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02/04/2023

um coitado

me olho no espelho e vejo apenas um coitado 

alguém que um dia teve ambição e percebeu suas limitações, as limitações da sociedade e a realidade

deixo a água do chuveiro correr sobre meu corpo, mas parece que sou eu e não ela que vai pelo ralo

15/02/2022

Quadrinhas

Há várias formas de dizer/escrever
Sem estar errado
Mas qual a melhor forma
Pro interlocutor do outro lado?

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Faça umas quadrinhas 
Junte tudo num quarteto
Assim como a hipotenusa
É formada pelos catetos

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Ai ai
Tristeza profunda
A água recebe a merda
Só herda o que é da bunda

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Ai ai 
Poesia de banheiro 
Só assim eu passaria
O tempo de um dia inteiro

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01/10/2020

Momentos de Lucidez

As pessoas costumam querer o contrário de seus pais, ou ao menos almejar querer o contrário de seus pais. No 'momentos de lucidez', o pensamento de hoje foi justamente me vendo muitas vezes como imagem e semelhança de meu pai. Eu que o considero tão contraditório à minha pessoa, mas que, no fim das contas, reagimos de forma muito semelhante em diversas situações. A biologia deve explicar de várias formas.

Percebi, nesse raciocínio, que para mim estaria bom repetir os passos galgados por ele no passado. Seria mais feliz, não tenho a mínima dúvida. Mesmo que lhe falte a tão importante consciência de classe, é minha própria consciência que me suga de canudinho a cada dia. E um dia o canudinho roncará pelo fim da linha.

Na síndrome por fazer diferente também se escondem as velhas políticas em períodos eleitorais, em que sempre se camuflam de novo. O exemplo mais óbvio por agora deve ser o tal de Partido Novo, que nas câmaras de deputados é incoerentemente o partido mais alinhado às péssimas, devastadoras e cruéis políticas bolsonaristas. Novo só pelo nome e pelo estrondoso mau gosto de alaranjar nas cores.

Na síndrome por fazer diferente, o jovem acaba muitas vezes querendo apenas modificar o que seus pais ou geração passada, em geral, faziam, sem dali colherem frutos, que, em uma visão ampla e analítica, sempre existem. Fazer tudo ao contrário também é copiar, diria algum sábio do passado.

Reitero o ponto de que estaria mais contente caso eu pudesse, de alguma forma, copiar os passos que meu pai traçou, mas tenho total ciência de que não posso ser como ele. Faço do meu jeito, no meu caminhar trôpego e seguidamente desvairado em nossas filas para lugar nenhum. Chama-se vida, eles disseram.

Se me alargar mais por essas linhas, perderei totalmente a ideia inicial, que era tão curta para registro. Mas fui ao banheiro e arrisco mais umas. Percebi o cheiro positivo dos produtos de limpeza (nem sempre assim o são, mas dessa vez fora). Percebi num raciocínio que os banheiros cheiram como banheiros em qualquer lugar, mesmo em casa, caso não cuidemos com o limpar necessário de tempos em tempos. A única diferença é a quantidade de usuários, podendo ser só você ou até uma família, quatro a doze pessoas, enfim. Se você não limpar, ele terá o cheiro de urina que os banheiros públicos têm. Os públicos apenas possuem o vai e vem, o trânsito, o anonimato, os desconhecidos que entram e saem daquelas cabines e não tratam como se fossem o de suas casas, errando o alvo e vocês sabem o quê mais.

De óculos, pensei em minha imagem estética e como eu poderia usá-los havia mais tempo, porque minha visão definha, de alguma maneira, desde os 18 anos quando frequentei as idas ao exército, no interminável processo de seleção. Cumprimentei meus amarelados dentes, da cor da toalha para enxugar as mãos. Lembrei da apresentação de rede social de grande amigo meu, que inclusive mandou mensagem nesta madrugada após longo período sem falarmos: sinais? Ele que se apresenta como "escovando os dentes de um estranho todas as manhãs". Filosófico. Experimentem o duro praticar de se olhar no espelho, apreciar ou horrorizar-se com o reflexo. No fim de tudo, procurar a aceitação dessa passagem. Eu poderia ser como meu pai em vários aspectos e assim eu preferiria. Tenho certeza que me estressaria menos.

04/07/2020

Filas de Banheiro

Sempre gostei de ser descritivo. Gosto de descrever. Gosto de observar. Um bar e um copo. Companhia é dispensável. Comigo mesmo, com ninguém na frente, posso observar. Posso percorrer os olhos pelo espaço, câmera em movimento travelling. Posso de repente pensar onde agir, se é que é necessário agir. Às vezes é só observar mesmo. Para descrever depois.

Gosto de descrever o que faço também. Fragmentos autobiográficos baseados em minha vivência, rotina, atividades, pensamentos, discursos, filosofias. Sinto que se soubesse realizar mais tarefas, elas estariam mais presentes em meus textos, sim, porque adoro descrever o que seja. Descrever processos culinários, dificuldade de estacionar, viagens em janelas de ônibus, passeios ciclísticos, processos de trocar fraldas, de escolher a roupa para uma cerimônia, de visitar meus pais, de visitar meus amigos, de comprar remédios, de chegar a eventos, como estádios ou teatros ou concertos ao ar livre. Levar o celular para o conserto, deixar a filha na escola, buscar a filha na escola, procurar uma estação de rádio. Ser criticado o quão brega é procurar estações de rádio, intermináveis chiadeiras antes de uma sintonização certeira. Milagre da propagação das ondas.

