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13/12/2025

Sidarta, de Hermann Hesse

Sidarta foi publicado originalmente em 1922, período entre guerras, após uma viagem de Hermann Hesse a Índia, por 1911. O aclamado escritor alemão ficou maravilhado com a cultura local e dedicou ensinamentos na escrita baseada em preceitos budistas. Sidarta é o nome do Buda original, que teria fundado a religião ainda antes de Cristo, pela comparação temporal - mas não muitos séculos antes (anos 566-486 a.C). Na história de Hesse, Sidarta é um menino indiano que ao alvorecer da adolescência decide sair de casa, influenciando o amigo Govinda. Eles deixam a aldeia onde viviam e aprendem sobre sobrevivência e a vida na selva. Cruzando por peregrinos do budismo, aceitam a missão de esperar, pensar e jejuar, sobrevivendo com oferendas, com o mínimo necessário, nas extrações da natureza e na solidariedade das pessoas com quem cruzavam no caminho.

Sidarta tinha um espírito irrequieto e, passados alguns anos, caminhando para idade de jovem adulto, resolve deixar a doutrina do Buda para tentar a vida na cidade. Ele conhece a encantadora Kamala e com ela, indiana possuidora de um parque, de casa grande com criados, pretende descobrir os encantos do amor. Kamala apresenta para Sidarta uma outra proposta de vida, com luxo, com jogos de possuir, ensinando a ele que necessitava de um emprego, de roupas e sapatos dignos do posto que ocuparia, inclusive ao lado dela, que recebia outros homens, convidados e figuras de realeza. Dessa forma, foi agendado para Sidarta um emprego com o comerciante Kamasvani, um dos mais ricos da região. Sidarta tinha a vantagem sobre outros meninos ao saber ler e escrever, assim, logo conquistando a confiança de Kamasvani como um importante sócio. Nesse período, Sidarta faz cobranças, cálculos, conquista mercados e bens pessoais. Embora encarasse o que Kamasvani e os demais consideraram essencial como um mero divertimento, uma tolice, Sidarta aos poucos cede a diferentes vícios, o do amor por Kamala, o dos bens materiais arrecadados e até o vício em jogos como o jogo de dardos - o que poderia se atualizar ou descambar em jogos de cartas, apostas, etc.

O cansaço dessa situação leva Sidarta a abandonar essa vida tempos depois, assim como havia deixado a peregrinação dos chamados samanas, seguidores do iluminado. Então Sidarta volta para selva, onde se reencontra com um balseiro, um remador chamado Vasudeva. Eles já haviam se cruzado pelo caminho enquanto Sidarta vivia dos bens materiais proporcionados pelo comércio. Dessa vez, interessado na vida simples do homem solitário, Sidarta resolve acompanhar o cortês remador na vivência em uma cabana isolada, ribeirinha, descobrindo um pouco mais sobre a solidão daquele senhor que escutava o que o rio dizia. Sidarta reconhece na figura do ermitão um grande ouvinte. Passagem interessante do livro, em que, desde a publicação há mais de século, em 1922, já era identificado o problema maior das gerações vindouras: não escutar o outro, não ser um ouvinte atencioso, não se "absorver", não se compadecer dos problemas de outrem com objetivo de ajudar. Pelo contrário do que as pessoas demonstram em seus egos inflados, em sua exaltação ao umbiguismo, o veterano Vasudeva era um grande ouvinte, inspirava compreensão, com olhar cúmplice, sorriso benevolente e mão amiga a repousar sobre os ombros do confidente Sidarta. O viajante contava a vida, seus obstáculos e apreensões ao balseiro.

Mais do que preceitos, dogmas e religiões, Vasudeva acreditava em ouvir a natureza, a torrente das águas, adquirindo respostas para questões existenciais. Reaprendendo a sobreviver da natureza, Sidarta tem um derradeiro reencontro com Kamala, que estava em peregrinação, pois o grande buda dos samanas estava para morrer. Pessoas cruzavam o rio onde viviam Sidarta e o balseiro em busca da despedida do líder pregador. Sem saber, nessa viagem, Kamala se despedia das riquezas materiais. Ela levava consigo o filho criança, o pequeno Sidarta, que o pai Sidarta todavia ainda não conhecia. Mas era o destino. Na travessia pela floresta, antes de chegar ao rio, Kamala foi mordida por uma cobra e o veneno a deixava nos piores lençóis. Levada para cabana do balseiro, o protagonista tenta salvá-la, mas percebe a vida a extinguir-se dos sinais de Kamala. Assim, Sidarta herda a criança para seus cuidados. Eles logo percebem que não havia aptidão, pois a vida do pequeno Sidarta com criadagem, com pessoas a realizarem as tarefas por ele era totalmente diferente dos perrengues da selva. Sidarta tenta ser paciencioso, amoroso, zelador pelo menino, mas a incompatibilidade entre ambos logo é sentida pelos três moradores da cabana florestal.

Apesar do livro percorrer uma trajetória de filosofias e pensamentos sobre como levar a vida, é a partir da separação do Sidarta pai com o Sidarta filho que as questões se aprofundam. Sidarta nota o ciclo da vida, relembra de como se separou de sua família para nunca mais vê-los, como se tornava incompatível viver na aldeia e assim preferia, ao lado do fiel, Govinda, investir na selva, a seguir os samanas. Govinda, por sua vez, persistia na busca pelas respostas, na dedicação às orações, na procura pelo eu. Era seguidor ferrenho da filosofia dos samanas, mesmo após a morte do grande líder.

Sidarta encara o ciclo da vida, pensa em seu pai, que não teve mais contato com Sidarta até uma desconhecida morte, e nota sua situação semelhante: separado, incompatível ao filho que escolhera retornar à cidade, não sem antes proferir ofensas ao modo de vida isolante do pai. Sidarta envelhecia e escutava o rio, que simboliza as mudanças. Sidarta anula a percepção do tempo, pois ele era ao mesmo tempo o menino aldeão e o idoso, assim como o rio corre a todo tempo, da sua nascente, à foz e onde desagua.

