13/12/2025
Sidarta, de Hermann Hesse
19/12/2024
Minuano sopra
Será possível clonar espírito?
Precisaria de um amigo
Evitaria muitos ritos
Minha confiança é meu cupido
Não existe justiça
Meu castiçal
Não não não - disse pra nau
O inferno também é tropical
A brisa judicial
Uma premissa antes do final
A baliza da justiça
Derrubaram os pau
A justiça nos estaciona muito mal
Vamos continuar
Em movimento afinal
Afinação, a fina ação
De viver
Minuano sopra
Só pra mais um ano
O bem querer
Minuano sopra
Só pra contrariar
A franja, os planos
Os frangalhos
De ano pra juntar
14/01/2024
Depressão e padrões
Acredito que após se passarem os dias de maior depressão, sente-se um sentimento de tempo perdido pelos dias desperdiçados. Apenas acredito nisso, porque, na verdade, não sinto que superei esses dias para olhar com outra ótica.
Em um exercício de imaginação, estava apenas imaginando como seria estar escape das garras da depressão, que cercam e encurralam, limitando nossas atuações no cotidiano.
O sol brilha forte lá fora, mas não quero sair. Tenho preguiça e vergonha e desinteresse. Às vezes mais preguiça, às vezes mais vergonha, às vezes mais desinteresse. Deixo minha cidade e meus amigos me perguntam quando irei voltar. Não sei quem encontrarei futuramente. A insegurança do futuro é prejudicial, mas, para o pleno exercício do viver, apenas o presente seria agora essencial. E no presente o sol brilha lá fora e não saio. Por preguiça, vergonha ou desinteresse.
O primeiro verão que vim para cá foi melhor. O tom da novidade, a proximidade a menos de quadra do mar. Caminhadas longas de exploração. Nem a ausência de Internet impedindo que eu caminhasse ouvindo músicas sortidas nos fones impedia. Nem o descontentamento constante com meu próprio corpo, de julgamentos imaginários ou existentes por outrem - certo é que eu sim me julgo.
Na Internet tiraram a semana para debater corpo feminino. A verdade é que uma tal indústria da moda construiu paradigmas antes inexistentes. Para vender roupa ou não vender, dificultar que se compre. Esses tempos ouvi uma ótima teoria que os estilistas, muitos deles gays, projetavam roupas para alterar a percepção das mulheres, concorrentes deles pelos homens. Se verdade ou não, há pingos de razão e sentido. A indústria é muito mais cruel do que o homem "comum". Ok, a indústria, as indústrias são comandadas por homens, mas pelos poucos capitalistas detentores do capital. Eles que mandam, constroem padrões inexistentes, mais fáceis ou mais difíceis de romper com.
O tal mercado de trabalho, a televisão também moldam padrões que em geral nem concordamos. Às vezes é escrachado, e tão falsa a aparência sobressaindo sobre a competência que o sentimento é repugnante ou de vergonha alheia.
Se o homem "comum" age em julgamento tão cruel quanto a indústria, ele é, sem meias palavras, um otário.
25/06/2022
Reflexões em um final de Junho cinza
25 de Junho, um tremendo dia cinza. Resolvi para sair um pouco do apartamento caminhar com minha mãe pela praia. Fazemos o mesmo trajeto, agora que o inverno nos impede um caminho mais confortável pela areia. Há muito vento e as partículas atacam-nos. O dia de hoje reúne o tempo cinzento e muita ventania. Perde-se nas belezas naturais menos envernizadas pelo sol e ganha-se na solidão da praia, propícia a caminhadas reflexivas e menores distrações. Ou também é possível distrair-se por mais tempo com elementos banais.
Ando sempre procurando os contrastes das paisagens e sociedades. Ou esses elementos encontram-me mesmo quando estou distraído, não estando à procura deles. De qualquer forma, a primeira cena que me chama atenção é quando dobramos da avenida principal à beira-mar em direção à passarela de madeira que circunda as dunas. Uma viatura da polícia estadual contorna a avenida de acesso à praia rumo a que corre à beira-mar. Penso em nossos trajes encapuzados e minhas mãos soterradas aos bolsos, me avaliando em razoável atitude suspeita. A polícia segue seu trajeto, almoçados ou não, naquele começo de tarde. Adiante, na vazia passarela, os primeiros que encontramos estão justamente atuando como a polícia desgosta: fumando baseado. São dois rapazes. A erva mais me atraia do que repulsa, mas minha mãe sei avaliar de forma contrária. Entretanto, é isso que me chamou atenção. Nem um minuto atrás vislumbrávamos a viatura policial. No minuto seguinte, estão ali os meninos a emaconhar-se tranquilamente. Como atuam as forças repressivas policiais em casos como esse? Fingiriam que não veem ou atuariam sobre os meninos, de forma mais truculenta/violenta? Fico sem a resposta, mas é uma pergunta que causa curiosidade sobre as diferentes esferas que temos da população.
