Mostrando postagens com marcador Inglaterra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inglaterra. Mostrar todas as postagens

18/12/2025

A Memória Fértil (1980)

Mais documental do que fictício, o longa de 1h39min acompanha a vida de duas mulheres palestinas e suas distintas funções sociais, seus modos de encarar os problemas. Uma é viúva, dona de casa, que criou dois filhos sozinha. Outra é uma mulher moderna, que sai para trabalhar, escritora e professora de literatura.

A viúva de mais idade se queixa sobre a falta de terras, pois o filme nunca perde de vista a história entre Palestina e Israel, Israel e Palestina. A introdução do longa aborda de forma escrita a cronologia em que foi definido por conselhos europeus, sobretudo britânicos, que os judeus seriam reunidos na Palestina. A Palestina em si estava então sob domínio dos britânicos. Após o genocídio da Segunda Guerra Mundial, foi declarado em 1948 o Estado de Israel em terras palestinas. Sob a alegação de "ausentes", muitas propriedades foram tomadas pelos novos moradores judeus. Houve, entre os acontecimentos, a Guerra dos Seis Dias e o confronto de ataques de Israel em escalada ao Egito, a Guerra de Suez. Tudo isso impactou com a ocupação de Israel cada vez mais a dentro da Palestina, com postos militares, instituição de leis e regras como toques de recolher, apropriação dos recursos na tomada dos postos de trabalho e ditames para contratações, colocando em risco sob desemprego e mapa da fome para milhares de palestinos.

É nessa queixa que se orientam os votos da viúva, que reclama suas terras familiares perdidas há cerca de 30 anos (quando gravado o filme em 1980). Ela permanecia na esperança de recuperar a terra, enquanto outros de seus familiares já haviam tomado rumo para Líbano e Jordânia. Os filhos pretendiam aceitar a conciliação por trocar qualquer demanda por aquela terra em troca de outra. A viúva, insistente, para eles teimosa, seguia na ânsia de recuperar o local de sua primeira morada, herança de seus antepassados.

"Quando se luta muito contra a realidade, contra as forças exteriores, não sobra tempo para lidar com a vida interior". É o ensinamento nesse filme em que as mulheres, dentre todos os habitantes na Palestina, têm de lidar com os problemas internos de sua sociedade, além do que é imposto a todos pela política militar israelense.

Acredito que o grande conflito do filme, das vivências, seja o conflito entre progressismo e conservadorismo nos dois estilos. Surpreende que a viúva, conservadora quanto ao estilo de vida das mulheres, seja a que mais lute por suas terras e direitos palestinos contra Israel. A escritora, trabalhadora assalariada, à primeira vista progressista pelo direito de estudar, de lecionar, de trabalhar fora, se respalda mais a esse modo de vida israelense em que a mulher está emancipada financeiramente, sem depender tanto de um marido, sem estar atrelada a machismos culturais. Isso é complexo de se entender, pois é uma diferente cadeia de lutas, de pautas e até de consciências (de classe).

Ao mesmo tempo, a professora é consciente da submissão palestina ao exército de Israel, o que ela repassa através da literatura, das canções populares e de seu conhecimento em História. De modo mais informal e sentindo mais na pele, a dona de casa viúva também sabe disso. Um ponto de vista interessante da professora não ter empregada doméstica é que ela até tenta justificar pela divisão de seu salário, mas sua principal justificativa é que não é justo que as tarefas caseiras mais ingrata receiam sobre outra pessoa, o que seria responsabilidade sua. Para ela, escravizar uma pessoa assim também gera uma angústia, uma escravidão, uma privação sobre o opressor. É um sentimento de culpa que pareceu faltar na era colonial, na exploração de muitas nações sobre as outras, inclusive no próprio conflito: exploração de Israel sobre a Palestina.

Desde a década de 80 e de antes, se questiona essa contradição entre o papel da mulher pela libertação de um Estado mas em meio a uma cultura que a reprime. A escritora confessa vontade de fugir, mas se reorienta, pensa também nas boas pessoas de seu Estado, recoloca-se em voga por suas aulas, por seus alunos, o trem de volta aos trilhos. Ao passo que Israel numa cultura dita Ocidental daria maior liberdade contra a repressão da mulher, é a ocupação, a invasão do Estado de Israel por sobre a Palestina que provoca uma repressão generalizada sobre o povo que ali já ocupava. A perda de direitos de ir e vir, de cultivar, de gerir, de acesso ao mar, aos portos, às mercadorias. É muitas vezes o direito à herança, ao solo, à pátria e à cultura.

