13/12/2025
Sidarta, de Hermann Hesse
12/12/2025
Charles Baudelaire - Cuadernos de un Disconforme
14/11/2025
The Only One
Talvez eu tenha sido o melhor escritor que conheci. Mas também o único com o qual andei em tempo integral fui eu mesmo.
Cada um tem suas verdades.
Já discordei muito de mim. Isso pode provar que aprendi. Ou não.
29/08/2025
Meu Pé de Laranja Lima (1970)
Meu Pé de Laranja Lima causou grande impressão e pode ser considerado um dos melhores filmes nacionais. Acostumado a filmes iranianos que retratam a infância, observar essa obra autobiográfica que vem do livro de José Mauro de Vasconcelos é contemplar a identificação com milhões de jovens brasileiros.
Zezé só revela o nome completo no filme ao recitar para preencher a ficha escolar. José Mauro de Vasconcelos. O menino tem seis anos, é miúdo, mas destemido. Tem um irmão menor chamado Luis (ou Luiz), com o qual é muito atencioso. Seu irmão mais velho aparece em algumas cenas e procura instruir o imaginativo e aventureiro Zezé. A infância neste filme não é retratada como a maior das nostalgias, do fantasioso e do maravilhoso enquanto não se cresce. Zezé, pelo contrário, vive à margem de uma sociedade abastada. Seu pai desempregou e não tem previsão de receber um novo emprego. A substituição dos postos por operários mais jovens é realidade. José mesmo muito criança já sai atrás de suas rendas, sempre pensando nos próximos. Sonha dar um presente de Natal ao maninho menor. Quando questionado por roubar uma flor para professora, confessa não ter dinheiro para comprar, não ter jardim em sua casa com flores e que não tolerava assistir ao copo na mesa da professora vazio. Roubou-lhe uma flor. Em seguida fala que a professora não deveria destinar brindes de comida só a ele, que era excelente aluno. Uma negrinha na escola era ainda mais pobre e ele dividiria a comida sempre com ela, que era excluída por outras crianças. A professora poderia dar brindes direto à menina. Zezé cometia erros, xingava, se metia em brigas, mas tinha bom coração. Passados anos da vida adulta é fácil enxergar. O envolvimento de todo contexto e o perdão para os erros infantis do aprendizado.
Nessa vida com percalços, descalço pelas ruas, Zezé não romantiza a infância. Sonha viajar, fala até em suicídio, conversa que pesa clima ao fazer amizade com um confessor português, o senhor Manuel Valadares. Como o pai estava desempregado e ocorriam algumas brigas em sua casa, com a irmã adolescente e os pais, Zezé chega a projetar que o português o adote. Manuel, que não tinha filhos, não descarta a ideia, mas não tiraria o menino do seio familiar.
Claro, o personagem principal das confissões de Zezé seria o que dá nome ao filme, o tal do Pé de Laranja Lima. Zezé o descobre no terreno avulso à casa e lá parte para brincadeiras e imaginações. A árvore além de ouvinte também dava dicas maravilhosas ao menino. Um realismo fantástico. Zezé gostava de brincar de imaginar um zoológico e animais ferozes para impressionar o mano Luis. Além da árvore do protagonista, os irmãos também tinham entre mangueiras e outras árvores, uma da tamarindo.
O efeito do filme com acontecimentos tristes, emocionantes, crus, remendadores de nossas e outras infâncias torna as lembranças como um clássico. Se comparam as épocas, se pensa no raio do capitalismo que faz crianças trabalharem e adultos sucumbirem. Faz com que desejem fugir ou morrer, que sejam discriminadas, que percebam ou não as diferentes classes sociais e financeiras. O dinheiro como base de tudo, para comer, para presentes, para determinar as crianças que tenham ou não tenham Natal, que tenham ou não tenham figurinhas de chiclete e outros brinquedos, que possam ter a bicicleta ou não, conforme o filme recém avaliado neste canal, o Este Mundo é Meu (1964).
Meu Pé de Laranja Lima supera sensores para cortar/contar essa época da arte brasileira com amostras de pobreza, mas de esperança. Retratos crus, a mistura do rural e do urbano, da sociedade ainda muito religiosa, do crescimento das cidades, da passagem do bastão das gerações. Dos portugueses incorporados à sociedade brasileira: amigos? Confessores? Por que não?
Zezé encanta por seu senso aventureiro, por não se intimidar, briga e busca melhoras pelos irmãos, chega a brigar com menino maior do que ele. Luta contra as desigualdades, sonha planos para si e pelos outros, roga contra Jesus que o teria abandonado. Não é fácil ser criança. Toda a romantização da infância esquece de muitos exemplos. O escritor José Mauro de Vasconcelos não nos deixou esquecer das agruras de um Brasil profundo e relativamente recente. Talvez da nossa janela para fora ainda hoje.
23/12/2024
Nós
Nós desgraçados da arte que escrevemos, descrevemos, relatamos tudo e todos os defeitos e virtudes como se não fôssemos nós mesmos compostos pelas mais graves sequelas. Relatamos da forma como queremos como se fôssemos perfeitos, nós mesmos os mais preenchidos de chagas, caolhos, vesgos, corcundas, deprimidos, ansiosos, deficitários, endividados, desprovidos da matemática, incapazes da baliza, míopes, línguas presas, cafonas, cornos, roedores de unhas, alcoólatras, tabaqueiros, controlados por remédios. Sedentos.
04/12/2024
Talvez tenham percebido que seguidamente escrevo meus textos em tom de pedido de desculpas. E não é por acaso ou falsa intenção: roubar tempo das pessoas é das piores coisas; coisa essa que pode ser o que fazemos ao escrevermos para alguém se dedicar à leitura. Roubar tempo.
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Pretendo roubar tempo de ninguém. Sempre gostaria de somar na vida das pessoas, nem que seja com esses textos pequenos ou com conversas de cinco minutos na rua. Se errei anteriormente, roubando tempo de quem se sinta lesada, gostaria que se aceitasse a permanente intenção de que procuro melhorar para os próximos tempos.
Melhorar com o tempo, e não roubá-lo.
31/07/2024
A cadeia
Temo mais a cadeia do que a morte. Tenho isso comigo há muitos anos, talvez desde a infância. Repito, mas não sei se da boca para fora, porque não passei pela cadeia nem pela morte. Por enquanto, mantenho minha opinião.
Assisti a dois filmes em sequência sobre a temática. Não sabia que eram relacionados. Ou possivelmente relacionados. Assisti a Os Miseráveis (1935), de inspiração do livro francês de Victor Hugo. O autor designa que enquanto houver pessoas condenadas a pagar mesmo após suas condenações, condenadas a serem eternas presidiárias, a história se manterá atual e justificada. Por isso é um clássico.
