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18/05/2025

Buena Vista Social Club

Pelas ruas de Havana

Eu me vou desde pequeno

Ou me disse uma cigana

Ou foi um outro moreno 

Se não fosse Havana

Preferia fosse a morte

A Santiago de Cuba 

O meu abraço mais forte


A Santiago de Cuba

Santiago de Rio Grande

A Santiago de Chile 

Ou por onde mais deixei amante 


Jamais deixei de amar-te 

A arte dessa salsa

Jamais em alguma balsa

Jamais deixei de amar-te

Tú eres mi à la carte 


Ao controle dos cartéis 

E dos papéis das autoridades

Quero nos meus registros

O meu crime de amar-te

Quero anunciado em alto-falantes 

Quero que conste nos autos 

Os meus prantos de saudade 

O meu crime de amar-te


Jamais deixei de amar-te 

Pela arte dessa salsa

Jamais em alguma balsa

Jamais deixei de amar-te

Tú siempre mi à la carte 


Te dedico o sol que me nasce

Te dedico as minhas preces

Mesmo que nada aconteça

Te dedico más de mil veces 

Tus besos son lo que me vale 

Por lo vale de la utopía 


Te dedico o dia que me nasce 

O amanhã e o mesmo de julho 

Te dedico calendários 

Aqueles que ainda nem penduro 


A Santiago de Cuba 

E toda sua luta

Buena Vista Social Club 

Som que me faz permuta

28/02/2025

Samba do Sonho

Essa eu comecei a compor durante um sonho e foi pra ela que me desgraçou fim do ano. Parabéns 🥳🥳



Eu e você      Oceanos 

Eu e você hoje

Ou em onze anos

Gosto de te imaginar

Nossos planos

Contigo explorar

Todo este plano

Eu e você

Não subtraiamos 

Eu sem você 

Já sofro tanto

Você sem mim 

Queria fosse o fim

É só meu o pranto

Você e eu     eu disse Oceanos 

Não ofereça só lagoas 

Na minha cabeça

Tão belo soa 

Eu e vossa         sua pessoa

Nossa história

Notório incauto 

O que eu não te pauto 

Não é importante

Na minha estante

Sua sobrancelha 

Sobrevoa minha velha

Decaída 

Cilada, fim da vida

Minha alma desacolhida 

Entre eu e você 

Estados inteiros

E eu tenho estado

Puro desespero

Seu olhar

Meu cativeiro 

Não me livrei de ti

Foi-se o fevereiro

Me restrinja 

Já é meu enterro

Março eu faço 

Meu aconchego 

Vou dormir até o fim do ego

E me nego

A sonhar mais erros

22/06/2022

Abril - de meus sonhos juvenil

Abril passou

Passou senil se não me lembro

Abriu um montão de presentes

Que já são passado 

Papelão reciclado 

Jornais forrados 

Abril que acabou 

Feito água de cantil

Abril que fechou com silêncio 

Fica a agulha, vai-se o vinil

Vai de novo espetar o rodopio

Gira o disco e é isto 

É abril que se fechou

Acabou, não insistiu 

Nem brinca com isso, amor juvenil

Que sem ti fico deitado sem cio 

Em contrapartida ao nosso estado

Algemado ao teu corpo, pernas e quadril

Ao roçar os vidros em rocío

Desviou os rumos de abril

Que eram planejados só uns versos bem vadios

Bem tardios meses depois

De um abril que já se pôs 

Que fez pose e despediu

Alertando maio que dele vem frio

Vai que vai, que vai abril

Folha de calendário fora do páreo 

O mês quatro que se foi

O mês claro que se foi

Como há de ser, foi tantas vezes

Até o dois mil e vinte e dois

Mais de dois mil abril

Até o abrir de nós dois



04/10/2019

além de 2030

Um pouco de prosa. Parece que a cada derrota que admitimos em desistência já encaminhamos a próxima, em uma esteira de produção desmoralizante. Não tenho conseguido romper o ciclo e tão certeiro como é a presença do inverno a cada ano, contornando o abril, rumo a maio, junho e julho, parece a eminência de meu futuro colapso.

