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15/08/2025

A Chinesa (1967)

Por ordem cronológica de preparação, o filme seguinte a ser analisado é A Chinesa (1967), um dos mais políticos de Godard enquanto fase da primeira Nouvelle Vague, iniciada em Acossado (1960), com roteiro do companheiro François Truffaut. Em A Chinesa, feito após 2 ou 3 Coisas que Eu Sei Dela e antes de Weekend, Godard já havia começado seu relacionamento com a atriz alemã/francesa Anna Wiazemsky, destaque no ano anterior no filme A Testemunha. Anna estreia nos filmes de Jean Luc com papel de importância em A Chinesa.

Jean Pierre Leaud e outros atores compõem nesse filme uma célula comunista, com as locações internas em uma casa altamente decorada com material político. O filme é todo composto por debates, discussões, pensamentos e manifestações de cunho político, com atuações locais ou mediante os problemas globais. Os jovens escutam a tradução da Rádio de Pequim e buscam se manter informados sobre as guardas vermelhas impulsionadas na China. Claramente, se vê que a célula comunista está com novos membros e os debates são de iniciação e com foco na continuidade das atividades. No início do filme, um companheiro deles aparece ensanguentado e rapidamente o acodem e o posicionam em uma cadeira. Quando questionado quem teria feito isso com ele, afirma, para alguma surpresa, que foram outros ditos comunistas, da Sorbonne, numa dissidência ocorrida sobre a situação russa (diante da Soviética de 67). Jean Leaud considera isso positivo, pois marca as opiniões contrárias e o posicionamento da célula enquanto modelo político. 

As paredes da casa em questão estão sempre decoradas com frases de efeito. Uma delas afirma que se devem combater ideias vagas com ideias claras. O filme tem andamento quase como um manual para recrutar, se politizar e entender questões político-globais. Nenhuma surpresa que tenha sido vetado/censurado de exibição qualquer no Brasil da época. A pensa os objetivos da ditadura cívico-militar brasileira, atuaram como a censura previa atuar: sem espaço para manifestações pró-comunismo.

Um convidado discursa para a célula sobre a perspectiva global após a morte de Lenin. Abre-se espaço para novas pesquisas, perspectivas e formulações. Sementes já foram plantadas. Eles debatem que as classes sociais vivem em constante choque, ebulição, movimento: há classes que ora surgem, outras desaparecem como movimento de atuação social. "Essa é a história da civilização." E essa pressão, essa luta de classes acabaria sob uma ditadura com base nas escolhas do proletariado? É negado. Desde 1921, Lenin afirmava que a ideia de classes sociais não se dissiparia sequer com essa organização social.

No filme, também se considera que revoluções só são possíveis tendendo-se, entendendo-se, buscando-se revoluções. Não acontecem por acaso ou não sendo almejadas. Para alcançar objetivos, é preciso focar na prática desde o bairro, a vila, a cidade, com exemplos práticos e não especulativos, imaginários. Além dos debates, diga-se, com o objetivo em tempp real, o filme é entrecortado com espécies de entrevistas com os membros da célula, com suas histórias pessoais de como aderiram à ideologia, de onde conheceram, o que têm passado e quais objetivos possuem na causa. Dentro disso, comentam situações cotidianas e de relevância para as discussões políticas.

Diferentes lugares de fala são apresentados. Veronique, a personagem de Anna Wiazemsky vem de uma família de banqueiros e estudava filosofia. Percebeu as desigualdades impostas pelo capitalismo (classes sociais, campo x cidade, agricultura x indústria), percebeu que somente estudar filosofia vinda de um bairro operário era uma contradição muito grande, mas tenta aplicar os conhecimentos em busca de uma teoria mais justa, que possa ser praticada. Segundo ela, queimar livros também não seria bom, pois assim não se consegue criticá-los.

O personagem de Jean Leaud levanta uma questão sobre linguagem (lá vem Godard). Se fosse uma sociedade de cegos, se prestaria mais atenção ao que é dito, em conversas verdadeiras, com atenção ao interlocutor. É uma crítica que ganha espaço cada vez mais em uma sociedade de muitos falantes e poucos ouvintes; poucos ouvintes ativos, poucos interpretadores, reflexivos, pensantes, questionadores.