Jean Valjean de Os Miseráveis roubou um pão para alimentar sua miserável família e foi condenado à pior prisão possível. Sem fiança. Sem novas chances. Após fugir e ter nova chance concedida por um sacerdote, ele prospera e adota a filha de uma empregada que era explorada em seu trabalho. Mas o passado do lorde acaba vindo à tona e ele se torna procurado pela dita justiça. A perseguição nunca termina. As lutas grevistas por direitos atravessam o filme em uma nova geração, capitaneada pela filha adotiva de Jean e o affair por um protestante. A temática gira em torno do julgamento severo e rotulatório sobre um apenado por um crime de básica necessidade: o direito à alimentação.
Em Whispering Pages ou Páginas Ocultas do diretor russo Alexander Sokurov, o jovem andarilho errante admite ter assassinado a velha de uma das ruas pela qual circula. O filme de 1994 dialoga com o clássico russo Crime e Castigo de Fiodor Dostoievski - perdoem a grafia que nunca sei como o cito nessas páginas.
O filme mais recente trafega a contagotas por paisagens urbanas inóspitas, com o cinza, a miséria e a pobreza em abundância. Confidente, o jovem tem num dita irmã a anunciação de ser o autor da morte da idosa. A conversa entre eles circula por temas como religião, culpa, o crime e o castigo do título da obra em prosa. A irmã, religiosa, pede que ele se ajoelhe e se confesse perante a sociedade. Ele debate com a mulher: "você reza a Deus, mas o que ele faz em troca por você?".
O sentido vaga pela desorientação e desesperança do jovem desclassificado, pobre, de andar errante, porém inerte. Não há a mostra do crime em si, apenas a confissão e as incertezas de como sobreviver, independente do assumir de um óbito ou não.
Os cometimentos criminais são distintos nas histórias, nos livros e filmes. Livros que ambientam filmes. A justificativa de Jean Valjean é mais fácil de assimilar, de defender, de revoltar por seu destino implacável em perseguição trágica que lhe impõe a dita justiça francesa. O crime que Raskolnikov comete no original dostoievskiano também pode contar com a justificativa imputada, atribuída, mas a aceitação é conversão mais duvidosa perante os conhecedores da trama.
Independente do cometimento, como nossa sociedade lida com essas forças, com esses tabus? Que respostas damos e são aplicadas? Como julgamos a todo curso os delitos passados? Que tipos de sombras nos percorrem e muitas vezes nos nocauteiam com o passar dos anos? Quais pães roubamos e velhas assassinamos e de que formas pagamos no cotidiano? Como se comporta a Justiça que a uns ladrões de galinha (ou pão) deveras condena enquanto magistrados, desviadores, latifundiários, corruptos, ocultos por laranjas, sonegadores permanecem imunes? Quantos Jean Valjeans ficam em cárcere por pequenos julgados delitos, quantas senhoras burguesas permanecem recebendo aposentadorias diante da fome marginal? Quantas justificativas podemos atribuir a cada um deles? E a nós mesmos.
28/12/2022
Reinado
Há vários tipos de escritores. Os que relatam dramas. Os que rebuscam prosas. Os que abrem caminhos pela poesia. Os que relatam cientificamente, biologicamente, astronomicamente e outros termos acompanhados do mente. Os que constroem ficção bem ficcional. Os que constroem ficção bem apoiada no mundo existente. Os que panfletam politicamente. Os que se inserem. Os que se autodiagnosticam. Os que observam as lamúrias e chagas nos outros. Escritores por uma causa. Escritores por uma valsa. Por um sonho de. Escritores que descrevem seus sonhos, acordados ou dormidos. Escritores que inventam mundos por ação. Escritores eróticos. Escritores debochados. Escritores paisagistas. Escritores de criações estritamente psicológicas.
E quem sou eu no meio de tantos tipos? Espero me apresentar com um pouco de cada. Não bato na porta com apenas uma proposta. Recuse meu verso e tento uma prosa. Um outro verso. Um inverso. Uma contradição. Um contrargumento. Contra ti ou contra mim mesmo. Com o perdão do trocadilho, um novo universo. Une versos. Verídicos desconexos. Vereditos anexos. Créditos e débitos no cartão da vida. Curativos e feridas. Chegadas e despedidas.
Espero ser um pouco de cada. Cercado pelas paredes e pelo nada. Pelas batidas extasiadas que meu coração por vezes abdica. Espero ser um pouco de cada e seguir as dicas. As pistas e iscas de meus professores antecedentes, antepassados, diante do ausente e do presente, militante combatente, guerrilheiro entorpecente, pássaro e serpente, ente dos mais queridos, por vezes na cova dos inimigos. Sou e estou contigo. Meu bravo ou mesmo breve amigo. Te, ti, contigo. Não sei se consigo, mas tento. Atento aos mais breves movimentos, brisas e ventos, verões laranjas e invernos cinzentos, cinzeiro das pontas que se apagam, do mar das águas que alagam, das páginas que alargam meus sentimentos.
Espero ser mais do que parecer. Posso parecer ser de cimento. Mas sou o mais frágil pré-sentimento que em flor se abre e às vezes não cabe, ou às vezes só se vê em lente de aumento. Aumento o rebento de meus rebentos, minha rebentação mar a dentro de ondas, de sondas espaciais e especiais, zonas urbanas e rurais de meu testamento.
Espero. Mas enquanto espero ergo. Ermo. Com o cedro na mão de meu triste reinado. De minhas terras e pedaços arrasados, de sentimentos irados, pensamentos pirados e trabalhos a serem arados. Gado. Não peço que sejam, nem sereias nem aqueles que rastejam, talvez com que eu beba uma cerveja, talvez nem isso seja o combinado. O comboio armado, o combo formado pelo que fui e pelo que serei. Se rei for, ser rei do quê? Do quê serei? Espero por algo que ainda não sei.
21/06/2022
Plagiadores
Cada vez que se rouba uma ideia, nos âmbitos muitas vezes invisíveis (e mudos, inescutáveis) de nossa sociedade, o ladrão sempre será um impostor, um baixo, um vil, um incapaz, um insucesso. O verdadeiro autor sempre será o original, o portentoso, o realizador, mesmo que desprestigiado e irreconhecido.
O plagiador sempre será um falsário desnudo, embora o exercício da consciência não seja prática constante de nossos concidadãos.
O crime de plágio é dos mais rudes, dos mais impueris. Há muitos crimes em que desconhecemos o autor. Nesse caso, há uma realização, mas há um falso autor. Imperdoável.
Primo e prezo sempre pela originalidade. Saúdo e brindo e convoco a todos os originários a este tilintar de taças. Aos falsários e plagiadores, que o inferno mental que lhes preparo os esperem.
