

Nota final para La Grande Noirceur:
🌟🌟🌟🌟

30/09/2025

Titicut Follies (1967)

Titicut Follies é um dos vários documentários produzidos pelo norte-americano e judeu Frederick Wiseman. Neste, a câmera está ligada em um internato psiquiátrico, uma prisão para condenados e pacientes da ala psiquiátrica. O convívio problemático e conjunto entre eles marca o filme, em que o foco, na verdade, está nas atitudes grosseiras e debochadas dos agentes do local com os detentos.

Um preso no início é provocado pelo seu quarto não estar em ordem. Não está limpo. Ele é intimado a arrumar até o dia seguinte. "Como estará o quarto?" "Limpo", ele responde. Mas a pergunta é feita repetidas vezes, ele grita, se desespera, é um detento das alas psiquiátricas. Ele é provocado à exaustão. Assim seria com vários.

Dois casos em particular chamam atenção pela necessidade e apresentações de discursos coerentes, lúcidos e denunciantes. Na verdade, é impressionante que trabalhos denunciadores como os de Wiseman fossem aprovados e exibidos a algum público. Eles achincalham as instituições norte-americanos, em suas falhas penais, de saúde e bem estar para seus habitantes. Em um dos discursos está um russo com nome de Vladimir - comum à Rússia, mas não seria adaptado? Vladimir nem falaria inglês fluente antes, mas discursa nervoso, ansioso e sedento por sair da instituição. Ele está a um ano e meio nessa prisão e deseja retornar à sociedade o quanto antes. Vale ressaltar o contexto de guerra fria para época, em pleno 1967, como diriam, os auges da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, após segunda guerra e ainda longe do desfecho de queda do muro berlinense. Vladimir reclama dos medicamentos que é obrigado a inserir, que sente alterações no tórax, que sente estar piorando ao invés de melhorar. Os médicos, ao contrário das súplicas, liberariam o paciente somente quando ele apresentasse melhoras. Ele denuncia a contrariedade: como vai melhorar se os medicamentos o pioram? Vai sair dali nunca por essa lógica homicida.

Além de Vladimir, um outro preso denuncia a lógica estadunidense de chamar a todos os inimigos como comunistas dessa guerra fria. A imagem ao final do texto realça os principais pontos tocados pelo paciente. Ele discursa em banhos de sol no pátio, é escutado por poucos, contrariado ainda por outros e ignorado pela maioria que nem sequer o entende, com problemas graves de cognição e déficit de atenção. Todos medicados, talvez pelas mesmas adversas medicinas denunciadas em filmes como Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Este outro preso chega a discutir com um detento patriótico e apoiador das obtusas instituições estadunidenses. Ele perde um pouco da razão ao atropelar as tentativas de interpelar do outro, mas demonstra muita racionalidade, muito mais do que iríamos supor para estar ali. Mas é aquilo: razão até demais. Deve fazer mal.

A interferência no Vietnã, a atração e a provocação por guerras são postas no discurso do referido preso. Ele compara, de uma forma um tanto quanto machista, é bem verdade, a atuação dos Estados Unidos como uma mulher ninfomaníaca, que é sedenta na procura por guerras e só assim teria sua satisfação pessoal. Durante décadas observou-se esse comportamento sedento e sedutor por guerras através de transferências econômicas como investimentos em exércitos e vendas de armas; sem ganho econômico não faria sentido tamanho belicismo.

De volta a Vladimir, este denuncia quando questionado que não possui formas de lazer, é impossível desenvolver-se socialmente em meio ao microcosmos de isolamento e de tentativa frustrada de denominador comum para presos com os mais diversos graus de alterações, transtornos e problemas. Não há esporte, "somente uma luva e uma bola de beisebol". O controle e a rigidez das instituições e dos quartos ofenderia qualquer prisão da península nórdica entre Noruega e Finlândia da posteridade.

