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24/07/2026

Vibra que é teu, Leão do Sul 🇦🇹🦁

Sempre fui muito apaixonado por todos os clubes em que me envolvi. Quando meus pais vieram a Santa Catarina, houve a possibilidade de reencontrar o Hercílio Luz com o qual meu pai conviveu em sua juventude. Poderia ser mais um ritual de experimentação para mim e refeita de passos para ele, mas novamente não soubemos fazer pela metade ou não ter o envolvimento mais completo. O ritual envolve calcular a diferença de temperatura entre as cidades, o tempo de estrada, as visitas possíveis aos parentes em Tubarão, e calcular os compromissos cercanos ao dia do jogo e ao dia seguinte, estes que tentam irromper essa paixão. Mas lá novamente estivemos.

A familiaridade com o estádio Aníbal Costa também foi imediata. Do primeiro jogo ainda precisávamos de carteira de vacinação e máscara para entrar. Fora dois anos sem o clube perder um único jogo em casa, o que se tornou recorde nacional à época. Mas com o tempo nos vacinamos para os maus resultados. Foram cinco lideranças anteriores, entre campanhas no Catarinense, na Copa Santa Catarina e na fase de grandes grupos da D nacional, todas infrutíferas. Eliminações e vice-campeonatos. E a fila de títulos de 60 e tantos anos.

Após a Libertadores da América do Botafogo em 2024, em Buenos Aires, achei que não teria mais o que ver. Quando o Hercílio assumiu a liderança da B estadual ao vencer o concorrente direto Metropolitano, encaramos o "lá vamos nós de novo" para o quadro de liderança temporária e incertezas. Mas o trabalho se mostrou sólido, qualificado, a sequência de oito vitórias e os resultados paralelos colaboraram. A espera pelo título iria acabar para o lado vermelho em Tubarão.

Um jogo dramático, com o tempo a moer segundos e a desconjuntar a pressão arterial contra o combativo time do Caravaggio, indicaria o Renascimento de um Leão campeão. Um clube centenário, que passou pelos títulos estaduais na elite, a enchente destrutiva da cidade em 1974, que matou tanta gente quanto no RS em 2024; a licença, a retomada, a união como Tubarão de um só clube, a desunião, a retomada em passos próprios. A covid, os vices, o DJ Alex que informava públicos abaixo dos mil e que pôde informar para os quase 3 mil daquela noite: é campeão. O apito do árbitro, os sinalizadores,  a história realizada.

Quis o destino no tango da vida que o senhor João Olavio Falchetti, ex-presidente do clube e ex-prefeito da cidade, que eu conhecia pela lenda do Sr. Delírio, seu pai, fosse-me apresentado em junho em Palhoça, com o mesmo sorriso que se multiplicava e hoje se multiplica nas fotos de lembrança. Quis o destino que viesse a falecer um dia após o esperado e sonhado título. Um homem dedicado a tantas realizações esperou por esta última em que tantos corações compassavam juntos.

Uma conquista dessas não aquece somente pelos tambores da Império Vermelho, pelos trabalhos de bastidor de panelas de comida a organizações de bagageiro a cada viagem do clube. Aquece pelo futebol do interior que, em alguma arquibancada do concreto resistente ao tempo, também resiste, como representação e união local. Vibra que é teu, Leão do Sul 🦁









04/02/2025

O que esperar do futebol

Durante 2023, o que mais queria em todo o mundo seria o Botafogo ser campeão brasileiro. E até pensei que esse título com meu pai seria a última coisa que eu gostaria de ter na vida. E o título não veio e eu pensava seriamente em me matar. Mas não me matei e o projeto do Botafogo retomou um rumo. Venceu não só o Brasileiro após 29 anos, mas conquistou a Libertadores da América, onde estive em Buenos Aires. E nada poderia ser maior na minha vida de entusiasta torcedor. Depois veio o fracasso no Mundial de Clubes sem direito à preparação, em uma das maiores palhaçadas já vistas. E a derrota agora na Supercopa do Brasil para o maior rival, um vice como em 1992 no Brasileiro ou os tantos vices cariocas para os desgraçados, que, a título de alfinete, levaram 6x1 no agregado do Campeonato Brasileiro 2024.