13/03/2022
Imortalidade
17/02/2022
Melhor por escrito
Acho que gosto de escrever também porque, oralmente, nunca gostei de ser interrompido. Pavor de começar a falar e ter de repetir ou começar de novo por interrupções ou porque os outros julgam ter coisas mais importantes para fazer. Assim também sempre detestei terminar algum causo, alguma história e notar o semblante decepcionado ou pouco animado (ou pouco atormentado, dependendo o efeito desejado), indiferente, semblante de pouca relevância ao recém ouvido por meus interlocutores. Dessa maneira, a escrita me parece uma forma mais indireta para tratar com as coisas, mesmo as do cotidiano. Você que está lendo essa divulgação que em seguida irei publicar, não sei se você está interessado ou desinteressado. Não sei se está gostando ou não está. A escrita, em cartas, em blogs, em textos publicados fica assim, mais impessoal. Não sei a reação de quem está do outro lado do texto. Não sei a reação de vocês.
Outra questão muito mais abordada por nós tímidos, por nós antigos ou nós desconfiados, é o poder seletivo, na escolha de palavras para compor um texto escrito, diferente do discurso falado. Também aproveito para confessar que muitas vezes apenas cuspo meus textos, sem um planejamento prévio, sem uma organização anteposta das ideias. É tudo mais interposto. Sendo construído, literalmente, ao gerúndio.
E muitas vezes não gosto de planejar minhas caminhadas, ou ao menos gosto de mudá-las a gosto, à escolha da hora. Várias são as situações da vida que encaro e procuro resolver dessa forma. Acredito na força dos improvisos, creio na variedade, na fuga das mesmices e engessamentos que todos enfrentamos. Me senti a própria Martha Medeiros ao percorrer essas últimas linhas. No disparo improvisado, obviamente. É que também confesso ter lido materiais, livro dela. São coisas da vida, como o nome da obra sugere.
De minha parte, a escolha das palavras certas quase sempre não é problema. Procuro formular essa teia elaborada com precisão. Agora o efeito que causará no interlocutor, se causará indiferença, decepção ou até irritabilidade, prefiro deixar para o trabalho escrito, porque frente a frente, ao vivo, sobre um palco onde ouvem-se vaias, ou até a internet, palco de feedbacks muitas vezes maldosos, prefiro evitar de absorver. No cotidiano, no trabalho, em atendimentos feitos ou recebidos, onde a possibilidade de nos atrapalharmos e ouvirmos queixas é grande, a crítica negativa faz-me mal. Pelos meus escritos também, e é por isso que prefiro manter certa cautela, certa distância, certa ponderação e preocupação. Seleciono melhor meu público leitor e para quem conto um conto, como pergunta uma canção da banda uruguaia La Vela Puerca.
Ainda não cheguei à (agradável?) idade de não me importar com as críticas e me desligar mais do que pensem. Enquanto isso, procuro interligar e agradar. Espero um dia chegar mais no que vendem ser a arte sutil ou não de arremessar o dane-se. Mas não pretendo ler o livro esse. Enquanto isso, permaneço seletivo.
14/02/2022
Manoéis de Barros
De Barros, Manoel
Lápis e papel
E novos mundos
Absurdo é alguém
Não gostar de ti
Manoel de Barros
E seu sorriso guri
Manoel de Barros
Manoelmente
Escreve em seus cadernos
Que se multiplicam
Aos montes
Pedaços que são eternos
Poeta da palavra
As larvas são mais rurais
Manoel também dos bairros
De barro seus ancestrais
Manoel de Barros
Enrola e desenrola
Nos vicia
E não é cigarro
Manoel, ao contrário,
Não procurava o céu
Tinha o chão, o solo
Como destinatário
Manoel de Barros
Do Pantanal, do Mato Grosso
Fazia poesia de qualquer
Inseto que sobe fosso
Manoel pode
E eu posso?
Manoel que nunca para
Eu paro para Manoel
Que escreve sem manual
Nada igual aos ditos seus
Na palha de um chapéu
Num canavial
Nas falhas do Português
Nas fendas de um Portunhel
Trabalhos como os de renda
Escritos em Manoês
24/08/2021
Registros e não registros
Diários de bordo. Acho bacana começar um texto assim (diários de bordo), mas na verdade sempre me perguntei sobre quantos dias antes e quantos dias existem depois das anotações. Mais dramático é se as anotações são as últimas coisas que ficam, que persistem, que ultrapassam a barreira imposta pelo tempo, quando o autor, sem saber, acaba partindo desta para outra. Também penso muito em câmeras fotográficas. Em como estragadas podem perder registros únicos. Registros últimos. E se for roubada, o ladrão se importa com as fotos salvas no cartão de memórias?
São preocupações minhas que ora veem à tona. Tenho feito uma coleção de camisas de futebol. Não chega a peitar os maiores colecionadores, donos de bazares, sites, lojas virtuais, improvisos por grupos de whatsapp, mas tenho minhas peças e me orgulho e curto cada uma delas, de verdade, todas com alguma beleza, singularidade, história especial, de maior ou menor grau. Ao passo que avanço a quantidade de cabides e itens dobrados em prateleira, recordo meu avô sobre uma cama fria de hospital, com poucos tecidos para taparem-lhe as longas e cada vez mais finas canelas. De qualquer forma terminaremos assim. Ou partiremos um pouco mais saudáveis do que definhados. Podemos partir de repente, de uma maneira surpresa. No caso dele, todos já estamos preparados para o findar chegar em algum momento. Além do mais, independente do tempo que ele perdure com suas agravantes questões de saúde, ele é o recordista de idade de nossas famílias, passando os 90 e relutante em chegar aos 91, caso sobreviva até o próximo novembro.
Embora destaque seus problemas físicos, se alimentando cada vez menos e com veias e ossos cada vez mais salientes por conta disso, minha mãe observa que ele está razoavelmente bem de cabeça. Não creio que chegaria assim daqui a mais do que seis décadas. De maneira alguma projeto isso. Um dos casos que me trouxe aqui a relatar é porque estava quase adormecendo após o almoço e em um acesso de teimosia tamanha, como se fosse um desses senhores idosos, me recusei a levantar e escrever as poucas linhas que eu havia pensado. Lamento muito por tê-las perdido para sempre em um vácuo no espaço não arquivado pela memória. Os malditos neurotransmissores queimaram o arquivo, rasgaram a folha, jogaram fora os poucos versos. Nem sequer eu recordo do que se tratavam. Isso que me chateia. Não consigo sequer restituir a temática de meu pensamento naquela matinê. Assim acredito que, se minha mãe estivesse viva aos 130 para me conferir nos meus inalcalçáveis 90, duvido que ela se refiriria a mim como estando "bem de cabeça". Não vou estar "bem da cabeça". Provavelmente nem estarei, como sabem.