Para o final, vem à tona a conhecida frase em que amar e mudar as coisas (Belchior vive) interessava mais à Sidarta do que qualquer teoria, qualquer dogma, quaisquer ideias que, para Sidarta, eram apenas palavras. Essa era a diferença fundamental no encontro final entre ele e o envelhecido Govinda, eles se cruzando pelo caminho em uma terceira oportunidade. Sidarta que havia experimentado de tudo, Govinda ainda fiel aos ensinamentos samanas. Govinda tentava encontrar respostas. "Parece que meu destino é jamais abandonar a busca" (P. 114) Mas Sidarta acreditava no gesto, na ação, na natureza, na escuta do rio, que teria todas as resoluções.

À essa altura da história, já haviam falecido o balseiro, o buda de tantos milhares de seguidores, Kamala, a cortesã de casta abastada, e o filho de Sidarta tinha realmente fugido para não mais voltar. Solitário, Sidarta trava essa última conversa com Govinda, sempre fiéis amigos nesses reencontros, cada qual crente em suas buscas. 

"Os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. Podemos acha-la, podemos vivê-la, podemos consentir com que ela nos norteie, podemos fazer milagres através dela. Mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la" (Sidarta, P. 117) Assim, o protagonista acredita que não era possível chegar a esse brama, a esse nirvana. Eram apenas palavras, não uma doutrina com regras, como modus operandi. Mais do que tentar seguir conselhos com palavras valeria escutar o rio, as vozes e transformações da natureza. É uma forma de encarar a vida, em que, para nós cidadãos citadinos, conhecimentos técnicos, instalações, programações e construções são mais valoradas do que os que conseguem da natureza viver e extrair o que precisam, sem subjugar, sem destruir, sem desviar o que pode causar efeito rebote amanhã. "Nada é totalmente Sansara ou totalmente Nirvana. Homem nenhum é totalmente santo ou totalmente pecador", concluía Sidarta. Ele que há muito tempo havia deixado de debochar, de se sentir soberano e prepotente sobre os acumuladores de bens materiais, os seguidores cegos da beleza carnal, adeptos da luxúria. Ele que procurava entender o próprio filho, porque aos viciados em jogos, em poder, em dinheiro, assim era a vida que haviam sido ensinados, que haviam tomado contato e conhecimento, assim eram os valores a eles demonstrados e ensinados a perseguir. Sidarta procurava a humildade de entender que o ser humano percorreria diferentes buscas e, independente desses objetivos, procuraria ele Sidarta amar e mudar as coisas, como ensinar seus passageiros de jangada a escutar e respeitar as vozes do rio. Entendia ele que os preceitos eram importantes no que levasse ao companheirismo, ao amor pelas criaturas e que, no fim das contas, não caberia a ele Sidarta julgar os demais com as diferentes réguas a que ele havia conhecido e se medido. Respeitosamente nessa despedida de Govinda, quando se unia a todas as criaturas, de tempos imensuráveis, Sidarta estaria se aproximando do devido nirvana, ou ao menos do conceito que imaginamos.

19/12/2024

Minuano sopra

Será possível clonar espírito?

Precisaria de um amigo

Evitaria muitos ritos

Minha confiança é meu cupido 


Não existe justiça

Meu castiçal 

Não não não - disse pra nau 

O inferno também é tropical


A brisa judicial

Uma premissa antes do final

A baliza da justiça 

Derrubaram os pau

A justiça nos estaciona muito mal

Vamos continuar 

Em movimento afinal


Afinação, a fina ação 

De viver 

Minuano sopra 

Só pra mais um ano

O bem querer


Minuano sopra 

Só pra contrariar 

A franja, os planos 

Os frangalhos

De ano pra juntar 

14/01/2024

Depressão e padrões

Acredito que após se passarem os dias de maior depressão, sente-se um sentimento de tempo perdido pelos dias desperdiçados. Apenas acredito nisso, porque, na verdade, não sinto que superei esses dias para olhar com outra ótica.

Em um exercício de imaginação, estava apenas imaginando como seria estar escape das garras da depressão, que cercam e encurralam, limitando nossas atuações no cotidiano.

O sol brilha forte lá fora, mas não quero sair. Tenho preguiça e vergonha e desinteresse. Às vezes mais preguiça, às vezes mais vergonha, às vezes mais desinteresse. Deixo minha cidade e meus amigos me perguntam quando irei voltar. Não sei quem encontrarei futuramente. A insegurança do futuro é prejudicial, mas, para o pleno exercício do viver, apenas o presente seria agora essencial. E no presente o sol brilha lá fora e não saio. Por preguiça, vergonha ou desinteresse.

O primeiro verão que vim para cá foi melhor. O tom da novidade, a proximidade a menos de quadra do mar. Caminhadas longas de exploração. Nem a ausência de Internet impedindo que eu caminhasse ouvindo músicas sortidas nos fones impedia. Nem o descontentamento constante com meu próprio corpo, de julgamentos imaginários ou existentes por outrem - certo é que eu sim me julgo.

Na Internet tiraram a semana para debater corpo feminino. A verdade é que uma tal indústria da moda construiu paradigmas antes inexistentes. Para vender roupa ou não vender, dificultar que se compre. Esses tempos ouvi uma ótima teoria que os estilistas, muitos deles gays, projetavam roupas para alterar a percepção das mulheres, concorrentes deles pelos homens. Se verdade ou não, há pingos de razão e sentido. A indústria é muito mais cruel do que o homem "comum". Ok, a indústria, as indústrias são comandadas por homens, mas pelos poucos capitalistas detentores do capital. Eles que mandam, constroem padrões inexistentes, mais fáceis ou mais difíceis de romper com.

O tal mercado de trabalho, a televisão também moldam padrões que em geral nem concordamos. Às vezes é escrachado, e tão falsa a aparência sobressaindo sobre a competência que o sentimento é repugnante ou de vergonha alheia.

Se o homem "comum" age em julgamento tão cruel quanto a indústria, ele é, sem meias palavras, um otário.

