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09/06/2025

Todo Modo (1976)

Com elenco recheado de estrelas do cinema italiano, o longa (2h05) Todo Modo, com direção de Elio Petri, conta os entrelaços de igreja e política na Itália. De forma humorada e exagerada, a tensão ora cresce, ora se dissipa quando figurões da política e da religião Católica se encontram em exercícios de fé, em uma espécie de retiro, distante dos holofotes dos jornais e das grandes cidades italianas.

Após a queda do Fascismo com a derrota na Segunda Guerra Mundial, a Itália passou a ter dois partidos de maior força, um mais progressivista e outro mais conservador, sob a doutrina e a asa da Igreja Católica. Sem usar nomes oficiais sequer para identificar qual seria o Partido do filme, a ligação é evidente. Quando mencionam durante todo o filme sobre afirmados 30 anos de poder, é ao conservador que se referem. Justamente o tempo entre a queda da Segunda Guerra e a realização do filme de Petri. 

Os velhos brancos, engravatados e de terno se reúnem em um fim de semana para rezas, mas também, cada qual tramando em seu quarto, para um perigoso jogo de gato e rato em acerto de contas. Dom Gaetano é o padre principal que organiza o cronograma e as realizações cristãs do encontro. Logo ao começo uma cena entre ele e o dito Presidente (provavelmente mencionado assim por dirigir o Partido) dá indícios de uma relação homossexual entre ambos. O filme é repleto de sátiras. 

Os políticos e religiosos lavam as mãos nesses encontros. O Partido é tomado por donos de empresas, banqueiros, empresários e influenciadores do sub-mundo financeiro. Do meio para o fim da história aparecem, também de forma satírica, uma verdadeira salada de siglas para tentar compreender quais empresas estariam envolvidas e na reta dos escândalos. A tensão passou a tomar conta quando ocorre a primeira morte. Um investigador é contratado para entrar em cena, enquanto o escândalo ainda é abafado das famílias, dos populares e dos jornais.

Tão logo chega o investidor, os homens de terno demonstram seus temores, suas inseguranças, no velho ditado de quem não deve, não teme. Mas como ali estão figurões dos mais corruptos da Europa, o aspecto de máfia se sobressai e o pânico se instaura. A crítica proposta é conhecida pelos problemas de corrupção que a Itália sempre atravessou, além de burocracias e nepotismos, heranças que parece terem sido bem transportadas com os imigrantes ao nosso Brasil. O nepotismo aparece com maior força em cena para o final do filme, quando cobranças de esquemas vêm à tona e ninguém mais mantém a calma durante o alarido das investigações e consequências.

A ligação entre igreja e política denuncia tanto uma instituição quanto a outra, a do Partido. O próprio Dom Gaetano afirma que se a Igreja Católica logrou êxito nos últimos séculos foi mais por competência dos padres ruins do que dos bons. O suficiente para bom entendedor.

Além dos escândalos financeiros e da possível tentativa de eliminar denunciantes ou opositores, ainda percorrem o filme os escândalos sexuais, outro tormento para as instituições lidarem e se protegerem das investigações e da opinião pública. O comentário sobre o filme vem em imaculado momento, pois recém divulgaram-se os dados sobre as religiões em território do Brasil, com o catolicismo ainda sobressaindo na casa dos 56% das pessoas, queda em relação a outras pesquisas, mas o suficiente para manter vantagem sobre o crescimento dos evangélicos, já representantes de pelo menos um quarto da população brasileira. Os sem religião representariam cerca de 10%.

A ligação entre Igreja e Estado (Política) no filme italiano denuncia as hipocrisias, farsas, inaptidões e desinteresse dos engravatados pelos reais problemas de sua população, enquanto miram lucro e boas relações interpessoais para vantagens exclusivas. Em um momento de crise, após o estopim dos problemas no encontro, alguns dos políticos discutem os problemas e se não seria vantagem então pular o muro rumo à oposição, pois os riscos de permanecer no Partido em crise eram evidentes.