E a sentença sobre meu avô também é bastante duvidável, pois o sr. Lino estava querendo sair para pescar em um desses dias, logo no estado em que ele se encontra, definhado sobre a cama. Em outro momento, com maior juízo, vejam só, se recusou a partir para pesca porque ele quer aguardar o verão. Ficamos no aguardo se ele resiste a esse final de inverno, passagem por primavera e alcance o sonho da próxima pescaria, ou continuará a pescar seus últimos sonhos por agora. Quanto a mim, sigo me martirizando muitas vezes pelo que não tenho culpa, meus tecidos de variados clubes e seleções espalhados pelo sofá enquanto meu avô não escolhe o que vestir, escolhem por ele, no restante de suas últimas peças. É quase setembro e ainda está um pouco frio para os padrões de despedida de inverno.
17/07/2021
23/04/2021
Pós Travessuras da Menina Má
Comentaram intensamente sobre hoje ser uma dessas datas, um Dia do Livro. Mediante o conhecimento dessa informação, confesso um esforço a mais para terminar As Travessuras da Menina Má, mais um livro do peruano Mario Vargas Llosa, este que lhe rendeu simplesmente o prêmio Nobel de literatura. Cheguei à conclusão e não me surpreendi com o desfecho, sendo Vargas Llosa expert em preparar esses terrenos, que, se fossem comparados a terrenos, literalmente, seriam terrenos castigados pelas ações corrosivas do clima e pela ação degradadora do ser humano.
Mais uma vez encontro-me diante do cursor do mouse que pisca e me convida a transpassar minhas impressões para o espaço em branco. Imagino, nessa hora, o saltear dos demônios internos em direção à máquina, para o devido lugar em que ora tento posicioná-los, enfileirá-los, domá-los. Tarefa difícil que somente cada escritor sabe o quanto enfrenta. Nessas horas, penso também em todos aqueles que passaram por essas missões com a pena e a tinta em mãos, nos pergaminhos demorados e sagrados de antigamente.
Este livro abriu um preâmbulo sobre a vida que tenho a encarar pela frente. Missões e mais missões como essa que ora me dedico. O personagem principal, um tradutor, um peruano que lançou-se à Europa como meta e sonho, o principal deles viver em Paris. O reencontro com a menina que realmente amou. Ela nunca o tratou bem. Ele é insistente por ela, mesmo sendo usado. Me faz questionar o que temos de propósito para essa passagem, para essa existência. O trabalho dele, que circunda a narrativa, a tradução, é bastante nobre. Embora muitas pessoas reduzam o valor presente nas palavras, imagine o inalcançável tom que diariamente nossas palavras, mesmo o que aqui escrevo, não encontram na maior parte da humanidade, porque a maior parte da humanidade não dispõe dos conhecimentos necessários para decifrar o que é dito ou escrito em nosso idioma. A tradução é fundamental. Os tradutores, de encontros da Unesco, como ocorre no livro, ou em outras ocasiões, são também embaixadores pela paz. Mas esta ideia sobre a tradução apenas permeia a narrativa principal: os encontros de Ricardito com a menina má.
A transposição das ideias desse livro, que não fui atrás da informação mas deve ser de conhecimento a nível mundial, vide o prêmio Nobel, para indicarem algum rumo à minha vida é um egocentrismo desvairado. Por óbvio que é. Mas, ao mesmo tempo, me encontro contente pelo papel que a arte desempenha em atiçarmos-nos, em buscarmos inspiração, coincidências e motivações. A arte cumpriu sua missão. Foi um pouco antes de iniciar a leitura dessa narrativa, mas após já ter a ideia de comprar o livro, sem saber exatamente do que se tratava, foi aí que aprofundei, afunilei minhas conversas com a que tracei o paralelo de que ela é a minha menina má. Tal qual a personagem principal, a amante de Ricardito na história, ela também oferece um amor até inesperado pelo que se propõe entregar-se em madrugadas. Promete, estende tapetes e logo recolhe mundos e fundos. Tudo isso pelo efeito do álcool ou pelas suas ideias mais resguardadas que erupcionam verdadeiras nessa hora. Com minha maneira de gato escaldado, mantenho o pé atrás, a distância necessária, mas pronto também para um possível recuo estratégico que represente o impulso para o grande salto. É sempre um risco, mas é uma aventura, uma adrenalina, uma vertigem, um sentimento de sentir-se vivo que muitas vezes parece em falta nas gôndolas padronizadas dessa passagem. Tal qual Ricardito, sinto que saltaria por ela ou faria outras loucuras ou, como na própria linguagem do livro, faria as breguices que fossem necessárias como provas intrínsecas à essa situação.
Se preencho bem essa lacuna como o Ricardito, por sua vez, sei que ela enfrenta sentimentos suicidas e a incredulidade quanto ao amor romântico. Também me posiciono reticente quanto a isso, mas o sabor dessa vivência como um sabor de sorvete que sabemos não voltar a experimentar da mesma forma, parece-me válido. E quanto mais ela repete que no amor romântico não acredita, mais estudo aplacar nisso um reverso em que na verdade ela acredita, caso contrário não o citaria tantas vezes. Por que tanto falaria de algo que considera não existir? Ao mesmo tempo sei o quanto ela se sente confusa, talvez exatamente por esse conflito interno: existir ou não existir? Eu ou quem nessa narrativa? Como ela é muito acima da média em todos os requisitos, não me tardaria criar fantasias ilusórias e de ciúme sobre quem ocuparia meu lugar quando ela passar a acreditar no que afirma não crer. Não acredito em destino, mas considero muito bonitas as nossas coincidências.
Não acredito que meu destino seria tão belo quanto ela. Distante do positivismo, afastado dessa possibilidade afirmativa, o mais comum seria aceitar que ela realmente não crê na exploração de um amor romântico, este que seria altamente lindo enquanto durasse - quanto duraria? tu também, "Ricardito", tão efêmero sentimentalmente e enjoado e criador de fantasmas paranoicos buuuuu - ou, caso ela acredite, caso ela passe a acreditar, não seria contigo, Ricardito, por que seria contigo? Que tens de mais? Tu que, sendo tradutor ou professor ou o que for, também não terás os recursos para o conforto e a hospitalidade necessários para essa vida conjugal burguesa. Tu que, em casa, encontras apenas o exemplo pragmático de teus pais, que se confortam no desenvolver das tarefas, mas enxerga neles o auge da primavera amorosa como passado, distante do despertar de cada nova manhã e do horizonte futuro. Tu que, mesmo assim, lê, ou melhor, apenas passa os olhos, ignora as dores, os espinhos e os machucados das entrelinhas e aceitaria os termos de uso. Tu que avalia que é melhor existir o amor nessas condições efêmeras que findam logo adiante, em alguma esquina, do que conviver com a inexistência dele. O vazio de não vivê-lo. Pois é, pois é, talvez seja melhor pegar a lupa para esmiuçar a leitura das tais entrelinhas. Elas são perigosas. Alta periculosidade.