25/06/2022

Reflexões em um final de Junho cinza

25 de Junho, um tremendo dia cinza. Resolvi para sair um pouco do apartamento caminhar com minha mãe pela praia. Fazemos o mesmo trajeto, agora que o inverno nos impede um caminho mais confortável pela areia. Há muito vento e as partículas atacam-nos. O dia de hoje reúne o tempo cinzento e muita ventania. Perde-se nas belezas naturais menos envernizadas pelo sol e ganha-se na solidão da praia, propícia a caminhadas reflexivas e menores distrações. Ou também é possível distrair-se por mais tempo com elementos banais.

Ando sempre procurando os contrastes das paisagens e sociedades. Ou esses elementos encontram-me mesmo quando estou distraído, não estando à procura deles. De qualquer forma, a primeira cena que me chama atenção é quando dobramos da avenida principal à beira-mar em direção à passarela de madeira que circunda as dunas. Uma viatura da polícia estadual contorna a avenida de acesso à praia rumo a que corre à beira-mar. Penso em nossos trajes encapuzados e minhas mãos soterradas aos bolsos, me avaliando em razoável atitude suspeita. A polícia segue seu trajeto, almoçados ou não, naquele começo de tarde. Adiante, na vazia passarela, os primeiros que encontramos estão justamente atuando como a polícia desgosta: fumando baseado. São dois rapazes. A erva mais me atraia do que repulsa, mas minha mãe sei avaliar de forma contrária. Entretanto, é isso que me chamou atenção. Nem um minuto atrás vislumbrávamos a viatura policial. No minuto seguinte, estão ali os meninos a emaconhar-se tranquilamente. Como atuam as forças repressivas policiais em casos como esse? Fingiriam que não veem ou atuariam sobre os meninos, de forma mais truculenta/violenta? Fico sem a resposta, mas é uma pergunta que causa curiosidade sobre as diferentes esferas que temos da população.

Contra os pobres, muito. Contra os ricos, nada. Embora aqueles jovens não transparecem-se pertencer nem a um extremo nem a outro. Seriam a chamada classe média? Eles ficam para trás e esse julgamento por ora me some, retornando somente para as páginas desse texto. Seguindo pela passarela, me deparo com dejetos que logo voltarão à reflexão dessas linhas. Prefiro por ora terminar o trajeto da passarela e seguir pela calçadinha ora de concreto, ora de madeira, que nos leva a outros limites oceânicos. O restaurante à beira mar que costuma nos exalar com cheiro de fritura dessa vez está mais vazio. A praia como um todo se encontra assim. Nem os típicos surfistas deram as caras tão cedo. Talvez cheguem no decorrer da tarde, pois trata-se de um preguiçoso sábado. Ou talvez, como eu observo, o mar não esteja tão propício aos nados e manobras hoje. Está bem mais calmo apesar dos impulsos do vento.

Uma mulher em roupa fluorescente rosa corre em busca dos limites desafiados pelo seu corpo. Um galho à beira da água dessa vez me confunde com uma bicicleta. Minha mãe outra vez disse que ele se assemelhava a um daqueles dragões ou lagartos grandes das distantes ilhas asiáticas. Pode ser, pode ser. Na verdade não concordei em cheio com ela nessa ocasião. Mas ter enxergado uma bicicleta tombada onde ali repousava um desses galhos/troncos preocupou-me quanto à minha capacidade visual.

Enxergo o rosto de minha menina por essas caminhadas. Acho que pode ser a coisa mais natural do mundo. Lembranças e flashbacks que nos misturam à mente enquanto pensamos justamente nessas, mas também em outras coisas da vida, do cotidiano. Ora presto mais atenção em algo que minha mãe tenha a dizer, ora me disperso. Recordo que na adolescência, quando talvez achasse possuir mais amigos, tinha certa ridícula vergonha de caminhar com meus pais, sair com eles. Uma tremenda bobagem que hoje só se demonstra como perda de tempo em que ainda posso contar com eles, visto que são idosos, estão se aproximando mais dos 70 do que dos 60 anos que possuíam. Hoje, pelo contrário da adolescência, eu bem adulto não vejo problema em caminhar com meus anciãos, fico feliz que ainda posso desempenhar essa função. Acompanho seus passos, procuro até reduzir minhas passadas para que não se esforcem demasiadamente para acompanharem-me.

Interessante a trasferência de opiniões e justificativas dos seres humanos. Eu que possuía a tola vergonha de acompanhá-los agora até me orgulho. Sentimentos vãos e bobos que ficaram para trás. Quanto às minhas amizades, se antes eu desconfiava, hoje tenho certeza que poucos ficam e esses que ficam me competem maior importância do que competiam. Percebo que na adolescência possuía eu maior dificuldade em lidar com os dividendos das amizades, em compartilhá-los com mais pessoas. Outra tolice fútil, mas incorporada inevitavelmente à nossa rotina e às nossas escolhas. Hoje percebo que os amigos remanescentes também estão mais solitários. As amizades cultivadas de mais tempo elevam-se como plantas que crescem demasiadamente, chegam a um topo um pouco mais solitário que a disputa intensa do solo pelas gramíneas e árvores rasteiras, populares arbustos. De qualquer forma, hoje os divido menos. Da parte deles, espero que não pensem que os divido com muito mais pessoas. Sou um lobo solitário, apenas agraciado numa tarde de inverno em poder caminhar na companhia da sexagenária senhora minha mãe.

Agradecendo à comunidade composta pelos escassos amigos e minha família, prossigo já no caminho de volta, agora contra o vento que colide fortemente em meu rosto. Ando cabisbaixo, dessa vez mais em manobra defensiva contra a ventania do que por estado de ânimo. Embora essa justificativa seja muito sensata também. Ao voltarmos pela passarela, cuido desde passos anteriores para não pisar nos excrementos que havia notado na ida. Pelo caminho humano, me parece que alguma pessoa os fez. Noto isso muito em calçadas, em ambientes públicos em minha cidade natal. Me faz pensar nos desalojados, nos sem-teto, ou talvez em pessoas inconsequentes em madrugada que a troco de nada precisariam se expor (e principalmente nos expor) dessa maneira. Contornada essa merda toda, não volto para avenida da beira-mar sem antes notar que o lixo também se acumula nas fendas laterais dessa passarela. Ao mirarmos para baixo, como eu andava cabisbaixo contra o vento, é fácil notar o acúmulo de sacolas, bandejas de isopor e outros descartes ilegais em meio às dunas cobertas por vegetação. Não fosse o mato alto e seria mais visível a nulidade a que se submete o ser humano. Não é exclusividade pelotense, de fato.

