Ladrões de Cinema é um filme brasileiro muito interessante, a começar pelo referido período de 1977, durante a ditadura militar brasileira, ou seja, tinha de passar pelos censores. E conseguiu e mesmo assim trouxe críticas construtivas. O filme começa no carnaval carioca com uma equipe de filmagem vinda dos Estados Unidos. Eles documentam o carnaval do Rio de Janeiro e construiriam um filme/documentário sobre. O equipamento é roubado em plena avenida e os cineastas ficam estatelados no chão, sem poder identificar os ladrões.
O equipamento sobe o morro do Pavãozinho, onde moram os protagonistas do filme: e a comunidade como um todo. Lá eles discutem o que fazer com aquelas câmeras e negativos roubados. Pensam em revender e trocar por dinheiro para comunidade, mas melhor: decidem por fazer eles mesmos um filme. Todo o trabalho em Ladrões de Cinema é de improviso e de cenas que cidadãos comuns com câmeras poderiam desenvolver. Eles decidem por fazer um filme na comunidade e iniciam a luta para decidir um tema. Optam por Tiradentes. Aí a crítica se eleva. A comunidade treina bastante para entender a história brasileira, a história da Inconfidência Mineira, a crítica de que os ricos queriam só para eles, que os líricos e padres não tinham o necessário para uma real revolução e que dependeria de representantes do povo - como eles, do Pavãozinho, eram.
A comunidade de predominância negra passa a gravar as cenas da história mineira, então onde negros interpretam papéis também de portugueses. Ocorre essa mistura. Eles aprendem na prática técnicas de direção e atuação. Pedem dicas e materiais para um francês que mora no Rio de Janeiro. Quebram barreiras idiomáticas e de performance em busca do filme prometido.
Enquanto isso, há traidores entre eles como havia traidores para denunciar a Inconfidência para Coroa Portuguesa. Há portugueses de verdade na comunidade no morro. É uma mistura em três atos: entre a realidade da comunidade, a ficção/atuação de fazer um filme e a história brasileira. Godard ficaria orgulhoso. Os traidores na comunidade o quê queriam para sabotar o filme? Queriam vender os equipamentos caros dos norte-americanos e surrupiar a grana. Nada absurdo, certo? Portanto, paralelamente à gravação do filme, rodam-se os planos dos sabotadores em busca do benefício próprio. Algo comum em todas as esferas sociais, dos mais pobres aos mais ricos.
A escolha do tema por Tiradentes e a pretensa revolução pelo povo brasileiro contra a coroa portuguesa não é por acaso. O espectador observa essas nuances entre o poder sendo conquistado por uma comunidade pobre que agora detém meios midiáticos e protagonistas contra a expectativa de sempre, de que só o estrangeiro, só os abastados pudessem se expressar ou retratá-los. A comunidade do Pavãozinho nunca seria mostrada ou se mostrar não fosse uma mera experiência durante o conhecido carnaval carioca. Mas o morro existe lá o ano todo. Tem seus personagens, sua gente suada e trabalhadora. Assim como possui bandidos como qualquer outro espaço da sociedade, seja ela brasileira ou não. A trama percorre esse trajeto de sabermos se o equipamento vai ser vendido por baixo dos panos ou não. Se os bandidos que roubaram os estrangeiros serão capturados ou não. O filme ficará pronto ou não?
Os norte-americanos apareceram somente na cena inicial da gravação na avenida do carnaval e voltam à cena ao fim, entusiasmados que estão na descoberta dos equipamentos e no tal produto final das filmagens no morro, material intelectual que eles próprios teriam barreiras e não conseguiriam produzir. Novamente o debate entre o estrangeiro roubar o produto brasileiro, a força do trabalho, o estado natural da terra brasilis. A comunidade do Pavãozinho, tão pouco mencionada ao longo da história brasileira, contribui em um filme de rara crítica e posicionamento nacionalistas em um falso período patriótico, em que era silenciada e submetida aos interesses estrangeiros em controle e acordos com o governo brasileiro. Não havia a soberania que até hoje se luta para conquistar pelo Brasil. A crítica também era essa, da saída ou não do domínio da corte para a saída ou não do domínio das garras estrangeiras, estadunidenses. A presença de traidores ou sabotadores quanto a qualquer movimento que causasse desordem ou desconforto às leis vigentes, sejam elas portuguesas dos tempos da coroa regente no Brasil ou da bipolaridade ou multilateralidade do mundo globalizado, durante ou após guerra fria.
Nota final para o filme de Fernando Coni Campos fica em:
🌟🌟🌟🌟
Nenhum comentário:
Postar um comentário