Enquanto isso, barcos que se movimentam no fluxo fluvial de algum porto. Não falando agora de amores, mas de livros, obviamente. O fluxo dos livros. Foi-se mais uma leitura e a próxima, o que poderá reservar? Tu, Ricardito (gostou do apelido, sonhador Ricardito?), tu que enfeitas tua existência no rabiscar mais ou menos ordenado das palavras, tu que és pastor delas e não te importas (não muito) que algumas te fujam o controle, porque sabes que faz parte na totalidade do rebanho. Tu que terminas mais um livro da leitura e pensa o que isso pode te ajudar num futuro teu. Num futuro, futuro mesmo, tempo a ser vivido, ou mesmo num futuro livro, quem sabe? Exatamente, Ricardito, quem é que sabe? Quem é que sabe de ti mais do que tu? Quem é que sabe da tua niña mala ou de que qualquer outra que te cruze o caminho? Assim sendo, que venham outros livros. És um influenciado. És uma esponja absorvente dessas narrativas. És um ser que vomita literatura sempre que termina alguma refeição oferecida por ela. Um anoréxico literário. Um viciado. Guardas quase nada em teu corpo, expões muito. Pões para fora. Um insaciado nesse campo difuso e eternamente exploratório, do qual nunca vencerás nem te darás por vencido. E nesse campo viverás, nas limitações e nas infinitudes previstas desse vasto campo.
Um sonhador que agradece aos livros enquanto não te encontras com as travessuras dessa ou daquela menina má.
11/03/2021
Esperanças Recônditas
Não, saí para respirar um pouco e estava a pensar que nem tudo que penso ou escrevo será aproveitado. Não, não na questão se vão ler e utilizar de alguma forma intelectual ou mais prática na vida. Questão de que nem tudo vai prestar. Deve ser comum para várias profissões, inclusive, como cozinheiros ou cabeleireiros. Não se acerta sempre. Talvez ainda sirva de aprendizado. Talvez.
Obviamente, o tempo útil de um texto também pode ser duramente afetado. A efemeridade. De repente, o que pensei ou teci por agora, de nada vai valer daqui a uns anos, daqui a uns dias, ou mesmo daqui a umas horas. O jornalismo impresso, gravado na pedra, está com o tempo como inimigo nos últimos tempos. As opções digitais podem ser facilmente alteradas. Marca-se (ou não) a data e horário da alteração e segue-se o baile. No impresso não, estará lá computado para registros póstumos.
Muitas vezes escrevemos por impulso ou por desabafo momentâneo. É geralmente nesses indutos que acabo escrevendo muita coisa. Será que minha racionalidade irracional ou irracionalidade racional terá fins positivos futuramente? Me importa que no momento em que foram escritas me valeram. Às vezes penso onde elas podem chegar. Velha metáfora da cartinha enrolada em garrafa em alto mar. Que os piratas possam surrupiar.
Erro muitas previsões, naturalmente, mas esses dias constatei que acertei sobre Flamengo e Palmeiras alternarem títulos de 2018 em diante. Realmente foram os únicos campeões de Campeonato Brasileiro até 2020. Flamengo ainda faturou Libertadores em 2019 e o Palmeiras a seguinte, em 2020. Monopólio do futebol nacional. Mas errei previsão, sim, pois acrescentei a esses dois clubes, o triunvirato do Corinthians, que tem ficado fora das disputas desde o seu título brasileiro de 2017. Tem contraído dívidas e não tem encontrado o seu melhor futebol em desempenho nas últimas temporadas. Devolvam o Luan ao Sul. Devolver o Luan seria um erro que eu estaria disposto a correr.
Vi uma dessas mensagens reduzidas em microblog - Twitter - garantindo a importância do amor e que deve-se apostar nele. Concordo, deve-se valer o risco. Mas fui ver quem havia curtido essa mensagem. Somente pessoas com namoro ou casamento adiantado. Talvez uma dessas pessoas não, mas na esperança. Pensei: assim fica fácil. As pessoas utilizam as suas vivências e experiências práticas como verdades absolutas. Não é bem dessa forma que a banda toca. Mas ok, admirável otimismo de vocês. All you need, etc.
E realmente é muito importante isso do amor. Do se sentir amado. Desperdicei algumas formas dele, reconheço. Talvez não tenham sido poucas vezes. Mas também imagino e reconheço que não o aproveitaria da melhor forma. Tenho meus impropérios (sentido 2º: censura injuriosa; repreensão) e minhas dificuldades para lidar com isso. Certa vez escrevi meio poema, meio aproveitamento aqui em prosa: saber lidar é o bastante. Como lidar é a questão.
Minha real preocupação antes de vir aqui são os cenários políticos. A polarização novamente está formada, Grêmio, eu te dou a vida, por esta jornada. Não, os cenários políticos. O otimismo total da liberação eleitoral para Luiz Inácio e seus discursos iniciais preponderantes. É uma luz, como foi classificado. O atual desgoverno inclusive passou a, vejam só, usar máscara na pandemia. Altamente radical. Lula é efusivo. Falou em ser radical para atacar as raízes dos problemas nacionais. Frase de persuasão e impacto. O Brasil era muito melhor no tempo do Partido dos Trabalhadores. Nas oportunidades, na renda, no controle da economia, que chegou a uma das melhores do mundo. Nas vagas universitárias e de ensino profissionalizante, nos auxílios desde a profissão de serviços domésticos até a quem estudava e procurava primeira oportunidade no mercado de trabalho. Auxílios para moradias, financiamentos, respeito internacional, comitivas bem recebidas e recebendo bem. Política participativa. Tanta coisa era melhor e foi sendo desmanchada desde o golpe de 2016. É completamente injusto comparar o governo anterior ao atual desgoverno. Não são duas faces da mesma moeda. Não são farinhas do mesmo saco. Não é uma escolha difícil, como pode sugerir o editorial de grandes jornais. Será que um dia esqueceremos esse editorial criminoso, que empurra o Brasil para uma das piores, se não a pior, gestão de pandemia no planeta? De um "líder" que não utilizava máscaras até Luiz Inácio ser liberado com seus direitos políticos a, quem sabe, se as coisas derem certo, concorrer. De um ignorante das questões sanitárias e de saúde. De um verdadeiro genocídio, pois que outro nome dar às vésperas das 300 mil mortes no país? Qual outro nome, vos pergunto?