"O passado não pode ser esconderijo. Nem o presente. Há fuga e há luta. A mulher está presa entre elas."

Ao final, o filme homenageia 

Aos torturadores de homens cegos

Aos exércitos conquistadores de pequenas aldeias

E

Aos açougueiros de infância.

Sinopse

Primeiro longa-metragem filmado dentro do território da Palestina chamado de “Linha Verde”, localizado na fronteira com Egito, Jordânia, Líbano e Síria, combina ficção e documentário ao narrar a história de duas mulheres muito diferentes: Farah Hatoum, uma viúva de 50 anos e trabalhadora de Nazareth, e a escritora Sahar Khalifeh, que se divorciou e vive com a filha na área de West Bank, em Ramallah, região ocupada por Israel desde 1967. O diretor observa bem de perto o dia a dia das duas mulheres e elabora um retrato da condição da mulher na sociedade palestina, da vida dirigida pela ocupação e da dominação masculina. A história, a realidade, o futuro, as contradições da Palestina são refletidas através destas duas mulheres, a intelectual e a trabalhadora braçal – ambas na luta por liberdade e dignidade.

10/08/2025

Made in USA (1966)

Apontamentos sobre o filme:

1- as técnicas, sonoplastia, cores, roupas

2- diálogos e exagero com as mortes e armas de fogo

3- a crítica aos roteiros e execuções comerciais de Hollywood

4- as reviravoltas

5- o final sobre o fascismo

Extra: a comparação temporal entre Beatles e o cinema de Godard

Made in USA (1966) é uma das grandes obras de Godard, talvez subestimada frente a outros títulos. A ideia do filmmaker era principalmente desdenhar do cinema comercial e das propostas batidas apresentadas desde a época por Hollywood e os principais estúdios estadunidenses.

No filme, uma história clichê, como não poderia deixar de ser, de um crime, uma investigação, alguma reviravolta. A trama principal é a investigação de Paula sobre a morte de um affair chamado Richard. Para não ficar na mesmice, apesar das técnicas e comicidades que iremos comentar, Jean Luc Godard introduz fatores histórico-modernos na narrativa. O desaparecido/morto Richard era membro ativo e polêmico do Partido Comunista: elogiado por uns, perseguido por outros. Ao começo do filme, a camareira do hotel onde está Paula destaca: se os comunistas tivessem ganho a eleição, seria proibido o banjo. Conflito de classes apresentado.

Godard abusa de diálogos banais com tons forçados, frases repetidas dos clássicos norte-americanos. São falas com frases de efeito, jograis feitos entre os atores, apresentações ensaiadas e um jogo de câmeras que não é comum ao cinema de Jean Luc. A aparição de muitas armas dá o tom da investigação, de uma vida sob constante perigo, contornada e intermediada pela violência e pelas formas self services de resolução, com ou sem a atuação da lei (na intermediação policial).

As mortes desde a aparição de um intrometido no quarto de Paula, quando questionamos, de onde pode aparecer de repente um tipo desses, Paula o executa de forma cômica, com um sapato, em que ela pedia a vítima para escolher a cor da arma. Com sangue em tons muito falsos, Paula arrasta o corpo desse tiozinho, como uma autêntica cena repetitiva dos filmes hollywoodianos. É de se questionar como não cansamos (mas cansamos) de assistir a isso.

Por onde vai, Paula torna-se suspeita, é acompanhada de perto por investigadores e carrega sempre sua arma de fogo. A sonoplastia do filme é interessante, com efeitos exagerados, interrupções sonoras durante falas importantes, signo usado por Godard em filmes vindouros, como Weekend À Francesa (1967), que também será analisado durante esse apanhado de resenhas.