Tenho dito que a situação geral do país se encaminha a isso. Hoje o panorama é de um estado do Rio Grande do Sul que não paga seus funcionários estatais, a prefeitura municipal de minha cidade começou também a parcelar salários do funcionalismo, o que desencadeou nas primeiras greves e protestos. Pesquisas apontam retrocessos na luta pelo combate à pobreza e o aumento da desigualdade salarial. Ouvem-se as mais diversas asneiras e besteiras das vozes oficiais, dominadas pelos mais dantescos personagens estrupícios. O colapso do país é eminente.

Voltando ao meu, também assim me aproximo em um mar de lama envolto a todos os lados. Sem perspectivas. Estou cercado e meu cérebro não consegue vencer os contornos. A não aceitação de compromissos e horários, a antissocialidade, a perda de paciência facilmente, o fechar-me a meus gostos e espaços restritos, o depender e sofrer a solidão de uma forma bastante peculiar. Meus pensamentos e consequentes atitudes acarretam o que tenho vivido. Cada vez que tento romper e perfurar essa bolha, não tenho obtido êxito. Me distraio em função da música, procuro conhecer novos artistas. Tenho lido meus livros, mas em ritmos mais lentos do que eu consideraria possível. Me distraio e me atormento em aulas que não sei exatamente onde usarei, enquanto custam-me turnos inteiros pelas tardes.

Tenho até recursos para voltar a ter terapia. Porém, não gostaria de sacrificar o essencial descanso de minhas manhãs, pouco utilizadas nessa década desde a conclusão do ensino médio. Recentemente um amigo de suma importância em minha caminhada, mas de opinião instável, por ser bem afortunado e variar muito suas escolhas desde que o conheci, me intercedeu que a saúde era importante nesse ponto. Apenas rapidamente concordei e não desenvolvemos muito o assunto. Imagino que ele também tenha passado por umas ruins.

Eu tenho passado por umas ruins. Mas isso tem estendido um interminável tapete pelo tempo. Uma fase ruim interminável. Para quem veja de fora, pode notar pequenas ou maiores conquistas e pensar-me bem. Mas a verdade é que não tenho conseguido ir mais. Pareço estar ligado no automático em tarefas do dia a dia. Me questiono inclusive se isto é a vida. Se tantos passam por isso na classe mais média das médias, mas nada sentem dessa minha espessa camada de náusea cotidiana.

Empregos, caminhos para se sustentar, oportunidades abertas, semi-abertas ou destruídas ou destrutivas de quem embarca. Faixas etárias que acompanho ano após ano e tornam-se pais e tornam-se mães. Dos meus tempos de ensino público, incluso a universidade, estava acostumado. Mas convivas dos tempos de ensino particular também entrando para a paternidade. Esquisito. Como dissociar aquelas figuras mongolonas das que estão nesse presente rapidamente atingido pelas rajadas da transformação?

E eu encontro mais nada. Vejo as possibilidades e elas nada me dizem e a nada me levam. Tudo bastante distante e meritocraticamente muito trabalhoso. Histórias de superação mais me entediam do que me encorajam. Assim como frases motivacionais. Não consigo desencapar meus próprios fios rumo à essa motivação, que me cruza palpavelmente distante ao passo que se esfrega aos meus olhos nas mais diferentes plataformas alheias. Me canso. Procuro onde possa descansar enquanto as garras do capitalismo me aprisionam.

Descobri recentemente que universidades dos Estados Unidos possuíam anos sabáticos para professores com 7 anos trabalhados. Descansa um. Um inteiro. Um ano recebendo e aproveitando de forma a voltar depois. Enquanto isso as jornadas de trabalho são gradativamente aumentadas. A loja de departamentos do ser mais miserável [de alma] do país regulamenta em seu contrato que funcionários possam trabalhar domingos e feriados independente de compensações justas. O sindicato, também com seus interesses próprios, tenta intervir. As pessoas, implorantes por emprego, querem aceitar os termos desumanos e rasgadores das constituições lutadas através do trabalhismo. Ultrajante.