Contra os pobres, muito. Contra os ricos, nada. Embora aqueles jovens não transparecem-se pertencer nem a um extremo nem a outro. Seriam a chamada classe média? Eles ficam para trás e esse julgamento por ora me some, retornando somente para as páginas desse texto. Seguindo pela passarela, me deparo com dejetos que logo voltarão à reflexão dessas linhas. Prefiro por ora terminar o trajeto da passarela e seguir pela calçadinha ora de concreto, ora de madeira, que nos leva a outros limites oceânicos. O restaurante à beira mar que costuma nos exalar com cheiro de fritura dessa vez está mais vazio. A praia como um todo se encontra assim. Nem os típicos surfistas deram as caras tão cedo. Talvez cheguem no decorrer da tarde, pois trata-se de um preguiçoso sábado. Ou talvez, como eu observo, o mar não esteja tão propício aos nados e manobras hoje. Está bem mais calmo apesar dos impulsos do vento.
Uma mulher em roupa fluorescente rosa corre em busca dos limites desafiados pelo seu corpo. Um galho à beira da água dessa vez me confunde com uma bicicleta. Minha mãe outra vez disse que ele se assemelhava a um daqueles dragões ou lagartos grandes das distantes ilhas asiáticas. Pode ser, pode ser. Na verdade não concordei em cheio com ela nessa ocasião. Mas ter enxergado uma bicicleta tombada onde ali repousava um desses galhos/troncos preocupou-me quanto à minha capacidade visual.
Enxergo o rosto de minha menina por essas caminhadas. Acho que pode ser a coisa mais natural do mundo. Lembranças e flashbacks que nos misturam à mente enquanto pensamos justamente nessas, mas também em outras coisas da vida, do cotidiano. Ora presto mais atenção em algo que minha mãe tenha a dizer, ora me disperso. Recordo que na adolescência, quando talvez achasse possuir mais amigos, tinha certa ridícula vergonha de caminhar com meus pais, sair com eles. Uma tremenda bobagem que hoje só se demonstra como perda de tempo em que ainda posso contar com eles, visto que são idosos, estão se aproximando mais dos 70 do que dos 60 anos que possuíam. Hoje, pelo contrário da adolescência, eu bem adulto não vejo problema em caminhar com meus anciãos, fico feliz que ainda posso desempenhar essa função. Acompanho seus passos, procuro até reduzir minhas passadas para que não se esforcem demasiadamente para acompanharem-me.
Interessante a trasferência de opiniões e justificativas dos seres humanos. Eu que possuía a tola vergonha de acompanhá-los agora até me orgulho. Sentimentos vãos e bobos que ficaram para trás. Quanto às minhas amizades, se antes eu desconfiava, hoje tenho certeza que poucos ficam e esses que ficam me competem maior importância do que competiam. Percebo que na adolescência possuía eu maior dificuldade em lidar com os dividendos das amizades, em compartilhá-los com mais pessoas. Outra tolice fútil, mas incorporada inevitavelmente à nossa rotina e às nossas escolhas. Hoje percebo que os amigos remanescentes também estão mais solitários. As amizades cultivadas de mais tempo elevam-se como plantas que crescem demasiadamente, chegam a um topo um pouco mais solitário que a disputa intensa do solo pelas gramíneas e árvores rasteiras, populares arbustos. De qualquer forma, hoje os divido menos. Da parte deles, espero que não pensem que os divido com muito mais pessoas. Sou um lobo solitário, apenas agraciado numa tarde de inverno em poder caminhar na companhia da sexagenária senhora minha mãe.
