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30/09/2025

Titicut Follies (1967)

Titicut Follies é um dos vários documentários produzidos pelo norte-americano e judeu Frederick Wiseman. Neste, a câmera está ligada em um internato psiquiátrico, uma prisão para condenados e pacientes da ala psiquiátrica. O convívio problemático e conjunto entre eles marca o filme, em que o foco, na verdade, está nas atitudes grosseiras e debochadas dos agentes do local com os detentos.

Um preso no início é provocado pelo seu quarto não estar em ordem. Não está limpo. Ele é intimado a arrumar até o dia seguinte. "Como estará o quarto?" "Limpo", ele responde. Mas a pergunta é feita repetidas vezes, ele grita, se desespera, é um detento das alas psiquiátricas. Ele é provocado à exaustão. Assim seria com vários.

Dois casos em particular chamam atenção pela necessidade e apresentações de discursos coerentes, lúcidos e denunciantes. Na verdade, é impressionante que trabalhos denunciadores como os de Wiseman fossem aprovados e exibidos a algum público. Eles achincalham as instituições norte-americanos, em suas falhas penais, de saúde e bem estar para seus habitantes. Em um dos discursos está um russo com nome de Vladimir - comum à Rússia, mas não seria adaptado? Vladimir nem falaria inglês fluente antes, mas discursa nervoso, ansioso e sedento por sair da instituição. Ele está a um ano e meio nessa prisão e deseja retornar à sociedade o quanto antes. Vale ressaltar o contexto de guerra fria para época, em pleno 1967, como diriam, os auges da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, após segunda guerra e ainda longe do desfecho de queda do muro berlinense. Vladimir reclama dos medicamentos que é obrigado a inserir, que sente alterações no tórax, que sente estar piorando ao invés de melhorar. Os médicos, ao contrário das súplicas, liberariam o paciente somente quando ele apresentasse melhoras. Ele denuncia a contrariedade: como vai melhorar se os medicamentos o pioram? Vai sair dali nunca por essa lógica homicida.

Além de Vladimir, um outro preso denuncia a lógica estadunidense de chamar a todos os inimigos como comunistas dessa guerra fria. A imagem ao final do texto realça os principais pontos tocados pelo paciente. Ele discursa em banhos de sol no pátio, é escutado por poucos, contrariado ainda por outros e ignorado pela maioria que nem sequer o entende, com problemas graves de cognição e déficit de atenção. Todos medicados, talvez pelas mesmas adversas medicinas denunciadas em filmes como Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Este outro preso chega a discutir com um detento patriótico e apoiador das obtusas instituições estadunidenses. Ele perde um pouco da razão ao atropelar as tentativas de interpelar do outro, mas demonstra muita racionalidade, muito mais do que iríamos supor para estar ali. Mas é aquilo: razão até demais. Deve fazer mal.

A interferência no Vietnã, a atração e a provocação por guerras são postas no discurso do referido preso. Ele compara, de uma forma um tanto quanto machista, é bem verdade, a atuação dos Estados Unidos como uma mulher ninfomaníaca, que é sedenta na procura por guerras e só assim teria sua satisfação pessoal. Durante décadas observou-se esse comportamento sedento e sedutor por guerras através de transferências econômicas como investimentos em exércitos e vendas de armas; sem ganho econômico não faria sentido tamanho belicismo.

De volta a Vladimir, este denuncia quando questionado que não possui formas de lazer, é impossível desenvolver-se socialmente em meio ao microcosmos de isolamento e de tentativa frustrada de denominador comum para presos com os mais diversos graus de alterações, transtornos e problemas. Não há esporte, "somente uma luva e uma bola de beisebol". O controle e a rigidez das instituições e dos quartos ofenderia qualquer prisão da península nórdica entre Noruega e Finlândia da posteridade.

Um dos presos estava em greve de fome como protesto e foi obrigado a consumir alimentos pelo nariz, em um tubo, em uma das cenas mais agoniantes em que é recomendável até avançar a fita. Suas costelas em sobressalto, a nudez de algumas cenas e finalmente a injeção intubada pelo nariz da vítima dessa prática torturante. Um padre abençoava os detentos com orações católicas para quem assim quisesse ou não quisesse.

Os documentários de Frederick Wiseman deveriam ser exibidos ao mundo para mostrar atrasos, distorções, noções escondidas e inferiormente conhecidas da chamada terra da liberdade, onde liberdade muitas vezes é controle, liberdade muitas vezes é submissão, liberdade muitas vezes é suborno, liberdade muitas vezes é imposição, é aprisionamento, são ataques ao estrangeiro, ameaças e destruição, seja por falta de métodos mais avançados para o desenvolvimento ou maldade crua.