Entre reflexões mais ou menos aprofundadas, também obviamente noto que os rapazes pelo visto consumiraram todos os seus porros e já não se encontram encostados às muretas do mirante ao lado da passarela. A polícia também seguiu adiante, queimando combustível. Nosso caro combustível em 2022. Caro como nunca antes. Os policiais foram almoçar, ou já estavam almoçados. Fica também a inútil e infrutífera dúvida. Os jovens estavam abrindo o apetite, mesmo que já tenham almoçado.

Antes de dobrarmos em direção à nossa rua, saindo da avenida da beira-mar, minha mãe dispara uma frase certeira. "Essa cidade é a minha cara, não gosto do barulho, do tumulto." Perdão para minha mãe, porque não foram essas exatamente suas palavras, mas por ora servem para divulgar seu pensamento antes absorto. Em comunhão agora com minhas ideias, relaciono a certidão e retidão de seu disparo. Realmente a cidade é um achado. A cidade de brinquedo, como costumo brincar. Com as ruas que não costumam ultrapassar o limite de duas ou três quadras. As poucas avenidas, mesmo elas, de trânsito lento e pacato. As casas espaçadas na maior parte da cidade. As conveniências básicas atendidas em questão de padarias, supermercado, farmácias e lojas uma de cada coisa, algumas repetidas, obviamente. Conveniências de móveis, eletrônicos, materiais de construção e o que mais for preciso em nosso presente século.

A cidade é sim um aspecto favorável à minha mãe, parece ela se encaixar muito bem nela para seus últimos anos, já passados alguns de sua aposentadoria. Minha vó viveu a vida inteira em Pelotas e também por aqui terá seu desfecho quando ultrapassar ou não a casa dos 90 anos. E ela parece resignada e até arriscaria um tanto contente por explorar novas identidades e aspectos visuais, mesmo em sua idade avançada. Pelo caso de minha avó, penso até o contrário, que deveríamos tê-la trazida a novos horizontes tantos anos antes. Mas antes agora do que nunca. Ela terá estruturalmente, em termos de cidade pacata, segura, relativamente limpa (apesar de meus relatos anteriores) um desfecho digno. Saúde a reserve - embora dessa tenhamos nenhuma garantia do dia de amanhã.

Sobre minha mãe também agradeço pelo encontro casual - nã, na verdade estudado - com essa cidade, pois a outra investigação litorânea que a levaria à Palhoça parece que não nos agradou. Peço excusas aos palhocenses que poderão ler essas linhas. Mas o aglomerado rápido e selvagemente urbano que circunda Palhoça nos desiludiu à essa localidade. Parece melhor para jovens aventureiros na necessidade, primeiro de emprego, depois de aventura. Os contornos de Florianópolis são agitados. Aqui, mais de hora distante da ilha da magia, não tanto. Reina, no Junho desse inverno, a pacacidade nesse novo território que ainda estamos, após alguns meses, em fase de exploração. Conhecendo cada vez mais e às vezes nos resignando pelo convívio ocular não nos reservar novas surpresas. Mas os trejeitos e trajetos urbanos são assim mesmo. O crescimento de nossa nova cidadezinha litorânea é inevitável. Erguerão casas e prédios que nos sufocarão aos poucos.

Calculo junto à minha mãe quanto tempo durará. Colocamos década como previsão para mudanças mais drásticas, de novos moradores, construções agitadas em andamento. Ela concorda. Quando lá estivermos - se estivermos - ela já estará mais para os 80 que para os 70 que hoje se aproximam. Todos fazem aniversário, mesmo quando não estamos mais aqui. Isso, assim como o crescimento urbano e populacional, é inevitável.

Como último ponto daqui breve - nem tão breve - reflexão, penso eleitoralmente na eleição que se aproxima. Faltam exatos 100 dias na medida em que escrevo essas linhas. Muito se comenta do fascismo catarinense. Mas pouco se fala, aos defensores do Rio Grande do Sul, por exemplo, da quantidade de gaúchos com esses pensamentos encucados e enraizados que migram do RS para SC. Assim representam dois fenômenos. Primeiro que esvaziam o RS dessas práticas, o que é muito bom para o RS, parabéns ao RS. Segundo que aglomeram por essas abençoadas naturais terras com essas práticas anti-pobres. Uma pena para o estado que ora eu habito. Esvazia-se um lado, preenche-se o outro. Encontram comunitariamente pessoas de pensamentos aproximados com seus costumes e ideais um tanto questionáveis pela minha pessoa.

Quanto à minha família, para nossa cidadezinha, como enxugar gelo, garantimos mais pelo menos cinco votos contrários à essa máquina destruidora do país nos últimos quatro (ou seis?) anos. Ainda não revelo aqui a certeza de meu voto daqui aos estimados 100 dias, mas é possível que eu revele por este mesmo canal, em algum momento. Neste momento em que escrevo, meus amigos, ainda faltam reflexões a serem analisadas e feitas. Até um futuro breve na contagem regressiva dos 100 dias. Câmbio e desligo.