Agradecendo à comunidade composta pelos escassos amigos e minha família, prossigo já no caminho de volta, agora contra o vento que colide fortemente em meu rosto. Ando cabisbaixo, dessa vez mais em manobra defensiva contra a ventania do que por estado de ânimo. Embora essa justificativa seja muito sensata também. Ao voltarmos pela passarela, cuido desde passos anteriores para não pisar nos excrementos que havia notado na ida. Pelo caminho humano, me parece que alguma pessoa os fez. Noto isso muito em calçadas, em ambientes públicos em minha cidade natal. Me faz pensar nos desalojados, nos sem-teto, ou talvez em pessoas inconsequentes em madrugada que a troco de nada precisariam se expor (e principalmente nos expor) dessa maneira. Contornada essa merda toda, não volto para avenida da beira-mar sem antes notar que o lixo também se acumula nas fendas laterais dessa passarela. Ao mirarmos para baixo, como eu andava cabisbaixo contra o vento, é fácil notar o acúmulo de sacolas, bandejas de isopor e outros descartes ilegais em meio às dunas cobertas por vegetação. Não fosse o mato alto e seria mais visível a nulidade a que se submete o ser humano. Não é exclusividade pelotense, de fato.
Entre reflexões mais ou menos aprofundadas, também obviamente noto que os rapazes pelo visto consumiraram todos os seus porros e já não se encontram encostados às muretas do mirante ao lado da passarela. A polícia também seguiu adiante, queimando combustível. Nosso caro combustível em 2022. Caro como nunca antes. Os policiais foram almoçar, ou já estavam almoçados. Fica também a inútil e infrutífera dúvida. Os jovens estavam abrindo o apetite, mesmo que já tenham almoçado.
Antes de dobrarmos em direção à nossa rua, saindo da avenida da beira-mar, minha mãe dispara uma frase certeira. "Essa cidade é a minha cara, não gosto do barulho, do tumulto." Perdão para minha mãe, porque não foram essas exatamente suas palavras, mas por ora servem para divulgar seu pensamento antes absorto. Em comunhão agora com minhas ideias, relaciono a certidão e retidão de seu disparo. Realmente a cidade é um achado. A cidade de brinquedo, como costumo brincar. Com as ruas que não costumam ultrapassar o limite de duas ou três quadras. As poucas avenidas, mesmo elas, de trânsito lento e pacato. As casas espaçadas na maior parte da cidade. As conveniências básicas atendidas em questão de padarias, supermercado, farmácias e lojas uma de cada coisa, algumas repetidas, obviamente. Conveniências de móveis, eletrônicos, materiais de construção e o que mais for preciso em nosso presente século.
A cidade é sim um aspecto favorável à minha mãe, parece ela se encaixar muito bem nela para seus últimos anos, já passados alguns de sua aposentadoria. Minha vó viveu a vida inteira em Pelotas e também por aqui terá seu desfecho quando ultrapassar ou não a casa dos 90 anos. E ela parece resignada e até arriscaria um tanto contente por explorar novas identidades e aspectos visuais, mesmo em sua idade avançada. Pelo caso de minha avó, penso até o contrário, que deveríamos tê-la trazida a novos horizontes tantos anos antes. Mas antes agora do que nunca. Ela terá estruturalmente, em termos de cidade pacata, segura, relativamente limpa (apesar de meus relatos anteriores) um desfecho digno. Saúde a reserve - embora dessa tenhamos nenhuma garantia do dia de amanhã.
Sobre minha mãe também agradeço pelo encontro casual - nã, na verdade estudado - com essa cidade, pois a outra investigação litorânea que a levaria à Palhoça parece que não nos agradou. Peço excusas aos palhocenses que poderão ler essas linhas. Mas o aglomerado rápido e selvagemente urbano que circunda Palhoça nos desiludiu à essa localidade. Parece melhor para jovens aventureiros na necessidade, primeiro de emprego, depois de aventura. Os contornos de Florianópolis são agitados. Aqui, mais de hora distante da ilha da magia, não tanto. Reina, no Junho desse inverno, a pacacidade nesse novo território que ainda estamos, após alguns meses, em fase de exploração. Conhecendo cada vez mais e às vezes nos resignando pelo convívio ocular não nos reservar novas surpresas. Mas os trejeitos e trajetos urbanos são assim mesmo. O crescimento de nossa nova cidadezinha litorânea é inevitável. Erguerão casas e prédios que nos sufocarão aos poucos.
Calculo junto à minha mãe quanto tempo durará. Colocamos década como previsão para mudanças mais drásticas, de novos moradores, construções agitadas em andamento. Ela concorda. Quando lá estivermos - se estivermos - ela já estará mais para os 80 que para os 70 que hoje se aproximam. Todos fazem aniversário, mesmo quando não estamos mais aqui. Isso, assim como o crescimento urbano e populacional, é inevitável.