Vistos e comemorados os títulos, novas derrotas aos montes por vir, talvez algumas vitórias, o que mais esperar da vida? Hercílio Luz está muito mais próximo de não existir do que de uma conquista que relembre o bicampeonato estadual dos anos 1950. Deve ser rebaixado e minimizado a uma insignificância que ainda não havia experimentado presencialmente com ele.

Liverpool talvez volte a ganhar um Campeonato Inglês - e dessa vez com público - após 35 anos. Venceu o Inglês apenas em 2020 quando o desfecho foi sem público devido à pandemia de Covid. Então os últimos títulos ingleses dos Reds foram em 1990, 2020 e tentando a sua segunda conquista de Premier League em 2025. Muito pouco após as sequências vencedoras da cidade de Manchester e alguma graça dos londrinos Chelsea e Arsenal. Até o Leicester, brigando contra nova queda, foi campeão ali por 2015 ou 2016, não recordo.

Liverpool vencer o Inglês dessa forma encerraria um ciclo de vitórias que era conduzido pelo alemão Jurgen Klopp com Campeonato Europeu, Mundial de Clubes inédito ao Liverpool, Supercopas, duas Copas da Liga Inglesa e uma Copa da Inglaterra. Falta mais um título inglês para igualar o Manchester United e encerrar esse ciclo de diferentes conquistas por Inglaterra e planeta. E o quê depois?

Do Grêmio espero tão pouco. Quase nada. Começou bem com Gustavo Quinteros de treinador, mas se perder a histórica sequência estadual, será fritado por muitos, contra tantas instituições e arbitragens contra. O Grêmio talvez faça mais umas graças, é imprevisível, já se destacou nacionalmente e continentalmente quando poucos esperavam tanto. No estado, batalha para igualar o número de Campeonatos Gaúchos do Inter. E Gre-Nal nunca terá mais do que o rival. Ao que se tem visto, nem em títulos de base ou feminino, o que demonstra descompromisso com a história e certa pobreza na alma que uns tanto enaltecem castelhana.

O que ainda espero da vida e do futebol? Refém de conquistas recentes, alguma sede ao pote, mas o que mais? A queda do idealismo ao niilismo é sempre vertiginosa.

03/07/2023

Y apareci en un barrio del que no puedo salir

Era um show de rock, mas eu não havia definido ainda se tratava-se de um teatro, do ginásio Gigantinho ou outra acomodação. Fato é que a plateia se desenhava abaixo de uma espécie de mesanino (palavra a qual detesto) sobre o qual estávamos. O mesanino, na verdade, era um bar totalmente decadente, com um atendimento lixo, com um suposto dono da espelunca em aspecto carrancudo, ao mesmo tempo que pouquíssimo interessado nos acontecimentos que o rodeavam. Tão pouco se importou que os simulacros de brigas que ocorriam eram ignorados. Eu lembro de discutir com ela ou por causa dela, e assim arremessei meus óculos no chão, pela primeira vez, nesses três anos, destruídos, com um rompimento impossível de encaixar na lente.

Os óculos dispensados ao solo seriam somente meu primeiro problema naquela noite maluca. Meus familiares também se desenharam por ali, de uma forma bastante surpresa fiquei, porque não era costume deles aparecerem em qualquer evento noturno, naquela espécie de casa noturna recebendo um show uruguaio de rock, em que eu imaginei primeiro Cuarteto de Nos, mas descobri tratar-se de Attaque 77. Meu primeiro seguidor desconhecido em internet, ao menos na rede social que mais usei nessa vida, Diego Antônio - ou Diego Lokura - estava lá para setenciar que, sim, tratava-se da banda argentina Attaque 77, da qual ele era exímio fã. Éramos minoria naquela noite, pois os torcedores de bandeiras e camisas vermelhas estavam abaixo do pobre mesanino. As tribunas não estavam cheias, evidenciando um insucesso nas vendas ou divulgações, ou vendas e divulgações. Um show em casa noturna incompleta, com espaços para assistir, com bandeiras em vermelho e branco que tremulavam, tremulavam, e eu brinquei que levaria algumas daquelas para o maior colorado do mundo, o Hercílio Luz da cidade de Tubarão, cidade de meu pai.