🌟🌟🌟🌟 

1- A instituição filmada é o Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos Insanos, uma instituição correcional em Bridgewater, Massachusetts.

2- A informação é de que o documentário de Wiseman ficou banido do território estadunidense por pelo menos 25 anos de exibição proibida, o que faz sentido com o questionamento deste escriba.

15/08/2025

A Chinesa (1967)

Por ordem cronológica de preparação, o filme seguinte a ser analisado é A Chinesa (1967), um dos mais políticos de Godard enquanto fase da primeira Nouvelle Vague, iniciada em Acossado (1960), com roteiro do companheiro François Truffaut. Em A Chinesa, feito após 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela e antes de Weekend, Godard já havia começado seu relacionamento com a atriz alemã/francesa Anna Wiazemsky, destaque no ano anterior no filme A Testemunha. Anna estreia nos filmes de Jean Luc com papel de importância em A Chinesa.

Jean Pierre Leaud e outros atores compõem nesse filme uma célula comunista, com as locações internas em uma casa altamente decorada com material político. O filme é todo composto por debates, discussões, pensamentos e manifestações de cunho político, com atuações locais ou mediante os problemas globais. Os jovens escutam a tradução da Rádio de Pequim e buscam se manter informados sobre as guardas vermelhas impulsionadas na China. Claramente, se vê que a célula comunista está com novos membros e os debates são de iniciação e com foco na continuidade das atividades. No início do filme, um companheiro deles aparece ensanguentado e rapidamente o acodem e o posicionam em uma cadeira. Quando questionado quem teria feito isso com ele, afirma, para alguma surpresa, que foram outros ditos comunistas, da Sorbonne, numa dissidência ocorrida sobre a situação russa (diante da Soviética de 67). Jean Leaud considera isso positivo, pois marca as opiniões contrárias e o posicionamento da célula enquanto modelo político. 

As paredes da casa em questão estão sempre decoradas com frases de efeito. Uma delas afirma que se devem combater ideias vagas com ideias claras. O filme tem andamento quase como um manual para recrutar, se politizar e entender questões político-globais. Nenhuma surpresa que tenha sido vetado/censurado de exibição qualquer no Brasil da época. A pensa os objetivos da ditadura cívico-militar brasileira, atuaram como a censura previa atuar: sem espaço para manifestações pró-comunismo.

Um convidado discursa para a célula sobre a perspectiva global após a morte de Lenin. Abre-se espaço para novas pesquisas, perspectivas e formulações. Sementes já foram plantadas. Eles debatem que as classes sociais vivem em constante choque, ebulição, movimento: há classes que ora surgem, outras desaparecem como movimento de atuação social. "Essa é a história da civilização." E essa pressão, essa luta de classes acabaria sob uma ditadura com base nas escolhas do proletariado? É negado. Desde 1921, Lenin afirmava que a ideia de classes sociais não se dissiparia sequer com essa organização social.

No filme, também se considera que revoluções só são possíveis tendendo-se, entendendo-se, buscando-se revoluções. Não acontecem por acaso ou não sendo almejadas. Para alcançar objetivos, é preciso focar na prática desde o bairro, a vila, a cidade, com exemplos práticos e não especulativos, imaginários. Além dos debates, diga-se, com o objetivo em tempp real, o filme é entrecortado com espécies de entrevistas com os membros da célula, com suas histórias pessoais de como aderiram à ideologia, de onde conheceram, o que têm passado e quais objetivos possuem na causa. Dentro disso, comentam situações cotidianas e de relevância para as discussões políticas.

Diferentes lugares de fala são apresentados. Veronique, a personagem de Anna Wiazemsky vem de uma família de banqueiros e estudava filosofia. Percebeu as desigualdades impostas pelo capitalismo (classes sociais, campo x cidade, agricultura x indústria), percebeu que somente estudar filosofia vinda de um bairro operário era uma contradição muito grande, mas tenta aplicar os conhecimentos em busca de uma teoria mais justa, que possa ser praticada. Segundo ela, queimar livros também não seria bom, pois assim não se consegue criticá-los.

O personagem de Jean Leaud levanta uma questão sobre linguagem (lá vem Godard). Se fosse uma sociedade de cegos, se prestaria mais atenção ao que é dito, em conversas verdadeiras, com atenção ao interlocutor. É uma crítica que ganha espaço cada vez mais em uma sociedade de muitos falantes e poucos ouvintes; poucos ouvintes ativos, poucos interpretadores, reflexivos, pensantes, questionadores.