A figuração também é especial em relação ao que costuma apresentar Godard. Como é um dos seus primeiros filmes coloridos, o diretor exagera nas cores vibrantes, nas vestimentas forçadas e desenha personagens com personalidades e diálogos toscos. Uma das cenas cômicas ocorre em um café, em que o atendente, o barman Paullllll (como ele se autointitula) oferece charadas e troca palavras com um bêbado e Paula. A troca de olhares entre Paula e um dos atendentes que aparecerá mais na narrativa também é forçosamente proposital. É de se questionar o treinamento, o pedido e a formulação para os atores, ao invés de parecerem mais reais, como costuma ser, terem de parecer mais artificiais e zombeteiros para com a situação.

Anna Karina consegue manter o nível de suas atuações, como quando desempenhou a srta. Von Braun em Alphaville, filme lançado no ano anterior. Entre cenas mais marcantes do filme, nesses encontros em cafés ou com investigadores e a importância destinada a seus carros, destacam-se mais mortes forçadas, inclusive na brilhante ideia da encenação demorada e dramática até finalmente cair morto, e na ação de criminosos se escondendo entre arbustos e à vista de janelas.

Como apontado no início dessa resenha, a crítica ao cinema comercial e repetitivo de Hollywood é a grande arte e inovação no filme. Uma acidez, uma ousadia, uma elegância para infâmia, para o deboche, para ironia. Essa forma de paródia poderia ter despertado o cinema contra os padrões impostos e enfadonho; bem verdade, se a mesma paródia não fosse podada e totalmente encoberta pelos próprios investidores do que é criticado no filme de Godard. O remédio contra a crítica manifesta é re-elaborar mais antídotos que se sobreponham e silenciem a crítica. Produzir mais, manter a onda que encubra a mancha na indústria. Tanto funciona que a manutenção dos estúdios norte-americanos da produção industrial é soberana sobre as obras feitas pelo crítico diretor politizado.

Godard muitas vezes é um eco solitário contra a selvageria das ações impositoras, imperialistas que cegam linguagens, manifestos e doutrinam pessoas ao silenciamento, ao amanso, ao conhecimento só de uma cota limitada, ao permitido, impedindo a crítica, o questionamento, proibindo-os. 

Na parte final do filme, Godard mantém sua preocupação sobre escaladas fascistas, sombras do que centenariamente nunca deixa a Europa, o mundo. Desde antes do bigode austríaco, até... até enquanto o mundo for mundo. A barbárie, a imposição, as restrições sobre, o controle sobre, a dominância de uma classe sobre outras será sempre o estigma da realidade. Fazem-se adaptações, forja-se um pontilhado ou frágil progresso para aprisionar as classes sociais sob novas arestas, atrás de novas grades. Na parte final do filme, o assombro do fascismo sempre à mostra, ampliado, amplificado ou mesmo velado sobre as práticas do cinema convencional, às vezes brevemente questionado sob a figura de vilões, mas geralmente combatido por indivíduos dotados, especiais, neoliberais no combate. Esperar pela figura heroica, masculina e branca, preferencialmente, combater com suas próprias armas, com o uso e a resposta da violência como providenciais soluções. Vencer a disputa contra "o mal" e dirigir rumo ao pôr do sol ou céu azul com um final decididamente feliz. Sob essa custódia, não criticar os líderes globais, suas empresas e muito menos aos patrocinadores, financiadores comerciais do cinema comercial. Apresentar as marcas e as mensagens subliminares para o público. No final, o produto deve ser a venda sobrepondo-se à arte, ao argumento, à filosofia, às intenções humanas.




Como palhinha sobre a época, estive pensando sobre o ápice da Nouvelle Vague questionadora do cinema de vanguarda europeu enquanto vivia-se a Beatlemania, do rock n roll revolucionário, de pedidos de paz e boas mensagens transmitidas até o esvaziamento cultural do enchimento e preenchimento de estádios para ouvirem-se gritos. Nos Estados Unidos da América, sobretudo. Turnês esvaziadas de significado que passaram a frustrar e ameaçar os próprios Beatles. Tanto é que fecharam-se nos estúdios para produzir música e pararam de se apresentar ao vivo. Vi por aí (ótima fonte essa) que Godard havia criticado a beatlemania enquanto vedetes sem questionamentos maiores. Os Beatles não se pronunciaram politicamente, ou muito menos do que poderiam. Também aponta-se que uma recusa causou o filme de Godard envolvendo os Rolling Stones ainda nos anos 1960, com o especial Sympathy for the Devil. Em rebate, Godard teria questionado os Beatles sobre o sumiço das apresentações e apontado que fazer um show em um telhado era uma inovação e tanto, antes proposta por outra banda.

