"Descobri que se tivesse a liberdade que procuro, não saberia o que fazer dela."
Memória de Helena é um filme brasileiro com uma narrativa peculiar. A amiga Rosa conta a história de Helena através de suas lembranças, de um diário de Helena e de pequenos filmes gravados pela protagonista e pelo tio.
O filme não possui uma completa linearidade, mas é possível entender acontecimentos na vida da jovem. O romance com Renato é destaque. O rapaz fica entre Helena e Rosa, nesse convívio cheio de nuances.
Renato se muda para o Rio de Janeiro e de lá mantém contato com a confusa Helena. Ela reserva uma semana para conhecer a realidade do rapaz em terras cariocas, saindo da interiorana Diamantina, em Minas Gerais. É um romance que reflete também a realidade do êxodo brasileiro entre o interior e o crescimento, em densidade, das grandes capitais. Helena estranha as paisagens e o ritmo de vida no Rio de Janeiro, causa e gera desconfiança e descobre que isso era justificado pela presença de outra mulher, Adriana, na vida do rapaz. Por orgulho, como Helena admite, ela resolve conhecer Adriana, com quem passa seu último dia no Rio de Janeiro.
Em retornos a Diamantina, Renato é elogiado pelos demais interioranos por sua jornada de logros em terras cariocas, objetivo de grande parte dos conterrâneos. Foi assim que Renato conquistou a confiança de Tio Mário, veterano parente próximo de Helena.
"Eu não esperava a hora de ficar novamente com a simplicidade de meus habituais problemas." - Helena filosofa sobre a banalidade, com resignação e um tanto de acidez ou aspereza. "Desde o Rio de Janeiro, adotei uma forma de apatia que me contemplava tanto com o lado bom do mundo quanto com o ruim" - definitivamente.
Há vários debates que permeiam o filme entre as morais e os costumes. Começa na relação próxima de Helena com a criada Inês, uma negra empregada. O principal deve ser a relação lésbica entre Helena e a confissora Rosa, relacionamento abalado desde a chegada de Renato e, após, no fato de Rosa também ter conhecido um rapaz, citado Marcelo. Finalmente, pelos 50 minutos de filme, a ida de Helena ao circo, nas companhias de Inês e Rosa, causa reflexão sobre uma espécie de luta travada como número circense que desafiava o conhecimento de moral aceito e correto. Outros números do circo, entidade itinerante pelos interiores brasileiros, podem abalar os nativos. Há nisso a forma de vida nômade, as propostas artísticas de pintura, sensualidade e convívio e a fuga artística da rotina maçante de trabalho forçado em terras e trabalhos burocráticos, desafiando a lei e ordem pelo descampamento incerto.
Ocorre a chegada de André, personagem complexo, amigo de Marcelo. Ele desembarca de helicóptero, homem com interesse na exploração de terras
"Olha aqui, André, eu peço que você não se explique nem represente, apenas seja como é", alfineta Helena, sempre servida de frases impactantes para apimentar a narrativa.
André é mais velho, apresenta um comportamento o tanto quanto machista, mas fica impactado pela estranheza e característica rude em Helena, causando-lhe interesse e aproximação.
"André me parecia um tipo vulgar, mas é apenas uma pessoa desnorteada e fascinada pelo lado aventureiro de sua vida", Helena descreve os personagens, dentro da trama, melhor do que podemos realizar observando de fora. Isto sim é fascinante. Helena então acredita que seu rápido romance com André bastaria para novas perspectivas em sua vida. Acredita que o metido a empresário a levará junto, para fora de Diamantina, para outras vivências, mas acaba desiludida. Esquecida, desamparada, apática, descrente e sem propósitos. O final trágico causa lágrimas à amiga e contadora da história, Rosa. Ela que por vezes foi mais do que amiga.
"Esta é uma história de amizade, mas amizade de tempo indefinido", sustentando a permanência das lembranças, dos acontecimentos e da saudade, a mais portuguesa das palavras.
🌟🌟🌟🌟
Nenhum comentário:
Postar um comentário