Filas de banheiro. Talvez uma das experiências mais comuns e imprevisíveis sejam as filas de banheiro em eventos, sobretudo festas. Imagine o open bar. A cerveja entrando, copos e copos, diurética e abrindo passagem entre os órgãos, filtrada e pronta para abandonar o organismo. Ela quer sair e tem pessoas, às vezes dezenas delas, à sua frente. Haja força de vontade, aguente, guerreiro. O banheiro masculino, a impaciência, a torcida pelo companheiro que passos dianteiros rumo à liberdade, a aproximação com a privacidade de sua descarga.

O sonho com o mictório, a água corrente, a privacidade parcialmente violada, olhares espichados, olhares recolhidos, instrumentos espichados, instrumentos recolhidos, funcionamento fluente, funcionamento contido. Psicológico. Pressão. Presenças demais. Barulho demais. Desconcentração. Foco em se livrar da missão o quanto antes, antes de ouvir um "como é que é, camarada?!".

É um ambiente de possíveis amizades. De possíveis brigas. Amistosamente pode-se iniciar qualquer conversa com "bah, mas que demora, né" e receber a confirmação dos companheiros em volta. Soldados da mesma trincheira. Cada um lutando contra seu próprio organismo. Algum mais desesperado se dobrando, não vai aguentar o sufoco da contenção urinária. Força, amigão. Já é amigão, já estamos juntos nessa, vamos superar. Voltarmos para elas. Tu voltares para ela. Eu voltar para a minha. Quando há. Se não há, depois eu busco uma bebida, pra quando quiseres repor. Tu vai sair dessa, cara, já passou por piores. Te lembras? Não te lembras? É porque tudo é o agora e agora tu precisa expelir essa urina. Pelo amor de Deus, homem necessitado, homem ferido, ele precisa passar. PAM PAM PAM abre essa porta, cara, ele não vai conseguir.

Assim se arrumam improváveis heróis, assim surgem vilões. "Foi mal aí, tava apertado, achei que não iria acabar." Ah, saia logo. Quando não deixam presentes piores. Quando as manifestações gástricas não permanecem mesmo após a evacuação da pessoa. Quando não é necessário subir a gola da camiseta para conseguir ampliar a sobrevivência. Nem sempre a chegada ao vaso ou ao mictório é o fim da missão, como percebem.

Importante também ressaltar a área de respingo. Tempos, tempos de distanciamento social controlado. Os mictórios já previam isso. Pela educação, pela higiene, pela segurança. Respeitem a área do respingo. É mais essencial do que a distância regulamentada dos caixas eletrônicos. É um código de ética da comunidade masculina. Não há faixa amarela que restrinja o avanço, mas convenhamos, por favor, faça o favor. Além do mais, Arnaldo Cezar Coelho sabe o quão clarividente é a regra de que, se há mictórios vagos, use com a distância de pelo menos um do sujeito que está utilizando simultaneamente. Não vá querer fazer vizinhos desnecessariamente. Respeitem a distância propícia entre suas calças jeans, seus cintos de couro. Seus sapatos posicionados em horários diferentes.

As filas de banheiro. A política, o esporte, a hora certa, o cálculo do "vai dar", "não vai dar", "pera, vai ter que dar" e tudo isso, o turbilhão dos pensamentos sobrepostos. As pichações nas paredes, nos ladrilhos, nas madeiras desde a fila. Nomes, tags, jogos da velha, xingamentos, telefones, whatsapp, quem tem tempo para isso? Quero apenas usar o banheiro. Quero ver a menor quantidade de nucas possível na minha frente, quero a fila indiana dos clipes de Pink Floyd. Quero que maquinalmente todos consigam para que eu possa conseguir. Falso altruísmo, quero agora apenas a minha liberdade.

Quero liberar o disparo, quero acertar o alvo, acertar a cesta pela inibição da pressão que se esvai. Quero o regozijo de concluída etapa, quero procurar novos nomes nas paredes quando já estiver liberto do que me incomodava. Quero desejar aos demais a mais sincera boa sorte, quero voltar para onde a música é mais alta, para onde as companhias possam me ouvir, ou não me ouvir, tamanha a intensidade em decibéis musicais. Quero repovoar meu copo.

Quero torcer para que a pia esteja funcionando e nenhum neandertal tenha causado prejuízo à casa. Quero testar o sabonete líquido, quero o sucesso no puxão do papel-toalha após o enxague, quero o bom senso de quem providenciou vasto e necessário cesto de lixo para as mais diversas emergências.

Quero saudar os companheiros vitoriosos do campo de batalha, na retomada do corredor de acesso. Triunfante, ainda mais após a ajeitada no rosto, no cabelo, no que o espelho pediu ao final do encontro. Em banheiros que já visualizaram tantos acontecimentos sexuais ou manicômicos, ilegais e criminosos, ou simplesmente aliviadores.

Que se aperte, que cruze as pernas, que se dobre de desespero urinário quem não tenha história para contar sobre as filas às portas dos banheiros. Mais do que um rogo de praga é um desejo para contribuíres com esse acúmulo de histórias possíveis. Talvez eu recolha amostras de cada um contribuinte, anônimo ou não. Pseudônimo ou não. Emergências, diarreias, reencontro com conhecidos, descoberta do amor de sua vida. Alguma coisa deve ter acontecido em filas de inescrupulosos banheiros lotados. Compartilhe sua experiência.

Banheiros Públicos – Brasília Shopping – Arquiteto Daltônico
Shopping de Brasília. Bonito, né?