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11/12/2025

É Noite na América (2022)

É Noite na América é um documentário de 1h06 em uma co-produção entre Brasil, Itália e França com assinatura de direção da jovem Ana Vaz. Nascida em Brasília, sendo ela um pouco mais jovem do que a jovem capital federal, Ana tinha à época 36 anos e mostrou o comportamento brasiliense em relação com a fauna local.

O ponto de vista dos animais é fundamental na narrativa, em cena marcante que, enquanto nosso olhar não se volta aos bichos, no filme se volta aos bichos, mas, mais do que isso, é elaborada uma reflexão em que o interno dos olhos animais confrontam a relação com a humanidade. Os animais nos olham de volta. O filme avalia a situação de onças pintadas, ariranhas, saguis, serpentes e tamanduás bandeira e mirim, entre outras espécies, muitas delas na ameaça pela extinção. A culpa humana é delegada em imagens e entrevistas. O crescimento desordenado de nossas cidades em contraponto à perda de habitat da natureza é o resultado da mostra documental.

Brasília é exibida desde sua fundação, desde imagens antigas de zoológico, passando por seu crescimento em novas ruas, arquitetura e rodovias que cortam o Planalto Central brasileiro. O zoológico aqui não é mostrado como culpado ou capturante para excluir da natureza. Pelo contrário: o zoológico é uma resistência de animais que foram salvos, mas não tem maior condição de voltar para o habitat natural. Dessa forma, espécies são realocadas em cativeiros e convivência com semelhantes em menores espaços artificiais, mas como forma de manutenção do indivíduo, não de desproteção ou exclusão da espécie.

Como forma narrativa, o documentário traz entrevista e imagens de cuidadores, exemplo de chamada telefônica para o controle ambiental e demais autoridades em como lidar com o resgate e captura de espécies ameaçadas - e às vezes ameaçantes - na perigosa cruza entre ser humano e animais nativos. O filme de Ana convida à reflexão do papel humano em seu crescimento desordenado, desordenante de recursos e de proteção animal e vegetal. Como a selvageria das rodovias cortam o habitat de animais como os tamanduás, os maiores ameaçados de extinção ao passo que ao menos os mirins estão mais seguros, mas muito em função de estarem espalhados pelo território de diferentes países, inclusive ao território andino, mais afastado. Os bandeira, ao contrário, estão extintos em alguns estados como Santa Catarina e necessitam de grande proteção onde ainda resistem. Triste pesquisa resulta após o filme em descobrir que a pequena cidade de Ariranha no estado de São Paulo tem população humana superior à população total estimada das lontras ariranhas em nosso país. Mais uma perda preocupante da ordenação humana descontrolada, das caças e da violência de nosso convívio agressivo com as espécies nativas.

De Brasília, cidade criada mais artificial que outras artificialidades das construções brasileiras (nem entremos na invasão europeia à mata nativa sobre os indígenas), de Brasília percebe-se o estimulante centro cada vez mais em densidade populacional, em exploração de recursos e transposição comercial para dificultar a manutenção e sobrevivência das espécies. É importante o trabalho relatado no documentário de Vaz porque alerta sobre risco de explorações que podem se tornar irreversíveis, às pobres espécies cada vez mais indefesas e à própria humanidade em seu convívio desarmônico no que tange o clima e a natureza geral. A cena final da queda d'água dá ideia entre o mutável e o imutável, da avalanche de desgraça que o ser humano provoca e da avalanche de resistência que a natureza se permite em seu fluxo, por assim dizer, natural.

Nota final para É Noite na América:

⭐⭐⭐⭐

05/06/2025

Doente de si mesma + A Substância

O filme norueguês "Doente de mim mesma" (2022, direção de Kristoffer Borgli) é comparável ao de maior sucesso recente, A Substância (Estados Unidos, 2024, direção de Coralie Fargeat). No filme escandinavo, Signe tem um relacionamento competitivo e pouco saudável com Thomas. Mas tudo vem a piorar.