Após o descanso da noite, os personagens despertam pela manhã e vão em direção a varanda da casa. Alongam e realizam exercícios enquanto pronunciam frases de teoria marxista como se fossem um exército a cantar durante os exercícios físicos. Uma sátira godardiana. O personagem de Jean Leaud então ministra a próxima conversa sobre os tons e directrizes da guerra na Ásia. Satiriza a ação dos países, cada qual representado por óculos escuros com suas bandeiras, enquanto o Vietnã está limitado a pedir socorro. Estados Unidos enviaram mais bombas ao país asiático do que durante a Segunda Guerra (princípios para quê? Ásia para os norte-americano?), União Soviética muito teoriza e pouco aplica. A China de Mao pede atenção, mas não teme o imperialismo e o capitalismo (como até hoje permanece). Nas palavras de Mao, esses impositores seriam como tigres de papel, ferozes na aparência, mas, para China, inofensivos aos objetivos. Inglaterra e França, consideradas potências mundiais, são passivas e não demonstram posicionamento profundo, como em outras guerras modernas - até sobre a passividade no caso Israel-Palestina.

Percebo que Godard também utiliza muito das armas de fogo, de representações de conflitos como apenas brinquedos, como se os personagens, os adultos brincassem com essas arminhas, como crianças. E as guerras não são assim? Com homens velhos a regular, a controlar, a ordenar distantes da linha de frente por objetivos econômicos, sem a real dimensão da desgraça de cada frente, do saldo de cada bombardeio. Assim como na psicologia infantil, são nas brincadeiras que muito é demonstrado e pode ser interpretado.

Ao longo do filme, Godard defende a corrente maoísta, considerando os segmentos da esquerda europeia como reformistas, insuficientes, impotentes. O exemplo maior a ser estudado, segundo a demonstração do filme, é a China (até por isso leva o nome, A Chinesa).

O personagem de Jean Leaud e Veronique escutam um discurso, escutam música e que os comunistas devem combater em duas frentes, entre elas, a arte. Leaud anuncia que é difícil para ele fazer duas coisas de uma vez, só consegue uma. Veronique simula uma DR de casal, que não o ama mais, justifica e diz que ele entenderá. O exercício era para mostrar que ele consegue sim fazer duas coisas ao mesmo tempo, no caso foi entender a questão e ouvir música. Questionável resultado, pois às vezes abdicamos da atenção de uma música ou a rebaixamos para segundo plano enquanto nos dedicamos em cheio a algo mais urgente e relevante. Complicado atuar em duas frentes, mas fica o debate da cena.

Prossegue mais um debate sobre linguagem, o que envolve a exclusão do personagem loiro Henri na célula. Por dissidências, foi votada sua saída. Ele comenta o episódio enquanto prepara um café da manhã, ou coisa parecida. O debate sobre linguagem é interessante no sentido de que, para se expressarem, discursarem, pautarem uma revolução, deveriam os comunistas armas discursos, panfletos, anúncios e transcrições na mesma linguagem considerada burguesa, tradicional? Há como romper esse obstáculo rumo a uma libertação, a uma alternativa? São questões de estilo ou há como revolucionar dentro daquilo (a linguagem) que é consagrado, inteligível e usual? Henri acreditava na coexistência pacífica das formas distintas enquanto Veronique era mais radical, pelo rompimento total. A própria Veronique encontra um escritor em um trem e conversam para atualizarem-se. Ela comentam que seus inimigos são os generais, os burocratas (...) e os intelectuais reacionários - um grande grupo. O debate dela com o escritor no trem vai da ideia de Veronique fechar ou explodir as universidades, como a causa inicial do filme do membro da célula após ataque na Sorbonne. Veronique crê que a educação é reprodutora dos paradigmas das autoridades e contribui para o reacionarismo, por isso deseja fechá-las e intimidá-las, propondo até ataques a professores e estudantes, na intimidação aos demais. O escritor se posiciona contra, porque essa ideia é dela e de mais dois ou três, não é uma atitude geral e revolucionária. É diferente do atentado proposto por uma mulher argelina, Djamila, que explodiu um café, "mas em nome da revolução", enfatiza o escritor. "Você não pode fazer a revolução pelos outros", transmite em um sentido da necessidade de acompanhamento, de retaguarda. Veronique nisso deseja que para aplicar as teorias revolucionárias que tem aprendido, ela precisaria da prática e o exemplo descrito era o modelo dela de atuação necessária.