Como último ponto daqui breve - nem tão breve - reflexão, penso eleitoralmente na eleição que se aproxima. Faltam exatos 100 dias na medida em que escrevo essas linhas. Muito se comenta do fascismo catarinense. Mas pouco se fala, aos defensores do Rio Grande do Sul, por exemplo, da quantidade de gaúchos com esses pensamentos encucados e enraizados que migram do RS para SC. Assim representam dois fenômenos. Primeiro que esvaziam o RS dessas práticas, o que é muito bom para o RS, parabéns ao RS. Segundo que aglomeram por essas abençoadas naturais terras com essas práticas anti-pobres. Uma pena para o estado que ora eu habito. Esvazia-se um lado, preenche-se o outro. Encontram comunitariamente pessoas de pensamentos aproximados com seus costumes e ideais um tanto questionáveis pela minha pessoa.
Quanto à minha família, para nossa cidadezinha, como enxugar gelo, garantimos mais pelo menos cinco votos contrários à essa máquina destruidora do país nos últimos quatro (ou seis?) anos. Ainda não revelo aqui a certeza de meu voto daqui aos estimados 100 dias, mas é possível que eu revele por este mesmo canal, em algum momento. Neste momento em que escrevo, meus amigos, ainda faltam reflexões a serem analisadas e feitas. Até um futuro breve na contagem regressiva dos 100 dias. Câmbio e desligo.
13/12/2021
Lutemos - em um só parágrafo
Tenho caminhado pelas ruas e visto coisas. Tenho vergonha de carregar o isopor de meu almoço quando há pessoas procurando comida nas lixeiras. Tenho vergonha da minha proteção de protetor solar e boné quando há pessoas com mais ou com menos melanina no sol a sol no lixo a lixo. Vi uma pichação de Fora Comunistas e Fora Esquerda em frente a um bar onde só bebem idosos. Vi um descendente de japonês, achei que ele entraria na fruteira Sato, mas seguiu em frente até seu carro. Me driblou. Um rapazinho de bigode ralo e cabelos crespos em camisa verde diz que não é ladrão, já se alimentou do lixo, mas não rouba, só quer uns trocos. Algumas máscaras de proteção contra covid 19 são esquecidas pelas ruas, abandonadas sobre as calçadas. Sempre que cruzo a avenida Bento Gonçalves de madrugada enquanto passageiro de uber não sei o que vamos encontrar. De sinal aberto ou fechado. Tanto faz. É imprevisível. Algumas ruas com movimento demais. Outras vazias e olvidadas. Imóveis vazios pela alta dos preços e do aluguel. Moradores de rua improvisam colchões e escassos pertences nas fachadas de bancos. Algumas pessoas até roupa colocam em seus cachorros quando está frio mas não juntam o cocô deles. Motoristas de uber imitam taxistas com os carros encostados à espera de corridas, de passageiros que só conhecerão depois de toparem, não ao contrário. Em viagens de ônibus nunca sabemos quem sentará ao nosso lado, a não ser que o atrasado seja a gente. Nas viagens de ônibus todos compram a poltrona da janela. Às vezes compro do lado errado da melhor visão para a entrada de Porto Alegre. Às vezes o aplicativo de música acerta sem querer a que queríamos ouvir. Hora exata da encruzilhada. Achei que tinha visto um amigo no Mercado Central a beber cerveja e contar causos. Quando lhe perguntei depois se era ele, nem era, estava em Gramado. Esse mico de ter confundido eu pagaria e só por detalhe não o fui cumprimentar. Flashs de uma semana improvisando comida e vivendo sozinho. Sem saber até quando nem o que virá depois. Há uns meses, nem sabia que era possível, mas amo minha namorada fortemente enquanto aqui escrevo. Quero fazer durar todo o tempo que a nós foi reservado nessa estrada confusa da vida. Saio de nossos encontros renovado e me abate depois a desconfiança do destino, sem saber o que fazer e para onde vou. Convivo com as incertezas a cada refeição sobre a mesa. Serei acordado pela manhã por minha gata Melissa. Ela mia entre as 7 e as 9h30 da manhã. A depender da luminosidade e da fome que a atormente. Ela me atormenta assim por tabela, mas ela só sabe ser assim e é muito querida. Dentro em pouco me incomodará de novo e assim são o ciclo dos dias. Aos leitores de aqui, desejo uma sincera boa semana. Lutemos.