Escândalos financeiros, interpessoais, acusações, falsidade, escândalos sexuais, tentativa de manter a ordem e as práticas de doutrina: tudo isso se encontra nas confusões reservadas ao filme Todo Modo, nome importante e que deve ser prestado atenção para descobre os enigmas que envolvem essas corruptas instituições mandatárias secularmente na maior parte da Europa, antes mesmo de unirem os fragmentos e a Itália ser Itália, visto que o país é relativamente novo, saindo dos impérios e denominações feudais rumo às fragilidades ditas democráticas.

Drama, comédia, suspense e até o terror dos cadáveres estão reservados em Todo Modo, um filme que desafia as instituições regulamentadas a exercer o poder, denuncia práticas obscuras sem citar nomes oficiais, apenas alguns símbolos, sem crucificar quem já não estivesse crucificado há quase dois mil anos do prazo de lançamento em 1976. Aventura sagrada e profana muito bem-vinda na exploração de diferentes temas.

Nota final: ⭐⭐⭐⭐½

05/01/2025

Dramas Espirituais

Servo dos meus nervos

Me reorganizo

Após mais um temporal

De granizo

Após o final

E um início 

Após o canavial

Incêndios, prejuízo 

Ano em espiral 

E o solstício 

Alameda conjugal 

Armistício 

Me reorganizo

Sobre os ombros, umbral


Servo dos meus nervos

Conto carneiros

Procuro trevo especial

Espiritual 

Entre terreiros e catedral

Entre os primeiros e 

Quem ficou pro final

Entretenimento 

É a terra em transe

Glauber Rocha imortal

Acendo tochas que se apagam 

Afinal

Me reorganizo após outro temporal

De granizo

Pelos vidros do que sobrou

No umbral da arquitetura

Entretenimento é a ditadura 

Mais dura impossível; colossal

Fartura em horário comercial

Fatura com débito programado

Oferta de tempo limitado 

Tributação mensal

Próxima estação

Desembarque lateral

Ao lado de nada

O breu espiritual

Na caçada as almas

No umbral

Cabides, esfinges 

Ritual 

Grosso sal, grosso sal, grosso sal 

E não sai


Servo dos meus nervos

Ritmo dos sinos da catedral

Sinagoga, sinais orientais

Rezas, chás, tapetes persas 

Persianas e vitrais 

Chamas e chagas espirituais 

Hare Krishna e o caminho das Índias

E dias em que o sol não sai

E Dalai Lama e as centrais

De reclamações, de aclamações 

Os umbrais 

Os urubus 

E os umbrais

Os urubus 

E os umbrais 

Os urubus

E os umbrais 

Os urubus 

E os umbrais

05/11/2022

Roma, Cidade Aberta (1945)

Roma, Cidade Aberta. Filme de 1945. Parece muito propício para o que vivenciamos em 2022. Para o que ainda vivenciaremos. O filme se aventura pelas ruas de uma Roma ocupada pelos alemães na Segunda Guerra. Eles investigam opositores em busca de prisões e confissões. A história nos leva até um prédio e uma relação conturbada de Giorgi Manfredi, que vivia naquela construção, mas também vivia ausente. Que iria se casar com Pina, mas também andava com a dançarina de cabaré, Marina.

O personagem que parece tomar o protagonismo para si é o pároco Dom Pietro. Ele coloca os valores cristãos sempre em primazia. Quando questionado de como proceder em determinada situação, encontra uma saída com os ensinamentos de Cristo. É assim em palavras com a conhecida comunitária Pina. É assim até as sentenças finais, para Manfredi e para o padre.

O pároco tem restrições a métodos empregados, tanto da violência dos opressores, quanto dos métodos de resistência (como roubos a padarias) por parte dos acuados oprimidos. Mas Dom Pietro sempre deixa claro que tem lado e talvez os mandamentos se adaptem conforme as ocorrências. O mundo é mais complexo do que escritos absolutos sobre uma tábua.

As crianças também atuam, no melhor estilo de grandes filmes europeus posteriores, como o italiano Vítimas da Tormenta (1946) e o francês Os Incompreendidos (1959). Ou de grandes sucessos internacionais do cinema iraniano. A trama se desenvolve confusa em seu início, mas logo as peças não são difíceis de juntar. Conseguimos identificar denunciados e denunciantes, na atuação mordiscante da polícia alemã, Gestapo.