Nas contestações aos planos, o escritor afirma que uma revolução precisa de bases firmes para o prosseguimento, que apenas atos isolados ou tomadas de poder sem uma base forte e planos vigentes se tornam ações temporárias e interrompidas, com altos riscos de apreensões e retenções. Quando a palavra volta para Henri, ele destaca o marxismo como uma espécie de ciência, de método e que os argumentos para atuações da célula eram válidos, mas estavam bagunçados; considerava falta de métodos.

O filme encaminha seu final com o suicídio de Serge, um dos convidados à célula que tinha a missão de assassinar um ministro russo como protesto. Assim, a missão recai para Veronique. Enquanto isso, segue uma entrevista com o excluído Henri, que não sabia do suicídio de Serge, conforme revelou, e não sabia mais sobre os companheiros, ex-companheiros de célula. O personagem de Jean Leaud chega a aparecer como comerciante de verduras, um simples feirante, também deixando que por centavos as pessoas tentassem acertar legumes em sua cara, como aqueles games norte-americanos ou japoneses.

Com muita referência ao famoso livro vermelho de Mao e com uma trilha sonora que o homenageia, o filme A Chinesa chega ao fim com a dissolução da célula daqueles jovens franceses e o futuro sempre incerto das organizações comunistas. Seria a China um modelo a ser seguido? Pelo comunismo da época ou pelo destaque econômico de décadas seguintes? Questões.


Referência ao filme Alemanha Ano Zero, sobre o pós-Segunda Guerra









12/08/2025

Masculine - Feminine (1966)

Não sei se porque são filmes revistos, mas sempre fica uma pulga por detrás da orelha de que já teria escrito sobre, em formato resenha, como aqui ocorre. Masculine-Feminine é um filme de 1966, e creio que é a terceira vez que o assisto. Componente da grade de programação do canal Telecine Cult, este filme de Jean Luc Godard pode ter sido encarado por mim algumas vezes também aos pedaços. A revisão agora é completa para satisfazer o interesse da proposta da resenha crítica. Diferente de outros filmes, talvez Masculine-Feminine tenha despertado mais na surpresa da primeira vista e tenha caído em elementos comuns a outros filmes nessa revisão. Escrevo isto enquanto acompanho o filme e os comentários seguintes vão ratificar ou retificar essa percepção.

O começo do filme em preto e branco é arrastado. Paul conhece Madeleine em um café, encontra um pretexto para lhe dirigir a palavra pela primeira vez. Ao reconhecê-la, pergunta pelo seu nome, menciona um amigo em comum e a possibilidade de um emprego. A crítica política é o forte desse filme, com a primeira entrega quando Paul (Jean Leaud) afirma ter prestado os meses de serviço militar obrigatório para o exército da França, se queixa da falta de lazer, de descanso, da solidão, da perda de contato com o mundo exterior e do excesso de ordens, obediência e imposição feitas pelos superiores aos jovens que, segundo ele, primeiro recebem esse tratamento do que opções culturais para criação.

Madeleine acompanha atenta ao discurso do jovem Paul. O amigo que eles têm em comum seria Dumas, que trabalha em um jornal. Paul não sabia ou faz que não sabia. Madeleine também já havia trabalhado em periódico, se dedicando às fotos.

Desde essa sequência do filme estão claros os posicionamentos políticos, como sindicalizados e comunistas. Em conversa com o amigo, Paul e ele concluem que a baixa adesão aos partidos ocorre porque ps trabalhadores têm jornadas de trabalho longas, apenas casa, comida e trabalho, sem tempo para dedicarem-se a mais estudos e lazer, muito menos a fazer política para justamente mudar essa realidade. Uma conclusão apontada na Europa de 1965, 20 anos após a conclusão, entre aspas, da Segunda Guerra Mundial (que teve desdobramentos, julgamentos e decisões mais tardar).