Após o descanso da noite, os personagens despertam pela manhã e vão em direção a varanda da casa. Alongam e realizam exercícios enquanto pronunciam frases de teoria marxista como se fossem um exército a cantar durante os exercícios físicos. Uma sátira godardiana. O personagem de Jean Leaud então ministra a próxima conversa sobre os tons e directrizes da guerra na Ásia. Satiriza a ação dos países, cada qual representado por óculos escuros com suas bandeiras, enquanto o Vietnã está limitado a pedir socorro. Estados Unidos enviaram mais bombas ao país asiático do que durante a Segunda Guerra (princípios para quê? Ásia para os norte-americano?), União Soviética muito teoriza e pouco aplica. A China de Mao pede atenção, mas não teme o imperialismo e o capitalismo (como até hoje permanece). Nas palavras de Mao, esses impositores seriam como tigres de papel, ferozes na aparência, mas, para China, inofensivos aos objetivos. Inglaterra e França, consideradas potências mundiais, são passivas e não demonstram posicionamento profundo, como em outras guerras modernas - até sobre a passividade no caso Israel-Palestina.

Percebo que Godard também utiliza muito das armas de fogo, de representações de conflitos como apenas brinquedos, como se os personagens, os adultos brincassem com essas arminhas, como crianças. E as guerras não são assim? Com homens velhos a regular, a controlar, a ordenar distantes da linha de frente por objetivos econômicos, sem a real dimensão da desgraça de cada frente, do saldo de cada bombardeio. Assim como na psicologia infantil, são nas brincadeiras que muito é demonstrado e pode ser interpretado.

Ao longo do filme, Godard defende a corrente maoísta, considerando os segmentos da esquerda europeia como reformistas, insuficientes, impotentes. O exemplo maior a ser estudado, segundo a demonstração do filme, é a China (até por isso leva o nome, A Chinesa).

O personagem de Jean Leaud e Veronique escutam um discurso, escutam música e que os comunistas devem combater em duas frentes, entre elas, a arte. Leaud anuncia que é difícil para ele fazer duas coisas de uma vez, só consegue uma. Veronique simula uma DR de casal, que não o ama mais, justifica e diz que ele entenderá. O exercício era para mostrar que ele consegue sim fazer duas coisas ao mesmo tempo, no caso foi entender a questão e ouvir música. Questionável resultado, pois às vezes abdicamos da atenção de uma música ou a rebaixamos para segundo plano enquanto nos dedicamos em cheio a algo mais urgente e relevante. Complicado atuar em duas frentes, mas fica o debate da cena.

Prossegue mais um debate sobre linguagem, o que envolve a exclusão do personagem loiro Henri na célula. Por dissidências, foi votada sua saída. Ele comenta o episódio enquanto prepara um café da manhã, ou coisa parecida. O debate sobre linguagem é interessante no sentido de que, para se expressarem, discursarem, pautarem uma revolução, deveriam os comunistas armas discursos, panfletos, anúncios e transcrições na mesma linguagem considerada burguesa, tradicional? Há como romper esse obstáculo rumo a uma libertação, a uma alternativa? São questões de estilo ou há como revolucionar dentro daquilo (a linguagem) que é consagrado, inteligível e usual? Henri acreditava na coexistência pacífica das formas distintas enquanto Veronique era mais radical, pelo rompimento total. A própria Veronique encontra um escritor em um trem e conversam para atualizarem-se. Ela comentam que seus inimigos são os generais, os burocratas (...) e os intelectuais reacionários - um grande grupo. O debate dela com o escritor no trem vai da ideia de Veronique fechar ou explodir as universidades, como a causa inicial do filme do membro da célula após ataque na Sorbonne. Veronique crê que a educação é reprodutora dos paradigmas das autoridades e contribui para o reacionarismo, por isso deseja fechá-las e intimidá-las, propondo até ataques a professores e estudantes, na intimidação aos demais. O escritor se posiciona contra, porque essa ideia é dela e de mais dois ou três, não é uma atitude geral e revolucionária. É diferente do atentado proposto por uma mulher argelina, Djamila, que explodiu um café, "mas em nome da revolução", enfatiza o escritor. "Você não pode fazer a revolução pelos outros", transmite em um sentido da necessidade de acompanhamento, de retaguarda. Veronique nisso deseja que para aplicar as teorias revolucionárias que tem aprendido, ela precisaria da prática e o exemplo descrito era o modelo dela de atuação necessária.

Nas contestações aos planos, o escritor afirma que uma revolução precisa de bases firmes para o prosseguimento, que apenas atos isolados ou tomadas de poder sem uma base forte e planos vigentes se tornam ações temporárias e interrompidas, com altos riscos de apreensões e retenções. Quando a palavra volta para Henri, ele destaca o marxismo como uma espécie de ciência, de método e que os argumentos para atuações da célula eram válidos, mas estavam bagunçados; considerava falta de métodos.