Além da exaltação de um cristianismo minucioso e portentoso nas decisões e dedicações de Dom Pietro, também habita o questionamento dentro da própria Gestapo e dos nazistas, por parte de um velho comandante beberrão, que justifica que justamente por estar bêbado recorda o que queria esquecer e acaba por dizer a verdade. Relembra missões anteriores e que a Europa tapou-se de cadáveres a troco de uma crença que nem ele consegue concordar mais. Obviamente a fala abala os militares em exercício, mas o procedimento, a máquina, o método não pode parar.

Entre as tensões do filme estão as prévias das investigações, as visitas até a ocupação do prédio, cenário maior da trama. As tentativas de fuga. Os diálogos. As traições entre romance, crenças e patriotismo. Resistência em busca da liberdade.

Para o final, Dom Pietro novamente reluz de protagonismo ao não se preocupar com a forma como pode morrer. "Não é difícil morrer bem. Difícil é viver bem." - Postula o padre, após observar tanta dificuldade de quem batalhou contra a fome, de quem tenta resistir a um regime autotitário e reconhecido até por seus atores como facínora e mortífero. Frases para história do cinema e filosofias para vida de todos nós.

Filme é do diretor Roberto Rossellini, mas tem também as assinaturas de Federico Fellini e Sergio Amidei

Dom Pietro Pellegrini, interpretado por Aldo Fabrizi

Anna Magnani tem atuação magnânima


15/02/2022

Crônica sobre os Gabriel

Eram dois Gabriel. Mas eram muito diferentes. Processo amplamente descritivo. Um Gabriel estava sempre asseado, como se diz. Vivia limpo, de prazo cumprido com o banho. O outro Gabriel podia utilizar a mesma camisa vários dias da semana, não se preocupava muito com essa aparência ou imagem.

Um Gabriel não tinha pelos. Nem se pode dizer que era barbeado, porque a barba não lhe brotava em qualquer daqueles anos de ensino médio e mesmo no início da idade adulta. Gabriel apenas olhava e invejava o bigode, a barba que os companheiros tinham a surgir, mesmo aqueles que estavam no seu time, abandonavam o barco e pulavam para o outro lado, nem que fossem penugens, pequenas barbichas que brotavam. O outro Gabriel era o chefe do barco para o qual muitos chegavam. O outro Gabriel era barbudo, barba cerrada, disfarce de boa porcentagem de seu rosto encoberto por pelos grossos.

Um Gabriel era o filhinho da mamãe. Sua mãe estava sempre presente. Para buscar boletins, para conversar com professores, para auxiliar alguma coisa, para preparar um sanduíche, para perguntar como ele estava, para saber com quem andava, para tratar um machucado, físico ou espiritual. A mãe do Gabriel estava sempre lá. O outro Gabriel era o contrário. Um fujão. Chegou a fugir de casa duas vezes. Pulava o muro e ia curtir a noite. Voltava dois ou três dias depois. Os pais cansaram do Gabriel, até porque cansavam rápido. Suas fugas não eram mais acompanhadas de preocupação. Deixa que se divertisse, não perderiam mais noites de sono por ele, que perdia noites de sono nas fanfarras em que se metia. Até que os pais viajaram para não mais voltar e ele se emancipou, mesmo menor de idade. Era referência para os demais, descolando bebidas e cigarros.

Nisso obviamente também se difereciavam. O primeiro Gabriel era totalmente abstêmio. Era inclusive menino de igreja. Sempre bem vestido, predominantemente com roupas claras, com peças brancas. Grupo Jovem da igreja, violão e louvor ao Senhor. Bochechas cumprimentadas por velhinhas. Hóstia em dia a cada domingo. Missas de salmos cantados. O outro Gabriel também era músico. O outro pegava o violão e improvisava algum rock. O primeiro Gabriel até gostava de rock, mas era mais dos antigos brasileiros das décadas de 1980, no máximo respingos dos anos 90. O outro Gabriel também bebia dos clássicos, mas puxava para o satânico. Gostava do punk rock também e gostava de todas as quebras de paradigma, nem que fosse o grupo Queen com Bohemian Rhapsody, burlando com a indústria musical que tinha a toada por músicas curtas, de tamanhos comerciais para programação de rádio.