Com problemas familiares e necessitada de atenção e sentimento de sucesso, Signe procura uma saída rumo aos holofotes ao tomar um medicamento russo, estrangeiro, proibido, que causa feridas severas no corpo. Ela toma em overdose e isso a coloca à beira da morte e com uma condição cutânea das mais lamentáveis. O aspecto grotesco acompanha o desenrolar do filme. À medida que o espectador se acostuma, os movimentos do filme até se tornam cômicos pelos exageros. Os personagens são caricatos e extravagantes. Signe é, na verdade, uma mentirosa compulsiva, que forja sua própria doença através dos desconhecidos medicamentos, não identificados pelos poucos médicos com os quais ela consulta, justo que não queria curar-se, pelo contrário. Passa por algumas internações, exames e sai enfaixada para ocultar as graves feridas.

O filme então questiona diferentes pontos da sociedade. O traficante de classe média que mora com a mãe e fornece as drogas para protagonista. Também oportunista e mentiroso compulsivo, ele justifica o envio de pornografia para Signe pois teria supostamente conhecido uma garota por aplicativo de relacionamento e o nome dela ficava imediatamente acima ou abaixo de Signe na lista de contatos. Envio por engano, sabemos. Para proteger de onde conseguiu as drogas, Signe chega a inventar que o traficante vizinho inclusive teria morrido. Tudo para não levantar suspeitas de seu plano maquiavélico. 

Entre as críticas mais suaves ou escrachadas, a indústria farmacêutica que cura doenças provocando outras, cura sintomas e gera novos. A medicina incapaz de diagnosticar. A sociedade capitalista que impõe necessidades financeiras e de sucesso. Os jovens que se cobram em demasia e sentem as necessidades de serem considerados especiais. O preço descontrolado da fama a qualquer custo na era digital. Signe tenta demonstrar na internet que é uma vítima, que está bem. Tenta desesperadamente alavancar uma carreira de modelo, por meio de uma marca que apresenta-se moderna ao mercado por oportunizar PCDs.

Além da rejeição de seu pai, o relacionamento com Thomas é foco, é problemático. O namorado se diz artista, mas na verdade ele e Signe apenas roubavam cadeiras, estofados, os mudavam de posição e consideravam obras de arte. Uma crítica também ao subjetivo artístico desmiolado, non-sense. Thomas usufrui de alguma fama, é requisitado para exposições em salões e entrevistas em revistas e Signe o inveja, se sente improdutiva sendo ela atendente de um café, sente-se escanteada, degraus abaixo no sistema compulsório. 

A partir disso, a corrida para se vitimizar e ser valorizada é essa corrida desenfreada para uma glória de mentiras e, como sabemos, mentiras temporárias que vestem calças em tamanho pequeno. Apesar dos exageros, ou justamente por eles, Doente de si mesma ganha uma nota 4 estrelas por abordar tantas problemáticas, com humor, terror, exageros típicos da era digital e críticas ora veladas, ora escrachadas.

O comparativo com o mais conhecido A Substância é válido, pois neste filme estadunidense a abordagem é pela indústria do corpo perfeito, os holofotes, os quinze minutos de fama, o sucesso a partir da televisão. A luta das mulheres para se encaixarem em um padrão abusivo, competitivo, sórdido, tão rápido atingido como substituído e obsoleto. Obsolescência programada. Em resumo, no filme uma famosa apresentadora e modelo começa a envelhecer, recebe, ilegalmente, a exemplo de "Doente de mim mesma", uma substância misteriosa que promete ser uma fonte da juventude. Ela acaba com um duplo, saindo de seu corpo, no mais alto padrão da separação biológica, em cenas marcantes para história do cinema, mas sua versão mais jovem também é competitiva e exige mais poder, mais beleza, mais jovialidade. Elas competem entre si em um mundo que coloca as mulheres, as pessoas umas contra as outras pelo brilho e o estrelato, com ênfase no hollywoodiano de Los Angeles, onde se passa a estória.