Se a ideia da crítica de Made in USA é apontar as limitações e sujeições de uma indústria de cinema, sobre os Beatles a crítica de Godard também poderia pairar sobre apolitização, sociedade corrompida a partir da máxima do dinheiro e a idolatria acrítica e descontrolada das pessoas acerca dessa estrondosa mania. Apenas um parênteses sobre dois fenômenos dos mais importantes mundialmente a respeito da década de 1960: as canções dos Beatles (e do rock inglês em geral) e os filmes de Godard (com outras exibições do cinema francês em geral). É possível aprofundar o tema, por exemplo, expressando ano a ano as nuances, contribuições, a forma disruptiva, antagônica ou convencional do papel desses artistas, na aplicação da arte e seu valor: a transformação social. A transformação social vista sob duas óticas: a atingida e a almejada. Um tema e tanto.





21/07/2025

Classe Operária (1982)

Com título de Moonlighting (1982), o filme conta a história de um trabalhador polonês melhor instruído que seus colegas, por falar a língua inglesa e se meter nos trâmites. Em meio à crise política que cercava a Polônia, Novak vai para Londres com outros três trabalhadores sob sua tutela, entre aspas. Ele é o líder entre os quatro por se comunicar com os empregadores. Com visto/passaporte para apenas um mês, eles precisam agir rápido em uma obra para restauração total de uma casa/apartamento (bem ao estilo britânico, como já devem ter visto).

O objetivo dos ingleses ao contratar a mão de obra estrangeira é reduzir ao máximo os custos. No início do filme fala-se em um serviço até quatro vezes mais baratos quando realizado pelos poloneses. As condições do emprego são extremamente precárias. Os trabalhadores poloneses dormem na própria obra. Um canto, uma esteira, alguns escassos pertences para cada um. Novak obviamente é o mais abastado, chutando para longe qualquer referência a um bom socialismo - ou talvez emulando as maiores desfaçatezes possíveis nos regimes. Assim, o líder do grupo é o que se comunica e recebe o dinheiro do contratante. Inclusive o filme todo se passa em inglês, com diálogos entre os trabalhadores polacos propositalmente não traduzidos.

Para além do protagonismo de Novak, os demais personagens até recebem nomes, mas pouco ou quase nada se sabe sobre suas vidas. Parece um recurso proposital para torná-los simplórios e pouco articulados, ainda mais diante de cultura e país que não conheciam. Novak lê jornais, compra os materiais necessários para obra, mesmo casado tenta encontrar um tempo para uma escapada e, de forma gradual, vai se tornando o grande canalha que dificulta inclusive a relação de prosseguir a vista do filme. É um personagem principal bastante audacioso e apegado a truques.

Novak articula golpes na vizinhança. Além da tentativa de flerte que, perdão, parece até bem secundária na trama, preocupa a Novak o escasso dinheiro que teria de dividir entre seus parceiros. Assim, o mal intencionado promove golpes a supermercado e tenta pechinchar sempre que possível diante das poucas libras que lhe restam. O cerco vai gradativamente fechando contra o canalha, com truques em decadência, confiança dos rapazes em baixa e o prazo para entregar a obra cada vez mais próximo do esgotamento. Com tantas dificuldades para equilibrar-se no estilo de vida britânico, Novak percebe que a grande oportunidade para voltar para Polônia com dinheiro valorizado acaba se tornando uma grande furada.

O filme transcorre acontecimentos paralelos, como uma grande repressão a movimentos políticos de oposição na Polônia, em uma batalha por direitos sociais e por uma maior liberdade no país. Procurando esconder de seus colegas de trabalho as informações, Novak camufla notícias, desconversa sobre a situação polonesa e busca manter a trupe organizada unicamente no objetivo de entregar a obra no prazo estimado.