O primeiro Gabriel ouvia rádio. Comentários políticos, muitas vezes conservadores, pois era rapaz de igreja. Partidos do centro para direita. O outro Gabriel gostava de rádio pirata, de programação com linguagem chula, de palavrões à reviria. Mas também gostava de políticos conservadores. No caso os que aprovavam porte de arma, que este, o 'outro Gabriel' gostava ter consigo para se proteger. O pai esqueceu uma das armas na mudança. Levou uma, deixou outra. O Gabriel tinha ela no armário. Era ouvir barulho estranho - ou mais estranho que o habitual de noite - que o Gabriel já se direcionava para esse armário para ver qual que era. Nunca havia usado, mas exibição aos amigos era constante. Esse era o Gabriel.

O Gabriel da arma tinha mais amigos para mostrar a arma. O primeiro Gabriel era reservado. Andava no máximo com os amigos do Grupo Jovem. E não andava muito. Era tomar um sorvete, uma ida à biblioteca. Uma tarde para comer algum lanche na casa de amigo. Passar alguma tarde quente de sol. O Gabriel armado era mais amado também. Atraía a atenção de algumas gurias, mas na base da insistência, porque bonito não era. Tinha o nariz quebrado de uma briga que se meteu na infância. Cicatriz permanente. O resto do rosto escondido na barba. As camisas de bandas de rock se repetiam. As más influências, ou mesmo era ele próprio que já influenciava os outros. O álcool e depois as primeiras drogas. Da inofensiva maconha à coisas mais pesadas.

O Gabriel abstêmio mantinha-se na dele. Um refrigerante, para ele, já era droga o suficiente. Já estava se passando nos cuidados com o próprio corpo, tão cultuado e citado nas palestras da Igreja. A fortaleza, o campo de resistência, a estrutura pela qual se protegia o bem estar da mente. Enquanto isso o outro Gabriel virava noites, orgnizava festas, cruzava a cidade rumo a outros bairros. Escapava de consertarem-lhe o nariz.

O primeiro Gabriel tinha boas notas. Desde os primeiros anos de escola, sempre se manteve entre os primeiros, inclusive no Instituto Federal, onde ambos haviam passado. Gabriel poderia ser considerado um dos melhores alunos do Instituto, e, por se tratar de uma instituição que acolhia alunos da cidade e da região por conta do bom ensino gratuito, era um dos melhores alunos de toda aquela regionalidade. O outro Gabriel até poderia ter boa cabeça para estudar, mas, para ele, sem os pais em cima, tanto faz. Começou bem, na época em que passou na prova ainda se debruçava por vezes sobre os cadernos, mas foi abandonando este hábito. As notas piorando, a frequência mais ainda do que elas. Sumia do IF por semana. Os professores, assim como os pais dele, desistiam de perguntar.

O primeiro Gabriel passou a gostar um pouco disso, embora não confessasse ou mal tivesse a quem confessar. É porque, apesar de tantas mudanças, de tantas diferenças, de tão pouca semelhança, eles ainda se confundiam quando, vez ou outra, um professor desatento ignorava a presença do sobrenome: Gabriel! - os adultos chamavam - e ambos respondiam: - Eu?? 

24/08/2018

algures

Povoados, aldeias, comunidades, organizações. O interior e a falta de conectividade, de ligação com o mundo estrangeiro. Estrangeiro no sentido de ser exterior a essas comunidades, não necessariamente de outro país. Quanto mais isolados esses povoados, maiores fenômenos como a xenofobia: aversão, medo, pânico, ansiedade, dúvida, desconcerto em relação ao que é de fora.

Numa dessas viagens, num desses passeios pelo interior brasileiro, encontramos ao Sul uma cidade com essas características logo de entrada. Por mais que cocem os dedos para revelar a localização, dar nomes aos bois, como diz o ditado, manteremos em sigilo. Vistam a carapuça as cidades assim assimiladas por seus moradores ou visitadores.