Entre a política, desde a manifestação da empregada que atira no patrão na saída do café na cena inicial, Godard encontra espaço para as conversas de casal com banalidades sempre involucradas em filosofia densa. Para um simples convite para sair entre Paul e Madeleine, se misturam questões do que os jovens pensam da vida, sobre como se sentiriam felizes, quais os limites a que se pode chegar e submeter a um primeiro encontro, quais são os limites das mentiras sociais que são contadas todos os dias para a digestão da convivência. A cena ocorre enquanto Madeleine está se maquiando e penteando seu cabelo. Godard estava sempre atento às nuances sociais sobre comportamento da juventude, atitudes, pensamentos, aberturas de espaço e oportunidades e feminismo. Seus filmes são memória viva, na ficção que imita, que segue lado a lado aos acontecimentos contemporâneos, a Nouvelle Vague da França sessentista, época de cisões e transformações.

Acoplados em saídas juntos e com um grupo de jovens militantes, encorajados e encorajadores para juventude da época, Paul e Madeleine partem em missões, seja de colocação de cartazes e dizeres pela cidade até pressionar a embaixada dos Estados Unidos com direito à pichação a carro e protestos para que largassem a injusta investida no Vietnã, combatentes do napalm. Durante cena, Paul e o amigo prestam abaixo-assinado para libertação de presos políticos no que dizia respeito ao Rio de Janeiro. Não era a primeira vez que o Brasil estava nos planos e nos assuntos de Godard, que também investia nesse como um destino para Bruno Forestier em O Pequeno Soldado, quando almejava deixar a França. É de se dar conta que quase sempre os personagens de Godard almejam fugas mal sucedidas, como em O Pequeno Soldado, O Desprezo, Acossado e Pierrot le Fou, atingindo o objetivo, aparentemente, ao final da prisão de Alphaville, contrariando a ideia de prisão de segurança máxima lançada por aquele universo distópico futurista.

Em cena no trem, Paul combina uma ação militante enquanto ouvem um diálogo inusitado. Uma loira está sentada em banco junto a dois negros e os três passam a se insultar. Enquanto ela chama os migrantes de assassinos em potencial, eles rebatem que ela seria apenas uma vagabunda com sonhos hollywoodianos. O preconceito racial é foco pelo que acontecia na Europa e nos Estados Unidos, sobre a dissolução de colônias africanas na independência de virarem países e o tratamento aos novos migrantes europeus.

"Não é a consciência do homem que determina a existência, mas a existência social que determina a consciência"

Enquanto isso, Madeleine e Paul não passam por bons momentos e ele questiona se deve mantê-la em sua vida, ao passo que também precisaria dela, por ser desalojado pela proprietária de seu apartamento, que o alugaria ao próprio sobrinho. Situações reais. O filme também é permeado pelo surrealismo. Entre as brincadeiras e cenas extravagantes. Paul implica com um jogador de pinball (Godard adora inserir o lazer da época com cenas em bares, mesas de sinuca, boliche e os novos fliperamas) e o jogador misterioso saca uma faca e o ameaça. Conforme Paul foge e sai da imagem, o rapaz, de cutillo em punho, esfaquea a si mesmo e é amparado pela volta de Paul. Surreal.

Madeleine começa a se afastar do estilo de vida de Paul ao alavancar uma carreira de cantora. Seu disco faz sucesso no Japão, atingindo as primeiras posições, o que também ocorria em casa. O relacionamento deles esfriava, mas prosseguia. A amiga de Madeleine, Elizabeth também interferia e tecia seus comentários negativos, em desaprovação ao andamento. Durante investidas e diálogos, a temática que aparece bastante nesta película é sobre os métodos anticoncepcionais, novidades cada vez mais introduzidas na época. Tanto a pílula quanto dispositivos internos de resolução cirúrgica eram afirmados e assim recomendados ou ao menos postos em pauta durante a trama que envolvia os personagens principais. 