Socialmente, chama a atenção a peculiaridade de contratar a mão de obra desconhecida, de pouca garantia, mas bem mais barata, movimento comum até hoje a muitos países, com diferentes recortes e possibilidades pelo mundo. Os Estados Unidos contam com latino-americanos, filipinos, a Europa com árabes e africanos e até o Brasil muitas vezes se favorece da diferença de oportunidades e moedas para contar com bolivianos, venezuelanos, paraguaios, haitianos e alguns africanos vindos de longe. Sobre o Paraguai, há um filme brasileiro sobre a contratação dos nativos deste país, principalmente na grande São Paulo, um filme antigo (mesmo ano do filme desta resenha, 1982, em tremenda coincidência) chamado de Noites Paraguaias - este conta como esses migrantes buscam qualquer tipo de emprego para resistir e acomodar suas famílias. O principal nesses assuntos é apontar as dificuldades do elo trabalhista, as tensões criadas entre os estrangeiros e os locais e, obviamente, muitas vezes o preconceito partindo do empregador e da comunidade em relação a esses estranhos em potencial. Trabalhadores homens com ou sem esposas, potenciais estupradores na visão dos locais, financeiramente pobres, talvez pouco instruídos e com costumes diferentes: o preconceito torna-se gritante. A adaptação sempre traz e expande climas de tensão e a continuidade das missões é posta em risco.

Assim, filmes com essa temática trazem excentricidades e pontos em comum, demonstram a vida e o convívio tensos em diferentes partes do mundo, cabendo a identificação do que se repete, do que se difere e onde a ficção encontra a realidade e a realidade bate na porta da ficção. Vocês cumprem os requisitos?

Classe Operária (Moonlighting)

🌟🌟🌟

02/01/2025

Sapphire (1959)

Sapphire é um filme inglês de 1959, que decorre das investigações sobre a morte da jovem homônima (Sapphire, né), em que a polícia local deve percorrer as pistas entre uma família burguesa tradicional, a do então namorado de Sapphire, clubes de dança, pensionatos e demais lugares que levem a desvendar o mistério.

O tema racial é a grande cartada do filme inglês, mostrando o preconceito da sociedade britânica com os negros, cada vez mais frequentes na Londres e na Inglaterra como um todo. Esse filme pouco visto no Brasil chama a atenção para o tempo percorrido entre a sociedade inglesa do final dos anos 1950 para o período em que estamos, mais de 70 anos depois. E o que muda? Como são tratados os jovens hindus, negros, muçulmanos e demais minorias dentro da Inglaterra?

Durante a investigação, os próprios protagonistas da polícia assumem opiniões e percepções divergentes, sendo um dos investigadores mais liberal (ou ao menos imparcial na busca pela resolução do mistério), enquanto o outro vez por outra tece julgamentos, sugerindo inclusive que os negros voltassem de onde vieram. O companheiro, calmamente, pergunta: quando há um crime contra uma velha senhora deve-se eliminar os maníacos causadores ou eliminar as velhas senhoras? É o caso da morte da polêmica Sapphire, uma jovem filha de mãe negra e pai branco, julgada por ambos os lados em sua condição mestiça. Um de seus parceiros de dança, em depoimento, chega a afirmar que não gostaria de um envolvimento mais sério com a jovem, por conta de sua origem em família meio branca. O pai do rapaz não aceitaria.

Mas evidentemente os preconceitos que Sapphire sofre são de origem dos brancos, que não aceitam a presença dela em seu convívio. Pelo âmbulo da narrativa, outros personagens, como o capturado Johnnie, também passam pelas garras do preconceito, sendo rejeitadas ajudas enquanto é fugitivo, expulso de um bar e sofrendo depoimentos severamente agressivos por parte da própria polícia, que não está, apesar da maneira mais sutil, isenta das críticas na obra.

Um filme que prende de certa forma o espectador na espera pela resolução da resposta de quem matou Sapphire. As contradições, as mentiras, as percepções e os depoimentos conduzem a narrativa por caminhos sinuosos de uma Londres cosmopolita e desigual, recheada de preconceitos, de convívios complicados e de questões raciais, como propõe a sinopse do filme, que mais tarde causarão ainda mais polêmica e tensões na Inglaterra.