As entradas desses locais são muito enfeitadas, a grama cortada e, se possível, cheirando à grama cortada - sempre. Pórticos de bem-vindo na escritura de um lado e de volte sempre nos dizeres do outro. Flores, como se as tulipas holandesas nem pudessem competir com tamanha harmonia e animosidade. Não há no mundo formação mais mimosa.

Avenidas de entrada muito convidativas, rótula de acesso com o nome da cidade em letras em pedra. Mais algum monumento, de toda a preferência, que seja marcante aos olhos para o visitador informar a seus parentes, aos colegas de trabalho ou enquanto corta o cabelo em um salão ou barbearia.

Ali estão os pequenos estabelecimentos bem cuidados, tintura em dia, organização nas vitrines e vendedores atenciosos à espera de uma calorosa entrada de potenciais clientes. Pelas rotas principais que ligam ao centro - rapidamente, em menos de dois minutos pelo tamanho da localidade -, uma carreata ajuda na recepção. É uma carreata da saúde, mas em nada surpreenderia se o personagem apelidado de Zé Gotinha fosse, na verdade, um usuário do capuz da Ku Klux Klan.

As suspeitas aumentam-se com uma marcha para Jesus, logo na sequência. Grupo de jovens, comuns nas igrejas pelo interior, vestidos prioritariamente de branco. Violão nas mãos de uns e cânticos para louvar logo pela manhã. Abordagens em alguns estabelecimentos e transeuntes, dos quais faço questão de me certificar ao outro lado da calçada. Nada contra essa devoção e diálogos sobre o tema, mas não queria atrapalhar minha ligeira rota turística. Veja bem, não tinha muito tempo para visitar a arquitetura e opções do lugar e as passeatas joviais das igrejas são comuns país a dentro, país a fora ou afora, nunca sei a grafia nessa horas.

Exemplos para se sentir estranhamente acolhido num povoado de limpeza nas ruas, jardins organizados, sombras de árvores, monumentos conservados, mesas distribuídas em frente a um café, lojas com vendedores dispostos e trânsito pacato. Ao mesmo tempo, a dificuldade comum a muitos para sentir a noção do pertencimento. Qualquer estrangeiro ali deve ser notado, questionado, indagado, mesmo que seja apenas através de olhares atravessados, inquisidores talvez.

Por trás de uma manhã ensolarada e cumprimentos de senhores aposentados, quanto preconceito e aversão a estrangeiros podem estar escondidos? Necessitaria de mais tempo no local, passar no concurso público de repente, para uma maior noção dos acontecimentos. A intolerância, palavra que me fugiu ao início do texto, mas está devidamente agora pescada e resgatada ao bote, a intolerância é um dos padrões naturalizados nessas comunidades. São muito amáveis e respeitosos com quem os ajuda, mas vá saber a ira e o ódio que os desperta gente com qualquer intuito de escorar-se ou prejudicar-lhes no fim das contas.

Muitos ali, a maioria dos componentes da cidade, são descendentes de italianos ou alemães. Se os mais velhos não são diretamente desses países, ao menos filhos e netos dos europeus estão presentes. Como esses imigrantes ou descendentes de imigrantes do passado tratam aos imigrantes do presente? Haitianos, senegaleses, angolanos e de outros países, representando outras etnias. Questionamentos.

Na saída, após fotos com relógios no centro, uma fonte que espirra água longe e mais algumas bonitas arquiteturas bem desenhas e devidamente distribuídas, me deparo com outro aviso. Outdoors do pior candidato à presidência. Estes sinalizadores na estrada estando intactos, sem sofrer represálias de pessoas mais conscientizadas. Sem sofrer ataques de quem sabe o mal que ele representa, que pode atingir a diferentes culturas, a diferentes pessoas. Mais uma vez escancara-se o problema das comunidades, das organizações muito fechadas. Desconhecedoras das origens, dos lados de outrem, dos problemas sociais e suas causas país adentro ou afora ou à fora. Identifico essas potenciais xenofobias, mas sigo desconhecendo essa grafia.

30/03/2018

sextas santas - santa paciência!