O filme encaminha seu final com o suicídio de Serge, um dos convidados à célula que tinha a missão de assassinar um ministro russo como protesto. Assim, a missão recai para Veronique. Enquanto isso, segue uma entrevista com o excluído Henri, que não sabia do suicídio de Serge, conforme revelou, e não sabia mais sobre os companheiros, ex-companheiros de célula. O personagem de Jean Leaud chega a aparecer como comerciante de verduras, um simples feirante, também deixando que por centavos as pessoas tentassem acertar legumes em sua cara, como aqueles games norte-americanos ou japoneses.

Com muita referência ao famoso livro vermelho de Mao e com uma trilha sonora que o homenageia, o filme A Chinesa chega ao fim com a dissolução da célula daqueles jovens franceses e o futuro sempre incerto das organizações comunistas. Seria a China um modelo a ser seguido? Pelo comunismo da época ou pelo destaque econômico de décadas seguintes? Questões.


Referência ao filme Alemanha Ano Zero, sobre o pós-Segunda Guerra









08/08/2025

Alphaville (1965)

Alphaville talvez seja meu filme favorito de Godard. E o talvez aqui ainda é totalmente humano. Alphaville é um lugar robotizado no futuro, onde o controle sobre os cidadãos e as mentes é total e as pessoas são ou condicionadas à tecnologia ou eliminadas. O lugar obedece à lógica das máquinas e tudo é programado. Desde a chegada do estrangeiro Lemmy Caution em um hotel, a recepção é feita por sedutoras programadas. "Sedutoras de nível 3."

Godard usa elementos sutis ou não para expressar sua preocupação com a sociedade futura. A eliminação de estrangeiros e o seu controle total. Quem não se adaptar à tecnologia e às ordens da lógica será eliminado. Até a forma de eliminação é calculada e tem bases, por exemplo, na solução final contra os judeus na Segunda Guerra. Ao invés da frieza das manipuladas câmaras de gás, as pessoas seriam eliminadas em um teatro enquanto assistissem a uma apresentação qualquer.

O Alpha 60 é o grande cérebro programado para controlar Alphaville. Godard está atento às artimanhas das guerras. Em certo momento, enquanto Caution, jornalista estrangeiro, está conhecendo as estruturas do colossal Alpha 60, o recepcionista afirma que os Países Exteriores em breve entrarão em guerra com Alphaville, então, pela lógica programada, Alphaville resolveu invadi-los antes que isso ocorra. É a lógica e a disputa e o interesse que, por exemplo, os Estados Unidos usam no plano global a várias décadas, seja para justificar obtenção de petróleo, seja para intervir em questões ideológicas, como ocorreu na busca por recursos em Guatemala, Honduras, Nicarágua, embargo a Cuba, guerra em Vietnã, Camboja, intervenção na África em Ruanda, Angola, Líbia, ditaduras na América do Sul e assim por diante.

Alphaville demonstra a preocupação com o estrangeiro, com o que não se adapte. Eles dizem respeitar, precisar dos cérebros mais fortes e ao mesmo tempo temê-los. É a linha tênue entre a necessidade do controle desses ou eliminá-los. É uma sociedade mecanizada, onde a Bíblia está presente nos quartos de hóspedes em hotel e assim se imagina, se conclui que a teocracia estaria por tudo. Também no quarto de Cautton é apresentada a forma como as pessoas lidarão com a saúde no futuro: "os tranquilizantes estão no banheiro, senhor". Não é se você precisar, senhor. É óbvio que você vai precisar. A sociedade não tem como se sustentar sem esses medicamentos de uso controlado.

Godard sempre foi muito cuidadoso nos usos da linguagem, desde seus primeiros filmes. Experiência que ele vai ampliar ao longo da carreira até seus últimos filmes, mais técnicos, documentais. Em Alphaville, foi abolido o uso da pergunta "por quê?". Caution, enquanto jornalista estrangeiro, está acostumado a investigar e utilizar esse interrogativo. Já os cidadãos na Alphaville sequer reconhecem o significado do por quê. Um dos receptores para Cautton explica que não se usa mais "por quê" e sim apenas "para quê", porque tudo é guiado pelo objetivo, pela causa e pela consequência. É a lógica que controla e subverte qualquer saída dela. É interessante pensar que na mesma década, apenas dois anos após seria lançado o livro com tantos aforismas e pensamentos acerca disso, A Sociedade do Espetáculo, do também francês Guy Debord.