Um dos presos estava em greve de fome como protesto e foi obrigado a consumir alimentos pelo nariz, em um tubo, em uma das cenas mais agoniantes em que é recomendável até avançar a fita. Suas costelas em sobressalto, a nudez de algumas cenas e finalmente a injeção intubada pelo nariz da vítima dessa prática torturante. Um padre abençoava os detentos com orações católicas para quem assim quisesse ou não quisesse.

Os documentários de Frederick Wiseman deveriam ser exibidos ao mundo para mostrar atrasos, distorções, noções escondidas e inferiormente conhecidas da chamada terra da liberdade, onde liberdade muitas vezes é controle, liberdade muitas vezes é submissão, liberdade muitas vezes é suborno, liberdade muitas vezes é imposição, é aprisionamento, são ataques ao estrangeiro, ameaças e destruição, seja por falta de métodos mais avançados para o desenvolvimento ou maldade crua.

🌟🌟🌟🌟 

1- A instituição filmada é o Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos Insanos, uma instituição correcional em Bridgewater, Massachusetts.

2- A informação é de que o documentário de Wiseman ficou banido do território estadunidense por pelo menos 25 anos de exibição proibida, o que faz sentido com o questionamento deste escriba.

25/09/2025

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Branco Sai, Preto Fica é um filme nacional de 2014 e possui muitas camadas a serem analisadas. É certo que sua nota não pode ser baixa. O filme mistura gêneros cinematográficos mesmo com um orçamento discreto, inclusive com ficção científica sem efeitos especiais. Está muito no imaginário.

Dimas Cravalanças é um viajante no tempo. Ele tem a missão de voltar para uma época e coletar provas de que havia racismo forte, omissão de governo e violência policial. Brasília é uma cidade sitiada, onde é necessario passaporte e autorização para trocar de bairro à noite, tem toque de recolher. A violência policial foi o episódio capital do filme. Ela é apenas narrada pelos personagens.

Dois personagens negros foram vítimas da violência policial em um baile em Brasília. Logo no começo do filme um cadeirante que adaptou sua casa para cadeira de rodas, e possui uma rádio pirata com um singelo estúdio, conta sua história. Na entrada brusca da polícia para acabar com esse referido baile, ele acabou PCD. Durante a invasão da polícia, logo ao início do filme na narrativa, o personagem anuncia a frase derradeira do nome: "Branco Sai, Preto Fica", no escancarado racismo policial brasileiro.

Ele simula diálogos de abordagem. "Tá olhando o quê? Tá armado?", entre outras frases. Quem conhece operações, principalmente em bairros pobres, sabe da verossimilhança.

Outro personagem perdeu uma das pernas nessa ação e hoje utiliza perna mecânica. O filme é como um documentário da vivência deles, na união com drama e ficção científica pelo viajante no tempo. Esse personagem que perdeu a perna conta que tentou fugir na entrada da polícia, mas o cerco era forte, havia cavalaria e ele foi pisoteado. O resultado foi a amputação. Como forma narrativa e de empatia, ele inclusive conta como foi acordar no hospital após a cirurgia, em visão marcante em que se sentia melhor e pensava levantar para ir ao banheiro, mas ele não tinha mais a perna. Há referências científicas no filme como a sensação em que o cérebro ainda acredita na existência da perna. O sistema nervoso humano demora a se acostumar à nova realidade.

Esses personagens são a espinha dorsal do filme e Dimas Cravalanças precisa conhecê-los, investigar suas vidas e enviar essas provas ao futuro para denunciar a omissão de justiça e o descaso policial. O aprofundamento do filme se deve a maiores detalhes de como os personagens ganham seu sustento. O DJ ainda quer trabalhar com música, mesmo com suas limitações de acessibilidade e de equipamentos. Ele pede ajuda a um sócio, precisa investir grana em nova aparelhagem e em passaportes para circularem pela sitiada Brasília. Era nada fácil. Nessa trama, ele convive com outros artistas um tanto quanto questionáveis. Há um tecno brega que lançava a dança do jumento, balançando o instrumento, e contava com back vocals, cantoras de apoio. Um tanto constrangedor. Outro rapper muito mais sério ajuda nas denúncias propostas pela história do diretor Adirley Queirós. No rap do entrevistado, no improvisado e modernizado estúdio do cadeirante, um pouco mais da história da periferia. Brasília, afinal de contas, é uma cidade que nasce política, centralizada nos poderes executivo, legislativo e judiciário e passa a receber trabalhadores e migrantes de todos os rincões brasileiros - e estrangeiros, bolivianos, peruanos, enfim - Renato Russo já cantava essa proximidade em faroestes caboclos. 