Eu, bêbado, gritava impropérios que logo causariam algum simulacro de briga. Gritava que nunca havia visto tantos torcedores da Croácia ou do Hercílio Luz. Só faltou citar o Náutico para provocar ainda mais o pobre lado vermelho porto-alegrense. Cruzei com algumas figuras, pois lá estava o Lucas Pacheco, hoje dentista, com a mesma cara de quando o conheci na escola e um relógio de pulso que deveria custar mais do que meus futuros salários. Qual não foi minha surpresa quando pintou o aparecimento de meu colega Matheus, que havia sido agredido com um chute. Isto foi o que ele contou enquanto mancava. Eu pensei que tratava-se de uma brincadeira, ele praticamente imitando o mascote deles, um saci. Mas baixou um pouco a lateral de sua calça para constatar um tremendo roxão no quadril, algo que recorria a urgência da procura de um hospital na equipada capital gaúcha. Ofereci ajuda nos cuidados, o que ele negou e logo prosseguiu sabe-se lá para onde. Nisso tudo, eu precisava carregar a bateria do meu celular naquela casa noturna putrefata. Novamente surpreendido eu fui, pois haviam muitas tomadas, nos mais diversos formatos e posições daquelas paredes mal pintadas. Tentei plugar o aparelho com meu carregador desmanchando-se, o que em realidade assim está, bem ocorre, tive insucesso nas primeiras tentativas, mas logo consegui uma posição exata e delicada em que a barra de bateria poderia subir para meus gracejos.

Deixei o celular ali depositado sobre uma cadeira no canto do bar improvisado sobre o putrefato mesanino. Continuava a checar o movimento, sem prestar atenção se o esperado show havia começado, ou, se já começado, prosseguia, sem reparar mais na quantidade de camisas coloradas, muito menos nas bandeiras. O mesanino parecia uma espécie de mundo à parte, um espelho da desgraça, independente do que ocorreria no palco. As mesas eram poucas, os móveis velhos, sujos ou estragados. O horário da noite avançava sem maiores incidentes, quando eu percebi que amanhecia e precisava dar o fora dali, sem perder o que fosse: a carona da minha família ou o ônibus de excursão.

Percebi que meu celular faltava, pois havia só a cadeira branca, de madeira mal pintada, e, sobre ela, o velho carregador em frangalhos. Onde estaria o aparelho? Surgia assim meu segundo grande problema, o terceiro, se contar o coitado que levou o suposto chute que lhe causou tremendo roxão. Recolhi o carregador branco que tinha certeza ser o meu, sem nem pista do aparelho que alguém, naquela espelunca, havia roubado, obviamente sem sinal do enxugador de pratos ter presenciado o ato. Sem óculos, sem celular me dirigia para o lado de fora, quando avistei um casal que achei ser o de meus colegas de jornalismo, Wagner e Vitória, belos nomes quando posicionados juntos, diga-se de passagem. Comentei com uma terceira pessoa que achava que se tratava do Wagner, mas que na verdade era até uma mulher quem acompanhava a suposta Vitória. Erro meu.

Ao mesmo tempo reacendia a dúvida de que eram Wagner e Vitória lado a lado na porta de saída, pois Larissa, também do jornalismo, me puxou de vez para fora do estabelecimento, para uma noite que virava dia. As pessoas dispersavam-se em seus rumos, trôpegos bêbados, alguns motoristas, intactos ou não, eu ainda em busca de encontrar minha família ou o coletivo que me trouxera, eu pouco sabendo como. Larissa queria me mostrar seu filho pequeno, que brincava inocentemente na rua, alheio ao desconvidativo horário e a todos os demais acontecimentos.