Durante o filme e suas investigações, Lemmy Caution é inquerido em diferentes interrogatórios, quando querem saber sobre seu passado e sentimentos. Os sentimentos, obviamente, também foram abolidos de Alphaville. Seduções e atos sexuais também são programados como tarefas das mais banais. Durante suas ações, Caution chega a excursionar com uma tentativa de nome falso: Ivan Johnson (algo até enfadonho e repetitivo, como um nome comum dos russos, mas com uma mistura proposital).

"Desde que está aqui, não entendo o que está acontecendo", afirma Natasha von Braun (Anna Karina), demonstrando que Lemmy Caution causa esse efeito na programada cidade de Alphaville: confusão, sentimentos humanos. Caution questiona Natasha sobre literatura e sobre conhecimentos básicos que parecem banais a nosso mundo, mas que em Alphaville foram abolidos.

Ao início do filme, Lemmy encontra Henry Dickinson, que conta que são comuns os suicídios. "E o que acontece com quem não se adapta e não se suicida?" Bom, aí eles te matam. Soa como uma ditadura, não é? Natasha von Braun é a filha do mentor Dr. von Braun. Palavras de sua lembrança foram eliminadas. Em comum com a Novilíngua do 1984 de George Orwell, em Alphaville também se proibem e eliminam palavras. Em Alphaville, a Bíblia e o Dicionário podem ser a mesma coisa na busca por respostas. A população não diferencia um desses livros do outro. No Dicionário as palavras somem e são abduzidas ou adaptadas, reprogramadas. Consciência é uma palavra inexistente. Ninguém deve pensar nela. Ternura também foi abduzida. São repaginadas em comum com os ministérios organizados na sociedade oceânica do 1984.

"O que faz com que a madrugada se ilumine?" A Poesia. A Poesia foi abolida. Até havia escritores, mas eles vivem na Zona Proibida (novamente em comum com 1984), "escreviam coisas incompreensíveis". Usam das palavras proibidas e dos sentimentos. Godard sempre quebra momentos de tensões com anedotas sejam mais ou sejam menos conhecidas. São casos de folclore, ditados populares ou provérbios de diferentes culturas. Alphaville quer controlar todos esses testemunhos. "Farei os cálculos necessários para não existir fracasso", afirma o poderoso Alpha 60. "Pois eu lutarei para que o fracasso exista", rebate Lemmy Caution.

"Você tem ideias estranhas, sr. Caution", afirma o professor von Braun. "Seriam consideradas sublimes na era das ideias. Mas em breve homens como você não existirão mais. Serão convertidos em algo pior do que a morte. Serão lendas", dando a entender que caíriam na vala comum do esquecimento, da eliminação. Um dos métodos sublimes apresentados no filme, no limiar cômico, é uma forma de eliminação dos inimigos do Estado que consistia em posicioná-los em uma cerimônia sobre um trampolim de piscina, deixá-los recitar suas últimas palavras e serem baleados, como um paredão de fuzilamento, mas artisticamente à beira da piscina. Um grupo de mulheres como a um nado sincronizado recolhia os corpos recém caídos na água. Métodos de tortura e execução, sem perder o brilho. A referida Sociedade do Espetáculo.

Entre quem poderia ser adaptado, selecionado, recrutado à sociedade de Alphaville, Godard levanta a crítica de que muitas vezes os selecionáveis eram alemães, suecos, norte-americanos. Será o preconceito daquela sociedade em favor dos que se trocam prêmios Nobel a cada ano, ou serão esses mais adaptáveis pela frieza sentimental? Perguntar não consolida a acusação.

Este filme de Godard é bem completo aos objetivos quando revista sua obra. Tem ação, tem suspense, tem altas doses de sua vasta filosofia, tem ideias distópicas, tem humor, tem o drama com disfarce/espaço a romance, tem a pesada crítica sobre as sociedades daquela guerra fria e com projeção ao futuro da inteligência artificial.

Ao começar a crítica de Alphaville, o foco seria a inteligência artificial, que está atingindo o ápice de desenvolvimento e preocupação agora pelos 2020 e poucos, rumo a 2030. Robotização, programação, substituição, algoritmos, subtração das importâncias culturais, desemprego. O final é especial, quando tenta salvar Natasha von Braun e ela tem dificuldade de proferir as palavras que deseja, do fundo de sua alma, Lemmy afirma que só ela poderá dizer o que quer, ou estará morta como os demais mecanizados de Alphaville. Será essa a crítica derradeira de uma sociedade que se comporta à luz da Inteligência Artificial e esquece de pensar, esquece de interpretar, esquece de raciocinar, esquece de sentir por si. Necessita de aspectos programados para responder simples (ou não tão simples) perguntas. Como você se sente?