Afetam-me todas as áreas: o suporte do que será financeiro, o suporte moral e cidadão do mundo, o suporte afetivo das pessoas que tão pouco suporto e o suporte destituído de sentido para tanta loucura em tão insalubre sistema.

Pensei recentemente que me apetecem os anos da década que está por vir, na numerologia repetida do 2 - de 2020 a 2029 - e mesmo depois, algo me faz simpatizar nesses números. Que não seja apenas a subjetividade que me permita querer vivê-los. Preocupantemente me sinto um clube à beira do rebaixamento. Talvez algum dos catarinenses da temporada, entre Avaí e Chapecoense na Série A ou Figueirense em crise financeira na Série B. Procuraremos depois se algum conseguiu escapar. Julgo que não. Quanto a eles e a mim, em comum de que necessitamos/necessitaríamos de alguma mudança mais radical, algum FATO NOVO - como na linguagem do futebol muitas vezes aparece este termo. Tento me comunicar com quem vocês imploram. E a ele quase ajoelho-me nessa condição de ao menos querer entender melhor meu papel aqui. Seja agora ou para os próximos anos de 2020... 2030.

Na adolescência me preocupava em salvar o mundo e escrevi uma canção com as preocupações climáticas e ecológicas. Chama-se "Além de 2030". E agora, antes disso para ir além disso: quem e como me salvar do mundo que já pensamos em salvar?

27/04/2019

"todo dia um novo homem"

caralho, já é quase o meio do ano
e nós o que mudamos?
hoje foi minha caneta que me deixou
falhou até isso ser tudo
seu estado natural
e absoluto
imutável ao meu luto
"todo dia um novo homem"
trazia em sua lateral
para vergonha ou orgulhar
o usuário
depende qual

15/04/2019

ame versários

vacilo que cometi
não lembrar seu aniversário
nesta rede social
que foi ponto de partida
e talvez seja o final

agora parado aqui
pensando se mando algo
pra me redimir, afinal
com o saldo atrasado
mas a intenção enorme igual

vacilo que percebi
somente passada a meia-noite
no relógio digital
açoite como um azeite
que cobre meu corpo criminal

crime e castigo
ter esquecido
o seu dia do ciclo anual
para tantos nenhum encanto
para ti sem outro igual

perdoa-me o esquecimento
que eu tento processar
inflamando algum talento
nessa arte de desculpar-me
que produzo em tal lamento
implorando aceitares
como um bom ar em lançamento
por cima de meu cadáver
cadáver de esquecimento
aos vermes de minha carne

esqueci teu aniversário
neste meio de abril
nem tão quente, nem tão frio
mangas curtas e casacos
a dividir o armário
entre suor e arrepios
no corpo dos proletários
e o patrão isso não viu
sob o ar condicionado

mas que pena o olvido
essa cena tão hostil
dos barcos enfim partidos
de um porto tão férril
dos metais que estalam
na estalagem que dormiu
daquele ali sonhando
por outro alguém que partiu

24/03/2019

perdi muito tempo

perdi muito tempo
agora acelero os processos
sei que o fogo às vezes é lento
nos manifestos desses decretos

mas entenda que perdi muito tempo
e não o compro de volta nessa venda
estava com os olhos vendados
e o tempo vendido cobra seu prazo

entenda que perdi muito tempo
e escrevo isso com naturalidade
porque acostumei meus dedos
com essa que é da poucas verdades

entenda que perdi meu tempo
como um cachorro a dar saudade
que saudade é difícil traduzir
em outras linguagens

perdi muito tempo
como um funcionário
a esperar aumento
de seu salário

perdi muito tempo
como um rosário
espera
os dedos a roçá-lo

perdi muito tempo
como um diabo
com o inferno aberto
e ninguém a visitá-lo

10/07/2015

Refém do Contexto

Sou refém do contexto
Por vezes, contesto
Definidor de meus atos
Por vezes, por demais sensato

Refém dos quadrados dias do calendário
De interpretadores e interpretados
De significantes e significados
Equivalentes e equivocados

Mas queria um dia fora do sequencial
Aleatório e independente
Dar-me ao luxo ser um pouco inconsequente
Como um sonho intenso, ardente
Minha escolha, meu destino e meu final
Foto: Henrique König