08/12/2025

Stray Dogs (2013) de Tsai Ming Liang

Filme lançado em 2013, Cães Errantes tem esse nome forte para provocar impacto, seu objetivo como um todo. Comparar a família de humanos a cães pode remeter ao mau tratamento que o capitalismo, que as grandes cidades, que as demais pessoas prestam aos semelhantes, apenas, no caso, mais pobres. Mexe inclusive com os protetores de animais, guardiões de cães e gatos, pessoas que não prestariam tratamentos tão ruins sequer a outras espécies como essas.

Tsai Ming Liang é um diretor malaio, conhecido por filmes de narrativas lentas, mas profundas, com a densidade na produção de imagens impactantes, jogos de cena com o aproveitamento de cenários e cores. Exige muito que seus atores mantenham a compostura, o enquadramento e a fissura ocasionados pelas cenas. Explora temas como a solidão, o sentimentalismo, a nostalgia, e aqui em Stray Dogs joga com o sofrimento da família protagonista - em um filme de pouquíssimos atores. A família é composta por um pai e suas duas crianças. Enquanto ele tenta ganhar a vida pelas ruas de Taipei, norte da ilha de Taiwan, as crianças vagam (errantes) pelo espaço urbano, rural desabitado, ribeiro, mas sobretudo ao lançar mão do contraste de ambientes e dos perigos que as cercam. As crianças sozinhas poderiam se meter em grandes enrascadas, visto que o irmão maior, responsável nessas horas pela caçula, é poucos anos e centímetros mais velho e mais alto. No espaço rural, os perigos de animais peçonhentos ou mesmo de caírem, de se machucarem, de fuxicarem onde não devem. No espaço urbano, a errância por ruas, em meio a estranhos, na impessoalidade característica das novas organizações sociais das metrópoles. Os irmãos percorrem ruas e shopping centers onde buscam transcorrer essa infância entre brincadeiras, imaginação e necessidade fisiológicas. Para se alimentarem, necessitam de provas, amostras grátis de supermercados. Vivem de cafés, misturas, molhos e o que for possível arrecadar. Em uma escolha duvidosa, a pequena opta por comprar um repolho, que acaba por se tornar, na verdade, um brinquedo para dupla, que a disfarça em forma de mulher. 

O desespero do pai, inclusive, traz cena impactante em que, na ausência feminina, se deslumbra com a boneca de repolho deitada ao seu lado. Cospe o disfarce fora e se alimenta da verdura aos pedaços, com o gosto amargo da verdade que lhe saltava à vista. Além da alimentação precária, os hábitos de higiene são por meio de banheiros públicos desses locais, os shoppings centers e os supermercados. A moradia para passarem as noites, em busca de proteção de chuva e insetos, é com o teto de prédios e casarões abandonados. Eles são como nômades à procura de um espaço e do mínimo de dignidade. Uma figura que fez parte de minha infância e aparece no filme é a da rede tida como mosqueteiro para impedir a passagem de insetos durante o sono. Quando em minha infância vivia para proteção dos mosquitos, as crianças do filme poderiam ser importunadas por criaturas piores, de barata para pior.

O emprego informal do pai delas é das contribuições mais destoantes, no mergulho à desigualdade da proposta de exibição do diretor malaio. O pai nada mais é do que um outdoor humano, um cartaz nas sinaleiras, nos semáforos de Taipei. Enquanto carros e motos se digladiam pelas avenidas de luxuoso asfalto em veículos custosos, o sujeito perambula na desorientação de segurar letreiros com promoções que não lhe competem conferir. Por exemplo, promoções de quartos de hotel e anúncios de classificados fora de sua pouca enverdura financeira, para fora de seu alcance.

É com esses anúncios que ele retira misérias de garantia para tentar refeição junto aos filhos no cair da noite e retomarem a jornada para moradia improvisada. Recordo post recorrente nas redes sociais sobre os imóveis parados e as pessoas sem teto. Quantos vendedores ambulantes, camelôs, flanelinhas, limpadores de vidros e outdoores humanos pelas ruas e sem bem para onde ir ao final de cada extenuante e desesperançosa jornada? Trabalham informais aos montes, estatisticamente até contabilizados, mas diariamente ignorados por ineficientes e desinteressados poderes públicos. Pelas Taipei de Leste a Oeste do Mundo se escondem em moradias improvisadas, insalubres e construtoras de infâncias capengas e perdidas.

É com suspiro de esperança que na parte final de lento filme uma mulher surge para condicionar a família a novos rumos e as crianças passam a receber maiores atenções, histórias infantis, fábulas, novas possibilidades, como e principalmente a de estudar. Fazendo lições de casa com o acompanhamento da mulher surge um sorriso de esperança ao espectador congelado pela perspectiva antes tão ilhota e fria. Ao mesmo tempo, na crítica que sempre lhe cabe, o espectador se pergunta sobre o papel social da mulher em diferentes culturas, parecendo atrelar a ela e somente a ela o equilíbrio familiar, o cuidado infantil e ainda por cima a figura de tutora dos primeiros anos de alfabetização, resultados garantidos em números estatísticos e totais da grande maioria de professoras no ensino e na pedagogia. É no acúmulo de tarefas que muitas dessas mães e professoras se frustram no cotidiano. Cabe ao pai nesse filme somente após longa cena de mais de 7 minutos dos atores parados perante um quadro de paisagem na moradia antes abandonada, cabe a ele com abraço agradecer a presença nova no convívio familiar, seguradora e garantidora de restabelecer equilíbrio àquelas pobres vidas, não como solução definitiva, mas apaziguadora.

Nota final para Stray Dogs:

⭐⭐⭐ e meio



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