A crítica ao mundo comandado pelos homens de terno e idade a exigirem corpos impossíveis, plásticos para televisão e não respeitarem o envelhecimento alheio. O comportamento abusivo e muitas vezes tosco das personagens aproxima os dois filmes. A mescla de gêneros cinematográficos entre o humor, o drama, o terror, o grotesco todavia a mostrar-se. 

Com notas semelhantes pelo site brasileiro de análises fílmicas, Filmow, Doente de mim mesma (3,8) e A Substância (3,9) são recomendações da década para discutir padrões de beleza, indústrias e competições, sociedade do espetáculo, sociedade do cansaço e afins. Assistam com estômago preparado a cenas grotescas e extravagantes, não recomendadas a menores de 16 anos.

Doente de si mesma ⭐⭐⭐⭐
A Substância ⭐⭐⭐½

Imagens abaixo: reprodução dos filmes



07/02/2025

Querido Menino x Noites Alienígenas

Assisti em sequência a dois filmes que permitem estabelecer essa relação para contá-los. Querido Menino (2018) é baseado em um livro de um jornalista e escritor, David Sheff, que conviveu com seu filho viciado em diferentes drogas, em especial metanfetamina. Durante o processo de tratamento, o escritor chega a pesquisar sobre as drogas para melhor entender sintomas, efeitos e tratamento.

Em Querido Menino, está exposto o problema agravante dos Estados Unidos com as drogas que circulam no país. Heroína, cocaína, balas. A mensagem final do filme é sobre essas drogas serem a principal causa de morte no país em pessoas com menos de 50 anos (maioria da população?). Números alarmantes. Histórias individualmente castigadoras a quem convive com. O pai fica arrasado. Uma cena que marcou bastante foi quando este mesmo pai, com mais dois filhos pequenos de seu segundo casamento, observa uma das crianças cantar no Coral da escola. O olhar profundamente amargurado parece se perguntar sobre os riscos da história se repetir. Ele criou estruturalmente sua família e seu primogênito acabou imerso nas drogas. Como garantir que os seguintes escapem dessas realidades?

Escapar da realidade, aliás, parece uma temática do filme. O que levaria o adolescente de classe média a buscar essas saídas para sentir novos prazeres, outras sensações? No filme não é mostrada muitas relações amistosas do jovem Nick. Nem a relação com traficantes, que apenas aparecem cena ou outra. Sabemos que o contexto do enfrentamento às drogas envolve muito as autoridades, corrupções, polícia, aeroportos, fronteiras terrestres, vistas grossas, políticas de combate. O foco do filme, entretanto, é o enfrentamento familiar, as tentativas de recuperação de Nick e os esforços do pai em adequar os tratamentos necessários, internações e o que mais for possível.

Estrutura que está presente na família de Nick e mesmo assim o combate é aguerrido, complicado. Vale salientar que as condições de internação e de rede de apoio não estão presentes para muitos norte-americanos que acabam nas ruas, largados em banheiros públicos e praças sem com que as prefeituras e instituições os recolham e cuidem. Contextos relativos.

Relativamente diferente é a realidade em Noites Alienígenas (2022), filme brasileiro do diretor e roteirista Sérgio de Carvalho. A Rio Branco do Acre é mostrada a muitos brasileiros pela primeira vez, ainda mais neste contexto. A ideia do filme é demonstrar como as facções migram do centro do país, entre Rio de Janeiro e São Paulo, para outros cantos brasileiros. Rio Branco não é uma cidade pequena, oferece mercado às vendas de drogas. Assim, muitos jovens, nessa distante realidade, adentram ao mundo de vendas, cobranças, dívidas e riscos. O viciado não tem como pagar. Os vendedores os eliminam. As facções rivais, na concorrência das vendas, se enfrentam. Estudos, planos de vestibular e emprego ficam em segundo ou terceiro plano.