A história de tentar superar traumas e deformidades arregaça o preconceito existente. A dificuldade enfrentada pela periferia, ainda mais quando se sofre preconceito pela cor da pele, quando se sofre preconceito e se enfrentam limitações pela acessibilidade. A perna mecânica que precisa ser comprada, reparada, arrumada, talvez trocada ou adaptada. Sem ajuda pública, um irmão precisa ajudar o outro. Sem espaço na mídia, um DJ precisa buscar investimentos com sócios suspeitos, com artistas estranhos, com recursos limitados.

Branco Sai, Preto Fica é uma frase que abre um leque de significados. Sai de cena? Sai do baile para não levar porrada de polícia? Sai do protagonismo e finalmente abre espaço a quem nunca é ouvido? Esse filme brasileiro tem tudo para, mesmo com limitações na linearidade da história, com o roteiro que pode ser considerado confuso pelos espectadores, se tornar um clássico da época. 2014 de um Brasil escravizado e ainda escravizante.

Nota final para o filme de Adirley Queirós:

🌟🌟🌟🌟

24/09/2025

Ladrões de Cinema (1977)

Ladrões de Cinema é um filme brasileiro muito interessante, a começar pelo referido período de 1977, durante a ditadura militar brasileira, ou seja, tinha de passar pelos censores. E conseguiu e mesmo assim trouxe críticas construtivas. O filme começa no carnaval carioca com uma equipe de filmagem vinda dos Estados Unidos. Eles documentam o carnaval do Rio de Janeiro e construiriam um filme/documentário sobre. O equipamento é roubado em plena avenida e os cineastas ficam estatelados no chão, sem poder identificar os ladrões.

O equipamento sobe o morro do Pavãozinho, onde moram os protagonistas do filme: e a comunidade como um todo. Lá eles discutem o que fazer com aquelas câmeras e negativos roubados. Pensam em revender e trocar por dinheiro para comunidade, mas melhor: decidem por fazer eles mesmos um filme. Todo o trabalho em Ladrões de Cinema é de improviso e de cenas que cidadãos comuns com câmeras poderiam desenvolver. Eles decidem por fazer um filme na comunidade e iniciam a luta para decidir um tema. Optam por Tiradentes. Aí a crítica se eleva. A comunidade treina bastante para entender a história brasileira, a história da Inconfidência Mineira, a crítica de que os ricos queriam só para eles, que os líricos e padres não tinham o necessário para uma real revolução e que dependeria de representantes do povo - como eles, do Pavãozinho, eram.

A comunidade de predominância negra passa a gravar as cenas da história mineira, então onde negros interpretam papéis também de portugueses. Ocorre essa mistura. Eles aprendem na prática técnicas de direção e atuação. Pedem dicas e materiais para um francês que mora no Rio de Janeiro. Quebram barreiras idiomáticas e de performance em busca do filme prometido.

Enquanto isso, há traidores entre eles como havia traidores para denunciar a Inconfidência para Coroa Portuguesa. Há portugueses de verdade na comunidade no morro. É uma mistura em três atos: entre a realidade da comunidade, a ficção/atuação de fazer um filme e a história brasileira. Godard ficaria orgulhoso. Os traidores na comunidade o quê queriam para sabotar o filme? Queriam vender os equipamentos caros dos norte-americanos e surrupiar a grana. Nada absurdo, certo? Portanto, paralelamente à gravação do filme, rodam-se os planos dos sabotadores em busca do benefício próprio. Algo comum em todas as esferas sociais, dos mais pobres aos mais ricos.