Paul realiza uma entrevista com amiga de Madeleine a respeito de questões políticas e pauta a ocorrência de guerras pelo mundo, a preocupação com empregos e o controle de natalidade. Godard requenta temas entre um filme e outro, mantendo as pautas de seu interesse e, é claro, de interesse público à tona. Outro estilo narrativo presente nas obras é a introdução de notícias e de figuras em voga na época, por exemplo, para mencionar a temática da música pelo fato de Madeleine ser cantora, uma notícia sobre o sucesso de Bob Dylan aparece direto dos periódicos de papel.

Na cena do restaurante em que estão Paul, minimizado por Elizabeth ao afirmar, antes da chegada de Madeleine, que não havia chance dele com elas, porque não eram o tipo de garotas para ele e que ele ficaria sempre infeliz, o que revolta Paul, na cena do restaurante aparece uma sequência bastante forte sobre o título do filme. Apesar do título ter sido mencionado em uma brincadeira entre Paul e seu amigo, a questão do Feminino aparece em três momentos em sequência.

Madeleine recebeu discos autografados de presente, por sua carreira satisfatória e troca de contatos. Paul minimiza e tenta sempre sair por cima por um gosto musical refinado; ele é fã de música clássica e não das cantoras que estão fazendo sucesso nos anos 60. Parece não ser fã da própria namorada, não a admira e reconhece, apenas a quer manter de posse. Em uma das mesas do restaurante, Madeleine reconhece a mulher que assassinou o homem no começo do filme. Fofoca que ela agora trabalha de prostituta e, sendo prostituta, é continuada a cena com a negociação entre ela e o cliente. Propõem preços e situações diferentes, ela admite odiar os alemães porque seus pais morreram na Alemanha durante a guerra. Uma preocupação com o quão recente se foi e se esquece uma guerra devastadora para história da humanidade.

Em outra mesa, Brigitte Bardot, a princípio no papel de ela mesma, ensaia falas de uma peça, mas é totalmente submetida às instruções do arrogante diretor, que discursa sem parar e interfere na atuação da moça. São três mulheres submetidas em sequência ao machismo, à dominação, à imposição e à inferioridade em geral. Seja em um relacionamento com um partidário de esquerda, autoconsiderado progressista, seja na profissão mais antiga em que se submete ao cliente, seja na relação trabalhista enquanto profissional de atuação cênica. Três casos no mesmo restaurante, de forma escrachada ou velada para esta crítica.

A 1h15 de filme, aproximadamente, Paul e as amigas vão ao cinema. O filme em exibição mostra cenas de um relacionamento abusivo e com agressões inclusive físicas. Mais alertas para o objetivo da película. Apesar dos absurdos mostrados na tela, a inquietação de Paul é terem mudado o formato da transmissão e nisso ele se levanta rapidamente e, impositivo e pró-ativo, se dirige à sala de projeção para reclamar a mudança. Antes disso, vale a lembrança de sua ida ao banheiro, quando encontra um casal homossexual atrás de uma das portas, dentro de uma cabine, e, após urinar, o militante picha a porta com os dizeres "Abaixo à República de covardes".

Após Paul reclamar sobre as diretrizes e regulamentações da exibição de um filme em cinema de acordo com algum código que lê, ele sai da cabine de transmissão e picha um muro contra Charles de Gaulle. Alguns operários próximos ao local assistem à cena e um casal está a trocar carícias ao lado da parede, numa possível cena de prostituição, tudo à luz do dia. Ao retornar para o filme, cenas de violência sexual são sugeridas pelo ator que interpreta o homem com a mulher. Ele a pega de maneira agressiva e também a dirige a seu órgão para sexo oral. São cenas que desagradam aos personagens do filme de Godard, que ameaçam deixar a sessão.