Se em Querido Menino, o foco é na vida de Nick e nos esforços de seu pai, em Noites Alienígenas estão famílias mais desestruturadas e sem opções. Ou entra para esse mundo ou passa fome. Que outro emprego arrumar? Rivelino tem a mesma idade de Nick, talvez menos, está em idade de conclusão de escola, tem 17 anos, suposta namorada que já tem filho de um dos viciados. Rivelino trabalha com Alê, homem de meia idade que por vezes assume uma identidade como pai de Riva, mas entre afetos e desafetos. A mãe de Rivelino, chamada de Loira, ao que parece, não tem emprego e dependia do então pai de Rivelino. Drama familiar. O garoto vira o homem da casa, luta pelo sustento.

Enquanto isso, um viciado que convivia com Riva está em dívida com os traficantes, à beira da morte. Pronto para ser apagado. O filme, segundo alguns críticos, perde pé e cabeça ao longo do desenvolvimento, mas cumpre a mensagem de transmitir essa realidade. Para o sul do Brasil não é diferente. Gangues de fora tomam conta, lutam para expandir seus mercados e envolvem novas cidades em batalhas sangrentas do tráfico de drogas. Cansado de ver os números de mortes e chacinas saltarem, Sérgio de Carvalho prontificou esse importante filme. Há presença das religiões evangélicas que tomam a floresta e várias partes do país, os rituais indígenas, a realidade das ruas na frieza do asfalto que desemboca nas periferias.

Dois filmes que demonstram os problemas com drogas sob diferentes contextos. Na vida dos Estados Unidos e o desarranjo de uma família classe média, da vida de um jovem promissor que poderia escolher uma das seis faculdades para qual havia prestado teste e passado. Do outro lado, o rincão afastado do periférico Brasil do Acre. Um menino sem perspectivas de colocar comida na mesa se não depender das facções e da venda de drogas. O tudo ou nada. A ausência de escolha.

Quem realmente pode escolher, quem pode fazer diferente? O que fazem os governos para evitar a perdição dessas vidas tão jovens, sejam impulsionadas por companhias, música e fantasias de composição ou pela crua realidade da falta de opções empregatícias?




09/01/2023

bolsonalixo

em seguida que começou o governo Bolsonaro, pensei que seria uma boa ideia, venderia bem e ficaria famosa a pessoa que catalogasse cada frase, cada hipocrisia, cada desmonte, cada retrocesso, cada mentira, cada crime em andamento - e fizesse um livro. sucesso histórico.

mas eu mesmo creio que não conseguiria ler. relembrar cada angústia, cada raiva, cada desesperança gerada em tanta atrocidade, tanto ódio, tanto ataque, tanto descuidado, tanta negligência.

e diferente de outros registros ou períodos históricos que apenas imaginamos ao ver os relatos, no bolsonarismo vimos as mentiras em transe, o golpe em andamento, as atrocidades contra nossos próximos, contra irmãs e irmãos brasileiros, em desmontes, ataques, falta de ar, invasão de terras: destruição e terra arrasada.

05/11/2022

Roma, Cidade Aberta (1945)

Roma, Cidade Aberta. Filme de 1945. Parece muito propício para o que vivenciamos em 2022. Para o que ainda vivenciaremos. O filme se aventura pelas ruas de uma Roma ocupada pelos alemães na Segunda Guerra. Eles investigam opositores em busca de prisões e confissões. A história nos leva até um prédio e uma relação conturbada de Giorgi Manfredi, que vivia naquela construção, mas também vivia ausente. Que iria se casar com Pina, mas também andava com a dançarina de cabaré, Marina.

O personagem que parece tomar o protagonismo para si é o pároco Dom Pietro. Ele coloca os valores cristãos sempre em primazia. Quando questionado de como proceder em determinada situação, encontra uma saída com os ensinamentos de Cristo. É assim em palavras com a conhecida comunitária Pina. É assim até as sentenças finais, para Manfredi e para o padre.