Em meio a tantos filmes rasos de crimes pelos crimes, de investigações policiais focadas apenas em métodos e para iludir jovens espectadores com expectativas de cumprimento de leis e ordens, Sapphire demonstra novas perspetivas sobre casos raciais que também suscitariam tendências fortes para recriminações, processos e protestos nas décadas seguintes nos Estados Unidos, por exemplo. E que, bem sabemos, pelo mundo, mas pelo próprio Brasil, ainda há muita desigualdade em formas de tratamento: policial, social e repercussão midiática - esta última que até não é o foco da narrativa Sapphire, mas poderia ser mais abordada.

14/09/2024

Paul McCartney

Paul McCartney 

É mais do que sei

É mais que pensei

É mais que esperava

Baby 


Paul McCartney 

Compõe um salmo 

Sob essa selva

Sobre essa relva

Não me salvei

Se eu me salvasse 

Seria com

Paul McCartney


Beatle Paul 

Diga hey

Hey ho 

O rock n roll

It must be you say 

Let it roll 

Paul McCartney


Beetlejuice 

Beatle Paul 

That's true 

It's only rock n' roll


Paul McCartney 

Art in your name

If exists rock n roll

It must be you play


Play McCartney 

I understand 

Its only love but 

Its the only way



04/02/2024

1917

Às vezes é difícil deixar sua própria trincheira.


Reflexão ao início do filme 1917, um dos preferidos do autor. Poucos personagens e muitos figurantes, em perfeita ambientação.

10/11/2020

não se via

gosto de sussurrar umas músicas

porque não canto

gosta de tulipas e crisântemos

por que não planto?

gostava do inglês

que não entendia

não sabia a letra

mas a melodia - (me dizia)


ela gostava de sussurrar umas músicas

gostava tanto

da flora que se renova

se repetindo em outro ano

gostava de inglês que

te desconhecia

se achavam o centro

a tomada da Normandia

gostava de um inglês velho

que nada mais te dizia

mas prorrogava que sim

e fingia mais uns dias

por baixo do manto

da solidão - fantasia

e gostava tanto

que não se via


Tropical 


07/07/2020

A Senhora da Van e a Pandemia

Acabo de assistir ao filme A Senhora da Van. É um inglês, de 2015, se passa em Londres. Um escritor solitário adquire uma casa, naquele melhor estilo inglês, prédios similares, um ligado ao outro em ruas arborizadas com asfalto para os carros ingleses. Acontece que havia uma senhora moradora de uma van, como uma andarilha. Ela estacionava o veículo pelas proximidades no bairro e se instalava defronte às casas; de tempos em tempos mudava de "endereço", mas sempre morando dentro da van. Uma personagem de mão cheia para o escritor atiçar a sua criatividade, mas, mais do que isso, revelou-lhe adaptações para o seu lado mais humano. Ele que também estava com a mãe em condição idosa e cada vez mais deficitária quanto à saúde. É um filme recomendável, história para reflexões e consentimentos. E é o que aqui tentamos traçar a partir de agora.

Como mencionado, a adaptação cinematográfica da história é de 2015. No presente 2020, a própria Inglaterra foi um dos países mundialmente mais afetados pelo novo coronavírus. São muitos idosos na velha bretanha. Condição essa que talvez tenha alavancado a identificação dos britânicos com a história da senhora Mary, ou Margaret.

Para o Brasil, é interessante analisar o que temos passado com a pandemia global de covid-19. Os maus exemplos parecem proliferados, como os focos virais. Os brasileiros jamais deram exemplo de bons cuidados com seus cidadãos de terceira idade. São dificuldades históricas. Além do mais, cresce nos últimos anos o número de idosos, nos números totais e também percentuais, como é possível observar nos gráficos de pirâmides etárias. É chamada de pirâmide porque as tendências sociais sempre foram apresentar bases largas na medição de faixas etárias. O que isso significa? Significa que há sempre mais jovens do que adultos e consequentemente idosos. Mas isso tem mudado pela Europa, pelo Canadá, pelos Estados Unidos e em outros países.