Cheguei sim a reconectar-me com minha família, mesmo sem o melhor dos sentidos da visão na ausência de meus óculos, aproveitando o novo dia que raiava, feliz por encontrar meus pais. Mas logo os perdi novamente de vista, com o agravante de agora não contar mais com o celular para comunicações. Meu pai não sabe usar o whatsapp, minha mãe sabe, mas eu precisaria do quê? Pedir algum aparelho emprestado, encontrar o mito do orelhão de rua? De um posto de gasolina eles partiram sem mim, ou seria que em um posto desses me esperariam? Fato é que não encontrava mais o tal posto. Encontrei postos abandonados, casas abandonadas, todo o panorama de bairros pobres e sem-teto nos Estados Unidos, seja em Detroit, Cleveland, Baltimore, Nova Orleans ou algum recanto da Califórnia. Eram rincões do mundo ou da própria Porto Alegre que eu não conhecia. Nem seguidores perdidos da internet, nem ex-colegas de jornalismo, nem amigos agraciados com chutes, ninguém mais me libertava desse labirinto enquanto o dia, veloz, caminhava para novo anoitecer.

15/06/2023

Que me perdoem os monogâmicos do futebol

Meu pai conhecia desde sua infância, nos velhos muros que, contrariando lógicas e passadas enchentes, mantém-se de pé. Vermelho e branco, perdoem-me, sempre foram cores que desprezei pela minha criação no Rio Grande do Sul. Nunca me imaginei torcendo efusivamente por um colorado. Perdoem-me, em especial, os monogâmicos do futebol que não entendem minha paixão por mais de um clube. Elas se complementam em ser quem eu sou. Afetado por uma cidade decadente após a grande enchente de 1974, o Hercílio Luz, bicampeão catarinense em 1957 e 1958, ainda assistiu ao então rival, Ferroviário, completar a trinca de títulos da cidade em 1970, ano especial em que o tri também veio para a seleção brasileira na Copa do México, no esquadrão de Clodoaldo, Gerson, Tostão, Jairzinho e Pelé. Em Tubarão, a enchente de 1974 destruiu casas e sonhos, causou mortes que desfalcaram uma ou mais gerações em diversas famílias. Com as benções sabe-se lá de onde, minha família passou intacta nessa tragédia. Já desfalcada de outras causas mais ou menos naturais, eu com metade dos meus originais tios, volto ao encontro de minha própria história familiar ao retornar para Santa Catarina ao final de 2021. Apenas tinha passado poucos dias em férias em cada ocasião a que vinha ao estado vizinho ao norte, mas, ao passo em que meus pais adquiriram posse no litoral do estado, posso experimentar uma vivência mais robusta, uma estadia mais longa. E aí surgiu a retomada desse amor perdido de meu pai, que durou de sua juventude até o começo da década de 1980, quando conheceu minha mãe ainda em Tubarão e logo passaram a morar em Pelotas, isto, mais ou menos, por 1987. Minha irmã e eu nascemos no extremo sul brasileiro, a pouco mais de hora da fronteira com o Uruguai, embora a influência charrua seja tão pouca por aquelas bandas, talvez no hábito do chimarrão e em poucos termos que ainda não configuram nossa linguagem como um portunhol mais escutado nas verdadeiras linhas imaginárias fronteiriças.

O Hercílio Luz Futebol Clube carrega vários vice-campeonatos, entre eles, o de segundo clube mais antigo do estado de Santa Catarina em atividade, perdendo a liderança que detinha para o retornável Carlos Renaux. Leão do Sul, como é conhecido o nosso Hercílio, acumula dois vice-campeonatos recentes na Copa Santa Catarina, além de três vices da segunda divisão catarinense. O Marcílio Dias, nome parecido com o qual muitos confundem Leão e Marinheiro, por exemplo, tem apenas um título de primeira divisão em SC, mas possui taças da segunda divisão, inclusive a taça da última Copa Santa Catarina, vencida exatamente sobre o Hercílio de Raul Cabral.

Raul é um personagem central nessa retomada do Hercílio Futebol Clube. Residente da região, assumiu o clube em 2021 e, até a escrita dessas humildes linhas, acumula 27 vitórias, 16 empates e 13 derrotas, um aproveitamento de dois por um em vitórias-derrotas, como podem ver, feito grande para um clube emergente do interior brasileiro.