13/12/2021

Lutemos - em um só parágrafo

Tenho caminhado pelas ruas e visto coisas. Tenho vergonha de carregar o isopor de meu almoço quando há pessoas procurando comida nas lixeiras. Tenho vergonha da minha proteção de protetor solar e boné quando há pessoas com mais ou com menos melanina no sol a sol no lixo a lixo. Vi uma pichação de Fora Comunistas e Fora Esquerda em frente a um bar onde só bebem idosos. Vi um descendente de japonês, achei que ele entraria na fruteira Sato, mas seguiu em frente até seu carro. Me driblou. Um rapazinho de bigode ralo e cabelos crespos em camisa verde diz que não é ladrão, já se alimentou do lixo, mas não rouba, só quer uns trocos. Algumas máscaras de proteção contra covid 19 são esquecidas pelas ruas, abandonadas sobre as calçadas. Sempre que cruzo a avenida Bento Gonçalves de madrugada enquanto passageiro de uber não sei o que vamos encontrar. De sinal aberto ou fechado. Tanto faz. É imprevisível. Algumas ruas com movimento demais. Outras vazias e olvidadas. Imóveis vazios pela alta dos preços e do aluguel. Moradores de rua improvisam colchões e escassos pertences nas fachadas de bancos. Algumas pessoas até roupa colocam em seus cachorros quando está frio mas não juntam o cocô deles. Motoristas de uber imitam taxistas com os carros encostados à espera de corridas, de passageiros que só conhecerão depois de toparem, não ao contrário. Em viagens de ônibus nunca sabemos quem sentará ao nosso lado, a não ser que o atrasado seja a gente. Nas viagens de ônibus todos compram a poltrona da janela. Às vezes compro do lado errado da melhor visão para a entrada de Porto Alegre. Às vezes o aplicativo de música acerta sem querer a que queríamos ouvir. Hora exata da encruzilhada. Achei que tinha visto um amigo no Mercado Central a beber cerveja e contar causos. Quando lhe perguntei depois se era ele, nem era, estava em Gramado. Esse mico de ter confundido eu pagaria e só por detalhe não o fui cumprimentar. Flashs de uma semana improvisando comida e vivendo sozinho. Sem saber até quando nem o que virá depois. Há uns meses, nem sabia que era possível, mas amo minha namorada fortemente enquanto aqui escrevo. Quero fazer durar todo o tempo que a nós foi reservado nessa estrada confusa da vida. Saio de nossos encontros renovado e me abate depois a desconfiança do destino, sem saber o que fazer e para onde vou. Convivo com as incertezas a cada refeição sobre a mesa. Serei acordado pela manhã por minha gata Melissa. Ela mia entre as 7 e as 9h30 da manhã. A depender da luminosidade e da fome que a atormente. Ela me atormenta assim por tabela, mas ela só sabe ser assim e é muito querida. Dentro em pouco me incomodará de novo e assim são o ciclo dos dias. Aos leitores de aqui, desejo uma sincera boa semana. Lutemos.

04/02/2021

Manual de etiqueta

Conversava sobre como se entreter, mesmo que infantilmente, nos restaurantes. Abordava o assunto rememorando quando eu era mais jovem. Sempre gostei de me alimentar em casa. A comida de minha mãe era muito, muito boa. Acima da média do que os restaurantes podem me oferecer. No custo-benefício então, nem se fala. E eu apertava a mão (mão de vaca) nessas questões. Meu jeitinho. Enfim, gostava de comer em casa e saía com o pessoal. Mas o pessoal, no improviso, seja por não terem uma mãe como a minha, seja por necessidade de horário, gostavam improvisar ou APROVEITAR o momento reunindo as pessoas para uma ocasião especial: a jantar.

Enfim, muitas vezes eu poderia já ter comido em casa, como era minha preferência. Assim, se me reunia cedo demais com os demais, precisava encontrar métodos de aproveitar o tempo nos ambientes tediosos que podem ser os restaurantes se você já comeu ou está sem fome. Conversando com Camila, pensava sobre como servir de passatempo. As ideias foram surgindo, sempre no improviso do aproveitamento de todos os objetos possíveis, de guardanapos a palitadores de dentes.

Nã, nada de poesia de guardanapo. A caligrafia neles sai tão ruim que só seria aproveitável caso fosse a urgência de esquecer uma ideia. Mas, vá lá, bastante já enviei mensagens de texto para mim mesmo para não esquecer algo. Hoje em dia bloco de notas, grupo solitário no whatsapp e tantas outras opções semelhantes são possíveis. O guardanapo não me agrada para esses fins. Mas ele está entre meus métodos preferidos de pirralhear em restaurante.

Os canudos, ela sugeriu colocá-los na boca e fingir ser um inseto. Uma mosca. Criativo. Pensei naqueles canudos - quase todos - encaixáveis nas suas extremidades. Pessoal gostava de desperdiçar dessa maneira. Acho que desde a época eu não aprovava muito. Hoje menos. Engenharia desnecessária que me irritava um pouco. E tantas as legislações que estão proibindo os canudos plásticos. Deixemos eles de lado.

Em casa ou em casa de amigos e parentes próximos, com a segurança e confiança que o utensílio possa proporcionar, seria possível girá-lo no dedo. Não no ar, na ponta do dedo, mas apoiando o indicador sobre o prato e fazendo-o girar entorno do seu próprio eixo, criando um efeito visual interessante. Além do efeito visual que o prato em movimento pode aplicar, ele também serve como instrumento musical. Os talheres como baquetas e o som é garantido. O copo e sua transmissão de ondas sonoras também pode ser assim aproveitado.

Mas o meu preferido, como bom fã de basquete, era arremessar os guardanapos usados contra o copo dos convivas. Eles que perdoem, mas isso nunca perde a graça quando o arremesso é certeiro. É preciso direcionar o tempo certo para essa façanha. Em festas de aniversário, casamentos e formaturas, então, após o pouco do álcool encorajar ao fazer efeito no organismo, a sucessão de arremessos é garantida. É preciso não começar a noite dessa forma imatura. Não. Ao longo da jornada, ganhará o arrojamento necessário e saberá o timing destinado à essa atividade encantadora. As pessoas já devem ter degustado suas bebidas nos copos e taças. Taças o tanto melhores porque mais largas possibilitam melhor índice de acerto. As pessoas já beberam nelas, ou seja, já tiveram a oportunidade de desfrutar do uso típico a que são destinados os utensílios. Porém, quando acham que podem repetir mais uma rodada ou dispor do desembuchante para a sequência de salgadinhos ou outros comes - PÁ - você mirou e tacou-lhe o guardanapo amasado direto no gargalo. A pessoa pode ter visto ou não visto. Pode ser surpreendida, pode rir ou ficar irritada. E o efeito em nós, caçadores natos, é o cômico de qualquer maneira. Azar o delas. Sim, sim, um dia seremos vítimas, prejudicados pela própria (quase) inocente brincadeira, mas as lembranças passadas nos serão válidas na memória. Dias de caça e dias de caçadores. Sobretudo, noites, como bem entenderam.