O pároco tem restrições a métodos empregados, tanto da violência dos opressores, quanto dos métodos de resistência (como roubos a padarias) por parte dos acuados oprimidos. Mas Dom Pietro sempre deixa claro que tem lado e talvez os mandamentos se adaptem conforme as ocorrências. O mundo é mais complexo do que escritos absolutos sobre uma tábua.

As crianças também atuam, no melhor estilo de grandes filmes europeus posteriores, como o italiano Vítimas da Tormenta (1946) e o francês Os Incompreendidos (1959). Ou de grandes sucessos internacionais do cinema iraniano. A trama se desenvolve confusa em seu início, mas logo as peças não são difíceis de juntar. Conseguimos identificar denunciados e denunciantes, na atuação mordiscante da polícia alemã, Gestapo.

Além da exaltação de um cristianismo minucioso e portentoso nas decisões e dedicações de Dom Pietro, também habita o questionamento dentro da própria Gestapo e dos nazistas, por parte de um velho comandante beberrão, que justifica que justamente por estar bêbado recorda o que queria esquecer e acaba por dizer a verdade. Relembra missões anteriores e que a Europa tapou-se de cadáveres a troco de uma crença que nem ele consegue concordar mais. Obviamente a fala abala os militares em exercício, mas o procedimento, a máquina, o método não pode parar.

Entre as tensões do filme estão as prévias das investigações, as visitas até a ocupação do prédio, cenário maior da trama. As tentativas de fuga. Os diálogos. As traições entre romance, crenças e patriotismo. Resistência em busca da liberdade.

Para o final, Dom Pietro novamente reluz de protagonismo ao não se preocupar com a forma como pode morrer. "Não é difícil morrer bem. Difícil é viver bem." - Postula o padre, após observar tanta dificuldade de quem batalhou contra a fome, de quem tenta resistir a um regime autotitário e reconhecido até por seus atores como facínora e mortífero. Frases para história do cinema e filosofias para vida de todos nós.

Filme é do diretor Roberto Rossellini, mas tem também as assinaturas de Federico Fellini e Sergio Amidei

Dom Pietro Pellegrini, interpretado por Aldo Fabrizi

Anna Magnani tem atuação magnânima


01/11/2022

Estrada no norte de SC

Voltava pela estrada no norte de Santa Catarina. Vinha no banco de trás de uma condução. Algo que se assemelhasse a uma carruagem em que as pessoas são transportadas em um compartimento, algumas sentadas lateralmente em relação ao cocheiro. Mas vinha eu acompanhado de outros passageiros quando nosso veículo foi obrigado a reduzir. E não só reduzir, mas obrigado a parar. A fila se formava. A vista não alcançava mais o início para frente. Logo não se enxergaria o final, mesmo que a poucos instantes ali percorressem. A inspeção era rigorosa. Ou fingia ser. Os homens abordavam direto ao banco do motorista. Pediam documentos. Trocavam palavras. Às vezes trocavam olhares entre eles e devolviam os documentos. Às vezes trocavam palavras sussurradas entre eles. E talvez não devolvessem o documento. Me acompanhe, por favor.

E assim percorreram alguns carros, mas aparentemente liberavam a passagem de todos. Mas logo eu descobriria que eles retinham pessoas. Por sorte, nenhuma era motorista solitária e a fila de carros assim continuava em prosseguimento, avante. Mas então chegou nossa vez de vasculharem. Fomos interrogados. Meus pares apresentavam a documentação para o policial que insistiu em entrar em nosso compartimento. Naquela invasão de privacidade ele observava os documentos sem maior interesse. Então deteve-se à minha pessoa. Pela simples declaração de meu nome houve um estalo de interesse. Talvez ele tenha mesmo estalado a língua entre lábios, entre dentes. Ali estava algo que procuravam. E eu era este algo.

Tive que ouvir um daqueles corteses me acompanhe por favor. E acompanhei somente pelo favor que me pediam, porque de meu corpo não dispunha vontade alguma de ser encaminhado a mais perguntas. Anotaram o número do qual pertenço de forma escrava desde que criado meu registro geral. Respondi que era gaúcho apenas de passagem breve pelo estado vizinho. Mas eles sabiam um pouco mais sobre mim e sabiam que isso não era bem a verdade. Eu já constituía parte da população, votava ali e saberiam eles que já era parte do censo demográfico, retomado com atraso na região. Em 2020 eu não seria deles. Agora era.