Catherine-Isabelle, atriz que atua com seu próprio nome, amiga de Elizabeth e Madeleine, conversa com o amigo de Paul em uma cozinha. O amigo de Paul está muito interessado nela, mas não é recíproco. Ele desconfiava que a moça prefira Paul, que mantém o relacionamento capenga com Madeleine. Na sabatina à moça, são feitas perguntas sobre suas preferências, sobre sua vida sexual, sobre perspectivas e se ela se interessa pelas questões de política global. É interessante pensar que há poucos anos, no Brasil, perguntas do mesmo tom seriam totalmente estranhadas, enquanto pós 2013, por exemplo, a politização disparou no interesse de jovens e das redes sociais, com engajamento premeditados ou orgânicos. Na época, 1966, explorar tanto os assuntos políticos talvez soasse piegas para maioria dos jovens, que se politizariam mais nos anos a seguir. A cultural Paris e a França foram o berço do movimento conhecido como Maio de 68, abordado em outras críticas.

Bastante política se soma na parte final do filme. Paul está com Catherine-Isabelle na rua, um homem passa e pede fósforos. Ele rouba a caixa de Paul. Em seguida cumprimenta uma pessoa em um carro estacionado e pede para transferir bons votos às crianças. Ele retorna, estão em frente a um hospital dos "americanos", Paul o segue e tenta reaver a caixa de fósforos. Godard, muito esperto, não persegue essa cena e posiciona a câmera sobre a espera de Catherine. Paul volta nervoso que o homem havia se jogado gasolina e se incendiado. Catherine estranha que foi em frente ao hospital dos EUA. Paul informa que o homem deixou uma última mensagem em prol do Vietnã.

Em seguida, os jovens caminham em direção aos estúdios de música onde Madeleine ensaia as composições para seu novo disco. Ela inclusive é recebida por um repórter de rádio. Os Beatles aparecem novamente, pois Madeleine responde que eles e Bach são seus compositores favoritos. Na companhia de Catherine, Paul havia largado um raciocínio assaz interessante: "se mato um homem sou um assassino, se mato milhões sou um conquistador, se mato a todos sou Deus". Catherine apenas responde que não acredita em Deus.

O filme encaminha o encerramento com uma série de questionamentos que Paul fazia para um instituto de pesquisa e opiniões. As perguntas eram direcionadas aos franceses para saberem suas opiniões de comportamento, sobre interesse e entendimento da realidade política, com perguntas sobre o que é ser comunista, se sabem de guerra entre Iraque e o povo curdo, o que pensam das minissaias ou dos métodos contraceptivos. Paul conclui que as perguntas que eram para registrar o comportamento da população acabam perdendo o foco e objetivo principais para virar uma batalha de juízos de valor. Os ideais progressistas e conservadores seguem essas tendências até os dias atuais de 2025. Paul pensava que manipulava as pessoas na formulação das perguntas em rápidas trocas de assunto e que as pessoas em seguida o manipulavam com respostas falsas, infrutíferas e, portanto, improdutivas para o objetivo das pesquisas.

Em depoimento para polícia, as moças explicam o desfecho trágico de Paul. A mãe dele havia lhe conseguido dinheiro (os homens dependem das mulheres) para adquirir um apartamento. E conseguiu em uma área nobre de Paris. Madeleine, ao saber da notícia, quis morar junto dele, mas Paul recusou. Irônico que quando ele precisava de lugar para moradia contava com Madeleine. Quando adquiriu para si, a recusou. Como não há imagens do desfecho, apenas o depoimento das jovens, não se descarta que a morte de Paul, ao cair em um buraco, tenha sido acidental. A questão final é Madeleine Zimmer, grávida de Paul, saber o que faria com o filho que tem no ventre. Sendo dele, a criança sem o pai seria abortada ou não? O aborto é uma questão central das sociedades modernas, sobre a autonomia que a mulher possa ter, acima de questões tradicionais, religiosas e burocráticas, de decidir o futuro do que ela começa a produzir no ventre. Mesmo mulheres bastantes progressistas como Madeleine tinham total incerteza, insegurança e restrições ao futuro. O método que Elizabeth havia proposto a ela era inacreditável: agredir-se com um pau que sustenta cortina.

Fim.