18/05/2024

Longe do Vietnam (1967)

Um grupo de diretores franceses, compositores da chamada Nouvelle Vague, fez apontamentos sobre a guerra do Vietnã em 1967.

Enquanto a guerra transcorria na Ásia, debates sobre as imagens e os sentimentos gerados também ocorriam. Segundo as próprias vozes oficiais dos Estados Unidos, era a primeira guerra com uma cobertura completa de imagens, televisão e telejornais. Correspondentes que acompanharam as movimentações do local voltaram zonzos. Uma repórter relata que não aguentava mais o som de motores, helicópteros e bombardeios.

Era a guerra do exército mais rico do mundo contra um pobre país. Uma guerra ideológica. Uma guerra para tentar servir de exemplo a todos que dessem oportunidade para a corrente do comunismo. Um pequeno país campesino se organizando para se defender de toneladas de bombas lançadas diariamente. Um país agrário em sua própria defesa, pois ali os soviéticos não quiseram esquentar a mão no que ainda hoje se chama de Guerra Fria.

Os vietnamitas se organizavam como podiam em suas pequenas cidades e vilarejos. Também tentavam encenações, peças de teatro para distração mas instruções. Foram cavados milhares de túneis e de abrigos individuais subterrâneos. Em caso de alarmes de bombardeios ou invasões, os vietnamitas se escondiam em alojamentos concretados abaixo da terra. Milhares devem ter sobrevivido a partir dessas construções rústicas e muito úteis. Os Estados Unidos eram o exército mais rico do mundo, com equipamentos tecnológicos até hoje para muitos países. Porém, os jovens mandados à guerra sabemos quem são. Não são os de famílias abastadas. São negros, latinos e pobres de estudos atrasados. Esses foram a maioria dos chamados voluntários. Muitas vezes coagidos e esperançosos por um emprego ou algum orgulho para suas chorosas famílias.

Protestos ocorreram longe do Vietnã. Na França  o vice-presidente dos Estados Unidos foi recebido a protestos, cartazes, correria e confrontos policiais. Ignorava os constantes "Go home". Ao mesmo tempo discursava seu discurso pronto de falso bom acolhimento, receptação amistosa e bem sucedida. Ao mesmo tempo os franceses viviam naquela década os confrontos com a Argélia, por exemplo, tema de filmes da época, como O Pequeno Soldado, de 1963, de Jean-Luc Godard.

Recentemente falecido, Godard é um dos que mais aparece em minhas citações. Ele encabeça essa lista de diretores responsáveis pelo drama documentário em questão. Godard afirmou que pensava fazer um filme específico sobre o Vietnã. Pensava colocar sua visão sobre a guerra, uma visão francesa e distante sobre a guerra. Percebeu que não adiantaria e isso é colonizar culturalmente, como os próprios Estados Unidos costumam fazer. Em seu relato, o diretor compara as lutas. O Vietnã em uma luta desesperada para sobreviver e ser seu próprio país, com seu próprio costume e seu povo humilde e simples de sempre. O cinema de Godard e de outros franceses e europeus travavam uma luta contra o domínio hollywoodiano do modo de fazer cinema. Comparações à parte, uns pela sobrevivência direta, outros pelos afazeres em modo de pensar e refletir cinema, para um ganho sim da comunidade intelectual europeia, ambos viviam aquela urgência para escapar das garras norte-americanas. Godard então não fez o filme direto sobre o Vietnam e comentou que era melhor que a visão vietnamita chegasse até eles, até a distância europeia para guerra. Aprender com eles ao invés de impor o ponto de vista sobre aquele distante conflito, que chegava apenas por imagens captadas e editadas para uso pelo mundo ocidental.

Um norte-americano de nome Morrison se suicidou nos Estados Unidos ateando fogo em seu próprio corpo. Foi um protesto pela forma como muitos vietnamitas morriam na Ásia, queimados pelos soldados dos EUA. A esposa concedeu entrevista que não se surpreendeu com a atitude de Morrison, pois era assim que ele reagia ao ver as imagens da guerra. Impotente, mas jamais desinteressado. Suicidou-se em gesto lembrado até hoje. Uma família vietnamita em França deu entrevista sobre o ocorrido, agradecendo ao norte-americano que se sacrificou por eles, pelo seu povo.

Em tempos de refletir quem conhecemos, quem tem fama, sabemos então que o suicida chama-se Morrison. Mas quantos vietnamitas conhecemos? Quais figuras públicas nos chegam ao conhecimento? E os milhares que lá morremos que conhecemos apenas por "os vietnamitas"? Quantas histórias de agricultores, pescadores, motoristas e trabalhadores de construção ou de organizações comunitárias lá foram ceifadas? Em Nova York houve enorme protesto, assim como em outras cidades dos EUA, calculando que mais de 500 mil pessoas foram às ruas pedir pela paz, pelo cessar fogo, para trazerem as tropas de volta para casa. Muitos ainda eram a favor da guerra e devolviam argumentos típicos da direita. Uma luta patriótica pela libertação do Vietnã. Libertação  de quem? Do comunismo? Dos sovietes que nem mais se meteram nesse conflito armado?