Atividades também com selo certificado, mais do que indicado, para churrascos em família e outros almoços e jantares. Boa mira e façam bom proveito.

14/06/2020

Offline

Tinha pousado a xícara de café ao lado do monitor. Era sua mesa de trabalho em casa. Ele que, no momento, estudava e trabalhava e, mesmo sem sair de casa naquela pandemia, estava abarrotado de tarefas por cumprir. Foi quando o amigo, na recém ligada videoconferência dos confrades, perguntou:

- Por que você não escuta aquela banda peruana que lhe falei, a banda El Polen?

Ele se controlou para não arremessar a xícara contra a parede, justo uma de suas favoritas, com o desenho de um boxer saltitante em um gramado, ideia de um parque em liberdade.

- Por que eu não escuto a banda que você recomendou? Porque não tenho tempo! Tenho tempo para nada! Você vai ler o material que eu preciso desbravar para realizar o EaD? Uma média de 30 páginas por dia, vejam só! Ainda faltam três livros para concluirmos esse semestre. Você vai? Vai prestar minhas provas e avaliações quando chegarem as datas? 60 questões de múltipla-escolha e cinco dissertativas, média de 20 linhas de resposta para cada dissertativa, com textos e apêndices de consulta que não estão no Google. Duvida? Pode pesquisar os títulos, eu te passo o nome das obras depois. E aliás tem consultas em espanhol e em inglês e o meu inglês anda enferrujado desde a escola, com exceção de quando eu tinha tempo para ouvir músicas inglesas e norte-americanas e, quando muito, australianas. Mesmo o espanhol precisava ser galvanizado, no mínimo reidratado. Já faz dois anos desde a minha viagem a Buenos Aires, quando eu tinha tempo. E as memórias estão muito mais na câmera fotográfica do que na ponta da minha língua, comprendes muchacho? Además que preciso levar meus dois boxers para passear de três em três dias, ou ficam insuportáveis, assim eles se acostumam e eu também, a pelo menos esticar as pernas.

O que mais? Vai preparar o meu almoço? Vai esquentá-lo para eu jantar? Talvez tu faças isso... Ou quem sabe vá ao supermercado por mim. Compre as latas que estão esvaziando na despensa, compre pães fatiados, bisnagas, o que sobreviver a mais tempo no armário e no canto da mesa. Compra o meu café que lá se vão três boas xicaradas por dia. Por isso fico assim, ainda disposto para o anoitecer, quando idiotas como você, seu babaca, me fazem esses questionamentos como se eu tivesse nada por fazer. E quando termina o dia, em seguida, sabe o que eu faço? Não sabe, não é? Eu vou até a pia e, adivinhem senhores, lavo a minha própria louça. E depois disso, não obstante eu seco. E, de preferência, pela boa colocação e para evitar barata, que mês passado, mesmo com esse frio, adivinhem, apareceu barata. A diaba custou três chineladas para morrer. Morreu. E morreu o meu hábito de deixar a louça exposta pelas noites, a louça indefesa, a louça, os pratos, as xícaras, os talheres que nem gritar podem. Coitados.

Coitado de mim com tantas tarefas. Correio, banco, saídas que não posso evitar, jogo com o horário do EaD para isso. Estou prestando dois cursos à distância. Entrego os relatórios do meu serviço antes das 16h45 de cada dia. É a forma como eu bato o ponto. Casos e mais casos. Às vezes mais exceções do que casos, podem vocês imaginar. Burocracias, consultorias, troca de e-mails. Abro o meu e-mail, eu calculei, uma média de 42 vezes por dia. Claro, tem vezes que é somente na base da tecla F5, a aba fica ali aberta. Ela e mais umas 12 abas abertas por vez e tento não me perder. E clico uma média de 168 vezes na aba errada por dia. E meu salário, nisso tudo, nada de reajuste que compense o que está acontecendo. Sim, sei, eu precisaria ser grato por ter meu emprego e conseguir manter meu apartamento. Acontece que eu também tenho feito compras e encomendado serviços para cuidarem dos meus pais, a coisa tem apertado, percebem? Mas para vocês é tudo muito fácil mesmo. Mesmo você, Thomas, com filho pequeno, você não faz dois EaD por dia. Nem você, Everton, que tem tempo para ouvir bandas peruanas. Vocês todos, seus inúteis, desconhecem a minha realidade, desconhecem o meu dia a dia, desconhecem o esforço que eu faço, passo, lavo, seco, varro para evitar que apareça outra puta barata em alguma noite silenciosa como essa. Me irritaram tanto que terei, por obséquio, reservar-me o luxo da quarta xícara de café do dia e, assim sendo, tenho certeza que posso expirar minha média e o café acabar antes da próxima ida ao supermercado, programada para o dia 18. Agora eu só quero saber, apenas por curiosidade, porque vou ouvir porra nenhuma, por que você acha que devo ouvir uma banda peruana chamada Polen?

Dois dos seis iniciais já estavam offline desde o papo sobre correios e serviços de banco. Quem se manifestou foi Thomas, o pai de filho pequeno:

- Achamos que anda muito estressado. Tá esquisito conosco.

E Everton, o da banda peruana, completou:

- Teve tempo para esse teatro todo e não pode ouvir uma progressiva dos peruanos?

Ele arremessou a xícara dos boxers contra a parede e ficou offline.

12/04/2020

Rocketman

Elton John é um artista que sempre admirei. As músicas são tocantes, balançam como a chama das velas ao vento, as velas dos barcos ao vento e conversam com a alma, que é quem realmente precisa se sentar para beber um chá de vez em quando. Ou algo mais forte, como o próprio pianista diria.