Paul reclama do militarismo no começo do filme Masculino-Feminino. Apesar de não serem submetidas diretamente ao exército, as mulheres enfrentam outras formas de dominação, até pela atuação do próprio progressista Paul



15/02/2025

Love on the run (1979)

Esse filme encerra os episódios da vida de Antoine Doinel, personagem mais marcante na cinematografia do diretor francês François Truffaut. Com direito a várias passagens dos filmes anteriores, temos explicações e conclusões sobre a vida do polêmico e artífice personagem: sua relação com diferentes mulheres, sua dificuldade em manter relacionamentos e também conclusões importantes vindas dela sobre o homem em questão.

Em um acerto mágico de Truffaut, a carreira de cinema com o jovem Jean Leaud foi promissora. Estreando criança no filme traduzido ao português como Os Incompreendidos (1958), um dos pilares da formação da Nouvelle Vague francesa, a vida do personagem percorreu adolescência, início da fase adulta até a fase com mais de 30 anos, com aprisionamento em reformatório, perda da mãe que possuía amantes, namoros breves, casamento com a violonista do filme Domicilio Conjugal - o qual escrevi sobre neste blog - o divórcio, a criação do pequeno Alfonse, filho de Antoine e o relacionamento de surgimento um tanto stalker com a bela Sabine, loira personagem central n encerramento dessa trajetória em Love on the Run, ou Amor em Fuga.

Em sinopses, Antoine é apresentado como ainda adolescente, mesmo passados seus 30 e poucos anos. Não resiste ao charme das mulheres, também não sabe como se comportar adquiridos os relacionamentos e, pai divorciado, tem pequenas contribuições diante do crescimento do cabeludinho Alfonse.

Jean Leaud mantém seu humor surpreendente, em que a parceria com Truffaut nos põe em dúvida o que são ideias de piadas bobas de um ou de outro. Verdade que funcionam ao gosto deste escriba, que se sente mais familiarizado ao estilo drama-comédia das narrativas. Antoine atua por trocadilhos, literalidades, ironias passageiras. Seu estilo leve, jovial, interessado ao encontrá-las mantém os interesses das parelhas. Mas seu desenrolar passadas essas fases é insuficiente, resultando em separações, irritações, ansiedades mal resolvidas.

A adoração de Truffaut por seu personagem (alter ego de Truffaut, dizem, e faz total sentido pela riqueza de detalhes) lhe reserva um final satisfatório. Gera polêmica de considerarmos, de julgarmos o quanto merecia. Mas, aliás, o final seria um final? A loira Sabine conheceria o pequeno Alfonse? Que sequência o casal teria juntos? Ele, entre aspas, cresceria finalmente em companhia desta terceira? São questionamentos possíveis.

O filme tem o gosto agridoce da comédia-dramática, em meio a situações que não mais existem na contemporaneidade. Antoine trabalhando em uma gráfica, a troca de fax. Os telefonemas públicos, em cabines em locais ou mesmo na rua, como no Brasil seriam os orelhões em oposição ou semelhança a Paris. A facilidade para traições era maior? Possivelmente. Antoine que tem ações duplas, que salta para trens em movimento mesmo sem a passagem comprada. Antoine que escreve seus livros biográficos, fingindo, mesmo mentindo ser ficção. Que reconta sua vida, mas tem incapacidades às vezes por transformá-las às medidas que melhor se adequaria.

Antoine que agrada e desagrada. Agridoce. Assim, entre levezas, belezas e angústias de pontas soltas mal resolvidas está a vida de Antoine Doinel contada, mostrada pelas lentes dos filmes de François Truffaut.


Cartaz brinca com a relação de Antoine com as mulheres que passaram por sua vida. A fotografia de Sabine em destaque, a loira misteriosa dessa última passagem entre os filmes. Love on the Run também traz vários flashbacks de filmes anteriores da vida de Antoine, desde os Incompreendidos, Beijos Roubados, Antoine e Colette (1962) e Domicílio Conjugal, demonstrando também a sorte e oportunismo de Truffaut em trabalhar com talentoso elenco em manutenção durante anos.


