30/09/2025

Titicut Follies (1967)

Titicut Follies é um dos vários documentários produzidos pelo norte-americano e judeu Frederick Wiseman. Neste, a câmera está ligada em um internato psiquiátrico, uma prisão para condenados e pacientes da ala psiquiátrica. O convívio problemático e conjunto entre eles marca o filme, em que o foco, na verdade, está nas atitudes grosseiras e debochadas dos agentes do local com os detentos.

Um preso no início é provocado pelo seu quarto não estar em ordem. Não está limpo. Ele é intimado a arrumar até o dia seguinte. "Como estará o quarto?" "Limpo", ele responde. Mas a pergunta é feita repetidas vezes, ele grita, se desespera, é um detento das alas psiquiátricas. Ele é provocado à exaustão. Assim seria com vários.

Dois casos em particular chamam atenção pela necessidade e apresentações de discursos coerentes, lúcidos e denunciantes. Na verdade, é impressionante que trabalhos denunciadores como os de Wiseman fossem aprovados e exibidos a algum público. Eles achincalham as instituições norte-americanos, em suas falhas penais, de saúde e bem estar para seus habitantes. Em um dos discursos está um russo com nome de Vladimir - comum à Rússia, mas não seria adaptado? Vladimir nem falaria inglês fluente antes, mas discursa nervoso, ansioso e sedento por sair da instituição. Ele está a um ano e meio nessa prisão e deseja retornar à sociedade o quanto antes. Vale ressaltar o contexto de guerra fria para época, em pleno 1967, como diriam, os auges da guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, após segunda guerra e ainda longe do desfecho de queda do muro berlinense. Vladimir reclama dos medicamentos que é obrigado a inserir, que sente alterações no tórax, que sente estar piorando ao invés de melhorar. Os médicos, ao contrário das súplicas, liberariam o paciente somente quando ele apresentasse melhoras. Ele denuncia a contrariedade: como vai melhorar se os medicamentos o pioram? Vai sair dali nunca por essa lógica homicida.

Além de Vladimir, um outro preso denuncia a lógica estadunidense de chamar a todos os inimigos como comunistas dessa guerra fria. A imagem ao final do texto realça os principais pontos tocados pelo paciente. Ele discursa em banhos de sol no pátio, é escutado por poucos, contrariado ainda por outros e ignorado pela maioria que nem sequer o entende, com problemas graves de cognição e déficit de atenção. Todos medicados, talvez pelas mesmas adversas medicinas denunciadas em filmes como Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Este outro preso chega a discutir com um detento patriótico e apoiador das obtusas instituições estadunidenses. Ele perde um pouco da razão ao atropelar as tentativas de interpelar do outro, mas demonstra muita racionalidade, muito mais do que iríamos supor para estar ali. Mas é aquilo: razão até demais. Deve fazer mal.

A interferência no Vietnã, a atração e a provocação por guerras são postas no discurso do referido preso. Ele compara, de uma forma um tanto quanto machista, é bem verdade, a atuação dos Estados Unidos como uma mulher ninfomaníaca, que é sedenta na procura por guerras e só assim teria sua satisfação pessoal. Durante décadas observou-se esse comportamento sedento e sedutor por guerras através de transferências econômicas como investimentos em exércitos e vendas de armas; sem ganho econômico não faria sentido tamanho belicismo.

De volta a Vladimir, este denuncia quando questionado que não possui formas de lazer, é impossível desenvolver-se socialmente em meio ao microcosmos de isolamento e de tentativa frustrada de denominador comum para presos com os mais diversos graus de alterações, transtornos e problemas. Não há esporte, "somente uma luva e uma bola de beisebol". O controle e a rigidez das instituições e dos quartos ofenderia qualquer prisão da península nórdica entre Noruega e Finlândia da posteridade.

Um dos presos estava em greve de fome como protesto e foi obrigado a consumir alimentos pelo nariz, em um tubo, em uma das cenas mais agoniantes em que é recomendável até avançar a fita. Suas costelas em sobressalto, a nudez de algumas cenas e finalmente a injeção intubada pelo nariz da vítima dessa prática torturante. Um padre abençoava os detentos com orações católicas para quem assim quisesse ou não quisesse.

Os documentários de Frederick Wiseman deveriam ser exibidos ao mundo para mostrar atrasos, distorções, noções escondidas e inferiormente conhecidas da chamada terra da liberdade, onde liberdade muitas vezes é controle, liberdade muitas vezes é submissão, liberdade muitas vezes é suborno, liberdade muitas vezes é imposição, é aprisionamento, são ataques ao estrangeiro, ameaças e destruição, seja por falta de métodos mais avançados para o desenvolvimento ou maldade crua.

🌟🌟🌟🌟 

1- A instituição filmada é o Hospital Estadual de Bridgewater para Criminosos Insanos, uma instituição correcional em Bridgewater, Massachusetts.

2- A informação é de que o documentário de Wiseman ficou banido do território estadunidense por pelo menos 25 anos de exibição proibida, o que faz sentido com o questionamento deste escriba.

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