A cidade de Tubarão comporta uma população pouco maior de 110 mil pessoas, podendo evoluir, talvez para 120 ou mais ao longo desta década. É uma cidade relativamente pequena para a busca, o sonho, o almejo de um futebol nacional. O Hercílio Luz em seu retorno profissional de 2008 para 2009, pela primeira vez reescalou um calendário brasileiro, com a Série D do presente 2023. E tem a vaga em garantia para disputa-la, caso não suba (e as probabilidades obviamente, em um campeonato em que de 64, apenas 4 conquistam o acesso, jogam contra), para o ano seguinte de 2024.

Além dos tubaronenses, que ainda se dividem, erroneamente ao meu ver, entre Hercílio Luz, vermelho e branco, e Tubarão, tricolor que tenta retomar um relâmpago tempo glório em que disputou o nacional e a Copa do Brasil antes da pandemia, mas atualmente está na vexatória terceira divisão catarinense, o público hercilista consiste em lagunenses, imbitubenses e demais moradores das áreas que pertenciam a Tubarão, como Capivari de Baixo. Assim as arquibancadas costumam-se povoar em pouco mais de dois mil torcedores por jogo no Catarinense - após duas grandes campanhas - em que caiu nas quartas de final em 2022 e nas semifinais para o campeão Criciúma, por conta de um gol - e controvérsias de arbitragem - em 2023. Na Série D, o público está mais baixo, a trancos e barrancos superando a barra de mil torcedores por partida, número que precisa ser ampliado nas rodadas decisivas aos fins de semana, não mais nas esvaziadas quartas-feiras à noite de um vindouro e desconvidativo inverno. É necessário novamente dobrar a meta, chegar aos dois mil torcedores e assim buscar a faixa de três mil em possíveis decisivos mata-matas. Orai por nós.

Imaginava um texto mais romântico e me restringi a muitos dados. É verdade que o sentimento nas arquibancadas antigas do Leão do Sul, que chegou a fechar durante vários anos, que retomou como Tubarão nos anos 1990 e durou até haver criação da startup do novo Tubarão, esse projeto que decolou e implodiu e tenta, teimosamente, decolar de novo, enquanto o Hercílio retomou profissionalmente em 2009, acendendo em mim, por agora, um sentimento novo, em vários um sentimento antigo. Por isso novamente peço as mais valorosas excusas aos rabugentos monogâmicos do futebol, que amam somente um clube, sofrem só por ele, em algum domingo que talvez se repita no seguinte. Eu peço a licença para declarar-me aqui ainda a Botafogos, Liverpools, e obviamente ao Grêmio. Mas o Hercílio em questão me aproximou de meu pai, que eu havia, silenciosamente, distanciado nos últimos tempos, em relutantes batalhas de humor e afastamento de quem tem por objetivos de vida escolhas diferentes, principalmente às habilidades e escolhas profissionais. Meu pai que muitas vezes não me entende, eu que muitas vezes não entendo meu pai, jovens como eu que cada vez mais, no avançar dos anos, passam a entender um pouco mais de seus antecessores na indústria da vida.

Nunca terei a resposta precisa do que meu pai sentiu ao retornar ao estádio Aníbal Costa tantos anos após sua juventude, tanto tempo depois daquele garoto de família humilde que pulava muros com os irmãos e/ou amigos, para ver minutos finais de partidas, driblar seguranças, quebrar guarda-chuvas aos gols perdidos, comemorar a braços e gritos os gols marcados, lamentando derrotas nos eternos clássicos diante dos mais bem afortunados criciumenses, sonhando em medir forças com os de Florianópolis ou os de Joinville - e hoje conseguindo contra os da capital e até ultrapassando o JEC do norte do estado. Tento imaginar aquele garoto que ele ainda conserva guardado em alguma parte do corpo ou da mente, que se confunde, eterno confuso, em lembranças difusas, em histórias que se repetem ou se embaralham em suas ideias ou problematicamente fonéticas elaborações. Meu pai que se enrola para contar, que busca pescar da memória e apresenta o mesmo insucesso de quando tentava pescar nas praias.