04/02/2021
Manual de etiqueta
Conversava sobre como se entreter, mesmo que infantilmente, nos restaurantes. Abordava o assunto rememorando quando eu era mais jovem. Sempre gostei de me alimentar em casa. A comida de minha mãe era muito, muito boa. Acima da média do que os restaurantes podem me oferecer. No custo-benefício então, nem se fala. E eu apertava a mão (mão de vaca) nessas questões. Meu jeitinho. Enfim, gostava de comer em casa e saía com o pessoal. Mas o pessoal, no improviso, seja por não terem uma mãe como a minha, seja por necessidade de horário, gostavam improvisar ou APROVEITAR o momento reunindo as pessoas para uma ocasião especial: a jantar.
Enfim, muitas vezes eu poderia já ter comido em casa, como era minha preferência. Assim, se me reunia cedo demais com os demais, precisava encontrar métodos de aproveitar o tempo nos ambientes tediosos que podem ser os restaurantes se você já comeu ou está sem fome. Conversando com Camila, pensava sobre como servir de passatempo. As ideias foram surgindo, sempre no improviso do aproveitamento de todos os objetos possíveis, de guardanapos a palitadores de dentes.
Nã, nada de poesia de guardanapo. A caligrafia neles sai tão ruim que só seria aproveitável caso fosse a urgência de esquecer uma ideia. Mas, vá lá, bastante já enviei mensagens de texto para mim mesmo para não esquecer algo. Hoje em dia bloco de notas, grupo solitário no whatsapp e tantas outras opções semelhantes são possíveis. O guardanapo não me agrada para esses fins. Mas ele está entre meus métodos preferidos de pirralhear em restaurante.
Os canudos, ela sugeriu colocá-los na boca e fingir ser um inseto. Uma mosca. Criativo. Pensei naqueles canudos - quase todos - encaixáveis nas suas extremidades. Pessoal gostava de desperdiçar dessa maneira. Acho que desde a época eu não aprovava muito. Hoje menos. Engenharia desnecessária que me irritava um pouco. E tantas as legislações que estão proibindo os canudos plásticos. Deixemos eles de lado.
Em casa ou em casa de amigos e parentes próximos, com a segurança e confiança que o utensílio possa proporcionar, seria possível girá-lo no dedo. Não no ar, na ponta do dedo, mas apoiando o indicador sobre o prato e fazendo-o girar entorno do seu próprio eixo, criando um efeito visual interessante. Além do efeito visual que o prato em movimento pode aplicar, ele também serve como instrumento musical. Os talheres como baquetas e o som é garantido. O copo e sua transmissão de ondas sonoras também pode ser assim aproveitado.
Mas o meu preferido, como bom fã de basquete, era arremessar os guardanapos usados contra o copo dos convivas. Eles que perdoem, mas isso nunca perde a graça quando o arremesso é certeiro. É preciso direcionar o tempo certo para essa façanha. Em festas de aniversário, casamentos e formaturas, então, após o pouco do álcool encorajar ao fazer efeito no organismo, a sucessão de arremessos é garantida. É preciso não começar a noite dessa forma imatura. Não. Ao longo da jornada, ganhará o arrojamento necessário e saberá o timing destinado à essa atividade encantadora. As pessoas já devem ter degustado suas bebidas nos copos e taças. Taças o tanto melhores porque mais largas possibilitam melhor índice de acerto. As pessoas já beberam nelas, ou seja, já tiveram a oportunidade de desfrutar do uso típico a que são destinados os utensílios. Porém, quando acham que podem repetir mais uma rodada ou dispor do desembuchante para a sequência de salgadinhos ou outros comes - PÁ - você mirou e tacou-lhe o guardanapo amasado direto no gargalo. A pessoa pode ter visto ou não visto. Pode ser surpreendida, pode rir ou ficar irritada. E o efeito em nós, caçadores natos, é o cômico de qualquer maneira. Azar o delas. Sim, sim, um dia seremos vítimas, prejudicados pela própria (quase) inocente brincadeira, mas as lembranças passadas nos serão válidas na memória. Dias de caça e dias de caçadores. Sobretudo, noites, como bem entenderam.
Atividades também com selo certificado, mais do que indicado, para churrascos em família e outros almoços e jantares. Boa mira e façam bom proveito.