E todas essas mortes em nome do domínio, do imperialismo, da economia dos Estados Unidos ao longo do século 20? Por que chamamos guerra fria se tantos morreram? E essa economia dos Estados Unidos que cedo ou tarde seria ultrapassada e hoje chamamos o seu capitalismo de tardio? Valeu a pena?

Cartazes afirmavam frases prontas sobre os ricos ficarem mais ricos e os pobres na pior. É isto que ocorre. Empresas lucram de forma bélica e jovens são postos à morte, entregues a terrenos hostis e desconhecidos, em Vietnãs, Iraques ou Afeganistões. Ou Palestinas. Mais do que isso, esses confrontos em que os apertadores de botão não botam a cara, não saem de suas salinhas condicionadas, ceifam jovens, mulheres, civis, crianças do lado oposto, gerações perdidas eternamente. O Vietnã pontuou que seria resistência. Este era o pensamento nacional, pela sua própria libertação dos yankees, custe o que custasse, o tempo que custasse. A guerra declinava e para os Estados Unidos a desistência foi uma dura derrota. O sentimento nacional dos yankees debilitado, o rabo entre as pernas, a soberania afetada, o saldo sempre em mortes mais do que representado em cifras.

Os vietnamitas dos exércitos improvisados e desestruturados resistiram. Um pequeno país agrário, conhecedor de seu terreno, contra jatos, aviões, tanques e rambos. Um trecho do filme Longe do Vietnã convoca a todos formarem seu próprio Vietnã ideológico. Se você for dos Estados Unidos, lute pelos negros, pelos panteras negras, se você for da Guiné ou da Angola, lute contra os portugueses, se você for latino-americano, lute pela sua América, pela sua gente, pelos seus produtores. Não caia nas garras da dominação estrangeira que tanto tenta interferir e explorar o máximo possível o seu país. O Vietnã foi um exemplo positivo, como defendia o governo cubano, de que era possível resistir, mesmo a um preço tão caro, vidas acabadas pela guerra contra a dominação estrangeira com seu aparato tecnológico bélico.

O Vietnã ainda tão pouco estudado ainda pode ser visto por nós. Como em filmes como Longe do Vietnã, mesmo nós estando distantes. Estávamos distante territorialmente, distantes agora temporalmente passados mais de 50 anos, mas a dominação capitalista selvagem em nossas florestas, nossas cidades, nossas agências de notícias permanece. O que fazemos a respeito? Onde está o nosso Vietnã? Por que Elon Musk doa antenas ao Rio Grande do Sul? Por que o governo Biden doou 100 mil reais enquanto para as guerras em Israel ou na frente ucraniana são bilhões? Que interesse eles têm em ajudar? Ou permanecem esquentando guerras que só são frias porque não são no território deles? Perguntas que devemos nos fazer. Onde está o nosso Vietnã que poderíamos constituir no dia a dia?


Longe do Vietnã (1967)

Direção: Chris Marker, Joris IvensClaude LelouchAlain ResnaisJean-Luc GodardAgnès Varda e William Klein.

Sinopse pelo Filmow: Diversos cineastas da Nouvelle Vague documentam e expressam sua simpatia pelo exército norte-vietnamita, durante a guerra do Vietnã.






24/04/2024

Vale das Bonecas (1967) e Terras (2009)

Acabo de ver o filme Vale das Bonecas, direção de Mark Robson, de 1967. A primeira crítica que leio sobre foi a de entregar a direção nas mãos de um homem. O filme tem total protagonismo feminino, através da história de três mulheres. Ou quatro. O destaque vai para cantora Nilley O'Hara, rejeitada de um musical por uma invejosa veterana, dona do espetáculo em Nova York. Ela busca a carreira na parte oposta dos Estados Unidos, em Los Angeles. Mas seu vício por pílulas vai colocar tudo a perder. É sobre ascenção e queda, o vício, a indústria, a substituição, a obsolescência programada. Pessoas substituíveis e uma engrenagem de espetáculo que não para, empilhando atrizes e atores descartáveis. Aqui a ênfase nas mulheres, substituíveis tão logo passem seus auges, suas mocidades. 