Após assistir ao desfecho de Rocketman, filme sobre a vida do britânico Elton John, a apropriada metáfora de um queijo suíço me desfalece o corpo. Sinto os poros e os vazios, o ar atravessar-me. A solidão que ele sentiu mesmo rodeado em dinheiro e fama, e sexo e drogas, é preocupante. Converso com muitas almas, revezo cafés, chás, cervejas, mas todas me parecem passageiras. Seja espiritualmente, no que não podemos conciliar de mais denso para tratar, filosoficamente incompatível, seja pelos planos que - quais são eles? Me distanciam e mexem comigo. Afastar-me de portos seguros em direção apontada para onde?

Tudo que despejo em conversas sobre os mais variados assuntos, tudo que desaguo mesmo no encanamento à correnteza dessas linhas, tudo ainda perpassa como ponta do iceberg, como pedaço de fóssil não catalogado. Nem cabeça do fóssil pode-se afirmar, pois cabeça seria a parte mais importante ao desvendo de mistérios. Um braço, uma perna, um membro, uma pata. Só isso encaminhado.

Penso qual resposta seria-me dada ao ser mais sincero. Aprendi a desconfiar das pessoas pelas maldades - com ou sem motivo, planejada ou oportuna, surpresa ou improvisada - que ocorrem. Não posso abrir-me de todo, mantenho-me. A linha da estrada, os faróis à noite, é preciso deles. Ainda é. Não posso me permitir sair, para onde me levariam? Receio internações, medicamentos pesados. Ao menos que modifiquem na raiz do que compreendo e tento sobre a vida, de que adiantariam? Remédios preencheriam nada.

Pelo que se luta se, aos mais diversos exemplos, grandes realizações são distantes e só surgiriam a grandes custos e com quais benefícios? Com quem caminhar para elas? Quem te entende? As pequenas coisas, o dia a dia, o sol da manhã, o pão do café, o copo dele, ou de suco ou voltemos ao chá? Onde estão as almas? Estão sentadas à mesa? Estão em qual recinto, se é que estão na casa? Estão na cidade? Onde elas estão?

Agradar ao outro. Responder o 'sim' querendo dizer o 'não. Não esperar que o outro, que o próximo entenda o 'não'. Sabe o preço, sabe o desgosto, conhece o desaforo de cada 'não'. Mas conhece também por não ter dito. E isso engasga. Não! Não necessariamente a estrada é por ali. Não é por onde tantos passam. Não é o que tantos ouvem. Não é o que tantos escolhem. Não é onde o asfalto até gasto está de tantos os que passaram. Será a beleza de uma estrada em terra? Poeira na roupa e o que importa? Com quais roupas e onde, o que significa? Mas com quem? Que almas juntam a bagagem quando juntas, encara os desafios quando resolve-te a eles? Quem tem o luxo dessa companhia? Solidão. Poço fundo, escuro, soturno, lago onde não se enxerga o que há antes do fundo - muito menos o fundo.

Quem você permite? Quem te permite? Em quem você confia? Quem confia em você? Quem faz bem caminhar, unir pegadas, decidir pela mesma hora do almoço ou onde acampar? Dividir o quarto ao lado, não se importar com a televisão até altas horas da madrugada, seu mau humor diário, suas confidências estranhas. Chão frio. Banheira. Banho quente. Mente. Shampoo esfregado em movimentos circulares. Dedos ao teclado. Piano. Planos.

Toalhas de secar suor e outros fluídos. Tênis na lavanderia. Manchas, lençóis de verão, cobertores de inverno. Varandas. Cigarros, cinzeiros, quadros, papel de parede ou tinta, parquê, tábua corrida ou piso. Buraco na parede ali ou mais adiante, o que vai? Eletrônico, really? Inseticida, mais spray tsssssssssss tSSSSS até matar, não, melhor o mata-moscas. Cigarros, cinzeiro. Cinzas. Fênix. Voos. Não vou? Quem? Quem vai? Estar lá.

04/04/2020

é sobre isso tudo

Man on the Moon é uma canção da banda norte-americana R.E.M., presente na disponibilidade dos mais diversos meios, de fitas a cds e ultimamente na internet e por que não pen drives, desde 1992. Sou posterior a ela. A música inaugura o disco-coletânea com as melhores da banda de três letras, sigla para Rapid Eye Movement (Rápido Movimento dos Olhos). Poético, não?

Essa música me lembrou a menina da fronteira da qual todos gostávamos no ensino médio. Todos, isto é, o resumido grupo de meus amigos próximos, dos quais hoje um está praticamente casado na cidade, um apareceu disfarçado dia desses por esses textos e outro é acrobata no circo mais reconhecido do mundo. Adianto que nenhum teve sucesso com a fêmea em questão.

E por que Man on the Moon lembra a moça, levava vocês ao mundo da lua? Não exatamente. Simplesmente um post meu na internet em que ela curtiu a dita cuja música. Ainda trocamos alguns likes políticos mas sem a pendência de uma conversa. Acredito que ela hoje esteja quase casada e em São Paulo. Isto mesmo, dor de corno maior ainda é adquirir tal condição para paulista. Mas quem sabe voltou à cidade? Algo me indicou isso por esses dias. Confusos dias pandêmicos, entendam. Vida confusa como a América Central, etc.

Entreguei várias pistas no texto que eu colocaria adiante numa organização mais organizada. Mas é que continuo ouvindo o disco das melhores do Movimento Rápido dos Olhos. Losing my Religion, sucesso que o DJ Rui Jordão tocava nas noites de Programa Replay na Rádio Cultura de Pelotas invade meus instintos. E conta o negro velho que essa música era presença constante nas festas pelas quais assumia a trilha sonora. "O pessoal gostava de colocar outras coisas, mas eu mandava rock também, não tinha ruim", garantia meu amigo de companhia esportiva nos debates semanais, muitas vezes transformado em mim de monólogo.