E estava nas garras desses oficializados. Um deles, cabeça baixa de escrivão, boné posicionado praticamente lhe ocultando os olhos, me perguntou mais algumas bomba-relógio, sobre minha orientação em voto e preferências políticas. Não engoliram novamente as respostas ou, se fingiam engolir, logo regurgitariam. Eles sabiam mais do que aparentavam.

Pois logo vi que no trancamento da rodovia os oficializados não estavam sozinhos. Camisas verdes e não obstante amarelas os acompanhavam. Estes fazendo o favor por livre e espontânea vontade de estarem ali em pleno dia de semana, dia útil e mesmo assim paralisando a bendita cuja da economia. Pessoas alegres de sorrisos estampados, de faceirice tentando ser meiga, praticamente com máscaras costuradas à base de botox por sobre o colarinho verde de suas estampas amareladas. Mulheres loiras, homens com alguma rotina de academia, idosos que ignoravam alertas anteriores para permanecerem em casa. Esses rebelados em avalanche bicolor pretendiam atazanar com nossas vidas e cumpriam com o objetivo. Retrasados na estrada, talvez meu comboio prosseguisse com a naturalidade que eles gostariam supor, mas eu estava represado naquele conluio de lunáticos - mais uma vez com todo o devido respeito à lua.

Eles me pediram a identidade novamente e logo percebi que eles se adonariam mais dela do que eu. Esvaziei os bolsos e percebi que nem os últimos halls seriam de minha posse. Uma das abrasileiradas com mentalidade entreguista ao estrangeiro apareceu sorridente, farsante com uma lista de sites. Pediu para que eu identificasse endereços virtuais, dos quais eu desconhecia quase todos. Certamente não era o meu histórico. Mas talvez um suposto histórico em comum. Mas então na página 2 daquele conjunto grampeado me deparei com uma senhora surpresa. Cá estava o nome de meu blog em algum texto provavelmente com críticas nada amigáveis aos marcianos - com o devido respeito à Marte.

Por impulso exclamei e logo percebi que minha identidade estava mais entregue que o gol do título ao Palmeiras na final da Libertadores 2021. Mas tão logo exclamei tentei fechar minha impulsiva matraca e desviar o foco, que eu fiz crescer através de meu dedo, que roçava o papel com o bico do indicador sobre o nome de meu blog. Então tentei disfarçar que na verdade eu teria acessado barra visto o nome do site abaixo. Daquele bloguezinho mixuruca eu nada sabia, nem ideia de quem fosse.

Mas engoli em seco e fiquei torcendo para que os patrulheiros e demais enxeridos engolissem essa. Engoli sonoramente em seco implorando por uma água ou um veneno que me acalmasse ou resolvesse uma saída àquele aprisionamento. Eis que na reza que eu teria silenciosa, a moça morena de camisa amarela havia chegado a um veredito. Risonha como uma assistente de palco na televisão dominical, ela veio conferir o que eu havia mostrado. Com a caneta a sublinhar ela havia revelado que eu era muito bobo mesmo e nem havia precisado de tortura (conclusão minha) para indicar os temíveis segredos.

Qual não foi meu alívio quando ela repassava o papel ainda ao alcance dos patrulheiros mostrando que eu havia participado era do site abaixo de meu verdadeiro blog. Eu na verdade naquela gama de impulsos não sabia se a troca de meu incriminatório blog por outra página desconhecida era uma boa escolha.

Lembrei de meu nome e onde apareciam (em fotos) em meu blog. E lembrei de meu microblog. E lembrei de minha família. E lembrei dela. E recordei o quanto era possível e viável recordar em passagens como um filme diante de meu atônito e embaçado par de olhos. Acho que eu não veria mais eles.