Não é meu campo, não tenho formações em ciência política, então procuro absorver de outros especialistas, mas, irrequieto, também arrisco meus pitacos. É facilmente para registros póstumos que podemos afirmar que Lula é muito superior a Bolsonaro. Talvez sejam, inclusive, as extremas, as oposições, os que se diferem demasiadamente. O Brasil do PT da melhor economia, do Bolsa Família, do Fome Zero, dos programas sociais elogiados mundo afora, por ONU e outras entidades, pelos ensinos técnicos, profissionalizantes e universitários, pelas vagas ofertadas, pelos ataques que a grande mídia descarregava furiosamente, criminosamente com capas de revistas, com editoriais de jornais. E o Brasil atual de nenhuma responsabilidade social - já dizia o companheiro Marroni para outros - do colapso da saúde, porque as soluções anteriores ofertadas não foram procuradas. Porque as vacinas não vieram, demoraram a vir, passou-se todo o 2020 e precisou-se organizar mórbidos containers para arrecadar os corpos já sem vida. Vidas que não voltam mais. A economia ainda poderá voltar - mas digo, não com eles. O combustível vai seguir subindo, o gás de cozinha vai seguir subindo, os alimentos nas bancadas e estantes continuarão a subir em preço, ao menos enquanto o mesmo ministro da economia permanecer. Ele não sabe gerir, não sabe gerir para o povo, não sabe controlar a alta dos preços, vai desvalorizar a moeda real até os seus confins, vergonha internacional, mais uma a ser sentida, para as mais diversas críticas da imprensa de outros países.
Nem tudo que eu escrever ou pensar será aproveitado, mas novamente me encontro ao tentar alinhar os desabafos. Na certeza que o pior ainda não passou, mas pode passar. Na certeza que a saúde e a economia ainda descambarão suas tragédias em um tango longe de seu findar. Não há piloto, há cortinas de fumaça, mas o antigo piloto deu as caras. Pode retornar. Ou não. É o país das surpresas, das reviravoltas, da Justiça com suas injustiças. Ficou claro que ele poderia concorrer em 2018. Que sua sucessora foi deposta em golpe em 2016. Disso não há dúvida. Disso já sabíamos. Já deveríamos saber, embora muitos ignorem. E, na minha concepção, erre ou acerte, acredito na vontade popular de que ainda há possibilidade dele voltar a vencer. Mas são muitos fatores na tortuosa estrada. Se estará elegível ou não, na reabertura de processos judiciais e novo resultado de absolvição ou condenação. A depender de como será a futura campanha políticas. As futuras alianças a serem desbravadas. Sozinho, no campo de esquerda? Não há como. Mas seu vice anterior era José Alencar e houve o episódio mais do que conhecido com Michel Temer, além de José Sarney, Renan Calheiros e outros. Não há como acreditar na pureza, somente da boca para fora. Mas como serão as campanhas políticas em um país movido nas últimas temporadas a ódio? Altamente arriscado. A proximidade física, o aproximar com o povo, o corpo a corpo, ou manter-se a cautela para evitar uma catástrofe, uma tragédia, como já houve ataques violentos a tiro na fronteira do Rio Grande do Sul e como houve (ou não) o incidente que afastou candidato de debates em 2018. E pensar que hoje em dia quase tudo é no modo digital, nas câmeras, nos aplicativos zoom, nas aulas online, nos ambientes virtuais e na época ninguém obrigou a ocorrência de debate, mesmo à distância. Frouxidão e desgoverno, lado a lado.
Encerro por aqui sem a certeza dos acertos, mas com a consciência em alinhamento com o dever cumprido novamente, pelos meus impulsos para a presente época. Espero que os mais otimistas estejam certos com essa volta, pelo menos na semana, triunfal e rejuvenescedora. Mas entendo o processo como um caminho muito longo a ser caminhado. Tudo está distante do rompimento com as nebulosidades que ascenderam nos últimos tempos. Eles ainda têm o controle, o poder, as tentativas de veto, as tentativas de censura, as intimações, as armas na mão - como abordou Luis Fernando Verissimo. Eles ainda têm a gestão desregulada e imprópria da saúde e do combate à pandemia, tudo muito lento, muito devagar para haver a devida massa popular às ruas pelos direitos a serem mantidos, conquistados ou reconquistados. É necessário caminhar com os passos que nos forem possíveis. Sem a esperança intacta - pois já foi muito apedrejada e afetada - sem a ideia de pureza política e ideológica, sem pensar que o livramento das sombras será fácil, mas que ainda ali, em canto recôndito, ainda é possível arrumar boa parte da casa.
23/08/2020
Reflexões acerca do trabalho universal do escritor
Fragmentos aqui intitulados reflexões acerca do trabalho universal do escritor.
O escritor traduzia histórias, sentimentos, reflexões, publicações oficializadas, políticas, o que estava vigente para ser escrito e carimbado para a História. No importante papel de tradutor de épocas para conhecimentos futuros. Uma oficialização a mais em relação aos causos repassados de boca em boca, dos contadores orais, dos velhos sábios para seus novos aprendizes, através das gerações. Ali coube ao escritor deixar registradas versões oficiais, fontes, se não inesgotáveis, mais próximas disso. Trabalhava o escritor para reduzir o pesado consumo da efemeridade, que torna nossos pensamentos, os acontecimentos, os atrevimentos, as coragens, os sonhos, as filosofias tão breves. Contra a brevidade de ausente piedade atuava e atua o escritor.
O escritor traduz desde as versões oficiais para a História, em encadernações cada vez mais vastas e acessadas, até suas subjetividades mais íntimas. Vangloria sonhos, ideias, filosofias vãs ou mais disseminadas e relevantes. Transpõe ao papel de hoje suas glórias e fracassos, histórias suas ou de outrem. Valoriza seu bairro, sua cidade, seu país, ou se arrisca sobre culturas diversas por onde obtém contatos. Se inspira no que vem de fora, em fontes que percebem suas determinantes participações ou mesmo são usadas sem se darem por conta.
O escritor, me peguei a pensar anteriormente, vencia muitos obstáculos nas remotas épocas. Era necessário ter a criação com o aprendizado da língua, depois da escrita e depois ter fontes e métodos para transpor suas escritas. Nem todos tinham papel. Nem todos tinham penas, nem todos tinham tintas. Seu povo era em sumo analfabeto, então era muito reduzido o alcance de suas escrituras. O trabalho era árduo em molhar a pena, passar ao papel, desenhar as letras, esperar secar, molhar a pena, passar ao papel na gravura das letras e esperando secar, acabava o papel, acabava a tinta, não acabavam as letras, passava-se o tempo. Duro o trabalho do antigo herói escriba.