Mulheres que são usadas por homens ricos, por donos dos estúdios, das gravadoras, da programação. Homens que escolhem, apontam dedos quando ninguém os aponta. A crítica inicial ao filme é que o diretor aliviou a crítica para os papéis masculinos, consideração com a qual concordo. Pelo ponto de vista do mostrado no filme, que é baseado em um romance feminino da época (da autora Jacqueline Susann), parece que as mulheres brigam entre si, surtam entre si, enquanto os culpados saem pela tangencial da inocência.

Pois no mesmo dia recebo a fofoca de que duas ex-colegas de escola estão passando pela prostituição em grande centro brasileiro para serem investidoras desse dinheiro na cidade natal delas, no interior. Andam com magnatas, se vendem corporalmente em troca de pequenas ilhas de luxo, talvez carros do ano, quartos de hotel com boas vistas e relógios que custam mais do que minha conta bancária acumulada. Empreendedorismo bonito de rede social, com fotos chiques, roupas da moda, corpos bronzeados e autovenda no açougue aos olhos.

Interessante ter escolhido assistir a esse filme norte-americano na noite anterior a receber essa notícia. Interessante que as mesmas irmãs que agora são empresarias neste ramo aproveitem sua juventude ao passo que recordo criticarem na época uma colegial que já se vendia e usava drogas. Assim imagino outras da época. As que prosperam em carreiras de estudo e devoção a outros trabalhos mais bem anunciáveis são pouquíssimas. O que a tentação e o capitalismo não fazem? O prazer imediato de quem compra, o prazer quase imediato de quem vende e em seguida recebe em troca. Ou até durante. Ou até recebe antes, na troca de promessas. Corridas em carros de luxo, hotéis altos, cafés da manhã, sorrisos brancos consertados, publicações cheias em vidas vazias. O que farão futuramente? Terão história para contar. Ascenção e queda.

A carreira dos holofotes concorridos nos Estados Unidos, os perfis de Instagram com seguidores anônimos. Quem realmente liga para a história que está ali? Quem liga para o abuso de comprimidos, para os preservativos descartados a cada uso, para as pessoas que passam e não ficam sequer para arrumar a cama? O quanto os empresários ligam para suas supostas estrelas, para substituição entre um espetáculo e outro, às vezes entre um show e outro?

Para completar emendo assistir ao documentário Terras, de 2009. Imaginava algo oriental pelo nome da diretora ser Maya Da-Rin. Mas é amazônico. Amazônico na sua essência. As entranhas da floresta. A fronteira entre Brasil e Colômbia, sendo uma das cidades chamada Letícia. Anônimos que fogem de guerrilhas, que vendem batatas, cebolas, artefatos. Indígenas originários, brancos invasores. Quem disse que o modo de vida comercial capitalista é o correto? Quantas gerações de indígenas passaram? Ok, vivendo menos, até os 30 ou 40 que sejam, mas por milhares de anos, enquanto nosso modo de vida industrial acabará em ilhas enormes de plástico nos oceanos, terras e seres para cultivo exterminados, garimpo, gula, egoísmo, extração final de recursos. Nosso modo de vida proposto pelos industriários e verdadeiros capitalistas detentores acabará com o planeta em pouco tempo. Mais algumas décadas, mais tardar século, se não com as bombas, drones e guerrilhas armadas no Oriente médio, Ásia, Europa ou respingos aqui. O nuclear é potente.

Uma indígena afirma que antigamente tudo era compartilhado, enquanto o dinheiro hoje é um modo que cada ajuda, cada competência, cada correspondência entregue é cobrada ou nada feito. É o modo com que aprenderam dos brancos.

Quem está em capacidade de julgar atrizes excluídas e decadentes, prostitutas, indígenas corrompidos, indígenas que participam da corrupção ou dela são somente vítima? Quem está no julgamento de gente que perde o rumo seja pelo desespero da primeira fome ou pelos anseios de diamantes falsos da segunda fome, a espiritual ou só do mundo das aparências?

Certa vez cheguei a me indagar porque alguns poucos milhares de indígenas precisariam de áreas grandes do tamanho de estados, mas imagine a importância da preservação de terras, de natureza e o impedimento da ganância máxima. Por que os originários que tanto sofreram na mão dos brancos em matanças, escravização, imposições religiosas, imposições de costume não podem ter seu espaço de preservação enquanto empresários 1% mais ricos detêm a riqueza de milhões e milhões de nosso povo? Em terras, heliportos, empresas sonegadoras, financiadores de armas, de drogas escondidas e achadas, terras, terras e mais terras. Nós cada vez mais longe de devolver para os indígenas como hoje em dia só propõem da boca para fora, do sonho radiante, esvoaçante e passageiro como fumaça de cachimbo ou em postagens ligeiras de redes sociais. Para onde vamos e quem dá mais?