A tendência mundial é o aumento percentual no número de idosos. Ou seja, a pirâmide perde sua característica piramidal e passa para assemelhar-se a outros polígonos. Talvez um retângulo em previsões mais atuais. Futuramente ela pode até inverter-se. No Brasil, a maioria da população ainda é jovem, mas isso também tem se mostrado um problema na pandemia do coronavírus.

Os jovens brasileiros estão desrespeitando muitas regras. São festas clandestinas, aglomerações, saídas desnecessárias para verem amigos, visitar familiares, compromissos de namoro e até de pessoas recém conhecidas. O péssimo exemplo reflete na alta rotatividade do vírus no Brasil. Ao escrever este texto, já somam-se mais de 66 mil mortes no país em decorrência da covid-19. Se somarmos os casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, então...

Essa alta taxa de desrespeito pela quarentena, pelo isolamento social, pelo necessário mas pouco infundido lockdownnn, mostra que os brasileiros estão poucos se importando com os idosos, principais afetados pelo novo coronavírus. São os que mais apresentam sintomas, são os que necessitam de leitos, de entubação, de respiradores, de atendimentos médicos urgentes e, nisso tudo, também se tornam as principais vítimas de fatal doença.

Os jovens, por outro lado, em raros casos estão perdendo a vida para a covid-19, mas são os principais vetores. Eles adquirem o vírus e repassam. Repassam até chegar em pessoas gravemente sintomáticas, que lotam os leitos e estão, não raramente nesse período difuso, terminando nos cemitérios em cerimônias pequenas, porque nem a esses momentos de luto o vírus parece querer poupar ou se afeiçoar a suas trágicas vítimas.

É um assunto gravíssimo. Os populares, habituais maus tratos e desrespeitos a idosos adquirem novas conotações com a pandemia global. Como os anciãos e anciãs são as principais vítimas, países que tomam menos cuidados, com maior consequentemente disseminação e mortes, demonstram também o quão relaxados, desprovidos de caráter se mostram seus cidadãos. Profundamente lamentável.

Perde-se na aquiescência dos números o compromisso com as histórias, com o lado humano de quem está nos deixando. É apenas mais uma idosa. São apenas mais dois idosos. Uma mulher de 78 anos, um homem de 83 e outro de 87. Pouco nos importa. Pouco nos choca. Mas são pais e mães, avôs e avós. Eram profissionais, atendentes de padaria, freiras, musicistas, biólogas, escritores, políticos, assistentes sociais, esportistas... uma infinidade de histórias que chocam-se com o luto a rodapé. Números e estatísticas.

Uma emocionante capa do Jornal O Globo, publicada faz dias, foi pelo dia 10 ou 11 de maio. O Brasil ainda estava distante do pico da doença, dos maiores gráficos de contágios e mortes. Mesmo assim, através dessa maneira, prestava-se uma homenagem aos que se foram. Mas a doença maior segue traiçoeira, imparável, insaciável. Já engoliu mais tantas e tantas vidas pelo país. E não há novos editoriais que deem conta. O governo mostra-se genocida pelas medidas que adota, pelas medidas que ignora, pelas mortes que em consequência provoca. Sem ministros da saúde neste crucial momento. Uma calamidade jamais vista na história republicana brasileira.

Funerais já são habitualmente tristes, cerceiam a alma dos que ficam entorno do ente querido que partiu. Nublam os dias, alimentam o farfalhar nostálgico dos ventos contra as folhas das árvores e as páginas da vida. Livros que se fecham para serem abertos apenas por quem prestou atenção nas passageiras histórias, para serem recontadas, reabsorvidas por futuras gerações. E que legado estamos deixando? Cuidamos dos nossos? Ouvimos os nossos? Sentimos os nossos? Fizemos por eles? Essas perguntas podem atormentá-lo ao impassível sereno noturno. Deita-se contigo e ocupa maior parte do travesseiro do que sua cabeça. Pense nisso.

Ao passo de derradeira luta contra a covid-19 e contra outras doenças e contra a própria crueldade e debilidade humana, quantas senhoras da van estamos perdendo. Ou julgando. Ou, todavia, de qualquer forma, estamos perdendo. A cada dia, mesmo vivos, estamos perdendo. Derrotas em looping. Vamos virar um pouco o jogo?
(Filme: A Senhora da Van / Divulgação)