A escolha do tema por Tiradentes e a pretensa revolução pelo povo brasileiro contra a coroa portuguesa não é por acaso. O espectador observa essas nuances entre o poder sendo conquistado por uma comunidade pobre que agora detém meios midiáticos e protagonistas contra a expectativa de sempre, de que só o estrangeiro, só os abastados pudessem se expressar ou retratá-los. A comunidade do Pavãozinho nunca seria mostrada ou se mostrar não fosse uma mera experiência durante o conhecido carnaval carioca. Mas o morro existe lá o ano todo. Tem seus personagens, sua gente suada e trabalhadora. Assim como possui bandidos como qualquer outro espaço da sociedade, seja ela brasileira ou não. A trama percorre esse trajeto de sabermos se o equipamento vai ser vendido por baixo dos panos ou não. Se os bandidos que roubaram os estrangeiros serão capturados ou não. O filme ficará pronto ou não?

Os norte-americanos apareceram somente na cena inicial da gravação na avenida do carnaval e voltam à cena ao fim, entusiasmados que estão na descoberta dos equipamentos e no tal produto final das filmagens no morro, material intelectual que eles próprios teriam barreiras e não conseguiriam produzir. Novamente o debate entre o estrangeiro roubar o produto brasileiro, a força do trabalho, o estado natural da terra brasilis. A comunidade do Pavãozinho, tão pouco mencionada ao longo da história brasileira, contribui em um filme de rara crítica e posicionamento nacionalistas em um falso período patriótico, em que era silenciada e submetida aos interesses estrangeiros em controle e acordos com o governo brasileiro. Não havia a soberania que até hoje se luta para conquistar pelo Brasil. A crítica também era essa, da saída ou não do domínio da corte para a saída ou não do domínio das garras estrangeiras, estadunidenses. A presença de traidores ou sabotadores quanto a qualquer movimento que causasse desordem ou desconforto às leis vigentes, sejam elas portuguesas dos tempos da coroa regente no Brasil ou da bipolaridade ou multilateralidade do mundo globalizado, durante ou após guerra fria.

Nota final para o filme de Fernando Coni Campos fica em:

🌟🌟🌟🌟

11/08/2025

Pierrot le Fou (1965)

Pierrot le Fou não era de meus filmes mais apreciados na filmografia de Jean Luc Godard. Mas a segunda vista é de novos olhares e experiências, assim como deve ser. A história começa devagar, na explicação de quem são nossos personagens. Ferdinand está a tomar banho e desenvolver seu hábito da leitura. Mais tarde se verá que gostaria de ser um escritor, mas está preso a um casamento com filhos pequenos e um trabalho burocrata, para burguesia. O tédio é evidente diante das limitações trancafiadas da vida. A oportunidade de uma aventura não será desperdiçada.

Para interagir com seu futuro empregador, na família do sogro, Ferdinand está em uma festa onde vê (ou, saberemos, no caso revê) a garota Marianne. Na oportunidade que se apossa deles, os dois formam uma dupla em disparada, no espírito dos road movies que ganhariam as telas pelo mundo. Até o próprio conhecidíssimo Easy Rider ainda não havia sido lançado. E Ferdinand e Marianne aprontaram o primeiro de outros golpes para cair na estrada. Ferdinand é sempre chamado pela garota como Pierrot e ele a corrige, sem demonstrar entusiasmo ou frustração (na maioria das vezes) : "meu nome é Ferdinand". Esse dialogo se repete inúmeras vezes, geralmente em trocas de cena ou de assunto, quando Marianne introduz uma nova perspectiva e adere ao uso do vocativo: Pierrot. "Meu nome é Ferdinand" é a resposta.

Nessa fase, Godard e sua cinematografia não poupam críticas ao fetiche aos carros. Na festa na casa do sogro de Ferdinand, são oferecidos drinks e assuntos assaz interessantes, como a velocidade que um Alfa Romeo (carro preferido da sátira godardiana) pode atingir em tantos segundos, relevância suprema que pode ser encontrada nas atuais rodas de conversa, em ambientes, digamos, mais pobres quando se perguntam a potência do motor de um carro ou quantos quilômetros o dito cujo consegue devorar por litro de combustível depositado. Godard também utiliza da acidez para recriar propagandas de produtos cosméticos e de higiene. O assunto entre a high society, injustamente desinteressante para Ferdinand, transcorre sobre adrenalinas-fetiches, produtos e aparência - nada muito diferente de 2025.