14/06/2020
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12/04/2020
Rocketman
Após assistir ao desfecho de Rocketman, filme sobre a vida do britânico Elton John, a apropriada metáfora de um queijo suíço me desfalece o corpo. Sinto os poros e os vazios, o ar atravessar-me. A solidão que ele sentiu mesmo rodeado em dinheiro e fama, e sexo e drogas, é preocupante. Converso com muitas almas, revezo cafés, chás, cervejas, mas todas me parecem passageiras. Seja espiritualmente, no que não podemos conciliar de mais denso para tratar, filosoficamente incompatível, seja pelos planos que - quais são eles? Me distanciam e mexem comigo. Afastar-me de portos seguros em direção apontada para onde?
Tudo que despejo em conversas sobre os mais variados assuntos, tudo que desaguo mesmo no encanamento à correnteza dessas linhas, tudo ainda perpassa como ponta do iceberg, como pedaço de fóssil não catalogado. Nem cabeça do fóssil pode-se afirmar, pois cabeça seria a parte mais importante ao desvendo de mistérios. Um braço, uma perna, um membro, uma pata. Só isso encaminhado.
Penso qual resposta seria-me dada ao ser mais sincero. Aprendi a desconfiar das pessoas pelas maldades - com ou sem motivo, planejada ou oportuna, surpresa ou improvisada - que ocorrem. Não posso abrir-me de todo, mantenho-me. A linha da estrada, os faróis à noite, é preciso deles. Ainda é. Não posso me permitir sair, para onde me levariam? Receio internações, medicamentos pesados. Ao menos que modifiquem na raiz do que compreendo e tento sobre a vida, de que adiantariam? Remédios preencheriam nada.
Pelo que se luta se, aos mais diversos exemplos, grandes realizações são distantes e só surgiriam a grandes custos e com quais benefícios? Com quem caminhar para elas? Quem te entende? As pequenas coisas, o dia a dia, o sol da manhã, o pão do café, o copo dele, ou de suco ou voltemos ao chá? Onde estão as almas? Estão sentadas à mesa? Estão em qual recinto, se é que estão na casa? Estão na cidade? Onde elas estão?
Agradar ao outro. Responder o 'sim' querendo dizer o 'não. Não esperar que o outro, que o próximo entenda o 'não'. Sabe o preço, sabe o desgosto, conhece o desaforo de cada 'não'. Mas conhece também por não ter dito. E isso engasga. Não! Não necessariamente a estrada é por ali. Não é por onde tantos passam. Não é o que tantos ouvem. Não é o que tantos escolhem. Não é onde o asfalto até gasto está de tantos os que passaram. Será a beleza de uma estrada em terra? Poeira na roupa e o que importa? Com quais roupas e onde, o que significa? Mas com quem? Que almas juntam a bagagem quando juntas, encara os desafios quando resolve-te a eles? Quem tem o luxo dessa companhia? Solidão. Poço fundo, escuro, soturno, lago onde não se enxerga o que há antes do fundo - muito menos o fundo.
Quem você permite? Quem te permite? Em quem você confia? Quem confia em você? Quem faz bem caminhar, unir pegadas, decidir pela mesma hora do almoço ou onde acampar? Dividir o quarto ao lado, não se importar com a televisão até altas horas da madrugada, seu mau humor diário, suas confidências estranhas. Chão frio. Banheira. Banho quente. Mente. Shampoo esfregado em movimentos circulares. Dedos ao teclado. Piano. Planos.
Toalhas de secar suor e outros fluídos. Tênis na lavanderia. Manchas, lençóis de verão, cobertores de inverno. Varandas. Cigarros, cinzeiros, quadros, papel de parede ou tinta, parquê, tábua corrida ou piso. Buraco na parede ali ou mais adiante, o que vai? Eletrônico, really? Inseticida, mais spray tsssssssssss tSSSSS até matar, não, melhor o mata-moscas. Cigarros, cinzeiro. Cinzas. Fênix. Voos. Não vou? Quem? Quem vai? Estar lá.
04/04/2020
é sobre isso tudo
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Há dias em que naturalmente estou abatido. E há dias que naturalmente me abatem.
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Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas...
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Consigo sentir Quintana Que não me engana Me aconselha Ou ao menos ergue a sobrancelha Consigo sentir Quintana em cada passo Que eu galgo ...
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A linha tênue entre enjoar e esquecer.
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Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?
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A máquina se torna humano Humano se torna máquina A máquina é programada O ser humano é descartado
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Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela meta...
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Cansei. E deixarei de legado muito menos do que se não tivessem me cansado.
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Onde joga meu time estarão eu e meu futuro.
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Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.