Por isso acredito que muito dificilmente terei a resposta do que passa por sua mente em reintegrar uma comunidade que ele havia deixado e hoje volta muito em minha insistência. Eu hoje pertenço a ela, através de já idos oito jogos, com seis vitórias, dois empates, uma invencibilidade e muitos sentimentos. Também, a exemplo de meu pai, os apresento confusos, confessando que, antes de iniciada esta jornada em escrita, imaginava ter mais bem definidos os sentimentos que passaria, tentando transcrever nessas linhas.

A verdade é que muitos torcedores, quando questionados o porquê de escolherem - ou serem escolhidos, vamos, Botafogo - tal clube de futebol, talvez não tenham essa resposta. Alguns culpam seus pais, outros foram para arquibancada ainda crianças com tios, amigos e aí deslubraram esse mundo de mais derrotas do que vitórias, ao menos sentimentalmente, porque, afinal de contas, ao final dos campeonatos, apenas um time é campeão e todos os demais não, por mais que se comemorem vagas em diferenciados sabores. Outros se descobrem mais velhos, como é meu caso, com, não é negada a influência de meu pai, mas também um sentimento familiar que se amplia, sabendo que meus tios, que posso visitar nas idas a Tubarão, também desejam o sucesso desse bravo e valente Leão do Sul.

Tenho um sentimento exatamente muito familiar ao passar pelas ruas do Aníbal Costa, um bairro ainda central de Tubarão, em ruas que me soam agradáveis com seus chalés antigos reformados, casas mais abastadas, calçadas que variam, ruas em paralelepípedos que também me recordam do interior gaúcho, até a avenida do estádio, que está localizado a uma quadra do colégio onde meu pai revela ter estudado. Um bar raiz na esquina, convidativo, em madeira. Um prédio de apartamentos em frente ao estádio, lugar propício para algum torcedor adquirir a sacada de frente para ver jogos sem pagar ingresso. A bilheteria de pouco movimento, com raras exceções, as camisas em vermelho e branco, a bateria da torcida organizada Império Vermelho. A contradição do nome império, mas vermelho, o que pode agradar e desagradar a todos. O povo que adentra conosco, negros, baianos, sergipanos, como já conhecemos, lagunenses, também imbitubenses e, é claro, os tubaronenses em maioria. Um maluco que cobra os assistentes de arbitragem na tela do estádio, eu que reclamo da demora da cera dos goleiros adversários, tento condicionar o árbitro no grito quando acredito ser falta, cobro, peço, imploro por cartões amarelos ao adversário, por acréscimo ao final se precisamos do gol. Gasto minha voz como obrigação e devoção de onde estou. Quero a vitória sempre, sabendo que em casa ela é imprescindível, necessária e a sequência atual oferece gulosos 25 jogos de invencibilidade no Aníbal Costa, como pude comemorar algumas vezes.

Vencemos a Chapecoense duas vezes, o Avaí uma vez, o campeão Brusque uma vez, empate com o Figueirense, empate com o Caxias, vitória sobre o Camboriú e sobre o Brasil. Golaços de fora da área, gols trabalhados em toque de bola sobre um gramado em bom estado, embora manchado, arrancando gritos da torcida, que acompanha, nas melhores horas, a bateria contagiante da Império Vermelho, incansáveis em busca do ritmo, da ajuda que os jogadores tanto tem reconhecido. É uma torcida ainda pequena, mas muito fiel, uma organizada que incentiva durante os 90 minutos, como pode ser até raro pelo território brasileiro. A bateria não para, a cantoria às vezes quase emudece, mas sempre algumas gargantas a mantém incendiada para o mínimo que se espera de uma torcida no estádio. Os demais seguem nas palmas, cantam as músicas de menos letra Hercílio oleoleole, Leão eô, Leão eô, HER-CIII-LIOOOOO O OOOO O OOOO HER-CIII-LIOOOO