Durante a fuga com Marianne, eles têm a ideia de abandonarem o primeiro carro para evitarem uma perseguição bem sucedida por quem estava em suas caças. Assim, aproveitam de um acidente verdadeiro com vítimas expostas à beira da rodovia para estacionarem simplesmente o carro ao lado da tragédia e incendiarem tudo. Nesse planejamento que aparentava êxito, foi esquecido o dinheiro na valise no porta-luvas, tornando a aventura mais dramática pela continuidade da sobrevivência ao sabor de obcecado e imparável amor, na excitação pela estrada aos rumos de nova vida. Tanta promessa juvenil em um oferecimento caótico que um road movie pode trazer aos sonhos inocentes.

Godard satiriza o que por muito é considerado sublime. "Senti vontade de escrever um diário. Quem diante da natureza não sente a vontade de descrevê-la?" Assim ocorre desde a origem da literatura feita em terra brasileira, como a conhecida carta de Pero Vas de Caminha. Assim é orientada a literatura, nesse desbravamento, nos Sertões de Euclides da Cunha, nas paisagens cerradas, amazônicas ou pampeano-missioneiras, de Simões Lopes a Tiarajus, para se ater ao vasto Brasil.

À essa altura, há um deboche sobre as histórias, sobre os filmes de sobrevivência na natureza a qualquer custo. Sobre os urbanos que se deslocam realmente deslocados para áreas rurais, áreas remotas. Ferdinand afirma que estavam vivendo da natureza, da caça e da pesca, e na cena seguinte aparece dirigindo um trator com Marianne a reboque. O que será que Godard pensava sobre os programas que surgiram como Largados e Pelados?

"O escritor escolhe a liberdade dos outros."

O filme é permeado de literatura. Ferdinand é altamente preocupado com as manifestações culturais. Vale lembrar que em cena inicial ele estava a ler sobre o pintor espanhol Velásquez para sua pequena filha e que ela deveria se interessar por essa temática e ir ao cinema quantas vezes considerasse necessário. "Vivemos em um mundo de tolos", dizia ele sobre a criança que ele não queria que se tornasse parte do exército de tolos incultos.

Tomado de surrealismo, ou pelo menos muitos elementos surrealistas, está essa fase do cinema de Godard. No convívio com a natureza, Ferdinand e Marianne dividem ombro, refeição e espaço com animais dos mais exóticos, entre araras e pequenos mamíferos. Esses elementos, em recapitulação da memória, estão presentes em vários dos filmes de Jean Luc, mesmo que sejam pequenas pausas na realidade aflorada com momentos musicais e dançantes que quebram o ritmo e a seriedade do drama que poderiam ser/se tornar os filmes. O surrealismo era uma corrente respeitada na Europa, sendo impossibilitada a ausência de lembrança ao polêmico espanhol Luis Buñuel.

As brincadeiras com as linguagens são constantes. Quando Ferdinand questiona se Marianne o amava e não o deixaria, ela responde com a certeza: "sim, totalmente." Convicta, depois olha para câmera e repete o "sim, totalmente", mas com outro tom, que sugere a dúvida. Mas não é uma pergunta. É uma retórica ou, antes disso, uma tremenda brincadeira. Em seguida, na troca de cena a atriz passeia com os pés na água em afirmação de que não sabe o que fazer, mas também não tem o que fazer. A liberdade e o tédio lado a lado.

Depois, Ferdinand elabora um pensamento filosófico de que, quando uma pessoa espera pela outra, ao mesmo tempo o que era esperado só passa a existir, na casa em que a pessoa espera, quando esse cruza a porta, chegando ao recinto. Antes, tudo era pensamento, memória, desejo e suposição. Loucura aos casais que se divirtam com essa corrente de raciocínio.