Me acompanhe, por favor.

26/10/2022

Por ora apenas sou

Escrevo mais uma madrugada envolto de pouca saúde física. Creio que em algum momento terei um ataque fatal que me deixará sem defesa, de cartas postas na mesa. Algum dia não poderei mais escrever aqui. Queria ter chegado aos 30 anos, mas não me parece que será possível. Encaro a proximidade com a minha morte como um processo natural, mas não deixo de lamentar o fato de que ainda sou um pouco jovem para isso. A expectativa de vida na população é entre o dobro e o triplo da minha idade.

Penso que alguns amigos e outros tantos conhecidos estarão vivendo os efeitos do tempo, alguns mais gordos e flácidos, outros calvos. As mulheres também perdem sua juventude. É assim há mais séculos do que temos registros precisos.

Caso não estivesse escrevendo nesta madrugada, estaria assistindo aos desfechos de O Poderoso Chefão em 1990. Desta vez os Corleone se envolvem com Mancini, que força a entrada para família também em busca da filha de Michael Corleone. Os tribunais forjadamente injustos e os dramas familiares me desinteressam, para desespero dos demais críticos ou de quem possa parar aqui. Não é uma sequência de filmes que me despertou, que me deixou atinado. Para além dessa frieza que contrasta com o sangue que ferve pela família, estava mais envolto na atmosfera de algum Scarface, queimando tudo por Miami.

Também aqui queimo as linhas que logo depois posso me arrepender. Mas como comecei sem saber até quando terei a saúde e a condição da escrita, me permito alguns (des)embaraços e exageros. Com a minha vida, para quem desconheça minha condição de saúde, sigo desempenhando mais tarefas do que a maioria seria capaz. Um dia, ou não, isto será grifado. Se eu tiver um obituário como me sonha desempenhar para os outros que partem, minhas atividades serão supervalorizadas, o que contrasta com meu salário mirrado e com a falta de interesse deles hoje pela obra que deixarei.

Talvez infinidades sejam melhores do que eu, mas confesso que onde pus esforço e algum raro empenho, me saí sempre entre os melhores. Desde a prova do IFSul no final de 2009, em que ingressei em 2010 talvez com a ou uma das melhores notas de toda região sem passar por cursinho preparatório. Sem estudar mais do que estudava na escola, calculei meu desempenho como o 15⁰ melhor da região, caso me engane. Sem curso preparatório - nota, em mais de um sentido, do autor.

O vento sopra forte lá fora. Acho que desisto de pensar que significa algo porque o tempo nessa cidade está sempre aprontando. Discuto com ela e vento. Falece um familiar e chuva. Minha tia briga com alguém e vento. Vejo uma cena tensa na televisão e chuva. Gol do colorado e vento. Gol que leva o Grêmio e chuva.

O Inter não vai levar o Campeonato Brasileiro 2022, mas está cada vez mais maduro para voltar a conquistar algo grande. Não podemos dizer que não aproveitamos os últimos seis anos em que isso não ocorreu. Nem estadual levaram. Mas logo levarão. O Grêmio é uma incógnita com a troca de direção. O panorama é péssimo. É mais fácil imaginar que volte para segunda divisão do que para uma conquista mais ligeira. Entretanto, ainda defende os títulos estaduais das últimas cinco temporadas. Até que não é pouco. Pelo que se espera deles - quase nada - é muito.

Os últimos meses provam que até tenho condições de morar sozinho, apesar de minha preguiça, falta de perspectiva, saúde e empenho. A falta de perspectiva é o principal adversário de momento. Perdão. Com certeza é a falta de saúde. A falta de perspectiva foi em outros tempos. Hoje ela vem necessariamente acompanhada da falta de saúde. A falta de saúde me impede de sair dessa. Mas, permanecendo nessa, tento não sucumbir tão cedo. Primeiro é passar a eleição. Depois é tentar assistir à Copa do Mundo.