Antes das grandes enciclopédias e dos acessos mais universalizados, como era limitado o alcance cognitivo para o desejoso escritor. Talvez, exatamente pela ausência das referidas ferramentas, ele nem soubesse o alcance que poderia sobrepor suas obras. Não saberia onde pode chegar. Hoje temos acessos seculares, História, Física, Astronomia, Astrologia, Química, Matemáticas, Geografia, Geologia, Linguagens, os mais diversos idiomas catalogados, Esporte, Política, os variados assuntos. Alguns trabalhos dessas épocas praticamente esquecidas são recuperados e atualizados e alavancam prestígios não antes almejados. Outros infelizmente perdem-se pelos distintos e incertos caminhos.
Os escritores tinham maior dificuldade de dominarem mais idiomas pela globalização ainda distante, pelo ensino não universalizado, mas é também de se lembrar e repensar quem tem acesso a essas chamadas globalizações e universalizações. Lados que incluem e lados que excluem. Colchas puxadas para tapar a cabeça e destapar os pés. É de se refletir. Mas, enfim, avançam os cargos poliglotas, os viajantes incessantes, os ensaciados em dividir experiências elevadas ou das mais mundanas.
A leitura também está presente na maioria das pessoas pelos países, a taxa de alfabetização se eleva, os conhecimentos estão mais prontos, embalados, postulados a serem disseminados. Há estantes com livros rotos e totalmente paralisados a acumularem pó, bibliotecas pouco acessadas e outros sedentos em beber cálices de leitura com seus pratos vazios para esta ceia. A circulação do conhecimento encontra várias barreiras, algumas propositais, outras não, não pensadas. Estradas ainda não pavimentadas ou fornecedores que não escoam suas mercadorias.
Aumenta o número de escritores, de jornalistas, de blogueiros, de fazedores de vídeos para passar conteúdo. Aumentam os leitores e sobretudo os visualizadores com seus cansados olhos e cérebros, que dispensam a leitura textual escrita. A democratização, o controle, a orientação pessoal, a orientação política, a vontade ou a inação, o incentivo ou o empate dos governos e desgovernos. Tudo isso pondo a prova o que vai ou não vai ser lido. Ou o quanto vai ser lido. Ou quem vai ser lido.
Os barrados, os censurados, os carimbados de loucos, os financiados, os financiadores, as editoras, os mecenas, os "o que eu ganho com isso??", todos envolvidos nesse complexo processo atual. Aumenta a gama de leitores pelo mundo, mas como está a divisão de conteúdos, a variedade, a pluralidade do que podem ou não acessar? Quantos escritores conhecemos da África, esta já produtora em idiomas que teríamos maior acesso, do português angolano ou moçambicano, aos ingleses e franceses, quantos escritores e escritoras latino-americanos? Quantos de nossa cidade? Quantos produtores, do cordel, do rap, dos repentistas? Poetas, bloggers, usuários de medium? Quanto valem seus trabalhos? Informativos, subjetivos, sufocantes, inebriantes, desconcertantes, verdadeiros, ilusórios?
E pensar que tudo isso que aqui agora escrevo foi por pensar que os escritores de antigamente escreviam sobre outros lugares porque por lá passavam e conheciam de fato, in loco, como se diz. E pensei quem tenha acesso a viajar, quem tenha acesso à escolaridade, quem tenha incentivo a escrever, quem tenha leitores para começar, 5, 10, 20, 50, 100, daqui a pouco lançar algo e 500 cópias e quem vai comprar, e quem vai revender, e quem vai nos ajudar? E quem vai nos salvar de estarmos provando sempre a mesma água salgada neste mar que nunca nos mata a sede? É isto.
18/02/2020
ondas e marés
Faz todo o sentido na vida tumultuada do rapper Black Alien, o Gustavo de Almeida Ribeiro, na época da gravação e lançamento do último disco com 46 anos. Outros temas abordados em Abaixo de Zero: Hello Hell são as experiências e problemas com drogas e como quer distância disso para se manter sóbrio daqui para frente. Com filhos pequenos para criar, aumenta até a necessidade de ficar inteiro para essa importante etapa de sua passagem.
Toda essa introdução para colocar o ponto de que nem sempre e muitas vezes a vida do fã não estará em sintonia com a etapa vivenciada pelo ídolo. A diferença de idade acaba sendo decisiva nesse ponto. Embora algumas características entrem em convergência, o que traz a própria aproximação entre fã e ídolo, outros aspectos os afastam e é interessante que se atente para isso. Apesar dos diferentes pontos nesse tabuleiro em jogo de dados da vida, muitos ensinamentos são aproveitados, ou para a hora, de imediato, ou armazenados no freezer das experiências para quando chegar o momento de utilizá-los.
É uma diferença crucial dos fãs para os ídolos, estes que estão em um aspecto de transição dos 40 para os 50, dos 50 para os 60, dos 60 para os 70 ou até onde forem. Vivenciaram muito mais coisas, colocaram em suas letras, poemas, prosas, textos, blogs, livros, reportagens. Associaram suas vivências e observações com outras vivências e observações. Eles sabem como fazer isso, sabem como conduzir, sabem como infiltrarem-se nesses campos, onde pisar, receitas para o que dá ou não dá certo. E muitas vezes quando erraram, se posicionaram para admitir e para que os mais jovens, ou mesmo de suas gerações ou até mais velhos, não façam isso. São histórias contadas, ensinamentos e alertas.
Outros dois músicos cabem em minhas observações sobre as diferentes etapas em que se encontram, enquanto estou aqui adentrado nos 20 e poucos anos, já em crises dignas de meia idade. O primeiro que lembrei é Humberto Gessinger. Após o encerramento das atividades com os Engenheiros do Hawaii, e a prorrogação do nome Engenheiros do Hawaii com outros músicos, subiu no tapete voador da carreira solo, mas parece que não decolou muito. Lança discos, mas as canções já não emplacam da mesma forma frente a um público que está menos vigoroso com suas empreitadas. Os De Fé que antes tomavam conta da internet estão mais sossegados, em outros passatempos, descobrindo novas músicas ou mesmo acariciando a nostalgia das antigas melodias. Os mais novos vão descobrindo e curtem Engenheiros através de ensinamentos dos mais velhos ou mesmo fuçando pelos amplos arquivos da internet. São letras históricas e que nos acompanham em vários momentos da vida, o que faz todo o sentido que sobrevivam a essas épocas. É como Titãs ou Legião Urbana incessantemente pelos bares em que frequentas, o gerador de memes das noites brasileiras.