Pausa do filme aos 50 minutos*

Godard passa de uma ode à natureza, com seus animais silvestres, árvores enormes em paisagens praticamente intocáveis para causar a provocação que foi um de seus principais temas dos anos 1965-1970, com a Guerra do Vietnã. Para arranjar algum dinheiro vivendo em meio à natureza, Ferdinand e Marianne resolvem engambelar turistas estrangeiros, que somente falavam inglês. Ferdinand debocha do sotaque e das gírias atarracadas dos gringos, enquanto os personagens principais simulam uma conversação entre um almirante da marinha dos States e uma jovem vietnamita, feita por Anna Karina, em uma provocante 'yellow face'. Com uma espécie de mímica, de teatro de marionetes, queimam fósforos sobre combustível; metáforas da guerra. Vale a citação de Made in USA de 1966, crítica maior em relação à arte fílmica produzida no país norte-americano. Outras aventuras godardianas focariam mais na política armamentista e nas escaladas de guerra, diretamente.

É até difícil acompanhar o ritmo de mudanças nesse filme de Godard (em outros também). Marianne entra em uma fase niilista, de negações, mas logo se preocupa com sua "linha vital" na palma da mão, uma crença desvairada. A resposta de Ferdinand é que se torna niilista, não ligando muito para essas crenças ou quaisquer outras. Próximos de serem apanhados, a dupla se separa. Ferdinand vai a um bar que tem, categoricamente, um carro estacionado entre as cadeiras, uma hippie que dança freneticamente ao som de uma jukebox, como uma previsão das raves, e Ferdinand pede dois chopps: "assim terei um para quando acabar o primeiro".

Antes de se dividirem e retomarem contato por telefone, Marianne havia dado palpite sobre o que Ferdinand deveria escrever, ele enquanto aspirante a escritor, que já estava, entre sua obsessão por livros, a escrever seu diário de convívio entre o amor e a natureza. "Escreva sobre um sujeito que anda por Paris e encontra a Morte. Ele tenta fugir da Morte, anda por tudo, e quando pensa que a driblou, é acidentado por um caminhão". Uma boa anedota.

Com a separação de Ferdinand e Marianne, a família da moça sequestra o rapaz e exige informações sobre o dinheiro que havia no carro (e eles queimaram) e o paradeiro da sobrinha. Godard repete as técnicas de tortura apresentadas em O Pequeno Soldado (1962), dessa vez com Ferdinand sendo submetido a afogamentos enquanto tem uma arma de fogo apontada para sua cabeça. O objetivo dos sequestradores é encontrar o paradeiro de Marianne.

Liberto dos sequestradores após indicar que Marianne deveria estar em uma boate, um dancing, porque ela queria dançar, Ferdinand perambula de volta até o litoral e apenas reclamava que era uma tarde terrível, sem mais o que exprimir. Dias depois, de emprego no cais embarcadouro, o surrealismo retorna com tudo ao aparecer uma dita princesa do Líbano com fantasias de perseguição e de realeza, que se protege das perseguições de metralhadora porque Alá a protege. A refugiada tem um ajudante chamado Alexis e apenas passa pelo filme enquanto Ferdinand está a comer um pedaço gigante de queijo; bem surrealista. Marianne vai retornar em seguida apresentando o que prometia, que também sabia escrever uns versos. Escreveu sobre Ferdinand, o chamando novamente, como sempre, de Pierrot, le Fou (a nominação do filme em cena, elemento comum de várias das obras de Godard).

O filme segue seu ritmo frenético entre denunciar a escalada dos EUA sobre o Vietnã, o tráfico de armas no Oriente Médio, ao citar a Guerra do Iêmen, e encontra espaço para jornadas de autodescoberta. Ferdinand e Marianne estão juntos novamente e fogem do embarcadouro com um barco, pois ainda eram procurados pela polícia pelo primeiro homicídio cometido antes da primeira fuga. Nessas perguntas de autodescrição, Ferdinand afirma que ele é "um ponto de interrogação diante do Mediterrâneo", enquanto a imagem abre em plano com o Mar e a civilização em construção civil ao fundo. Poético.

