25/09/2025

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Branco Sai, Preto Fica é um filme nacional de 2014 e possui muitas camadas a serem analisadas. É certo que sua nota não pode ser baixa. O filme mistura gêneros cinematográficos mesmo com um orçamento discreto, inclusive com ficção científica sem efeitos especiais. Está muito no imaginário.

Dimas Cravalanças é um viajante no tempo. Ele tem a missão de voltar para uma época e coletar provas de que havia racismo forte, omissão de governo e violência policial. Brasília é uma cidade sitiada, onde é necessario passaporte e autorização para trocar de bairro à noite, tem toque de recolher. A violência policial foi o episódio capital do filme. Ela é apenas narrada pelos personagens.

Dois personagens negros foram vítimas da violência policial em um baile em Brasília. Logo no começo do filme um cadeirante que adaptou sua casa para cadeira de rodas, e possui uma rádio pirata com um singelo estúdio, conta sua história. Na entrada brusca da polícia para acabar com esse referido baile, ele acabou PCD. Durante a invasão da polícia, logo ao início do filme na narrativa, o personagem anuncia a frase derradeira do nome: "Branco Sai, Preto Fica", no escancarado racismo policial brasileiro.

Ele simula diálogos de abordagem. "Tá olhando o quê? Tá armado?", entre outras frases. Quem conhece operações, principalmente em bairros pobres, sabe da verossimilhança.

Outro personagem perdeu uma das pernas nessa ação e hoje utiliza perna mecânica. O filme é como um documentário da vivência deles, na união com drama e ficção científica pelo viajante no tempo. Esse personagem que perdeu a perna conta que tentou fugir na entrada da polícia, mas o cerco era forte, havia cavalaria e ele foi pisoteado. O resultado foi a amputação. Como forma narrativa e de empatia, ele inclusive conta como foi acordar no hospital após a cirurgia, em visão marcante em que se sentia melhor e pensava levantar para ir ao banheiro, mas ele não tinha mais a perna. Há referências científicas no filme como a sensação em que o cérebro ainda acredita na existência da perna. O sistema nervoso humano demora a se acostumar à nova realidade.

Esses personagens são a espinha dorsal do filme e Dimas Cravalanças precisa conhecê-los, investigar suas vidas e enviar essas provas ao futuro para denunciar a omissão de justiça e o descaso policial. O aprofundamento do filme se deve a maiores detalhes de como os personagens ganham seu sustento. O DJ ainda quer trabalhar com música, mesmo com suas limitações de acessibilidade e de equipamentos. Ele pede ajuda a um sócio, precisa investir grana em nova aparelhagem e em passaportes para circularem pela sitiada Brasília. Era nada fácil. Nessa trama, ele convive com outros artistas um tanto quanto questionáveis. Há um tecno brega que lançava a dança do jumento, balançando o instrumento, e contava com back vocals, cantoras de apoio. Um tanto constrangedor. Outro rapper muito mais sério ajuda nas denúncias propostas pela história do diretor Adirley Queirós. No rap do entrevistado, no improvisado e modernizado estúdio do cadeirante, um pouco mais da história da periferia. Brasília, afinal de contas, é uma cidade que nasce política, centralizada nos poderes executivo, legislativo e judiciário e passa a receber trabalhadores e migrantes de todos os rincões brasileiros - e estrangeiros, bolivianos, peruanos, enfim - Renato Russo já cantava essa proximidade em faroestes caboclos. 

A história de tentar superar traumas e deformidades arregaça o preconceito existente. A dificuldade enfrentada pela periferia, ainda mais quando se sofre preconceito pela cor da pele, quando se sofre preconceito e se enfrentam limitações pela acessibilidade. A perna mecânica que precisa ser comprada, reparada, arrumada, talvez trocada ou adaptada. Sem ajuda pública, um irmão precisa ajudar o outro. Sem espaço na mídia, um DJ precisa buscar investimentos com sócios suspeitos, com artistas estranhos, com recursos limitados.

Branco Sai, Preto Fica é uma frase que abre um leque de significados. Sai de cena? Sai do baile para não levar porrada de polícia? Sai do protagonismo e finalmente abre espaço a quem nunca é ouvido? Esse filme brasileiro tem tudo para, mesmo com limitações na linearidade da história, com o roteiro que pode ser considerado confuso pelos espectadores, se tornar um clássico da época. 2014 de um Brasil escravizado e ainda escravizante.

Nota final para o filme de Adirley Queirós:

🌟🌟🌟🌟

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