Estamos no feriado de sexta-feira. Sexta-feira considerada santa. Não sei exatamente por quem. Dos celebrantes desse descanso, ao meu ciclo familiar e de amizades próximas, ninguém que esteja realmente devoto ou indo à igreja. Se importando se Cristo morreu simbolicamente nessa data. Digo, morreu de verdade. Mas a data simbolicamente. Sexta santa que antecede à Páscoa.

Na Páscoa, sim. A fartura. A volta do churrasco gordo após os frutos do mar nos dias passados. Os chocolates comerciais de preços exorbitantes apenas porque o formato é diferente e porque o coelho escondeu. Sabemos que o escondido, o perigoso e o proibido saem mais caros. Adrenalina. Tá, não vou perder o foco do texto. Não muito. Não muitas vezes. Vou tentar.

O senhor que trabalha comigo manda pornografia sem perguntar antes, durante meses e meses e, por mais sorte do que juízo, não mandou ainda coisa muito pesada para o grupo com os demais funcionários (e funcionária). É o mesmo sujeito que envia mensagens bonitas de Páscoa, com desenhos animados e gifs. A sociedade tem essas aberrações e bizarrices.

Mulheres que apoiam candidatos machistas. Mulheres que entram em relacionamentos abusivos e opressores, enquanto outras tantas pelo país tentam sair. E algumas saem apenas gravemente lesionadas, física ou psicologicamente, ou saem apenas quando o pulso não emite mais respostas. São agressões e mortes. São dados alarmantes. Há quem não enxergue ou não se importa de enxergar. Ignorantes.

Pessoas que praticam pecados o ano inteiro, mas não comem carne na sexta-feira considerada santa. Conhece várias assim, certo? É o exemplo comum e batido. Até me pergunto o quão estranho nesse país católico, machista, homofóbico, racista e patriarcal, o quão estranho é comer um hambúrguer no estimado dia. Será que as pessoas próximas ainda ficam boquiabertas por segundos sem se dar conta ou tentando intimidar? Será que balançam a cabeça horizontalmente em negação ao ato? Será que tapam os olhos das crianças, de seus filhos? Numa tentativa de mensagem de "Não veja isso, minha filha, o homem mau". "Olhe para o outro lado, meu filho, conversamos em casa".

Será que antes de dormir rezariam por mim? Será que ainda rezam? Porque os demais ensinamentos de Jesus não cumprem durante o ano. Será que cumprem esses outros? Com o que realmente se importam? Em contrariar os abortos que, não sendo feitos, dão origem a filhos de mães despreparadas, de pais estupradores, de famílias paupérrimas ou de baixíssima renda? Se importam em proibir ervas e manter legalizado o álcool que torna aquele homem de parágrafos acima mais violento, que torna o trânsito duas, três, quatro vezes mais perigoso?

Ontem à noite assassinaram um jovem - jovem mesmo - em um ponto onde costumo passar. Por localização e por horário. E o pior, muitas vezes exponho meu pai ou o pai de algum amigo a passar por ali. Na ida ou na volta da noite. Assassinaram a tiros. Em horário em que mais gente está por lá. Perto da meia-noite. Rua central. Perto, quase ao lado de universidade e de escola particular.

Mesmo acontecendo em horário inverso às aulas - mais inverso da escola do que da universidade, sim - penso no ponto que o sangue jorra nas calçadas, as mesmas calçadas que arrastam rodinhas de mochilas infantis. As calçadas em que pais e mães dão as mãos para levar seus filhos ao educandário. Nada fácil. A sociedade tem essas bizarrices.

Será que os não comedores de carne exclusivamente na sexta-feira gostaram da morte de mais um rapaz de 18 anos na cidade? Da média de um homicídio para menos de três dias? Comemoram a morte de supostos bandidos, de jovens pobres ou com alguma passagem pela polícia? Será que lamentam terem nascido em condições precárias, ter contato com a droga, com o tráfico, com as gangues desde cedo? Comemoram eles não terem suporte familiar, educação de qualidade ou opção de emprego? Comemoram o preconceito que sofrem, quando sabe-se que é mais difícil desses patrões confiarem neles do que em outro jovens de famílias mais abastadas?

Creio que só rezar, só parar de comer carne na sexta e só atacar caravana de um partido ou de um político não adianta...