Povoados, aldeias, comunidades, organizações. O interior e a falta de conectividade, de ligação com o mundo estrangeiro. Estrangeiro no sentido de ser exterior a essas comunidades, não necessariamente de outro país. Quanto mais isolados esses povoados, maiores fenômenos como a xenofobia: aversão, medo, pânico, ansiedade, dúvida, desconcerto em relação ao que é de fora.
Numa dessas viagens, num desses passeios pelo interior brasileiro, encontramos ao Sul uma cidade com essas características logo de entrada. Por mais que cocem os dedos para revelar a localização, dar nomes aos bois, como diz o ditado, manteremos em sigilo. Vistam a carapuça as cidades assim assimiladas por seus moradores ou visitadores.
As entradas desses locais são muito enfeitadas, a grama cortada e, se possível, cheirando à grama cortada - sempre. Pórticos de bem-vindo na escritura de um lado e de volte sempre nos dizeres do outro. Flores, como se as tulipas holandesas nem pudessem competir com tamanha harmonia e animosidade. Não há no mundo formação mais mimosa.
Avenidas de entrada muito convidativas, rótula de acesso com o nome da cidade em letras em pedra. Mais algum monumento, de toda a preferência, que seja marcante aos olhos para o visitador informar a seus parentes, aos colegas de trabalho ou enquanto corta o cabelo em um salão ou barbearia.
Ali estão os pequenos estabelecimentos bem cuidados, tintura em dia, organização nas vitrines e vendedores atenciosos à espera de uma calorosa entrada de potenciais clientes. Pelas rotas principais que ligam ao centro - rapidamente, em menos de dois minutos pelo tamanho da localidade -, uma carreata ajuda na recepção. É uma carreata da saúde, mas em nada surpreenderia se o personagem apelidado de Zé Gotinha fosse, na verdade, um usuário do capuz da Ku Klux Klan.
As suspeitas aumentam-se com uma marcha para Jesus, logo na sequência. Grupo de jovens, comuns nas igrejas pelo interior, vestidos prioritariamente de branco. Violão nas mãos de uns e cânticos para louvar logo pela manhã. Abordagens em alguns estabelecimentos e transeuntes, dos quais faço questão de me certificar ao outro lado da calçada. Nada contra essa devoção e diálogos sobre o tema, mas não queria atrapalhar minha ligeira rota turística. Veja bem, não tinha muito tempo para visitar a arquitetura e opções do lugar e as passeatas joviais das igrejas são comuns país a dentro, país a fora ou afora, nunca sei a grafia nessa horas.
Exemplos para se sentir estranhamente acolhido num povoado de limpeza nas ruas, jardins organizados, sombras de árvores, monumentos conservados, mesas distribuídas em frente a um café, lojas com vendedores dispostos e trânsito pacato. Ao mesmo tempo, a dificuldade comum a muitos para sentir a noção do pertencimento. Qualquer estrangeiro ali deve ser notado, questionado, indagado, mesmo que seja apenas através de olhares atravessados, inquisidores talvez.
Por trás de uma manhã ensolarada e cumprimentos de senhores aposentados, quanto preconceito e aversão a estrangeiros podem estar escondidos? Necessitaria de mais tempo no local, passar no concurso público de repente, para uma maior noção dos acontecimentos. A intolerância, palavra que me fugiu ao início do texto, mas está devidamente agora pescada e resgatada ao bote, a intolerância é um dos padrões naturalizados nessas comunidades. São muito amáveis e respeitosos com quem os ajuda, mas vá saber a ira e o ódio que os desperta gente com qualquer intuito de escorar-se ou prejudicar-lhes no fim das contas.
Muitos ali, a maioria dos componentes da cidade, são descendentes de italianos ou alemães. Se os mais velhos não são diretamente desses países, ao menos filhos e netos dos europeus estão presentes. Como esses imigrantes ou descendentes de imigrantes do passado tratam aos imigrantes do presente? Haitianos, senegaleses, angolanos e de outros países, representando outras etnias. Questionamentos.
Na saída, após fotos com relógios no centro, uma fonte que espirra água longe e mais algumas bonitas arquiteturas bem desenhas e devidamente distribuídas, me deparo com outro aviso. Outdoors do pior candidato à presidência. Estes sinalizadores na estrada estando intactos, sem sofrer represálias de pessoas mais conscientizadas. Sem sofrer ataques de quem sabe o mal que ele representa, que pode atingir a diferentes culturas, a diferentes pessoas. Mais uma vez escancara-se o problema das comunidades, das organizações muito fechadas. Desconhecedoras das origens, dos lados de outrem, dos problemas sociais e suas causas país adentro ou afora ou à fora. Identifico essas potenciais xenofobias, mas sigo desconhecendo essa grafia.
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