Voltando à fêmea-figura-chave desse texto (obrigado Jordão pela participação, diferente de Miguel na música histórica, atravessamos o (rio) Jordão, vejam só), voltando a ela, creio que a principal história de nosso envolvimento foi quando ela tentava vender ingressos para sua festa de formatura. Na verdade vendia ingressos para uma festa, erroneamente denominada churrasco, que arrecadaria cash, money, grana para a futura formatura de final de ano. Se não me engano ela era ano mais nova e se formaria só no ano seguinte. Organização de escola elevada, top 20 do estado e 100 nacional, se não me engano. Não confiem, muito posso me enganar, mas entendam que era um colégio de primeiro mundo.

E nós, voluntariado chinelão de saída do Centro rumo às Três Vendas para comprar os ingressos da moça. Fomos retardadamente a pé em um calor insuportável, recordo que uma das primeiras vezes em que precisei tirar a camiseta na rua tamanho o sol escaldante. Utilizei-a para proteger a superfície da fronte e aliviar a queimadura inerente aos cabelos. Nosso ginasta também adotou essa medida, com um físico esbelto muito mais atlético, evidentemente. Os demais nos acompanhavam em um grupo com quatro pessoas. Falávamos das mais diversas bobajadas nerds e conhecimentos por qual caminho deveríamos seguir para chegar em tempo recorde nessa jornada imprudente. Nos encontraríamos em ponto médio entre ambas as partes (mentira, quilômetros mais perto delas do que de nós).

Sim, educação fazer as damas caminharem menos nesse período em que ninguém ali sequer tinha idade para a carteira habilitadora ao trânsito. Exceção era o alto alemão de São Lourenço que dirigia sem carteira, mas aqui não iremos dedurá-lo. Educação, educação, please, monsieur. d'accord, mon ami. s'il te plait, para quem ficou curioso de como é 'por favor' en Français.

Caminhamos naquela lua braba do meio-dia em direção ao ponto de encontro e, quando telefonados, que algum dos debilóides possuía o contato, descobrimos que elas já haviam encerrado o almoço e regressado à escola que ficava ainda milha adiante. Diabos, seguimos porque queríamos chegar lá, embora já não disfarçássemos a irritação com a enrolação das ditas criaturas. Ao que estávamos informados (embora muito mal informados!), a soma de garotas disponíveis nessa compra de ingressos se dava em duas: ela e + uma amiga. Ok. Éramos quatro. Apesar das conversas variantes, no fundo todos devíamos imaginar quem ali tinha chance com as preciosidades. O ginasta, ano mais velho, era nossa aposta sigilosa, embora o mais alto também levasse algum currículo consigo. O hoje quase casado e eu gostávamos apenas de esticar as pernas em tardes escaldantes. Ééé, vai vendo.

Quando chegamos ao destino da escola chique, estava se encerrando o intervalo deles entre as aulas matinais e vespertinas, também conhecido como horário para almoço. Elas almoçadas, nós completamente suados e desconfigurados da boa aparência. Ao chegarmos, reparamos que a tal amiga não era de nosso total agrado, que teu Deus nos perdoe. Meio sem jeito e, embora cada um quisesse falar e expressar suas mais singelas emoções peito pra fora, estávamos quase mudos, talvez do cansaço somado à mórbida timidez de cada um. Efetuamos a compra em tempo recorde (ademais que o recorde não viria na tortuosa caminhada, ao menos algo para o guiness book faceirar-se).

(será que as capas do Guinness Book já utilizaram todas as cores existentes ou a humanidade segue a inventar colorações para compor esse modo chamativo de ilustrar as coisas curiosas?)

Cada um com seu bilhete premiado, só faltava um dos abobados deixar o vento levar a entrada até a boca de algum boeiro e aumentar o drama dos gaúchos que saíram sem noção a pé pelas ruas da cidade. Mas todos os bolsos estavam impecavelmente costurados e ninguém mosqueou a esse nível. Mal terminamos a compra e elas precisavam entrar para as aulas da tarde. Rigorosa que era a escola, tomariam uma senhora mijada em caso de atrasos, ainda mais se vissem nosso baixo nível ali, como se não bastasse, uniformizados com as cores da outra escola. Barbaridade.

Ainda deu tempo de tirarmos uma foto com um cão de rua que nos acompanhou nessa jornada. E digo, moças e rapazes, foi um dos mais fieis companheiros vistos por essas bandas. Não se importou de andar lado a lado com os guerreiros por dobras e dobras, quebradas, calçadas e meios de rua não movimentadas, patas sobre o concreto quente e nós com tão pouco a poder oferecer. Vira-latas, não por acaso, venceram a copa de enquetes do colega jornalista León Sanguiné. Melhor raça com sobras e ganas de vantagem. Nenhuma dúvida.

Pois bem, crianças e crianços, encerramos a lida naquela batalha árdua por quase merda nenhuma, não fosse o espírito puritano da aventura adolescente entre amigos. Sinto saudades desses tempos. Sinto falta desses tempos, melhor dizendo, na possibilidade de um dia quererem traduzir essa bagaça. Embora bagaça e outras gírias não sejam o mais indicado para futuras traduções. Sobre os amigos, é aquilo que recordo. O quase casado, o ginasta hoje em terras estrangeiras - preciso me atualizar como ele está em meio a esse caos mundial, me cobro a fazer isso - e o amigo que, se eu enviar mensageiro veloz o link certo, será o primeiro a relembrar essa epopeia de hormônios em alta na época e saudosismo latente nos cansados olhos da atualidade.

Como disse um dos músicos, o do violino do filme Titanic (1997) - que pela primeira vez assisti não digo esses dias porque foi exatamente ontem - "cavalheiros, foi um prazer tocar com os senhores". A menina-flor-campestre do Alegrete merece felicidades, o máximo que possa colher na lida dessa vida. Recordei dela pela última vez para remendar com o começo dessas linhas ao som de The Sidewinder Sleeps Tonite (A Cascavel Dorme Hoje à Noite), do mesmo disco referido do R.E.M. Agora a faixa cambiou para Stand, a de número 13. E é em um Rápido Movimento dos Olhos que encerramos aqui, para agradecermos sobretudo aos amigos que entrincheirados conosco encararam essa e outras. Ah, sim, há outras... Vontade de uma rapadura de amendoim com suco de limão...