Gosto do comportamento das torcidas barras bravas que nunca param de cantar e posso afirmar que o Império, embora em poucos membros, mantém o samba animado ao longo dos 90 minutos, mesmo que demais, mais corneteiros desanimem. E entendo até os desanimados, porque eu mesmo sou um que no íntimo, que às vezes repasso, desisto que saia um gol nosso, mas o time de Raul Cabral tem nos dado motivos para acreditar e voltar viagens a Imbituba felizes. Procuro orientar nossos atacantes para optarem pelo melhor caminho, cobro que o meio campo, que tem deixado a desejar, se movimente mais, varie as jogadas e assim o caminho das vitórias tem aparecido, obviamente não por intermédio meu, mas me sinto parte da comunidade de camisas vermelho e branca. Também me questiono como pode a camisa do Internacional, a do Náutico podem me desagradar tanto e a do Hercílio me orgulhar, me cair tão bem. As listras, o símbolo arredondado, as iniciais que tanto amo ver nos nomes meu e de Larissa, pela ordem das iniciais do clube.

As camisas de outro clube que expõem uma comunidade bastante ampla, pois já vi camisas, durante o Campeonato Catarinense, de todos os considerados 12 maiores clubes brasileiros. Você está fora aqui, Athletico Paranaense, por mais que tenha feito resultados em campo que o valham citação. A preferência pelos clubes cariocas é evidente, mas os demais paulistas também botam a cara. Creio que vi algum atleticano, mas cruzeirense agora não confirmo, então talvez possam deletar o depoimento deste parágrafo. Fato é que o Hercílio Luz se mostra bastante querido pelos torcedores de diversos clubes, daqueles que se aventuram em buscar os maiores títulos do país e da América do Sul. Dentro do Aníbal Costa, todos hercilistas em busca do mesmo objetivo, seja uma retomada épica às glórias antigas do Catarinense ou uma escalada nacional não antes vista na Tubarão de seus hoje pouco mais de 110 mil habitantes. A base do clube também tem feito bonito, disputando competições pelo Sul brasileiro e também fez boa campanha na última Copa São Paulo de Juniores, quando adentrou o universo dos 32 melhores clubes do país em categoria de base. Se foi apenas uma exceção dentro da competição, descobriremos, mas estes dias os guris conseguiram bater o forte Figueirense, mais uma vez. Tomara consigam novos triunfos e formar alguns atletas nos próximos anos. Não sejamos escravos do careca, quase aposentado, Renan Bressan, meio-campista de relevância a nível nacional, com passagem pela vizinha Criciúma, por Paraná Clube e outros.

Arremato o texto então nesse tom de breve despedida, em mais uma volta a Pelotas, que seguirei torcendo para o Leão do Sul na caminhada da Série D, mesmo estando distante. Procurando no rádio e nas imagens via internet, lejos do Aníbal Torres Costa. Espero que meu pai possa ir a mais jogos, embora ele não se encoraje muito de sair da cidade litorânea rumo a Tubarão, apesar da boa estrada e da oportunidade sempre bem-vinda de visitar seus remanescentes irmãos e talvez alguns sobrinhos. Espero que o Hercílio mantenha a chama do futebol acesa sobre Tubarão, uma cidade que tenta retomar seu espaço no mapa catarinense e também entre as maiores do Sul brasileiro. Um percurso árduo, mas que muito felicita ser cursado. Refletores que se acendem e se apagam. Um amor de verão chamado Hercílio Luz, que vem sendo mantido, abandonado agora nas escadarias frias do inverno, mas para logo ser reanimado. A camisa pode ir por cima da jaqueta ou direto na pele. Tubarão é boa no inverno, quando o frio teima em não baixar dos 10 graus, mas é escaldante no verão, que quase me derrubou em desmaio justo no melhor jogo, naqueles 3x0 sobre a Chapecoense. Espero ver mais senhores sonhadores, crianças em seus primeiros passos, mulheres que tomam cada vez mais gosto pelo futebol. Que as ideias ousadas de destrinchar um caminho tão estreito e íngreme não se percam nas tão comuns vias da vaidade no futebol, no desmanche, na incompetência e na falta de planejamento coerente. Sonhar sempre, com trabalho pela frente, para que mais pessoas possam construir suas histórias ou reencontrar aquelas em que a família já havia aberto percurso.