Toda essa observação para a carreira solo de Humberto Gessinger, de excursões cada vez mais esvaziadas na web mas de shows ainda lotados para seu sucesso, mesclado às canções antigas, para observar como essa fase entre fã e ídolo pode estar separada em uma ponte difícil demais de obter ligação. É como o trecho de música dele em que nem caiu a ficha e caiu a ligação. Perde-se essa completa identidade que te acompanhava nas primeiras músicas. Ainda há muita highway para quem sabe encontrar seus ensinamentos novamente. Também admiti-se aqui que o referencial nem sempre tem aquilo tudo para se passar. Nem sempre que se pega uma caneta ou um violão muda-se por completo a vida do ouvinte ou leitor. A inspiração tem de estar do lado de lá também. A vontade de se inspirar com a inspiração tem de estar do lado de cá também.
Toda essa observação para afirmar que não tenho me identificado como me identificava e mesmo as canções antigas estão guardadas em recantos emocionais de meu coração; nem sempre mexo neles. De vez em quando é bom ouvir, lembrar disso ou daquilo, relembrar uma lição ou outra, mas "agora é bola pra frente, agora é bola no chão". Tem outros grenais.
Outro gremista nessa viagem toda é o músico de Venâncio Aires, o Wander Wildner. Em alguns pontos em comum com Gessinger, o fim da banda Replicantes como conhecíamos e a partida para uma carreira solo, que já dura bem mais tempo. Muitos e muitos discos, passando dos 13 para 14 volumes. Com ele vivo outra identificação, a carreira solo me diz muito mais do que Humberto tem me dito. Mesmo assim, a noção de que Wanderley Luis Wildner é agora e sexagenário, nem sempre vai abordar sexo e drogas e desejos obscuros em suas canções.
É bem provável inclusive que não faça mais isso. Não muito. Está em uma fase mais calma, em um autodescobrimento, vivendo entre os shows no extremo Sul brasileiro e as voltas para Santa Catarina, para relaxar entre o Campeche e o Balneário das Gaivotas. Comenta em entrevistas que está aprendendo com a física quântica, que pensa em matéria e energia, que a energia e as vibrações ditam muito do que ocorre e nos cerca. E quem ousa dizer que não? A biologia, a química e a física estão por toda parte. E nós poquitos aqui tentando surfar melhor nesse mar e moto. Com essas explicações, reflito e refriso que tenho me identificado mais com as paradas de Wander, que está lançando álbuns quase anualmente em músicas inéditas e regravações. Inédito pelo que está acontecendo em sua vida, se descobrindo e passando mensagens adiante; regravações do que para ele continua importando e fazendo sentido subir em um palco e mandar ver para os novos fãs que o descobrem e para os antigos, com o tamanho respeito ao carinho nostálgico de cada um.
Ser músico é um pouco dessa transição. Continuar surfando nessas águas, com novas manobras, novos alcances, novas praias, mas entender que não se pode desancorar por completo dos passos que feitos. As pessoas consomem suas músicas, seus discos, suas ideias por um acúmulo. Algumas serão eternamente gratas pelo primeiro disco, pelas primeiras canções e outras vão seguir acompanhando a carreira porque ainda se identificam, apesar da diferença de idade.
Um escritor também passa por isso, como o próprio uruguaio Eduardo Galeano, de maior fama pelo livro de brilhante título também, as Veias Abertas da América Latina (que Black Alien parece ter adaptado daí, ou não, para renomear nossas Américas como Latrinas de outros). Galeano muito comentava sobre adaptações, mudanças que faria nas Veias Abertas (da América Latina), mas o que estava feito, estava feito e as pessoas compravam e liam e assim estava um dos maiores feitos do escritor uruguaio, de tantos outros títulos importantes em latinidades.
Wander Wildner comenta bem essa ideia de assimilar por seus antigos fãs e por seus fãs que seguem o acompanhando, em um grupo que parece melhor acolher os que chegaram por último. Tem espaço na janela do bonde ainda, ao que me consta opinar. O músico das pequenas multidões, como é chamado.
Muitos desses escritores, músicos, artistas em geral, passaram por períodos de baixa, perrengues grandes, o que também é combustível para contarem suas experiências. Transformarem os maus bocados em canções, poemas e prosas da melhor qualidade. É o dito aquele do mar calmo não formar os melhores marinheiros. Entretanto, é o fã procurar entender essas diferentes etapas da vida de cada um. A hora de acelerar e a hora de puxar o freio. A hora de aproximar e a hora de distanciar. A hora de colher e do que já não nos identificamos tanto.
Humberto Gessinger dizia que produzia a sua arte, conforme sua introdução em rede social de que "faz música" e faz música com o que ele sente, com o que ele vive, com o que acredita. Conta que não liga muito para o que vão pensar e fazer a partir do que ouvem de seus trabalhos, mas que segue fazendo. É um ponto confiante de quem sabe que essa receita já deu muito certo. Escritor voraz desde a juventude, produzia muitas letras de músicas e boa parte de seu material nunca foi utilizado. Acreditou, apostou onde estava confiante e colheu safras cheias. Segue embalando melodias com suas crenças e ideais e encontrando quem escute, dos mais velhos aos mais novos. Bom para quem está em sintonia.
A relação entre quem busca um referencial e quem é o referencial é assim. Os navios precisam dos faróis, mas não vão estar sempre próximos aos faróis. Às vezes nos arriscamos a outras águas e navegações mais distantes. Suas luzes ainda estarão lá, para outras embarcações que necessitem na hora certa em um certo lugar. O próprio Humberto me auxilia a encerrar, onde é preciso deixar a onda te levar.
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Há dias em que naturalmente estou abatido. E há dias que naturalmente me abatem.
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Eu tentei ficar impassível, mas não consegui. Não consegui ficar impassível às fotos das crianças desaparecidas que voltam a estampar caixas...
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A linha tênue entre enjoar e esquecer.
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Já não me cobro mais velocidade ou desempenho, mas os demais e a sociedade me cobram. Posso mandá-los às favas? Posso?
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A máquina se torna humano Humano se torna máquina A máquina é programada O ser humano é descartado
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Não se apaixonou mais, nem precisou conviver mais com desequilíbrios emocionais descabidos. Sorriu a isso. Mas meio amarelo. Meio, pela meta...
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Consigo sentir Quintana Que não me engana Me aconselha Ou ao menos ergue a sobrancelha Consigo sentir Quintana em cada passo Que eu galgo ...
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Cansei. E deixarei de legado muito menos do que se não tivessem me cansado.
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Onde joga meu time estarão eu e meu futuro.
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Por vezes não sinto saudade de como era o mundo, mas de como eu era inocente ao contemplá-lo.
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