Me arrependo de nada. Só da lesão pontual que me traz até aqui. Creio que poderia ser evitada. Mas na época eu não sabia. Não sabia de muita coisa. Às vezes penso que sou castigado pela quantidade de vezes que eu quis morrer anteriormente. Achava que a morte buscava mais rápido. Parece que para mim será uma longa viagem de despedida. Enquanto ainda não embarco nela, ou enquanto posso escrever nesse longo transportar, aqui permaneço.

Havia feito uma previsão, pessimista, por suposto, de que por ironia a vida começaria a me abandonar quando dela eu me apetecesse. As coisas hoje brilham como luzes de aviões ao longe, em um céu neblinado. Brilham foscas como a luzes vermelhas do alto de prédios que avisam os mesmos aviões. Nós as ignoramos no cotidiano. Eu tento me apegar a essas luzes que todavia me impedem de desistir. Se eu as ignorar, serei um avião definitivamente sem rumo. Serei um piloto automático a caminho da morte. Serei um voo de menos escalas que me são permitidas.

Serei. Serei algo confuso e difuso quando meu horizonte tiver fim. Não sei se serei bom ou serei ruim. Por ora apenas sou. Não sei se sou o goleiro ou quem perde o gol. Não sei se sou o piloto ou quem se joga do voo. Não sei se arranco ou se, elefante, perco o marfim. Não sei se serei bom ou serei ruim. Por ora apenas sou.


19/10/2022

Migalhas de Expectativa

Senhor, se for da tua vontade, saiba que aguentarei os sofrimentos e as dores. Mas só por determinado tempo, naturalmente.


O candidato Lula disse até que, sendo eleito, todo mundo vai namorar. É bom que seja eleito. Ou minha namorada vai ser viúva e eu serei viúvo dela. Não aguentaremos mais uma vitória do pior de todos.


Pela minha morte, hoje lamentaria mais por ela, que é mais jovem. Minha família tem mais alguns anos e daria algum jeito de superar. Ou, caso não superasse, seriam menos anos de martírio. Além do mais, quanto a superar: tomara sejam coisas que o tempo cure.


Comecei a ler O Estrangeiro, de Albert Camus. Que vergonha a minha. Li 10 páginas e já quero emitir algum parecer. O argelino consegue emitir personagens de psicológico avançado. Ora, parece ele mesmo raciocinando por meio de terceiros. E está ótimo. É filosofia disfarçada em romances. É Camus de sobretudo e bigodes falsos.


3 horas da manhã e tem alguém online no grupo da imprensa de clube local. Alguém além de mim. Alguém que foi emissor. Fui receptor de constatar alguém online que não seja eu. São 3 da manhã.


Tenho me sentido mais cansado, resignado, menos esperançoso, menos encontrador de onde posso depositar minhas migalhas de expectativa. Antecipei minha velhice em muitos anos, muito além do recomendado. É a minha mente, além dos problemas de saúde, os quais não os condeno exclusivamente pela culpa. Um tanto quanto eu já era assim e isso não se pode negar. As circunstâncias e os contextos me tornam desacreditado e ranzinza. Só não me sinto ranzinza o suficiente para decorar como se escreve essa maldita palavra. Um dia me tornarei ranzinza o suficiente para escrevê-la de forma certeira e indubitável. Nessa missão nem o intrometido corretor deu as caras.



10/02/2022

Caveirinha

Duas da manhã e sinto dores

Que iluminam a paranoia: refletores

Ao ataque ao ler Olavo, o Bilac

Componho versos fáceis, ao trabalho

Temo encontrar no exercício dessa práxis

o homônimo Olavo de Carvalho

💀💀💀


Do dito "filósofo" que virou caveirinha

Confesso dele nunca aproveitei alguma linha

Mais valem as piadas de sua morte, do mau gosto

Que qualquer merda que escreveu e que seu rosto

💀💀💀


Meu caro, que composição abjeta 

Pode ser que não seja a coisa certa 😔😔

Mas quando o poder do verso me espeta 

Só me acalmo quando fecho a versão beta