26/04/2024

Domicílio Conjugal

O trabalho obrigatório poda a criação liberta. Tive que guardar umas poucas coisas antes de deitar para escrever essas linhas e quase perdi totalmente a vontade. São 3h35 da manhã nesse exato momento. Acabo de assistir ao filme Domicílio Conjugal, com Jean Pierre Leaud e Claude Jade. Direção de François Truffaut, um dos favoritos da casa.

Estou na residência dos meus pais. Fechei a janela do banheiro porque minha mãe achou corretamente que poderia encarnar vento e do banheiro a corrente de ar bater as portas do meu e do quarto deles. Cheguei a escutar algo assim hora atrás. Ela correta. Também procurei dar descarga silenciosamente agora, o que é impossível, mas na minha cabeça eu tento. 

Minhas meias e minha cueca apertam minha circulação e parecem danificar mais ainda meus nervos e músculos. O que será do meu futuro? Procurei e a bela dentucinha Claude Jade morreu em 2006. Isso é há muito tempo. Jean Leaud ainda não foi embora, mas tem 79 anos e irá. Eu sinto muito mesmo. Percebo ao beber água na cozinha, novamente tentando não evocar ruídos, que todos vamos morrer. Pensamento que veio de filme que vi ontem, o nacional Depois a Louca Sou Eu, inspirado em livro da paulistana Tati Bernardi, com atuação de Débora Falabella.

Claude Jade morreu e Jean Leaud vai morrer. Os diretores Jean Godard e Truffaut já morreram. Eu um dia irei. É duro perceber que não darei certo com mais alguém. Na verdade é libertador e solitário. Melancólico e abridor de várias possibilidades de acabar em nada. É confortável e desconfortante. Confortante e desconfortável. É enxergar menos passado do que se pretendia e muito pouco futuro. Até pouco tempo a vida correria para frente, para diante, um horizonte a se desenhar, talvez com um emprego agradável, viagens e novas pessoas a conhecer. Agora estou contagiado pelo vírus da mesmice. Penso em pouquíssimas viagens que eu realmente deseje. Vi no documentário Terras, um trecho de rádio latino-americana anunciar que a maior fonte de renda europeia é o turismo. Quero eu dar dinheiro a mais para essa contribuição em troca de migalhas de aprendizado e satisfação visual ou paladar? Quero eu manifestar minha devoção ao continente que mais expulsou meus antepassados judaicos? Quero eu conhecer os complexos vira-latas da família, em algum lugar entre Portugal, Alemanha e Polônia? Quero eu e eu por acaso mereço?

Não planejo mais grandes viagens, mas pode ser que as venham. Não planejo mais grandes empregos, só se me arremessarem algo do tipo no colo e, veja bem, inventarei poréns para trocar grandes oportunidades e melhores salários (ou não) por resquícios de tranquilidade, evitando correrias mesmo que assim aceite cabisbaixo outras.

E não me vejo mais morando com alguém, dividindo experiências profundas em sintonia. Não acredito no amor máximo, uno, indivisível, burguês e vencedor de uma disputa célebre majoritária. Acreditaria no máximo no respeito e na não condenação ao fastio e ao tédio que engodam, sugam e massacram a vida e o sentimento de estar vivo. Acreditaria em uma união positiva para ambos os lados, sem amarras impositivas contrárias à criação e experimentação, mesmo que essas fossem, em virtude do acordo respeitoso, limitadas ao experimento onírico da bebida e da troca amistosa de conhecimentos. Isso é evoluir. É viver. É positivar a existência ao caminho do aprendizado, dá arte e do aproveitamento proveitoso dos tempos. Acreditaria nessa utopia toda, mas nem nisso acredito. Acredito consumir minha existência através de amargas linhas, amargos dias, misturados a pitadas de bom sabor, cuja ponta da língua identifique e se satisfaça em breves intervalos, antes que o soberano fastio se dissemine novamente.

Acredito tão pouco nas utopias do amor e vou tentando, colhendo flores caídas e espinhos revoltos, tentando me reerguer em novas possibilidades muito desafiantes e escassamente prometedoras. Já nada se promete porque não me engano. Ou justamente me engano porque acredito que mais nada se prometa. Talvez caminhos que eu acredito estarem fechados não sejam necessariamente o fim. Talvez.