Um resumo do filme está em declaração a 1h30min: "com você (Marianne) tudo é complicado. Não, tudo é simples. É tudo ao mesmo tempo". Resumo da ópera da ensalada de assuntos. Mas que não ousem desqualificar o roteiro. São apenas muitas informações, mas não totalmente desconexas. Em verdade, na primeira vista, tratando-se de filmes de Godard, o erro que o espectador comete é: levar muito a sério. Esperar que os personagens tenham comportamento tradicional e não disruptivo. Em verdade eles vão sempre oferecer saídas estratégicas, improvisação, inovação, rebeldia, soluções distâncias do comportamento usual. É o surrealismo que dá cara ao holofote. Com esse aprendizado sobre os filmes de Jean Luc, o espectador fica preparado para as próximas jornadas estonteantes. É sempre fora da caixa, fora da casinha, propositalmente; oposição ao padrão, ao tradicional, ao consagrado e batido.

Para os últimos 20 minutos do filme, Ferdinand e Marianne aplicam um último golpe para reaverem dinheiro e planejarem uma fuga para ilhas do exterior. A surpresa é quando a moça não segue a parte do plano e aplica um golpe no fugitivo marido golpista. O desfecho trágico, pode-se afirmar, é bastante francês. O impacto da poesia está na última das tantas frases pronunciadas no filme: "encontramos a eternidade. É o encontro do sol com o mar", em uma bela paisagem que, se não cumpre o desejo, a expectativa após quase duas horas de filme, encerra poeticamente uma aventura à francesa, com o impacto do cinema a cores vibrantes, com muita sátira, filosofia, aventura, reviravoltas e críticas.





28/07/2025

Monólogo Silencioso (2008)

Filme senegalês que, em formato documentário, apresenta a vida das empregadas domésticas no país. Através da história de diferentes trabalhadoras, as condições precárias de vida são mostradas. Amy é a primeira a ser apresentada e, de certa forma, é a personagem principal. 

Amy é uma jovem empregada doméstica em uma casa de família de classe média. Enquanto ela trabalha, sua patroa costuma ficar no seu ouvido cobrando, criticando e, entre aspas, incentivando. Depois dela, outras garotas expõem suas situações.

A maioria delas iniciou estudos, mas teve de deixar a escola para trabalhar, seja por dedução própria ou obrigação familiar. Algumas tornam-se mães muito cedo e o compromisso em alimentar os filhos duplica a dificuldade da jornada. São poucas as opções de emprego, portanto o serviço de maid (empregada doméstica) se torna a principal opção para quem evita vender o próprio corpo como comércio.

Uma das mulheres desabafa que ela mantém as casas limpas, mas mesmo assim ela que é considerada suja. A controvérsia é uma dura realidade. Muitas das mulheres trabalham em casas de bom material e em melhores regiões de Dakar (capital do Senegal), mas moram em barracos na periferia. São barracos sem energia elétrica, com somente porta de entrada, em que se deve optar entre ter iluminação e ventilação ou conviver com possíveis insetos.

Uma jovem, ainda de aparência adolescente, desabafa que elas também são humanas e gostaria somente de ser tratada como bem trata os outros. A maior reclamação dessas meninas é a falta de pagamento, pior do que as condições precarias de trabalho. Muitos empregadores, patroas lançam demanda de limpeza e lavagem de roupas, mas não as pagam devidamente. Muitas vezes a lorota é de voltar num outro dia, prometer o pagamento para amanhãs que nunca chegam. Quão injusto é o mundo e a máxima de sempre: com quantos pobres se faz um rico, ou, mesmo não sendo enriquecido, um ser, uma família mais abastada?

O nome Monólogo Silencioso apresenta a crítica de que essas mulheres ainda trabalham silenciadas, seja nas casas ou pelas comunidades. Ninguém as escuta. Por educação forçada elas devem ficar quietas. Devem obedecer, não devem se rebelar. Devem falar baixo e não emitir seus desagrados, não são incentivadas a opiniões. É o silenciamento e o apagamento em voga.